sábado, 11 de julho de 2009

Descontração, um dos segredos da longevidade

Descontração, um dos segredos da longevidade
Há 14 anos, Thomas Perls, professor e pesquisador da Universidade de Boston (EUA), estuda pessoas longevas, um dos segmentos da população que mais cresce no mundo - especialmente em nações desenvolvidas. O estudo mais recente do geriatra, que comanda o New England Centenarian Study, identificou características comuns aos filhos de centenários: eles são mais extrovertidos e menos neuróticos do que a média da população, sabem lidar melhor com o stress e são menos solitários e deprimidos. O objetivo era entender o efeito que a personalidade de uma pessoa exerce sobre a duração de sua vida. Perls falou a VEJA.com sobre suas descobertas.


Por que analisar as características dos filhos das pessoas que ultrapassaram a barreira dos cem anos, e não os centenários em si?
Apenas 20% dos centenários são inteiramente lúcidos. Os demais apresentam deficiências, principalmente de memória, de intensidades variadas. Isso não significa que não seja maravilhoso ser um centenário, já que é comprovado que a maioria deles só sofre de males ligados ao envelhecimento, como as doenças cardiovasculares, os acidentes vasculares cerebrais e a diabetes, depois dos 95 anos. Mas, em relação às faculdades mentais, seus filhos, que têm entre setenta e oitenta e poucos anos, são mais plenos. Além disso, sabemos que os descendentes de centenários seguem os passos de seus pais no que diz respeito a envelhecer lentamente - as chances de eles sofrerem de doenças relacionadas à idade são até 60% menores, se comparadas às de pessoas nascidas na mesma época.

Quais foram os resultados do estudo?
A principal constatação, que nos deixou surpresos, é o quanto os filhos de centenários são diferentes da população em geral. Com base na análise da personalidade de 250 deles, de diferentes famílias, descobrimos que eles são muito mais extrovertidos e apresentam comportamentos muito menos neuróticos do que os indivíduos em geral.

Na prática, o que isso significa?
Em relação à extroversão, significa que eles têm mais facilidade para estabelecer relacionamentos importantes e saudáveis, que os estimulam intelectualmente e os tornam menos sozinhos e deprimidos - os centenários e seus filhos tendem a ser muito sociáveis e divertidos e costumam ter muitas pessoas ao redor. No que diz respeito ao comportamento neurótico, significa que eles lidam bem com situações de stress, que são capazes de superá-las com facilidade. E o stress é tido como um dos importantes fatores de aceleração do envelhecimento, sendo associado a doenças do coração, à pressão alta e aos derrames.

Há diferença entre homens e mulheres?
Normalmente, os homens e as mulheres têm personalidades bem diferentes. Mas, no caso estudado, eles se mostraram surpreendentemente semelhantes. Exceto para amabilidade, quesito no qual as mulheres obtiveram uma pontuação um pouco mais alta, os resultados para os dois gêneros foram bem parecidos. Isso pode sugerir que os homens que vivem mais tendem a ser mais parecidos com as mulheres, em termos de personalidade.

Além da personalidade, que outros fatores são determinantes para uma pessoa viver até os cem anos?
Cerca de 80% da nossa capacidade de viver até perto dos 90 anos - dez anos a mais do que a expectativa média de vida nos EUA e no Canadá - está relacionada a hábitos saudáveis. Pessoas que fumam, comem muita carne vermelha, são obesas, sedentárias ou não administram bem situações de stress morrem aproximadamente dez anos mais jovens do que aquelas que levam uma vida saudável. Mas aquelas que vivem mais do que 90 anos, além de manter hábitos saudáveis, têm, na maioria das vezes, um retrospecto de longevidade excepcional na família.

Uma pessoa é capaz de ajustar sua personalidade para viver mais?
Eu não saberia dizer. Mas acho que se pode aprender muito a partir das características dos filhos de pessoas longevas, de forma a compensarmos predisposições negativas. É o caso de aprender a lidar melhor com situações de stress. O importante não é exatamente a quantidade de stress que você tem na sua vida, mas, sim, como você o administra. Praticar exercícios físicos, meditar, fazer ioga, rezar, estar com a família e até mesmo saber quando parar e respirar fundo podem ajudar muito a minimizar o impacto do stress para a saúde.

Como surgiu a ideia para o estudo?
Assim que começamos a estudar os centenários, em 1994, notamos que eles eram pessoas com uma extraordinária habilidade de lidar com situações estressantes. Desde então, tentamos entender o porquê disso. Os testes de personalidade que aplicamos nos filhos dos centenários, cujos resultados publicamos na revista da Sociedade Americana de Geriatria, são parte desse esforço.
Reportagem de Giovana Pastores - VEJA 24/06/2009

"O mundo é mais complexo"

O que é preciso fazer para despertar no adolescente o
entusiasmo por uma ideia a ponto de transformar isso em
um projeto de vida?
William Damon, psicólogo especialista
em desenvolvimento humano,
aponta em seu livro caminhos
para desenvolver essa motivação.
O professor falou a Zero Hora
por telefone, desde
a Califórnia.


Zero Hora – Por que um projeto de vida é fundamental para a vida de um jovem?
William Damon – É algo a ser pensado a longo prazo. Ele dá energia, você vai saber que tipo de pessoa quer ser, o que quer da vida. Se você for realmente dedicado, perseverar, vai superar as dificuldades.


ZH – O que um jovem deve fazer para desenvolver um projeto?
Damon – Uma criança ou adolescente precisa da ajuda dos pais, dos professores, do primeiro empregador, de um mentor no esporte. Um adulto pode dar um bom exemplo com a sua própria vida e seus projetos e ajudando o jovem a identificar seus primeiros interesses.


ZH – Qual é a diferença do jovem de hoje para os de gerações anteriores?
Damon – Imagine que você nasceu há 50 anos, numa cidade pequena. Seu pai era pescador e tinha um barco. Você o ajudava e pensava em se tornar pescador. Herdaria o barco, casaria com uma garota da cidade, constituiria sua família e continuaria pescador. Havia menos opções, e os exemplos a serem seguidos estavam ali. Hoje, um jovem leva muito mais tempo para encontrar uma direção. O mundo está mais complexo.

Reportagem Zero Hora, 12/07/2009

A outra epidemia

Lya Luft*
"Como de um lado
nos tornamos mais abertamente corruptos
e de outro
estamos mais condescendentes,
instalou-se entre nós uma
epidemia moral"

Para mim, escrever é sempre questionar, não importa se estou escrevendo um romance, um poema, um artigo. Como ficcionista, meu espaço de trabalho é o drama humano: palco, cenário, bastidores e os mais variados personagens com os quais invento histórias de magia ou desespero. Como colunista, observo e comento a realidade. O quadro não anda muito animador, embora na crise mundial o Brasil pareça estar se saindo melhor que a maioria dos países. De tirar o chapéu, se isso se concretizar e perdurar. Do ponto de vista da moralidade, por outro lado, até em instituições públicas que julgávamos venerandas, a cada dia há um novo espanto. Não por obra de todos os que lá foram colocados (por nós), mas o que ficamos sabendo é difícil de acreditar. Teríamos de andar feito o velho filósofo grego Diógenes, que percorria as ruas em dia claro com uma lanterna na mão. Questionado, respondia procurar um homem honrado.

Vamos ter de sair aos bandos, aos magotes, catando essa figura, não uma, mas multidões delas, para consertar isso, que parece não ter arrumação? Se os homens nos quais confiamos, em seus cargos importantes, já não servem de modelo, devemos dizer aos nossos filhos e netos que não olhem para aquele lado nem os imitem? O Senado da República, só para citar um caso atual, teve sua maior importância em Roma, a antiga, e se originou nos milenares conselhos de anciãos, ou homens sábios e meritórios de tempos remotos. O Senado Romano também não era um congresso de santos: até Brutus ali tramava, ocultando nas vestes o punhal com que mataria Júlio Cesar, seu protetor. Afinal eram – e são – todos apenas humanos, e o problema sempre começa aí. A noção idealizada de um grupo de homens virtuosos liderando tornou-se mais realista, levando em conta as nossas mazelas. E daí? – dirão os mais céticos. Toda família tem seu esqueleto no armário, todo povo também: houve papas assassinos e mulherengos, reis dementes, rainhas devassas, e alguns normaizinhos, que só buscavam cumprir seus deveres e cuidar da sua gente sem prejudicar ninguém.

Eu queria preservar a imagem dos homens públicos como uma estirpe vagamente nobre, em cargos solenes, que lutariam pelo país ou por sua comunidade, por nós todos, buscando antes de tudo o bem dos que neles confiaram. Em caso de dúvida ou perplexidade, a gente olharia para eles e saberia como agir. Mas, como de um lado nos tornamos mais abertamente corruptos e de outro estamos mais condescendentes, instalou-se entre nós uma epidemia moral. Se fomos criados acreditando que o importante não é ter poder, mas ser uma pessoa honrada, estamos mal-arranjados. Pois, na vida pública, não malbaratar o dinheiro, não fazer jogos de poder ilícitos, não participar das tramas, ficar fora da dança dos rabos presos em que todos se protegem, virou quase uma excentricidade. Quem sabe o jeito é engolir sapos inaceitáveis: fim para o idealismo, treinem-se um olho clínico e cínico, enchendo bolsos e esvaziando pudores na permissividade geral que questiona o velho conceito de certo-errado. Talvez ele não passe de uma ilusão envelhecida, para sobreviver em vez de afundar. Não sei. A cada dia sei menos coisas. Antigas certezas se diluem: calejados pelas decepções, vacinados contra a indignação, não sabemos direito o que pensar. Então não pensamos.

A sorte é que apesar de tudo o país anda, a grande maioria de nós labuta na sua vidinha, trabalhando, pagando contas, construindo casas e ruas e pontes e amores e famílias legais. Lutando para ser pessoas decentes, as que carregam nas costas o mundo de verdade. É a nós – o povo, independentemente da cor, da chamada classe, da conta bancária ou do lugar onde mora – que os ocupantes de cargos públicos devem servir. Nós os elegemos e pagamos (coisa que nosso lado servil costuma esquecer), e não podemos ser contaminados por essa epidemia contra a qual não há vacina, mas para a qual é preciso urgentemente encontrar alguma cura. Enquanto ela não chega, mais uma vez eu digo: meus pêsames, senhores.

*Lya Luft é escritora

http://veja.abril.com.br/150709/outra-epidemia-p-022.shtml Revistas » Edição 2121 / 15 de julho de 2009

sexta-feira, 10 de julho de 2009

YouTube - Fish / o peixe [curta] [fesival de Berlin] [sensacional]

YouTube - Fish / o peixe [curta] [fesival de Berlin] [sensacional]

O caso Boff na visão de dom Ivo (1)

"O caso Leonardo Boff fez sofrer muito ao Papa João Paulo II e também a nós aqui no Brasil. Boff, um Frade Franciscano jovem, inteligente, trabalhador, escritor, conferencista, professor, assim como os Cardeias Arns e Lorscheider, os quais, em meio às suas crises foram falar com ele e disseram-lhe que queriam lhe ajudar. Pediram a ele que se retirasse daquele barulho todo em torno à sua pessoa e fosse viver com um dos dois que ele escolhesse. Mas Boff não aceitou nenhuma sugestão ou convite.
Alguém um dia me disse que Boff não tinha, na verdade, amizades profundas com seus colegas franciscanos nem lá no teologado de Petrópolis. Isso foi pena, chato. E aí deu no que deu. No fim se amargurou tanto... deixou a ordem e o sacerdócio".
(Do livro: Dom José Ivo Lorscheiter - O Bispo da Esperança. Sergio A Belmonte e Eugênia Mariano da Rocha Barichello, ed. Pallotti, 2204, pg.65-66)

Condecoração não aceita por dom Ivo Lorscheiter

"Depois da transição, quando entrou o Presidente civil José Serney, um dos primeiros atos que quis fazer foi condecorar os Bispos da Igreja e a CNBB. Convidou a mim, dom Luciano e dom Hélder. E eu disse a dom Luciano:
eu não vou receber essa medalha. Se você quiser ir vá mas eu não me presto para isso.
De fato não fui. Eles não me mandaram a medalha.
Mas um tempo depois o Sarney me encontrou em uma cerimônia e disse-me:
Será que já acabou nossa mútua raiva?
E eu disse-lhe:
Bem, Sr. Presidente, eu não tenho raiva do senhor. Eu só não queria aceitar aquele gesto naquela hora.
E ficou nisso.
Eram esses os poucos episódios mais textualizados que eu me lembro".
*O Título do texto é meu.
(Fato contado por Dom Ivo Lorscheiter, no livro: Dom José Ivo Lorscheiter - O Bispo da Esperança, escrito por Sergio Augusto Belmonte e Eugência Mariano da Rocha Barichello. Ed. Pallotti, RS, 2004, pg. 47-48)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Papa propõe o "humanismo cristão" para a economia global

"A publicação das 30 mil palavras da "Caritas in Veritate" foi postergada para dar tempo para que o Papa refletisse sobre a crise econômica que explodiu na metade de 2007. Às vésperas de uma cúpula do G8 na Itália, nesta semana, dedicada a ponderar sobre uma nova arquitetura para a economia global, Bento afirma que a Igreja não tem "soluções técnicas para oferecer", mas, apesar disso, apresenta algumas recomendações específicas:

-Resistir a uma "redução" dos sistemas de segurança social;
-Apoiar os sindicatos e os direitos dos trabalhadores em uma economia global marcada pela mobilidade do trabalhador;
-Combater a fome por meio de "investimentos em infra-estruturas rurais, sistemas de irrigação, transportes, organização dos mercados, formação e difusão de técnicas agrícolas apropriadas";
-Consagrar o acesso ao emprego fixo para todos como o objetivo econômico central;
-Proteger o "estado de saúde ecológico" da terra;
-Ver a "abertura à vida", no sentido de uma resistência a medidas como o aborto e o controle de natalidade, não apenas como moralmente obrigatória, mas como uma chave para o desenvolvimento econômico duradouro;
-Assegurar que os objetivos dos programas internacionais de ajuda estejam envolvidos em seu projeto e implementação e acabar com a burocracia associada às vezes a esses programas;
-Reduzir o consumo de energia doméstico em nações desenvolvidas, investindo em formas de energia renováveis e adotando novos estilos de vida mais sustentáveis;
-Frear as "formas excessivas de proteção do conhecimento" nas nações ricas, "através de uma utilização demasiado rígida do direito de propriedade intelectual, especialmente no campo sanitário";
-Abrir os mercados globais aos produtos das nações em desenvolvimento, especialmente na agricultura;
-Compromisso entre as nações desenvolvidas para dedicar uma maior parte de seus PIBs para a ajuda de desenvolvimento;
-Maior investimento em educação;
-Políticas de imigração mais generosas, reconhecendo as contribuições econômicas dos migrantes, tanto para os seus países de destino como para os seus países de origem ao enviar dinheiro para casa;
-Apoio aos micronegócios, cooperativas de consumidores e formas empresariais socialmente responsáveis;
-Reforma das Nações Unidas e das instituições internacionais de economia e finanças, para promover "uma verdadeira Autoridade política mundial (...) com uma real concretização", mesmo que formada pelo princípio de subsidiariedade – no sentido de respeito pela liberdade dos indivíduos, famílias e sociedade civil;
-Oposição aos abusos da biotecnologia como uma nova eugenia.
"A análise é de JOHN L ALLEN JR, publicada no sitio National Catholic Reporter, 07-07-2009. A tradução é de MOISÉS SBARDELOTTO. Republicado no IHU/Unisinos, 09-07-2009.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Prefiro os sonhos do futuro à história do passado

Isaac Roitman*

Os sonhos se dissipam rapidamente nos momentos de vigília. Ficam os fatos essenciais e perdem-se os detalhes. No entanto, vou ousar relatar um sonho, embora sabendo que omitirei pontos importantes. Sonhei ter lido jornal datado na segunda ou terceira década do século 21 que dizia mais ou menos isto:
“Ao contrário do que acontecia no Brasil no início do século 21, onde as desigualdades profundamente enraizadas persistiam na educação, condenando milhões de crianças a ter suas oportunidades diminuídas e condenando a maioria delas à pobreza, tudo mudou. Esse foi o destaque do relatório recente da Unesco, revelando uma transformação radical na educação brasileira.
Todas as crianças brasileiras têm atualmente a oportunidade de cursar um ensino básico público de qualidade, reconhecido entre os melhores do mundo, segundo avaliações internacionais. O ensino profissional e superior, devido às reformas feitas em torno do ano de 2010, mudaram completamente as perspectivas sociais e econômicas do país. A formação de doutores garantiu um salto no desenvolvimento científico e tecnológico.
Além da contribuição ao saber, nossos cientistas transformaram o país em líder na inovação, o que é revelado pelo alto número de patentes originadas do país. Os nossos doutores atualmente tem uma formação técnica de alta qualidade e uma consciência profunda de responsabilidade social. O ideário de que a ciência poderia ser agente de transformação social tornou-se uma realidade. A sociedade brasileira compreendeu que o conhecimento científico é o capital mais importante do mundo civilizado. A expectativa é que em 30 anos não haverá mais desigualdade social no Brasil.
Especialistas atribuem essa verdadeira revolução na educação a uma série de ações implementadas. A primeira, com o apoio da maior parte da sociedade, foi a transformação da política de educação em política de Estado, o que garantiu a continuidade de projetos de longo prazo. Após a universalização e obrigatoriedade do ensino básico, fundamental e médio de qualidade, para toda a população, medidas introduzidas na primeira década do século 21 provocaram um salto na qualidade da educação.
Nesse novo contexto, a educação procura preparar o estudante para atender as necessidades e oportunidades que ocorrem a cada momento. A educação científica, em conjunto com a educação social e ambiental, permite que o estudante explore e entenda o que existe ao seu redor nas diferentes dimensões: humana, social e cultural. A educação básica se tornou em um cenário para a definição de conceitos e conhecimentos.
O estímulo à curiosidade, o prazer pela leitura, o ambiente lúdico e o exercício de atividades que estimulam a concentração e o raciocínio, feitas a partir dos primeiros anos de vida, mostraram serem fundamentais para uma postura dos estudantes aberta a novos conhecimentos e ao prazer no aprender. A formação de grande número de professores para o ensino básico foi importante momento nessa transformação. As instituições de ensino superior públicas tiveram papel fundamental na formação do novo professor, que abandonou a postura do antigo professor, de simples agente depositário de conhecimento por meio de suas exposições em sala de aula.
Esse novo professor é um parceiro do estudante, estimulando em todos os momentos a sua formação intelectual e modulando um comportamento civilizado, baseado em princípios morais e éticos. Gradativamente, o professor foi cada vez mais reconhecido pela sociedade. Esse reconhecimento foi manifestado por uma melhoria gradativa em seu salário, hoje um dos melhores do serviço público. O conteúdo nos diferentes segmentos da educação passou a ser redefinido de forma continuada, acompanhando as novas oportunidades e a rápida expansão dos conhecimentos científicos.
O giz e o quadro negro amplamente utilizados no século 20 foram substituídos por instrumentos e metodologias educativas contemporâneas. A educação a distância incorporou-se definitivamente ao conjunto de instrumentos pedagógicos, facilitando o processo de democratização da educação. Ao contrário do que ocorria no passado, agora o estudante acorda cedo e vai acordar o pai ou a mãe dizendo: ‘Vamos acordar, que eu quero chegar logo na escola’”.
Esse foi o sonho. Só me resta repetir as palavras de Thomas Jefferson: “Eu prefiro os sonhos do futuro à história do passado”.
*Membro Titular da Academia Brasileira de Letras

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O lado escuro da Terra

MURILLO DE ARAGÃO*

O Hemisfério Sul do mundo ainda joga na terceira divisão. Nada, em termos políticos ou econômicos, que ocorre nestas bandas tem real valor no Primeiro Mundo. Parece que temos um déficit de credibilidade. Não no sentido da falta de confiança, mas no cansaço da espera de que as potencialidades da região enfim se realizem. No futebol, esperam que o Brasil ganhe e acaba acontecendo. Como economia, sempre estivemos abaixo de nosso potencial. Parece que o Norte leva o Sul nas costas. Não é bem assim, mas é o que parece.
No Brasil, depois das eras FHC e Lula, as coisas começam a mudar. Lentamente. O Brasil integra o grupo de nações emergentes mais promissor. É, de longe, a maior e melhor economia do Hemisfério Sul do mundo. Por nossas características, temos evidentes vantagens frente a russos, chineses e indianos. Somos uma das 10 maiores economias do planeta. O presidente Lula exerce incontestável liderança regional. Brasília, como posto diplomático, ganha relevância dia a dia.
Apesar dos avanços, ainda estamos muito atrás do reconhecimento que deveríamos ter. Tal aspecto é apontado por Moisés Naim, editor-chefe da revista Foreign Policy, em um excelente artigo publicado na revista Newsweek de 22 de junho. Nele, Naim aponta que o Brasil não é avaliado como deveria por políticos, jornalistas e formadores de opinião.
Naim nota que existe uma obsessão americana com relação a Cuba, ao passo que o Brasil, que é muito maior e muito mais importante, não tem a mesma atenção. É verdade. Os Estados Unidos gastam muito mais tempo e dinheiro com Cuba do que com o Brasil. É até compreensível. Como diz Naim, Cuba foi o único país vizinho que adotou o comunismo e enfrentou os Estados Unidos. No entanto, o modesto significado que temos para os americanos não é adequado nem para o Brasil nem para os Estados Unidos, dado o imenso potencial de nossa relação.
Porém, existe um problema que não é apenas do Brasil nem apenas dos Estados Unidos. O Hemisfério Sul é visto com desdém pelo pelos principais atores do diálogo norte-sul. No caso norte-americano, a ausência de um estratégia positiva para a região causou o débâcle comunista em Cuba, a revolução sandinista na Nicarágua, além de episódios com outros países.
De longe, o fato mais importante, foi a ascensão de Hugo Chávez na Venezuela. Parece incrível que os Estados Unidos, cuja relação com a Venezuela era economicamente intensa, não tenha construído uma relação política e militar sólida com aquele país.
Os Estados Unidos, bem com os demais países do Primeiro Mundo, sempre olharam para o Brasil e seus vizinhos como algo de menor importância. Ou de interesse meramente comercial. Por exemplo, a França vê no Brasil um cliente rico para seus produtos bélicos. Alguns deles não conseguem ser colocados em outros mercados. Mesmo assim, demora a construir a ponte que ligaria a Guiana ao Brasil. Afinal, Brasil e França têm uma fronteira extensa e importante na Guiana. Salvo o lado militar e cultural, a relação do Brasil com a França é mais alegórica do que estratégica.
A dinâmica política no Reino Unido — bipolar entre a relação com os Estados Unidos e a Comunidade Europeia — não dá espaço mental para que os políticos ingleses se preocupem com o nosso continente. Continuamos a ser algo distante e calorento. A China nos vê como fornecedores, mercado e competidores em algumas áreas. Mesmo assim, o Brasil não merece grande atenção por parte dos chineses. Tanto que a visita de Lula ao país decepcionou.
Hoje, o sucesso do Brasil é uma novidade e, como tal, tratada de forma episódica e pouco consistente. Alavancada pela popularidade e carisma de Lula. Em 2011, nem Dilma nem Serra parecem voltados para uma agenda externa. No quesito carisma ambos são muito fracos. Para o Brasil manter a sua escalada rumo ao reconhecimento internacional vai ter que dispor de uma estratégia bem executada e coordenada em vários âmbitos. A questão central é saber que papel o Brasil quer ter no cenário mundial e o que fazer para atingir os objetivos estabelecidos.
O fato de Barack Obama ter dito que Lula “era o cara” não é suficiente. Temos que ter uma estratégia de comunicação voltada para ampliar o conhecimento do Brasil no mundo a formadores de opinião. Nesse quesito, o Brasil vai mal. Países como Cuba, Montenegro, Croácia, entre outros, e regiões e províncias do Reino Unido, França, Itália e Estados Unidos, entre outros, se promovem de forma permanente. Apesar da badalação, o Brasil continua sendo um país cujo nível de conhecimento no Primeiro Mundo é precário.
*Mestre em ciência política, doutor em sociologia pela UnB e presidente da Arko Advice - Anális Política
Correio Brazilisente, 06/07/2009

Bifurcação da humanidade

Leonardo Boff*

Nos inícios do ano os vinte paises mais ricos do mundo (G-20) se reuniram em Londres para encontrar saidas à crise econômico-financeira mundial. A decisão de base foi continuar no mesmo caminho anterior à crise mas com controles e regulações a partir de uma presença maior do Estado na economia. Os controles seriam pelo tempo necessário à superação da crise, a fim de evitar o colapso global e as regulações para restaurar o crescimento e a prosperidade com a mesma lógica que vigorou antes.

Esta opção implica continuar com a exploração dos recursos naturais que devastam os ecossistemas e fazem aumentar o aquecimento global e o fosso social entre ricos e pobres. Se isso prosperar dentro de pouco enfrentaremos crise da mesma natureza, pois as causas não foram eliminadas. Acresce ainda o fato de que os restantes 172 paises (ao todo são 192) sequer foram ouvidos e consultados. Pensou-se em ajudá-las mas com migalhas. Efetivamente, toda a Africa, o continente mais vulnerável, seria socorrida com menos fundos que o governo dos EUA aplicou para salvar a General Motor.

O impacto perverso da crise sobre os paises de baixo ingresso apresenta-se aterrador. Estima-se que, enquanto durar a crise, mais de 100 milhões de pessoas caiam cada ano na extrema pobreza e um milhão de postos de trabalho se perderão por mes. Tal fato fez com que o Presidente da ONU, Miguel d’Escoto Brokmann, imbuido de alto sentido humanitário e ético, convocasse uma reunião de alto nivel que reunisse os 192 representantes dos povos para juntos discutirem entre si a crise e buscarem soluções includentes. Isso ocorreu nos dias 24-26 de junho do corrente ano nos espaços da ONU. Todos falaram. Era impactante ouvir o clamor que vinha das entranhas da Humanidade: os ricos lamentando os trilhões em perdas de seus negócios e os pobres denunciando o aumento da miséria de seu povo.

Muitas vozes soaram claras: não bastam controles e regulações que acabam beneficiando os que provocaram a crise. Faz-se urgente um novo paradigma que redefina a relação para com a natureza com seus recursos escassos, o propósito do crescimento e o tipo de civilização planetária que queremos. Importa elaborar uma Declaração do Bem Comum da Humanidade e da Terra que oriente etica e espiritualmente o sentido da vida neste pequeno planeta.

Depois de um intenso trabalho previamente feito por uma comissão da expertos, presidida pelo Nobel de economia Joseph Stiglitz e com as colaborações vindas de quatro mesas redondas e da Assembléia Geral concertou-se um documento detalhado que ganhou o consenso dos 192 represenantes dos povos. O perigo coletivo facilitou uma convergência coletiva, uma raridade na história da ONU.

O documento prevê medidas imeditas especialmente para salvar os mais vulneráveis sob coordenação de várias instituições internacionais, articuladas entre si. Mas o mais importante é a apresentação de um programa de reformas sistêmicas que prevê um sistema mundial de reservas com direitos especiais de giro, reformas de gestão do FMI e do Banco Mundial, regulações internacionais dos mercados financeiros e do comércio de derivados e principalmente a criação de um Conselho de Coordenação Econômica Mundial equivalente ao Conselho de Segurança. Desta forma se presume garantir um desenvolvimento estável e sustentável.

O fato desta cúpula mundial é gerador de esperança, pois a humanidade começa a olhar para si como um todo e com um destino comum. Mas todas as soluções se orientam ainda sob o signdo do desenvolvimento, o fator principal gerador da crise do sistema-Terra. Ele tem que ser trocado por um “modo sustentado geral de viver”, caso contrário assistiremos à bifurcação da humanidade, entre os que desfrutam do desenvolvimento e os que são vítimas dele. Não chegamos ainda ao novo paradigma de convivência Terra-Humanidade, forjador de uma nova esperança.

O próximo futuro, dizia o Presidente da Assembléia, será pela utopia necessária que precisamos constuir para permanecermos juntos na mesma Casa Comum.

* Leonardo Boff é do corpo de assessores do Presidente da Assembléia da ONU e com este título participou dos trabalhos ai realizados.
(Envolverde/O autor)
http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/bifurcacao-da-humanidade/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje -06/07/2009

domingo, 5 de julho de 2009

Consciência cósmica

Marcelo Gleiser*
Será que a vida inteligente não
passa de uma coincidência?

Não há dúvida de que nós, seres humanos, temos a necessidade de encontrar significado em tudo o que fazemos. Tudo tem (ou deveria ter) uma causa por trás, algo que justifica uma ação ou uma reação.
Uma doença é causada por um agente -por exemplo, um vírus. Fazemos ginástica para estar em forma. Procuramos ter amigos, prazer, amor na tentativa de viver nossas vidas da melhor forma possível. Quando nos perguntamos sobre as causas das coisas, do mundano ao mais profundo, nós esperamos uma explicação, algo que faça sentido.
Tradicionalmente, as perguntas ditas mais profundas eram relegadas a explicações religiosas ou míticas, lançando mão de agentes sobrenaturais.
Como o mundo surgiu? E a vida? Existe alguma razão para estarmos aqui?
Ou a existência não passa de acidente?
Hoje a ciência também encara essas questões. Dentre as mais fascinantes, talvez a de maior significado para nós seja a relação (ou não) entre a mente, a vida e o Universo. Será que a vida, em particular a vida inteligente, não passa de uma coincidência, resultado de inúmeros acasos sem nenhuma razão de ser? Ou será que estamos aqui (talvez juntamente com outras inteligências) por algum motivo?
Descontando a versão bíblica de que estamos aqui criados segundo a imagem de um Deus onipotente ou que estamos vivendo o nosso inevitável carma, existem várias respostas de cunho científico. Apesar de não sabermos se alguma delas está certa, a discussão é frutífera, trazendo à tona aspectos importantes do pensamento científico contemporâneo. Sem tentar ser exaustivo, eis algumas delas. Em futuros textos voltarei ao assunto.
1. O cosmo é único, resultado de uma estrutura matemática que a física teórica vislumbra em raros momentos. Por trás da enorme diversidade das coisas, em particular da matéria e das suas propriedades, existem leis bem determinadas e eternas que ditam desde a existência do Universo ao valor da carga e da massa do elétron.
Se algum dia obtivermos essa teoria unificada, a teoria de tudo, teremos chegado ao ápice da racionalidade, decifrando o código secreto da natureza.
(A "mente de Deus" como Hawking e outros afirmam.) Segundo essa visão, a vida e a mente são acidentais, já que a física e a química têm pouco ou nada a dizer sobre a emergência da vida.
2. O cosmo é um dentre possivelmente infinitos outros, todos parte de um multiverso. Em cada um deles, as propriedades físicas são diferentes.
Apenas em alguns poucos a vida é possível. Algumas versões das teorias unificadas preveem a existência, ou são compatíveis, com o multiverso. Os unificadores mais radicais afirmam que, se o Universo é único, o multiverso não pode existir. De qualquer forma, uma das dificuldades dessa visão é encontrar um critério seletivo que justifique de forma natural a nossa existência. Uma teoria na qual tudo é possível explica muito pouco.
3. Existe um princípio vital, alguma lei que ainda desconhecemos, que explica a existência da vida no Universo.
Essa versão apela para a teleologia, afirmando que o cosmo é de alguma forma responsável pela existência da vida e, em particular, da vida inteligente. Mesmo dentro de uma formulação científica, fica difícil separar essa visão da visão religiosa, onde causas são atribuídas a um princípio criativo divino. Por outro lado, como vários exemplos históricos mostram, o que hoje chamamos de mágico ou sobrenatural pode, um dia, vir a ser explicado cientificamente. É prudente manter a cabeça aberta.
O contraste é na postura natural versus sobrenatural, ou seja, na capacidade de a ciência oferecer repostas plausíveis à questões dessa natureza.

*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0507200903.htm 05/07/2009

sábado, 4 de julho de 2009

Se cada dia cai

Se cada dia cai,
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira
do poço
da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Pablo Neruda (Últimos Poemas)

Gabriel, O Pensador

Além de escrever rimas e livros infantis,
Gabriel, O Pensador, agora, mostra a verve
de autor de peças infantis.

- Gosto de contar histórias para crianças em escolas e para meus filhos - comenta.
Ele estreia, neste sábado, Um garoto chamado Rorbeto, no Teatro das Artes, na Gávea, com direção de Sura Berditchevsky, que conta a história de um menino diferente: tem seis dedos em uma das mãos e é analfabeto.

- Me comunico bem com a cabeça mirim. Recebo cartas do tipo: 'meu pai é preconceituoso, mas eu não quero ser. Prefiro ter a cabeça aberta como você' - conta o músico.
Acerca de canções mais pesadas de Gabriel, como Maresia, ele pensa, e dá o conselho:

- Toco em temas espinhosos e alguns pais preferem preservar os filhos. Não deixo os meus (de 7 e 4 anos) assistirem ao noticiário, por exemplo. É violento.
Coluna de Heloisa Tolipan, Jornal do Brasil - 03/07/2009 http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/07/03/e03077127.asp

Fiquei estarrecido quando li!

Corpo de idosa
pode ter ficado em apartamento
por cinco anos
Pilha de correspondência
foi encontrada no apartamento de
Isabella Purves

O corpo de uma aposentada de Edimburgo, Escócia, foi encontrado em um apartamento e, segundo a polícia, pode ter ficado no local durante cinco anos antes de ser descoberto.

Isabella Purves, dona do apartamento, teria completado 90 anos de idade em 2009.

Os policiais descobriram o corpo dela na terça-feira, ao investigarem um vazamento de água. Segundo a polícia, ninguém desconfiou da morte da aposentada devido ao fato de todas as suas contas serem pagas por débito direto em conta.

Os policiais tiveram dificuldade de abrir a porta do apartamento por causa da grande quantidade de correspondência do outro lado da porta.

A morte não está sendo tratada como suspeita e a polícia está tentando encontrar familiares da aposentada.

Purves era vista todos os dias na vizinhança até 2004 quando, de repente, desapareceu. Os vizinhos pensaram que ela tinha se mudado e lamentaram o fato de não ter checado se a aposentada estava bem ou se ainda morava em seu apartamento.

Cleo Gifford, de 34 anos, mora com a família em frente ao apartamento de Purves há 18 anos.
"Ela estava sempre limpando, deixando as escadas limpas e saía para caminhadas. Ela era muito saudável, mas ficou mais frágil nos últimos anos", afirmou.

"Acho trágico que alguém possa ter morrido há tanto tempo e não tenha sido encontrado, é realmente triste", acrescentou.

O carteiro que atendia a área onde morava Purves afirmou que não sentiu nenhum cheiro na porta de seu apartamento.

"Nos encontramos apenas uma vez nos dez anos que entreguei sua correspondência. Ela nunca recebia muita coisa, era apenas ocasional, por isso não desconfiei de nada", informou.

A descoberta foi descrita por organizações britânicas de apoio a idosos como "chocante" e "trágica".

Porta-vozes das organizações Age Concern e Help the Aged da Escócia pediram que os serviços de saúde e sociais implementem um "sistema de checagens automáticas para pessoas que não dão sinal de vida"

O limbo da libido

Joaquim Motta*
Os anos são implacáveis com o físico das pessoas. Há aquelas que ainda podem revolucionar o corpo, outras estão cerceadas a funcionar apenas com metâmeros, as fatias corporais. O lado concreto da vida sobrevive dentro dos limites.
Os espíritos prosseguirão suas viagens metafóricas, idealizarão sonhos e fantasias, uns criando expectativas, outros mais acautelados nos temores. O setor abstrato da existência não se submete a fronteiras.
A pessoa mais experiente que mentaliza apenas a própria idade, atrofia o corpo e não flexibiliza a alma, fecha qualquer questão, convencida de que definitivamente caracterizou as qualidades e os defeitos de tudo, restringindo os panoramas existenciais a padrões duros e desgastados. Para ela, as histórias se resumem em ruínas: o passado subsiste, o presente não resiste e o futuro desiste.
Aquele que além de armazenar experiência exercita o corpo e conserva o espírito aberto, segue questionando, movimenta-se entre a infância, a juventude e a maturidade, inclinado aos horizontes novos e dinâmicos. Para ele, os escombros são peças de restaurações: o passado persiste, o presente insiste e o futuro existe.
Só o amor e a verdade nos libertariam dos vícios culturais que se perpetuam pelos tempos e comprometem o nosso entrosamento físico e moral, adiando a paz e a fruição do prazer. Mas toda referência verdadeira parece embutir alguma inconveniência, pois nós assistimos ao predomínio da mentira em muitas circunstâncias importantes. A hipocrisia e o cinismo têm se reciclado largamente ao longo dos tempos, apesar dos esforços hercúleos das pessoas virtuosas que os combatem.
Essas lutas são muitas vezes apontadas como ingenuidade e não como virtude. Porém, insistir na verdade e no amor projeta a possibilidade de uma boa evolução do ser humano, para seus corpos e espíritos.
Uma criança sorri bem mais do que um adulto, no decorrer de um dia. Ela aproveita os benefícios dos sorrisos e autenticamente expressa a verdade, sem regras de polidez fingida ou anseios de manipulação de enredos. Parece que isso incomoda muito os adultos, pois essa espontaneidade natural não é reforçada pela educação trivial.
Desde os exemplos domésticos, passando pelas normas escolares, dogmas de catecismos, destaques da mídia e outros domínios socioculturais, temos combatido a ingenuidade e a autenticidade das crianças. Conscientes ou não dessa crueldade, pais, educadores, profissionais de saúde, líderes e multiplicadores vamos convertendo-as em pessoas cínicas e hipócritas. À medida que elas crescem, ao invés de mantermos e estimularmos a naturalidade, a inocência da franqueza, a sinceridade afetiva, nós a “educamos” para a artificialidade, a malícia e a esperteza perversa!
Esse horizonte piora ao abordarmos o sexo. A Revolução Sexual dos anos 60 não se “completou”, deixando um vazio que deturpa os amores. O corpo livrou-se da repressão moralista mas não se encontrou resolutivamente com a alma.
O exercício banal do sexo é uma das dispersões. O encontro erótico que se repete frívolo e sem originalidade acrescentaria apenas mais um espasmo orgástico no currículo pessoal dos pares. É um deleitoso prazer carnal, mas se não promove também um regozijo espiritual, representa pouquíssimo.
Entre o céu da experiência inteira, carne e espírito fruindo do prazer do encontro, e a satisfação parcial restrita ao corpo, o desejo vacila. Esta indefinição é um verdadeiro limbo.
Aquele conceito tradicional que a Igreja sustentou por séculos é cabível na circunstância: é onde se refugia uma alma atormentada pela insegurança moral.
Tiremos a libido do limbo, contemplando o amor e o erotismo com atitudes livres e espontâneas. Não nos enganemos quando temos apenas a troca carnal a compartilhar e não escondamos a revelação afetiva quando a alma nos inspirar.
*Joaquim Zailton Bueno Motta é psiquiatra e sexólogo
http://cpopular.cosmo.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1641496&area=2190&authent=85425DB05D9DD2BDD06522650FEA2F

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Daniel C. Dennett

O encanto-feitiço

O autor inicia sua descrição dos fenômenos naturais evolutivos assim:

"Observe uma formiga em um prado, laboriosamente subindo por uma folha de capim, cada vez mais alto, até que cai, depois sobe outra vez e mais outra, como Sísefo rolando sua pedra, sempre tentando chegar ao topo. Por que ela faz isso? Que benefício estará buscando para si própria nessa estranha e extenuante atividade?” então ele conclui a história cientificamente: “[...] é que o cérebro da formiga foi dominado por um parasita minúsculo, Dicrocelium dendriticum, que precisa entrar no estômago de um carneiro ou de uma vaca para completar seu ciclo reprodutivo. Esse verme cerebral é que dirige a formiga a uma situação que beneficia sua progênie, e não a da formiga (id. p. 14)."

De fato, o verme cerebral se beneficia. Esses parasitas manipuladores infectam peixes e camundongos entre outras espécies. Esses caronas fazem com que seus hospedeiros se comportem de modo bizarro - até mesmo suicidas – para benefício do parasita, não do hospedeiro. Dennett transporta essa ideia para os seres humanos que também não poucas vezes deixam família, saúde, oportunidades positivas na vida, para promoverem uma ideia que se fixou em seu cérebro. Essas pessoa morrem por essas ideias que não invadem os cérebros humanos mas são criadas por cérebros, o que nos diferencia, nós humanos, dos outros animais. Somos criadores de idéias e a religiões têm mantido, nós, seres humanos, enfeitiçados há milhares de anos. Em síntese, na formiga, é o verme que invade o cérebro. No homem, o cérebro cria a ideia-verme-manipuladora (o meme – replicador cultural), que o faz agir, matar, alegrar-se [...]. Entre eles, há os tóxicos, e é onde ele inclui a religião e a conseqüente metáfora: Palavra de Deus é um Dicrocelium dentriticum (o parasita).
Esse encanto-feitiço ou parasita-divino só será quebrado mediante o estudo científico da religião, é o que Dennett anuncia.
(Excerto do Artigo escrito por Agemir Bavaresco e Zelmar Antônio Guiotto:
Religião como fenômeno natural em Daniel C. Dennett, no prelo.)

A arte de viver

Michel Foucault*

Há uma razão que levou a arte moderna a se tornar o veículo do cinismo: falo da ideia de que a própria arte, seja literatura, pintura ou música, deve estabelecer uma relação com o real que vá além do simples embelezamento, da imitação, para ser deixada nua, para se tornar desmascaramento, raspagem, escavação, redução violenta da existência aos seus elementos primários. Não há dúvida de que essa visão da arte foi se firmando de modo sempre mais marcado a partir da metade do século XIX, quando a arte (com Baudelaire, Flaubert, Manet) se constituiu como lugar de irrupção daquilo que está embaixo, do lado de baixo, de tudo aquilo que, em uma cultura, não tem o direito ou, pelo menos, não tem a possibilidade de se expressar.
Com relação a isso, pode-se falar de um antiplatonismo da arte moderna. Se vocês viram a mostra sobre Manet neste inverno, entenderão o que eu quero dizer: o antiplatonismo, encarnado de maneira escandalosa por Manet, representa, a meu ver, uma das tendências de fundo da arte moderna, de Manet até Francis Bacon, de Baudelaire até Samuel Beckett ou Burroughs, mesmo que não se identifique atualmente como elemento caracterizador de toda a arte possível. Antiplatonismo: a arte como lugar de irrupção do elementar, como o despir-se da existência.
Em consequencia, a arte estabeleceu com a cultura, com as normas sociais, com os valores e os cânones estéticos uma relação polêmica, de redução, de recusa e de agressão. É esse o elemento que faz da arte moderna, a partir do século XIX, o movimento incessante por meio do qual toda regra estabelecida, deduzida, induzida, inferida sobre a base de qualquer um dos seus atos precedentes, foi rejeitada e recusada pelo ato sucessivo. Em toda forma de arte, pode-se encontrar uma espécie de cinismo permanente com relação a toda forma de arte conquistada: é o que podemos chamar de antiaristotelismo da arte moderna.
A arte moderna, antiplatônica e antiaristotélica: posta a nu, redução ao elementar da existência; rejeição, negação perpétua de toda forma já conquistada. Esses dois aspectos conferem à arte moderna uma função que, substancialmente, poderia ser definida como anticultural. É preciso opor a coragem da arte, na sua verdade bárbara, ao conformismo da cultura. A arte moderna é o cinismo da cultura, o cinismo da cultura que se revolta contra si mesma. E é sobretudo na arte, mesmo que não só nela, que se concentram, no mundo moderno, no nosso mundo, as formas mais intensas daquela vontade de dizer a verdade que não tem medo de ferir os seus interlocutores.
Naturalmente, ainda ficam muitos aspectos a ser aprofundados, particularmente o da própria gênese da questão da arte como cinismo da cultura. Pode-se ver os primeiros sinais desse processo, destinado a se manifestar de modo clamoroso nos séculos XIX e XX, em "O sobrinho", de Rameau e no escândalo provocado por Baudelaire, Manet, (Flaubert?).
Depois, existem as relações entre cinismo da arte e vida revolucionária: afinidade, fascinação recíproca (perpétua tentativa de unir a coragem revolucionária de dizer a verdade à violência da arte como irrupção selvagem do verdadeiro); mas também o fato de não serem substancialmente sobreponíveis, devido, talvez, ao fato de que, se essa função cínica está no coração da arte moderna, o seu papel no movimento revolucionário é só marginal, pelo menos desde que este último foi dominado por formas de organização, desde quando os movimentos revolucionários se organizam em partidos, e os partidos definem a "verdadeira vida" como total conformidade às normas, conformidade social e cultural. É evidente que o cinismo, longe de constituir uma ligação, é um motivo de incompatibilidade entre o ethos da arte moderna e o da prática política, seja ela também revolucionária.
Poder-se-ia formular o mesmo problema em termos diferentes: por que o cinismo, que no mundo antigo assumiu as dimensões de um movimento popular, tornou-se, nos séculos XIX e XX, uma atitude elitista e marginal, mesmo que importante para a nossa história, e por que o termo cinismo é utilizado quase sempre em referência a valores negativos?
Poder-se-ia acrescentar que o cinismo tem muitos pontos de contato com uma outra escola de pensamento: o ceticismo – também neste caso, um estilo de vida, mais do que uma doutrina, um modo de ser, de fazer, de dizer, uma disposição a ser, a fazer e a dizer, uma atitude a colocar à prova, a examinar, a colocar em dúvida. Mas com uma diferença extremamente grande: enquanto o ceticismo aplica sistematicamente essa atitude ao campo científico, quase sempre ignorando o exame dos aspectos práticos, o cinismo parece centrado em uma atitude prática, que se articula em uma falta de curiosidade ou em uma indiferença teórica e na aceitação de alguns princípios fundamentais.
Isso não exclui que, no século XIX, a combinação entre cinismo e ceticismo tenha estado na origem do "niilismo", entendido como modo de viver baseado em uma preciosa atitude com relação à verdade. Devemos deixar de considerar o niilismo sob um único aspecto, como destino inelutável da metafísica ocidental, à qual se poderia escapar apenas fazendo um retorno àquilo cujo esquecimento essa própria metafísica tornou possível; ou como uma vertigem de decadência típica de um mundo ocidental que já se tornou incapaz de crer em seus próprios valores.
O niilismo deve ser considerado, em primeiro lugar, como uma figura histórica particular pertencente aos séculos XIX e XX, mas deve também ser inscrito na longa história que o precedeu e preparou, a do ceticismo e do cinismo. Em outras palavras, deve ser visto como um episódio, ou melhor, como uma forma, historicamente bem definida, de um problema que a cultura ocidental começou a se colocar já há muito tempo: o da relação entre vontade de verdade e estilo de existência.
O cinismo e o ceticismo foram dois modos de se colocar o problema da ética da verdade. A sua fusão no niilismo ilumina uma questão essencial para a cultura ocidental, que pode ser formulada deste modo: quando a verdade é colocada continuamente em discussão pelo próprio amor pela verdade, qual é a forma de existência que melhor combina com esse contínuo interrogar-se? Qual é a vida necessária quando a verdade não é mais necessária? O verdadeiro princípio do niilismo não é: Deus não existe, tudo é permitido. A sua fórmula é, pelo contrário, uma pergunta: se devo me colocar diante do pensamento que "nada é verdadeiro", como devo viver?
A dificuldade de se definir a ligação entre o amor da verdade e a estética da existência está no centro da cultura ocidental. Mas não me preocupa tanto definir a história da doutrina cínica, quanto a da arte de existir. Em um Ocidente que inventou tantas verdades diversas e que formou tantas diferentes artes de existir, o cinismo serve para nos lembrar que bem pouca verdade é indispensável para quem quer viver verdadeiramente, e que bem pouca vida é necessária quando nos mantemos verdadeiramente na verdade.
*Filósofo francês
*O jornal La Repubblica, 01-07-2009, publicou um texto do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), em que se debate a relação do cinismo, do ceticismo e do niilismo, a partir da arte. Segundo Foucault, "em um Ocidente que inventou tantas verdades diversas e que formou tantas diferentes artes de existir, o cinismo serve para nos lembrar que bem pouca verdade é indispensável para quem quer viver verdadeiramente, e que bem pouca vida é necessária quando nos mantemos verdadeiramente na verdade". A tradução é de Moisés Sbardelotto. - Publicado no IHU, 3/7/2009

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Somos todos Jacksons

Eduardo Hoonaert *


A morte de Michael Jackson deixa na cabeça de muitos um monte de questionamentos. Alguns dizem que ele procurou branquear a pele por não aceitar sua condição de negro; outros dizem que ele era pedófilo; outros ainda criticam sua falta absoluta de senso administrativo ao deixar milhões de dólares em dívidas e ainda há quem pretenda que ele seja a expressão evidente da futilidade midiática.

Acontece que o inglês Gerald Thomas (1954), diretor, produtor e autor de teatro, que tem um bom trânsito no Brasil, escreve em seu blog de 30 de junho pp.: ‘Somos todos Jacksons’. Essa frase me impressiona. Sim, somos Jacksons na medida em que soltamos dentro de nós a estrela que somos. Os questionamentos acima mencionados evaporam-se diante do fato que tivemos (e ainda temos) diante de nós algo demasiadamente grande para nosso pobre entendimento humano, nossa pequenez inata. Na medida em que deixamos de lado questões pífias, ‘somos todos (e todas) Jacksons’, estrelas da mesma constelação em que Michael brilhou. O ídolo escondido (guarda-chuva, chapéu enterrado na cabeça, lenço para se esquivar, passo furtivo, gesto esquivo) dança no topo do mundo. O ídolo isolado (dorme em bolha de oxigênio e tem uma máscara higiênica para não respirar o ar que todos respiramos) fica continuamente em super-exposição e dança diante de bilhões de pessoas. O Peter Pan do isolamento de Neverland (terra do nunca, nome que Michael deu à sua propriedade) penetra em todos os lares por TV, DVD, CD e Internet.

Não nos enganemos: Michael não é um ingênuo doente e complexado. Ele tem a lucidez de por a nu o mundo como é: cruel, preconceituoso, prepotente, ignorante, mesquinho, sem piedade, sem sensibilidade pelo mais fraco. Numa se suas músicas, intitulada ‘Black and White’ (negro e branco), ele se mostra enjoado com a linha divisória que a sociedade marca entre as cores da pele. Aí ele canta: ‘Se você é meu irmão, não importa que seja negro ou branco’ (It don’t matter if you’re black or white). Mas logo acrescenta: ‘Isso não é fácil’. Querendo ultrapassar, num louco gesto de manipulação dermatológica, a barreira entre Black and White, ele ao mesmo tempo dá um soco na cara da sociedade e prejudica irremediavelmente sua saúde. No final da vida se afunda na tristeza. Sua vida demonstra a distância entre a indignação e a impotência dos gestos, por geniais que sejam. Michael sofreu as dores do mundo e seu sofrimento é nosso sofrimento.

De outro lado, sua passagem entre nós lembra que somos maiores do que somos, que podemos transcender a figura humana da mesquinhez e abraçar o mundo inteiro, partir com Dom Quixote à procura da justiça perdida e da misericórdia que não se encontra em canto nenhum, não fazer o que se espera de nós e fazer o que de nós não se espera. Gozar da vida em liberdade, sem pretender segurar nada. Escapar da confusão entre usar e possuir que faz com que não consigamos o que queremos, combater moinhos de vento não como quem faz algo estúpido, mas como quem demonstra que o mundo é um gira-gira e roda-roda de palavras que não levam a nada. A figura dramática e contraditória de Michael desperta em nós o que temos de melhor: a capacidade de sonhar com um mundo diferente. Só que esse mundo não tem de ser necessariamente um ‘neverland’ (terra do nunca) ou um ‘dreamland’ (terra do sonho: nome da propriedade de Elvis Presley), mas sim um ‘reino de Deus’, na labuta diária, segundo o sonho insuperado de Jesus de Nazaré.

Termino este texto com outra frase de Gerald Thomas, que expressa o sentimento que se apodera de mim depois da morte do astro, quando o universo em que vivo volta à ‘normalidade’: ‘esse universo tão grande e tão escuro em que ontem, uma estrela, Michael Jackson, se apagou, deixando legiões de planetas, satélites, asteróides, enfim, uma galáxia inteira totalmente desolada’.
* Historiador

O fim do pensamento único

Boaventura de Sousa Santos*
Não há “uma única solução possível para sair da crise”.
Há várias
e estas, sem deixarem de ser econômicas,
são sobretudo sociais e políticas.
Contudo, o pluralismo,
para ser eficaz,
tem de ser equilibrado em
sua publicidade.

No momento em que escrevo, os portugueses dispõem de duas visões muito diferentes sobre como sair da crise em que nos encontramos. De um lado, o “manifesto dos 28” e, do outro, o “manifesto dos 52”. Para o primeiro, a solução é o limite do endividamento, o que implica uma drástica redução do investimento público, fonte de muitos males, sendo os maiores o TGV, o novo aeroporto e as auto-estradas. Para o segundo, a prioridade é a promoção do emprego e a capacitação econômica, o que implica um forte investimento público (não necessariamente nos projetos referidos) pois só o Estado dispõe de instrumentos para desencadear medidas que minimizem os riscos sociais e políticos da crise e preparem o país para a pós-crise.
As diferenças entre os dois documentos são, antes de tudo, “genealógicas”. O primeiro é subscrito por economistas, a grande maioria dos quais ocupou cargos políticos nos últimos quinze anos, e colaborou na promoção da ortodoxia neoliberal que nos conduziu à crise. O segundo é subscrito por economistas e cientistas sociais que, ao longo dos últimos quinze anos, tomaram posições públicas contra a política econômica dominante e advertiram contra os riscos que decorreriam dela. À partida há, pois, uma questão de credibilidade: como podem os primeiros estar tão seguros do seu saber técnico se as receitas que propõem, descontada a cosmética, são as mesmas que nos conduziram ao buraco em que nos encontramos e em cuja aplicação participaram com tanto desvelo político?
Mas as diferenças entre os dois documentos são mais profundas que a descrição acima sugere. Separa-os concepções distintas da economia, da sociedade e da política. Para o manifesto dos 28, a ciência econômica não é uma ciência social; é um conjunto de teorias e técnicas neutras a que os cidadãos devem obediência. Pode impor-lhes sacrifícios dolorosos — perda de emprego ou da casa, queda abrupta na pobreza, trabalho sem direitos, insegurança quanto ao futuro das pensões construídas com o seu próprio dinheiro — desde que isso contribua para garantir o bom funcionamento da economia entendida como a expansão dos mercados e a lucratividade das empresas. O Estado deve limitar-se a garantir que assim aconteça, não transformando o bem-estar social em objectivo seu, pois mesmo que o quisesse falharia, dada a sua inerente ineficiência.
Pelo contrário, para o manifesto dos 52, a economia está ao serviço dos cidadãos e não estes ao serviço dela. Os mercados devem ser regulados para que a criação de riqueza social se não transforme em motor de injustiça social. Enquanto o bilionário Américo Amorim não terá de cortar nas despesas do supermercado apesar de ter perdido montantes astronômicos da sua imensa riqueza, o mesmo não ocorrerá com o trabalhador a quem o desemprego privou de umas magras centenas de euros. Cabe ao Estado garantir a coesão social, acionando mecanismos de regulação e de investimento para que a competitividade econômica cresça com a proteção social. Para isso, o Estado tem de ser mais democrático e a justiça mais eficaz na luta contra a corrupção.
É de saudar que haja opções e que os portugueses disponham de conhecimento para avaliar as consequências de cada uma delas. Em tempos eleitorais é importante que saibam que não há “uma única solução possível para sair da crise”. Há várias e estas, sem deixarem de ser econômicas, são sobretudo sociais e políticas. Contudo, o pluralismo, para ser eficaz, tem de ser equilibrado em sua publicidade. Anoto, sem surpresa, que apesar de vários jornais de referência terem dado voz equilibrada aos dois manifestos, o mesmo não sucedeu com o Público, cujo diretor nos brindou com um comentário ideológico e auto-desqualificante contra o manifesto dos 52. Este proselitismo conservador tem muitos antecedentes — quem não se lembra da grosseira apologia da invasão do Iraque e da demonização de todos os que se lhe opunham? — e talvez por isso este jornal tenha os dias contados enquanto jornal de referência.

*Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4386&boletim_id=568&componente_id=9706

Considerando um suicídio

João Gomes Mariante*


A grande maioria dos habitantes da esfera terrestre na qual vivemos sofreu um abalo inaudito pela morte de um ídolo inigualável.
Michael Jackson, a exemplo de tantas celebridades artísticas que recorrem ao suicídio, nem sempre consciente e direto, mas virtual e inconsciente, alinha-se entre eles.
A sua permanente aspiração girou sempre em volta de um arraigado propósito: de “deter” o tempo em seu próprio “self”, para não ser colhido pela velhice.
As suas tentativas de estancar a vida e a involução biológica foram base e princípio da sua atribulada existência. O uso prolongado e indevido de infindáveis baterias medicamentosas alterou profundamente a sua constelação glandular. Tão intenso e profundo revelou-se tal procedimento, que o transformou num homem branco. Essa alteração, essencialmente, determinou a alteração do esquema corporal e ipso facto a sua identidade.
Desde que o espelho iniciou a revelação da profunda transmutação epidérmica, sua personalidade certamente assumiu outra identidade.
A transformação psicofísica deu-lhe um encantamento narcísico, mas concomitantemente acarretou-lhe um sério conflito interno, por ignorar como proceder com o novo Michael, descolorido. O enfrentamento com o desdobrar da sua personalidade promoveu uma brida, um hiato na sua existência. Com o recurso de plásticas transformistas, conseguiu extinguir a presença da mácula da negridão que era assim vivida por ele. Na época, a situação ainda jazia distante da preponderância negra que hoje impera em seu país. A realidade atual é oposta, onde domina porque é representada e conduzida por um supremo mandatário negro e líder universal da negritude.
Pelo obsessivo propósito de metamorfosear a imagem física, amargou o sacrifício permanente de retesar a epiderme.
Com sucessivas intervenções cirúrgicas, modificou o seu esquema corporal e assim perdeu a imagem de si mesmo. Valendo-se de muitas baterias dessas técnicas transformistas para criar o modelo físico almejado e extirpar a coloração repudiada, revelou uma tendência bovarista, para não citar o narcisismo coexistente.
A patológica atuação do extraordinário e engenhoso artista viu-se sempre marcada pelo signo do suicídio. Com ela esteve permanentemente vivendo a fantasia de valer-se da morte, para sustar o envelhecimento e interromper o decurso do tempo, para anular o inexorável processo biológico de involução e criar outro: o da eterna juventude.
*Psicanalista, membro honorário da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina
No site da ZH, 02/07/2009

Além do nariz

Luiz Fernando Verissimo*

Certa vez, fizeram uma homenagem ao boxeador Joe Louis, na época o negro mais famoso do mundo, e alguém terminou um discurso dizendo que ele era um orgulho para sua raça – a raça humana. Muitos anos depois, um cômico diria a mesma coisa de Michael Jackson, mas com uma maldade final. Ele era um orgulho para sua raça – fosse ela qual fosse!
Michael apagara todos os traços da sua raça original do rosto e o resultado não se parecia com nenhum grupo étnico conhecido. Nunca ficou muito claro, sem trocadilho, que rosto ele queria ter. Diziam que seu ideal de beleza era a Diana Ross, uma prototípica negra com feições brancas, mas ele não se contentou em ter seu nariz afilado e seus lábios finos. Continuou branqueando e esculpindo o próprio rosto até transformá-lo na máscara grotesca de um ser indefinível. Talvez procurasse ser de uma raça além da humana.
O dinheiro não traz a felicidade (manda buscar, disse um cínico). Mas há séculos se usa a riqueza para tentar vencer tudo que traz a infelicidade: a feiura, a raça indesejada e outras consequências da fatalidade genética, e o maior inimigo da nossa vaidade, a passagem do tempo. As múmias e todos os elaborados arranjos fúnebres para garantir a eternidade dos faraós existiam para combater esta grande injustiça: de nada adiantavam seu poder e sua fortuna se os faraós se degradavam e acabavam como qualquer servo. Não houve rei ou rico da Idade Média que não investisse na alquimia, que era a ciência de alterar a natureza das pedras e dos homens, ou pelo menos dos homens que podiam pagar. Hoje existe uma indústria de cosméticos e mágicas rejuvenescedoras que movimenta bilhões e cujo objetivo final é o mesmo dos sacerdotes do Antigo Egito, nos embalsamar contra os estragos do tempo e nos garantir a vida eterna – enquanto dure. Michael Jackson também não achou justo ser rico e poderoso como um faraó e não poder alterar não apenas seu nariz como seu destino.
Martin Luther King resgatou a autoestima dos negros americanos com uma frase, mas Michael Jackson não concordou que black era beautiful. No fim, nem se contentou em ser branco, como não se conformou em envelhecer como qualquer um. Foi um grande artista e a comoção causada pela sua morte prematura é compreensível. Mas Michael Jackson foi, antes de mais nada, um trágico herói da insubmissão à vida.
*Escritor e cronista da ZH
Postado por ZERO HORA, 02/07/2009

Resiliência para enfrentar as adversidades

Ricardo Piovan*



Você já deve ter observado o movimento de uma vara de salto em altura. Ela dobra quando submetida a esforço, acumula energia e projeta o atleta para cima, mas, assim que o esforço cessa, ela volta ao normal. Esse exemplo da vara é uma maneira de compreendermos a resiliência, pois resilientes são as pessoas que passam por processos de dificuldade, superam esse momento e, assim que a adversidade cessa, elas voltam ao seu estado normal sem quebras emocionais.

Cada vez mais, a resiliência vem sendo exigida no mundo corporativo. “Muitas companhias, de uma forma simples ou mais complexa, levam em consideração essa competência em um processo de contratação ou promoção, porque ela pode fazer a diferença nos momentos de adversidades”, explica Ricardo Piovan, diretor da Portal Fox (www.portalfox.com.br), empresa especializada em consultoria organizacional, coaching, palestras e treinamentos. Piovan é um defensor da resiliência e expõe seu conhecimento sobre o assunto no livro Resiliência: como superar pressões e adversidades no trabalho.

Em entrevista exclusiva à revista Motivação, ele diz o que é preciso fazer para desenvolver uma atitude diferenciada em relação às adversidades que as pessoas enfrentam em seu dia a dia, confira.


As pessoas podem aprender a ter resiliência?

Há pessoas que nascem resilientes, está na genética, e outras que desenvolvem a resiliência na infância por meio de atitudes conscientes ou inconscientes dos pais. Alguns colocam seus filhos em uma redoma, impossibilitando-os assim de experimentarem pequenas adversidades para serem direcionados na forma mais correta da solução. Já outros jogam as crianças em dificuldades maiores, e não as orientam. Nenhuma dessas ações é correta, existe um caminho do meio que deve ser trilhado (livros que ensinam a desenvolver a resiliência nos filhos). Para quem não nasceu resiliente nem aprendeu a ser na infância, há a possibilidade de desenvolvê-la na vida adulta através do autoconhecimento de suas emoções, comportamentos e, principalmente, da vida como um todo.

O que acontece quando as pessoas não têm resiliência?

Existem três consequências básicas que desencadeiam outras:
1. Decisão – A pessoa não decide ou toma decisões erradas, pois é movida pela tristeza/medo, que a paralisa, ou pela raiva, que a leva a fazer bobagens.

2. Relacionamento interpessoal – O indivíduo projeta suas deficiências nos outros, prejudicando o trabalho em equipe para atingir as metas do departamento e da empresa.

3. Crescimento profissional – Pessoas sem resiliência não se inserem dentro do problema, entram em um processo de “vitimização” (que as impede de encontrarem soluções) ou de revolta (procurando culpados para a situação de adversidade que vivem). Ambos os processos cegam o indivíduo para uma autoanálise de sua evolução, isto é, o quanto essa crise que está passando permite a busca de conhecimento a fim de superá-la e tornar-se um profissional melhor.

A falta de resiliência também pode acarretar problemas relacionados à saúde?

Sim, a falta dessa atitude pode levar o indivíduo a três estados dolosos: estresse, Burnout e depressão. O primeiro já é um velho conhecido, mesmo assim, para a maioria das pessoas, ele é normal. Desse modo, não ficam atentas aos prejuízos que pode trazer. Grande parte dos indivíduos inicia um movimento de revisão de suas atitudes quando chegam ao estado de Burnout, em que os sintomas são de exaustão física e mental, impaciência em situações corriqueiras, depressão leve e perda de rendimento nas atividades desempenhadas. Caso não haja movimentos, mesmo com o Burnout,* a pessoa pode iniciar um processo de depressão mais profunda.

Quais são os fatores que impedem as pessoas de serem resilientes?

A falta de flexibilidade é o principal fator. Durante fortes tempestades, uma grande árvore se mantém rígida, enquanto o bambu se agita e vai até o chão. Cessada a tempestade, a árvore pode estar quebrada e o bambu intacto como se nada tivesse acontecido. Assim também é com as pessoas. Há as que procuram resistir às tormentas da vida, enrijecem-se, agarram-se com toda força ao que conhecem e se recusam a mudar. E existe também as que aceitam as adversidades, adaptam-se às novas circunstâncias e são flexíveis para agir de um modo diferente.

Em seu livro, você cita cinco princípios que ajudam a desenvolver o comportamento resiliente. Você pode explicar brevemente o que cada um significa?

1. Ter consciência de que as dificuldades fazem parte da vida e é preciso conviver com elas – O profissional resiliente sabe que a vida é uma grande montanha russa. Haverá altos e baixos, e ele não poderá permitir que o medo, a tristeza e a raiva sequestrem suas ações.

2. Compreender a natureza humana e buscar contato com seu “eu interior” – Da mesma forma que você possui pontos de aprimoramento em seus comportamentos, as outras pessoas também têm. Aqui, busca-se compreender melhor os outros (líderes, colegas e liderados) para um convívio mais harmonioso no ambiente de trabalho.

3. Persistir lutando para superar as adversidades – A persistência é fundamental à resiliência, pois, a cada fracasso, a pessoa honra o aprendizado, porque acabou de descobrir uma maneira que não funciona para superar a pressão ou adversidade. Com esse conhecimento adquirido, ela traça um novo plano de ação em busca da solução.

4. Encarar o problema, tomar as decisões e investir energia para solucioná-lo – Nesse princípio, apresentamos de forma simples e eficaz como as pessoas podem tomar decisões mais assertivas.

5. Entender que as dificuldades da vida nos tiram da zona de conforto e proporcionam crescimento – As pessoas se desenvolvem pelo amor ou pela dor. O primeiro grupo cria suas próprias crises para se desenvolver, enquanto o segundo espera a adversidade para crescer.

Muitas pessoas compreendem a importância da resiliência e se esforçam para desenvolvê-la, mas não conseguem praticá-la na hora que passam por uma forte pressão. Por que é tão difícil ser resiliente?

Porque é preciso mudar comportamentos, e esse processo não é tão simples quanto parece. A mudança comportamental passa por quatro fases que, de uma forma geral, são lentas. A primeira é quando você é inconsciente/incompetente, isto é, não tem consciência de que possui um problema comportamental e continua errando. Imagine um líder autoritário que grita com as pessoas quando as coisas saem erradas.
Na maioria dos casos, ele não tem consciência desse processo e, consequentemente, erra não sendo resiliente. Quando recebe um feedback, faz um treinamento ou lê um livro e percebe que agir assim prejudica sua carreira e a de seus liderados.
Aí, ele passa para a segunda fase consciente/incompetente, ou seja, sabe que não é certo, mas seus comportamentos enraizados o fazem agir da mesma forma que na primeira fase, a diferença é que ele percebe que errou, pois já tem consciência.
Dependendo de quão forte foi impressa a crença do autoritarismo nesse líder, principalmente na infância, será o grau de dificuldade para passar à terceira fase, que é o consciente/competente.
A boa notícia é que é possível, podendo demorar mais ou menos dependendo de cada indivíduo. A quarta fase é o momento em que estamos inconscientes/competentes, isto é, já entramos em um piloto automático e praticamos a resiliência.
*Ricardo Piovan, diretor da Portal Fox.
Matéria de KAREN JARDZWSKI publicada em :01/07/2009

http://www.motivaonline.com.br/php/materia.php?id=48567

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Exercícios para lidar com a tensão no dia a dia

Cinco exercícios retirados do livro
"Viva Melhor. Relaxamento "
(Editora Publifolha, 128 páginas)
para relaxar em momentos de estresse.


O SORRISO INTERNO
Na próxima vez em que se sentir tenso ou estressado, experimente a técnica do "sorriso interno". Na antiga medicina chinesa, uma abordagem similar a essa ativava o tan tien, o centro de energia do corpo, logo abaixo do umbigo. Pense em algo que o faça feliz: pode ser o cheiro de pão saindo do forno ou uma lembrança alegre - qualquer coisa que o leve a abrir um sorriso interno. Deixe o sorriso viajar dentro de você até chegar ao abdômen, espalhando calor por todo o corpo.

A RESPIRAÇÃO COMPLETA
Acredita-se que o controle da respiração iogue, ou pranaiama, influencie o fluxo do prana no corpo, proporcionando saúde, longevidade e até iluminação espiritual. Este exercício é conhecido como "respiração completa".
1. Tire os sapatos, afrouxe as roupas e deite-se de costas no chão, de olhos fechados, com os braços relaxados estendidos ao longo do corpo. Enquanto inspira lentamente pelo nariz, visualize seus pulmões enchendo-se de ar e se expandindo. Quando estiverem cheios, prenda a respiração por um instante antes de expirar devagar (também pelo nariz), esvaziando-os completamente.
2. A próxima inspiração deve ser mais curta (de dois a três segundos). Prolongue as próximas expirações de forma gradual, até sete ou oito segundos.
3. Concentre-se em manter o movimento do ar lento e contínuo (não expire muito rápido e prenda a respiração até o fim da contagem antes de inspirar novamente). Continue o exercício pelo tempo que desejar.

PARA RELAXAR O PESCOÇO E OS OMBROS
Costuma-se concentrar a tensão nos ombros e no pescoço. Com os braços estendidos ao longo do corpo, imagine que está segurando algo pesado e que seus ombros são puxados para baixo. Mantenha a posição por alguns segundos. Agora imagine que soltou os pesos e sente a tensão se dissipar. Repita a sequência cinco vezes.

MOVIMENTE AS MÃOS E AS PERNAS
Este é um exercício excelente para aliviar a tensão e pode ser feito em qualquer lugar. Sacuda as mãos e os braços por um minuto e depois as pernas e os pés. Quando parar de movimentá-los, seus músculos estarão totalmente relaxados.

O BANHO AROMÁTICO
A aromaterapia pode ser maravilhosamente relaxadora quando utilizada nos banhos de imersão. Além de inalados, os óleos essenciais são absorvidos pela pele, o que potencializa suas propriedades terapêuticas.
1. Escolha um óleo sensual de sua preferência, ou uma mistura de dois ou três óleos. Misture cinco gotas a uma colher de sopa (30 ml) de óleo neutro. Acerte a temperatura da água para que esteja confortavelmente morna e em seguida acrescente o óleo. (Só o faça depois de desligar a torneira da banheira.)
2. Feche a porta do banheiro para conter os vapores e entre na banheira. Deite-se de forma confortável e feche os olhos. Deixe os aromas envolverem todo o seu corpo. Imagine-os correndo por suas veias, transportando relaxamento e renovação de energia.
3. Permaneça assim por 15 a 20 minutos, de preferência à luz de velas. Quando se sentir pronto, saia do banho lentamente.
(Reportagem da Folha Online, 01/07/2009)

A genética do estresse

Cientistas relacionam,
pela primeira vez,
gene
a eventos pós-traumáticos.

A explicação para o estresse pode estar nos genes. Pela primeira vez, um estudo relaciona a genética a eventos pós-traumáticos. E ajuda a explicar por que algumas pessoas se recuperam bem de uma experiência de violência enquanto outras sofrem muito mais. Ainda que preliminar, o estudo oferece novas esperanças para tratamentos não apenas para a versão mais severa do problema, mas também para a mais branda que, num momento ou em outro, acaba atingindo a todos que vivem um dia-a-dia tumultuado.
O estresse, em princípio, não é ruim. Trata-se de uma resposta primordial do organismo diante de um risco iminente. Por isso, sob estresse, liberamos hormônios que nos preparam para “lutar ou fugir”, um reflexo dos mais importantes para os nossos antepassados das savanas. Entre eles, o cortisol e a adrenalina que fazem o coração bater mais depressa, aumentam a pressão sanguínea, elevam os níveis de glicose no sangue, enfim, que preparam o corpo para uma resposta rápida. O estresse serve, claro, para escapar da ameaça ou combatê-la, mas seu acúmulo pode deixar marcas duradouras.
No caso de episódios extremos de violência ou abuso sexual, por exemplo, a resposta é ainda mais dramática, com marcas a longo prazo maiores.
Pesquisadores descobriram que variações específicas num gene relacionado ao estresse teriam influência direta sobre a resposta a traumas na infância — principalmente casos de abuso sexual e físico em crianças. Esta interação aumenta fortemente as chances de, na vida adulta, o indivíduo desenvolver sinais de estresse pós-traumático.
Entre adultos que enfrentaram abusos graves na infância, aqueles que apresentam uma variação específica do gene pontuaram quase duas vezes mais (31) numa escala pós-traumática, desenvolvida para a pesquisa, em comparação aos que não tinham a variante (13). Quanto mais grave o abuso, maior o risco em pessoas com a mutação genética.
O estudo realizado com 900 adultos está entre os primeiros a mostrar que os genes podem ser influenciados por fatores externos, não genéticos, que deflagrariam os sinais de um evento pós-traumático. E é também o maior a revelar indícios de influência genética no estresse pós-traumático.
— Já sabíamos há mais de uma década, por conta de estudos com gêmeos, que os fatores genéticos têm um papel importante na vulnerabilidade à ocorrência do estresse pós-traumático — afirmou Karestan Koenen, uma psicóloga da Universidade de Harvard que não participou deste estudo, mas desenvolve pesquisas na mesma área. — Mas, até agora, tivemos pouco sucesso em identificar variações genéticas específicas relacionadas ao maior risco do surgimento da desordem.
Os cientistas sugerem ainda que há períodos particularmente críticos durante a infância, em que o cérebro é mais vulnerável a “influências externas que podem moldar o desenvolvimento do sistema de resposta ao estresse”, afirmou o pesquisador da Universidade de Emory e co-autor do estudo Kerry Ressler.
O estudo, publicado na revista “Journal of the American Medical Association” (Jama), revela que, provavelmente, existem muitas outras variantes genéticas que contribuem para uma maior vulnerabilidade aos eventos de estresse pós-traumático. Alguns deles, arriscam os cientistas, podem estar ainda mais fortemente relacionados à desordem do que os estudados até agora.
Ainda assim, tanto Ressler quanto outros cientistas que não participaram do estudo, sustentam que os resultados são importantes e que outros avanços similares poderão levar ao desenvolvimento de testes que ajudem a identificar quem corre mais risco de desenvolver o problema. Tratamentos que incluem psicoterapia e drogas psiquiátricas poderiam ser adaptados para atender especificamente essas pessoas.
Os percentuais de pessoas que sofrem do problema costumam ser mais altos entre veteranos de guerra e pessoas que vivem em áreas extremamente violentas. Estudos feitos por ONGs em favelas cariocas, por exemplo, revelaram que os índices eram similares aos de pessoas que passaram por guerras ou foram vítimas de grandes tragédias naturais.
Quando o corpo avisa
Os sintomas costumam surgir logo após o evento e, normalmente, incluem terríveis lembranças do trauma. Os que apresentam o problema frequentemente sofrem de ansiedade debilitante, irritabilidade, insônia e outros sinais de estresse.
Thomas Insel, diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, afirmou que o novo estudo é particularmente importante para ajudar no desenvolvimento de novas terapias.
Segundo o especialista, os resultados ajudarão a explicar as diferentes reações apresentadas por indivíduos que vivenciaram a mesma experiência traumática. Uma pessoa que testemunha uma explosão, por exemplo, pode simplesmente dizer “que teve um dia ruim e retomar as suas funções”, enquanto outra desenvolve sintomas de estresse paralisante. — E tal reação pode vir em ondas, atingindo a pessoa por meses e anos depois do episódio — afirmou Insel.
A maioria dos participantes do estudo americano era de homens negros, de baixa classe social, na faixa dos 40 anos. Eles responderam a um questionário sobre suas experiências na infância e na vida adulta, além de cederem amostras de saliva para o teste genético.
Cerca de 30% dos participantes contaram ter sofrido abuso sexual ou físico na infância. A maioria contou ter experimentado também algum tipo de trauma na vida adulta, como estupro, ataque com arma e outros tipos de violência. Pelo menos 25% deles apresentavam sintomas de estresse pós-traumático.
(Reportagem do O SUL, 28/06/2009, pg.4)

EU e TU

“Entrar na relação pura não significa prescindir de tudo, mas sim ver tudo no Tu; não é renunciar ao mundo mas sim proporcionar-lhe fundamentação. Afastar o olhar do mundo não auxilia a ida para Deus; olhar fixamente nele tamém não faz aproximar de Deus, porém, aquele que contempla o mundo em Deus, está na presença d’Ele. ‘Aqui o mundo, lá Deus’ tal é uma linguagem do Isso; assim como ‘Deus no mundo’ é outra linguagem do Isso. Porém, nada abandonar, ao contrário, incluir tudo, o mundo na sua totalidade, no Tu, atribuir ao mundo o seu direito e sua verdade, não compreender nada fora de Deus mas apreender tudo nele, isso é a relação perfeita. Não se encontra Deus permanecendo no mundo, e tão pouco encontra-se Deus ausentando-se dele: Aquele que, com todo o seu ser, vai de encontro ao seu Tu e lhe oferece todo ser do mundo encontra-o, Ele que não se pode procurar. Sem dúvida Deus é o ‘totalmente Outro’, Ele é porém o totalmente mesmo, o totalmente presente. Sem dúvida, ele é o ‘mysterium tremendum’ cuaja aparição nos subjuga, mas Ele é também o mistério da evidência que me é mais próximo do que o meu próprio Eu. Na medida em que tu sondas a vida das coisas e a natureza da relatividade, chegas até o insolúvel; se negas a vida das coisas e da relatividade, deparas com o nada; se santificas a vida, encontras o Deus vivo.”
Martin Buber, no livro Eu e Tu.