sábado, 18 de julho de 2009

Resmungo teológico

FERREIRA GULLAR
Relendo meu próprio artigo, perguntei-me:
o que se ganha em negar a existência da alma?
EMBORA DEFIRA DO biólogo Richard Dawkins que, nesta semana, na Flip, alardeou seu ateísmo, eu, em meio aos meus costumeiros resmungos, pus em dúvida aqui a existência da alma, chegando mesmo a lembrar que, em certa época remota, os gregos a designavam pela palavra "pneuma", que significa ar, sopro, ou seja, a respiração de quem está vivo. Nada mais que isso. Fiz essa afirmação, meses atrás, a propósito da excomunhão dos médicos que praticaram aborto numa menina, estuprada pelo padrasto. Como, para a Igreja Católica, a alma já está no momento da fecundação, praticar o aborto é matar um ser humano, dono de uma alma divina.
Afirmei, por isso, que, para ela, o que importa não é a vida e, sim, a alma, razão por que, durante a Inquisição, condenou à morte, na fogueira, milhares de pessoas, para salvar-lhes a alma.Tem lógica mas, relendo o meu próprio artigo, perguntei-me: o que se ganha em negar a existência da alma? Pergunta essa que, feita por mim, pode surpreender o leitor.
É que me lembrei de que não foi a Igreja Católica quem inventou a alma. Os gregos, muito antes de Sócrates e talvez mesmo de Pitágoras, já a tinham inventado, sem falar nos egípcios, que acreditavam numa vida post mortem, mas com o corpo também e, por isso, faziam-se embalsamar. Os cultos órficos da Grécia pré-helênica fundavam-se na crença da transmigração das almas que, no além, poderiam ser premiadas ou punidas pelo que fizeram aqui em baixo. Inscrições descobertas em sepulturas daquela época contêm ensinamentos de como a alma do morto deveria se comportar para merecer a salvação.
Num desses textos, lê-se o seguinte: "Tu acharás, à esquerda da casa de Hades, uma fonte e, a seu lado, um cipreste branco. Dessa fonte, não te aproximarás, mas te depararás com uma outra, perto do lago da Memória. Diz: "eu sou filho da terra e do céu estrelado'". É que para eles, o corpo vinha da terra e a alma, do céu.
Essa visão do homem como ente, ao mesmo tempo, terrestre e celeste, irá ganhar consistência teórica na filosofia de Sócrates e, sobretudo, na de Platão. Pode-se supor que a admirável bravura e despreendimento daquele em face da morte, deve-se, de fato, à sua convicção de que, depois dela, havia outra vida e melhor.
Se Platão herda de Sócrates essa convicção, em sua teoria a existência da alma está essencialmente ligada à possibilidade do verdadeiro conhecimento. Para ele, o corpo era um fator que impedia de se conhecer a verdade, não facultada aos sentidos. Pelo contrário, na sua concepção, os sentidos nos iludem, induzindo-nos a uma visão imperfeita da realidade. Donde a conclusão de que, só depois que nos livramos do corpo, podemos apreender a verdadeira realidade da existência, a que apenas a nossa alma teria acesso.
Essa concepção platônica da alma influiu na visão do cristianismo e, consequentemente, na teologia da Igreja Católica.
Mas, até onde me é dado perceber, elas não são idênticas em todos os pontos, especialmente em um: enquanto na teoria platônica o que há de reprovável no corpo é sua incapacidade de apreender o verdadeiro conhecimento, na teologia católica, essa incapacidade se converte em pecado, isto é, o corpo, sujeito a desejos condenáveis, contamina a alma de pecados, que podem levá-la à perdição eterna. Nisto, a concepção católica parece mais próxima do orfismo que do platonismo, mais filosófico do que teológico.
Mas meu propósito aqui não é discutir essas questões e, sim, afirmar que, na dúvida de que a alma exista ou não, melhor será acreditar em sua existência do que negá-la, já que não há como provar uma coisa nem outra.
Negamos a alma porque somos herdeiros do progresso econômico e científico, que nos revelou a lógica material da natureza e da vida, e que é irretorquível. Não obstante, a própria ciência diz que não é capaz de responder a questões como esta: por que existe algo em vez de nada? Assim, o enigma da existência continua sem resposta.
Não fui eu mesmo quem disse que o homem inventou Deus para que este o criasse? Ele o inventou porque não quer ser igual a um simples animal, nascido da natureza, condenado a acabar para sempre. Se sou filho de Deus, tenho uma alma divina que me torna imortal. E é isso, essa capacidade de inventar-se, que nos distingue dos outros animais. Filho de Deus mesmo ou inventado por si mesmo, a verdade é que o homem necessita da transcendência e aspira à eternidade. Por isso, precisa da alma, uma vez que o corpo, após a morte, virá pó.
Pessoal, este papo está brabo demais! Vamos mudar de assunto?
Folha de São Paulo, 12/07/2009

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Da paz aos pontapés

Montserrat Martins*


Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro tem “complexo de vira-lata”, quer dizer, se acha menos que outros povos, em sua identidade cultural, ao contrário dos argentinos, por exemplo. Basta ver uma variedade de emails que circulam por aí esculhambando... a nós mesmos. Uma notícia surpreendente, nesse ponto de vista, é a possibilidade de indicação do presidente do país para o Nobel da Paz.
Não existe um “Nobel do Esporte”, por isso nenhum brasileiro ganhou um Prêmio Nobel até hoje. Mas o brasileiro comum não se sente um Pelé, ou um Ayrton Senna, se sente como um “Valtão”, um zagueiro com pouco charme e muita disposição que entrou para o folclore do futebol. Está num livro do comentarista e ex-jogador Falcão a história deste humilde personagem que morava em Canoas e jogava no Cruzeiro de Porto Alegre. Pois aconteceu em 1960 que este clube, em excursão na Europa, enfrentou o Real Madrid, campeão do mundo daquele ano. O craque do Real era o badaladíssimo atacante Di Stéfano, uma espécie de “Cristiano Ronaldo” daquela época, que foi marcado justamente pelo Valtão. O jogo terminou em 0 x 0 e conta a lenda que Di Stéfano, indignado com os pontapés que recebia do zagueiro, encarou-o e disse: “Mira, chico, yo soy Di Stéfano, de España”. E o Valtão respondeu: “E eu sou o Valtão, de Canoas”.
Que o brasileiro tem uma “índole pacífica” é a própria comunidade internacional quem assinala, desde a própria criação da Organização das Nações Unidas, quando em 1947 Oswaldo Aranha, eleito presidente, inaugurou a tradição que se mantém até hoje, de ser um brasileiro o primeiro orador da Assembleia Geral da ONU. Não é de agora, portanto, que o Brasil tem uma postura diplomática muito respeitada e importante para a Paz entre as nações.
Mas em contraste com essa elegância e habilidade nas relações internacionais, no dia a dia os brasileiros não se veem como talentosos, nem como capazes, e isso é mais um entre os múltiplos fatores da violência urbana. Além das várias causas já conhecidas (déficit de investimentos em educação e em segurança, exclusão social, desestruturação familiar e drogadição), também a falta de autoestima pode contribuir para a violência. Quando não nos achamos capazes de driblar as adversidades e encontrar espaço para progredir no jogo da vida, apelamos para os pontapés.
Se cada povo tem um governo que o espelha – para o bem e para o mal – nosso presidente encarna todos esses contrastes. Elogiado por Obama e respeitado por vários outros líderes mundiais, tem dado declarações, internamente, de que o ex-presidente do país que comanda agora o Senado “não pode ser tratado como uma pessoa comum”. Como não, afinal não era esse o objetivo da democracia, termos todos os mesmos direitos e deveres? E que as instituições funcionassem, com liberdade de imprensa, para lutarmos contra a corrupção, como uma das prioridades nacionais? Pois a impunidade parlamentar não estimula a violência, na medida em que “o exemplo vem de cima”?
Seria uma honra para os brasileiros um Prêmio Nobel da Paz. Para superarmos nosso “complexo de vira- lata”, acreditarmos na nossa capacidade, habilidade, talento e elegância – e até mesmo para não sonharmos em subir na vida aos pontapés, ou em darmos pontapés na democracia.

Absurdos

L.F. VERISSIMO
O cinema nos acostumou com certos absurdos. Pessoas que subitamente começam a cantar, acompanhadas por orquestras invisíveis. Brigas a soco que terminam com rostos e punhos intactos, golpes na base do crânio que invariavelmente deixam a vítima desacordada apenas pelo tempo necessário, pistolas e metralhadoras com cargas infinitas. E o fato conveniente que, fosse onde fosse a ação do filme, no antigo Egito ou em planetas distantes, todos falavam inglês.
Não tenho acompanhado essa novela que se passa no Brasil e na Índia, mas sei que, tanto aqui como lá, se fala o mesmo português, com a mesma variação de sotaques. Nada a estranhar, o cinema nos acostumou justamente com essa suspensão da lógica, sem a qual a compreensão da trama seria impossível, salvo com legendas, que no caso só complicariam mais as coisas. E deve-se dar graças a Deus e aos produtores por terem evitado absurdos dentro do absurdo, como o do filme The Young Lions (Os Deuses Vencidos, dirigido, me informa o Google, por Edward Dmytryk, com Marlon Brando, Montgomery Clift e Dean Martin) em que Brando faz o papel de um oficial alemão. Por alguma razão, decidiram que ele deveria falar inglês com um sotaque alemão. Nenhum outro alemão do filme fala com sotaque alemão, só o Brando. Ele acaba se desencantando com a guerra e vira-se contra seus companheiros de farda, mas suspeita-se que seu problema tem alguma coisa a ver com o sotaque inexplicável. “Esse cara está nos gozando”, devem ter pensado os outros oficiais alemães, que se comunicam em inglês perfeito.
Nos filmes americanos sobre a Roma antiga convencionou-se que os aristocratas fossem interpretados por atores ingleses, falando o inglês da Rainha, e a plebe por atores com sotaque americano. No filme Spartacus, o superpatrício Crassus, vivido por Laurence Olivier, fala como um nobre inglês e seu servo Antoninus fala como Tony Curtis, que é de Brooklyn, NY. Seria uma autocrítica americana, um reconhecimento da sua culpa na vulgarização do idioma, se não fosse por um fato. Na Roma antiga, pelo menos no cinema, a plebe era virtuosa e o patriciado corrupto, e seu inglês bem falado apenas uma prova de afetação.
Publicado na ZH on line, 16/07/2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O momento Fraternidade

Régis Debray*
"É preciso reencontrar
o sentimento do
"nós",
além do nosso
'eu aqui'.
A questão do político no que ela tem de mais essencial, a de viver junto, está no cerne dos trabalhos de Régis Debray desde seu livro mais destacado, Crítica da razão política (Gallimard, 1981). Sua reflexão sobre o político o conduziu a interessar-se bem de perto pelo fato religioso, já que sua tese central mostra que toda sociedade se fundamenta em torno de um princípio invisível que une os seus membros.
Seu último livro, O Momento fraternidade (Gallimard) é ao mesmo tempo uma notável síntese de seus trabalhos anteriores sobre a sacralidade do político e uma reflexão estimulante sobre os limites da “religião civil dos direitos do homem” e o conceito tão antigo e tão moderno de fraternidade. Pode ser que não se compartilhe de todas as teses do midiólogo ou ter uma visão mais otimista do que a dele, mas, quem se interessa pelo futuro de nossas sociedades lerá esta obra brilhante, por vezes perturbadora, sempre esclarecedora. Em exclusividade para Le Monde des Religions, uma explicação de texto e um debate com o autor.
A reportagem é de Frédéric Lenoir e Jennifer Schwarz, publicada no jornal Le Monde des Religions, 10-03-2009. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.
O senhor abre o seu livro com uma profunda reflexão sobre o sagrado. Por que, a seu ver, toda a sociedade necessita do sagrado?
Porque aquilo que nos une nos ultrapassa, para o melhor ou para o pior. O que pode transformar em um “nós” singular um enxame de “eu aqui”? Como fazer grupo e o que permite a uma pessoa moral não desaparecer com as pessoas físicas que dela fazem parte? Esta é a questão que me ponho há mais de trinta anos. A união não acontece por si, já que o homem, como se diz, é um lobo para o homem. E, no entanto, existem coletivos, nações, tribos, clubes, equipes, lojas, igrejas. O que é, então, que faz de um puzzle uma arquitetura duradoura? Parece-me que é uma transcendência, situada além do dado imediato. Para que haja a participação, é necessário um ponto de ausência, um lugar fundador, um vazio destacado que pode ser um antepassado, um texto, um mito, uma expectativa. Este ponto de fuga, que assegura ao mesmo tempo coesão e perenidade, é o que se chama o sagrado. Vejo nisso uma necessidade invariante, com formas de expressão bem variáveis, já que cada grupo humano produz suas sacralidades: não é a mesma coisa agrupar-se aos pés da estátua de Atena, de Jesus Cristo, de Lincoln ou de Lênin.
Isso implica que haverá sempre algo irracional na existência coletiva... Você desejaria que chegássemos a nos passar a este invisível que funda o sagrado?
Como piedoso materialista, eu esperei por muito tempo que se pudesse passar fazendo do homem o seu próprio pai, reduzindo toda comunidade de destino a uma leve auto-sugestão. Mas, tive que submeter-me ao fato que há sempre na semana um dia consagrado a algo diferente do ordinário dos trabalhos e dos dias. Não conhecendo nenhuma sociedade ou nação que não tenha em seu território um centro nevrálgico, cristalizando uma memória ou uma esperança, eu abordo o mistério pela observação do visível. Descrevendo o que há de comum a todos esses “lugares” emblemáticos, quer seja um monumento, um muro, um mausoléu, uma cripta. São ao mesmo tempo pontos de reunião e espaços circunscritos, à parte. O que nos permite viver em comum, sendo também o que nos põe à parte dos outros que não são da comunidade. É o duplo jogo do sagrado.
A mensagem bastante original de Jesus dizendo à Samaritana – “não é nem sobre esta montanha nem em Jerusalém que é preciso adorar Deus, mas em espírito e em verdade” (João, 4) – consistia precisamente em sair desta lógica de sacralidade que encerra num espaço, num território, uma comunidade. O erro do cristianismo não foi o de ter retornado a uma sacralidade que encerra...? Fora da Igreja, nenhuma salvação?
O que você apresenta como um erro e, portanto, um desvio, eu o vejo como uma necessidade. Lastimável, mas inelutável. A história prática da espiritualidade cristã é uma lição para várias coisas. O Messias deu a mais bela formulação desejável e a história da cristandade deu retorno dentro do possível. Da utopia teológica a uma antropologia antes vexatória em face da grande Promessa, Jesus viera dizer-nos que não se necessitava mais de templo para orar, Deus não estando em lugar nenhum e por toda parte no coração de cada um. Ora, o que se produz desde que ele morre? Os discípulos lhe deixam, se ouso dizer, o sagrado nas costas. O funcionamento real da comunidade desmentiu a mensagem individual que lhe dera nascimento. A eucaristia, sim, mas numa igreja, e celebrada por um homem à parte, um clérigo.
Não existe uma tensão em todas as civilizações entre a religião institucional, que necessita delimitar o sagrado, e as correntes místicas que tendem a universalizar?
Esta tensão parece, com efeito, insuperável. O espiritual quer ir mar a fora, o religioso conduz ao porto. Os místicos abrem brechas, seus discípulos levantam muros, um recinto doutrinal, regulamentar e geográfico. É este o jogo que se encontra no judaísmo, no cristianismo e no islã. Há o sufi e há o imã. Há o abade Pierre e há o cardeal. O difícil é pensar os dois ao mesmo tempo.
A sacralidade moderna, a religião ocidental, diz o senhor, se encarna nos direitos do homem. Uma religião civil com a qual o senhor se mostra bastante crítico. O ideal dos direitos do homem não é, no entanto, necessário para construir um mundo viável e pacífico?
Encontra-se na nova religião civil, na religião dos descrentes, a mesma oposição íntima que se encontrava no cristianismo entre a inspiração e a instituição de chegada. Entre o discurso das Bem-aventuranças, se você prefere, e as cruzadas exterminadoras. Como não se podem projetar sobre o cristianismo os crimes da cristandade, nem os do comunismo sobre a filosofia das Luzes, seria injusto imputar aos direitos do homem os crimes do Ocidente ou de quem os comete. Ninguém pode negar que há na aquisição histórica dos direitos da pessoa um formidável desaferrolhamento. O que pode exasperar é ver uma aspiração sem limites legitimar e servir um sistema de poder e de dominação bem aferrolhado, feito de cinismo, de iniqüidade e de opiniões preconcebidas. Eu reclamo, como bom laico, uma clara separação entre o espiritual e o temporal, entre o ideal regulador e o aparelho de Estado. Senão, o humanitarismo gera um novo clericalismo. Há tal complexo de superioridade entre os ocidentais, tal arrogância que os direitos do homem se tornaram um sistema de fechamento, de não-reconhecimento do outro, um verdadeiro obstáculo à descentralização. A auto-suficiência moral resseca nosso campo de consciência. Isso já não é mais narcisismo civilizacional, isso é autismo. A negação da fraternidade. Eis o que é perturbador: a profunda indiferença do ocidental médio ao outro enquanto outro.
O que devia ser um pensamento que inclui se tornou, a seu ver, um pensamento da exclusão...
O problema é que esta não é pensada como tal. Nossos particularismos se arvoram em universalismo. Isso é clássico, me direis vós. “Tu não matarás”, “tu não cobiçarás a mulher de teu próximo”, “tu respeitarás o outro”. Sim, na cabeça! Mas, quem é este outro que os direitos do homem, ao modo da Bíblia, nos ordenam respeitar? Não é o homem do outro lado da montanha. É o correligionário, o mano ou o primo. É absolutamente preciso recordar-se dos direitos imprescritíveis da pessoa, sem jamais esquecer que não se conduz um coletivo como uma pessoa. E que o indivíduo, em suas matérias, jamais tem a última palavra. Virá um dia, dentro de um século ou dois, em que nós nos espantaremos com nossa “antropolatria”, em que veremos em nossa fé, um tanto etiquetada, o estigma de um tempo de ilusão, em que o indivíduo ainda estimava estar no centro do mundo, desafiado, cortado da natureza e dos viventes. Este desligamento fará sorrir ligeiramente, quando se falará dos direitos do vivente e dos deveres do homem para com o mundo.
O conceito de fraternidade está no cerne de sua última obra. Em que ele vos parece particularmente pertinente hoje em dia?
Porque ele é dramaticamente esquecido, desde que a economia toma a vanguarda e que o dinheiro não tem mais mestre. Esclareçamos que é menos, a meu ver, um conceito do que um trabalho, um exercício, uma ginástica. Eu falo, seguramente, das fraternidades coletivas. O que também me intrigou é o porquê desse recalque, o porquê desse desligamento atual. A fraternidade, impensável na Antiguidade, numa sociedade não igualitária, se torna possível com o monoteísmo e pensável com o cristianismo, que a pôs em prática nas fraternidades monásticas. A Revolução francesa projetou este dado espiritual no universo político. Eu não creio que haja muitas culturas que tenham visado uma fraternidade fora dos laços de sangue, da etnia ou da religião. Em nosso meio ela está ligada à idéia de nação, isto é, a uma comunidade de iguais diante da lei, qualquer que seja a origem étnica. A pátria, ao mesmo tempo maternal e viril. E quando se considera o ocorrido na história francesa quanto a esse princípio, percebe-se que ele está ligado à re-ascensão do romantismo cristão em meados do século dezenove, em 1848 exatamente, quando Jesus era [visto como] o proletário de Nazaré, contra o papa e os privilegiados. Mas, a primeira aparição política da fraternidade cristã ou franco-maçônica remete a esta mãe da qual todos nós somos os filhos e que nós devemos proteger, a pátria em perigo, em Valmy, em 1792. Há como uma dupla natureza da fraternidade, ao mesmo tempo religiosa e guerreira, o Exército e a Igreja. Em todo o caso, ela jamais é benigna. De onde decorre seu recalque atual no Ocidente, e mais particularmente na Europa, que não quer mais ouvir falar nem de guerra, nem de comunhão.
Este conceito não parece tão recalcado... Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal, para citar somente estes, recentemente, num meeting, realçaram por diversas vezes a fraternidade...
O chefe do Estado? Você me espanta muito. Ele fala dos direitos do homem. A fraternidade não faz parte da cultura anglo-saxônica. E Ségolène Royal sentiu bem a aspiração latente, mas temo que ela ainda não tenha mensurado o que há de mais áspero e de mais exigente nas fraternidades efetivas. O contrário do diz-que-diz-que.
De outra parte, a solidariedade não seria a tradução mais contemporânea da fraternidade?
Sem dúvida alguma. A solidariedade é uma fraternidade depurada de suas conotações evangélicas, de sua dimensão messiânica, plebéia e combativa. É uma fraternidade aburguesada, burocrática, emasculada, mas funcional. A III República pôde, assim, fazer passar na lei o que se sonhava em 1848. Tanto melhor. Mas, retornemos à fonte viva, despertemo-la. Eu não exijo um estado oficial, mas momentos vividos de fraternidade, ou antes, um estado social que possibilite esses momentos. Atingiu-se tal ponto de insolência no exibicionismo, na competição, na atomização, no cada um por si, que todos nós temos necessidade de respirar. De reencontrar o sentimento do “nós”, além do “eu aqui”. É uma questão de sobrevivência, não somente espiritual, mas física.
Lendo-vos, esta fraternidade não se poderia viver de outra forma do que nos limites do sagrado, ou seja, sob a forma de fraternidades localizadas, justapostas. Somos, no entanto, numerosos os que aspiramos mais profundamente por uma fraternidade humana mais universal. A ecologia, por exemplo, não constitui, aos vossos olhos, uma “nova religião civil” que, face à ameaça da destruição do planeta, estaria em condições de impelir os homens para o que Edgar Morin chama, em sua obra Terra-Pátria (Seuil, 1996), “uma tomada de consciência da comunidade sobre o destino terrestre”?
A meu ver, não há fraternidade sem o reconhecimento de uma filiação voluntária e cultural. É a arte de se inventar uma família que não deve nada à genealogia. A idéia de Terra-Pátria é infinitamente sedutora. Mas, me parece que lhe falta finitude para se tornar operacional, desculpe o paradoxo. A solidariedade ecológica é perfeitamente racional. Somos todos vulneráveis, expostos às catástrofes e responsáveis pelo futuro. Mas, uma comunidade de vulnerabilidades pode tornar-se uma comunidade de afeição? Os riscos ecológicos que são demasiado reais, podem gerar uma história de amor? Talvez a categoria mais alta, na espécie humana, esteja em condições de construí-la, mas ela ainda não impedirá, durante muito tempo, os massacres ao rés do chão. Sem uma história comum, que é uma palavra lendária, não há fervor comunitário, nem transcendência sensível, compartilhada. Eu não vejo o que a terra nos pode contar, nem em que língua. Ela fala aos geofísicos e aos químicos, mas o homem da rua precisa de poetas. De fato, tenho dificuldade de conectar a terra natal com um pequeno “t” e a terra com um “t” maiúsculo, o planeta e a pátria. A genealogia e a mitologia. Será que a terra pode se tornar mítica? Pode ela encantar-me? Murmurar-me ao ouvido? Pode-se voltar a ser xamã? Só se destrói o que se substitui. Se quiserdes acabar com os hinos nacionais, ou com as estrofes da Internacional, inventai um hino mundial que se possa aprender de cor. Ireis escrevê-lo em inglês ou em chinês? Ninguém compreende o esperanto. Como vedes, meu mal é não ser utopista, continuando alérgico aos conservadores. Revolução e realidade não são antinômicas. Precisamente a história das revoluções me ensinou que não vem ao caso e não ocupa lugar o que o homem não pode transferir de lugar. Jesus era um maravilhoso utopista, mas cem anos depois dele, os cristãos já tinham necessidade de suas pequenas relíquias e de um lugar de encontro. É assim o saber antecipado É quando você esquece a necessidade da sacralidade que ela vos alcança por trás e vos sufoca sem frases. Encaremos as coisas face a face e a gente se sairá um pouco melhor.
Postado no IHU/Unisinos, 15/07/2009

Os mapas da alma não têm fronteiras

Eduardo Galeano*
Texto lido pelo autor na cerimônia em
que recebeu a condecoração da
Ordem de Maio da República Argentina,
na embaixada daquele país em Montevidéu,
no dia 9 de julho.

Permitam-me agradecer esta oferenda que estou recebendo, que para mim é um símbolo da terceira margem do rio. Nessa terceira margem, nascida do encontro das outras duas, florescem e se multiplicam, juntas, nossas melhores energias, que nos salvam do rancor, da mesquinhez, da inveja e de outros venenos que abundam no mercado.

Aqui estamos, pois, na terceira margem do rio, argentinos e uruguaios, uruguaios e argentinos, rendendo homenagem à nossa vida compartilhada e, portanto, estamos celebrando o sentido comunitário da vida, que é a expressão mais profunda do senso comum.

Afinal, e perdão por ir tão longe, quando a história ainda não se chamava assim, lá no remoto tempo das cavernas, como faziam para sobreviver aqueles indefesos, inúteis, desamparados avós da humanidade? Talvez tenham sobrevivido, contra toda evidência, porque foram capazes de compartilhar a comida e souberam se defender juntos. E passaram-se os anos, milhares e milhares de anos, e está claro que o mundo raras vezes recorda essa lição de senso comum, a mais elementar de todas e a que mais falta nos faz.

Tive sorte de viver em Buenos Aires nos anos 70. Cheguei corrido pela ditadura militar uruguaia, e me fui corrido pela ditadura militar argentina.

Não me fui. Me foram. Mas nesses anos comprovei, uma vez mais, que aquela pré-histórica lição de senso comum não estava de todo esquecida. A energia solidária crescia e cresce ao vai e vem das ondas que nos levam e nos trazem, argentinos que vêm e vão, uruguaios que vamos e voltamos. E, no tempo das ditaduras, soubemos compartilhar a comida e soubemos nos defender juntos, e ninguém se sente herói nem mártir por dar abrigo aos perseguidos que cruzavam o rio, indo para lá ou vindo de lá. A solidariedade era, e continua sendo, um assunto de senso comum e, portanto, era, e continua sendo, a coisa mais natural do mundo. Talvez por isso, sua energia, a sempre viva, foi mais viva que nunca nos anos de terror, alimentada pelas proibições que queriam matá-la. Como o bom touro do duelo, a solidariedade cresce no castigo.

E quero dar um testemunho pessoal de meu exílio na Argentina.

Quero render homenagem a uma aventura chamada “Crisis”, uma revista cultural, que alguns escritores e artistas fundamos com o generoso apoio de Federico Vogelius, onde pude dar algo do muito que me ensinara Carlos Quijano em meus tempos do semanário “Marcha”.

A revista “Crisis” tinha um nome bem deprimente, mas era uma jubilosa celebração da cultura vivida como comunhão coletiva, uma festa do vínculo humano encarnado na palavra compartilhada. Queríamos compartilhar a palavra, como se fosse pão.

Os sobreviventes daquela experiência criadora, que morreu afogada pela ditadura militar, continuamos a acreditar no que então acreditávamos. Acreditávamos, acreditamos, que para não ser mudo é preciso começar por não ser mudo, e que o ponto de partida de uma cultura solidária está nas bocas dos que fazem cultura sem saber que a fazem, anônimos conquistadores dos sóis que as noites escondem, e eles, e elas, são também os que fazem história sem saber que a fazem. Porque a cultura, quando é verdadeira, cresce do pé, como alguma vez cantou Alfredo Zitarrosa, e a partir do pé cresce a história. Só o que se faz a partir de cima é o poço.

A ditadura militar acabou com a revista e exterminou muitas outras expressões de fecundidade social. Os fabricantes de poços castigaram o imperdoável pecado do vínculo, a solidariedade cometida em suas múltiplas formas possíveis, e a máquina do desvínculo continuou trabalhando a serviço de uma tradição colonial, imposta pelos impérios que nos dividiram para reinar e que nos obrigam a aceitar a solidão como destino.

À primeira vista, o mundo parece uma multidão de solidões amontoadas, todos contra todos, salve-se quem puder. Mas o senso comum, o senso comunitário, é um bichinho duro de matar. Ainda há quem espera a esperança, alentada pelas vozes que ressoam de nossa origem comum e de nossos assombrosos espaços de encontro.

Não conheço alegria maior do que a de nos reconhecermos nos demais. Talvez essa seja, para mim, a única imortalidade digna de fé. Reconhecer-me nos demais, reconhecer-me em minha pátria e em meu tempo, e também reconhecer-me em mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras, e reconhecer-me em mulheres e homens que são meus contemporâneos, vividos em outros tempos.

Os mapas da alma não têm fronteiras.

* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina, Memórias do Fogo e Espelhos: Uma História Quase Universal.
(Envolverde/IPS)http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/os-mapas-da-alma-nao-tem-fronteiras/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje 15/07/2009

terça-feira, 14 de julho de 2009

Ainda existe engajamento literário?

Moacyr Scliar*
"Num passado ainda recente,
a velha fórmula do antiamericanismo
ainda era útil,
mas a eleição de Obama
mudou essa postura
O escritor uruguaio Mario Benedetti, recentemente falecido, era, junto com Eduardo Galeano, Juan Gelmán e outros, um expoente da literatura engajada na América Latina. Em seus mais de 80 livros a questão social era tema prioritário, como o era em sua vida: Benedetti era um ativo militante de esquerda. Foi um dos fundadores do Movimento 26 de Março, que integrou a coalizão conhecida como Frente Ampla. Colaborou em vários jornais, a começar pelo lendário Marcha, no qual permaneceu por quase 30 anos. Com o golpe de 1973, renunciou a seu cargo na universidade e exilou-se, primeiro em Buenos Aires, depois no Peru — onde foi preso e deportado —, depois em Cuba, depois na Espanha... O clássico périplo de muitos intelectuais latino-americanos, e que, no caso de Benedetti, durou 10 anos, ao longo dos quais esteve separado de sua família. Mas até o fim o escritor manteve seus ideais, sua confiança no processo de transformação social, posição que resumiu numa frase: “O destino do escritor latino-americano está ligado ao do seu povo”. Uma opinião que ele partilhou com muitos intelectuais.
De uma forma ou de outra, o engajamento esteve presente na obra de muitos grandes escritores, mas um marco neste sentido é o famoso J’accuse (1898), em que o escritor francês Émile Zola denunciava a arbitrariedade antissemita no caso Dreyfus. A palavra intelectual nasceu aí, e teria uma longa trajetória: a partir de então, esperava-se que escritores tomassem posição diante de questões políticas e sociais. E de fato muitos escritores celebrizaram-se nesse sentido, a começar por Jean-Paul Sartre. Em O que é literatura?, Sartre defende a ideia de que o escritor tem obrigação de dar sua contribuição para o processo de mudança social. E foi o que ele próprio fez, participando, junto com Simone de Beauvoir, de muitos movimentos políticos (e, a propósito, fazendo da recusa do Nobel de literatura uma forma de protesto). Na América Latina, não foram poucos os escritores que seguiram este caminho: Julio Cortázar na Argentina, Pablo Neruda no Chile, Cesar Vallejo no Peru, Jorge Amado no Brasil.
O engajamento não cessou de crescer na primeira metade do século 20. Os ideais de esquerda tinham triunfado com a revolução russa de 1917 e, por outro lado, o nazismo mostrava o quanto a direita pode ser abominável e criminosa. Aos poucos essa polaridade foi ficando menos clara, mais confusa, com a revelação dos crimes do stalinismo e com a defesa do regime democrático feita pelo Ocidente. É verdade que a luta anticolonialista, sobretudo na África, proporcionou uma causa, para escritores como Agostinho Neto e Luandino Vieira. Com o tempo, ficou cada vez mais difícil dizer o que é esquerda, e sobretudo definir as bandeiras de luta da esquerda. Num passado ainda recente, a velha fórmula do antiamericanismo ainda era útil; mas a eleição de Obama mudou essa postura e, pior, hoje ser antiamericano significa muitas vezes ter como aliados terroristas, fanáticos religiosos e populistas sedentos de poder.
Nesse sentido, vale a pena lembrar a declaração de José Saramago na entrevista coletiva que deu ao receber o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Minas Gerais. Perguntado sobre o engajamento do escritor, Saramago respondeu: “Essa é uma questão que cansa um pouco... O que significa uma literatura engajada? Uma literatura a serviço de uma determinada ideologia? Se é assim, sou contra. Se é uma literatura na qual a ideologia do autor não está ausente, sou a favor. Todos temos ideias, opiniões, sentimentos, aspirações, ilusões, enganos. Tudo isso compõe a vida humana... Não faço da literatura um panfleto. Ser engajado não significa sair à rua com uma bandeira ou manifesto, mas ter uma presença na vida, na sociedade”.
*Moacyr Scliar, escritor gaúcho, colunista de jornais, escreve quinzenalmente no Correio Braziliense, 14/07/2009

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sim, nós podemos! O sexo na terceira idade

Nancy Price Freedman
Eu me sentei na mesa de exame no consultório do meu urologista e me cobri com o ridículo avental azul de papel que se tornou o uniforme padrão de paciente em nossa sociedade descartável. Certamente isso não foi projetado tendo um adulto em mente.
"Vista com a abertura na frente", resmungou a enfermeira, provavelmente pela 20ª vez naquele dia, enquanto saía às pressas da sala.
Ou ela disse para deixar a abertura nas costas? De qualquer forma, ele nunca cobriria minhas coxas. Eu abracei juntas as duas metades do avental enquanto esperava pelo médico.

O urologista, que provavelmente viu uma cena semelhante em cada sala de exame, ignorou meu avental com abertura na frente e começou a perguntar a respeito dos meus sintomas. Quando notei o problema pela primeira vez? Eu preciso levantar mais do que duas vezes por noite? Eu como comidas condimentadas? Bebo bebidas com cafeína?
Ele é um homem da minha geração, um membro de carteirinha da associação americana dos aposentados, entrando, como eu, nos anos dourados. Logo, fiquei surpresa quando sua próxima pergunta foi: "Você e seu marido ainda são sexualmente ativos?"
Meu impulso foi dizer: "Não é da sua conta!" Mas eu sabia que aquela não seria uma resposta médica aceitável. Eu olhei bem nos olhos dele e disse: "Sim, nós somos".
Eu não sei o que me incomodou mais, sua pergunta ou sua expectativa implícita de que não éramos ativos. (Ou talvez não deveríamos ser?)
Mas posteriormente, eu me vi pensando mais a respeito da pergunta. O que constitui "sexualmente ativos" para uma esposa e marido com 70 e 78 anos? Um certo número de vezes por semana, por mês, por ano? Eu não vi nenhuma estatística sobre o que pessoas de nossa idade fazem, ou tentam fazer, à portas fechadas. Nós não somos de uma geração que discute abertamente nossa vida sexual com os amigos, logo não tinha referenciais a respeito.
"Sexualmente ativos" sugere necessariamente paixão selvagem? Ou rolar na cama e dar um beijo de boa noite no meu marido conta?
Eu sei que não. Há não muito tempo, logo após dar um beijo de boa noite no meu marido, eu me virei e perguntei: "Eu já lhe dei um beijo de boa noite?" Isso soa como uma pessoa que lembraria quantas vezes fez amor em um certo período?
Nós colocamos ênfase demais na paixão física a longo prazo. Há vários anos, quando ainda estava trabalhando, uma amiga mais jovem no trabalho confidenciou para mim e outra colega que tinha dúvidas a respeito de seu atual namorado. Minha colega e eu representávamos respectivamente 25 e 35 anos de casamento, logo nos considerávamos especialistas no assunto.
A jovem mulher estava em dúvida sobre se acabava ou não um relacionamento de muitos anos com um homem que todos nós adorávamos. Ele era carinhoso e amoroso, enviava regularmente flores para ela para marcar as ocasiões especiais -um excelente ser humano.
O que não havia para gostar? Ou amar?
Ela explicou que após cinco anos juntos, a paixão desapareceu do relacionamento deles -não o amor, ela nos assegurou, mas a paixão intensa que costumava fazer parte de sua relação sexual.
Pacientemente, como as duas mamães ganso que éramos, nós suspiramos e explicamos que ao longo dos anos, o amor amadurece. Um casamento é composto de muito mais do que relação física; é mais sobre amizade e atenção genuína. Ele consiste de experiências e lembranças compartilhadas, de encorajar um ao outro e escorar um ao outro. Idealmente, nós aconselhamos, você passa a respeitar os pontos fortes um do outro e a fazer vista grossa para os pontos fracos.
Orgulhosas de nossa palestra sobre casamento, minha colega e eu trocamos sorrisos convencidos.
Nossa amiga, entretanto, parecia cética. E no final ela rompeu com ele. Ao saber da notícia, nós todas choramos.
Talvez não soubéssemos de toda a história, mas parecia um grande desperdício de um relacionamento promissor, e um padrão alto demais para manter - sustentar a paixão física por anos e anos. Apesar de depois termos rido da parte da paixão, nós mal podíamos esconder a inveja.
"Ah, quem tem a energia?", minha amiga disse rindo.
"Quem tem as juntas flexíveis?", eu acrescentei.
"Alguém de fato lembra o que é sexo?", adicionou uma colega pós-menopausa. Crises de gargalhada.
O sexo em nossa idade é algo que evidentemente ficamos mais à vontade fazendo piada do que conversando honestamente. Mas isso não significa que não aconteça, apesar do declínio de nossa energia, juntas e memória.
Recentemente um amigo me contou uma história sobre o asilo onde sua sogra vive. Ele soube pelos enfermeiros que alguns moradores mais velhos estavam entrando sorrateiramente nos quartos uns dos outros no meio da noite.
"Isso não é repulsivo?", ele perguntou.
Ele não sabia ao certo o que estava realmente acontecendo, mas era claro seu desconforto com a ideia de homens e mulheres idosos querendo ir para a cama uns com os outros.
Repulsivo? Não para mim. Nem de longe.
Mas toda a questão do sexo entre idosos nos distrai da verdade mais profunda de que a intimidade simples e carinhosa é muito importante à medida que envelhecemos, o tipo de coisa que nossa cultura altamente sexualizada, promotora do Viagra, tende a minimizar ou ignorar.
Eu contei para ele a experiência de outra amiga, durante sua recente estadia no hospital. Sua companheira de quarto era uma mulher idosa que aguardava ansiosamente pelas visitas diárias do marido. À noite, depois que ele ia embora, ela chorava silenciosamente em sua cama porque sentia falta demais dele, especialmente à noite, quando seu leito hospitalar parecia frio.
"Em casa", ela disse entre lágrimas, "nós sempre ficamos juntos abraçados enquanto dormimos. Sem ele, eu não consigo me aquecer".
No dia seguinte, quando o marido retornou para a visita, minha amiga anunciou que iria ler na sala de visita. Ao sair, ela sussurrou para o marido que ele devia se deitar sob as cobertas com sua esposa. Então ela puxou a cortina ao redor do leito da mulher e fechou a porta ao sair.
Isso é paixão. E amor. Mas não sexo. Mas o sexo ainda parece ser o instrumento com que medimos a duração de um casamento, e é dito para um número cada vez maior de nós em nossos anos dourados que, com um pouco de ajuda química, podemos ter sexo passional por anos, décadas.
Em um momento da história em que as pessoas estão vivendo mais, são mais fisicamente ativas e estão se aposentando mais cedo, com mais tempo para praticar atividades prazerosas, por que o sexo não deveria ser uma delas? Ou é o que a indústria farmacêutica nos faz acreditar. Se 70 supostamente é o novo 50, e 90 o novo 70, os laboratórios estão à procura de muitos novos negócios potenciais por muitos anos.
E não são apenas os laboratórios farmacêuticos. Recentemente, meu marido viu uma propaganda em uma revista para aposentados, oferecendo três DVDs que garantiam ensinar "relação sexual criativa" e "novas ideias para o casal melhorar seu casamento".
Eu também vi a propaganda. Aparentemente, muitos setores estão investindo no fato de que casais aposentados querem praticar sexo tão ativamente quanto jogar golfe ou tênis.
E essa propaganda claramente funciona. Nós pedimos os DVDs e aguardamos sua chegada.
Enquanto isso, logo após minha visita ao urologista, eu visitei minha ginecologista, uma mulher que é cerca de uma década mais jovem do que meu filho. Ela expressou surpresa quando perguntei se a cirurgia que ela recomendava teria algum impacto na minha vida sexual. "Oh, vocês ainda são sexualmente ativos?", ela perguntou em uma voz que mal escondia sua incredulidade.
A postura predominante a respeito da sexualidade entre idosos frequentemente me parece um recuo à era vitoriana -algo que não deve ser discutido em uma sociedade educada. Ótimo. Não pergunte e eu não digo. Mas um alerta para aqueles que perguntam: não descarte minha geração. Nós ainda não acabamos.
Meu marido e eu visitamos o mesmo urologista. Ele tem consulta nesta semana. Nós nos perguntamos se a pergunta também seria feita para ele. Eu não me lembro se o médico perguntou a respeito da frequência do sexo ou apenas se ainda éramos sexualmente ativos. Nós concordamos que devíamos coordenar os números para a eventualidade, mas não conseguimos decidir qual número deveria ser. Ao começarmos a ingressar no reino do ultrajante, nós decidimos que o médico provavelmente não consultaria meu prontuário.
É claro, não se trata da contagem. Uma vida amorosa ativa não se baseia em um número aleatório em um estudo sobre a intimidade dos casais. Ela se baseia em décadas desfrutando da companhia um do outro; compartilhando piadas bobas; da lembrança de eventos bons e ruins; no expressar de nossas opiniões, preocupações e medos; no encorajar e cuidar um do outro à medida que envelhecemos.
Fisicamente, nos abraçarmos ocupa um ponto alto em nossa lista. Esfregar as costas é importante. Ficar de mãos dadas em caminhadas e no cinema é automático. Sim, nós somos ativos -envolvidos ativamente um com o outro e em nosso amor à nossa vida juntos.
Mas e quanto aos DVDs que prometiam melhorar nosso casamento por meio de relação sexual criativa? Eles chegaram, como prometido, em um pacote discreto. Certa noite nos sentamos, colocamos o primeiro DVD no aparelho e começamos a assistir. Nós rimos de algumas partes, eu adormeci no meio do segundo e nem lembro se assisti o terceiro.
Ao guardá-los, meu marido sorriu e disse: "Talvez algum dia, quando formos mais jovens".
Postado no NTimes - Tradução: George El Khouri Andolfato
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2009/07/13/ult574u9499.jhtm

domingo, 12 de julho de 2009

O papa não confia no homem

Gianni Carta

Intitulada Caritas in veritate, a terceira encíclica do papa Bento XVI foca nos grandes problemas provocados pela globalização na vida do homem, “o primeiro capital a salvar e a valorizar”. Oportunamente divulgada na terça-feira 7, às vésperas da cúpula do G-8 em L’Aquila, na Itália, Caridade na Verdade é uma encíclica social – mas está longe de ser revolucionária.
Há mais de um século a Igreja Católica busca a justiça social em prol do “bem comum”. Em 1891, Leão XXIII publicava Rerum novarum, texto, este sim então revolucionário, o qual, na alvorada do capitalismo industrial, estimulava o desenvolvimento de um sindicalismo cristão. Mais recentemente, em 1991, o conservador João Paulo II divulgou Centesimus annus, encíclica nada revolucionária na qual o papa reconheceu aspectos positivos na economia de mercado – que visaria ao bem comum. A encíclica Cem Anos foi publicada logo após o colapso da União Soviética.
Caritas in veritate surpreende porque revela um Joseph Ratzinger mais complexo do que se supunha: arguto, compreensivelmente tendencioso (a favor de ideias da Igreja Católica), e ideologicamente confuso. Arguto porque reconhece que os percalços da globalização não são inerentes ao mercado globalizado em si. Os percalços nascem da natureza do homem, este marcado pelo “pecado das origens”. E este é um ponto fundamental na terceira encíclica do alemão Ratzinger: o homem, de forma geral, é inconfiável. Tal percepção é válida do ponto de vista do crente (que acredita no “pecado das origens”), do político conservador ou liberal.
Na verdade, essa capacidade de compreender a essência do homem por parte do papa não surpreende. Ratzinger, de 82 anos, é catedrático de alto calibre. Embora não tenha o carisma de seu antecessor, e tenha expressões faciais um tanto sinistras, ao longo dos anos produziu dezenas de livros e fez inúmeras eloquentes conferências.
Bento XVI fornece, para ilustrar os limites do homem, exemplos para detalhar algumas lacunas do ser humano. Por exemplo, o empresário para o qual “o lucro torna-se seu objetivo exclusivo, e se (o lucro) for produzido por meios impróprios e sem o bem comum como fim principal, arrisca destruir a riqueza e criar pobreza”. A pobreza, por sua vez, afeta as democracias. Os poderosos das finanças, acrescenta Ratzinger, precisam “redescobrir o genuíno fundamento ético de suas atividades”.
A questão parece simples. Mas está longe de sê-lo. A pessoa ligada às finanças visa, óbvio, o lucro. Ela pode ou não ser ética em suas operações. O mesmo se aplica ao político conservador, de centro ou de esquerda. Mas o homem, com as claras exceções, falhou no capitalismo, no comunismo e na religião. Basta ver o atual estado do capitalismo mundial, o colapso do comunismo e o decrescente nível de religiosos praticantes.
E aqui chegamos ao segundo ponto acima mencionado: o papa é tendencioso. Ele precisa, claro, defender as doutrinas do Pontificado e seus 2 mil anos de existência. Um ser avaro pode corrigir suas fraquezas, ou improbidades, buscando valores espirituais, e principalmente aqueles cristãos, nos diz Ratzinger. O papa acrescenta: “O ateísmo subtrai dos cidadãos a força moral ou espiritual para se engajar a favor do desenvolvimento humano”. O papa indaga, já implicitamente dando sua resposta: “Um humanismo sem Deus é possível?” Isso significa que um homem ateu ou agnóstico, ou simplesmente não praticante, não pode ter força moral ou espiritual?
O terceiro ponto de Caritas in veritate, já citado acima, chama atenção: a confusão ideológica do papa. Antes de adentrar o campo social de reformas pedidas por Bento XVI, vale colocá-lo no seu contexto histórico. Já no número especial de quinze anos de CartaCapital, publicado em 27 de maio, recordamos quem é Ratzinger. Ex-líder da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Inquisição) a partir de 1981 sob João Paulo II, o alemão praticamente varreu do mapa católico a Teologia da Libertação, que pregava na América Latina uma Igreja voltada aos humildes e explorados.
Obs.: O texto completo encontra-se na revista impressa CARTA CAPITAL 15/07/2009, pp.50-51.
http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=9&i=4559

O maior dos privilégios

DANUZA LEÃO
O mais importantedos poderes:
poder dizer não seja lá a quem for,
na hora que tiver vontade

NÃO DÁ PARA negar: existe no mundo uma classe de privilegiados. Aliás, uma não, duas: os que nascem privilegiados e os que se tornam privilegiados.
Os primeiros são os que nasceram bonitos, inteligentes, talentosos. Há como negar que Sophia Loren é uma privilegiada? Que Chico Buarque também, e dr. Albert Sabin, Pelé e outros, cada um na sua especialidade? Esses deveriam todo dia rezar e agradecer por terem nascido com esse dom que os torna especiais e merecedores da admiração do mundo em geral. P
rivilegiados também são os que nasceram em famílias unidas, com uma situação financeira confortável, saúde, que puderam estudar e ter acesso às boas coisas da vida, o que é sempre bom; são também privilegiados, nos dias de hoje, as celebridades, o que pode querer dizer qualquer coisa. Mas qual a vantagem de ser um privilegiado? É que esses costumam ter abertas as portas para quase qualquer coisa, o que não é bom, mas ótimo. Alguns se esforçam para chegar lá. Esse lá pode ser qualquer coisa, mas o objetivo principal é um só: pertencer à privilegiada casta dos privilegiados.
Para eles não existem filas, os médicos, mesmo não tendo hora, ficam até mais tarde no consultório para atendê-los, os restaurantes sempre têm mesa, e os aviões costumam deixar alguns lugares vagos, se um deles resolver viajar naquele dia, naquela hora -um privilégio, não? Esses não precisam nem dizer "sabe com quem está falando?" porque todos sabem, e se não souberem, seus assessores se encarregam de dizer; como eles não se ocupam dessas ninharias, têm sempre alguém que faça tudo por eles.
Essa é a razão da luta pelo poder político. Dificilmente você vai ver um deputado -se for senador, melhor ainda- na fila de embarque de um avião, por exemplo, ou em qualquer situação que os iguale ao comum dos mortais. Nem na fila para comprar entrada para o cinema, nem na porta de um restaurante no Dia das Mães, nem com o filho no colo num posto de saúde no dia da vacinação. Como eles fazem? Não sei, mas na vida deles tudo é fácil, e quanto mais poder eles têm, mais fácil é.
Você já reparou que quem provou o gostinho nunca mais abre mão do famoso poder? Pensando bem, a rotina na Câmara dos Deputados ou no Senado deve ser um tédio, por isso o plenário das duas Casas está sempre vazio, mesmo funcionando só de terça a quinta. Mas quem é deputado ou senador quer sempre ser reeleito, mais tarde ser presidente da Casa, depois governador, depois presidente da República.
Não sei quem disse isso, mas nunca esqueci: que uma das coisas a que se acostumam, quando exercem o poder, é a nunca abrir uma porta. Existe sempre um assessor nomeado exclusivamente para fazer isso. Mas será tão penoso assim abrir uma porta? Ter um jatinho à disposição, como tem Lula, também é bom, mas se só serve para levar o poderoso para reuniões em lugares que ele não escolheu, de que adianta?
Se as pessoas pensassem mais, batalhariam não para ter o poder banal, mas sim aquele que, no plano pessoal ou profissional, é o mais importante dos poderes: poder dizer não seja lá a quem for, na hora que tiver vontade.
Poder dizer não; esse é o maior privilégio que se pode ter na vida.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1207200906.htm

Esoterismo quântico

Novo livro do cientista Victor Stenger ataca os gurus que mistificam conceitos da física para dar verniz de ciência a suas crenças

Tanto os fãs ardorosos dos documentários "Quem somos nós" e "O Segredo" quanto os espectadores que consideraram esses filmes um desfile de bobagens requentadas do movimento Nova Era podem tirar algum proveito do novo livro do físico americano Victor Stenger. "Quantum Gods" (Deuses Quânticos) se destina justamente a atacar a crença de que as modernas teorias cientificas são perfeitamente compatíveis com toda forma de prática esotérica.
O livro é uma resposta direta a ambos documentários, nos quais cientistas, médicos, religiosos e gurus de auto-ajuda recorrem a conceitos da mecânica quântica -ramo da física que explica o comportamento da matéria a níveis muito pequenos- e de outras ciências para abordar temas místicos como poder do pensamento, carma, vida após a morte etc.Desde o fim dos anos 1980, Stenger tem militado na corrente neoateísta que tem no biólogo Richard Dawkins e no filósofo Daniel Dennett suas faces mais conhecidas. Seu novo livro começa fazendo um breve e irônico levantamento das idéias defendidas pela nova onda de gurus quânticos.
Stenger dá destaque a Amit Goswami, físico indiano bastante popular no Brasil, tendo sido entrevistado duas vezes no programa Roda Viva, da TV Cultura. Mas até o Dalai Lama é citado, devido a seu livro "O Universo num Só Átomo". O líder tibetano, porém, é abordado de forma respeitosa.
Já o fundador da meditação transcedental, o físico e guru indiano Maharishi Yogi (1917-2008) recebe chumbo pesado. David Bohm e Fritjof Capra, cientistas que não aparecem nos filmes, mas que são pioneiros do encontro da Mecânica Quântica com a Nova Era, também não escapam ilesos.
Divulgador experiente, Stenger inclui no livro seções que formam uma curta mas substanciosa história da ciência. Isso permite a um leigo tomar pé do debate sobre problemas teóricos complexos, mas deixa passar a chance de desmontar detalhadamente afirmações supostamente científicas com as quais o espectador se depara em "Quem somos nós".
Em vez de tentar negar, por exemplo, a afirmação de Goswami de que a consciência é o fundamento do Universo, ele prefere repassar a história da criação da física de partículas. Em vez de contestar os experimentos de Masaru Emoto, que afirma que as moléculas de água podem ser alteradas pela força do pensamento, ele descreve os fracassos obtidos em testes de parapsicologia.
É como se Stenger acreditasse que uma apresentação criteriosa de conceitos complicados, como o emaranhamento quântico, será o suficiente para que os leitores possam, por si só, perceber os pontos em que Capra, Goswami e companhia estão "forçando a barra".
Em benefício da dúvida
Só que o mais provável é que o leitor leigo se sinta incapaz de chegar a uma conclusão por conta própria. Neste caso, provavelmente a leitura apenas terá colaborado para aumentar suas dúvidas. Porém, isso, por si só, já pode ser algo positivo. Afinal, uma das maiores objeções que se pode fazer a "Quem somos nós" é que o filme não avisa aos espectadores que as posições ali apresentadas são, no mínimo dos mínimos, controversas, e que não são endossadas pela imensa maioria da comunidade cientifica.Stenger oferece aos leitores a visão acadêmica destes mesmos temas, numa linguagem acessível. Saber que existe uma outra visão (na verdade várias) da mecânica quântica pode ser uma grande novidade para muitos dos fãs de "Quem somos nós", que fizeram dele o quinto documentário mais lucrativo da história dos EUA.
O livro analisa também as idéias de outros grupos que, volta e meia, recorrem à mecânica quântica para sustentar suas idéias. Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química de 1977 e herói da corrente acadêmica conhecida como transdiciplinaridade, é diretamente contestado. Prigogine afirma que os processos termodinâmicos não podem ser abordados através do tradicional reducionismo metodológico tão caro à ciência moderna pois, neste caso, esses processos não seriam reversíveis no tempo.
Stengers afirma que, por princípio, todos os processos físicos são reversíveis temporalmente, e que Prigogine "está completamente errado, mesmo tendo ganho um prêmio Nobel". Também sobram críticas para a parapsicologia e para os teólogos que investigam o mundo microscópico em busca de sinais da ação do Deus cristão, ou de algo próximo a ele.
Sobrecarga
Ao mirar em tantos objetivos diferentes, o autor sofre do ônus de ter poucas páginas para devassar temas muito variados e complexos. Sem o espaço necessário para uma exposição mais adequada, sua argumentação soa, em vários momentos, concisa demais. Mas há um motivo para isso: em livros anteriores ele já investiu diretamente contra criacionistas, adeptos do Design Inteligente, da parapsicologia etc. Aqui, em certos momentos onde seria necessário um maior aprofundamento, ele se limita a se referir a sua própria obra.
No final do livro, Stenger argumenta diretamente contra a existência de qualquer tipo de divindade. Sua visão do fenômeno religioso lembra um pouco a de Dawkins, restringindo-se a análise de certos estereótipos. Nada disso, porém, chega a comprometer a consistência do livro. Stenger tem o conhecimento científico e a expertise literária necessários para apresentar um bom contra-ponto à febre de física Nova Era que continua circulando pelo planeta, Brasil inclusive.
Reportagem de Pablo Nogueira -colaboração para a Folha, 12/07/2009
LIVRO - "Quantum Gods" Victor Stenger; Prometheus Books, 292 págs., US$ 27,00
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1207200903.htm

Botando a paixão para dentro da sua empresa

José Luiz Tejon*
Sem paixão não existe força suficiente para grandes movimentos. A paixão é uma energia altamente concentrada em um único ponto. Paixão é convicção. Paixão é a eliminação da dúvida. Aliás, dizem que uma ótima definição de louco é: \um louco não duvida, se duvidasse não seria louco!\
Podemos imaginar o poder de construção da paixão, e também o de destruição, quando ela é colocada a serviço de fanatismos destruidores. Ou, num negócio, quando nos apaixonamos pelo caminho errado. Pela tecnologia obsoleta, pelo segmento de mercado que não existe mais.
O que é interessante observar na vida e nos negócios, é que sem paixão, os resultados são – quase sempre medíocres. A grande questão fica sendo como você pode criar uma empresa \apaixonada\? Como você pode fazer os seus colaboradores se apaixonarem pela causa do seu negócio? Como a sua empresa pode ser vista como sendo apaixonada pelos resultados dos seus clientes? E, principalmente, apaixonar-se pela causa certa!
Simples, mas nada fácil. Mirar na causa certa é a primeira questão. Não comece simplesmente fazer certas as coisas, achando que isso o levará ao sucesso. O que o leva ao sucesso não é fazer certas as coisas e sim fazer as coisas certas. Sutil, não? Mas faz toda a diferença. Esgote o melhor do seu pensamento e das visões de consultores, da análise das tendências do mundo, para prestar atenção nas COISAS CERTAS. Depois sim, preocupe-se em fazer essas coisas corretamente. Nunca antes.
A segunda questão começa dentro de você mesmo. Você é um líder apaixonado? Se você não está fervendo, como irá esquentar alguém? Portanto olhe para si mesmo, busque auxílio de alguma boa terapia e analise-se. Você está apaixonado pela causa do seu negócio? Se esse sentimento não for intenso dentro do seu coração, não haverá força que o faça causar comoção nos seus colaboradores. E, funcionários não comovidos significa clientes não atingidos.
O terceiro ponto é o talento de exteriorizar os sentimentos. Não seja um \economizador\ de sentimentos. Coloque sua paixão para fora. Transfira-a. Vibre com as pequenas vitórias. Corrija as pequenas derrotas. Não existe desgraça ou êxito não anunciado. A observação atenta do dia-a-dia permite antecipar a tendência. O andamento dos pequenos sucessos e a forma como trabalhamos os pequenos fracassos, antecipam o resultado da grande vitória ou do grande fiasco no futuro.
E o quarto fundamento dessa base é o empenho com o qual você seleciona pessoas, promove, estimula, corrige, demite. Não existe plano de treinamento, processo tecnológico, sistema de coaching ou planos de incentivos, que substituam a seleção correta dos seus recursos humanos. Atitude perante a vida e perante o negócio é vital. Habilidade e conhecimento você ensina. Podemos aprender. Mas o talento de agir, reagir, angustiar-se para a busca de soluções criativas. A não resignação frente aos obstáculos e, principalmente a capacidade de ser uma pessoa apaixonada, isso já nasce na seleção da sua equipe. Já vem pronto de formação e de berço. Significa um valor humano mais ou menos desenvolvido em cada um de nós.
Uma empresa apaixonada rumando para a direção certa é absolutamente imbatível!

* José Luiz Tejon é autor de 12 livros, Professor de Pós Graduação FGV/ESPM, Mestre em Educação, arte e Cultura pela Universidade Mackenzie. Sua recente obra é: a Grande Virada – 50 regras de ouro para dar a volta por cima (Editora Gente). www.tejon.com.br
http://www.catho.com.br/estilorh/index.phtml?secao=287- Acesso 12/07/2009

Vivendo em uma sociedade anticristianismo

Líderes da Grã-Bretanha alertam sobre perdas dos valores comuns
Por Pe. John Flynn, LC
O declínio do cristianismo e dos valores morais, em geral, está atingindo a Grã-Bretanha. Enquanto o número de fiéis tem decrescido há já algum tempo, alertas sobre a situação começam a vir de todos os lados.

A Grã-Bretanha já não é uma nação cristã, afirmou o bispo anglicano Paul Richardson, em um artigo publicado em 27 de junho no jornal Sunday Telegraph.

O prelado anglicano também foi crítico com seus colegas bispos por não compreenderem quão grave é a mudança na cultura contemporânea e por sua falta de ação em lidar com esta grave crise de fé.

Apenas cerca de 1% dos anglicanos frequentam cerimônias religiosas aos domingos, em média, de acordo com Richardson. "Neste ritmo, é difícil ver a Igreja sobrevivendo por mais de 30 anos, embora alguns de seus líderes estejam preparados para enfrentar essa possibilidade", advertiu.
Ele observou também que, de cada 1.000 nascidos na Inglaterra e no País de Gales, no período 2006-2007, apenas 128 foram batizados como anglicanos. Em 1900, o número de batizados era de 609 para 1.000.

Apenas um dia antes, no jornal The Times, Rabbi Sir Jonathan Sacks, rabino chefe da Congregação das Nações da União Hebraica, lamentou a falta de um código moral partilhado na Grã-Bretanha.

Refletindo sobre a atual crise financeira e as recentes revelações de escândalos sobre despesas parlamentares, ele comentou que estes e outros problemas levaram a uma perda de confiança na sociedade.

Existe um problema essencial, porém, que é muito mais grave, ele disse: a perda do sentido tradicional da moralidade.

Somos muito morais, em alguns aspectos, tais como a pobreza mundial e o aquecimento global, o rabino sustentou, mas estes são problemas remotos e globais. Sacks declarou que, quando se trata de assuntos mais próximos de nossas próprias vidas, perdemos o nosso senso de certo e errado sobre o comportamento pessoal.

Não se trata de atuar sobre os sintomas com mais leis e sistemas de vigilância. "Sem um código moral compartilhado, não pode haver sociedade livre", argumentou Sacks.

Quem é esse?

Duas recentes pesquisas confirmam das advertências dos líderes religiosos. Um estudo realizado pela Penguin Books, embora em conjunto com uma promoção de um recente livro sobre o tema, diz que quase dois terços dos adolescentes não acreditam em Deus.

Segundo matéria de 22 junho do jornal Telegraph, a amostra com 1.000 adolescentes evidenciou que 59% consideram que a religião tem uma influência negativa sobre o mundo.
A pesquisa também revelou que a metade dos entrevistados nunca rezou e 16% nunca foram à igreja.

Uma semana depois, o jornal Independent publicou os resultados de uma pesquisa sobre conhecimentos bíblicos. O artigo de 29 de junho relatou que muitos são ignorantes sobre as histórias e as pessoas que são fundamentais para a história do cristianismo.

Segundo os resultados preliminares da Pesquisa de Alfabetização Nacional Bíblica, realizada pelo St. John's College Durham, menos de 10% das pessoas compreendiam os principais personagens da Bíblia e sua relevância.

Cerca de 60% não sabiam da história do Bom Samaritano; figuras como Abraão e José também eram desconhecidas para muitos estrangeiros.

Segundo o artigo do Independent, o sacerdote anglicano David Wilkinson, de St. John’s, disse que as consequências de tal ignorância vão muito além de apenas desconhecerem a Bíblia. O conhecimento dessas histórias e das personagens da Bíblia é essencial para compreender a nossa história e cultura, e não menos a arte, a música e a literatura, já que muito delas está ligado a temas religiosos, observou.

Esta é uma ignorância que o bem conhecido defensor do ateísmo Richard Dawkins tenta promover. Um artigo de 28 de junho publicado no jornal The Guardian informou que ele está organizando um acampamento ateu este ano na Inglaterra.

Camp Quest UK vai ser "livre do dogma religioso", o artigo acrescentou. Aparentemente, os cinco dias do acampamento, subsidiado por uma bolsa da Fundação Richard Dawkins, estarão lotados.
Sem rumo

As recentes advertências dos líderes religiosos trazem expressões de preocupação. A 5 de abril, o bispo anglicano Michael Nazir-Ali publicou um artigo no Telegraph, por ocasião da sua aposentadoria como bispo de Rochester.

Nos seus quase 15 anos ali, ele disse: "eu assisti à nação ir à deriva mais longe e mais longe das suas amarras cristã".

Esta situação levou, continuou ele, a um afrouxamento dos laços de direito, costumes e valores, e também a uma perda de identidade e de coesão. Como o rabino Sacks, ele comentou que a sociedade precisa de um "capital social de valores comuns e do reconhecimento de certas virtudes que contribuem para o florescimento pessoal e social”.

"Nossas ideias sobre a sacralidade da pessoa humana em todas as fases da vida, a igualdade e os direitos naturais e, portanto, de liberdade, comprovadamente surgiram a partir da tradição enraizada na Bíblia", acrescentou.

O bispo Nazir-Ali observou que a Igreja anglicana está crescendo rapidamente em lugares como a África. Talvez eles tenham muito para ensinar às Igrejas ocidentais, concluiu.

Vendendo a alma

O novo líder católico da Inglaterra e País de Gales, Dom Vincent Nichols, abordou o mesmo assunto pouco antes de se tornar o arcebispo de Westminster.

Em um artigo publicado pelo jornal Telegraph a 29 de março, ele afirmou que a Grã-Bretanha já vendeu a sua alma ao perseguir uma razão puramente secular sobrepondo-se à religião.

Como resultado, a fé está agora confinada a um exercício puramente privado e os valores são extraídos de fontes materiais e seculares.

Não só os políticos da Grã-Bretanha vivem em um mundo material e puramente secular, mas também não permitem uma madura reflexão do papel fundamental da crença religiosa na sociedade, ele sustentou.

As afirmações foram publicadas pelo arcebispo Nichols em um recente livro de ensaios intitulado "A nação que esqueceu Deus."

Em comum com os outros líderes religiosos, o arcebispo Nichols também apontou a falta de coesão social que resulta quando não há partilha de princípios e valores morais. A visão secular e liberal da pessoa humana é errada e simplesmente não funciona, ele argumentou.

Pouco amigável

Seu antecessor, o cardeal Cormac Murphy-O'Connor, tinha a mesma opinião. Em uma matéria de 6 de dezembro do jornal Telegraph, ele comentava que a Grã-Bretanha tornou-se um lugar "inimigo" para as pessoas religiosas viverem.

O aumento do secularismo resultou em uma sociedade hostil ao cristianismo e, em geral, as crenças religiosas são vistas como "uma excentricidade privada."

O cardeal Murphy-O'Connor também observava que ateísmo é agora mais agressivo e que existe uma minoria que argumenta que a religião não tem lugar na sociedade moderna.

Estatísticas demonstram suas preocupações. O número de casamentos em igrejas católicas na Inglaterra caiu 25% durante a última década, o Telegraph relatou em 8 de janeiro.

No ano de 2000, houve 13.029 casamentos católicos, em comparação com 9.950 no ano passado. Apenas um em cada três casamentos na Inglaterra são agora sob a forma de uma cerimônia religiosa, de acordo com o Telegraph.

Provas abundantes do grave declínio da religião na Grã-Bretanha e as repetidas declarações dos líderes das Igrejas apontam para uma crescente tomada de consciência da urgência da situação e de como revertê-la.
Postado no ZENIT.org. - domingo, 12/07/2009.

sábado, 11 de julho de 2009

Nossas cidades

JAIME PINSKY*
Placas imensas escondendo belas fachadas, reformas efetuadas sem nenhum planejamento, avanço descontrolado das fachadas sobre as calçadas, cada vez mais estreitas, guaritas nos bairros residenciais, camelôs nas regiões movimentadas, carência de faixas de pedestres, trânsito indisciplinado, ruas atravancadas, ausência de padrão mínimo de construção, matagais e lixo em terrenos baldios, destruição do patrimônio histórico, de reservas florestais, invasão de mananciais, este é o retrato de nossas cidades.
Nossas cidades não têm caráter. À exceção de algumas planejadas, como Brasília, e outras providencialmente esquecidas durante décadas, como Tiradentes, elas são um ajuntamento desorganizado de gente. Mesmo lugares turísticos como Parati e Ouro Preto se transformaram em grandes favelões envolvendo a área histórica.
Estudos sobre os problemas urbanos são muitos, os diagnósticos estão feitos. Pesquisadores como Ângelo Serpa, Ana Fani Carlos e Eduardo Yazigi, entre muitos outros, têm produzido trabalhos em que mostram que as ruas e os chamados espaços públicos deixaram de sê-lo. Ruas foram entregues aos automóveis, praças a desocupados. Em uma blitz realizada na central Praça da Sé, em São Paulo, mais de 100 pessoas foram presas, numa demonstração de que o medo do paulistano em caminhar em lugares públicos é justificado. Em bairros residenciais de classe média alta, as ruas são ocupadas por guardas e vigilantes particulares, nunca por moradores, que só entram e saem de carro de suas residências. Numa recente reunião de condomínio, vários moradores do prédio em que moro confessaram não conhecer a sala de estar do pavimento térreo, porque nunca haviam entrado a pé no edifício...
As cidades — não só as metrópoles, ou as grandes cidades, mas até as médias e muitas das pequenas — não são pensadas para moradores, mas para motoristas. A ausência de qualidade dos transportes coletivos é conhecida. O metrô de São Paulo, por exemplo, citado com frequência como modelar, anda superlotado e seus carros, na sua esmagadora maioria, não possuem ar-condicionado, fazendo com que as pessoas cheguem ao seu destino suadas e exauridas. A maior parte dos ônibus urbanos, além de não serem refrigerados, trafegam apinhados, têm suspensão de caminhão, degraus elevados que causam constrangimento a senhoras e idosos e, por incrível que pareça num país que se orgulha tanto de sua indústria automobilística, nem sequer são dotados de câmbio automático, o que evitaria tantos solavancos.
O motorista de ônibus, mesmo vindo de um extrato social mais humilde, rapidamente incorpora a ideologia dos condutores de veículos, segundo a qual o pedestre é um fracassado que tem mais é que sofrer. Já se disse muitas vezes que o respeito às faixas é condição necessária, embora não suficiente, para uma nação entrar no rol dos civilizados. Pelo visto ainda estamos longe disso na maioria das cidades brasileiras (Brasília é uma agradável exceção, nesse aspecto). De resto, parece que alguém instaurou verdadeira caça ao pedestre. Como provável único motorista paulistano a respeitar a faixa, sou buzinado pelos que vêm atrás e agradecido pelos passantes, como se eles devessem agradecer por ocupar um espaço que lhes pertence. Estamos no reino do veículo individual motorizado, pedestres, ciclistas e outros “minoritários”, que se danem.
Mudanças de conduta são obtidas por meio de prevenção, educação e repressão. Mas, antes de tudo, por vontade política. Num país em que é comum e se acha normal a prestação de favores pessoais com dinheiro público, é evidente que o interesse da maior parte da população é irrelevante. Não é por outro motivo que temos bancos de Primeiro Mundo (aliás, ainda mais lucrativo do que os deles), universidades de classe média e transportes coletivos de países atrasados. As ruas deixarem de ser espaços públicos é interessantes aos governantes, que até cogitam transferir para sambódromos e outros locais confinados às poucas manifestações coletivas que ainda ocorrem nas metrópoles brasileiras. De resto, para isso é que existem os shoppings, que, em nossas cidades, são logo categorizados por classe social e têm sua frequência selecionada como se fossem clubes ingleses ou locais de culto americanos. Tudo muito coerente com nosso projeto de nação. O verdadeiro, não o alegado.
*Jaime Pinsky, historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto.
Correio Braziliense, 11 de julho de 2009

Enquanto fazemos poesia

ANTONIO CICERO
Partir quer dizer dividir em partes:
é da noção de separação
que vem o sentido de
ir embora

UMA VEZ PARTICIPEI de uma mesa redonda em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, em que se discutiu a proposição "Enquanto fazemos poesia não partimos". Trata-se de uma sentença de Hermann Broch, que se encontra no romance "A Morte de Virgílio". Mas ela foi apresentada descontextualizada, de modo que cada qual podia interpretá-la como quisesse. O importante era que essa interpretação pessoal revelasse algo da concepção de poesia de cada um. Foi, de fato, o que ocorreu.
Quanto a mim, concordo com a tese de que "enquanto fazemos poesia não partimos". No contexto em que essa frase se encontra, percebe-se que Broch lamentava o fato de não partirmos quando fazemos poesia, como se dissesse: "Quando fazemos poesia, não chegamos a partir". Pois bem, ao contrário dele, penso que o fato de não partir é exatamente o que faz da poesia o que ela é: uma das dimensões insubstituíveis e, segundo penso, supremas, da experiência humana. Na verdade, creio que não é somente quando fazemos poesia, mas, principalmente, quando a lemos, que não partimos.
Partir quer dizer dividir em partes, separar as partes: e é da noção de separação que vem o sentido de ir embora. Pois bem, para que o juízo, isto é, o conhecimento humano discursivo, dianoético, seja possível, é necessário, em primeiro lugar, que o sujeito (que julga) e o objeto (sobre o qual se julga) tenham sido separados. No próprio objeto, é preciso também que o sujeito tenha sido separado de suas propriedades e relações etc. Ora, muito sucintamente, essas separações são condições para que possamos conhecer e instrumentalizar o mundo dos objetos. Através da partida, portanto, todos os entes se tornam objetos para o sujeito que conhece.
De certo modo, também o poema consiste num objeto artificial. Não se trata, evidentemente, de um objeto artificial material, como a folha de papel sobre a qual ele se encontra escrito, mas de um objeto formal, de um objeto-tipo, como uma palavra. É assim que, como uma palavra, ele pode encontrar-se em diferentes meios ao mesmo tempo: nos vários exemplares de um livro, em revistas, em computadores, na internet, em gravações sonoras etc.
A mais importante característica a distinguir esses dois tipos de objetos artificiais de caráter formal que são as palavras e os poemas parece-me ser o fato de que, ao contrário de uma palavra, um poema enquanto poema não desempenha qualquer função sintática ou semântica na língua a que pertence. Na verdade, o poema enquanto poema é um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada. Ora, um objeto destituído de função determinada é, literalmente, um objeto que não serve para nada.
Normalmente, não damos atenção a objetos que não servem para nada. Por que damos atenção a um poema enquanto poema? Coube a Kant responder a essa pergunta, descrever a beleza como uma finalidade sem fim. O poema enquanto poema é um objeto no qual reconhecemos a forma da finalidade sem, entretanto, reconhecermos o fim, a função que daria o seu conceito. Por isso mesmo, o poema enquanto poema é um objeto que, como diz Kant das ideias estéticas, "constitui uma apresentação da imaginação que dá muita ocasião ao pensamento, sem que nenhum pensamento determinado, nenhum conceito, possa ser-lhe apropriado e que, consequentemente, não é completamente alcançável ou tornado inteligível por nenhuma linguagem".
Sob o domínio da imaginação, o poema provoca o que o autor de "A Crítica do Juízo" chama de livre jogo entre as faculdades do conhecimento: trata-se de um objeto da língua ao qual voltamos, não por razões pragmáticas, mas estéticas, como voltamos a contemplar um quadro ou uma escultura.
Mas um poema é um objeto especial também em outro sentido, evidentemente ligado a esse primeiro. Ocorre que ler um poema é como mergulhar nele em pensamento. O poema é objeto e pensamento ao mesmo tempo. E, ao contrário do que ocorre nos não poemas, no poema não é possível separar o objeto do pensamento ou do sujeito do pensamento. Aquilo que pensa no poema é também a sua materialidade linguística: não apenas os seus significados convencionais, mas os seus significantes: e os significados não se separam, no poema, dos significantes. Nada, nele, se separa de nada; nada se parte; nada parte.
É nesse sentido que eu diria que, enquanto fazemos ou lemos poesia, não partimos.

O pai de Borges

ALAN PAULS*
Como todo mundo, Jorge Luis Borges (1899-1986) teve um pai e uma mãe. Dos dois, entretanto, apenas um -a mãe- ocupa um lugar na mitologia borgeana. Descendente de espanhóis e militares, Leonor Acevedo de Borges foi uma mãe de tomar em armas, afiada e despótica. Vigiou a carreira literária de seu filho com rigor higienista, um pouco como os pais dos precoces prodígios dos esportes ou da televisão hoje moldam as trajetórias de seus rebentos. Proibiu Borges de ler "Martín Fierro" ("um livro que só é apropriado para sem-vergonhas"), promoveu a carreira dele "silenciosa e eficientemente", afugentou namoradas ameaçadoras, foi sua secretária, sua leitora em voz alta (quando Borges ficou cego), sua companheira de viagem. E, basicamente, foi longeva. Viveu quase cem anos, o que a permitiu chegar do escuro século 19, no qual nasceu, até meados dos anos 70 do século 20, a aurora de uma civilização midiática que contribuiu para celebrizá-la. O apagado Jorge Guillermo Borges não teve a mesma sorte. Morreu em 1938, quando seu filho nem sequer intuía a fama que o aguardava. Advogado, anarquista com veleidades de filósofo e professor de psicologia, Borges, pai, fez por seu filho muito mais do que a posteridade sensacionalista se dispõe a reconhecer, ela que, no fundo, o reduziu a uma anedota lasciva: a prostituta que ele contratou em Genebra para que seu filho, então no final da adolescência, se iniciasse nos ardores do sexo.

Legado
O mais importante que Borges, pai, deu a seu filho, deu já morto, sob a forma pudorosa mas influente do legado. Legou a seu filho sua biblioteca ("o feito capital de minha vida"), a amizade magistral de Macedônio Fernández, dois males inexoráveis (a timidez e a cegueira) e um mandato difícil de resistir: o de escrever. Isso porque, além de plagiar William James nas aulas de psicologia que dava na Escola Normal de Línguas Vivas, Jorge Guillermo Borges era escritor, e do tipo mais perigoso: um escritor fracassado. Tinha escrito poemas, textos, exercícios de prosa que mantinha em segredo, a meio caminho entre o hobby e o fetichismo, e que só se atreveu a mostrar a seu filho quando ganharam forma em um gênero dotado de autoridade: um romance. Borges, pai, publicou "El Caudillo" em 1921, quando seu filho tinha pouco mais de 20 anos, era vanguardista e só tinha dado a conhecer um punhado de versos de incendiado espírito bolchevique. O romance -"interceptado" por algumas metáforas audazes que Borges, filho, conseguiu incorporar a ele- passou despercebido, mas funcionou como elo crucial na cadeia de transmissão entre pai e filho. Até o final de sua vida, o autor de "Ficções" confessava que um de seus projetos mais caros, que nunca realizou, era "revisar e talvez reescrever o romance de meu pai, "El Caudillo", como ele me pediu há anos". Talvez nessa reescritura se encontrasse a única possibilidade de assistir a um milagre que a obra de Borges sempre nos negou: o milagre de um Borges romancista. Uma visão enganosa desse milagre é a que as livrarias de Buenos Aires vêm oferecendo desde alguns meses: a reedição, a cargo de uma pequena editora de vanguarda da cidade, do romance de Borges, pai, até agora impossível de ser encontrado.

Exercício narrativo
"El Caudillo" é um exercício narrativo moldado pelo século 19: um livro de ambiente rural, entorpecido por meses de sesta e tédio e açoitado repentinamente, em uma única noite fatídica, por um temporal que se abate sobre o campo argentino e centrifuga tudo: vacas, pontes, política, paixões amorosas. No coração do romance há um amor não correspondido, equivocado e culpado, de um francês sensível, Dubois, e uma moça que é o cúmulo do recato, Marisabel, filha de Andrés Tavares, o cacique territorial que dá título ao livro, domina todo o cenário político que lhe serve de pano de fundo e, com sua onipotência e brutalidade, feminiza todos os homens que o rodeiam. É um romance instável, descompensado, que se deixa seduzir por lânguidos impulsos descritivos e então, como se despertasse de um sonho, volta a si, amarra dois ou três fios que estavam pendurados soltos e mergulha de cabeça num labirinto de peripécias. É também nessas desproporções internas que se encontra sua beleza estranha e escura, a perturbada contracapa da poética de nitidez e controle que Borges, filho, sempre defendeu. É difícil imaginar o que teria feito o autor de "O Aleph" se tivesse se decidido a corrigir o romance de seu pai. É mais fácil ler os rastros que o delatam. Este, por exemplo: "Se os elementos que formam o mundo são os mesmos e são contados, o acaso, o Deus ou os deuses que os manipulam teriam, no longo prazo, que combiná-los da mesma maneira". Importa pouco saber de qual dos dois é essa apologia da repetição. Muito mais interessante, singular e comovente é detectar em um livro antigo e esquecido os rastros que um pai e um filho deixaram ao cruzar-se não na vida, onde pouco os uniu, mas na literatura, à qual ambos deveram tudo.
*ALAN PAULS , 50, é escritor argentino, autor de "O Passado", entre outros. Tradução de CLARA ALLAIN
Artigo escrito especialmente para a Folha, o autor argentino ALAN PAULS conta como é o romance do pouco conhecido JORGE GUILHERME BORGES, pai de um dos mais importantes nomes da literatura, reeditado agora em Buenos Aires.
Folha de São Paulo-Ilustrada, 11/06/2009