sábado, 10 de abril de 2010

Salinger, as cartas não mentem

Em Nova York, o recluso autor de O Apanhador no Campo de Centeio é revelado em mostra que cobre um período de 40 anos de correspondências

Os originais. São 10 cartas e um cartão-postal endereçados ao então amigo Michael Mitchell e que serão apresentadas em duas etapas, no Morgan Library.

O Apanhador no Campo de Centeio fez de J. D. Salinger (1919- 2010) um dos escritores americanos mais originais, mais lidos e, absolutamente, o mais recluso. Depois do lançamento do romance, em 1951 - o primeiro e único publicado por ele e que vendeu cerca de 65 milhões de cópias mundo afora -, Salinger só publicou um conto, Hapworth 16, 1924, relato em forma de carta que tomou quase toda a edição de 19 de junho de 1965 da revista The New Yorker. Desde 1953, vivia protegido no anonimato da pequena e conservadora Cornish, em New Hampshire, onde morreu em janeiro deste ano. Ali era tratado apenas por Jerry e os moradores adoravam dar falsas informações para não deixar gente de fora se aproximar daquele vizinho que frequentava jantares da igreja. Ali cultivava a fama de odiar a fama e o mistério de ter ou não ter escrito algum outro livro.
Escreveu, sim. "Tenho 10, 12 anos de trabalho empilhado por aqui. Tenho dois roteiros em particular - livros, na verdade - que venho juntando e selecionando há anos", confirmou o escritor numa das cartas dele para Michael Mitchell, seu ex-vizinho e o pintor que produziu a capa da primeira edição de O Apanhador. Exibidas pela Morgan Library, em Nova York, dez dessas cartas e um cartão-postal são os primeiros textos de Salinger abertos ao público depois da morte dele. A confirmação do que sempre se especulou mas só agora se tem certeza, de que Salinger escreveu outros livros no seu refúgio em Cornish, aparece na carta para Mitchell escrita em 16 de outubro de 1966. Como ele sempre manteve a disciplina de escrever diariamente, é de se imaginar o volume de textos inéditos que vem por aí. É só uma questão de tempo e, talvez, alguns recursos jurídicos.
Autógrafo. As cartas para Mitchell, que morreu no ano passado, datam de maio de 1951 a janeiro de 1993, quando a amizade de mais de 40 anos com o escritor acabou, aparentemente por causa do dito livro. Na última, Salinger disse não ao pedido feito por Mitchell para lhe autografar uma cópia da primeira edição do romance. Acredita-se que o pintor tenha ficado danado da vida com isso e, no ano seguinte, vendeu as dez cartas e o cartão-postal do ex-amigo a um negociante de livros raros da Califórnia, de quem um colecionador comprou por cerca de US$ 35 mil e, em 1998, doou à Morgan Library.
Em obediência à privacidade exigida por Salinger - que valeu extenuantes processos movidos por ele para mantê-la e chegou ao ponto de cortar relações com a própria filha, Margaret, que publicou o best-seller Dream Catcher: A Memoir, sobre o pai -, a Morgan nunca permitiu que nem seus funcionários mais graduados lessem aquela correspondência. Com a morte do escritor, a restrição deixou de existir, como argumenta Declan Kiely, chefe do Departamento de Manuscritos Literários da Morgan. Para expô-las na sala principal da Morgan, Kiely dividiu as cartas em dois lotes.
Quatro ficam em exibição até o dia 11; as demais e o cartão-postal serão apresentados entre 13 de abril e 9 de maio. A correspondência agora está liberada para estudos mas, por precaução quanto a direitos autorais, a Morgan não permite que seja reproduzida.
O estilo de quem criou o ritmo rápido de falar, a sagacidade, a boca suja e o humor do adolescente Holden Caufield, que narra O Apanhador no Campo de Centeio na primeira pessoa, é o mesmo nas cartas que Salinger assinava como Jerry ou apenas J. Chamava Mitchell e Bet, a então mulher do pintor, de "Buddyroos", termo afetuoso usado por Caufield. Quase todas datilografadas, falando de família, amigos, viagens, trabalho e o isolamento do escritor em Cornish, as cartas revelam quatro décadas da vida dele. Em pelo menos uma, comenta dúvidas que tinha quanto à qualidade do seu trabalho, mas em nenhuma esclarece motivos pelos quais nunca mais quis publicar nada.
Além de confirmar a teoria de que o escritor deixou livros inéditos, as cartas a Mitchell contradizem a ideia de ermitão excêntrico. Elas trazem referências a fatos políticos ou celebridades da época em que foram escritas o que, segundo Kiely, demonstra que ele sempre esteve ligado ao mundo além de Cornish, mesmo depois de ter se enfurnado lá. A primeira, escrita apenas semanas antes da publicação de O Apanhador , foi mandada de Londres, para onde Salinger foi a fim de evitar a publicidade que viria com o lançamento do romance. Em várias demonstra quase ódio por admiradores e candidatos a biógrafos que tentavam se infiltrar na sua vida. Na última, diz a Mitchell que não seria mais capaz de autografar um livro porque isso o deprimia muito e poderia resultar em algo ruim. Estima-se que uma cópia autografada de O Apanhador alcançaria hoje preço em torno de US$ 100 mil.

Trechos de cartas

NO TEATRO
22 de maio de 1951
O escritor estava em Londres e foi ver Vivien Leigh e Laurence Olivier em César e Cleópatra.

"Muito bom, bem puro. O público daqui é tão estúpido quanto o de Nova York, mas as produções são muito melhores. Depois do teatro, Hamilton e eu jantamos na casa de Olivier, em Chelsea. Casinha maravilhosa."

OS FILHOS
16 de outubro de 1966
Relato de visita que fez a Nova York com Peggy e Matt, os dois filhos, para levá-los ao dentista.

"Adoro ficar sentado na cama lendo e olhando seus corpos adormecidos no quarto. Adoro ir a qualquer lugar com eles."

CASAMENTOS
6/abril/ 1985
Casado três vezes, fala da aptidão para a vida a dois.

"Bode velho que sou, de vez em quando ainda proponho casamento a quem passa pela minha janela."
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Reportagem:Tonica Chagas, ESPECIAL PARA O ESTADO, NOVA YORK Fonte: Estadão online, 07/04/2010

A literatura brasileira no século 21


RIO - Por volta de fins dos anos 70 do século 20, com a transformação das estruturas da geopolítica mundial, a literatura também passa por mudanças e arranjos que vão afastá-la dos pilares erigidos pelo movimento estruturalista via universidade e crítica literária. Com efeito, o processo de globalização e o consequente desejo de enfraquecimento das linhas demarcatórias entre os países, trazendo a reboque a debilitação do conceito de identidade, e a aplaudida (por muitos) vitória do sujeito, acabam por se manifestar no processo narrativo. Aspectos que evidenciam essa mudança no campo das letras são, entre outros, o esmaecimento das linhas fronteiriças entre os gêneros literários e o surgimento do conceito de economia do livro, com capas chamativas e a super-exposição do autor como parceiro fundamental para a venda da obra-objeto.
Essa ficção passou a ganhar notoriedade a partir dos anos 90, ao usufruir das diversas ferramentas de publicação e de divulgação na web. As categorias literárias e os critérios canônicos foram perdendo nitidez. Clarice Lispector, prenunciando com genialidade o pós-modernismo na literatura brasileira, já refletia, em Água viva, sobre essa questão do definhamento das fronteiras entre os gêneros: “Tentei classificar o livro: notas? Pensamentos? Fragmentos autobiográficos? Cheguei à conclusão que é tudo isso junto” – reflexões de Clarice que, diga-se, vão prefaciar dezenas de romances brasileiros dos anos 80. Essa dessacralização da literatura, às vezes algo cabotina, também teve o apoio de Ana Cristina César, uma das poetas mais emblemáticas dos anos 70/80: “A literatura ficou associada a uma coisa que te dá prestígio, a um artifício para você conquistar pessoas(...) acho isso ridículo”.
A cena literária, sobretudo a partir da década de 90, passa a se caracterizar por uma massificação de escritores, pela democratização criativa usada e abusada por todos, pela consolidação do individualismo, pelo umbiguismo autobiográfico e pelo descaso, às vezes absoluto, com a tradição – “não preciso ler poetas do passado para ser poeta”, ouvia-se pelos corredores das universidades. A classe média, a urbe e os fragmentos comunitários da cidade devoradora são escolhidos como temas e as ansiedades individuais trazidas à frente da cena. O roteiro cinematográfico sai fortalecido. É claro que a narrativa virá vazada em linguagem crua e direta. A violência e a competição desenfreada são moedas correntes. Mas houve uma abertura sadia para mais segmentos sociais e para novos experimentos de linguagem e de estilo. A aproximação com a oralidade não é, porém, a mesma da época dos modernistas em busca de uma identidade nacional: ela agora é a busca do reconhecimento e da fixação do sujeito social.
Alguns acontecimentos relativamente recentes, entretanto, parecem confluir para uma mudança radical do ponto de vista do homem em relação a si mesmo e ao mundo. O iminente colapso ecológico e a crise econômica, a exigir uma reformulação do sistema do capital, incitam dois polos reativos: o do ser agonizante ou melancólico diante das ruínas de um modelo malogrado, e daquele capaz de abandonar a longa fase individualista e buscar uma forma de se reconciliar com o outro e de se harmonizar com o planeta. Se observarmos o panorama literário do fim do primeiro decênio do século 21, podemos constatar que germina, entre muitos de nossos escritores, uma estética que remete para valores estritamente literários, com romances visitando a poética de João Cabral, de Drummond, de Graciliano e até de autores do movimento pré-modernista brasileiro. É uma jovem e dispersa tendência – que talvez se firme ou não. Cabe ao pesquisador arguto primeiro mapeá-la com isenção e, depois, acompanhar seu desenrolar. O que ela seria? Um mero desdobramento da pós-modernidade? Ou estaríamos diante de uma tendência que, agregando tônus, pode vir a superar o pós-moderno?
Qualquer que seja a resposta, o certo é que essa jovem e dispersa tendência, que poderíamos chamar de pós-pós, volta-se para a exposição de relações humanas mais delicadas e consentâneas da necessidade de uma sociedade menos bestializada – sociedade que o pós-moderno, por excesso de individualismo de uma economia liberal vencedora, acabou por priorizar. Do ponto de vista das categorias literárias sente-se o retorno do emprego metafórico e simbólico da linguagem e da poética. A língua portuguesa aparece mais caprichada e são abandonadas a indigência lexical e a oralidade propositalmente vulgarizada. Constata-se o uso mais frequente de técnicas gráficas como o velho travessão, por exemplo, diante da fala dos personagens, refletindo a presença mais assídua do narrador onisciente, além da diminuição drástica do emprego do palavrão e da violência gratuita. A fragmentação do texto e do sujeito, tão tipicamente pós-moderna, parece perder força. As narrativas são mais descritivas, volta insidiosamente o enredo. O regionalismo entra em foco e, então, o conflito campo versus cidade passa a reviver a província como o lugar do homem mais puro, sem o choque da violência e da efemeridade nociva da urbe. O amor – visto, em geral, no pós-moderno como algo piegas – entra devagarzinho em cena no lugar do sexo e da cocaína insaciáveis. As descrições das cenas de extrema violência parecem estancar antes do jorro cinematográfico do sangue.
A brutalidade das narrativas da intitulada Geração 90 vai desaparecer? A classe média, não só os especialistas em letras, vão voltar a ler romances?
Pela relativa diminuição da “fissura” dos blogs, segundo relato de alguns professores, os jovens blogueiros e twitteiros parecem estar se perguntando: “de que adianta uma escrita democratizada, para nós, jovens escritores que buscamos ingressar no mercado editorial, se não atendemos a um mercado de leitores? Só vou me sentir um verdadeiro escritor quando o meu texto no blog for publicado por uma editora” – eis um pensamento que, não raro, ouve-se por aí. Não se pode ainda esquecer do iminente impacto dos leitores de e-books no mercado editorial e as resultantes transformações em todas as esferas que englobam a ficção. Ocorrerá uma maior democratização da literatura? O recente concurso da Academia Brasileira de Letras de contos no Twitter, por exemplo, aumentará o público leitor? Quais as mudanças no fazer ficcional e na recepção das obras literárias?
A ficção brasileira do último decênio aponta novas veredas de composição literária. Cabe ao crítico atentar para os sinais de esgotamento de uma estética violenta, fragmentada e febril e para as consequentes bifurcações estilísticas de um movimento pós-pós-modernismo.
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Artigo escrito em conjunto resulta do estudo desenvolvido pelo grupo de pesquisa do curso de pós-graduação em literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Fonte: Jornal do Brasil online - 02/04/2010

Implementando a estratégia para o século 21

Hillary Rodham Clinton *
WASHINGTON - Os Estados Unidos e a Rússia assinaram esta semana, em Praga, o Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start), que determina a redução do número de armas nucleares estratégicas disponíveis nos nossos arsenais, para níveis só vistos na primeira década da era nuclear. Essa visível redução por parte das duas maiores potências nucleares do mundo reflete o nosso compromisso para com o princípio fundamental que norteia o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) – todas as nações têm o direito de explorar o uso pacífico de energia nuclear, mas todas têm também a responsabilidade de prevenir a proliferação nuclear, sendo que aquelas que possuem essas armas devem caminhar rumo ao desarmamento.
Este acordo é apenas um dos vários passos tangíveis que os Estados Unidos estão dando para honrar o compromisso assumido pelo presidente Obama de tornar os EUA e o mundo mais seguros, ao fomentar a redução da ameaça das armas nucleares, da proliferação e do terrorismo.
Na terça-feira, o presidente apresentou a Revisão da Postura Nuclear (NPR) do governo americano, um documento que providencia um roteiro para a redução do papel desempenhado e da quantidade das nossas armas nucleares, ao mesmo tempo que protege eficazmente os Estados Unidos e os nossos aliados das ameaças atuais mais prementes.
Na próxima semana, o presidente Obama vai receber mais de 40 líderes para uma Cúpula sobre Segurança Nuclear cujo objetivo é garantir, o mais rapidamente possível, a segurança de todo o material nuclear vulnerável para evitar que caia nas mãos de terroristas.
Em conjunto com os nossos parceiros internacionais, os Estados Unidos estão desenvolvendo esforços diplomáticos que produzam consequências tangíveis para países como o Irã e a Coreia do Norte, que desafiam o regime global de não-proliferação.
Essas medidas enviam mensagens claras sobre as nossas prioridades e a nossa determinação.
Aos nossos aliados e parceiros, e a todos os que há muito olham para os Estados Unidos como garantidor da segurança regional e global, dizemos: o nosso compromisso de defender os nossos interesses e os nossos aliados nunca foi tão forte como agora. Esses passos vão permitir que estejamos todos mais seguros.
Aos que se recusam a respeitar as suas obrigações internacionais e tentam intimidar os seus vizinhos, dizemos: o mundo está mais unido do que nunca e não aceitará a sua intransigência.
O acordo é testemunho da nossa própria determinação em respeitar as obrigações que assumimos no âmbito do TNP e as responsabilidades especiais que os Estados Unidos e a Rússia detêm por serem as duas maiores potências nucleares do mundo.
O novo Tratado Start prevê uma redução de 30% do número de ogivas nucleares estratégicas que é permitido aos Estados Unidos e à Rússia instalar e um regime de verificação robusto e eficaz, que irá estabilizar ainda mais a relação entre os dois países e minimizar os riscos de falhas de comunicação ou erros de cálculo.
E o Tratado não impõe quaisquer restrições aos nossos planos de defesa antimíssil – agora ou no futuro.
A Revisão da Postura Nuclear do presidente Obama integra os princípios subjacentes a esse Tratado – e a nossa agenda abrangente de não-proliferação e controle de armas – na nossa estratégia de segurança nacional. Nos nossos dias, a proliferação e o terrorismo nuclear substituíram o perigo identificado na era pós-Guerra Fria de um ataque nuclear de larga escala, constituindo hoje a mais premente ameaça aos Estados Unidos e à segurança global. O NPR enuncia uma nova abordagem, que irá garantir que as nossas defesas e diplomacia estejam orientadas para responder eficazmente a esses desafios.
Como parte desta nova abordagem, os Estados Unidos assumem o compromisso de não utilizar, ou ameaçar utilizar, armas nucleares contra um estado não-nuclear que seja membro do TNP e que respeite as suas obrigações de não-proliferação. Os Estados Unidos só considerariam fazer uso de armas nucleares em circunstâncias extremas para defender os interesses vitais dos EUA ou dos seus aliados e parceiros. No entanto, não deverá existir a mais pequena dúvida de que chamaremos à responsabilidade qualquer estado, grupo terrorista ou outra organização que apoie ou facilite esforços terroristas para obter ou utilizar armas de destruição em massa.
O NPR também realça a cooperação estreita com os nossos aliados de todo o mundo e mantém o nosso compromisso firme para com a nossa segurança mútua. Trabalharemos com os nossos parceiros para reforçar estruturas de segurança regional tais como defesas antimíssil e outras capacidades militares convencionais. Os EUA continuarão a defender uma política de dissuasão nuclear segura e eficaz, para nós mesmos e para os nossos aliados, enquanto essas armas continuarem a existir no mundo.
A proliferação nuclear e o terrorismo são desafios globais, que exigem uma resposta global. Foi por essa razão que o presidente Obama convidou líderes de todo o mundo a deslocarem-se a Washington, para uma Cúpula de Segurança Nuclear, na tentativa de obter compromissos de todos os países – especialmente dos que desfrutam dos benefícios da energia nuclear civil - para adotar medidas, que permitam pôr termo à proliferação e manter materiais nucleares vulneráveis em segurança. Se os terroristas algum dia vierem a obter esses materiais perigosos, os resultados seriam demasiado horríveis de imaginar.
Todos os países têm que admitir que o regime de não-proliferação não poderá sobreviver, caso os violadores possam continuar a agir em total impunidade. É por isso que estamos empenhados em construir consensos internacionais no que toca a medidas que possam convencer os líderes do Irã a mudar de rumo; medidas que passam nomeadamente por novas sanções do Conselho de Segurança da ONU, que os obriguem a respeitar as suas obrigações ou a enfrentar um isolamento cada vez maior e consequências dolorosas. No que toca à Coreia do Norte, continuamos passando a mensagem de que não basta regressar à mesa de negociações. Pyongyang tem que optar pela desnuclearização completa e verificável, por meio de passos irreversíveis, se quiser uma relação com os EUA que seja normalizada e livre de sanções.
Todos esses passos, todos os nossos tratados, cúpulas e sanções partilham do objetivo de uma maior segurança para os EUA, para os nossos aliados e todos os povos do mundo.
Em abril, em plena Praça Hradcany, em Praga, o presidente Obama desafiou o mundo a desenhar um futuro livre dos perigos nucleares, que nos assombram há mais de meio século. Este é o trabalho de uma vida, se não mais do que isso. Mas hoje, após um ano, já estamos fazendo progressos rumo a esse objetivo.
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* Secretária de Estado dos EUA
* Artigo originalmente publicado no jornal The Guardian
Fonte: Jornal do Brasil - 09/04/2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Vinde a eles as criancinhas?

Frei Betto*
As sucessivas denúncias de pedofilia e abuso sexual cometidos por sacerdotes e acobertados por bispos e cardeais envergonham a Igreja Católica e abalam a fé de inúmeros fiéis.
No caso da Irlanda, onde mais de 2 mil crianças entregues aos cuidados de internatos religiosos foram vítimas da prática criminosa de assédio sexual, o papa Bento XVI divulgou documento em que pede perdão em nome da Igreja, repudia como abominável o que ocorreu e exige indenização às vítimas.
Faltou ao pontífice determinar punições da Igreja aos culpados, ainda que tenha consentido em submetê-los às leis civis. O clamor das vítimas e de suas famílias exige que a Santa Sé aja com rigor: suspensão imediata do ministério sacerdotal, afastamento das atividades pastorais e sujeição às leis civis que punem tais práticas hediondas.
A crescente laicização da sociedade europeia reduz drasticamente o número de fiéis católicos e a frequência à igreja. O catolicismo europeu, atrelado a uma espiritualidade moralista e a uma teologia acadêmica, afastado do mundo dos pobres e imbuído de um saudosismo ultramontano que o faz ignorar o Concílio Vaticano II, perde sempre mais o entusiasmo evangélico e a ousadia profética.
Dominado por movimentos fundamentalistas que cultivam a fé em Jesus, mas não a fé de Jesus, o catolicismo europeu cheira a heresia ao incensar a papolatria e encarar o mundo, não mais como “vale de lágrimas”, e sim como refém de um relativismo que corrói as noções de autoridade, pecado e culpa.
Ao olvidar a dimensão social do pecado, como a injustiça, a opressão, o latifúndio improdutivo ou a apologia da desigualdade, o catolicismo liberal centrou sua pregação na obsessão sexual. Como se Deus tivesse incorrido em erro ao tornar a sexualidade prazerosa.
Como o Espírito Santo se vale de vias transversas para renovar a Igreja, tomara que as denúncias de pedofilia eclesiástica sirvam para pôr fim ao celibato obrigatório do clero diocesano, permitir a ordenação sacerdotal de homens e mulheres casados e ultrapassar o princípio doutrinário, ainda vigente, de que, no matrimônio, as relações sexuais são admissíveis apenas quando visam à procriação.
Ora, estivesse Deus de acordo com tal princípio, não teria feito do gênero humano uma exceção na espécie animal e, portanto, destituiria o homem e a mulher da capacidade de amar e expressar o amor através de carícias, e incutiria neles o cio próprio dos períodos procriatórios dos bichos, o que os faz se acasalar.
Jesus foi celibatário, mas é uma falácia deduzir que pretendeu impor sua opção aos apóstolos. Tanto que, segundo o evangelho de Marcos, curou a sogra de Pedro (1, 29-31). Ora, se tinha sogra, Pedro tinha mulher. E ainda foi escolhido como primeiro cabeça da Igreja.
Os evangelhos citam as mulheres que integravam o grupo de discípulos de Jesus: Suzana, Joana etc. (Lucas 8, 1-3). E deixam claro que a primeira pessoa a anunciar Jesus como Deus entre nós foi uma apóstola, a samaritana (João 4, 39).
Nos seminários e casas de formação do clero e de religiosos é preciso avaliar se o que se pretende é formar padres ou cristãos, uma casta sacerdotal ou evangelizadores, pessoas submissas ao figurino romano ou homens e mulheres dotados de profunda espiritualidade evangélica, afeitos à vida de oração e comprometidos com os direitos dos pobres.
No tempo de Jesus, as crianças eram desprezadas por sua ignorância e repudiadas pelos mestres espirituais. Jesus agiu na contramão dos preceitos vigentes ao permitir que as crianças dele se aproximassem e ao citá-las como exemplo de fidelidade a Deus. Porém, deixou claro que seria preferível amarrar uma pedra no pescoço e se atirar na água do que escandalizar uma delas (Marcos 9, 42).
As sequelas psíquicas e espirituais daqueles que confiaram em sacerdotes tarados são indeléveis e de alto custo no tratamento terapêutico prolongado. As vítimas fazem muito bem ao exigir indenização. Resta à Igreja punir os culpados e cuidar para que tais aberrações não se repitam.
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*Escritor, é autor de Um homem chamado Jesus (Rocco), entre outros livros

Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 09/04/2010

Energia e mudanças climáticas

Douglas Estevam*

O mais recente livro de François Houtart, Agroenergia: Solução para o Clima ou Saída da Crise para o Capital, nos apresenta uma ampla análise das questões que estão no centro do debate sobre o futuro da humanidade. O esforço da obra “consiste em descrever a situação da dupla crise energética e climática e colocar, em seguida, a questão das novas energias, em particular dos agrocombustíveis, no seu conjunto”. Na análise do fenômeno, o autor não ignora que “a questão dos agrocombustíveis tornou-se um problema ideológico”. A análise aborda o problema de uma perspectiva histórica e social, apontando a energia como “pivô da economia de mercado capitalista e mesmo disto que chamamos civilização ocidental”. Para o autor, “a energia desempenhou o papel central nesse processo, pois ela se encontra no coração das duas atividades principais da economia: a produção e o transporte”.
Setores-chave da economia, o transporte e a produção foram consideravelmente fomentados na fase neoliberal do capitalismo, e de forma global. Assim, a demanda por energia explodiu, com todas as suas consequências. Entre 1990 e 2003, o transporte marítimo cresceu 26,2% e o aéreo 25,6%. Somente na Europa, o tráfego aéreo viu um aumento de 73% no mesmo período e a Comissão Europeia prevê crescimento de 112% até 2012. O comércio marítimo passou de 2,5 bilhões de toneladas em 1970 para 6,1 bilhões em 2003. Mantida esta lógica, a estimativa é que, em relação a 2002, o consumo de energia terá aumentado 60% em 2030.
Combustíveis fósseis não renováveis – petróleo, gás e carvão – são as principais fontes de energia utilizadas atualmente, correspondendo a 80% do consumo mundial, proporção que, segundo as estimativas da Agência Internacional de Energia (AIE), continuará a mesma em 2030. Os dados de 2006 indicam que o petróleo corresponde a 35% do total utilizado, o carvão 23% e o gás 21%. Dos 48 países produtores de petróleo, 33 apresentam uma redução de produção. Os EUA, consumidores de 25% do petróleo mundial, não possuem mais do que 3% das reservas conhecidas. Enquanto na década de 1950 o país era autossuficiente na utilização do recurso, em 2007 ele importou 75% do que consumiu.
Enquanto o petróleo corresponde a uma das principais fontes de energia para o transporte e o aquecimento na produção de eletricidade, as outras duas fontes são mais importantes, o carvão representando 39% da produção mundial (na China, 67%) e o gás 20%. As previsões são de que o consumo mundial de energia elétrica, que em 2000 era de 14.767.750 kW, mantidos o modelo de consumo e o desenvolvimento, necessitará de 26.018.000 kW em 2025. Complementando a lista de fontes de energia utilizadas no mundo, aparece o urânio, que responde por 16% do total (na França esta fonte respondia, em 2006, por 76% da energia consumida).

A crise climática e o aquecimento do planeta

“A crise climática é claramente o resultado da atividade humana.” Houtart baseia esta afirmação nos estudos desenvolvidos pelo Grupo Intergovernamental sobre a Evolução do Clima (GIEC), da ONU (amplamente citado no livro), cujas pesquisas asseguram em 90% a influência do homem nas transformações climáticas. Influência só recentemente aceita de maneira mais ampla. O autor restitui o processo de aceitação do problema, que o discurso neoliberal tentou negar, em princípio pelo ceticismo e em seguida por meio da deslegitimação científica, até a fase atual, em que, dada a impossibilidade de negar os efeitos das mudanças climáticas, uma nova etapa do discurso se configurou nas “soluções pelo mercado” como saída para a crise.
O problema do aquecimento global não está ligado unicamente à questão da energia. A pecuária responde por 37% das emissões de metano, gás cujo efeito danoso é 23 vezes maior que o do carbono. Junta-se a isso o enfraquecimento dos chamados poços de carbono, as florestas e oceanos com sua capacidade de eliminação de carbono. Segundo os estudos citados pelo autor, se “desde 2002 a taxa de CO2 aumentou em 35%, a metade se deve ao uso de combustíveis fósseis e a outra metade ao declínio da capacidade de absorção das florestas e oceanos”. A destruição de 20% da Amazônia brasileira, entre 1960 e 2005, equivale a 1,5 bilhão de toneladas adicionais de gás carbônico na atmosfera a cada ano. “Entre as causas principais, vem em primeiro lugar a extensão das monoculturas de soja para a alimentação humana e animal”, seguida pela produção de eucaliptos e pela pecuária. As queimadas representam a maior parte da poluição produzida no país, que assumiu a posição de quarto maior emissor de gás de efeito estufa do mundo.
Houtart analisa, num segundo momento de sua obra, a importância que a agroenergia e, mais precisamente, os agrocombustíveis desempenham como possíveis substitutos das fontes não renováveis de energia e para o aquecimento global. Lembrando que as energias fósseis correspondem hoje a 80% da produção de energia, ele delimita o problema lembrando que a agroenergia “representará somente 2% do consumo em 2012 e poderá chegar a 7% em 2030”, e prossegue afirmando que, “mesmo se toda a superfície cultivável da Terra fosse consagrada à produção de energia, ela produziria o equivalente a 1,4 bilhões de litros de petróleo. Ora, as necessidades atuais são de 3,5 bilhões e aumentam sem cessar”.
Desenvolvendo o assunto, ele nos apresenta um estudo das formas de produção de agroenergia utilizadas atualmente, sobretudo as de primeira geração centradas no etanol e no agrodiesel. Inserindo em sua interpretação o que a teoria econômica chama de “externalidades”, fatores não levados em conta no modo de operação do sistema econômico enquanto estes não “comprometerem o processo de acumulação do capital”, Houtart aborda as consequências sociais e ambientais desse modelo em seus diversos aspectos e particularidades, num conjunto de países e regiões, tais como o Brasil, com a produção de cana-de-açúcar, soja e eucalipto (cuja utilização se insere nas fontes de segunda geração), a Colômbia, que utiliza a palma africana, a África, com o pinhão-manso (Jatropha curcas), e a Ásia – especificamente a Malásia e a Indonésia –, onde é produzido o óleo de palma. A descrição e a interpretação desses processos evidenciam uma lógica de “capitalismo agrário”, apresentando inúmeros efeitos sobre a água, o solo, o meio ambiente, a crise alimentar, a violência e a concentração de terras.
“Uma energia mais limpa significa novas tecnologias e possibilidades ampliadas de ganhar dinheiro”, afirma o editorial da revista inglesa The Economist, numa citação utilizada no livro. Apresentando exemplos da colaboração de Estados e poderes públicos, da importância e controle de grandes empresas, da exploração do trabalho, da reprodução das desigualdades entre os países ricos e os países pobres, da especulação, a totalidade das relações econômicas e políticas envolvendo a produção dos agrocombustíveis é analisada em suas inter-relações. Assim, “podemos concluir do conjunto das considerações que a função do desenvolvimento dos agrocombustíveis é a do lucro rápido, fonte segura de acumulação a curto prazo”. Como resposta para as crises energéticas e ambientais, tal sistema representa “uma contribuição nula ou fraca para a solução do problema do clima e somente uma contribuição marginal ao consumo de combustíveis. Somente uma produção massiva cobrindo centenas de milhões de hectares poderia significar uma contribuição substancial para a solução da crise energética”.
François Houtart tem uma larga trajetória como teólogo e sociólogo. Numa estreita relação com diversos povos do mundo, em especial da América Latina, onde esteve associado à Teologia da Libertação, da África e da Ásia, em seus mais de 80 anos de vida, ele desenvolveu uma extensa reflexão sobre os processos históricos e sociais. Sua reflexão se caracteriza por um profundo humanismo, que dá às páginas de seu livro a força do testemunho de alguém que luta pela vida. Ele nos apresenta “pistas de soluções” para as crises que vivemos: redução do consumo de energias fósseis, utilização de outras fontes de energia, como a hidroenergia, a energia solar, a eólica e a geotérmica, mas isso tudo num quadro de pós-capitalismo, priorizando o valor de uso sobre o valor de troca, uma generalização da democracia e da multiculturalidade. E conclui: “A solução para a dupla crise da energia e do clima se encontra numa visão global de mudança de civilização, e não somente num conjunto de soluções técnicas. É somente a este preço que a humanidade poderá se engajar em uma via que permita sua sobrevivência”.
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*(Envolverde/MST)
Fonte: Mercado ético online, 08/04/2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Os Dez Mandamentos

Ladislau Dowbor*
Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável.

Eis o artigo.

Como sociedade, desejamos não somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque não, com felicidade. E isto implica elencarmos de forma ordenada os resultados mínimos a serem atingidos, com os processos decisórios correspondentes. Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. Não temos a ilusão relativamente à distância entre a realidade política de hoje e as medidas sistematizadas abaixo. Mas pareceu-nos essencial, de toda forma, elencar de forma organizada as medidas necessárias, pois ter um norte mais claro ajuda na construção de uma outra governança planetária. Não estão ordenadas por ordem de importância, pois a maioria tem implicações simultâneas e dimensões interativas. Mas todos os mandamentos deverão ser obedecidos, pois a ira dos elementos nos atingirá a todos, sem precisar esperar a outra vida.
Considerando que a obediência à versão original dos Dez Mandamentos foi apenas aleatória, desta vez o Autor teve a prudência de acrescentar a cada Mandamento uma nota de explicação, destinada em particular aos impenitentes.
I – Não comprarás os Representantes do Povo
Resgatar a dimensão pública do Estado: Como podemos ter mecanismos reguladores que funcionem se é o dinheiro das corporações a regular que elege os reguladores? Se as agências que avaliam risco são pagas por quem cria o risco? Se é aceitável que os responsáveis de um banco central venham das empresas que precisam ser reguladas, e voltem para nelas encontrar emprego?
Uma das propostas mais evidentes da última crise financeira, e que encontramos mencionada em quase todo o espectro político, é a necessidade de se reduzir a capacidade das corporações privadas ditarem as regras do jogo. A quantidade de leis aprovadas no sentido de reduzir impostos sobre transações financeiras, de reduzir a regulação de banco central, de autorizar os bancos a fazerem toda e qualquer operação, somado com o poder dos lobbies financeiros tornam evidente a necessidade de se resgatar o poder regulador do estado, e para isto os políticos devem ser eleitos por pessoas de verdade, e não por pessoas jurídicas, que constituem ficções em termos de direitos humanos. Enquanto não tivermos financiamento público das campanhas, políticas que representem os interesses dos cidadãos, prevalecerão os interesses econômicos de curto prazo, os desastres ambientais e a corrupção.

II – Não Farás Contas erradas
As contas têm de refletir os objetivos que visamos. O PIB indica a intensidade do uso do aparelho produtivo, mas não nos indica a utilidade do que se produz, para quem, e com que custos para o estoque de bens naturais de que o planeta dispõe. Conta como aumento do PIB um desastre ambiental, o aumento de doenças, o cerceamento de acesso a bens livres. O IDH já foi um imenso avanço, mas temos de evoluir para uma contabilidade integrada dos resultados efetivos dos nossos esforços, e particularmente da alocação de recursos financeiros, em função de um desenvolvimento que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justo e ambientalmente sustentável. As metodologias existem, aplicadas parcialmente em diversos países, setores ou pesquisas.
A ampliação dos indicadores internacionais como o IDH, a generalização de indicadores nacionais como os Calvert-Henderson Quality of Life Indicators nos Estados Unidos, as propostas da Comissão Stiglitz/Sen/Fitoussi, o movimento FIB – Felicidade Interna Bruta – todos apontam para uma reformulação das contas. A adoção em todas as cidades de indicadores locais de qualidade de vida – veja-se os Jacksonville Quality of Life Progress Indicators – tornou-se hoje indispensável para que seja medido o que efetivamente interessa: o desenvolvimento sustentável, o resultado em termos de qualidade de vida da população. Muito mais do que o produto (output), trata-se de medir o resultado (outcome).

III – Não Reduzirás o Próximo à Miséria
Algumas coisas não podem faltar a ninguém. A pobreza crítica é o drama maior, tanto pelo sofrimento que causa em si, como pela articulação com os dramas ambientais, o não acesso ao conhecimento, a deformação do perfil de produção que se desinteressa das necessidades dos que não têm capacidade aquisitiva. A ONU calcula que custaria 300 bilhões de dólares (no valor do ano 2000) tirar da miséria um bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. São custos ridículos quando se considera os trilhões transferidos para grupos econômicos financeiros no quadro da última crise financeira. O benefício ético é imenso, pois é inaceitável morrerem de causas ridículas 10 milhões de crianças por ano. O benefício de curto e médio prazo é grande, na medida em que os recursos direcionados à base da pirâmide dinamizam imediatamente a micro e pequena produção, agindo como processo anticíclico, como se tem constatado nas políticas sociais de muitos países. No mais longo prazo, será uma geração de crianças que terão sido alimentadas decentemente, o que se transforma em melhor aproveitamento escolar e maior produtividade na vida adulta. Em termos de estabilidade política e de segurança geral, os impactos são óbvios. Trata-se do dinheiro mais bem investido que se possa imaginar, e as experiências brasileira, mexicana e de outros países já nos forneceram todo o know-how correspondente. A teoria tão popular de que o pobre se acomoda se receber ajuda, é simplesmente desmentida pelos fatos: sair da miséria estimula, e o dinheiro é simplesmente mais útil onde é mais necessário.

IV – Não Privarás Ninguém do Direito de Ganhar o seu Pão
Universalizar a garantia do emprego é viável. Toda pessoa que queira ganhar o pão da sua família deve poder ter acesso ao trabalho. Num planeta onde há um mundo de coisas a fazer, inclusive para resgatar o meio ambiente, é absurdo o número de pessoas sem acesso a formas organizadas de produzir e gerar renda. Temos os recursos e os conhecimentos técnicos e organizacionais para assegurar, em cada vila ou cidade, acesso a um trabalho decente e socialmente útil. As experiências de Maharashtra na Índia demonstraram a sua viabilidade, como o mostram as numerosas experiências brasileiras, sem falar no New Deal da crise dos anos 1930. São opções onde todos ganham: o município melhora o saneamento básico, a moradia, a manutenção urbana, a policultura alimentar. As famílias passam a poder viver decentemente, e a sociedade passa a ser melhor estruturada e menos tensionada. Os gastos com seguro-desemprego se reduzem. No caso indiano, cada vila ou cidade é obrigada a ter um cadastro de iniciativas intensivas em mão de obra.
Dinheiro emprestado ou criado desta forma representa investimento, melhoria de qualidade de vida, e dá excelente retorno. E argumento fundamental: assegura que todos tenham o seu lugar para participar na construção de um desenvolvimento sustentável. Na organização econômica, além do resultado produtivo, é essencial pensar no processo estruturador ou desestruturador gerado. A pesca oceânica industrial pode ser mais produtiva em volume de peixe, mas o processo é desastroso, tanto para a vida no mar como para centenas de milhões de pessoas que viviam da pesca tradicional. A dimensão de geração de emprego de todas as iniciativas econômicas tem de se tornar central. Assegurar a contribuição produtiva de todos, ao mesmo tempo que se augmenta gradualmente o salário mínimo e se reduz a jornada, leva simplesmente a uma prosperidade mais democrática.

V – Não Trabalharás Mais de Quarenta Horas
Podemos trabalhar menos, e trabalharemos todos, com tempo para fazermos mais coisas interessantes na vida. A sub-utilização da força de trabalho é um problema planetário, ainda que desigual na sua gravidade. No Brasil, conforme vimos, com 100 milhões de pessoas na PEA, temos 31 milhões formalmente empregadas no setor privado, e 9 milhões de empregados públicos. A conta não fecha. O setor informal situa-se na ordem de 50% da PEA. Uma imensa parte da nação “se vira” para sobreviver. No lado dos empregos de ponta, as pessoas não vivem por excesso de carga de trabalho. Não se trata aqui de uma exigência de luxo: são incontáveis os suicídios nas empresas onde a corrida pela eficiência se tornou simplesmente desumana. O stress profissional está se tornando uma doença planetária, e a questão da qualidade de vida no trabalho passa a ocupar um espaço central. A redistribuição social da carga de trabalho torna-se hoje uma necessidade. As resistências são compreensíveis, mas a realidade é que com os avanços da tecnologia os processos produtivos tornam-se cada vez menos intensivos em mão de obra, e reduzir a jornada é uma questão de tempo. Não podemos continuar a basear o nosso desenvolvimento em ilhas tecnológicas ultramodernas enquanto se gera uma massa de excluídos, inclusive porque se trata de equilibrar a remuneração e, consequentemente, a demanda. A redução da jornada não reduzirá o bem estar ou a riqueza da população, e sim a deslocará para novos setores mais centrados no uso do tempo livre, com mais atividades de cultura e lazer. Não precisamos necessariamente de mais carros e de mais bonecas Barbie, precisamos sim de mais qualidade de vida.

VI – Não Viverás para o Dinheiro
A mudança de comportamento, de estilo de vida, não constitui um sacrifício, e sim um resgate do bom senso. Neste planeta de 7 bilhões de habitantes, com um aumento anual da ordem de 75 milhões, toda política envolve também uma mudança de comportamento individual e da cultura do consumo. O respeito às normas ambientais, a moderação do consumo, o cuidado no endividamento, o uso inteligente dos meios de transporte, a generalização da reciclagem, a redução do desperdício – há um conjunto de formas de organização do nosso cotidiano que passa por uma mudança de valores e de atitudes frente aos desafios econômicos, sociais e ambientais.
No apagão energético do final dos anos 90 no Brasil, constatou-se como uma boa campanha informativa, o papel colaborativo da mídia, e a punição sistemática dos excessos permitiu uma racionalização generalizada do uso doméstico da energia. Esta dimensão da solução dos problemas é essencial, e envolve tanto uma legislação adequada, como sobretudo uma participação ativa da mídia.
Hoje 95% dos domicílios no Brasil têm televisão, e o uso informativo inteligente deste e de outros meios de comunicação tornou-se fundamental. Frente aos esforços necessários para reequilibrar o planeta, não basta reduzir o martelamento publicitário que apela para o consumismo desenfreado, é preciso generalizar as dimensões informativas dos meios de comunicação. A mídia científica praticamente desapareceu, os noticiários navegam no atrativo da criminalidade, quando precisamos vitalmente de uma população informada sobre os desafios reais que enfrentamos. A pergunta a se fazer a cada ato de conusmo, não é só se “é bom para mim”, mas se é bem para o planeta e o bem comum, e buscar um equilíbrio razoável. A opção individual é essencial, mas não suficiente.
Grande parte da mudança do comportamento individual depende de ações públicas: as pessoas não deixarão o carro em casa (ou deixarão de tê-lo) se não houver transporte público, não farão reciclagem se não houver sistemas adequados de coleta. Precisamos de uma política pública de mudança do comportamento individual.

VII – Não Ganharás Dinheiro com o Dinheiro dos Outros
Racionalizar os sistemas de intermediação financeira é viável. A alocação final dos recursos financeiros deixou de ser organizada em função dos usos finais de estímulo e orientação de atividades econômicas e sociais, para obedecer às finalidades dos próprios intermediários financeiros. A atividade de crédito é sempre uma atividade pública, seja no quadro das instituições públicas, seja no quadro dos bancos privados que trabalham com dinheiro do público, e que para tanto precisam de uma carta-patente que os autorize a ganhar dinheiro com dinheiro dos outros. A recente crise financeira de 2008 demonstrou com clareza o caos que gera a ausência de mecanismos confiáveis de regulação no setor. Nas últimas duas décadas, temos saltado de bolha em bolha, de crise em crise, sem que a relação de forças permita a reformulação do sistema de regulação em função da produtividade sistêmica dos recursos. Enquanto não se gera uma relação de forças mais favorável, precisamos batalhar os sistemas nacionais de regulação financeira. O dinheiro não é mais produtivo onde rende mais para o intermediário: devemos buscar a produtividade sistêmica de um recurso que é público.
A Coréia do Sul abriu recentemente um financiamento de 36 bilhões de dólares para financiar transporte coletivo e alternativas energéticas, gerando com isto 960 mil empregos. O impacto positivo é ambiental pela redução de emissões, é anti-cíclico pela dinamização da demanda, é social pela redução do desemprego e pela renda gerada, é tecnológico pelas inovações que gera nos processos produtivos mais limpos. Tem inclusive um impacto raramente considerado, que é a redução do tempo vida que as pessoas desperdiçam no transporte. Trata-se aqui, evidentemente, de financiamento público, pois os bancos comerciais não teriam esta preocupação, nem esta visão sistêmica. (UNEP,Global Green New Deal, 2009). Em última instância, os recursos devem ser tornados mais acessíveis segundo que os objetivos do seu uso sejam mais produtivos em termos sistêmicos, visando um desenvolvimento mais inclusivo e mais sustentável. A intermediação financeira é um meio, não é um fim.
Particular atenção precisa ser dada aos intermediários que ganham apenas nos fluxos entre outros intermediários – com papéis que representam direitos sobre outros papéis – e que têm tudo a ganhar com a maximização dos fluxos, pois são remunerados por comissões sobre o volume e ganhos, e geram portanto volatilidade e pro-ciclicidade, com os monumentais volumes que nos levaram por exemplo a valores em derivativos da ordem de 863 trilhões de dólares em junho de 2008, 15 vezes o PIB mundial. A intermediação especulativa – diferentemente das intermediação de compras e vendas entre produtores e utilizadores finais – apenas gera uma pirâmide especulativa e insegurança, além de desorganizar os mercados e as políticas econômicas (1).

VIII – Não Tributarás Boas Iniciativas
A filosofia do imposto, de quem se cobra, e a quem se aloca, precisa ser revista. Uma política tributária equilibrada na cobrança, e reorientada na aplicação dos recursos, constitui um dos instrumentos fundamentais de que dispomos, sobretudo porque pode ser promovida por mecanismos democráticos. O eixo central não está na redução dos impostos, e sim na cobrança socialmente mais justa e na alocação mais produtiva em termos sociais e ambientais. A taxação das transações especulativas (nacionais ou internacionais) deverá gerar fundos para financiar uma série de políticas essenciais para o reequilíbrio social e ambiental. O imposto sobre grandes fortunas é hoje essencial para reduzir o poder político das dinastias econômicas (10% das famílias do planeta é dono de 90% do patrimônio familiar acumulado no planeta). O imposto sobre a herança é fundamental para dar chances a partilhas mais equilibradas para as sucessivas gerações. O imposto sobre a renda deve adquirir mais peso relativamente aos impostos indiretos, com alíquotas que permitam efetivamente redistribuir a renda. É importante lembrar que as grandes fortunas do planeta em geral estão vinculadas não a um acréscimo de capacidades produtivas do planeta, e sim à aquisição maior de empresas por um só grupo, gerando uma pirâmide cada vez mais instável e menos governável de propriedades cruzadas, impérios onde a grande luta é pelo controle do poder financeiro, político e midiático, e a apropriação de recursos naturais.
O sistema tributário tem de ser reformulado no sentido anti-cíclico, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas; no sentido do maior equilíbrio social ao ser fortemente progressivo; e no sentido de proteção ambiental ao taxar emissões tóxicas ou geradoras de mudança climática, bem como o uso de recursos naturais não renováveis (2).
O poder redistributivo do Estado é grande, tanto pelas políticas que executa – por exemplo as políticas de saúde, lazer, saneamento e outras infra-estruturas sociais que melhoram o nível de consumo coletivo – como pelas que pode fomentar, como opções energéticas, inclusão digital e assim por diante. Fundamental também é a política redistributiva que envolve política salarial, de previdência, de crédito, de preços, de emprego.
A forte presença das corporações junto ao poder político constitui um dos entraves principais ao equilíbrio na alocação de recursos. O essencial é assegurar que todas as propostas de alocação de recursos sejam analisadas pelo triplo enfoque econômico, social e ambiental. No caso brasileiro, constatou-se com as recentes políticas sociais (“Bolsa-Família”, políticas de previdência etc.) que volumes relativamente limitados de recursos, quando chegam à “base da pirâmide”, são incomparavelmente mais produtivos, tanto em termos de redução de situações críticas e consequente aumento de qualidade de vida, como pela dinamização de atividades econômicas induzidas pela demanda local. A democratização aqui é fundamental. A apropriação dos mecanismos decisórios sobre a alocação de recursos públicos está no centro dos processos de corrupção, envolvendo as grandes bancadas corporativas, por sua vez ancoradas no financiamento privado das campanhas.

IX – Não Privarás o Próximo do Direito ao Conhecimento
Travar o acesso ao conhecimento e às tecnologias sustentáveis não faz o mínimo sentido. A participação efetiva das populações nos processos de desenvolvimento sustentável envolve um denso sistema de acesso público e gratuito à informação necessária. A conectividade planetária que as novas tecnologias permitem constitui uma ampla via de acesso direto. O custo-benefício da inclusão digital generalizada é simplesmente imbatível, pois é um programa que desonera as instâncias administrativas superiores, na medida em que as comunidades com acesso à informação se tornam sujeitos do seu próprio desenvolvimento. A rapidez da apropriação deste tipo de tecnologia até nas regiões mais pobres se constata na propagação do celular, das lan houses mais modestas. O impacto produtivo é imenso para os pequenos produtores que passam a ter acesso direto a diversos mercados tanto de insumos como de venda, escapando aos diversos sistemas de atravessadores comerciais e financeiros. A inclusão digital generalizada é um destravador potente do conjunto do processo de mudança que hoje se torna indispensável.
O mundo frequentemente esquece que 2 bilhões de pessoas ainda cozinham com lenha, área em que há inovações significativas no aproveitamento calórico por meio de fogões melhorados. Tecnologias como o sistema de cisternas do Nordeste, de aproveitamento da biomassa, de sistemas menos agressivos de proteção dos cultivos etc., constituem um vetor de mudança da cultura dos processos produtivos. A criação de redes de núcleos de fomento tecnológico online, com ampla capilaridade, pode se inspirar da experiência da Índia, onde foram criados núcleos em praticamente todas as vilas do país. O World Economic and Social Survey 2009 é particularmente eloquente ao defender a flexibilização de patentes no sentido de assegurar ao conjunto da população mundial o acesso às informações indispensáveis para as mudanças tecnológicas exigidas por um desenvolvimento sustentável.

X – Não Controlarás a Palavra do Próximo
Democratizar a comunicação tornou-se essencial. A comunicação é uma das áreas que mais explodiu em termos de peso relativo nas transformações da sociedade. Estamos em permanência cercados de mensagens. As nossas crianças passam horas submetidas à publicidade ostensiva ou disfarçada. A indústria da comunicação, com sua fantástica concentração internacional e nacional - e a sua crescente interação entre os dois níveis - gerou uma máquina de fabricar estilos de vida, um consumismo obsessivo que reforça o elitismo, as desigualdades, o desperdício de recursos como símbolo de sucesso. O sistema circular permite que os custos sejam embutidos nos preços dos produtos que nos incitam a comprar, e ficamos envoltos em um cacarejo permanente de mensagens idiotas pagas do nosso bolso. Mais recentemente, a corporação utiliza este caminho para falar bem de si, para se apresentar como sustentável e, de forma mais ampla, como boa pessoa. O espectro eletromagnético em que estas mensagens navegam é público, e o acesso a uma informação inteligente e gratuita para todo o planeta, é simplesmente viável. Expandindo gradualmente as inúmeras formas alternativas de mídia que surgem por toda parte, há como introduzir uma cultura nova, outras visões de mundo, cultura diversificada e não pasteurizada, pluralismo em vez de fundamentalismos religiosos ou comerciais.
O fato que mais inspira esperança é a multiplicação impressionante de iniciativas nos planos da tecnologia, dos sistemas de gestão local, do uso da internet para democratizar o conhecimento, da descoberta de novas formas de produção menos agressivas, de formas mais equilibradas de acesso aos recursos. O Brasil neste plano tem mostrado que começar a construir uma vida mais digna para o “andar de baixo”, para os dois terços de excluídos, não gera tragédias para os ricos. Inclusive, numa sociedade mais equilibrada, todos passarão a viver melhor. Tolerar um mundo onde um bilhão de pessoas passam fome, onde 10 milhões de crianças morrem anualmente de causas ridículas, e onde se dilapidam os recursos naturais das próximas gerações, em proveito de fortunas irresponsáveis, já não é possível.
Nesta época interativa, o Altíssimo declarou-se disposto a considerar outros Mandamentos. Sendo o Secretariado do Altíssimo hoje bem equipado, os que por acaso tenham sugestões ou necessitem consultar documentos mais completos, poderão se instruir com outros Assessores, em linha direta sob www.criseoportunidade.wordpress.com. Críticas, naturalmente, deverão ser endereçadas a Instâncias Superiores. Apreciações positivas e sugestões de outros Mandamentos poderão ser enviadas ao blog acima citado, ou no e-mail ladislau@dowbor.org

Notas:

(1) BIS Quarterly Review, December 2008, Naohiko Baba et al., www.bis.org/publ/qtrpdf/r_qt0812b.pdf p. 26: “In November, the BIS released the latest statistics based on positions as at end-june 2008 in the global over-the-counter (OTC) derivatives markets. The notional amounts outstanding of OTC derivatives continued to expand in the first half of 2008. Notional amounts of all types of OTC contracts stood at $863 trillion at the end of June, 21% higher than six months before”. São 863 trilhões de dólares de derivativos emitidos, frente a um PÌB mundial de cerca de 60 trilhões.
(2) Susan George traz uma ilustração convincente: um bilionário que aplica o seu dinheiro com uma conservadora remuneração de 5% ao ano, aumenta a sua fortuna em 137 mil dólares por dia. Taxar este tipo de ganhos não é “aumentar os impostos”, é corrigir absurdos.
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*Economista, professor na PUC-SP.
Fonte: Carta Maior, 07/04/201

Hans Küng: ''Aquilo em que creio''

Publicamos aqui um trecho do novo livro de Hans Küng, "Ciò che credo" [Aquilo em que creio] (Ed. Rizzoli), publicado na Itália nesta quarta-feira. O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 07-04-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

* * *
Como membro da "República dos eruditos de Tübingen" – como diz o subtítulo da história da Universidade de Tübingen redigida por Walter Jens –, eu não gostava então, assim como não gosto hoje, que sempre se lembre de Deus para combater a ciência moderna. O caso Galileu, o caso Darwin, mas também nos nossos dias o da moral sexual (contra a pílula, preservativos, inseminação artificial, pesquisa com células-tronco...) marcaram a relação entre religião e ciência, envenenando-a.
Como poderia não compreender o fato de que muitas pessoas, diante de tantos decretos romanos e panfletos protestantes, rejeitam uma fé em uma autoridade, na Bíblia, em uma Igreja que lhes parece irracional, antifilosófica, hostil à ciência? Além disso, muitos crentes hoje entendem muito bem que o argumento "Deus" não pode ter nenhum papel na ciência, se esta deve manter a precisão e a exatidão dos seus métodos. Questões notoriamente difíceis do ponto de vista ético, como o aborto, a pesquisa com células-tronco ou os tratamentos do "fim da vida", deveriam, porém, ser dirigidas a uma solução praticável e humana: sem respostas ditadas pelo fanatismo religioso, mas seguras do ponto de vista científico e fruto de reflexões filosófico-teológicas.
Como democrático suíço convicto, me desagradava e ainda me desagrada que sempre se lembre de Deus para se opôr também à democracia moderna. É verdade que, nos nossos dias, não se pode mais pensar em uma proteção política e religioso-confessional por parte das Igrejas, como ocorria durante o Antigo Regime. Mas nos ambientes fundamentalistas, tanto cristãos quanto islâmicos, que estão vivendo um momento de renovado vigor, o ódio pelo Iluminismo sempre está presente, e o lema da Revolução Francesa, "liberdade, igualdade, fraternidade", ainda é visto de modo muito negativo.
Mas, permanecendo no âmbito da minha Igreja, a católica: não só os seguidores de Lefebvre, reacionários e tradicionalistas, mas também muitos prelados no Vaticano prefeririam retomar as condenações eclesiásticas contra o liberalismo e o socialismo do final do século XVIII e remeter as decisões sobre a "verdade" em todas as questões que se referem à fé e à moral a um "magistério" eclesiástico, como pedido também nas encíclicas mais recentes sobre fé e razão.
Nesse espírito antimoderno, na Roma papal se considera ainda que se possa exercer uma pressão, nos bastidores e às vezes também em cena aberta, nos governos e parlamentos eleitos democraticamente para que as suas decisões obedeçam à "moral" católico-romana.
Além disso, quando vejo quais "milagres" foram aprovados nos últimos tempos, também aqui em pleno espírito medieval, e portanto sancionados por "canonizações", como antigas lendas se fazem passar por fatos históricos, como se encorajam peregrinações duvidosas, e as pessoas devotas são consideradas repetidamente como estúpidas, e quando me pergunto depois "Em que creio?", a minha resposta é clara: não, eu não creio em tudo isso, e nenhum teólogo no mundo poderá me convencer de que isso é parte substancial da minha fé em Deus, em particular da minha fé no Deus cristão.
É preciso se perguntar, pelo contrário, em que medida uma imagem falsa e distorcida de Deus e às vezes também uma imagem "cristã" desumana, associal, do homem contribuíram para a difusão do ateísmo.
Vice-versa, também devo me perguntar: qual o valor dos argumentos contra a fé? É preciso submeter a um exame crítico duas argumentações sobretudo: em primeiro lugar, a psicológica, segundo a qual Deus seria só uma projeção do homem, e também a histórico-filosófica cultural, ou seja, que nos encontramos diante do fim da religião.

Uma espiritualidade com racionalidade

A minha espiritualidade sempre teve a ver mais com a racionalidade do que com a sensibilidade. Nunca quis simplesmente "crer", mas também entender a minha fé. (…) Da mesma forma, sempre considerei importante que, se as questões das ciências naturais deviam ser tratadas segundo o método e o estilo das ciências naturais, então, por outro lado, seria necessário tratar também as questões da psique humana e da sociedade, assim como as do direito, da política e da pesquisa historiográfica e ainda mais as da estética, da moral e da religião, segundo o método e o estilo próprio a elas, correspondente ao seu objeto.
De maneira totalmente legítima, hoje em dia, também nas ciências do espírito nos ocupamos sempre mais da análise de fenômenos, operações, processos e estruturas. Mas, ao fazer isso, não devemos nos esquecer de que há questões legítimas no âmbito científico que se referem ao sentido primeiro e último das coisas, aos valores, aos ideais, às normas e aos comportamentos. Como filósofo e teólogo, não posso me contentar com a problematicidade superficial do nosso mundo secularizado e reduzido somente a racionalidade e funcionalidade, mas devo buscar penetrar na sua dimensão mais profunda. Senão, como podemos encontrar uma resposta à pergunta sobre o fundamento da vida?
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FONTE: IHU 08/04/2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

XL - Passa uma borboleta

Alberto Caeiro*

Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm nem movimento,

Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

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* Heterônimo de Fernando Pessoa. Em O Guardador de Rebanhos e outros poemas, Alberto Caeiro, editora Landy, 2006.
Por Conceição Freitas
Fonte: Correio Braziliense online, 07/04/2010

Escola, ética, cyberbullying

Roberto Romano*
Pessoas me endereçam questões sobre vários pontos da vida ética no plano educacional. A última consulta que recebi dizia respeito ao cyberbullying. Como o trote cometido contra os calouros, aquele crime recebe a complacência de muitos dirigentes escolares e universitários. Ambos são fenômeno de massa, com a covardia inerente a semelhantes manifestações. É claro que a repressão, no caso, é insuficiente, embora necessária e urgente. O Ministério Público e a polícia não bastam para atenuar os efeitos e as causas de práticas abjetas, mascaradas sob o riso das jovens hienas, as quais se imaginam leões em seus bandos.

Um leitor enviou as seguintes perguntas, que cito integralmente: “Deve a escola permanecer alheia ao que se escreve em redes sociais — MSN, Orkut, Formsprings, Facebook? De que forma ela deve agir na questão — orientação aos pais, alunos, com reuniões, comunicados? A escola é parte integrante de uma rede ética externa ou não? Se um jovem é vítima do “cyberbullying” e a escola alega não poder controlar a situação, o que deve ser pensado?”

É falta de compromisso ético da escola dizer que “nada pode ser feito por ela” em caso de molestamento direto, por carta comum ou internet. Como a família, ela é sujeito de direitos e deveres. Os jovens são postos sob sua responsabilidade, não só na sala de aula, biblioteca ou cantina. Do ponto de vista legal, diretores podem alegar que nada está previsto a seu respeito. Mas não falamos de uma repartição, apenas legalmente orientada! Os professores respondem pelo jovem que devem formar para o convívio civil. Se a escola abre mão do seu dever, então, a quem os pais deveriam se dirigir? A vigilância precisa ser permanente, sobretudo quando existem denúncias ou suspeitas de perseguição. Se forem criados turnos de vigilância (do qual podem participar os integrantes adultos da comunidade de ensino, mestres, pais, funcionários) o molestamento pode ser detectado no começo. Assim, com a colaboração de todos os pais, os que deveriam cuidar melhor de seus pimpolhos serão postos, antes que ocorra um fato policial ou judicial mais grave, diante de seu dever.

A escola, aliada à família, é elemento essencial da modelagem ética dos jovens e dos pais que não tiveram a referida formação ou, devido aos atropelos da vida, não a empregam no trato com os filhos. Um malefício educacional é a complacência ao modo de Summerhill e dos que seguem aquela diretriz. Muito cômodo fugir dos choques, quando os jovens exigem algo que a prudência desaconselha. O conflito, se assumido pelos adultos, incentiva a busca comum de soluções. Se ele for adiado, os adolescentes, com autoridade que não lhes cabe, decidem tudo, prejudicam a si mesmos e aos outros. Existem pais que levam tapas de filhos, deles recebem ordens, críticas, caçoadas, o que sanciona comportamentos éticos detestáveis, mas infelizmente “populares”. Uma fonte dos assédios é a covardia dos pais nas horas em que deveriam mostrar autorrespeito. Genitores que não se valorizam jamais ensinarão os filhos a prezar os outros. Tudo pode ocorrer num recreio ou nas baladas permitidas, como se a anuência paterna fosse obrigatória. “Eu quero, eu faço, você não manda em mim”, quando se trata de comportamentos que incluem riscos morais ou éticos, são ditados de um tirano, o mesmo tirano que irá destruir a vida de seus colegas, no cyberbullying. Diante de um delegado de polícia, ou do juiz, somem os “eu quero, eu faço”. Resta a humilhação ou a desgraça. Dos pais e dos filhos.

Se os professores ignoram que seus estudantes perseguem ou são perseguidos em pontos sensíveis (beleza, inteligência, sexualidade), não os levam ao respeito de sua própria pessoa e das outras. O cyberbullying é massificado, não livre, covarde. Cabe à escola, com a família, lutar contra o esmagamento dos jovens pela massa. E. Canetti (Massa e Poder), expõe tal comportamento cruel ao analisar as hordas de fuga e perseguição. A escola deve impedir que os jovens pensem como lobos; educá-los como individualidades humanas responsáveis.
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*Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp
Fonte: Correio Popular online, 07/04/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

O crack e o “Velho do Saco”

Renata Brasil Araujo*


Outro dia, enquanto assistia, na RBS TV, a uma reportagem na qual apareciam crianças dependentes de crack, lembrei-me, com saudade, do maior vilão da minha infância: o famoso “Velho do Saco”.

Ele era um homem perigosíssimo que usava roupas sujas e que carregava para todo lado um enorme saco velho – quase sempre de estopa – dentro do qual escondia crianças após roubá-las de seus pais. Não precisa dizer que todas as crianças morriam de medo desse ícone da maldade e evitavam sempre qualquer contato com alguém que guardasse a mínima semelhança com essa figura.

O Velho do Saco poderia lhe oferecer balas ou chicletes na saída da escola para “drogá-lo” e transformá-lo em uma vítima fácil de ser colocada dentro do saco (não deveria ser por acaso que os sacos nunca se mexiam!).

Não era complicado identificar o nosso inimigo: Era homem? Velho? Estava mal vestido? Carregava um saco? Bem, não se aproxime, é ele e com certeza é perigoso!

Mas e hoje, onde estará o Velho do Saco? Não será ele o responsável pelo uso do crack pelos jovens? Infelizmente, ele parece ter “sumido do mapa” e, se “bobear”, também está fumando crack por aí.

Então, quem será o nosso Velho do Saco Moderno? Não conheço nenhum caso de um jovem acordar em um belo dia e dizer: “Hoje não tenho nada de interessante para fazer... Acho que vou animar o meu dia experimentando uma pedra de crack... Vai ser legal!” Também desconheço histórias em que um traficante bate na porta de alguém e oferece o crack como quem está oferecendo um bilhete premiado da loteria: “Compre esta pedra de crack e ganhe de brinde este belo cachimbo!”.

Não se engane, ninguém é apresentado às drogas pelo crack. Observa-se que os dependentes dessa substância também são, em sua maioria, dependentes de tabaco e de maconha e, vários deles, dependem ou abusam de álcool. Eles começaram o uso de substâncias psicoativas pelas drogas lícitas: álcool e tabaco e não foi com traficantes, mas com amigos, colegas ou mesmo com seus pais.

O Velho do Saco Moderno é aquele pai ou mãe que acha “perfeitamente normal” as festas de adolescentes serem “regadas” a bebidas alcoólicas (afinal, para muitos, cerveja não é álcool!), ou aqueles que se dizem orgulhosos por seus filhos escolherem a mesma marca de cigarro da sua preferência, ou ainda os que pensam que “enquanto for só maconha, tudo bem”.

O Velho do Saco Moderno é o professor que fuma seu “cigarrinho” na hora do recreio ou o amigo de infância que criou um blog a respeito do uso medicinal da maconha ou, quem sabe, os nossos heróis que morreram de overdose...

O Velho do Saco Moderno não é mais velho, nem feio e nem mesmo tem um saco...

Ele é tão anônimo, que é anônimo para si mesmo, não se reconhecendo como tal... Assim, qualquer um de nós pode ser um Velho do Saco e não fazer a menor ideia disso...

Devemos, portanto, se quisermos de fato “lutar” contra o que chamam de “A epidemia do crack”, identificar o quanto estamos contribuindo para incentivar o uso de drogas entre os nossos jovens e, o mais importante, o quanto desse “Velho do Saco” existe em cada um de nós.
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* Doutora em Psicologia, coordenadora do Programa de Dependência Química do Hospital Psiquiátrico São Pedro
Fonte: ZH online, 06/04/2010

domingo, 4 de abril de 2010

A "máquina do Big Bang"

MARCELO GLEISER*

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LHC pode ajudar a separar a ficção dos fatos, o objetivo da ciência

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Bem, não é exatamente a máquina do Big Bang, mas chega perto. Semana passada, físicos de dezenas de países trabalhando no Cern (Centro Europeu de Física Nuclear) conseguiram colidir prótons a velocidade próxima à da luz.

O Grande Colisor de Hádrons (LHC), a maior máquina já construída na história da civilização, consiste em um túnel circular de 27 km de circunferência, enterrado 100 metros no subsolo. Feixes de prótons viajam nos sentidos horário e anti-horário, e são forçados a colidir através da ação de magnetos extremamente potentes. As colisões literalmente transformam energia em matéria, de acordo com a famosa equação E=mc2: a energia de movimento dos prótons é transformada em inúmeras partículas, os tijolos fundamentais da matéria. Por isso, os físicos tentam atingir energias cada vez mais altas: quanto maior a energia de movimento, mais pesadas as partículas que podem surgir da colisão.

O LHC acaba de quebrar o recorde de energia, alcançando o incrível valor de 7 trilhões de elétron-volts, equivalente à energia armazenada na massa de 7 trilhões de prótons. Seu concorrente, o Tevatron do laboratório americano Fermilab, atinge "apenas" 1 trilhão de elétron-volts.

As energias atingidas são equivalentes às que existiam a um trilionésimo de segundo após o Big Bang. Daí a qualificação de máquina do "quase" Big Bang. Incontáveis teses de doutorado e carreiras inteiras foram dedicadas à sua construção, que levou 16 anos e custou US$ 10 bilhões. A esperança é que os dados que serão produzidos pelo LHC resolvam alguns dos mistérios mais profundos da física atual. (E gerem muitas aplicações tecnológicas.) A lista de resultados ansiosamente aguardados é extensa, mas eis os mais importantes, em ordem crescente de especulação:

1) Encontrar a partícula de Higgs, que supostamente dá massa a todas as outras partículas que existem, do familiar elétron aos menos familiares quarks. (Claro, ainda não saberemos como o Higgs ganha a sua massa, mas esta é uma outra questão...) Se o Higgs for encontrado, confirmará teorias propostas há mais de 40 anos. Se não for, tornará a existência de massa ainda mais misteriosa, o que é uma possibilidade mais interessante.

2) Encontrar partículas de matéria escura. Matéria escura, como diz o nome, não produz luz. Alguns tipos de matéria ordinária, como planetas e pessoas, também são escuros, isto é, não brilham sozinhos. Mas a quantidade de matéria escura que inferimos existir no cosmo, cerca de 23% do total, é seis vezes maior do que a de matéria ordinária. Sabemos que existe, pois através da sua gravidade ela influencia a matéria que brilha, como galáxias e estrelas. O LHC pode encontrar o candidato mais popular para a matéria escura. Com isso, confirmaria também a existência da hipotética supersimetria, que dobra o número de partículas que existem, proposta 35 anos atrás. Iniciaria uma caça a essas partículas todas.

3) Dimensões extra. Teorias de unificação propõem que as quatro forças que vemos são manifestações de uma só. Em geral, são formuladas em espaços com mais de três dimensões. As supercordas, por exemplo, existem em 9 ou 10 dimensões . O LHC não encontrará essas dimensões, mas pode encontrar traços de sua existência. Dos itens acima, o primeiro provavelmente será resolvido. Os outros dois, ninguém sabe. Uma máquina como o LHC pode ajudar a separar a ficção dos fatos -e esse é o objetivo da ciência. Devemos ter a liberdade de imaginar hipóteses sobre o mundo.

Mas devemos também ter a humildade de aceitar o que a natureza está nos dizendo. Basta ouvi-la.
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*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "Criação Imperfeita"Fonte: Folha online, 04/04/2010

Todo túmulo é um canteiro

Rubem Alves*
Ao meu amigo querido Aharon Sapsegian


Um lixeiro bateu à minha porta para me desejar uma “Feliz Páscoa”, na esperança de que minha resposta seria uma nota de dez reais. Aí, só de maldade, eu disse: “Lhe dou se você me disser o que é Páscoa”. Ele não hesitou, sabia muito bem o que era Páscoa: “Páscoa, doutor, é aquele dia quando a gente come ovos de chocolate...” Dei-lhe os dez reais.

Todo mundo concorda com o lixeiro. Todo mundo sabe que Páscoa é dia de comer ovos de chocolate e é isso que ensinamos aos nossos filhos. Por isso os pais amorosos preparam a brincadeira da caça aos ovos previamente escondidos. Nos meus trajetos pelas ruas de Campinas passo em frente a uma loja onde está anunciado, com letras grandes, numa faixa: “Páscoa é aqui, no ‘Chocolate Feliz’”. O nome da loja está errado. Não pode ser “Chocolate Feliz”. Porque não conheço chocolate que seja feliz. O nome certo deveria ser “Chocolate traz felicidade”. Então, basta comer o chocolate para ficar feliz. Chocolate é sacramento, é comida sagrada. Essa, então, é a conclusão universal que ninguém contesta: Páscoa é dia sagrado de comer ovos de chocolate. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade veio ao mundo e morreu para ensinar os seres humanos a se salvarem comendo ovos de chocolate. Comendo ovos de chocolate anunciamos que participamos do mistério da fé. Na última ceia Jesus partiu o pão, serviu o vinho e, de sobremesa, distribuiu ovos de chocolate...

Isso o lixeiro e todo mundo entende. Mas se eu disser ao lixeiro que Páscoa é dia de poesia ele não entenderia. A poesia se faz com metáforas; não se faz com a verdade. As metáforas são mentirosas, por oposição ao chocolate que é sempre verdadeiro. Chocolate é chocolate e fim de papo. Mas uma metáfora nunca é a coisa que ela diz. É sempre uma outra coisa. O carteiro, amigo do Neruda, disse: “Sou um barco batido pelas ondas.” Mentira. Ele era um carteiro. Não era um barco batido pelas ondas. Nenhuma pessoa, jamais, foi um barco batido pelas ondas. No entanto qualquer pessoa sabe o que o carteiro queria dizer. Sabe, porque todos nós nos sentimos, por vezes, como barcos batidos pelas ondas. Esse sentimento, entretanto, não pode ser dito em linguagem literal. A poesia é a linguagem das coisas que não podem ser ditas. O poeta diz a sua própria experiência. Mas esta fala, nascida dos seus sentimentos, individuais, têm um poder de reverberação. Ao bater em nós — como o repicar de um sino, ao longe — o corpo estremece emocionalmente. Esse estremecer é a prova de que o poeta, dizendo o absolutamente particular, disse o absolutamente universal.

A Páscoa é um poema. É uma metáfora do nosso destino, diante da Morte: um túmulo vazio. Que pai ou mãe contará para o filho pequeno a estória de um túmulo vazio? Poderia começar falando sobre a segunda lei da termodinâmica. Não é difícil. Basta dizer que o destino do universo é o mesmo destino de uma vela acesa: a vela se apagará; o universo também. Isaac Asimov, escritor de ficção científica, escreveu um conto fantástico sobre esse momento terrível. No fim dos tempos as estrelas — velas que iluminam o universo — uma a uma se apagarão e o universo morrerá.

Isso me dá uma grande tristeza. Para dizer a verdade, não me importo muito com a minha eternidade. Mas pensar que o universo vai morrer, isso é muito triste. Adeus barcos, gaivotas, árvores, pássaros, animais, plantas, crianças, música, amizade, comida, abraços e beijos: tudo se apagará, para sempre.

Pois a metáfora da Ressurreição diz que a verdade é o contrário: da morte surgirá à vida. Essa afirmação poética está contida na estranha metáfora de um homem que, havendo descido à sepultura, voltou a viver. A semente é enterrada. Se continuar como sempre foi, morrerá. Mas se morrer, brotará como árvore.

Então, quando alguém lhe oferecer um ovo de chocolate, ofereça-lhe em troca uma semente com as palavras: Todo túmulo é um canteiro.
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*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 04/04/2010

sábado, 3 de abril de 2010

O que é poesia?

ANTONIO CICERO*



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Dentre os textos literários, que valem por si e são os mais escritos dos escritos,
os mais escritos de todos são os poemas

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O POETA Edson Cruz perguntou "O que é poesia?" a diversos poetas. 45 responderam. Cada um deu uma resposta diferente, embora não necessariamente incompatível com as dadas por cada um dos demais. A pergunta era na verdade um pretexto para pensar sobre a poesia. O resultado se transformou num livro.

Eu mesmo participei do livro e recentemente, ao reler o que lá dissera, lembrei-me que já havia respondido a essa pergunta de outros modos. Por exemplo, supondo que a poesia é aquilo que faz de um poema um poema, escrevi uma vez que ela consiste no grau de escritura de um texto. A ideia é que um poema (bem) realizado é um texto dotado de um altíssimo grau de escritura.

Isso supõe que alguns escritos são mais escritos do que outros. Digo isso tendo em vista algumas das mais importantes características do discurso escrito, em oposição ao oral. Abstraindo dos modernos meios de gravação de voz, considero evidentes as seguintes três proposições:

1. Enquanto o discurso oral é efêmero, o discurso escrito tem uma permanência indefinida; 2. enquanto o discurso oral é fluido e aberto, isto é, está sempre em movimento, como a vida, e sujeito a mudar a todo instante, o discurso escrito é fixo e fechado, e não é sujeito a mudança; 3. enquanto o discurso oral se realiza ou se concretiza plenamente quando falado, o discurso escrito se realiza ou se concretiza plenamente quando lido.

Pois bem, embora todo discurso tenha uma permanência indefinida, não a tem na mesma medida. A permanência de um rascunho, por exemplo, ou de um bilhetinho, ou de um torpedo, ou de uma mensagem de celular, ou de um memorando não costuma ser muito grande. É assim quase tudo o que se escreve e não se publica.

Mas é também assim quase tudo o que se publica. Os jornais são guardados nas bibliotecas e nos arquivos, mas quem os lê senão, de tempos em tempos, um historiador? Um texto que não é lido não se concretiza plenamente. Ora, esse é o destino não só dos periódicos, mas, de modo mais inexorável ainda, de 99,9% dos livros. Assim, no que diz respeito à primeira característica do discurso escrito, que é a da permanência, entra em jogo a sua terceira característica, que é a de se concretizar ao ser lido. A mera permanência física de um livro está longe de significar a permanência plena ou concreta do seu texto.

Já a qualidade de ser fixo e fechado parece, à primeira vista, ser compartilhada igualmente por todos os textos, enquanto duram. Na verdade, porém, não é bem assim. Posso, por exemplo, considerar os rascunhos de um poema meu como as transformações pelas quais ele passou antes de ficar pronto.

Se eu fotografasse cada uma dessas transformações, fizesse slides dos fotogramas, colasse uns nos outros como numa fita de cinema e pusesse essa fita num projetor, creio que veria o poema a se mexer como se fosse um desenho animado. Ele pareceria, então, fluido como uma fala; e, caso se tratasse de um poema ainda não terminado, de modo que eu continuasse a adicionar fotogramas a essa fita, ele pareceria também aberto como uma fala.

Os textos que dizem coisas de caráter prático ou mesmo cognitivo, tais como os textos técnicos e científicos, são mais ou menos assim, abertos e fluidos, pois, caso contrário, o que dizem acaba por deixar de ser verdadeiro, de modo que eles se tornam obsoletos e deixam de ser lidos, isto é, deixam de se concretizar. Assim também enciclopédias ou dicionários mantêm-se vivos porque são atualizados por novas edições.

Os textos que não estão sujeitos a esse tipo de descartabilidade são aqueles cujo valor -atenção: neste ponto, não há como não empregar juízos de valor- não depende de serem verdadeiros ou falsos. Assim são os textos literários que, valendo por si, pertencem antes à ordem dos monumentos do que à dos documentos. É assim que as Musas de Hesíodo se orgulham de saber "dizer muitas mentiras parecidas com a verdade".

Pois bem, dentre os textos literários, que valem por si e são os mais escritos dos escritos, os mais escritos de todos são os poemas. Por quê? Porque consistem em formas puras. No limite, não há, neles, diferença entre o que dizem e o modo como o dizem. Como não se pode, num poema, separar o significado do significante, a rigor não se pode dizer em outras palavras o seu significado. É por isso que, no que diz respeito a um poema, parece-me em geral menos apropriado falar de "tradução" do que, como dizia Haroldo de Campos, de "transcriação".
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*Poeta. Escritor.
Fonte: Folha on line, 03/04/2010