domingo, 18 de abril de 2010

Lady Laura: discreta, modesta, religiosa


Mãe de Roberto Carlos ficou conhecida por conta da música que o filho fez
em sua homenagem

Discreta, avessa a badalações, religiosa, modesta. Mas, apesar do temperamento, o País inteiro a conhecia por meio de uma canção, Lady Laura: "Lady Laura, me leve pra casa/Lady Laura, me conta uma história/Lady Laura, me faça dormir".

Lady Laura havia sido internada no final de março com infecção respiratóriaFilha de português com cabocla, nascida em Mimoso, Minas Gerais, a costureira Laura Moreira Braga deixou sua cidade natal já casada com o relojoeiro Robertino para ir morar em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ele abriu uma loja de uma porta, ela costurava em casa para toda a cidade, e os filhos costumavam dormir ao pé da máquina de costura, embalados pelo barulho da engenhoca.

Laura, que tinha aprendido a tocar violão quando adolescente (numa época em que não era aconselhável que moça estudasse violão), transmitiu o gosto pela música aos quatro filhos: Roberto Carlos, Lauro Roberto, Carlos Alberto e Norma. "Mostrei para os meus filhos as primeiras posições e ensinei-lhes notas como o lá maior, fá menor e assim por diante. A partir daí, o talento natural de Roberto se impôs e ele buscou se aprimorar", contou.

"Todas as mães sabem que o filho caçula é o que custa mais a crescer", dizia dona Laura, explicando porque dedicava tanta (e especial atenção) ao filho mais novo. Essa atenção redobrou-se a partir do acidente que marcou a vida do 'Rei', em 29 de junho de 1947, quando um trem na Estrada de Ferro Leopoldina Railways, que cortava toda a cidade de Cachoeiro, passou por cima da perna do menino durante um desfile escolar.

Em 1954, Laura Braga matriculou o filho Roberto Carlos no Conservatório de Música de Cachoeiro, no qual ele teria aulas com as professoras Helena Gonçalves e Elaine Manhães. "Vivíamos quase sempre sem dinheiro, mas o que nos faltava em dinheiro minha mãe compensava em carinho e compreensão", disse Roberto, que se referiu à mãe em outras músicas além de Lady Laura.

"Naquela casa simples, você falou pra mim/ Que eu tivesse cuidado/ E não sofresse com as coisas desse mundo/ Que eu fosse um bom menino/Que eu trabalhasse muito." Os versos de Aquela Casa Simples (1986) foram dedicados a Laura. "Minha mãe disse isso aqui", contou Roberto Carlos em Cachoeiro do Itapemirim, no dia 19 de abril de 2009, durante o show que celebrava seu aniversário de 68 anos e 50 de carreira (ao qual a mãe não compareceu, já com alguns problemas de saúde).

A casinha azul da rua onde o filho do relojoeiro da costureira veio ao mundo, ainda hoje lá como um símbolo de sua história, é uma espécie de síntese da humildade. Um telhado de uma caída só, aposentos espartanos, quintal verde e reduzido. "Recordo a casa onde eu morava, o muro alto, o laranjal, meu flamboyant na primavera, dando sombra no quintal", canta Roberto Carlos na letra de Meu Pequeno Cachoeiro.

"Vivíamos quase sempre sem dinheiro, mas o que nos faltava em dinheiro minha mãe compensava em carinho e compreensão", disse Roberto. Ali naquela casa, Roberto iniciou e confirmou o objetivo de ser músico. Aos 8 anos de idade, logo após sua primeira apresentação na Rádio ZYL-9 Cachoeiro de Itapemirim, à qual compareceu por recomendação da mãe, procurou dona Laura e comunicou: "Pois é, mãe: eu não quero mais ser médico, não. Agora eu quero ser cantor!". Ela respondeu: "É mesmo, meu filho? Então está bem. Vamos ver se você vai continuar com essa vocação".

Roberto Carlos Braga, que nasceu no Dia do Índio, 19 de abril de 1941, trocou Cachoeiro do Itapemirim por Niterói e começou a ir embora para sempre no início de março de 1956, um mês antes de completar 15 anos. Lá, algum tempo depois, encontraria Erasmo, "filho único de mãe solteira", como se definia, e escreveria parte substancial da história da MPB.

Roberto despediu-se de Dona Laura e de Robertino apenas por algum tempo, porque um ano depois, em 1957, toda a família resolveu que era hora de se mudar para o Rio. Dona Laura, segundo conta Paulo César Araújo no livro recolhido Roberto Carlos em Detalhes, desembarcou primeiro, sozinha, na estação ferroviária da Barão de Mauá (o marido ainda ficou um tempo em Cachoeiro). De certa forma, Roberto nunca se separou definitivamente de Laura. Ele a manteve por perto até o fim, sempre cantando a bela canção, talvez uma das mais bonitas que alguém já fez para uma mãe: "Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino/E na hora do meu desespero/Gritar por você/Te pedir que me abrace e me leve de volta pra casa/E me conte uma história bonita/E me faça dormir".
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Reportagem: Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo
Fonte: Estadão online, 17/04/2010

Drogas, ingenuidade que mata

Carlos Alberto Di Franco*


A psiquiatra mexicana Nora Volkow é uma referência na pesquisa da dependência química no mundo. Foi quem primeiro usou a tomografia para comprovar as consequências do uso de drogas no cérebro. Desde 2003 na direção do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, nos Estados Unidos, Volkow esteve no Brasil para uma palestra na Universidade Federal de São Paulo. Dias antes de chegar, falou à revista Veja, por telefone, de seu escritório em Rockville, próximo a Washington. No momento em que recrudesce a campanha para a descriminalização das drogas, suas palavras são uma forte estocada nas opiniões ingênuas e nos argumentos politicamentes corretos.

Veja, acertadamente, trouxe à baila recente crime que chocou a sociedade. Glauco Villas Boas e seu filho foram mortos por um jovem com sintomas de esquizofrenia e que usava constantemente maconha e dimetiltriptamina (DMT), na forma de um chá conhecido como Santo Daime. “Que efeito essas drogas têm sobre um cérebro esquizofrênico?” A resposta foi clara e direta: “Portadores de esquizofrenia têm propensão à paranoia, e tanto a maconha quanto a DMT (presente no chá do Santo Daime) agravam esse sintoma, além de aumentar a profundidade e a frequência das alucinações. Drogas que produzem psicoses por si próprias, como metanfetamina, maconha e LSD, podem piorar a doença mental de uma forma abrupta e veloz”, sublinhou a pesquisadora.

Quer dizer, uma eventual descriminalização das drogas facilitaria o consumo das substâncias. Aplainado o caminho de acesso às drogas, os portadores de esquizofrenia teriam, em princípio, maior probabilidade de surtar e, consequentemente, de praticar crimes e ações antisociais. Ao que tudo indica, foi o que aconteceu com o jovem assassino do cartunista. A suposição, muito razoável, é um tiro de morte no discurso da ingenuidade.

Não dá para entender, portanto, o recorrente empenho de descriminalização. Também não serve o falso argumento de que é preciso evitar a punição do usuário. Nenhum juiz, hoje em dia, determina a prisão de um jovem por usar maconha. A prisão, quando ocorre, está ligada a prática de delitos que derivam da dependência química: roubo, furto, pequeno tráfico, etc. Na maioria dos casos, de acordo com a Lei 9.099/95, há aplicação de penas alternativas, tais como prestação de serviços à comunidade e eventuais multas no caso de réu primário.

Todos, menos os ingênuos, sabem que, assim como não existe meia gravidez, também não há meia dependência. Transcrevo, caro leitor, o depoimento de um dependente químico. Ele fala com a experiência de quem esteve no fundo do poço.

“Sou filho único. Talvez porque meus pais não pudessem ter outros filhos me cercavam de mimos e realizavam todas as minhas vontades. Aos 12 anos comecei a fumar maconha, aos 17 comecei a cheirar cocaína. E perdi o controle. Fiz um tratamento psiquiátrico, fiquei 9 meses tomando medicamentos e voltei a fumar maconha. Nessa época já cursava medicina e convenci os meus pais de que a maconha fazia menos mal que o cigarro comum. Meus argumentos estavam alicerçados em literatura e publicações científicas. Eles mal sabiam que estavam sendo enganados, pois, além de cheirar, também passei a injetar cocaína e dolantina que é um opiáceo. Sofri uma overdose e somente não morri porque estava dentro de um hospital, que é o meu local de trabalho. Após esta fatalidade decidi me internar em uma comunidade terapêutica e hoje, graças a Deus, estou sóbrio. O uso moderado de maconha sempre acabava nas drogas injetáveis. Somente a sobriedade total, inclusive do álcool, me devolveu a qualidade de vida que não pretendo trocar nem por uma simples cerveja ou uma dose de uísque.” A.S.N, médico, Ribeirão Preto (SP), é ex-interno da Comunidade Terapêutica Horto de Deus (www.hortodedeus.org.br).

As drogas estão matando a juventude. A dependência química não admite discursos ingênuos, mas ações firmes e investimentos na prevenção e recuperação de dependentes.
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*Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia
Fonte: Correio Popular online, 18/04/2010

Eu a desapontei...

Rubem Alves*
No seu livro Primeiros Cadernos Albert Camus escreveu: “E hoje não conheço maior glória que viver só e ignorado.” Acho a palavra “glória” excessiva. Eu diria: felicidade. Na palavra “glória” há uma dose de narcisismo, rabo de pavão. “Glória” não pode ser modesta. “Glória” me parece mais um atributo dos deuses. Já “felicidade” pode acontecer na solidão e no ser ignorado. Quando eu era ignorado, quando ninguém sabia o meu nome, eu era feliz...

Eu era professor na Fafi — Faculdade de Filosofia Ciências e Letras — de Rio Claro. Era um lugar acadêmico modesto, em nada comparável à “glória” que cercava o nome Unicamp. Era inevitável que os professores da Fafi, eu inclusive, sentíssemos uma pitada de inveja ao nos compararmos com nossos colegas gloriosos...

Faculdade do Interior... Era preciso pegar o trem da Paulista. Professor proletário... Mas havia uma vantagem que só descobri depois de havê-la perdido: o espaço humano da Fafi-Rio Claro era manso. Como se houvesse uma auréola de inocência em torno daquele lugar. Lá não era preciso estar em guarda. Não havia armadilhas pelo caminho.

Aprendi bem depois que o espaço humano da Unicamp era bélico. Eu não sabia que quando o poder está em jogo a mansidão e suas virtudes desaparecem.

Nietzsche já havia se dado conta disso. Nunca se deu bem com as astúcias acadêmicas. Por isso quando escrevia sobre a universidade e a vida acadêmica suas palavras se transformavam em martelos: “Eles se vigiam uns aos outros com desconfiança. Inventivos em espertezas pequenas, eles esperam por aqueles cujo conhecimento anda com pés aleijados: como aranhas eles esperam. Eu sempre os tenho visto cuidadosamente preparando veneno; e eles sempre usam luvas de vidro para fazê-lo. Eles também sabem como jogar com dados viciados; e eu os vi jogar com tanto empenho que chegavam a suar”.

Mas eu não sabia disso, não sabia o quanto eu era feliz. Viajava de trem e era divertido e mesmo instrutivo. Eu, sozinho, era “todo ouvidos”, ouvindo as conversas dos professores primários que iam pingando nas pequenas estações. Em três anos de escuta silenciosa aprendi muito sobre a sua alma.

Fofocas... As fofocas acontecem quando duas pessoas que vivem no mesmo mundo se assentam juntas. Essas pessoas têm figurinhas a trocar. Wittgenstein, um dos meus filósofos favoritos, mostrou que,quando falamos estamos envolvidos naquilo que ele denominou de “jogos de linguagem”, que muito se parecem com jogos de baralho. As mesmas cartas, tantos jogos diferentes. As mesmas palavras, tantos jogos diferentes... A fofoca é um desses jogos. Durante três anos ouvi tudo sobre as escolas, sobre a vida das diretoras (sempre odiadas), sobre os casos amorosos. Só nada ouvi sobre os alunos e a educação. Os alunos e a educação não eram cartas do jogo que os professores jogavam.

De vez em quando eu não ia de trem; ia de carro. Quando isso acontecia eu tinha companhia: uma aluna sorridente e bonita ia comigo, de carona. E assim foi. Passados muitos anos encontrei-me com ela e o seu marido. Ela então, protegida pela liberdade que a idade concede, resolveu fazer-me uma confissão. “— Sabe, Rubem, só nós dois no carro... Era inevitável que eu fizesse fantasias sobre aquilo que você poderia fazer comigo... Até que chegou o dia (temido? desejado?). Sem nenhuma razão aparente você freou o carro e o levou para o acostamento. Pensei: É agora. E me preparei. Você abriu a porta do carro, saiu e me disse: ‘Veja como está lindo aquele ipê amarelo florido...’”

Fiquei com vergonha e arrependido... Agora, passados muitos anos, só me resta rir da minha inocência...
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*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 18/04/2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Mulheres conjuradas

Frei Betto*

Nessa cultura machista que nos assola, quase não se destacam as figuras heroicas de mulheres envolvidas com a Conjuração Mineira liderada por Tiradentes. Mulheres que assumiram a coragem de apoiar os homens que amavam, comprometidos com a principal conspiração de nossa história: a que pretendeu libertar o Brasil do domínio português.

Mulheres que padeceram a dor de ver seus companheiros presos, torturados, degredados, os bens sequestrados, a infâmia proclamada sobre sucessivas gerações, sem a esperança de, no futuro, voltar a abraçá-los. Só uma delas o conseguiu.

Tomás Antônio Gonzaga, quarentão, apaixonou-se por Maria Doroteia Joaquina de Seixas, 23 anos mais nova do que ele. Eternizada sob o pseudônimo poético de Marília de Dirceu, os poemas apaixonados teriam sido escritos antes de o autor enamorar-se dela. Segundo Tarquínio J. B. De Oliveira, a verdadeira Marília é Maria Joaquina Anselma de Figueiredo, viúva enricada, amante de Luís da Cunha Menezes.

Os atritos de alcova entre o governador e o ex-ouvidor de Vila Rica teriam dado ensejo a que este redigisse, sob autoria anônima, as Cartas chilenas, nas quais desprestigia Menezes, tratado pela alcunha de Fanfarrão Minésio.

Gonzaga, promovido para a Bahia, valeu-se do noivado com Maria Doroteia para prolongar sua permanência em Vila Rica e, assim, encobrir sua militância na conjuração. A delação de Silvério dos Reis os impediu de casar. O poeta, degredado para Moçambique, ali constituiu família. Maria Doroteia faleceu em Minas, aos 85 anos.

Bárbara Heliodora, mulher de Alvarenga Peixoto, teria evitado que o marido, uma vez preso, passasse de conspirador a delator. Ao ser decretado o sequestro de todos os bens dos conjurados, ela conseguiu provar ser casada em separação de bens e, assim, manter a posse do que lhe pertencia.

Nos meus tempos de grupo escolar, os alunos recitavam emocionados o poema que Peixoto, encarcerado no Rio, lhe dedicara: “Bárbara bela / Do Norte estrela / Que o meu destino / Sabes guiar, / De ti ausente / Triste somente / As horas passo / A suspirar. / Por entre as penhas / De incultas brenhas / Cansa-me a vista / De te buscar. (...)”

O romantismo criou o mito de que Bárbara Heliodora teria enlouquecido ao ver o marido condenado ao degredo na África. As fontes históricas atestam que soube gerir o seu patrimônio e educar os filhos José, João e Tristão, internados no colégio de Itaverava.

Outra mulher que merece destaque é Inácia Gertrudes, a quem Tiradentes recorreu, no Rio, à notícia de que o vice-rei o perseguia. Viúva de Francisco da Silva Braga, porteiro da Casa da Moeda, vivia com sua filha única, de 29 anos, a quem Tiradentes curara de uma chaga cancerosa.

Para evitar maledicências por abrigar o líder conjurado em casa de uma viúva e uma moça solteira, convocou seu sobrinho, padre Inácio Nogueira de Lima, e encarregou-o de procurar seu compadre, o ourives Domingos Fernandes da Cruz, que homiziou Tiradentes. Ali o prenderam.

Quitéria Rita era filha de Chica da Silva com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica havia nascido escrava na fazenda do pai de padre Rolim; era, portanto, sua irmã de criação. O padre e Quitéria amasiaram-se, embora não vivessem sob o mesmo teto. Antes de ser preso, Rolim cuidou de internar Quitéria e as filhas no Recolhimento de Macaúbas (ativo até hoje).

Rolim passou 13 anos encarcerado em Portugal. Em 1805, aos 58 anos, retornou ao Brasil e bateu à porta do Recolhimento, onde resgatou Quitéria e os filhos, instalando-se em Diamantina. Como fiel Penélope, ela jamais perdeu a esperança de rever o amado.

Hipólita Teixeira, rica e culta, casou-se com o coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes. Preso o marido, e degredado para a África, teve ela todos os bens sequestrados. Foi ela quem contra-atacou, em carta ao Visconde Barbacena, governador de Minas, a delação de Joaquim Silvério dos Reis. E também redigiu e espalhou os avisos sigilosos dando notícias aos conjurados de que Tiradentes havia sido preso no Rio, a 10 de maio de 1789.

História é substantivo feminino. Contudo, nela as mulheres costumam figurar como mera adjetivação de heróis masculinos. É hora de voltarmos aos tempos em que os hebreus ressaltavam a atuação destemida de mulheres, a ponto de a Bíblia incluir três livros com seus nomes: Rute, Judite e Ester. Sem contar a erótica do Cântico dos cânticos e a gloriosa mãe dos sete irmãos mártires descrita no Segundo Livro dos Macabeus.

Qualquer pessoa minimamente catequizada talvez saiba citar os nomes dos 12 apóstolos de Jesus. Mas quem se lembra de que, de seu grupo de discípulos, participavam também mulheres cujos nomes estão registrados no evangelho de Lucas (8, 1): Maria Madalena, Joana, Susana “e várias outras”?
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*Escritor, é autor do romance Um homem chamado Jesus (Rocco), entre outros livros (http://www.freibetto.org)
Fonte: Correio Braziliense onlina, 16/04/2010

PSDB e PT, olhos da mesma cara

Torquato*

Há diferença entre pontos de vista de PT e PSDB sobre a maneira de governar o país? À primeira vista, imagina-se uma distância oceânica entre ambos. Ledo engano. São mais próximos do que aparentam. A acusação de Rousseff de que o governo “neoliberal”, comandado por FHC, mantinha um Estado “omisso” é um chamamento à base partidária que carece de motivação para enfrentar nova batalha. O PT não faz (nem fará) a “revolução socialista”, tão apregoada nas cartilhas doutrinárias, não somente porque a promessa encalhou na história, mas por participar da vida de um país cuja índole abomina modelos de viés autoritário. Na década de 80, Darcy Ribeiro, senador e antropólogo, chegou até a pintar o conceito com a tinta verde-amarela, oferecendo a Leonel Brizola um “socialismo moreno” como doutrina do PDT. O achado linguístico foi esquecido.

Já a recente insinuação de Fernando Henrique sobre o “autoritarismo burocrático com poder econômico-financeiro” ou, noutros termos, “o DNA do autoritarismo popular, que vai minando o espírito da democracia constitucional”, carga jogada sobre o governo Lula, denuncia o excessivo domínio petista sobre os fundos de pensão, enxergando nas castas partidárias que manobram grandes recursos ameaça ao Estado. A crítica tem fundamento.

As gramáticas escritas por tucanos e petistas, expurgados os exageros, descrevem abordagens semelhantes na forma de conceber o papel do Estado e a administração do governo. As duas siglas conservam parentesco. Mais ainda: a estrada em que correm seus trens tem o nome de social-democracia. Em 1989, o tucanato delineou seu primeiro traçado com o documento “Os desafios do Brasil e o PSDB”, em que pôs, lado a lado, densa pauta definindo o papel do Estado na condução de programas econômicos e sociais. O PT, fundado em 1980, repudiou, no primeiro momento, a social-democracia, considerando-a inepta para vencer o “capitalismo imperialista”. Passou bom tempo, mesmo após a queda do Muro de Berlim, cultivando a velha utopia, até aceitar, não sem resistências internas, a realidade. O mundo deu uma guinada ideológica, integrando escopos do reformismo democrático, do realismo econômico e dos avanços do capitalismo. Sob esse pano de fundo, o PT produziu, em junho de 2002, a “Carta ao povo brasileiro”, peça-chave para a vitória de Lula, pavimentando, assim, sua entrada no território da social-democracia.

O que significam tais reconfigurações de padrões? Nada mais que a implantação de um modelo de gestão responsável e eficaz, comprometido com crescimento, preservação da estabilidade macroeconômica e atendimento às demandas sociais. Esse é o eixo que a social-democracia vem tentando aprofundar em seu berço, o continente europeu, e que por essas bandas é visto com simpatia tanto pelo PSDB quanto pelo PT.

Portanto, a distância oceânica que ambos procuram demonstrar é a mesma entre o olho esquerdo e o olho direito. Ambos habitam a mesma cara.
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*Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.
Fonte: Correio Popular online, 16/04/2010

A nova ditadura do sexo

ALBERTINA DUARTE TAKIUTI*


Há dois anos, identificamos nos atendimentos realizados na Casa do Adolescente de Pinheiros, na Capital, uma situação que pode ser considerada precursora da utilização das chamadas pulseiras do sexo. À época eram conhecidas como “pulseiras do semáforo”, usadas em festas de adolescentes.

Funcionava assim: se a jovem estivesse usando pulseira vermelha, é porque não queria conversa. Já a pulseira verde era a senha de que a menina estava a fim de um relacionamento. No melhor estilo “cala a boca e beija logo”.

Em geral, as meninas não têm coragem em tocar no assunto. Quando muito, falam na terceira pessoa. Um pouco mais de conversa, de questionamentos, e não raro as jovens desabam no choro, envergonhadas de já terem usado um “crachá”, não por vontade pura e simples, mas pela antiga e conhecida necessidade de ser aceita no grupo.

Adolescentes são inseguros pela própria fase que vivem. É a fase das experimentações, compreensível por um lado, preocupante por outro. Mas todos os adultos que estão lendo este artigo já vivenciaram essa situação, em maior ou menor grau.

No campo do sexo, a curiosidade aguçada e os hormônios em ebulição, aliada às aflições e inseguranças inerentes à idade compõem uma fórmula complexa que pode gerar os mais diversos tipos de comportamento, inclusive os de risco.

Trata-se da nova ditadura do sexo. Uma grande violência, traduzida pela codificação da mulher por meio de uma pulseira. E mais uma vez a mulher vira objeto, fica em posição vulnerável, enfraquecida diante do triunfo do machismo. Se hoje o sexo surge cada vez mais cedo, a obrigatoriedade da relação sexual coloca novamente a mulher em desvantagem diante dos homens.

O raciocínio é simples: na adolescência os homens também têm inseguranças. Os meninos sentem medo de fracassar, de não conquistar o sexo oposto, de serem rejeitados. É óbvio que uma pulseira no braço da menina, que lhe dê sinais claros, é um elemento facilitador. Ele não apenas se fortalece como pode, depois, culpar a adolescente se algo acontecer. Afinal, “foi ela quem provocou”. Antes a desculpa era da minissaia, do decote. Agora é da pulseira.

Se a pulseira é um código, as consequências de seu uso podem deixar marcas indeléveis no corpo e na alma: gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis, traumas por abusos sexuais sofridos.

Proibir, simplesmente, a utilização das tais pulseiras me parece uma solução extremamente rasa. Na esfera pública, o caminho novamente passa pelo aprofundamento de políticas de educação, assistência social e saúde, que deem poder de voz às adolescentes e que trabalhem as inseguranças, emoções e medos.

Esta é a filosofia que adotamos e que procuramos aprimorar nos atendimentos das Casas do Adolescente espalhadas pelo Estado de São Paulo e que, nos últimos 10 anos, permitiram expressiva redução do número de casos de gravidez na adolescência entre as paulistas de 10 a 19 anos de idade.

Segundo último balanço da Secretaria de Estado da Saúde com base nos dados da Fundação Seade, entre 1998 e 2008 houve redução de 36,2% no número de adolescentes grávidas em São Paulo. Foram 94.461 jovens grávidas no ano retrasado, contra 148.018 casos em 1998, resultado de um conjunto de ações, que inclui a necessária disseminação da informação sobre a importância do sexo seguro, distribuição gratuita de preservativos e anticoncepcionais, além do trabalho que lida com as aflições e inseguranças juvenis.

Em casa ou na escola, tudo o que as adolescentes não precisam é se sentir oprimidas. Estabelecer regras e impor certos limites é fundamental, mas elas necessitam igualmente de carinho e, principalmente, de espaço para falar o que sentem. É desta forma que as pulseiras voltarão a significar apenas um adorno em vez de um carimbo de mulher-objeto.
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*Albertina Duarte Takiuti, ginecologista e obstetra, é coordenadora do programa de Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.
Fonte: Correio Popular online, 16/04/2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

"Nossa capacidade é ilimitada”


Foi com essa convicção que a socióloga Anamaria Schindler, 46 anos, superintendente do Instituto Arapyaú, superou questões familiares delicadas e construiu sua carreira

Alemã naturalizada brasileira, a socióloga Anamaria Schindler, 46, queria entender como os ricos se envolviam com as mazelas dos países. Foi então trabalhar na Ashoka, entidade internacional pioneira na prática do empreendedorismo social. Lá, fazia a ponte entre empresários como Larry Page, do Google, e empreendedores sociais. Chegou à copresidência mundial da Ashoka e hoje, de volta ao Brasil, dedica-se ao Instituto Arapyaú, iniciativa voltada para o futuro da educação e o desenvolvimento sustentável

>>> Nasci na Alemanha, mas me mudei para o Brasil com quase 3 anos. Tinha aprendido a falar alemão e, ao chegar aqui, não abri mais a boca. Minha mãe conta que fiquei um mês sem falar. Quando voltei, só falava em português. Adotei o Brasil.

>>> Era boa em física e matemática, mas acho que a escolha de sociologia se deu pelo momento do Brasil. Fiz o ensino médio entre 1979 e 1981. O que mais me mobilizou foi a questão da ditadura e da violência institucional, da polícia, da tortura, das prisões. Aprendi desde muito cedo que você precisa de uma boa dose de indignação para mudar as coisas.

>>> Queria saber como as pessoas mais ricas do Brasil se envolviam com as questões sociais e comecei a estudar filantropia empresarial. Fui então chamada pela Ashoka. Durante 12 anos me dediquei a construir pontes entre empresários, grandes riquezas e os processos de transformação social. Essas mudanças não são rápidas. Podem durar gerações.

>>> Saí da Ashoka em dezembro de 2007, para ajudar Guilherme Leal a montar seu instituto, o Arapyaú. Ele me convidou num momento em que estava querendo voltar para o Brasil. Na Ashoka, trabalhei a maior parte do tempo em Washington e fui me distanciando do meu país. O custo familiar foi alto, porque minha família não foi comigo.

>>> Sempre fui muito curiosa em relação à essência humana. Entrei na meditação aos 14 anos, sempre na linha hinduísta. Desde pequena pergunto: quem eu sou efetivamente? Estamos aqui rodeados por coisas, uma casa, o mundo lá fora, os carros, o planeta, não sei mais o quê... Mas e você? Você constrói a casa, compra o carro, põe gasolina, vai para o trabalho todo dia. Para quê? É isso que você é? Não é isso.

>>>Minha filha Ana Clara é portadora de atrofia espinhal infantil progressiva, uma síndrome genética de degeneração dos neurônios da medula. Ela só mexe três dedos, fica deitada. Quando ela nasceu, a experiência de vida me mostrou que todos temos limitações. O próprio corpo te limita na velocidade, no tempo. A Ana Clara tem o corpo e não se mexe. Mas, aos 16 anos, é uma adolescente da gema. Vai a show de rock, teatro, cinema, balada. Todo ser humano tem limitações, mas a nossa capacidade é ilimitada.

>>> Quando soube do diagnóstico da Ana Clara, pedi ao médico algo para ler. Nos textos tinha uma tabelinha dizendo que o prognóstico de vida da minha filha era de, no máximo, dois anos e meio. Liguei alucinada para o médico. Ele me respondeu algo definidor: ‘Anamaria, não se ligue aos prognósticos, porque é o indivíduo que tem a síndrome, e não a síndrome que tem o indivíduo’. Percebi que ela tinha todas as possibilidades.

>>> Tenho a força que tenho por causa dela. Nunca vi minha filha reclamar de nada. Não tem um dia em que ela acorde e fale: ‘Ai, que saco de vida’. Nunca. Como é, então, que eu posso falar isso?
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Por Aline Ribeiro
Fonte: Revista ÉPOCA NEGÓCIOS online, abril/2010

Como evitar o estigma

Não é fácil escapar dele,
mas um trio de especialistas afirma
que é possível

Rotular pessoas, colocá-las mentalmente em compartimentos que permitam que sejam classificadas, é uma ação tão natural entre humanos que em geral passa despercebida. Mas, no ambiente de trabalho, os rótulos são perigosos. Podem impedir que chefes percebam a evolução de subordinados, podem reforçar problemas de comportamento, podem criar desentendimentos desnecessários. Ser incapaz de ver profissionais para além de rótulos – mesmo os positivos – é um problema para os chefes, mas obviamente o maior perigo é se tornar alvo de um.

Evitar ser rotulado não é uma tarefa fácil, dizem os professores Jean-François Manzoni, Paul Strebel e Jean-Louis Barsoux, da escola de gestão IMD, da Suíça, autores de um estudo recente a respeito do tema. Segundo o trio, a criação de imagens caricaturais é comum e acontece em todos os escalões, embora haja uma propensão ainda maior de elas se formarem na alta direção, palco das disputas mais exacerbadas. Seja qual for sua posição na empresa, o ideal é escapar dos rótulos. Um passo importante é entender como o processo acontece. O rótulo nasce na maior parte das vezes de um “ruído”, quando existe uma diferença entre o rotulador e o rotulado. Isso pode ter diversas causas. Conflito de personalidades ou diferenças culturais estão entre os principais motivos. Imagine um funcionário acostumado ao ambiente informal da sua antiga companhia ao chegar a uma empresa rígida e hierárquica. Uma roupa diferente ou uma atitude um pouco deslocada podem ser o suficiente para gerar ruídos.

A segunda etapa é a da confirmação. O rotulador busca reforço do rótulo dado por ele com os colegas. A opinião pode colar ou não, mas é forte a chance de que um membro do time influencie outros. Uma possível terceira fase é aquela em que a pessoa confirma a marca. Um rótulo negativo em geral vem acompanhado de atitudes: o e-mail em massa com a última piada é direcionado a todos, menos à pessoa rotulada, ela é ignorada na hora do almoço ou se torna alvo de conversas de corredor. Rejeitada, ela tende a dar o troco e rejeitar. A atitude acaba por reforçar a percepção externa.

Para evitar o rótulo, dizem os professores, lembre-se de que a primeira impressão é a que prevalece. Timidez, agressividade ou extroversão excessivas, por exemplo, podem ser os ruídos. São traços, como numa caricatura, mas podem acabar por definir sua imagem. Se você tem uma característica marcante, é bom atenuá-la.

É importante também não tomar nunca um comentário de escritório como desaforo pessoal. Convém lembrar: você trabalha lá, e vai ter de construir uma relação saudável com os colegas. Mesmo com aqueles que não deram muitas chances para conhecê-lo melhor. Por fim, os três dão um último conselho: existem boas chances de o rótulo ter um fundo de verdade. Para neutralizá-lo, nada melhor do que um bom e sincero exercício de autoanálise.
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Por Edição Edson Porto com Álvaro Oppermann

Fonte: Revista ÉPOCA NEGÓCIOS online, abril/2010

A mudança e o elefante


Livro da dupla Chip e Dan Heath
 explica por que é difícil mudar,
na vida e na empresa

Os irmãos Chip e Dan Heath ficaram famosos de forma quase instantânea com o lançamento, em 2008, de seu primeiro livro, Ideias Que Colam, no qual discutem por que algumas ideias pegam e outras, não. O sucesso foi tal que um novo trabalho da dupla passou a ser aguardado com ansiedade. A espera acabou em fevereiro, quando chegou às livrarias americanas Switch (palavra em inglês que pode significar mudança ou interruptor). Os irmãos não desapontaram. A obra discute por que é tão difícil mudar, sejam hábitos pessoais ou processos administrativos, e o que pode ser feito para que as transformações ocorram. Os autores mantêm a prosa leve e engraçada que marcou o primeiro livro, além da capacidade de apresentar pensamentos complexos de forma simples.

Eles abrem o texto descrevendo uma experiência realizada pela Cornell University. Voluntários foram convidados para uma sessão de cinema na qual receberam sacos de pipoca de graça. Eles não sabiam qual era o objetivo do estudo: descobrir se uma pessoa come mais por receber uma porção maior de comida. Uma parte do grupo recebeu um saco grande, e outra, uma espécie de balde com pipocas. O resultado foi surpreendente. As pessoas com os baldes comeram 53% mais do que os que receberam as porções grandes.

Inicialmente, achou-se que o problema eram os indivíduos convidados. Eles simplesmente tinham menos controle sobre sua alimentação? Depois de novos testes e outras pesquisas, a universidade concluiu que, na verdade, a maioria das pessoas come mais quando lhe são oferecidas porções maiores. O que o trabalho mostra, dizem Chip e Dan Heath, é que a situação, o ambiente, é fundamental para a ação. Ou seja, se você quiser mudança, não pode ignorar a situação e acreditar que transformações dependem apenas de força de vontade.
Nossa mente tem um lado animal e outro racional.
Mudar exige mexer com os dois

 
Alterar o ambiente na direção correta é um dos três pontos que devem ser atacados para que se obtenham mudanças consistentes, dizem Chip e Dan. Para explicar os outros dois, eles recorrem a uma analogia emprestada do psicólogo Jonathan Haidt, que diz que nossa mente está dividida em duas partes: uma é o elefante; a outra, o condutor. O elefante é o nosso lado emocional, a parte do nosso cérebro que sucumbe diante de um chocolate ou do desejo de ficar na cama mais uns minutinhos depois de o despertador tocar. O condutor é a nossa parte racional, aquela que sabe que é preciso rejeitar o chocolate para evitar a barriga ou sair da cama para chegar ao trabalho na hora. Nessa metáfora, a trilha percorrida pelo elefante é a situação do exemplo da pipoca. Sentado no topo do elefante, o condutor em geral imagina estar no controle, mas um bicho de seis toneladas faz com frequência o que lhe dá na telha.

Chip e Dan argumentam que uma mudança consistente depende de ação sobre os três fatores. Além de mudar a situação, é preciso esclarecer o condutor e convencer o elefante. Nosso lado racional precisa de clareza e metas para mudar. É preciso saber onde se quer chegar e por quê. Com um caminho definido e um propósito claro, fica faltando apenas o envolvimento do elefante, o lado emocional.

Um exemplo real do que a dupla está falando é o caso do gerente Jon Stegner. Ele passou muito tempo convencido de que sua empresa poderia economizar milhões com um sistema de compras mais racional, mas não conseguia receber apoio do topo e realizar as mudanças necessárias. Para convencer a alta diretoria, ele fez uma exposição de luvas. A empresa – descentralizada – estava adquirindo anualmente 424 tipos de luvas diferentes, quando, na verdade, um só modelo bastaria. Na exposição, o gerente etiquetou o preço de cada par. No final, viu-se que variavam de US$ 3,22 a US$ 17.

O showroom causou um choque. Ele não apelava apenas para o lado racional mas também para o elefante dentro de cada diretor. Com o condutor e o elefante indo na mesma direção, o sistema de compras foi totalmente mudado, e a empresa fez economia na casa dos milhões de dólares. nossa mente tem um lado animal e outro racional. mudar exige mexer com os dois

Chip e Dan Heath – A fama com o livro Ideias Que Colam impulsionou os negócios desses dois irmãos americanos, que além de carreiras acadêmicas na área de gestão mantêm uma consultoria. Hoje eles também são palestrantes requisitados
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Fonte: Revista ÉPOCA NEGÓCIOS, nº 38 - abril de 2010 pp.84/85
Por Edição Edson Porto com Álvaro Oppermann

Chico Xavier: “Não se pode ser mais ou menos”

Simão Sessim*


RIO - Há no mundo todo variadas religiões e seitas. E sempre foi desse modo. Tanto que os gregos ergueram um santuário ao “deus desconhecido”, depois de construírem altares para uma imensa variedade de deuses, por receio de, mesmo assim, terem esquecido algum, situação que serviu ao apóstolo Paulo como argumento de defesa no tribunal ateniense.

Entretanto, a caridade, amor recebido por inspiração divina, atravessa as religiões e seitas; é uma só e foi motivo de vida do médium Chico Xavier, homenageado nesse momento, quando se comemora o centenário de seu nascimento.

Francisco Candido Xavier, espírita, mas pelos gestos de caridade, de amor; pelos exemplos de dedicação às necessidades do próximo, um ser humano raro, presente nos corações de todos, sejam espíritas, evangélicos, católicos, budistas, muçulmanos e mesmo ateus.

Chico Xavier não amou mais, ou menos, nem sonhou, mais ou menos. Foi intenso no amor, na caridade, na atenção a toda gente. E, a maneira que encontro para homenageá-lo neste artigo, é registrando aqui algumas de suas palavras. Escolhi um dos seus mais magníficos textos. Fala sobre o amor.

Escreveu Chico Xavier:

“A gente pode morar numa casa, mais ou menos; numa cidade, mais ou menos; e até ter um governo, mais ou menos. A gente pode dormir numa cama, mais ou menos; comer um feijão, mais ou menos; ter um transporte, mais ou menos; e até ser obrigado a acreditar, mais ou menos, no futuro. A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos. Tudo Bem!

O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum, é amar mais ou menos; sonhar, mais ou menos; ser amigo, mais ou menos; namorar mais ou menos; ter fé, mais ou menos; e acreditar, mais ou menos. Senão, a gente corre o risco de se tornar uma pessoa, mais ou menos”.

Desse modo, rendo as minhas homenagens a este que foi e é uma das melhores demonstrações do que pode fazer o coração humano quando integralmente ligado com Deus.
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*Simão Sessim é deputado federal
Fonte: Jornal do Brasil - 14/04/2010

O patrono

L. F. VERISSIMO*



Um estudo recente encomendado pelo banco BNP Paribas, francês e insuspeito, mostrou que nos últimos cinco anos a classe C brasileira cresceu e aumentou sua renda mais do que as classes A/B, enquanto que as classes D/E (não falam nas classes abaixo destas, que, no Brasil, como se sabe, chegam até as J/K) diminuíram de tamanho. Interpretações e reparos à vontade e ao gosto político de cada um, mas o inegável nos números é que houve ascensão social e está havendo distribuição de renda. Com bolsas antifome, suspensão de impostos, piques de empregos formais, pacs e repacs e trancos e barrancos, o governo está inserindo cada vez mais gente na vida econômica do país – enquanto consola os de cima com favores também inéditos para o capital financeiro. O que deve interessar a todo o mundo é que está se criando uma coisa que até agora não existia no Brasil, um grande mercado consumidor interno. E o patrono desta transformação não é Karl Marx, é Henry Ford.

Ironia. Henry Ford, em matéria de política, era um reacionário execrável. Sua companhia tornou-se um exemplo de cupidez empresarial um pouco acima do normal. Uma das histórias pouco comentadas da II Guerra Mundial é que a guerra já corria solta e o antissemita Ford continuava fazendo negócios com a Alemanha nazista. E não é preciso ir tão longe: foi notória a colaboração da Ford com a última ditadura militar na Argentina, para proteger seus interesses, e a ajuda da Ford e outras multinacionais estrangeiras à Operação Bandeirante, força auxiliar da repressão formada por empresários paulistas no Brasil dos anos cinzentos. Isso em contraste com a atividade – louvável – da Fundação Ford nos campos da educação e da cultura no continente. Mas Henry Ford ficou na história porque criou o fordismo, um método revolucionário de produção de carros em série que mudou para sempre os costumes e a paisagem da América. E porque pagava bem os funcionários da sua linha de montagem, raciocinando que de nada adiantava inundar o país de carros sem um mercado de massa para comprá-los.

Ford e o fordismo não foram os únicos responsáveis pela industrialização acelerada dos Estados Unidos a partir dos anos 20, claro, nem os empregados bem pagos da Ford foram os únicos protótipos da classe C consumidora que sustenta o capitalismo americano até hoje. Mas o fordismo teve efeitos colaterais importantes. Propiciou o aparecimento de um movimento sindical forte, e consequentes vantagens iguais para outros trabalhadores. Democratizou o acesso a bens antes exclusivos de uma minoria. E ficou como exemplo de racionalidade econômica a ser seguida. No caso do Brasil dos últimos cinco anos, um pouco tarde.
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*Escritor. Cronista
Fonte: ZH online, 15/04/2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

"Mrs. Dalloway"

LUIZ FELIPE PONDÉ


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Ver a si mesma como estrangeira na própria alma
é o pesadelo da personagem de Woolf

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MORAVA EU num kibutz em Israel. No final do dia de trabalho físico extenuante, lia na porta do meu quarto, ensaiando meus primeiros cachimbos. Durante alguns meses devorei livros da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Entre eles, um que me marcou excepcionalmente foi "Mrs. Dalloway", publicado em 1925.

Revi o maravilhoso "As Horas" (2002), com Nicole Kidman. E sempre quando vejo esse filme me lembro de como ela foi essencial, ainda que de modo pontual, em minha visão de mundo. No fundo, sempre suspeitei de que cada dia é mais um dia sob o risco de ser devorado pelo sentimento último da melancolia.

Às vezes na vida se faz necessário rompimentos com o cotidiano para que possamos ver melhor o sentido do que fazemos, ou a total falta de sentido. A vida se degrada facilmente na rotina de tentar mantê-la funcionando, por isso a derrota, como no livro "Mito de Sísifo" (1942), de Albert Camus, pode ser a condição necessária para a consciência repousar em paz consigo mesma. Vencer sempre pode ser um inferno.

Na época, atravessando minha primeira (de várias) crises com minha formação médica então em curso, busquei fugir para alguma fronteira do mundo. Trabalhei no deserto do Neguev algumas vezes e posso dizer que o pôr do sol no deserto vazio é uma experiência de dar inveja. A possibilidade de caminhar pelo deserto, como me disse certa feita o escritor israelense Amós Oz, refaz a alma porque vemos nosso rosto refletido na poeira. O deserto nos ensina a humildade, e a humildade é sempre imbatível. Humildade nada tem a ver com humilhação, mas, ao contrário, humildade fala da consciência de que somos efêmeros como o vento. E só como efêmeros que podemos perceber a dádiva que é respirar. Há um modo misterioso em como o deserto chama seu nome quando você está disposto a ouvi-lo.

Na época, já sabia que Virginia Woolf havia se suicidado e, por isso mesmo, quis conhecer sua obra. Nunca fui um deprimido clínico, mas sempre me surpreendi pelo fato de não sê-lo. Muitas vezes pareceu-me que, se fosse viver pelo que a razão me diz, já teria sucumbido à melancolia profunda. O que me encantou em Mrs.

Dalloway foi seu esforço em ser normal e feliz e acreditar em si mesma e na sua fidelidade à rotina. No dia em que se passa a história, ela organiza uma festa em sua casa. Manter a vida aí se equipara ao esforço descomunal de erguer uma festa quando, no fundo, ela se sente vazia e sem razões para festejar. Entre uma alma triste e uma rotina vazia, ela opta pela segunda como falta de escolha porque não pode confiar na tristeza.

Penso no número enorme de pessoas que se levantam pela manhã assim como quem carrega um corpo que não é seu. Mrs. Dalloway é o fim de quem ingenuamente acredita que as coisas sempre darão certo, bastando festejar a rotina comum. Não, a rotina é indiferente à nossa fidelidade, podendo nos destruir mesmo quando a servimos como a um senhor todo poderoso. O pesadelo de Mrs. Dalloway é se ver como estrangeira em sua própria alma.

Aprendemos com ela que a vida não é necessariamente bela e que tentar negar isso é uma forma de permanecer escravo de sua possível monstruosidade.

No fundo de nossa alma habitam monstros que a muito custo se mantêm em silêncio. Esses monstros, quando o mundo silencia, surgem na superfície mostrando o ridículo de nossa batalha diária.

Quantas vezes mulheres apenas suportam o choro de seus filhos, sofrendo no fundo da alma o horror que é ser obrigada a amá-los quando não sentem por eles nada parecido com amor materno, mas apenas o incômodo causado por aqueles pequenos intrusos em suas vidas.

Quantos homens sufocam diante da certeza de que já vivem uma vida sem amor, sem afeto e sem desejo, mas que isso é tudo que suportam ao lado de suas esposas. Quantos filhos sofrem por se sentir indiferentes para com o destino dos pais idosos, tentando convencer a si mesmos de que o amor pelos pais seria o certo, mas que nada conseguem além de desejar vê-los mortos e assim se sentirem livres finalmente.

Entre as funções da civilização, uma é a tentativa de calar esses monstros criando ritos, rituais, festas para celebrar a frágil vitória contra essas criaturas deformadas, atormentadas pelo completo desinteresse pela vida. A verdade é que não há como civilizá-las, a não ser ensiná-las que elas não têm lugar no mundo dos vivos e que, por isso, devem sucumbir à rotina da infelicidade como norma da vida.
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Fonte: Folha online, 12/04/2010

Teste de imparcialidade dá lições de moral

JOHN TIERNEY

Como Diógenes com sua lâmpada, pesquisadores cruzaram o mundo procurando um homem honesto -ou, mais precisamente, pessoas que agem de maneira imparcial e altruísta em relação a todos. Se você deseja aprender a seguir essa regra de ouro, qual destas estratégias é a melhor?

a) Mudar-se para uma aldeia na Amazônia e praticar a coleta junto com os indígenas tsimane;

b) Mudar-se a um assentamento dolgan e nganasan na tundra siberiana, criar renas e entrar para a Igreja Ortodoxa Russa;

c) Visitar um mosteiro no Himalaia e seguir as instruções para "olhar para seu interior";

d) Entrar para um acampamento de caçadores-coletores nômades hadza, que comem carne de girafa e mel na savana do Serengeti (Tanzânia);

e) Unir-se aos clientes do Walmart que compram mantimentos na pradaria do Missouri.

A melhor aposta é ir às compras, pelo menos segundo as experiências relatadas recentemente na revista "Science". Compras em qualquer tipo de supermercado parece ter o mesmo efeito.

Mas o Walmart parece ser popular entre os moradores excepcionalmente justos de Hamilton, no noroeste rural do Missouri (EUA). Eles tiraram a nota mais alta em um teste de imparcialidade em relação a estranhos, comparados com qualquer das comunidades menos modernas de Fiji, Papua-Nova Guiné, África, Ásia e América Latina.

O estudo não prova a superioridade moral dos missourianos, porque as sociedades tradicionais enfatizam virtudes diferentes, como dar alimento e conforto aos parentes. Mas os resultados ajudam a explicar um mistério básico: como pequenos clãs familiares evoluem para formar cidades de estranhos que cooperam?

Ser simpático tinha um sentido evolucionário quando vivíamos em pequenos bandos cercados de parentes, porque ajudá-los ajudava os nossos genes a sobreviver. Mas por que devolver a carteira de um desconhecido que você achou no táxi? Por que deixar gorjeta em um restaurante que você nunca mais vai frequentar?

Alguns psicólogos evolucionistas sugeriram que temos um sentido inato de justiça, que vem do tempo em que vivíamos em pequenos clãs. Segundo essa teoria, nossos instintos herdados nos fazem ser simpáticos com estranhos mesmo quando prejudicamos nossos interesses.

Mas há mais nisso do que apenas um instinto herdado, diz Joseph Henrich, da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá), que chefiou os antropólogos, psicólogos e economistas do estudo.

Eles encontraram amplas variações culturais observando mais de 2.000 pessoas de 15 pequenas comunidades que participaram de um jogo chamado Ditador, com prêmio equivalente ao salário de um dia de trabalho.

Um jogador, o ditador, tinha autoridade para guardar o prêmio todo ou dividi-lo com o outro jogador em disputa, que ele não via e cuja identidade permanecia secreta. Juntamente com esse poder vinha a certeza de que a identidade do ditador também ficaria em sigilo.

A opção mais lucrativa, é claro, era guardar o prêmio todo. Mas os missourianos, em média, dividiram mais de 45% do prêmio, e algumas outras sociedades foram quase igualmente generosas, como os moradores da cidade de Accra, em Gana.

Mas a maioria dos caçadores-coletores e agricultores de subsistência mostrou menor inclinação a dividir. Os nômades hadza do Serengeti e os indígenas tsimane da Amazônia só deram 25% do prêmio.

Eles também reagiram de modo diferente quando tiveram a oportunidade, em variações do jogo, de punir o outro jogador por ser avarento com o prêmio.

O egoísmo era tão ofensivo para os missourianos que eles castigariam o jogador mesmo que lhes custasse dinheiro. Mas os membros de sociedades tradicionais mostraram pequena inclinação a punir os outros às próprias custas.

"Há muitas normas nessas sociedades sobre como tratar uns aos outros e dividir a comida", diz Henrich. "Mas essas regras não se aplicam a situações incomuns, quando você não sabe nada sobre a origem ou a situação da outra pessoa.

Você não tem o mesmo sentido de responsabilidade e age guiado pelo interesse próprio."
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Fonte: Folha on line, 12/04/2010
Tradução do New York Times

A Igreja e a crise

LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL*

Não se trata de uma crise apenas da Igreja Católica – é uma crise que pertence a todos nós, que não somos perfeitos, que por vezes encobrimos nossas ações, não conseguimos perdoar, mas estamos sempre prontos a destruir. Os mais perversos abusos contra menores – e maiores, não esqueçamos –, são praticados no âmbito das famílias e, via de regra, busca-se uma solução que não ultrapasse as paredes domésticas.

Má solução? Péssima, por certo, mas assim é feita a humanidade, e a Igreja é feita de seres humanos. Joseph Ratzinger, de sólida formação acadêmica, acostumado a dialogar com várias religiões, especialmente a anglicana, e até com contestadores de dentro da Igreja, como o teólogo Hans Küng, está, como todos, escandalizado e constrangido, tentando administrar essa turbulência supra-eclesial que recai em peso sobre os ombros do Vaticano, o qual parece tornar-se um universal saco de pancadas. Compreende-se o apontar dos dedos acusadores: a Igreja Católica Romana é uma instituição transnacional, com 2 mil anos, e uma das poucas que sobraram em meio a diversos tsunamis culturais e morais. O caso é que uma sociedade falsa e hipócrita, atolada em seu charco ético, não tem nada a ensinar – nem a condenar.

O leitor inteligente sabe que não se está a negar a evidência dos casos pavorosos, amplamente noticiados, e reconhecidos pela hierarquia católica. O próprio Bento XVI declarou, na Sexta-Feira Santa de 2005, quando ainda não era Papa, que era necessário limpar “a sujeira”. Como conhecedor experimentado da sua grei, ele sabe onde está o problema.

No passado, e em todas as instituições, a solução era invariável: a transferência do transgressor, ou o esquecimento – veja-se o caso “leigo” de Roman Polanski; o problema, porém, persistia em sua base. Conhecem-se situações, entretanto, inclusive no Brasil, que acabaram com o desligamento sumário do transgressor ou, de maneira mais branda e quando não havia delito, pelo seu envio à assistência de natureza psicológica. Noutro episódio, bem difundido entre nós, o infame acabou na cadeia.

Deixemos a Igreja resolver o assunto por si mesma. E havendo crime, que seja punido pela lei comum. Esse não é apenas um direito da Igreja, mas significa, de nossa parte, apoiar uma ação construtiva e renovadora. Não esqueçamos que a crise da Reforma resultou numa Igreja mais forte, mais moderna, mais sóbria e voltada para suas finalidades, as quais ultrapassam o simples hic et nunc.
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* Escritor.  Educador.Colunita ZH
Fonte: ZH online, 12/04/2010

Mediterranizemo-nos

L. F. VERISSIMO*
Alex Ross escreve sobre música para a revista The New Yorker. Tem um livro publicado, que eu saiba: O Resto é Barulho. Num dos capítulos do livro, ele comenta a enorme influência de Richard Wagner não só na música, mas no teatro, na literatura, nas artes plásticas e na política do seu tempo, uma influência que perdurou depois da sua morte em 1883 e invadiu o século 20. Wagner era o compositor preferido de Hitler e convencionou-se que na mistura de misticismo, espetaculosidade e triunfalismo teutônico das suas óperas está uma das raízes do nazismo – o que não impediu que também influenciasse Theodor Herzl, fundador do sionismo, que, segundo Ross, teria tido a sua visão de um Estado judeu depois de assistir a Tannhauser.
Outro alemão influente, Friederich Nietzsche, foi um admirador fanático de Wagner (e, como ele, considerado uma das vertentes intelectuais do fascismo), mas mudou de ideia e passou a ser um dos seus maiores críticos. Para Nietzsche, Wagner se convencera de que era mais do que um compositor, era um oráculo, “o ventríloquo de Deus”, na sua frase, e era preciso libertar a estética da época daquele pesado domínio. Nietzsche passou a pregar uma reação a Wagner, uma volta da música às suas raízes populares e à simplicidade. “Il faut méditerranizer la musique”, escreveu. Era preciso mediterranizar a música.
A reação já estava acontecendo. Principalmente entre os franceses, velhos ressentidos com a prepotência alemã. Bizet, Faure, Satie, Debussy e outros anti-Wagners “mediterranizaram” a música, cada um a seu modo. Mas fiquei pensando em como a exortação do Nietzsche ainda serve, não necessariamente na música, mas em todas as ocasiões em que a vida parece ficar wagneriana demais. Deveríamos mediterranizarmo-nos todos, o que significaria evitar dramas ruidosos, megalomanias épicas e arrebatamentos místicos e nos concentrarmos nos simples prazeres possíveis. Não seria uma receita para a frivolidade, ou para a insensibilidade com a tragédia e a injustiça, mas uma correta avaliação de prioridades. E pode-se ser mediterrâneo em qualquer lugar da Terra.
O problema é que o exemplo maior de vida mediterrânea é a Itália da doce vida, mas que também é a insensata Itália do Berlusconi. Talvez o ideal devesse ser mediterranizarmo-nos, mas não demais.
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*Escritor. Colunista da ZH.
Fonte: ZH online, 12/04/2010

domingo, 11 de abril de 2010

Eleições 2010: cenários e perspectivas

O momento em que estamos já estabeleceu que a polarização entre Serra e Dilma será a tônica desta campanha. As projeções que fizemos indicam que Dilma está em curva ascendente consistente e Serra, na melhor das hipóteses, se estabilizará na faixa de 30-35%, percentual próximo ao que obteve no 2º turno de 2002 (38%). Isto é, a sua passagem pela prefeitura de São Paulo e no governo do estado de São Paulo (2006-09) não lhe acrescentou nada de significativo em termos de voto. Dilma, ao contrário, entra nesta disputa com 4% de intenções de voto em fevereiro de 2008 e hoje se projeta apontando para cima em vias de passar o Serra em breve. A análise é de Marcus Figueiredo, do IUPERJ.

Marcus Figueiredo

Clique pare acessar o texto integral:

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16521&boletim_id=672&componente_id=11201

Jean Delumeau - Entrevista

''O Papa não deve ser eleito para toda a vida''

Jean Delumeau, historiador francês e estudioso do cristianismo, certamente não têm ideias confusas: "Gostaria de não ceder ao linchamento da mídia contra a Igreja, que está tão na moda. Explico, além disso, que não deve ser estabelecida uma ligação muito estreita entre pedofilia e celibato obrigatório dos sacerdotes, já que, segundo pesquisas recentes, 96% dos abusos e dos maus tratos sexuais de menores ocorreram – na França – no âmbito familiar. E os sacerdotes, em grande parte, são pessoas irrepreensíveis".

Eis a entrevista.

Mas a sexualidade dos sacerdotes apresenta um problema para a Igreja Católica.
A sexualidade falha – devido ao celibato – dos sacerdotes não deriva nem da profissão de fé, muito menos do dogma: foi o primeiro Concílio Lateranense de 1123 que proibiu o casamento dos sacerdotes, e, em seguida, se confundiu o ministério pastoral com a vida monástica, que nos nossos dias parece anacrônica. Quanto às recentes questões de pedofilia, elas demonstram que é preciso uma maior consciência para se ter acesso ao sacerdócio. Já se desconfia, por sorte, das "vocações infantis", mas os seminários deveriam vigiar também as vocações sacerdotais dos adultos, já que um fervor espiritual momentâneo não implica em uma garantia de uma vida inteira de celibato.

De fato, hoje um número consistente de sacerdotes tem relações com mulheres mais ou menos estáveis.
Certamente, vive-se com dificuldade o celibato consagrado, assim como a vida de casal, por outro lado. A Igreja deveria enfrentar os problemas da sexualidade, já que o desconforto dos sacerdotes espelha a sensação de estresse por causa do apostolado, da inutilidade, do isolamento psicológico, do não reconhecimento social. Continuando nesse passo, nos encontraremos em um beco sem saída.

Quais soluções o senhor entrevê?
Não basta pedir perdão às vítimas que exigem justiça, mas deve ser mudado o sistema, em primeiro lugar acabar com o segredo absoluto que se impõe em Roma e que "envenena" a vida pública. E depois abandonar a doutrina que não tem fundamento evangélico nenhum, segundo a qual o celibato é o único estado de vida possível para os sacerdotes. Um sacerdote teólogo francês, Rigal, recentemente escreveu que "temos o direito de pensar que sacerdotes casados enriqueceriam a figura do ministério apostólico com a sua inserção familiar e social". Mas agora ocorre o contrário: a diminuição progressiva dos números do ministério sacerdotal.

E agora, com essas questões de pedofilia que envolvem a Igreja, a autoridade do Papa lhe parece enfraquecida? O senhor vê a possibilidade de renúncia?
Nunca nada impediu que um Pontífice renuncie, não está escrito em nenhum lugar, mas não acho oportuno que Bento XVI faça isso agora, porque deve manter a cabeça alta neste momento difícil para a Igreja. A meu ver, o Papa deveria ser eleito por um período limitado, dadas também as responsabilidades que o cargo envolve.

Portanto, o senhor acha que o Pontífice não deveria ser eleito para toda a vida?
A rapidez com a qual a nossa civilização evolui envolve, de alguma maneira, essa modificação do estatuto pontifical, e eu me declaro contrário à eleição do Pontífice por toda a vida, ele que, dentre outras coisas, nomeia os cardeais, e nos encontramos, portanto, sempre com os mesmos grupos no poder. Desejo que, também no colégio dos cardeais, se dê lugar a expoentes de uma sensibilidade católica diferente da que está atualmente no poder, que constitui o "partido único" da Igreja.

Com a carta enviada à Irlanda, o Papa se manifestou pela primeira vez sobre os abusos sexuais cometidos pela instituição que dirige. O que isso implica para a política vaticana?
Bento XVI deveria ir o mais rápido possível para a Irlanda, não apenas para pedir perdão, mas também para anunciar uma mudança profunda no governo da Igreja. Estou verdadeiramente convencido da sua sinceridade, mas reforço que deve ser modificada toda a organização – muito secreta e centralizada – do governo da Santa Sé Romana, que leva aos abusos sexuais.

O Pontífice foi também criticado por diversas pessoas por não ter se referido ao escândalo ao longo da missa de Páscoa.
Talvez, não era o lugar nem o momento propício para tratar desses episódios muito deprimentes.
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A reportagem é de Anna Tito, publicada no jornal L'Unità, 10-04-2010.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU- 11/04/2010

Eu vou lá pra rezar

Rubem Alves*

Seguindo o meu hábito, fui caminhar na Fazenda Santa Elisa. Normalmente são caminhadas solitárias. Gosto que seja assim porque na solidão a gente está livre da obrigação de conversar. A tagarelice dos humanos pode ser irritante. Silenciados os homens pode-se então gozar o canto dos pássaros — é bom ouvir o canto e saber o nome do pássaro cantor: “É um João-de-barro, é um canário da terra...” Os meninos da minha infância sabiam os nomes naturalmente, sem que ninguém os ensinasse porque os pássaros eram parte da sua vida.
É preciso que as vozes sejam silenciadas para se ouvir o vento sussurrando nas orelhas, e o ruído da percussão, os pés esmagando as folhas secas de outono espalhadas pelo chão. Assim o silêncio se enche de poesia: “Só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido”, escreveu o Alberto Caeiro. Se a fazenda sentisse e pensasse acho que ela gostaria que os homens a sentissem como uma namorada: caminhar por seus caminhos é como acariciar o corpo da amada...
É assim que caminho, pensando os pensamentos... — mas eu não deveria pensar coisa alguma; deveria mesmo era estar só sentindo; porque “pensar é estar doente dos olhos”. Um pensamento é um intruso que atrapalha a pureza daquilo que os olhos vêem. Como se o azul puro do céu se enchesse de nuvens — disse o Heládio Brito que as nuvens são os pensamentos do rio — estragando o gozo puro da visão com a pré-ocupação de que se tem de fazer.
Hora de praticar a arte de ver... Não entendo as razões que levam as pessoas a fechar os olhos para rezar. Como se o ver fosse distração do Tentador... “O meu olhar é nítido como um girassol”, escreveu Alberto Caeiro.

“Tenho o costume de andar pelas estradas olhando para a direita e para a esquerda, e de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento é aquilo que nunca antes eu tinha visto, e eu sei dar por isso muito bem. Sei ter o pasmo essencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo...”

Alberto Caeiro poderia ter escrito essas palavras depois de caminhar pelos caminhos da Fazenda Santa Elisa, mas só depois, porque enquanto caminhava ele não pensava em nada; ele era só olhos.
O que não posso imaginar é Alberto Caeiro caminhando sem ver, os caminhos da fazenda sendo usados como se fossem uma academia de ginástica para exercitar pernas, coração e pulmões. Que é o que normalmente fazem os corredores: não caminham para sentir; caminham para se exercitar. Alberto Caeiro diria que a única função das caminhadas seria levar os sentidos a passear, especialmente os olhos. “Eu sou do tamanho do que vejo”, disse ele. “Nas cidades a vida é mais pequena... Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, empurrando nosso olhar para longe de todo céu, tornando-nos mais pobres porque a nossa única riqueza é ver”.
Pensei então em preparar um pequeno guia que seria oferecido aos corredores e caminhantes que usam a fazenda como academia de ginástica, mostrando-lhes as coisas que deveriam ser vistas enquanto correm ou caminham.
Logo depois de atravessar o gramado, uma fileira de palmeiras, no centro da avenida por onde se entra, todas elas com enormes cachos de cocos verdes, cada um do tamanho de um ovo de galinha — de longe dir-se-ia tratar-se de cachos de uvas num pais de gigantes. Ao fim da avenida das palmeiras está um gramado imenso, que termina com duas árvores arredondadas - de longe eu apostaria que eram mangueiras – mas não são mangueiras, são pés de lixia, ao lado de um pé de seriguela e um pé de jatobá. Foi ali que plantei, com um punhado de crianças e o auxílio dos cuidadores da fazenda, um caquizeiro, símbolo do triunfo da vida contra a morte. Mas essa estória eu já contei...
Ao fim da avenida das palmeiras, virando-se à esquerda, estão palmeiras esguias, troncos marcados por anéis. Em tudo parecidas com as palmeiras comuns. Mas há uma diferença: elas crescem ao pares, como se fossem namoradas. Há algumas solitárias... Talvez sejam viúvas... Um pouquinho adiante, do lado direito, uma árvore de copa grande, arredondada, “sapucaia” ou “cumbuca de macaco”. Linda. Ela passa por fases em que muda de forma e cor durante o ano. Depois de ficar despetalada, revigora-se tomando uma cor verde que, aos poucos, vai se transformando na cor vermelho-vinho, para, em seguida, tornar-se uma árvore com as folhas meio que douradas. Ao lado dela a rara paineira branca, árvore que plantei com o nome de “Carlos Rodrigues Brandão”, amigo querido, no meu cemitério de árvores em Pocinhos do Rio Verde.
Se, ao final da avenida das palmeiras, ao invés de virar à esquerda você virar à direita você chegará ao departamento de hortaliças. Preste atenção: logo na entrada você encontrará o pé da flor cujo nome popular é trombeteira, nome científico “brugmancia suaveolens”. Há as brancas e as rosas, de um fortíssimo poder alucinógeno. É essa planta que explica por que as bruxas voam em vassouras... Também já escrevi sobre isso...
E há as avenidas, catedrais de bambus — plantados por um pai que amava a sua filha... E há também a árvore de treze troncos... E a jaqueira, próxima das plantas de jardins...
Se eu fosse diretor e tivesse poder mandava colocar na entrada da Fazenda Santa Elisa esses versos da Adélia:

“Eu sempre sonho que uma coisa gera,
Nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.”
Eu vou lá é pra rezar...”
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*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 11/04/2010

sábado, 10 de abril de 2010

A arte de não votar

Ivan Lessa*
Colunista explica porque nunca votou e porque será eternamento grato a um despachante.



Serei direto: basta ficar em casa. Não passar a 100 metros que sejam de cabine indevassável, urna, presidente de mesa, qualquer coisa que lembre, mesmo que vagamente, o chamado - e chamemo-lo assim, só de sacanagem - escrutínio.

Exagerei quando falei em "arte de não votar". Nem técnica chega a ser. Desde os 18 anos, completados no Brasil, onde nem sempre havia essa farofada de "cumprir o dever cívico" (meu Deus, vivemos uma vida inteira entre aspas e nem notamos!). Para guiar os destinos do país tínhamos líderes que, no par ou ímpar, cara ou coroa, golpe ou emenda constitucional, resolviam entre si a espinhosa questão. Nós outros que cuidássemos de nossa vida e nem pensássemos em meter o bedelho.

O grau mais alto de politização a que cheguei foi graças ao Messias. Do qual (injustiça minha) não guardei nem o sobrenome, tamanha minha ojeriza aos ocasionais, muito ocasionais, momentos de demonstrar meus pendores cívicos.

Messias era um crioulo de terno e gravata, muito bem-educado e despachado. Tão despachado que foi ser despachante na vida. E despachante dos bons. Vou mais longe, talvez motivado por um descabido saudosismo: Messias foi o maior despachante de todos os tempos no Rio de Janeiro de meu tempo. Desde o meu registro como - por favor, não riam - eleitor, Messias me guiou os passos na enredada vida da política. Foi à zona ou vara ou talvez até distrito eleitoral, quem sabe até mesmo o quartel eleitoral, e cuidou, mediante preços mais que razoáveis, da falência de minhas ideologias. Posso estar enganado, mas sou capaz de jurar que o Messias compareceu por mim ao comício no Automóvel Clube de 1964 e à Passeata dos Cem Mil de 1969.

Quando, por exercer o jornalismo humorístico malsão com subversiva inocência durante o período que o povão, em sua infinita sabedoria, resolveu apelidar carinhosamente de "ditadura", e eu peguei pela proa dois processos por Atentado aos Bons Costumes e outro por infringir a Lei de Segurança, além de um excelente advogado, meu querido amigo Mânlio Marat Aquistapace, quem senão o Messias cuidava da papelada e de me acompanhar ao Fórum e à Polícia Federal, ali na rua da Assembléia, e de meu registro, com foto de frente e de perfil, sem camisa no entanto, ali nas dependências do DOPS, quase esquina de Senador Dantas.

Tudo que eu sei de política devo ao Messias. E, para ser justo, bastante também ao Marat. Logo depois deles, seguem-se o general da Censura Federal, e um escrivão e um fotógrafo do DOPS.

Quando em terras de Brasil, votar para mim sempre me elevou a uma espécie de atitude existencial única. Votar era uma ausência transcendental. Minha transubstanciação pessoal. Eu não comparecia a posto nenhum, vara nenhuma, zona alguma. Eu tinha apenas - e era um baque, uma volta à Terra - que justificar burocraticamente minha ausência no dia em questão, ou seja, no dia em que a cidade, o estado, o país, e todos seus cidadãos escolhidos a dedo, lato sensu, escolhiam quem iria decidir seus destinos. Os destinos lá deles, evidentemente. Dos senhores vereadores, deputados, senadores, governadores, presidentes e acompanhantes habituais. Nós, filhos e descendentes do Estado Novo, já tínhamos destino traçado desde o berço. Naquelas raras ocasiões cívicas que nos virássemos e aguentássemos: a bagunça e a algazarra dos caminhões com alto-falantes, as paredes pichadas, as aves bizarras a se leiloarem nos postes, nas estações de rádio, na televisão.

No estrangeiro, nesta Grã-Bretanha que não me pode ser mais estrangeira, o voto não é obrigatório. Analfabeto não participa dos festejos, que aliás não são nenhum. E as eleições gerais, como agora, no dia 6 de maio, são sempre numa quinta-feira e não é feriado nacional.

Não ficarei aqui deslumbrado diante dos prazeres a que apelidam de democráticos. A televisão e os jornais ficam insuportáveis. Gráficos, textos, opiniões, reportagens, colunas, populares opinando. Mas há 200 canais para escolher, muitos em HD, DVD para alugar e, por nostalgia reverente, no meu caso, ao menos, lembrar-me afetuosamente do Messias, com seu terno preto, gravata vermelha, pasta surrada, bom humor e extraordinária eficiência. Messias - a única pessoa no mundo em quem eu de bom grado iria até a esquina para nele votar. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
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Fonte: Estadão online, 09/04/2010