domingo, 2 de maio de 2010

Best-seller: Autora do CREPÚSCULO

Biógrafo Marc Shapiro investiga o fenômeno editorial Stephenie Meyer

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Em uma madrugada de junho de 2003, Stephenie Meyer, uma dona de casa mórmon da pequena cidade de Cave Creek, no Arizona, acordou de sonhos intranquilos. Não, ela não estava prestes a se transformar em um inseto gigante, mas sim na mais nova pop star da indústria de best-seller. No dia seguinte, a partir das imagens “muito vívidas” que guardou na memória, elaborou uma frase, digamos, enigmática, que lançaria as bases do fenômeno editorial Crepúsculo: “Na luz do sol ele era chocante”. Uau! O resto da história, todo mundo conhece: os quatro livros sobre colegiais no cio e vampiros sexualmente reprimidos venderam como batom entre as adolescentes de coração mole, gerando mais de 25 milhões de cópias mundo afora e uma franquia bem-sucedida de blockbusters hollywoodianos.

A ascensão meteórica de Stephenie Meyer, que não havia publicado nenhum livro antes da bem-sucedida estreia, deixou muita gente surpresa. Ainda hoje, é difícil entender de onde uma dona de casa à beira dos 30, vivendo o dia a dia banal de uma cidadezinha da América Profunda, teria tirado a inspiração para escrever histórias fantasiosas sobre vampiros. Mas para o biógrafo americano Marc Shapiro, que esmiuçou sua trajetória em Stephenie Meyer – A biografia não autorizada da criadora da saga Crepúsculo , que acaba de ser lançado no Brasil, não há nada de improvável no sucesso da autora.

– Ela teve obsessão em uma ideia e a colocou na mão das pessoas certas... Um agente, um editor e, por fim, uma editora – avalia o biógrafo, em entrevista ao Jornal do Brasil. – Essas pessoas acreditavam o suficiente no que Stephenie havia escrito para dar a ela o empurrão que lhe faltava. Ela mal tinha ideia do que era preciso fazer para publicar um livro, mas pôs seus originais nas mãos de pessoas que sabiam como proceder.

Um caminho que lembra o de J. K. Rowling, outro fênomeno inesperado da literatura infanto-juvenil, e a quem Shapiro também dedicou uma biografia não autorizada. Embora Stephenie Meyer recuse comparações com a autora da franquia Harry Potter, o biógrafo não deixa de ver semelhanças entre as personagens. Ambas tropeçaram em uma carreira literária em meio a um casamento feliz e três filhos, graças a uma ideia que as compeliram para a escrita.

– Acho que podemos dizer que as duas tiveram um bocado de sorte também – acrescenta o biógrafo, que prepara nesse momento um livro sobre a vida do impúbere ídolo pop Justin Bieber, de 16 anos.

Ao contrário do que se pensa, Stephenie Meyer não caiu de para-quedas na vida literária. Com certeza não estava em seus planos fazer carreira, mas a autora não era nenhuma aventureira: já havia estudado escrita criativa na Brigham Young University, em Utah, onde, de acordo com o livro, fora uma aluna destacada. Pelo menos é o que diz Steven Walker, um de seus professores da época citados no livro (o único, na verdade), que se derramou em elogios à sua “abordagem (...) tão criativa quanto a escrita acadêmica”. Walker continua: “Ela era uma boa escritora que, mesmo àquela época, competia entre os estudantes de inglês mais adiantados”.

Shapiro tenta resgatar o universo em que a escritora se criou. Aqui e ali, encontra-se uma referência a livros de Jane Austen, mas parece que as grandes obras que formaram sua sensibilidade artística foram enlatados de TV. “Ela deixa tudo de lado por uma maratona de Law and order, e, nos dias de hoje, lamenta o fato de sua pesada carga de trabalho fazê-la perder contato com reality shows favoritos, como Survivor e The amazing race”, descreve Shapiro. Ah, ela também parece ser uma grande fã de A família Sol-lá-si-dó...

Leituras mais picantes, como as dos libidinosos vampiros de Anne Rice, que Stephenie admite ter lido “em seus anos de faculdade”, vinham sempre com um grau de culpa, já que a autora procurava policiar a si mesmo ao abordar filmes e livros que contivessem “assuntos de teor sexual ou violento”. Na verdade, parece que o que moldou mesmo o seu imaginário foram os mandamentos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, da qual Meyer se diz seguidora fiel. Menos pela sua gênese repleta de imagens (o fundador Joseph Smith, Jr dizia que um anjo lhe havia entregado plaquetas de ouro com os preceitos da religião), do que pelos rígidos princípios mórmons, que proíbem o sexo pré-marital, entre outros prazeres biológicos.

Durante a adolescência, a escritora teve que reprimir seus anseios carnais com a mesma que disciplina que Bella, a protagonista da saga. Ansioso pela lua-de-mel, seu então namorado – e futuro marido – chegou a lhe pedir em casamento pelo menos umas 40 vezes. “Depois de um tempo isso virou um costume do fim dos nossos encontros”, declarou Stephenie Meyer, em entrevista ao Phoenix New Times reproduzida por Shapiro.

– Não creio que o sexo reprimido contido no livro seja fruto de um aumento da repressão sexual do país, mas sim um reflexo dos próprios valores de Stephenie – arrisca Shapiro. – Era normal que ela construisse seus personagens de acordo com os seus valores. O segredo do sucesso da série Crepúsculo é que seu público-alvo primário, composto principalmente por jovens moças, está na idade em que começam a se adaptar à ideia de se tornarem mulheres. A mídia prefere bombardeá-las com uma sexualidade clamorosa em vez de romance verdadeiro, o tipo de sentimento que se tem quando se apaixona pela primeira vez. Sim, há vampiros, lobisomens, e muitas coisas fantásticas, mas há também sentimentos não-sexuais que o público adotou.

Apesar do rótulo de “não autorizado”, e da garantia de Shapiro de que se poderá “encontrar coisas que ninguém sabia antes” na biografia, não há uma única passagem obscura da vida de Meyer. O livro é 100 % “lado A”, num nível que chega a flertar com reverência. O biógrafo, aliás, não entrevistou suas fontes, limitando-se a construir seu texto com um apanhado de entrevistas caçadas na internet e nos arquivos de jornais. Ele, aliás, defende sua biografada dos críticos mais severos, que chegaram a chamá-la de “escritora amadora”.

– Em primeiro lugar, Stephenie Meyer é uma boa escritora – afirma. – Não uma grande escritora. Mas ela recompensa isso criando personagens memoráveis, além de ser uma ótima contadora de histórias. Além do mais, ela vende milhões de livros. Estes não são fatores que agradam aos críticos, mais propensos a favor de trabalhos “literários”, e que costumam virar o nariz para a ficção de caráter comercial. Mas todo escritor, não importa qual seja seu estilo, precisa enfrentar a crítica, se ele pretende levar sua obra ao público.

Prazer reprimido é melhor do que sexo

O leitor já começa a pensar: “Lá vamos nós, mais uma crítica ácida à literatura enlatada das grandes editoras...”. Dessa vez, no entanto, não é bem assim. Por mais tentador seja atacar os grandes fenômenos editoriais e suas incansáveis campanhas de marketing, é preciso reconhecer pelo menos um aspecto positivo na histeria Crepúsculo, que tomou de assalto as nossas adolescentes apaixonadas.

Em primeiro lugar, a bizarra saga se formou contra uma certa tendência comportamental. Visando estrategicamente um alvo específico (as garotas e seus primeiros anseios afetivos e carnais), é verdade, mas ainda assim em oposição à tendência liberal dominante na indústria cultural de hoje. Vide a recente produção infanto-juvenil, tomada por narrativas que pretendem falar abertamente sobre sexualidade e outros temas tabus – sempre em uma linguagem didática, edulcorada, falsamente descolada... Tudo muito bacana e politicamente correto, OK, mas ao mesmo tempo muito chato. Por sua vez, a mídia faz um apelo bombástico às púberes e inseguras excitações juvenis, expondo e promovendo por todos os lados corpos esculturais, cópulas perfeitas, de onde irradia um vazio e mecânico “go for it”.

Tanto na sua versão cinematográfica quanto literária, os vampiros puritanos de Stephenie Meyer correm na direção contrária. Baseados nos valores firmes de uma religião controversa, retardam a tão aguardada passagem à ação. Não sem sofrimento, aceitam interrupções anticlimáticas que, no fim, apenas prolongam o perigo prazeroso do sexo – para eles, uma energia quase sagrada. Surgem intermináveis negociações entre os corpos (o “eu quero, mas não posso” ou, mais grosseiramente, “dou ou não dou?”), que remetem a um tempo pré-educação sexual, quando o ato físico ainda possuía sua cota de mistério e transcendência. Afinal, como dizia Nelson Rodrigues: “Antigamente, a lua-de-mel era um banho de sangue”.

Na vida real, a abstinência pode ser um tédio. Mas, pelo menos no que diz respeito à literatura, parece uma opção muito mais interessante do que todos os romances metidos a moderninhos e suas vãs tentativas de desmistificar nossas pulsões vitais
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Fonte: Jornal do Brasil online - 01/05/2010

Um jornalismo fiel à verdade

CARLOS ALBERTO DI FRANCO*
difranco@iics.org.br


Recentemente, Juan Luis Cebrián, fundador e primeiro diretor do El País, foi entrevistado pela jornalista Laura Greenhalgh, editora-executiva do jornal O Estado de S.Paulo. A entrevista, saborosa e inteligente, foi uma sincera reflexão sobre os avanços e recuos do nosso ofício. Cebrián viveu importante momento da história da imprensa espanhola. O El País, independentemente de certo alinhamento ideológico com o governo socialista, é um grande diário.

A crise que fustiga a nossa atividade é flagrada na radiografia do escritor. O que está em jogo é o próprio modo de fazer jornalismo. Cebrián intui a gravidade do momento. “A internet é um fenômeno de desintermediação”, diz ele. “E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado?”

Só nos resta uma saída: produzir informação de alta qualidade técnica e ética. Ou fazemos jornalismo de verdade, fiel à verdade dos fatos, verdadeiramente fiscalizador dos poderes públicos e com excelência na prestação de serviço, ou seremos descartados por um leitorado cada vez mais fascinado pelo aparente autocontrole da informação na plataforma virtual. Um olhar, sincero e autocrítico, mostra alguns equívocos que, aos poucos, vão minando a credibilidade e comprometendo nossa capacidade de atrair e fidelizar leitores.

A recente enxurrada de matérias sobre abuso sexual na Igreja são um bom exemplo desses desvios. Setores da mídia definiram os abusos com uma expressão claramente equivocada: “pedofilia epidêmica”. Poucos jornais fizeram o que deveriam ter feito: a análise objetiva do fatos. O exame sereno, tecnicamente responsável, mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos ocorridos é muitíssimo menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade. Em artigo recente, o conhecido sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, apenas cem sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto seis mil professores de educação física sofriam condenação pelo mesmo delito. Na Alemanha, desde 1995, existiram 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero, menos de 0,2%. Por que só nos ocupamos das 300 denúncias contra a Igreja? E as outras 209 mil denúncias? Trata-se, como já afirmei, de um escândalo seletivo.

Recentemente, repercutimos, sem qualquer análise crítica, declarações de um representante da “Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII”, sediada na Espanha. Pedia-se, num gesto carregado de ridículo, a demissão de Bento XVI. Ninguém, no entanto, perguntou o óbvio: quem são os teólogos que integram essa entidade? Trata-se de uma ONG com credibilidade pública comprovada? Um mínimo de apuração jornalística mostraria que se trata de um entidade de dissidentes, sem qualquer expressão. A Igreja, com sua história bimilenar e precedentes de crises muito piores, é um mistério. Mas, obviamente, não é um assunto para ser tocado com amadorismo ou engajamento.

A má qualidade da cobertura da pedofilia na Igreja é, a meu ver, a ponta do iceberg de algo mais grave. Não existe crise da mídia impressa. Existe, sim, uma grave crise no modo de fazer jornalismo. Reproduzimos, frequentemente, o politicamente correto. Não apuramos. Não confrontamos informações de impacto com fontes independentes. Ficamos reféns de grupos que pretendem controlar a agenda pública. Mas o jornalismo de qualidade não pode ficar refém de ninguém: nem da Igreja, nem dos políticos, nem do movimento gay, nem dos ambientalistas, nem dos governos. Devemos, sim, ficar reféns da verdade.

Há espaço, e muito, para o bom jornalismo. Basta cuidar do conteúdo e estabelecer metodologias e processos eficientes de controle de qualidade da informação. E redescobrir uma verdade constantemente reiterada pelo jornalista Ruy Mesquita: o bom jornalismo é “sempre artesanato”.
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Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia
Fonte: Correio Popular online, 02/05/2010

Gatos são tão dramáticos!!!!!!!!!!

A crueldade dos adolescentes

Rubem Alves*

Caipira, adolescente, recém-mudado para o Rio de Janeiro, sotaque de mineiro de roça, fui objeto dessa coisa cruel que se chama “bullying”. Sofri e conheci o medo como nunca antes conhecera.

Em inglês o “bully” é o valentão, um tipo que, valendo-se do seu tamanho ou musculatura, frequentemente acompanhados da atrofia de inteligência e de sentimentos, tem prazer em bater nos mais fracos. Por vezes o “bullying” não se expressa por meio de murros e tapas. Basta a chacota e a zombaria. Sentem-se felizes vendo o medo da vítima.

O “bullying” é diferente das brigas que acontecem entre iguais, provocadas por algum motivo. Essas brigas acontecem e acabam. O “bullying”, ao contrário, é contínuo e sem motivo. A vítima, ao se preparar para ir à escola, sabe o que a aguarda. Gostaria de fugir mas não pode. E não há nada que possa fazer para que o “bullying” não aconteça. Informar os professores só pode agravar a sua situação. Misturado ao medo cresce o ódio, o desejo de vingança e as fantasias de destruir os agressores que, um dia, poderão se transformar em realidade. Ir à escola é um sofrimento diário e silencioso.

Sadismo é uma deformação espiritual. O sádico é uma pessoa que sente prazer ao produzir ou contemplar o sofrimento de um outro. Relata-se que torturadores chegam a ter ejaculações ao ver o torturado contorcendo-se de dor.

Cléo Fante escreveu um livro perturbador sobre isso: O fenômeno “bullying” (Verus Editora) do qual vou retirar alguns casos dramáticos.

Edimar era um jovem humilde e tímido de 18 anos que vivia na pacata cidade de Taiúva, no Estado de São Paulo. Os seus colegas fizeram-no motivo de chacota porque ele era muito gordo. Puseram-lhe os apelidos de “gordo”, “mongoloide”, “elefante cor-de-rosa” e “vinagrão”, por tomar vinagre de maçã todos os dias, no seu esforço para emagrecer. No dia 27 de janeiro de 2003 ele entrou na escola armado e atirou contra seis alunos, uma professora e o zelador, matando-se a seguir. Foi o caminho que encontrou para vingar-se e escapar das humilhações que não tinham fim.

Denilton era um adolescente de 17 anos, tímido e introvertido. Na cidade de Remanso, na Bahia, foi submetido por anos a fio a humilhações e chacotas por parte dos colegas. Até que chegou o momento de não aguentar mais. Resolveu se vingar. Com esse objetivo foi à escola, que estava fechada. Dirigiu-se então à casa do seu agressor principal. Lá chegando chamou-o pelo nome e o matou na porta da casa com um tiro na cabeça. Dirigiu-se então à escola de informática onde estava matriculado, em busca daqueles que lhe haviam roubado a alegria de viver. Atirou em funcionários e alunos, atingindo fatalmente na cabeça uma secretária. Quando tentava recarregar a arma foi imobilizado e detido.

Em Patagones, na Argentina, Rafael, um jovem de 15 anos, tímido e com dificuldades de relacionamento e considerado esquisito pelos colegas, foi apelidado de “bobão”. Diziam que ele era de um outro mundo. Após a execução do Hino Nacional o garoto dirigiu-se para a sala de aula dizendo: “Hoje vai ser um lindo dia”. De repente começou a atirar contra as paredes, contra pessoas, matando três meninas, um menino e ferindo mais cinco. Finalmente ajoelhou-se em estado de choque e entregou-se à polícia.

Luis Antônio, um garoto de 11 anos, sempre gostou de estudar. Ao se mudar de Natal para Recife, entretanto, começou a apresentar um comportamento estranho: não mais queria ir à escola. Seu sotaque diferente passou a ser motivo da caçoada e da violência de colegas que “não iam com a sua cara”. Batiam-lhe, empurravam-no, davam-lhe murros e chutes. Na manhã do dia fatídico, antes do início das aulas, apanhou de alguns meninos que o ameaçaram com a “hora da saída” – essa é a hora preferida para as violências. Aterrorizado, por volta das dez e meia saiu correndo da escola e nunca mais foi visto. Um corpo com características semelhantes ao dele, em estado de putrefação, foi conduzido ao IML para perícia.

Não são casos isolados. O “bullying” é um fenômeno universal. Diariamente ele atinge milhares de crianças e adolescentes que são marcados emocionalmente na sua autoimagem e na aprendizagem. Uma criança apavorada não pode aprender. Mas não conheço nenhuma teoria pedagógica que preste atenção a esse fato. No entanto, os seus efeitos são mais importantes do que tudo que possa ser ensinado.

Você não suspeita: mas é possível que seu filho ou filha esteja sofrendo, vítima silenciosa e amedrontada de “bullying”...
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*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 02/05/2010

sábado, 1 de maio de 2010

Lya Luft




O palco dentro de nós

Em Múltipla Escolha, a escritora Lya Luft vale-se da antiga metáfora

do Teatro do Mundo para discorrer sobre as perplexidades

da vida moderna


A gentileza do espírito

"A chegada da velhice não precisa enferrujar a alma. Sendo inevitável, ela devia ser aguardada e recebida como uma amiga há muito anunciada. E ela vem aos poucos, vem mansa. Não precisamos pedir desculpas quando ela chega, inventando para os outros que temos menos idade do que temos. (...) O espírito é mais importante do que rugas, manchas, andar lento e corpo encolhido: não o espírito jovem, mas um espírito próprio de cada idade, aberto e gentil." (Trecho de Múltipla Escolha)

PENSAR É TRANSGREDIR
Lya: críticas às cotas raciais, à repressão religiosa e à permissividade  dos pais de adolescentes

Autora de romances como A Asa Esquerda do Anjo e Reunião de Família, carregados de densidade no exame dos dramas familiares, foi como ensaísta que a escritora gaúcha Lya Luft, de 71 anos, se tornou um fenômeno editorial. Tratando de temas similares – a família, o envelhecimento, a morte de pessoas amadas – em um registro mais leve, próximo da crônica, Perdas & Ganhos, de 2003, vendeu mais de 600 000 exemplares. Pensar É Transgredir, na mesma linha, teve vendagem superior a 200 000. Mesmo nesses livros de não ficção, é possível surpreender a mente de uma romancista em atividade, seja no modo como pequenas narrativas aparecem para reforçar a argumentação, seja no uso criativo da linguagem. Em seu novo ensaio, Múltipla Escolha (Record; 192 páginas, 32,90 reais), Lya – que também é colunista de VEJA – recorre a uma das mais antigas imagens literárias: o mundo como um teatro onde se desenrola o drama humano.

"Enquanto o homem vive, está num palco", dizia o orador romano Cícero. Na versão atualizada de Lya, o palco é ocupado por um ser pequeno e impotente, um boneco – representação do indivíduo esmagado por imposições sociais –, que é manipulado por criaturas terríveis, mitos e preconceitos modernos. No fundo do palco, surgem várias portas, alternativas (as múltiplas escolhas do título) que, com coragem e independência, a pobre marionete poderá perseguir, desde que consiga se libertar de seus manipuladores. A partir dessa moldura alegórica, Lya discorre livre e criticamente sobre assuntos os mais diversos, dos padrões de beleza irreais divulgados pela publicidade à política de cotas raciais (à qual ela se opõe com sua costumeira lucidez).

Sem compromisso com nenhuma linha de pensamento estabelecida, Lya é capaz de atacar ao mesmo tempo a permissividade dos pais modernos na educação de adolescentes e a repressão que as igrejas tradicionais impõem ao sexo. Entre essas suaves diatribes, aparecem algumas belas notas memorialísticas. Lya lembra, por exemplo, o toque especial de sinos que a igreja luterana usava para anunciar a morte de uma criança na cidade onde cresceu. Nas suas mãos, o Teatro do Mundo ganha um sentido íntimo e delicado – é dentro de nós mesmos que a peça, cômica ou trágica, se desenrola.
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Reportagem:Jerônimo Teixeira
Fonte: Revista VEJA online - Edição 2163 / 5 de maio de 2010

Terry Gilliam: “A fantasia é essencial na vida”

Mas a televisão e a internet rebaixam
 a imaginação e o padrão de nosso gosto,
 diz o diretor
O diretor e artista plástico Terry Gilliam, de 69 anos, define-se como a ovelha negra do Monty Python, grupo de cômicos que fez sucesso nos anos 70 com um humor nonsense. “Sou o único americano”, diz, por telefone, de Londres, onde ele mora desde 1969, ano em que estreou no programa Monty Python’s flying circus na BBC. No início, ele montava as vinhetas surrealistas do programa. Logo passou a atuar e dirigir os melhores filmes do grupo, como Vida de Brian (1979). Dirigiu 17 filmes, entre eles Brazil – o filme (1985) e Os irmãos Grimm (2005), com Heath Ledger, sempre enfrentando reveses. Teve de parar as filmagens de The man who killed Don Quixote em 2001 e só conseguiu finalizar Dr. Parnassus com improvisação.

ÉPOCA – Como surgiu a ideia da trama de Dr. Parnassus?
Terry Gilliam – Ela foi surgindo de conversas com meu parceiro de script Charles McKeown. Sempre quis fazer um filme a partir de uma trupe de teatro ambulante – e as ideias surgiram num vaivém, a gente se comunicou por e-mail até chegar a um roteiro. E novas ideias fluíram até na pós-produção.

ÉPOCA – O senhor comparou as filmagens de Dr. Parnassus a um esforço de malabarismo. Como equilibra controle e improvisação?
Gilliam – Se existe improvisação em meus filmes, ela é cuidadosamente controlada. Há uma estrutura anterior que apoia o improviso. Os atores sugerem alterações, a produção procura adaptar o roteiro às locações. Eu não gosto de perder o pé das coisas. Eu sei o tempo todo o que está acontecendo, mesmo que muitas vezes pareça improviso. O equilíbrio, portanto, beneficia o controle sobre a liberdade, embora essa seja permitida! Apesar dos limites, é um método bastante lúdico de trabalhar.

ÉPOCA – O filme contém uma crítica à sociedade de consumo. O senhor acha o consumismo ruim?
Gilliam – Odeio o consumismo. Hoje as pessoas são levadas a ficar consumindo o tempo todo, pelas ruas, nos shopping centers ou na internet. Parece que é o único mundo possível para os seres humanos. No Ocidente estamos tão mergulhados nisso que nem nos damos mais conta. As pessoas já não vivem por si mesmas. Existem tantas coisas para consumir e tantas necessidades criadas que elas vivem num permanente estado de excitação e dívida. Não há tempo para mais nada. Você precisa trabalhar dobrado para pagar suas contas porque tem de atualizar os computadores a cada três meses e fazer upgrades em seus celulares. O consumismo todo está impedindo as pessoas de ter uma vivência mais profunda do mundo. O mundo é bem mais interessante do que a imagem que faz dele nossa sociedade hiperconsumista.

ÉPOCA – É possível salvar o capitalismo?
Gilliam – Talvez tenha chegado a hora da reconstrução do mundo, sob um novo ponto de vista, um novo modo de vida. Hora de dar uma parada para reflexão. O capitalismo como está não será capaz de se sustentar. Não há recursos suficientes – naturais ou industriais – para continuar a satisfazer nossa fome de consumo. Uma catástrofe se anuncia, e precisamos nos mexer. Há muita gente se esforçando mundo afora para alterar a situação. Estou de acordo com o que Bono profetiza: “A pobreza é o futuro”. Vamos ter de viver de maneira mais modesta.

ÉPOCA – O senhor considera Dr. Parnassus sua obra mais pessoal?
Gilliam – Tudo o que fiz até hoje é essencialmente pessoal. Sou um diretor autor. O que procuro é produzir filmes criativos e inovadores que possam sugerir uma expansão da mente e da criatividade das pessoas. Não conseguiria fazer outra coisa. De certa forma, Dr. Parnassus é meu filme mais transparente. Ali está tudo o que penso sobre o cinema, sobre o mundo e a fantasia.

“Se a gente não toma cuidado,
a internet nos transforma
em pontos de uma rede.
Não quero
ser um ponto”

 
ÉPOCA – Como foi lidar com a morte de Heath Ledger no meio das filmagens?
Gilliam – Foi um momento terrível, uma grande tragédia que se abateu sobre a equipe. Heath morreu durante uma pausa que deu em Nova York entre as filmagens de Londres e as que faríamos no Canadá. Pensei em parar tudo porque Tony (o personagem interpretado por Ledger) era central na história. Tivemos então de reformular o roteiro. Faltavam sequências importantes, mas quase todas se passavam no lado de lá do espelho mágico do Doutor Parnassus, no universo da fantasia, onde tudo é possível. Então Charles (McKeown) e eu chegamos à solução do impasse: resolvemos convidar os amigos de Heath para preencher suas atuações no mundo da fantasia. Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell se encarregaram do papel, oferecendo assim um rosto variado e mutante para Tony do lado de lá do espelho. Acho que o filme ganhou em poesia. Não imaginava que Heath nos deixasse tão jovem, e muito menos em um filme meu. Ele estava vivendo um momento especial, de descoberta de novas possibilidades de atuação. No começo do filme, ele estava vivendo o Coringa, de Batman – o cavaleiro das trevas. Esse papel mexeu profundamente com ele, que até se assustou com o que era capaz de fazer. Ao interpretar Tony, traduziu a experiência de Coringa numa explosão criativa. Ele inspirou o elenco e a equipe. Heath foi um ator extraordinário. Jamais saberemos até onde poderia ir.

ÉPOCA – Por que o senhor escolheu o tema do teatro?
Gilliam – Adoro teatro, embora não vá tanto assistir a peças. Ele sempre fez parte de meus filmes. Basta lembrar O barão de Munchausen, que também tem como personagens atores de teatro mambembe. Os atores vivem um drama porque lutam para ser vistos e ouvidos, querem atingir as pessoas, abrir os olhos do público para novas sensibilidades – e ninguém lhes dá a mínima. A trupe do Doutor Parnassus percorre Londres com suas peças mágicas e antigas, e só encontra pela frente um público brutalizado e burro. Mas não é só em Londres. Vejo isso no mundo todo. É uma pena porque o teatro tem a capacidade de mudar a cabeça das pessoas, alterar profundamente a sensibilidade.

ÉPOCA – O gosto pela grande arte decaiu neste século?
Gilliam – Sem dúvida. Já não existe a mesma sensibilidade do passado. As pessoas perderam o foco, já não se concentram como antes e o interesse pela arte é mais comercial do que essencial. Hoje as galerias de arte querem alcançar os lances mais altos em leilões, e o conteúdo ficou de lado. O cinema de arte também tem saído de cena... O padrão de gosto ficou mais cínico e superficial.

ÉPOCA – Por que em seus filmes a fantasia subverte a realidade? Não é escapismo?
Gilliam – Não. A fantasia é uma coisa fundamental na vida, decisiva em todas as atividades humanas. Seria quase impraticável existir sem sonhar e imaginar, sem viver no mundo paralelo dos devaneios. Os grandes saltos científicos surgem da imaginação e da fantasia. A ciência progride por meio de saltos poéticos. Atualmente os meios de comunicação estão transformando a visão de mundo. Tenho um filho de 12 anos. Moramos no centro de Londres, a 100 metros de uma rua de comércio, num ambiente seguro. O menino não consegue sair à rua porque só quer ficar vendo televisão e navegando na internet. Isso cria um falso contato com a realidade. E a realidade é bem mais interessante.

ÉPOCA – A internet não abriu uma janela para o mundo?
Gilliam – Até certo ponto, sim. Mas odeio usar internet, odeio até mesmo usar e-mail porque isso me tira o tempo de que preciso para meus projetos e o que gosto de fazer. Se a gente não toma cuidado, a internet nos transforma em pontos de uma enorme rede. Eu não quero ser só um ponto. Prefiro ser eu mesmo, off-line. Sou um cara ecológico, que gosta do mundo real e da fantasia... inteligente.
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Edição: Luís Antônio Giron
Fonte: Revista ÉPOCA - 01/05/2010

O Arizona pode ser só o início, diz cientista político

Manifestantes acendem vela em protesto contra
a lei anti-imigração do Arizona (EUA)

Nos EUA, um grande número de pessoas defende uma forte restrição à imigração –há inclusive uma lei controversa no Arizona que permite que as pessoas sejam detidas se não tiverem os documentos adequados. O cientista político Jens Hainmueller argumenta que o debate vai esquentar ainda mais nos próximos meses.

Spiegel: Outro feroz debate sobre política de imigração paira sobre os EUA. O Estado do Arizona acaba de adotar uma nova lei anti-imigração que permite que a polícia prenda qualquer pessoa suspeita de não ter documentos. Os americanos perderam a paciência com a imigração?
Jens Hainmueller: Esses desdobramentos não são surpreendentes diante da história. A população nascida no estrangeiro nos EUA aumentou dramaticamente nas últimas décadas, de 5% em 1970 para 13% em 2007. Isso quer dizer 39 milhões de pessoas e constitui o mais alto nível registrado pelo censo desde 1930, quando os políticos cederam à pressão pública e introduziram novas restrições que diminuíram o fluxo de imigrantes por décadas. Então, o feroz debate de imigração que estamos vendo no Arizona atualmente pode ser só o começo.
Contudo, apesar desses eventos recentes, acho improvável que haja hoje tamanha repressão à imigração. De fato, em recente pesquisa que conduzi com meu colega Michael Hiscox, de Harvard, concluímos que a maioria dos norte-americanos não se opõe a um aumento na imigração, desde que os imigrantes sejam altamente qualificados.

Spiegel: Então, engenheiros e programadores seriam bem vindos nos EUA?
Hainmueller: Exatamente. Apesar de mais de 60% dos americanos se oporem a um aumento da imigração de baixa qualificação, como trabalhadores braçais, apenas 40% se opõem a um aumento na imigração altamente qualificada. De forma impressionante, essa forte preferência por imigrantes altamente qualificados é compartilhada entre todos os segmentos da sociedade, inclusive entre entrevistados ricos e pobres, ou que moram em Estados com poucos ou muitos imigrantes e até aqueles com alto ou baixo nível de educação. Isso acontece apesar dos cidadãos altamente qualificados talvez terem que competir pelos empregos com imigrantes altamente qualificados no mercado de trabalho.

Spiegel: O Congresso está debatendo uma ampla reforma da imigração. Alguns membros sugeriram que ela se foque primeiramente em atrair imigrantes qualificados. Este é o caminho a ser seguido?
Hainmueller: Nossos resultados sugerem que as propostas de reforma voltadas para os imigrantes altamente qualificados são muito mais fáceis de se “vender” politicamente, e eu acredito que os políticos estão tomando consciência disso. Historicamente, a política de imigração dos EUA muitas vezes foi muito sensível às tendências na opinião pública.

Spiegel: Estudos recentes, porém, revelam que as qualificações dos imigrantes norte-americanos são muito mais variadas do que se pensa em geral. Particularmente nas grandes cidades, eles fazem todo tipo de trabalho –são médicos, advogados, trabalhadores braçais, ou o que for. Isso não deveria suavizar a oposição à entrada de imigrantes?
Hainmueller: Pelo contrário, acredito que o debate vai ficar ainda mais quente nos próximos meses. Apesar da preferência por imigrantes altamente qualificados, os dados sugerem que o público americano está profundamente dividido sobre os benefícios da imigração para o país. E outros pontos delicados continuam sem resolução, como a questão contenciosa dos imigrantes ilegais. Essa fissura da sociedade será intensificada quando os políticos começarem a mobilizar os eleitores com uma retórica contra os imigrantes.

Spiegel: Uma grande parte do crescimento econômico nos EUA, contudo, não seria possível sem esses trabalhadores estrangeiros.
Hainmueller: Politicamente, pode ser muito difícil comunicar aos eleitores esses benefícios de longo prazo da imigração. É mais fácil mobilizar as pessoas contra a imigração do que tentar reunir apoio em favor dela. Os eleitores muitas vezes são facilmente convencidos por uma retórica populista que mostra os imigrantes como ladrões dos empregos dos nativos, como um peso para o sistema previdenciário e uma perturbação das comunidades locais. Apesar dos estudos encontrarem poucas evidências empíricas sistemáticas para corroborá-las, essas mensagens ainda tendem a cair bem entre muitos eleitores.

Spiegel: Quais conclusões podem ser aplicadas a outros países, tais como a Alemanha? A atitude em relação à imigração pode ser comparada?
Hainmueller: Há muito menos dados sobre esta questão fora dos EUA. Entretanto, algumas evidências apontam para uma direção similar. Por exemplo, em um estudo anterior, descobrimos que na Alemanha e em todos os outros 22 países incluídos na Pesquisa Social Europeia, há uma forte correlação positiva entre o nível educacional dos cidadãos e o apoio a todos os tipos de imigração. Isso inclui apoio aos imigrantes mais qualificados de países europeus e não europeus mais ricos. Então, alemães mais qualificados têm maior probabilidade de receber bem imigrantes altamente treinados digamos da França e dos EUA, apesar de talvez competirem com eles no mercado de trabalho.

Spiegel: O debate público alemão não é estimulante, porém. Todo mundo se lembra da campanha “Kinder statt Inder” (filhos em vez de indianos) em 2000, que instou os alemães a terem mais filhos em vez de atraírem imigrantes altamente qualificados da Índia e de outros países, quando o chanceler na época, Gerhard Schröder, apresentou um programa de cidadania para trabalhadores do setor de IT.
Hainmueller: O que ressalta outra importante diferença: comparados com os americanos, os eleitores na Alemanha em geral se opõem mais fortemente à imigração. Esse cepticismo profundo torna mais fácil para os políticos explorarem o sentimento anti-imigração. A sociedade alemã como um todo foi muito mais longe em apreciar os benefícios da pluralidade –nos EUA, os latinos perfazem mais de 25% dos eleitores em cerca de 20% dos distritos.

Spiegel: Isso não é de fato contraproducente, dado que a Alemanha com seu baixo índice de natalidade precisa mais urgentemente da imigração que os EUA?
Hainmueller: A situação na Alemanha é similar a uma bomba relógio demográfica. Diante de uma população que está encolhendo e envelhecendo, quase todos os especialistas concordam que o país precisa desesperadamente absorver mais imigrantes para superar carências severas de mão de obra e resgatar seu sistema previdenciário. A Alemanha também precisa integrar melhor suas populações de imigrantes existentes.
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Reportagem: Gregor Peter Schmitz Em Washington
Tradução: Deborah Weinberg

A ideologia marxista hoje

ANTONIO CICERO*


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Hoje, nem os marxistas podem pretender saber como seria
a superação do capitalismo

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JÁ CITEI uma vez, nesta coluna, a observação do filósofo Theodor Adorno no ensaio "As Estrelas Descem à Terra" de que, ao semierudito, "a astrologia [...] oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais supõe pertencer a uma minoria que está "por dentro'". Na época, mostrei que tal descrição convém também à ideologia religiosa do apóstolo Paulo, assim como à de Martinho Lutero. Pois bem, o fato é que ela se aplica igualmente bem a ideologias seculares, tais como o marxismo vulgar.

Embora tencione dar uma chave para o entendimento do mundo, como uma religião, o marxismo, longe de se tomar como religião, considera-se inteiramente racional, declarando-se tanto filosofia quanto ciência da história e da sociedade. Isso faculta ao semierudito ter-se, do ponto de vista cognitivo, como superior também aos eruditos que, por diferentes razões, não tenham adotado a concepção marxista.

Como, além disso, essa concepção do mundo quer fundamentar uma teoria revolucionária, tendo em vista a superação do capitalismo e a instauração do comunismo, sociedade em que pretende que não haverá mais propriedade privada dos meios de produção, nem diferentes classes sociais nem os flagelos da exploração e da opressão do ser humano pelo ser humano, os marxistas, já pelo simples fato de se posicionarem a favor de tal revolução, consideram-se, a priori, superiores, também do ponto de vista ético, a todos que não o tenham feito.

Para esse modo de pensar, o mundo existente, em que domina o modo de produção capitalista, é inteiramente desvalorizado. Nele, qualquer progresso é tido como meramente adjetivo, quando não fictício. A democracia existente -qualificada de "burguesa"- não é valorizada senão enquanto caminho para a revolução. Só esta deverá trazer um progresso real.

Hoje, porém, nem os marxistas podem pretender saber como se daria a superação do capitalismo. Não ignoro que, se questionados, certamente falariam em "socialismo". Concretamente, porém, que poderia significar para eles tal palavra?

Seu socialismo certamente nada teria a ver com a social-democracia, pois esta, sendo compatível com o capitalismo, não representaria sua superação. Tratar-se-ia então do socialismo como a estatização dos meios de produção, tal como se deu, por exemplo, na URSS?

Tomando a estatização da economia sob a ditadura do Partido Comunista, pretenso representante do proletariado, como a propriedade social dos meios de produção, os revolucionários russos supuseram que já haviam deixado para trás o modo de produção capitalista.

Será possível identificar a estatização com o socialismo? Friedrich Engels diria que não, pois afirmava que "quanto mais forças produtivas o Estado moderno passa a possuir, quanto mais se torna um capitalista total real, tantos mais cidadãos ele explora. Os trabalhadores continuam assalariados, proletários. Longe de ser superada, a relação capitalista chega ao auge". Dado que a propriedade estatal dos meios de produção não garante a posse real deles pelos trabalhadores, ela é capaz de não passar de uma forma de capitalismo estatal.

A Revolução Cultural Chinesa pode ser entendida como uma tentativa de mobilizar as massas contra o estabelecimento de situação semelhante, na China. Seu líder, Mao Tse-tung, chegou a dizer: "Não se sabe onde está a burguesia? Mas ela está no Partido Comunista!".

É possível. Como, porém, a verdade é que as "massas" são inerentemente plurais, particulares, instáveis e manobráveis, o fato é que, na época moderna, qualquer "democracia direta" não pode passar de uma quimera. Não admira, portanto, que a Revolução Cultural se tenha tornado extremamente caótica e violenta, de modo que, por fim, tenha sido necessário, ainda nas palavras de Badiou, "restabelecer a ordem nas piores condições". O resultado é que impera hoje na China o mais brutal capitalismo, tanto estatal quanto privado.

Contudo, só a miopia ideológica impede de ver que, embora a "revolução" se tenha revelado um beco sem saída, o mundo em que vivemos encontra-se em fluxo incessante; e que a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc. -que constituem exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão- constituem também as verdadeiras condições para torná-lo melhor.
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*Filósofo. Poeta. Escritor.
Fonte: Folha online, 01/05/2010

Romance de Nick Hornby fala da relação da vida moderna com a internet

Victoria Saramago*
RIO - Há quem diga que o romancista inglês Nick Hornby foi um grande incentivador da atual mania de fazer listas. Os 10 melhores discos, as três piores tardes de domingo, os cinco melhores beijos – e por aí vai: tudo cabe em intermináveis relações de eventos/objetos que vão moldando nosso passado e nosso entendimento da realidade. Adotando o padrão Hornby de classificação do mundo, não seria exagero dizer que, no rol de suas obras, Juliet, nua e crua está na lista dos Top 5.

Vamos à trama para entender por quê. O álbum Juliet é, para muitos, a obra-prima do roqueiro dos anos 80 Tucker Crowe, “um dos maiores discos de amor e separação da história do rock” e o ápice de uma carreira brilhante que se encerraria subitamente em 1986, com a inexplicável retirada de Crowe dos palcos e, aparentemente, da civilização. Pelo menos é o que defende a meia dúzia de crowologistas, isto é, seguidores de Crowe que dedicam boa parte de seu tempo a criar teorias mirabolantes para destrinchar suas músicas e sua história em fóruns obscuros na internet.

Um desses estranhos estudiosos é Duncan, sisudo professor universitário de Gooleness, cidadezinha costeira e decadente no norte da Inglaterra. E uma das pessoas mais cientes dos exageros que acompanham o mito de Crowe é Annie – não por acaso, a esposa insatisfeita de Duncan.

Dona de uma sensatez deliciosamente implacável, Annie até aprecia a obra de Crowe, mas está mais preocupada com o casamento frustrado, a falta de filhos e os 40 anos batendo à porta do que com um astro semidesconhecido e perdido no tempo, cujo nome continua a ser discutido apenas porque a internet existe. Pois, diminuindo as distâncias, possibilitando a troca de arquivos sonoros e reunindo pessoas que jamais se encontrariam de outra forma, a internet permite a criação dessa espécie de realidade paralela na qual qualquer ideia pode ganhar status de verdade, na qual qualquer maluco (não raro literalmente) pode ter a autoridade de um especialista. “Então a internet aparecera e mudara tudo”, conclui Annie. Em resumo, a internet permite que mitos fiquem mais míticos, que teorias da conspiração soem mais plausíveis e que um artista distante pareça ainda mais inacessível.

Mas permite também o contrário. E aqui a história começa a ficar interessante. Afinal, o que aconteceria se Crowe não fosse tão inalcançável assim, se eventualmente conferisse o que a meia dúzia de fãs esquisitões especulam a seu respeito, se tivesse um endereço de e-mail e um bom motivo para deixar os EUA e visitar a Inglaterra?

Estão aí os ingredientes principais que movem o enredo de Juliet, nua e crua. Isso em meio ao tédio de Gooleness; ao jogo de omissões e mal-entendidos que cerca as relações entre os personagens; aos tênues limites que separam o real do virtual e o fato da fantasia; ao passado tempestuoso de Crowe, com sua atual penca de filhos e ex-mulheres; e nesse período da vida, sem hora certa para ocorrer, em que as pessoas se veem na necessidade de fazer um balanço do que já viveram e do que ainda dá tempo de realizar. Os três protagonistas tentam se equilibrar e buscar, por vezes em vão, alguma combinação de todas as variáveis que dê algum sentido às suas vidas.

Acrescente-se à mistura o wit britânico de Hornby e o timing>/i> certeiro de suas piadas. E também, sejamos francos, sua tendência a transformar alguns dos personagens secundários em estereótipos pouco convincentes, como é o caso do psicanalista de Annie, ou de prolongar além do necessário cenas que, no fim das contas, não mereceriam tanta atenção – OK, não citemos as sessões de análise de Annie, mas algumas de suas divagações, bem como as de Duncan, poderiam ser ligeiramente editadas.

Ainda assim, o romance possui aquele ar leve e despretensioso que marca o estilo de Hornby desde Alta fidelidade – e acerta quem põe Juliet, nua e crua como herdeiro direto na linha de sucessão daquele romance de estreia.

É verdade que, em relação ao primeiro, o mais recente traz uma série de novidades. E-mails trocados pelos personagens convivem com a narração em terceira pessoa. Supostas transcrições dos fóruns dos crowologistas dão o tom final da história. E é bem possível que as colagens de entradas na Wikipedia sobre Tucker Crowe e seu mundo levem o leitor mais curioso a jogar “Tucker Crowe” ou “Juliet” no Google para checar o que acontece. Porque o Google é o elemento catalisador da trama, ao lado dos e-mails, fóruns e MP3. E não deixa de ser interessante notar que a fictícia cidadezinha de Gooleness por pouco não se chame Googleness, isto é, algo como googleidade ou “o ato ou efeito de ser Google”.

Pois Gooleness e seus protagonistas levam longe o conceito de aldeia global. Annie, Duncan e Tucker seriam googlers até a raiz dos cabelos, não fosse um pequeno detalhe: nasceram numa época pré-internet. Não conseguem se desfazer de seus vinis e duvidam de sua capacidade de anexar uma simples fotografia a um e-mail. As maravilhas da tecnologia não foram ainda totalmente domesticadas por nenhum deles, por maior que seja a dependência dos computadores que acabam desenvolvendo.

“A primeira vez que Duncan vira seu computador preencher os nomes das faixas do CD que colocara ali dentro, simplesmente não acreditara. Era como se ele estivesse vendo um mágico que, realmente, possuísse poderes; não adiantava procurar uma explicação para o truque, porque não havia nenhuma, ou melhor, não havia nenhuma que ele entendesse”. A passagem acima, mais do que exemplo da falta de familiaridade de Duncan com seu PC, evidencia um dos aspectos provavelmente mais fascinantes da prosa de Hornby: tal como se dá em Alta fidelidade, o que está em foco não são precisamente as últimas tecnologias mas a transição das antigas para as novas. É o vinil engolido pelo CD, e o CD engolido pelo MP3. É a impossibilidade de jogar fora os vinis, é o medo de se desfazer do objeto (vinil, CD) para o impalpável (os arquivos no computador). É esse misto de avanço e nostalgia não apenas um dos temas mais recorrentes do autor mas um dos motores de Juliet, nua e crua.

A tradução de Paulo Reis flui bem e, o que é importante no caso de Hornby, muitas das soluções encontradas para gírias e expressões idiomáticas transmitem, com boa dose de precisão, o universo pop-nostálgico da trama. Afinal Nick Hornby é o que se poderia considerar um escritor pop. Suas histórias são carregadas de referências roqueiras e têm esse ar indefectível de que estão prestes a pular para as telas do cinema. Juliet, nua e crua tem tudo isso, talvez com um tom um pouco mais sério e conflitos mais bem desenvolvidos. Certamente não é dessas obras que mudam a vida, mas tem potencial para mudar um fim de semana.
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*Autora do romance Renée esfacelada e mestre em literatura brasileira pela UERJ.
Fonte: Jonral do Brasil online - 30/04/2010

Entrevista: Miguel Nicolelis, neurocientista

“Não acreditar em si mesmo
foi o grande fator limitante do Brasil
por muitos anos”

Aos 49 anos, o neurologista paulista Miguel Nicolelis integra o seleto time dos ases da pesquisa científica mundial. Nascido no bairro paulistano de classe média da Bela Vista, ele fez um percurso comum aos de sua geração e origem: cursou a Educação Fundamental em escola pública, o Ensino Médio em instituição privada – o tradicional Colégio Bandeirante – e a faculdade de Medicina e o doutorado na Universidade de São Paulo. A decisão de se dedicar às aplicações médicas da computação levou-o à Universidade Hahnemann, nos Estados Unidos.
Seu trabalho no desenvolvimento de próteses neurais (equipamentos eletrônicos que podem ser acionados por sinais cerebrais) rendeu-lhe um lugar entre os 20 maiores cientistas do mundo, conforme levantamento da revista Scientific American. À frente do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, foi apontado por Zero Hora como um dos 10 brasileiros de mais destaque em 2010.
Na segunda-feira, Nicolelis fará a primeira conferência do ciclo Fronteiras do Pensamento. A entrevista que você lê nestas páginas foi concedida na segunda-feira passada:

Zero Hora – Como surgiu seu interesse pela neurologia e pela neurobiologia?
Miguel Nicolelis – Pela neurologia, em particular, foi durante a Faculdade de Medicina. Comecei a trabalhar com computação e modelos matemáticos e, de repente, me dei conta de que uma das grandes questões na época, metade da década de 1980, era tentar entender como os circuitos cerebrais funcionam. A ciência da computação estava começando a penetrar na medicina. Percebi que havia possibilidade de estudar esses circuitos de uma maneira diferente. Comecei a perseguir essa ideia em meados de 1983, 1984, comecei meu doutorado e descobri que, para fazer isso, eu tinha de sair do Brasil e trabalhar com pessoas que estavam pensando coisas similares e que eram uma minoria, na época, na neurociência. O Brasil não era então um polo de pesquisa em neurociência como se tornou depois. Foi mais ou menos aí que começou, há 25 anos.

ZH – Seria difícil trabalhar em seus projetos no Brasil?
Nicolelis – Havia grupos bons em São Paulo, Rio de Janeiro, mas, comparados aos Estados Unidos em termos de disponibilidade de recursos, equipamentos e massa crítica, era muito diferente. Tive um choque brutal quando fui à primeira reunião americana de neurociência e vi 30 mil cientistas. Mas foi aí que eu comecei meu aprendizado de como é que se realizam projetos desse porte.

ZH – Qual é a situação do Instituto Internacional de Neurociência de Natal?
Nicolelis – Venho regularmente ao Brasil e a Natal, particularmente, desde 2003, quando se iniciou esse projeto. Já temos uma grande equipe nas áreas de pesquisa, educação, saúde materno-infantil. São quase cem pessoas envolvidas nesse projeto através da nossa organização social, a Fundação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa. Não é um projeto de uma pessoa só, é de uma grande equipe. Para você ter uma ideia, na semana passada eu estava na Kennedy School, em Harvard, uma das maiores escolas de políticas públicas do mundo, dando uma aula sobre o projeto de Natal. A repercussão está sendo enorme.

ZH – O que gerou mais interesse nos EUA em relação ao projeto de Natal?
Nicolelis – O modo diferente de fazer ciência, o uso da ciência como agente de transformação social e de capitalização do desenvolvimento humano, não só dentro de universidades, mas em escolas da rede pública. Temos mil crianças em Natal envolvidas num currículo de educação científica. Acabamos de abrir uma outra escola no sertão da Bahia para 400 crianças. Temos planos de ampliar a nossa escola em Natal, de construir uma nova escola. Um projeto científico de ponta com preocupação social é algo inédito no mundo inteiro, não só nos EUA. Temos sido convidados para falar em Davos (no Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, Suíça) sobre esse modelo peculiar ao Brasil e que teve uma repercussão muito grande na academia e fora dela.

ZH – A nova teoria do cérebro seria, portanto, multidisciplinar.
Nicolelis – Sim, a abordagem multidisciplinar é uma caracterísitica muito marcante da neurociência da última década. Nos últimos 10 anos, a neurociência se transformou talvez numa das áreas de maior convergência multidisciplinar da neurologia ou da medicina. A nossa abordagem é uma das mais multidisciplinares da área de neurociência. Eu trouxe isso para o Brasil. No Instituto de Natal, temos psicólogos, cientistas, engenheiros, matemáticos, estatísticos, gente de todo tipo de formação fazendo pesquisa sobre o cérebro.

ZH – No caso de Natal, envolvidos num projeto único.
Nicolelis – Sim. Outra questão importante é que o projeto já conseguiu repatriar cientistas brasileiros que estavam no Exterior, jovens cientistas brasileiros que retornaram ao Brasil e estão se fixando em Natal. Essa é uma outra característica do nosso projeto, a da repatriação de cérebros que foram embora e que não tinham perspectiva de voltar ao Brasil. Ainda numa escala pequena, mas que, eu creio, vai se ampliar rapidamente, nós conseguimos reverter esse processo. Essa é uma questão estratégica para o Brasil. Há mais ou menos 11 mil cientistas brasileiros do mais alto nível no Exterior. São pessoas que poderiam contribuir para o futuro do Brasil. Outros países, como China e Índia, têm políticas muito claras de repatriar os seus cidadãos pra retornar às instituições locais. O Brasil precisa de uma política pública com esse objetivo.

ZH – Como o senhor vê a situação da saúde pública no Brasil hoje, no momento em que o tema também está em debate nos EUA?
Nicolelis – Tenho várias críticas ao sistema de saúde americano porque, em não sendo público, não é abrangente, não é democrático, não é acessível, e de certa maneira o Brasil tem uma abrangência muito maior em termos de cobertura da população do que existe hoje nos EUA. O problema é a qualidade, é poder oferecer serviços de saúde de alto nível para a população como um todo. Esse é o desafio para um país como o nosso, que só nos últimos anos começou a fazer investimentos maciços na área de saúde. Estamos ainda aquém daquilo que é necessário, mas, em certos indicadores de saúde pública, estamos muito melhor do que os EUA. O caso clássico é a política brasileira da prevenção e do tratamento do vírus da Aids, que é um exemplo para o mundo inteiro. Por outro lado, o Brasil tem de fazer investimentos maciços para se livrar de certas endemias, como dengue, malária, doenças que ainda não estão sob controle. A dengue se espalhou nas regiões metropolitanas e toda a costa do Brasil. São questões prioritárias para um país como o nosso.

ZH – Como o senhor vê o fato de a população demonstrar interesse pela neurociência, a ponto de programas de TV como o Fantástico, da TV Globo, criarem quadros sobre isso?
Nicolelis – Há 10 dias eu estava dando uma palestra aberta ao público na Biblioteca de Alexandria, no Egito. A palestra foi transmitida pela TV egípcia. O interesse da audiência foi enorme. Em todos os lugares em que falei até hoje, a curiosidade do público pelo cérebro é enorme. O que falta, ou até recentemente faltava, são canais de comunicação que permitam aos cientistas profissionais entrar em contato com a população. Isso é parte do que estamos fazendo em Natal: desmistificar a crença de que o conhecimento científico é só para alguns eleitos que estão nas universidades ou são doutores. Isso é uma balela da Idade Média. O conhecimento científico pertence à sociedade, mesmo aquela que nunca frequentou um laboratório de pesquisa ou um curso superior, pela pura curiosidade e hoje em dia até pela própria necessidade de exercer a sua soberania, de definir questões com consciência do que está fazendo. Estamos só engatinhando, enquanto cientistas profissionais, em termos de comunicar à população em geral o que a gente sabe e o que a gente não sabe também, porque é importante saber comunicar o que não é sabido, o que é mito, o que é apenas imaginação, adivinhação. Existe muito factoide científico que não é verdade, e a população se confunde porque essas informações são veiculadas na TV, na internet, sem nenhum controle de qualidade.

ZH – Quando se iniciou a discussão a respeito das células tronco, por exemplo, uma parte da população imaginou que a cura para muitas doenças estaria disponível no dia seguinte.
Nicolelis – Claro, foi o que ocorreu nos EUA também. O grande problema da ciência moderna é separar o que é fato real e qual é o timeline geral, a previsão do tempo real em que uma pesquisa pura pode se transformar em aplicação clínica. É o que se chama nos EUA de hype, que é tentar vender esperanças que não são reais. Numa questão puramente ética de cientistas profissionais, isso é um cuidado muito grande a ser tomado. Há milhões de pessoas com esperança de que a cura para as suas doenças apareça no dia seguinte. O processo que vai de uma descoberta básica até uma aplicação clínica pode levar décadas.

ZH – Qual é a situação das suas pesquisas de desenvolvimento de próteses neurais?
Nicolelis – É um exemplo muito bom. Essas pesquisas já têm 27 anos. Elas começaram no final da década de 1980. Estamos nos aproximando de levar todas essas descobertas, de quase três décadas – é a minha carreira inteira –, para testes clínicos. Sempre alerto que cada passo é um passo desconhecido, a gente não sabe o que vai encontrar do outro lado da porta, o que pode dar certo e o que pode não dar. Depois de 30 anos, existe uma chance significativa de que a gente possa transformar isso em aplicações clínicas. Quando se faz um teste clínico, por exemplo, de uma nova terapia, você precisa de dezenas de casos. Em alguns casos, você precisa de centenas de pacientes para poder demonstrar a efetividade e a segurança de uma nova terapia. É importante mostrar para a sociedade que ninguém toma uma decisão dessas olhando dois pacientes.

ZH – É uma aposta.
Nicolelis – Claro. Depois dessas três décadas, estamos chegando num momento de descobrir os potenciais de aplicação clínica. A ciência americana é o que é porque, nas últimas sete décadas, os EUA investiram maciçamente em pesquisa, algumas vezes sem saber onde ela ia chegar. Em termos de formação de recursos humanos, de massa crítica pensante, foi um dos maiores investimentos da história do país, dos que deu mais resultados. Os EUA só têm a Apple, a IBM e outras grandes empresas de tecnologia porque o governo americano investiu no treinamento de mentes criativas, de engenheiros, cientistas computacionais, e essas empresas demonstram o que a criatividade do cientista e o que a inovação tecnológica pode fazer pelo país. O meu sonho é que o Brasil siga o mesmo caminho de investimento estratégico. A ciência ,hoje em dia, e eu falo isso há vários anos, é um investimento vital para a soberania de um país. A gente vê, por exemplo, o pré-sal, a Embrapa, o Proálcool pagarem o custo dos investimentos feitos nessas áreas várias vezes, com lucros muito maiores do que o valor investido. Precisamos de mais exemplos assim, não podemos ficar restritos à Petrobras, à Embraer, à Embrapa e ao Proálcool.

ZH – E quando se iniciariam os testes clínicos?
Nicolelis – Estamos trabalhando com consórcio internacional para construir a primeira prótese completa. Estamos ainda realizando experimento em macacos. A gente sempre faz para testar componentes. Nosso objetivo nesse consórcio é nesses próximos anos construir uma prótese integral e, uma vez que ela tenha sido testada em primatas de forma integral, passar pra testes clínicos. Esse é o nosso horizonte agora, um horizonte próximo. Não dá mais para esperar 30 anos.

ZH – Qual é a situação das pesquisas em relação à Doença de Parkinson?
Nicolelis – O nosso laboratório está trabalhando com doenças degenerativas, mas a maior ênfase é em Parkinson. Também estamos trabalhando com modelos em camundongos de doenças ditas psiquiátricas. É uma coisa muito nova, que acabou de surgir nos EUA, há dois anos.

ZH – Como o senhor se sente quando vê, na imprensa, seu nome associado a uma chance de Prêmio Nobel de Medicina?
Nicolelis – Viro a página. Cientista não especula, é muito raro encontrar um cientista que fique fazendo especulação. Evidentemente, sinto-me muito lisonjeado com essa lembrança, mas isso não tem nada concreto. Certamente não é o que guia o meu trabalho, não é? O Brasil tem inúmeros cientistas, pensadores, escritores, economistas ou o próprio presidente da República que têm condições plenas de ganhar o Prêmio Nobel por seus trabalhos específicos. O Brasil tem uma contribuição ao mundo, vários indivíduos fizeram contribuições históricas. Eu, evidentemente me sinto lisonjeado, mas não me coloco nesse grupo de pessoas.

ZH – O que o senhor diria para um estudante universitário que quer se dedicar à pesquisa científica?
Nicolelis – Falo isso sempre para os meus alunos: o fator mais importante dessa decisão é acreditar no próprio taco, acreditar em si mesmo, nos próprios sonhos. Se os sonhos forem sonhados com suficiente perseverança e paixão, não há nada que impeça um indivíduo de realizar aquilo que ele quer. Esse é o único conselho que eu posso dar: que as pessoas acreditem em si mesmas e nos seus sonhos, não importa quão impossíveis eles possam soar e quanto as pessoas possam dizer que eles são impossíveis. Se a gente for imaginar o que os indivíduos já conseguiram fazer e de onde eles vieram, tudo seria impossível. Meu pensamento é que todos devem acreditar em si. Não acreditar em si mesmo foi, por muitos anos, o grande fator limitante do Brasil.
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Reportagem: TATIANA TAVARES
tatiana.tavares@zerohora.com.br
Fonte: ZH online, 01/05/2010

Origens

NILSON SOUZA
Acho que isso acontece com todo mundo. Um dia você olha uma foto dos seus avós, ou dos seus bisavós, e sente vontade de ir atrás deles. Pensa: estes velhos que me olham de algum lugar do passado tiveram a sua história de vida e seria muito legal conhecê-la. Como a máquina do tempo não tem marcha a ré, a alternativa é investigar com familiares mais antigos, pesquisar registros de nascimentos, casamentos e passamentos, ou, no caso dos descendentes de estrangeiros, que somos a maioria, tentar refazer o caminho dos imigrantes que ajudaram a povoar este país.

Com a informatização do mundo, as fontes de pesquisa se multiplicaram e possibilitaram a formação de verdadeiras florestas de árvores genealógicas. Atualmente, é bem fácil pegar o sobrenome da família e investigar por onde andaram e o que fizeram os seus parentes mais remotos. Se você for um pesquisador obsessivo, talvez possa chegar ao Velho Testamento e encontrar por lá algum tio-tetravô com 969 anos, como o célebre Matusalém.

Mas se você tem um sobrenome popular como o meu, a tarefa se torna um pouco mais complexa. Nós, da turma do S (souzas, silvas e santos), tanto podemos ter parentesco com os senhores que mandavam no país há dois ou três séculos quanto com os escravos que adotavam os seus sobrenomes. O consolo é que, segundo os especialistas, basta voltar 30 ou 40 gerações para se concluir que todos os brasileiros são contraparentes.

Sei de gente que investiga as vidas passadas de seus ascendentes na expectativa de encontrar traços de nobreza na família. Por isso também é próspera a indústria dos brasões, que associa símbolos medievais a sobrenomes. Ainda movido pela curiosidade, consultei alguns catálogos de heráldica e descobri que os souzas geralmente são representados por um escudo vermelho, com uma caderna de crescentes de prata. Caderna, segundo o Aurelião, é um reunião de quatro peças semelhantes num escudo. Até gostei das minhas luas prateadas, mas, sinceramente e com todo o respeito a quem investe nisso, não senti vontade de pendurar uma placa daquelas na parede do meu escritório.

Prefiro reservar o espaço para a fotografia dos meus bisavós maternos, que é a minha referência parental mais antiga. Sentados diante de uma cerca feita de taquaras e vestidos com roupas simples da lida doméstica, um velho de barbas brancas e uma senhora de rosto enrugado me olham com familiar serenidade, na qual traduzo inquestionável convite para matear com o passado.
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Fonte: ZH online, 01/05/2010

Atualizar ou morrer

Eduardo Lorea

Todos nós conhecemos gente que está sempre por dentro da última. Tu não sabes da última, anuncia o outro, como um trunfo sobre nós, os ignorantes instantâneos. Deve ser algo importante, isso de saber da última. Um dos blogs mais acessados do Brasil se chama Update or die (atualizar ou morrer, em tradução livre). Quando criei um, anos atrás, e me vi sem lá muito o que escrever, deixei como primeira mensagem uma nota frustrada: nasci e já estou desatualizado.

Há dois problemas em saber das últimas no nosso tempo. O primeiro é que há muitas delas. Há as últimas dos sites de notícias, da Susan Boyle – “essa é velha”, alguém vai dizer – no YouTube, da Xuxa no Twitter, do Felipe Dylon no Tumblr, daquele amigo que está em Londres no Facebook. Tudo parece imperdível, e quem não estiver por dentro padecerá em silêncio nas rodas de fofoca.

O segundo é que nós e nossos amigos somos autores de últimas, como o William Bonner foi, se não desistir do twittercídio. A tela do Twitter, com aquele monte de gente falando, nossos colegas comentando o tempo, outros indicando leituras, fotos engraçadas, músicas, vídeos, tudo aquilo faz com que nós pareçamos uns atrasados caso não façamos o mesmo. Já há sites que medem a reputação online, baseada na quantidade de citações online que uma pessoa recebe. Para receber citações, é preciso falar, é preciso produzir últimas.

Esse tanto de últimas a saber e a gerar nos lembra a necessidade de escolher. Não por acaso uma das funções que vem ganhando destaque entre profissionais de internet é a de curador, alguém que seleciona os conteúdos que merecem ou não receber atenção, afinal há por aí coisa demais para ser vista, a ponto de que há ansiedade patológica associada à atualização constante. Como Bonner, há quem cure sua existência online optando por desatualizar. Ou morrer.
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Fonte: ZH online, 01/05/2010

“Religião não é apenas um fenômeno acadêmico”

"Deveríamos julgar a Igreja pelos mesmos padrões
com que julgamos fabricantes de automóveis"

Entrevista: Daniel Dennett, filósofo, autor de “Breaking the Spell”

Há clérigos que não acreditam em Deus? Essa pergunta, que poderia ter sido o ponto de partida de uma reportagem jornalística ou de um romance, serviu de mote para um artigo científico intitulado Preachers Who Are Not Believers (Pregadores que Não São Crentes) publicado na edição de março da revista americana Evolutionary Psichology. Um de seus autores, o filósofo e psicólogo Daniel Dennett, foi a campo entrevistar homens e mulheres que, depois de uma vida inteira dedicada a comunidades de fiéis, deram-se conta de que haviam perdido a fé. O texto revela as angústias desses pregadores que, apesar da descrença, não abandonam o púlpito.

Filho de um agente de inteligência e de uma jornalista, Dennett é um dos expoentes do neoateísmo, corrente que, além de sustentar a não-existência de Deus, recorre a instrumentos de comunicação de massa, como outdoors, para propagar suas ideias e promove uma crítica ácida de instituições como a Igreja Católica. O livro mais conhecido de Dennett é Darwin’s Dangerous Idea (A Idéia Perigosa de Darwin), inédito no Brasil, foi publicado em oito países e está prestes a ganhar versões em húngaro, japonês e chinês. Nesta entrevista, concedida por e-mail, ele explica suas ideias:

Zero Hora – O ateísmo está se expandindo? Por quê?
Daniel Dennett – Sim, está. Acredito que quatro livros surgidos num curto período de tempo – O Fim da Fé, de Sam Harris (Tinta da China, 2007), Deus, um Delírio, de Richard Dawkins (Companhia das Letras, 2007), Deus Não É Grande, de Christopher Hitchens (Ediouro, 2007), e meu livro, Breaking the Spell (Quebrando o Feitiço, inédito em português), encorajaram muitos ateístas a serem menos reticentes sobre suas opiniões. Isso também encorajou outros a repensar suas crenças. Duvido que muito mais pessoas tenham se tornado ateístas; penso que elas estão apenas admitindo que foram ateístas por anos.

ZH – Um mês depois do 11 de Setembro, o romancista britânico Ian McEwan escreveu: “Dissabor com qualquer religião”. O revival ateísta é um efeito colateral do 11 de Setembro?
Dennett – Duvido que o 11 de Setembro tenha muito a ver com isso, embora a resposta do governo George W. Bush ao 11 de Setembro tenha sido extremamente desordenada. Foram as insinuações de teocracia no governo Bush que me provocaram, por exemplo, a deixar de lado meus outros projetos e escrever meu livro.

ZH – A religião é, em si, má?
Dennett – Não, ou pelo menos apenas certa religião é má em si mesma. A maior parte é muito benigna, mas isso confere “coloração protetora” às variantes más, que, por serem religiões, são consideradas acima da crítica por muitas pessoas.

ZH – Imaginar que não exista religião é uma questão supérflua?
Dennett – Os Beatles já nos convidaram a imaginar isso. (O verso “Imagine... que não há religião também” é da canção Imagine, de John Lennon, e foi composta quando ele era ex-integrante dos Beatles.) Eu duvido que a religião vá simplesmente se extinguir. Penso que uma hipótese muito mais realista é que as religiões vão sobreviver se transformando em instituições mais aceitáveis.

ZH – O escândalo de abusos sexuais na Igreja Católica seria diferente se tivesse ocorrido num contexto não-religioso?
Dennett – Claro! Se, por exemplo, fosse descoberto que uma multinacional como a IBM, a Shell ou a General Motors tivessem acobertado esses crimes por seus empregados, os líderes dessas companhias estariam todos na prisão cumprindo longas penas. Penso que deveríamos julgar a Igreja Católica pelos mesmos padrões com que julgamos fabricantes de automóveis. No mínimo, deveríamos julgá-los por padrões elevados, uma vez que seus representantes têm tão extraordinárias posições de confiança.

ZH – O cientista britânico Richard Dawkins propôs a prisão do papa Bento XVI por “crimes contra a humanidade” em razão de seu suposto acobertamento dos escândalos. Qual é a sua opinião sobre isso?
Dennett – Creio que dificilmente será uma campanha bem-sucedida, mas aprovo-a de todo o coração.

ZH – Fazer campanha pelo ateísmo com anúncios em ônibus, como ocorre na Grã-Bretanha, é correto? Não seria melhor manter o debate no campo acadêmico e cultural?
Dennett – Religião não é apenas um fenômeno acadêmico. Creio que é muito saudável ter o público em geral informado sobre a variedade de opiniões sobre religião sustentadas por seus vizinhos e concidadãos. Os anúncios que vi eram de bom gosto, muitas vezes divertidos, leves. Eu os aprovo. Quem se sentir ofendido deveria ser submetido a algum tipo de ajuste de conduta. Não têm o direito de ter suas próprias opiniões mais respeitadas do que as opiniões de outros cidadãos.

ZH – Há um grande número de cientistas efetivamente engajados no ateísmo militante. O historiador britânico Eric Hobsbawm escreveu que cientistas geralmente não se preocupam com questões políticas e filosóficas, a menos que percebam algum risco a seu próprio trabalho. O senhor acredita que é esse o caso atualmente?
Dennett – Sim, cientistas têm coisas melhores a fazer com seu tempo e energia do que se engajar em atividades políticas em favor do ateísmo. Se pessoas que não acreditam em Deus mantivessem suas opiniões e práticas restritas a seus próprios grupos e não tentassem impô-las aos outros, não teríamos de nos engajar nesta atividade política.

ZH – A obra de Darwin ainda é perigosa do ponto de vista religioso?
Dennett – Não apenas do ponto de vista religioso. Há muitas pessoas na academia que não são religiosas no sentido tradicional mas que consideram a ideia da seleção natural profundamente repugnante. Isso as torna quase histericamente contrárias à aplicações do pensamento darwiniano em seus próprios campos. Isso pode se tornar perigoso.

ZH – Qual será a situação da religião na metade deste século?
Dennett – Se eu soubesse – se alguém soubesse –, não teria escrito meu livro, que apela por um novo estudo científico da religião, especialmente para nos dar uma fundação mais substancial na qual basear uma resposta a essa importante questão.
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Reportagem de LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
Fonte: ZH - Cultura - online, 01/05/2010

«Ovo» de Siza Vieira para impressionar o Papa

Peça de ourivesaria desenhada pelo arquitecto portuense
 e executada por Manuel Alcino vai ser oferecida a
Bento XVI no dia 12 de Maio

Lusa

Um «ovo» de prata desenhado por Siza Vieira é o presente que vão oferecer a Bento XVI os representantes do mundo da Cultura que com ele se vão encontrar a 12 de Maio, em Lisboa.

A peça de ourivesaria foi apresentada esta Sexta-feira aos jornalistas, a quem Siza confessou ter ficado “aflito” quando recebeu o convite.

“Primeiro veio a ideia de uma pomba, porque é hábito dar à pomba uma simbologia com múltiplos significados”, referiu. Depois, veio a ideia de criar uma “caixa” com a forma de um ovo.

Em declarações à ECCLESIA, o arquitecto português admitiu ter-se inspirado a “referências que todos temos no espírito”.

Siza Vieira trabalhou com “plena liberdade de escolha” e não levou “muito tempo” a definir aquilo que queria fazer.

“Foi um trabalho tranquilo e não foi feito no meio de obstruções, crises ou polémicas”, assegura, revelando que não poderá estar presente no dia em que a peça vai ser entregue ao Papa.

D. Carlos Azevedo, coordenador-geral da visita de Bento XVI a Portugal, confessou-se “muito impressionado” com o resultado do trabalho, no qual vislumbra a “energia da simplicidade”.

Assinada pelo arquitecto Siza Vieira, a peça foi executada pelo ourives Manuel Alcino.

Trata-se de um trabalho em prata e porcelana não vidrada (biscuit), que representa a inspiração e o Espírito Santo.

Aludindo à forma de ovo, com uma dimensão de “renascimento”, o coordenador-geral da visita de Bento XVI disse ser essencial encontrar “algo que ajude a ir à essência das coisas”, ajudando a encontrar um “renascimento espiritual”.

D. Carlos Azevedo destacou ainda o “alcance” da personalidade escolhida para desenhar este presente para o Papa.

A peça será entregue por D. Manuel Clemente, presidente da Comissão episcopal responsável pela área da cultura, no encontro que irá decorrer no Centro Cultural de Belém.

Sobre os preparativos gerais da visita, D. Carlos Azevedo assegurou que está tudo a “correr muito bem” e a ser tratado “atempadamente”.

“Tudo está a postos para receber de modo belo, feliz e festivo o Santo Padre”, concluiu, recusando comparações do actual Papa com João Paulo II.
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Fonte: Agência Ecclesia, site português.