sexta-feira, 4 de junho de 2010

O bom senso ditado pela natureza

Carlo Petrini*
"Até podem ser estudadas todas as melhores técnicas
de descarte de dejetos,
 mas se cada um de nós não se comprometer a reduzir o volume
do que joga no lixo,
ou aprender a desperdiçar menos,
nunca teremos saída."

O bom senso ditado pela natureza... São necessários novos paradigmas para tornar menos impactante a nossa presença na Terra. Hoje, quase todos se deram conta disso, e não é mais apenas uma exclusividade das "Cassandras" ambientalistas: é uma coisa transversal às inclinações políticas e às ideologias.

E é uma coisa que começa até a se demonstrar vantajosa, já que a frente do interesse econômico – sempre o mais duro a se abater – também está lentamente se deslocando nessa direção. É bom saber que uma parte do mundo científico trabalha para nos recolocar em harmonia com o meio ambiente, estudando soluções de grande empenho, decididamente fora do porte do homem comum. Porém, acredito que é justamente a relação com o homem comum, prescindindo da grandeza e da justeza das invenções, que é o ponto chave.

É com o diálogo entre reinos da ciência e dos saberes tradicionais que se levará a cumprimento um projeto tão ambicioso. Graças à união de uma pesquisa de alto perfil com as boas práticas que podemos cotidianamente colocar em ação criaremos os novos paradigmas. Por exemplo, até podem ser estudadas todas as melhores técnicas de descarte de dejetos, mas se cada um de nós não se comprometer a reduzir o volume do que joga no lixo, ou aprender a desperdiçar menos, nunca teremos saída.

Então, se forem inventados algoritmos formidáveis ou se simplesmente modificarmos nossa própria dieta cotidiana de modo a consumir menos CO2, será preciso, no entanto, que sejamos conscientes de que sempre haverá duas coisas às quais não podemos renunciar: o bom senso e o senso de limite que nos é imposto pela Natureza.

Berkeley, na Califórnia, está se tornando um modelo para os ambientalistas: lá, reúnem-se os melhores achados saídos do Vale do Silício, da indústria tecnológica californiana, com o retorno à terra de tantos jovens que aplicam uma agricultura ecológica, que olha para as práticas do passado para torná-las atuais. Em Theucán, no México, o grupo "Agua para siempre" conseguiu livrar sua própria terra de um processo de desertificação que parecia irreversível, unindo as modernas tecnologias com o saber dos agricultores locais.

Não existem soluções que, sozinhas, podem representar o remédio para todos os males, mas podemos fazer muitíssimo aplicando justamente o bom senso e o sendo do limite, independentemente se formos cientistas especialistas em nanotecnologias, ou nas vestes de simples cidadãos ou agricultores.

Segundo as Nações Unidas, as três principais fontes de emissão de CO2 são, em ordem: as construções, a produção de alimentos, os transportes. São todas coisas muito próximas da nossa vida cotidiana, sobre as quais podemos agir, também singularmente, modificando os nossos comportamentos sem muito sacrifício.

Muitíssimas pessoas no mundo já estão fazendo isso: boas práticas agrícolas, um uso pessoal mais racional dos carros e dos transportes, um consumo alimentar inteligente que limita as distâncias percorridas pelo alimento, uma dieta com menos carne que penaliza a criação intensiva, devoradora de energia, ou "reestruturações" ecológicas das casas antigas. São só diversos pequenos atos, mas de grande importância.

Se a ciência nos der uma mão, ficaremos felizes, e a Terra ganhará com isso, porque – embora cause admiração dizer isto, quando todo o Golfo do México está morrendo, inundado em petróleo – os ecossistemas, quando são ajudados, no fim se recuperam, se regeneram. A Natureza sabe restituir coisas incríveis: se a grande ciência se torna um meio a serviço dessa batalha de civilização, e não o objeto fim em si mesmo do nosso esbanjamento, entregaremos às gerações futuras uma Terra melhor.
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*cozinheiro italiano e presidente e fundador do movimento Slow Food, em artigo para o jornal La Repubblica, 03-06-2010.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU online, 04/06/2010

A complexidade que exclui

Maria Regina Canhos Vicentin*

Constatei com pesar dias atrás que, buscando a erudição, muitas vezes alguns veículos de comunicação acabam privando os menos instruídos do acesso às informações. Quando isso se dá nos meios acadêmicos é até compreensível, visto que se espera maior conhecimento dos letrados, entretanto, quando isso ocorre no âmbito religioso, remete a questionamentos em relação a qual o objetivo a ser atingido. Complicar a religião equivale a prolongar o sofrimento daqueles que anseiam por um copo d’água. Jesus veio para simplificar, mas continuam a existir os que desejam catalogar um sem número de preceitos, envolvendo-os em embalagens sagradas e intocáveis, ininteligíveis aos simples, que não conseguem decifrar os intrincados labirintos do saber soberbo. É sempre possível escrever de modo a dificultar a compreensão, não é mesmo?

Verifico que muitos possuem aquilo que já foi denominado por alguém de “Síndrome do Professor Astromar”. Para quem não se lembra ou não teve a oportunidade de ver e ouvir, professor Astromar foi um dos personagens que fez parte do elenco da novela global Roque Santeiro, exibida em 1985. Proferia longos discursos, com palavras rebuscadas, e era aplaudido pelo povo em geral que, no entanto, não entendia absolutamente nada do que ele dizia. Tal referência também me fez lembrar de um texto que foi distribuído num curso de formação de expositores do qual participei, intitulado: “fale bonito e não diga nada”. Muitos “Astromares” desconhecem até mesmo o significado das palavras que empregam, usando-as tão somente pela bela sonoridade que provocam quando proferidas, ou para angariar admiração frente ao aparente domínio de terminologia complexa.

Para muitos intelectuais nada é mais prazeroso que se jactar diante de pessoas humildes, que se vêem perdidas frente tanto bazofiar. A incompreensão alheia acaba por lhes conferir a idéia de maior saber, quando na verdade deveria lhes envergonhar ante o precioso momento desperdiçado. Pena não termos todos as mesmas oportunidades! O saber não deveria ser destinado a elites ou grupos privilegiados, mas a toda a população.

Ainda que assim não seja, urge que as pessoas instruídas desçam de seus pedestais, onde comodamente arquivam assombrosas manifestações de admiração coletiva, para garimpar talentos junto aos prodigiosos populares, ansiosos por uma palavra necessária e inteligível que sacie a sede que sentem em seu interior. Elitizar a religião utilizando terminologia complexa e incompreensível aos menos favorecidos equivale a soterrar o exercício das bem-aventuranças pregadas pelo Mestre, que priorizou o simples, enalteceu os humildes, e referiu-se aos soberbos com as denominações de hipócritas e sepulcros caiados.
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* Escritora.
Fonte: Site Maria Regina (contato@mariaregina.com.br)

Oliver Stone - Entrevista uol

Oliver Stone ataca a mídia e diz que filme dá voz aos pobres

Apaixonado pela América Latina, Oliver Stone produziu e dirigiu seis documentários sobre a região, dos quais "Ao Sul da Fronteira" é o mais recente. Com data de estreia marcada para esta sexta (4), o filme fala sobre a mudança na geopolitica latino-americana a partir da ascensão ao poder do presidente venezuelano Hugo Chávez.

Personagem de maior destaque no documentário Chávez é colocado como o paradigma de liderança na América Latina. Depois dele, vários outros países elegeram líderes com a cara de seus países - Evo Morales na Bolívia, o casal Kirchner na Argentina, Fernando Lugo no Paraguai, Rafael Correa no Equador e Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil. Todos são entrevistados por Stone, que como Michael Moore em seus filmes, também se faz presente.

Na entrevista a seguir, concedida ao UOL Cinema por telefone desde Buenos Aires, onde Stone foi lançar o filme, o cineasta responde a críticas e ataca pesadamente os meios de comunicação, que para ele são o principal instrumento de propaganda e dominação americana na região. "O filme é destinado aos 80% de pessoas que não são representados nesse tipo de filme, os 80% que foram beneficiados pelas políticas desses novos líderes", diz ele. A seguir, os principais trechos.

UOL Cinema - Por que decidiu fazer um filme sobre a geopolítica sul-americana? Quando teve essa ideia pela primeira vez
Oliver Stone - Eu sempre me interessei pela América Latina. Fiz "Salvador" (1986), sobre a Guerra na América Central, em El Salvador. Visitei muitos países [da região] ao longo desses anos. Fiz "Comandante"(2003), sobre Fidel [Castro], com uma hora e meia, deu muito trabalho. Depois, eu fiz "Looking for Fidel" e, agora, "Ao Sul da Fronteira". É uma série de seis documentários nos quais estou trabalhando. Tenho mais dois: um terceiro filme sobre Castro, agora na velhice, e também um grande projeto chamado "Secret History of United States", com dez horas de duração, para a televisão americana, que sai no início do próximo ano. Estou preocupado com o mundo e com a busca da verdade. O documentário é apenas uma parte da minha carreira. E a ficção, o drama com atores, é outra. Tento dividí-las porque essa é uma grande história, "Ao Sul da Fronteira". É uma história imensa, que os americanos não conhecem. Eles não sabem nada sobre isso. Eles ouvem uma versão completamente falsa sobre [o presidente venezuelano Hugo] Chávez nos meios de comunicação americanos. Eles não sabem nada sobre a Argentina, não sabem sobre a disputa de Nestor Kirchner contra o Fundo Monetário Internacional na América do Sul - [os argentinos] promoveram grandes mudanças no modo como fazem negócios. Não sabem que a Bolívia quer seus próprios recursos, sobre o Equador. Não sabem nada a respeito disso. Só sabem sobre a Colômbia e o México como [focos da] guerra contra as drogas.É tudo o que sabem. E é muito triste para mim que tenham essa imagem da América do Sul.

UOL Cinema - Uma das principais críticas em torno do filme aqui no Brasil é de que "Ao Sul da Fronteira" traz uma visão pronta, quase uma tese.
Oliver Stone - É claro que vão dizer isso. O filme vai ser politicamente criticado. São meios de comunicação muito fortes e poderosos. Se ficar estabelecido que eles não gostam de Chávez ou de Lula, certamente perseguirão o filme, é inevitável. Não posso me importar com isso. O filme é destinado aos 80% de pessoas que não são representados nesse tipo de filme, os 80% que foram beneficiados pelas políticas desses novos líderes. E por falar nisso tivemos uma tremenda exibição do filme em Cochabamba, na Bolívia, com seis mil pessoas. Nunca na minha vida estive numa sala com seis mil pessoas vibrando e aplaudindo. E também na Venezuela, com três mil pessoas. É algo para ser visto. É preciso entender que os filmes existem para as pessoas. E elas meio que ficam enterradas, escondidas. Especialmente os pobres, que não são ouvidos. E esses líderes representam uma mudança.

UOL Cinema - Os críticos acusam o filme de não ouvir o outro lado. Mas existe também uma confusão em torno do que é documentário e o que é tele-jornalismo.
Oliver Stone - Tive esse problema durante anos. Fiz o retrato de [Fidel] Castro, que nunca niguém entrevistou do jeito que o entrevistei. Nunca ninguém viu o lado íntimo, o lado mais próximo, de Castro da maneira como mostramos. E fui criticado por não ter [produzido] um documentário político mostrando suas falhas. Eu nunca teria contado essa história se não tivesse chegado até lá e ganhado sua confiança. Você está certo, eles querem jornalismo, mas também acho o jornalismo falso, por que nos dá uma falsa dualidade. Por exemplo, a BBC vai até a Venezuela para fazer um documentário sobre Chávez. E só pergunta sobre coisas ruins, nunca nem uma vez nada positivo. [Risos]. A verdade é que a economia da Venezuela estourou depois da tomada da companhia de petróleo, até a recessão de 2009, subiu em níveis de mais de 60%. A mesma coisa com a Argentina, que fez tudo errado. Eles foram contra o Fundo Monetário Internacional e, ainda assim, a economia deles ficou louca. Foi muito bem. Essas coisas, muito americanos e, menos ainda, muitos sul-americanos não sabem, não reconhecem e não querem [reconhecer]. É muito rígido aqui, um sistema muito estranho. Porque os meios de comunicação na Venezuela são tão eloquentes e todos os veículos são privados. No Brasil, na Venezuela, na Argentina. Grandes cadeias, grandes famílias, eles são como os oligarcas. Eles são donos dos meios de comunicação, das emissoras de televisão. E eles os usam para interesse o próprio. E eles mentem. E o Departamento de Estado americano concorda com eles porque querem controlar a região e o fazem. Eles fazem isso há 150 anos. O Departamento de Estado fornece o material e os meios de comunicação americanos, as emissoras e as agências publicam as histórias sobre todas essas pessoas. Até mesmo Lula, que era [visto como] a "boa esquerda" sul-americana, agora é visto como a "má esquerda" por causa de sua posição a respeito do Irã, o que mostra quão louca é essa situação. Novamente, falando sobre sanções contra o Irã, o mundo nunca vai chegar a um estado de paz enquanto tivermos essas posturas ideológicas rígidas dos meios de comunicação. Eles estão matando a possibilidade de negociação e consenso.

UOL Cinema - Algo mudou em sua visão sobre esses líderes depois que os encontrou? Falo especificamente de Hugo Chávez e o presidente Lula.
Oliver Stone - Não. Não fiz isso baseado em ideias pré-concebidas. Não acredito mais nos meios comunicação americanos. Tive minhas próprias experiências com eles. E acho que eles foram tão negativos em relação a Chávez que nem mencionaram os outros países. Você vai e volta e quando fui a Venezuela vi um outro país. Aliás, além disso, o filme não é sobre Chávez. Falei de outros países até para ter outras pessoas falando. O filme tem que falar por si só. Fico impressionado com o fato de que as pessoas dizem que não há críticas no filme. Francamente, há um bocado de críticas a eles [os presidentes] no filme, se olhar mais atentamente. Mas essas pessoas nunca parecem satisfeitas. Há muita crítica ao governo de Chávez no filme, tanto por parte dos americanos quanto dos colaboradores dos americanos na Venezuela.
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Fonte: UOL Cinema - 03/06/2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Filhos do medo

Eliani Gracez Nedel*

O ser humano encontrou no medo uma forma de organização social. Surge, assim, a cultura do medo. Impor limites, para alguns, é impor o medo. E, assim, milhares e milhares de crianças foram educadas pelo medo, para o medo e com medo. Crianças que cresceram limitadas, angustiadas e, é claro, infelizes. Quando uma criança é educada com medo, ela se torna obediente e incapaz de impor sua vontade diante das relações desiguais. O medo assume uma representação marcante e limitadora da potencialidade humana. Por isso, a educação, historicamente, se deu através de castigos e agressão. E, assim, ao longo dos séculos, o medo foi “o carro-chefe” da educação.

Como bons filhos do medo, tememos até mesmo a liberdade, pois o medo impõe um limite atroz, e por isso desconhecemos a liberdade. Medo de morrer, medo da velhice, medo da doença, medo de perder o que foi conquistado, medo de promover mudanças na vida, por isso preferimos a mesmice, medo do desconhecido. Medo de encarar um novo desafio e perder tudo. Medo de ter que começar tudo outra vez. Medo! Medo! Medo! Onde há o medo, não pode haver sabedoria, dizia um filósofo antigo. Não sabemos mais viver sem medo e sem disseminar o medo. Seja através de uma chinelada no filho ou um olhar ameaçador. Tem até quem pense que só respeitamos aqueles a quem tememos. É por não saber fazer se respeitar de outra forma, que o ditador impõe o medo e alguns pais usam o chinelo. Quanta ausência de sabedoria!

Tudo isso, porque ao invés de criar a cultura da felicidade e ensinar aos filhos como fazer bom uso da liberdade, por falta de sabedoria, criamos a cultura do medo. E hoje, por mais que uma mudança no paradigma da educação seja necessária, tememos a mudança. Foram séculos e mais séculos de educação pelo medo. E, com isso, a liberdade, em pessoas despreparadas para ela, tomou caminhos tortuosos. Tudo isso porque a liberdade na cultura do medo foi afastada, extirpada como se fosse um grande mal. O desafio é grande, acabar com a cultura do medo é dar a todos os seres humanos a mesma condição de igualdade ou de liberdade. Por isso hoje se fala em “rede” ou “teia” na área da educação e da família. Onde uma pessoa não é mais importante do que a outra. O problema é: quem é que sabe educar sem se impor através do medo? Onde estão nossos sábios? Ditadores, poderíamos apontar um monte, mas, sábios, quem conhece um?
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*Filósofa
Fonte: ZH online, 03/06/2010

Expectativas

L. F. VERISSIMO*
Cada Copa do Mundo é diferente e – no Brasil – cada pré-Copa também. Mudam as manifestações de esperança ou dúvida que acompanham nossa seleção, de acordo com a expectativa do momento. E raramente a realidade corresponde à expectativa.

Depois do bicampeonato mundial de 58 e 62, fomos para a Copa de 66 convencidos da nossa invencibilidade. Afinal, tínhamos não apenas o melhor jogador em atividade no mundo, mas o melhor jogador em atividade no mundo com 25 anos. Mas quebraram o Pelé na Copa de 66 e o time desmoronou.

Em 70, a Seleção viajou para o México em meio a uma descrença difusa mas indisfarçável. A fase de preparação fora conturbada. Tinha havido o problema com o João Saldanha, dispensado como técnico por alegadas razões políticas e substituído pelo Zagallo. O próprio Pelé não era mais uma unanimidade, e chegaram a dizer que ele não estava enxergando bem. Além da miopia do Pelé, nos faltava um centroavante, pois o Tostão claramente não tinha o físico para o papel, e nossa defesa era fraca. Não podia dar certo. Deu certíssimo.

Curiosamente, quatro anos depois ninguém estava muito animado com a Seleção. Não ajudou muito a declaração do Zagallo, feita em “off” mas entreouvida e transmitida, de que sua única esperança era cavar faltas perto da área dos adversários e confiar nos nossos cobradores. Os cobradores não nos salvaram.

Em 78, o ceticismo geral se concentrou no capitão Coutinho e no seu linguajar tecnocrático, mas aquela Copa já tinha dono antes de começar, a Argentina. Nada teria feito muita diferença para os brasileiros, nem outro técnico, nem o jovem Falcão no lugar do Chicão.

Nenhuma Seleção saiu do Brasil mais oba-obaizada do que a de 82. Era a Seleção da melhor geração de craques brasileiros desde a da Copa de 50. Júnior, Falcão, Cerezzo, Sócrates, Zico, Eder... Não podia perder e perdeu. Como a de 50, aquela geração também ficou sem sua apoteose. Teve outra oportunidade no México em 86, mas aí já era tarde.

Na Itália, em 90, nascia o que o Armando Nogueira batizou, com desgosto, de a Era Dunga. Quatro anos depois, nos Estados Unidos, o desacreditado Dunga liderou uma vitória brasileira que ninguém esperava, desagravando a sua biografia, mas nem assim convencendo todo o mundo.

Na Copa de 98, a realidade derrotou a expectativa de que 94 se repetiria, mas foi uma realidade tão estranha – convulsões misteriosas do Ronaldo e inéditos gols de cabeça do Zidane no último jogo –, que resiste a qualquer tese, e não conta.

Ronaldo era a grande incógnita da Seleção de 2002, e a vitória da seleção no Japão foi uma vitória pessoal do jogador, numa bela história de remissão que soaria inverossímil como literatura.

Finalmente, as grandes esperanças com a Seleção de 2006 se justificavam. O período de preparação tinha sido empolgante. Quem poderia prever que o futebol de Ronaldinho, Kaká e os outros desapareceria como flocos de neve no verão alemão?

E vamos para a África do Sul cheios de... O que, exatamente? Entusiasmo, digamos, reticente, ou desesperança resignada? Certeza só a do Dunga, que ou volta definitivamente acreditado, ou desacreditado para todo e sempre.
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*Jornalista. Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH online, 03/06/2010

Conselho para escolher carreira

CONTARDO CALLIGARIS*

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Você pode mudar de faculdade e de carreira,
e essas mudanças não são a prova de fracasso algum

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A ESCOLA pública italiana impunha uma aula semanal de religião (católica, claro). Na terceira série, aprendi que, para me tornar sacerdote, seria imprescindível que eu tivesse "a vocação" (com o artigo definido).

Em princípio, essa condição facilitava as coisas: afinal, ou eu era chamado por Deus ou não era. No entanto, Deus não chama a gente por carta registrada.

Era possível, eu pensava, que ele se manifestasse por sinais misteriosos, que eu não entenderia, ou pior, que eu evitaria entender -talvez porque preferisse perseguir ambições mais mundanas ou porque meus pais não gostassem da ideia de ter um filho padre.

Seja como for, se eu recebesse, mas não escutasse a chamada, não estaria apenas fazendo pouco caso da vontade divina: eu estaria fugindo de meu destino, seria culpado de desperdiçar minha vida.

Na quarta e quinta séries, foi a vez de o Estado se preocupar com nossas vocações. Naquela época, era necessário escolher muito cedo entre o clássico, o científico e os cursos técnicos que levavam diretamente para o trabalho, sem dar acesso para as faculdades.

Tratava-se, portanto, de saber se tínhamos jeito para as humanas ou para as exatas e, em cada caso, qual era o tamanho do nosso jeito. Uma casa caiu, sepultando seus moradores; seu primeiro pensamento é "se Deus existe, por que ele permite tamanho sofrimento?"; pois bem, as humanas são sua vocação.

Restava verificar, com outros testes, se você tinha pano suficiente para ser professor de filosofia ou se era melhor que você se contentasse em ser repetidor no primário.

De fato, a orientação profissional precoce eternizava a divisão social (nunca vi um aluno de classe média-alta ser encaminhado para cursos técnicos). Mas a intenção era nobre: descobrir qual era a semente escondida em cada um de nós.

Detectando o embrião de nossas aptidões e disposições, poderíamos agir de maneira que a vida realizasse plenamente o nosso potencial.

A partir dos anos 60, em grande parte graças à influência da psicologia de Alfred Adler, ficou claro que, na hora de escolher uma carreira, os talentos e as predisposições são tão importantes quanto os sonhos, os devaneios, as paixões e as imagens idealizadas de tal ou tal outra profissão que encontramos, por exemplo, nas ficções que nos marcam.

O medo de não escutar a chamada divina foi substituído pelo medo de não entender direito nosso próprio desejo -pois seríamos competentes, "realizados" e felizes só se nossa profissão for uma extensão de nossas paixões íntimas. Nesse caso, o trabalho seria leve e divertido, como um hobby.

Em suma, a semente que estaria em nós e que deveria vingar se tornou mais complexa. Mas a ideia de que existe uma semente que é preciso descobrir continuou valendo e preocupando pais e filhos.

Uma leitora, Cecília, me escreve sobre as inquietudes da filha, Luana, 16, na hora de escolher uma carreira que esteja "em consonância com a personalidade, o temperamento, o querer" de Luana e também "com o mercado do trabalho".

Uma sugestão para Luana. Entendo que a escolha de um vestibular, de uma faculdade e, em última instância, de uma profissão, pareça um ato definitivo, mas não é nada disso.

Você pode mudar de faculdade e de carreira; pode cursar um ano de direito, escolher passar para ciências sociais, decidir que o que você realmente quer é biologia e, quem sabe, cursar medicina aos 35 anos. Menos óbvio e mais importante é entender que essas mudanças não seriam a prova de fracasso algum.

Se você mudar de faculdade ou carreira, não será porque você se enganou na tentativa de descobrir qual era a semente que você carregava consigo.

Aliás, esqueça a ideia da semente. Ser jovem não é ser semente; é ser, antes de mais nada, uma narrativa aberta. Imagine que você é o começo de uma história: havia uma moça de 16 anos que gostava dos Beatles e dos Rolling Stones e, um belo dia, ela saiu para fazer sua inscrição no vestibular... Continue. E lembre-se de que uma boa história tem reviravoltas e surpresas.

Em poucas palavras, em vez de tentar descobrir a famosa semente, invente sua vida.
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*Psiquiátra. Escritor. Colunista da Folha.ccalligari@uol.com.br
Fonte: Folha online, 03/06/2010

Sinfonia de corpos

FREI BETTO*
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Na concretude da fé cristã,
anunciarei a certeza de ressurreição da carne e do universo,
redimido pelo corpo místico de Cristo

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Na festa do Corpo de Cristo, deixarei meu corpo flutuar em alturas abissais. Acariciarei uma por uma de minhas rugas, desvelarei histórias, apreenderei, na ponta dos dedos, meu perfil interior.

Suspenderei todas as flexões, exceto as que aprendo na academia dos místicos. Beberei do próprio poço e abrirei o coração para o anjo da faxina atirar pela janela da compaixão iras, invejas e amarguras.

Pisarei sem sapatos o calor da terra viva. Bailarino ambiental, dançarei abraçado à Gaia ao som ardente de canções primevas. Dela receberei o pão, a ela darei a paz.

Acesas as estrelas, contemplarei, na penumbra do mistério, esse corpo glorioso que nos funde, eu e Gaia, em um único sacramento divino. Seu trigo brotará como alimento para todas as bocas, suas uvas farão correr rios inebriantes de saciedade.

Na mesa cósmica, ofertarei as primícias de meus sonhos. Acolherei o corpo do Senhor no cálice de minhas carências. Dobrarei os joelhos ao mistério da vida e contemplarei o rosto divino na face daqueles que nunca souberam que cosmo e cosmético são gregas palavras e deitam raízes na mesma beleza.

Despirei os meus olhos de todos os preconceitos e rogarei pela fé, acima de todos os preceitos. Como Ezequiel, contemplarei o campo dos mortos até ver a poeira consolidar-se em ossos, os ossos se juntarem em esqueletos, os esqueletos se recobrirem de carne e a carne inflar-se de vida no espírito de Deus.

Proclamarei o silêncio como ato de profunda subversão. Desconectado do mundo, banirei da alma todos os ruídos que me inquietam e, vazio de mim mesmo, serei plenificado por Aquele que me envolve.

Suspenderei da mente a profusão de imagens e represarei no olvido o turbilhão de ideias. Privarei de sentido as palavras.

Absorvido pelo silêncio, apurarei os ouvidos, para escutar a brisa de Elias, e os olhos, para admirar o que extasiou Simeão.

Recolherei pelas esquinas todos os corpos indesejados para lavá-los no sangue de Cristo.

Curarei da cegueira os que se miram no olhar alheio e besuntarei de cremes bíblicos o rosto de todos os que se julgam feios, até que neles transpareça o esplendor da semelhança divina.

Arrancarei do chão de ferro os pés congelados da dessolidariedade e farei vir vento forte aos que temem o peso das próprias asas.

Ao alçarem o topo do mundo, verão que todos somos um só corpo e um só espírito.

Farei do meu corpo hóstia viva; do sangue, vinho de alegria.

Ébrio de efusões e graças, enlaçarei num amplexo cósmico todos os corpos e, no salão dourado da Via Láctea, valsaremos até que a música sideral tenha esgotado a sinfonia escatológica.

Na concretude da fé cristã, anunciarei aos quatro ventos a certeza de ressurreição da carne e de todo o universo, redimido pelo corpo místico de Cristo.

Então, o que é terno tornar-se-á, nos limites da vida, eterno quando a morte transvivenciar-nos.
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*CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, frade dominicano, é assessor de movimentos sociais e autor de "O Amor Fecunda o Universo - Ecologia e Espiritualidade", em parceria com Marcelo Barros, entre outras obras.
Fonte: Folha online, 03/06/2010

Fuga da morte

 Artigo de Giorgio Agamben
Publicamos aqui as palavras do filósofo italiano Giorgio Agamben a respeito do recente massacre
 dos tripulantes de uma frota humanitária pela Marinha israelense.
 O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 02-06-2010.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos se lembram dos versos da poesia "Fuga da morte", em que Paul Celan evocava em 1952 o extermínio dos judeus: "A morte é um mestre da Alemanha / te acerta com uma bala de chumbo e te acerta em cheio".
É triste para quem que, como eu, é ligado à cultura judaica ter que dizer hoje "A morte é um mestre de Israel".
E é ainda mais triste, porque os soldados que atacaram os navios dos pacifistas não apenas agiram como piratas em águas internacionais, mas principalmente agiram como guardiães do Campo de Concentração em que Israel transformou a Palestina.
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Fonte: IHU online, 03/06/2010

“O alimento é o combustível da história”

Entrevista - Tom Standage
Jornalista britânico lança livro no qual defende a tese de que a busca por comida determinou importantes eventos, como a Revolução Industrial e a descoberta da América

Trecho

“A influência dos alimentos sobre a história pode ser similarmente vista como um forcado invisível que, em vários momentos cruciais, incitou a humanidade e alterou seu destino, ainda que as pessoas geralmente não estivessem conscientes dessa influência. Muitas escolhas alimentares feitas no passado tiveram consequências de longo alcance, ajudando a moldar de maneiras inesperadas o mundo em que vivemos hoje. (…) Pode parecer estranho que elas tenham sido um ingrediente tão importante nas questões humanas, mas o contrário seria muito mais surpreendente: afinal de contas, em tudo que fizeram ao longo da história, as pessoas foram literalmente impulsionadas pela comida”.
Uma história comestível da humanidade, de Tom Standage



Se não fosse a vontade de buscar especiarias na distante Índia, os europeus não teriam descoberto a América, e depois o Brasil, no século 15. A praga das batatas, em 1845, na Irlanda, incentivou a Revolução Industrial na Inglaterra, mudando toda a trajetória da economia mundial. Esses e tantos outros episódios da história tiveram um protagonista oculto, nem sempre lembrado pelos pesquisadores: a comida. Para trazer os holofotes de volta para a alimentação, o jornalista Tom Standage, editor de tecnologia da revista The Economist, resolveu escrever o livro Uma história comestível da humanidade (Jorge Zahar). Foram meses de estudo e uma verdadeira viagem no tempo para mostrar o que muitos livros deixaram passar em branco.
Mesmo sendo um especialista na área de ciência e informática, Standage é um apaixonado por história e gastronomia. O interesse já dera origem à obra História do mundo em 6 copos, na qual Tom explica os maiores acontecimentos da humanidade a partir do mundo das bebidas. Depois veio o desejo de estudar a comida, resultando em sua mais recente obra.
Mesmo com uma agenda lotada de compromissos, o escritor britânico, que adora jogar videogames, tocar bateria e beber vinho, concedeu uma entrevista ao Correio. Por e-mail, contou como os sabores e o desenvolvimento da gastronomia influenciaram o mundo em que vivemos. “A comida mudou o curso da civilização. Afinal, tudo o que as pessoas fizeram na história foi abastecido por ela. É o que sustenta a humanidade”, defende.

O que fez o senhor explorar a história da humanidade pela ótica da alimentação?
Eu acredito que o significado da comida na história foi deixado de lado. É fácil não dar muito valor a ela, pelo menos no mundo desenvolvido, onde nós não temos de nos preocupar de onde vai surgir a nossa próxima refeição. Existem muitos livros que dizem como a história mudou a alimentação — “Os europeus chegaram nas Américas, então agora o pessoal de casa pode comer tomate e chocolate!”. Eu queria olhar para as coisas de outro modo: como a comida mudou a história. E realmente ela mudou o curso da civilização. Afinal, tudo o que as pessoas fizeram foi abastecido pela comida. É o que sustenta a história. É o que sustenta a humanidade.

Como a agricultura influenciou a nossa história e a forma como comemos?
A troca do estilo de vida nômade para a acomodação permanente foi a grande mudança na existência desde da evolução moderna. Fomos caçadores durante milhares de anos, milhões, se voltarmos à época dos primeiros primatas, e mudamos de comportamento para sermos fazendeiros. Isso há quase 10 mil anos. O resto, como eles costumam dizer, é história. Quando você permanece em um local por muito tempo, cria cidades, escrita, impérios, a civilização como conhecemos. Foi uma mudança massiva e foi causada pela mudança na nossa produção de alimentos.

A comida continua a movimentar a história?
Com certeza. Desde que a humanidade mudou para o papel de fazendeiro, nós ficamos dependentes da agricultura. O planeta suportaria apenas uma pequena população de caçadores. A agricultura é vital. Algumas pessoas reclamam das grandes indústrias alimentícias e sugerem que nós deveríamos plantar a nossa própria comida. Mas grandes fazendas geralmente são mais eficientes e uma agricultura eficiente significa que uma porção menor da população pode se dedicar à fazenda e os outros podem se dedicar a outras atividades. E veja o desenvolvimento da China e da Índia nos últimos anos. Neste século, nós estamos lidando com o problema da relação comida-clima-população. Eu estou otimista de que podemos lidar com isso, mas eu posso estar errado. Estamos em uma estrada que pode nos levar a dois rumos e a comida pode ser uma das coisas a determinar em que direção devemos ir. O alimento ainda é o combustível da história.

Um dos grandes exemplos de como a comida pode influenciar nossa história foi a busca de Cristóvão Colombo pelas especiarias(1), o que possibilitou a descoberta de um novo continente. A necessidade de alimentos moveu a sociedade humana para a frente?
Sim. Tanto Colombo quanto Vasco da Gama foram motivados, em parte, pelas especiarias. Os dois abriram novas rotas de mercado globais e isso levou ao estabelecimento dos impérios colonizadores. Os efeitos disso podemos perceber ainda hoje. Se isso foi positivo ou negativo, é uma questão de opinião, mas não há dúvidas de que a busca desses ingredientes exóticos mudou o mundo.

Que outros episódios podem ser considerados importantes?
A comida também teve um papel importante para desenvolver a Revolução Industrial e a sua escassez determinou o começo de muitas guerras(2). E, novamente, o aprimoramento nos campos de colheita determinou o avanço da China, da Índia e também do Brasil, nas últimas décadas. Então, a comida ainda tem a habilidade de determinar o curso da história.

Qual é o alimento mais importante na nossa história?
Não existe uma só resposta para essa pergunta. Os grandes são o trigo, o arroz e o milho, considerados os maiores produtos básicos, a “fundação comestível da civilização”. Também devemos citar as especiarias, que interconectaram as culturas do mundo e impulsionaram as viagens de exploração. O açúcar, que começou com o mercado de escravos. As batatas, que deram um gás para a população europeia e traçaram o caminho para a industrialização. Além da evolução verde do trigo e do arroz, que alavancou o desenvolvimento da Índia e da China. Mas se eu tivesse que escolher um, eu acho que seriam mesmo as especiarias.

Qual foi a coisa mais surpreendente que o senhor descobriu durante a sua pesquisa?
Eu acho que a mais interessante, sem dúvida, foi como o fracasso e o sucesso militar dependia da comida. A história militar foi um assunto novo para mim e eu a estava olhando de um ângulo diferente. Também foi particularmente intrigante ver como a propagação da agricultura ainda é visível entre os homens e a linguagem pelo mundo.

A ideia do livro A história do mundo em 6 copos é muito interessante. Como foi o processo de dividir a história dessa forma?
Seja com a comida ou com a bebida, eu gosto do fato de como elas proporcionam uma janela para o passado. Eu gosto da ideia de enxergar a comida e a bebida como relíquias de diferentes períodos do passado que nós podemos encontrar na nossa cozinha. Elas nos permitem ver o passado no presente e o presente no passado. É isso que estou tentando fazer em todos os meus livros.

1 - Especiais
A palavra especiaria vem do vocábulo em latim species, que também é raiz de especial e quer dizer “tipo” ou “variedade”. Ela era usada para determinar itens valiosos sobre as quais era preciso pagar imposto. A Tarifa de Alexandria, documento romano do século 5, lista 54 especiarias, que incluía canela, gengibre, pimenta-branca, cardamomo, agáloco e mirra.

2 - Luta por comida
Em seu livro, Tom Standage conta que a Guerra Fria entre Estados Unidos e a União Soviética foi iniciada de fato com uma luta por comida na disputa pela cidade de Berlim. Em 1948, os soviéticos queriam forçar os aliados ocidentais a deixarem a capital alemã e começaram a interferir na entrega de comida na cidade. A crise se instalou de vez e os americanos começaram a abastecer os 2 milhões de habitantes pelo ar.
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Reportagem: Tatiana Sabadini

Fonte: Correio Braziliense online, 03/06/2010

O Jardineiro

Pe. Alfredo J. Gonçalves *


Sempre tive uma vontade oculta de ser jardineiro: mexer com a terra, afundar os pés e as mãos em suas entranhas, sentir-lhe o calor e o frio, inebriar-me de seus cheiros, seguir as estações do ano, contemplar o sol e a chuva, lançar a semente e esperar a lenta maturação da vida... Mas especialmente cultivar flores. Quem sabe, um dia, ser uma entre elas!

Mas a profissão de jardineiro tem suas armadilhas. Sem dúvida, é gratificante ver as plantas se erguerem do solo, produzir botões e estes se abrirem em pétalas de diferentes cores e tonalidades. Em pouco tempo, porém, elas murcham, secam, desaparecem. Com a mesma voluptuosidade com que buscam o céu azul, a luz e o ar livre, também se curvam encarquilhadas sobre o chão, morrem e caem no esquecimento. Menos mal que deixam na terra suas sementes e que estas, em potencial, contêm novas flores. Cedo ou tarde, haverão de romper a superfície da terra e se reerguer para a vida.

Outra armadilha é que, após preparar o solo, lançar a semente, e zelar diariamente pela sua gestação, o jardineiro pode surpreender-se com alguma flor que nasce fora do jardim cultivado. Tanto carinho e cuidado, para ver o broto ressurgir em meio ao mato e aos espinhos, ou entre as pedras do caminho. Flores são seres rebeldes, crescem não raro onde menos se espera, longe de nosso alcance. Às vezes são mais vivas e vigorosas onde a terra é mais agreste.

Ninguém como o jardineiro se dá conta de como a flor é bela e frágil. Ou melhor, bela porque frágil. Oferece seu brilho intenso e colorido, mas sempre provisório. Tão forte quanto fugaz, talvez porque possui uma estranha consciência orgânica de que sua passagem pela vida é breve. Logo terá de desaparecer! O mesmo ocorre com o perfume. A flor exala-o com tanta intensidade que chega a embriagar o viajante que passa. Mas fenece junto com ela. Também neste caso é verdade que, apesar de resistir mal à tormenta, a beleza e o perfume da flor jamais se apagam da memória de quem os experimentou.

Mas o cultivador de flores conhece outros segredos. Sabe que cada uma delas é única, incomparável e insubstituível. Inútil perguntar qual a mais bonita, a mais sedutora a mais cheirosa. Todas o são, embora distintas. Ou melhor, todas são belas justamente porque distintas! É a diversidade de formas e aromas, cores e tons que torna encantado o jardim.

O senhor do jardim sabe, ainda, que cultivar flores não é tomar posse delas. Se tentar fazê-lo, mata-as, perdendo-as para sempre. De resto, essa relação com as flores reproduz-se na relação com outros seres vivos, plantas ou animais, como também na relação entre as pessoas. Cultivar implica não em dominar e possuir, mas deixá-las livres. Livres para que outros possam desfrutar de seu conhecimento e riqueza. A posse é a negação do amor.

O jardineiro é diferente do colecionador. De fato, O cultivador de carros de luxo, de pérolas preciosas, de contas bancárias, de objetos exóticos, como também o cultivador de mágoas ou ressentimentos, de ódio ou vingança, torna-se escravo daquilo que cultiva. Constrói sua própria prisão. "Onde está teu tesouro, aí está teu coração", diz o sábio Jesus. Ao contrário do colecionador, o jardineiro aprende que somente há de colher as flores que cultiva com o toque mágico de suas mãos, rudes e ternas a um só tempo. Mas ele as colhe com o olhar, com o deslumbramento da alma. Prendê-las é condená-las à morte.

E assim, livre e bela, a flor pode entregar-se gratuitamente a todos que visitam o jardim. Seu brilho fala de Deus quando guarda as gotas do orvalho noturno ou abre suas pétalas à luz matutina, quando dança ao ritmo da brisa suave ou oferece seu néctar ao beija-flor, o qual, a seu turno, transportará o pólen para fecundar outras flores, alimentando assim o ciclo interminável da vida.

Unida ao sorriso da criança, ao murmúrio ou ao rugido da água, ao canto do pássaro, à luz longínqua da estrela, ao sol que chega ou que parte, ao olhar de quem ama ou à lágrima de quem ainda é capaz de chorar, aos corações sedentos de justiça ou às mãos que combatem pelos direitos humanos - a flor integra a grande orquestra da criação. Instrumentos distintos, que tocam notas diferentes, mas exprimem a beleza de uma sinfonia comum.

Cultivar flores é cultivar relações novas, livres, autênticas, transparentes. Relação consigo mesmo, com o outro e com os outros, com a história de um povo, com o meio ambiente, com o Transcendente. Essas dimensões, embora distintas, não constituem instâncias cerradas uma à outra. Ao contrário, todas se entrelaçam inextricavelmente. Todas se interpelam e se integram, se enriquecem e se complementam. O cultivo de uma repercute no crescimento das demais, o descuido de uma significa o esvaziamento de todo o ser.

Como ponto final, vale sublinhar, uma vez mais, a lição da flor: porque é bela, fugaz e frágil, ela brilha e se apaga, revela-se e se esconde, aparece e desaparece, como o Amado que se oculta para estimular a busca e nutrir um amor fiel e persistente.
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* Assessor das Pastorais Sociais.
Fonte: IHU online, 01/06/2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Momento cubano

Newton Carlos*


Com um general octogenário colocado na Vice-Presidência, de nome Antonio Enrique Lusson Batlle, o presidente cubano, Raúl Castro, procura construir espécie de blindagem que ajude a manter de pé o regime comunista. É o que diz a Latin News. Tem igualmente formação militar o novo ministro dos Transportes, César Ignácio Arocha, que dirigia uma companhia de distribuição de alimentos. Oficiais das Forças Armadas cubanas, uma das duas únicas instituições que funcionam em Cuba, a outra é o Partido Comunista, controlam boa parte do aparato econômico. O próprio presidente tem a patente de general.

Militares fazem inclusive cursos de gestão no exterior. As razões das mudanças, segundo versão oficial, foram “deficiências” e “erros” dos destituídos da Vice-Presidência e dos ministérios dos Transportes e do Açúcar. Mas não terá sido corrupção? Há 750 empresas do Estado sob investigações. Talvez trunfo num momento difícil, de insatisfações internas e externas. O novo ministro dos Transportes, companheiro graduado com passagem pelos quartéis, terá de executar um plano de melhoria do caótico sistema de transportes de Cuba. O montante da verba dada a ele, US$ 2 bilhões de imediato, confere ao plano a condição de emergência. As mudanças coincidiram com a revelação de que Cuba terá sua pior safra de açúcar em 105 anos, área até então controlada por um dos destituídos.

“Desde 1905 não se viu colheita tão pobre”, reclamou o Granma, jornal do Partido Comunista. As deficiências resultam do fato, entre outros, de que só 10 centrales (espécies de fábricas) envolvidas com a produção de açúcar, de um total de 44, conseguiram cumprir metas. “Faltou controle e exigências ao Ministério do Açúcar”, é ainda o Granma que reclama. Cuba chegou a faturar por ano US$ 4 bilhões com vendas de açúcar. Baixou a até US$ 600 milhões e o açúcar é um dos principais produtos responsáveis pelo faturamento em moedas fortes. Fortalecendo o establishment militar, são reforçadas as estacas de um regime “em situação muito dificil, sem dúvida a mais difícil no século atual”, segundo o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana.

O presidente Raúl e seu irmão Fidel parecem convencidos de que algo é tramado em Washington contra os detentores do poder em Cuba. No 1º de Maio, em grande manifestação com selo oficial, Raúl afirmou que seu país “nunca cedeu e nunca cederá a chantagens e ao terrorismo da mídia”. Em suas “Reflexões”, Fidel fez coro, reiterando que chantagens não conseguirão nada. A entrevista do cardeal Ortega saiu no Nueva Palabra, publicado mensalmente pela Igreja. Ortega disse ainda que é crucial a necessidade de que as reformas em Cuba “sejam feitas com rapidez”. De que é preciso abandonar “o velho e burocrático Estado stalinista”. Tais sentimentos “assumiram a forma de consenso nacional”. Ortega pediu a libertação de todos os prisioneiros políticos e ao jornalista Guillerme Farinas, encarcerado, que suspenda a greve de fome.

Surpreendeu a reação oficial às palavras de Ortega. Em dois dias consecutivos, o Granma publicou fotos do arcebispo com a informação de que ele se reunira com Raúl. O próprio Ortega convocou entrevista coletiva para falar de seu encontro com o presidente de Cuba. Disse que foi aberta “uma etapa inovadora de um diálogo” que, embora ainda incipiente, pode resultar na libertação dos presos políticos. Ortega procurou deixar claras duas coisas. As conversações entre a Igreja e o Estado são “entre cubanos”. Não seriam possíveis com um “governo estrangeiro”. Mas anunciou que Dominique Mamberti, encarregado das relações da Santa Sé com Estados, viajará a Cuba em 15 de junho, convidado pela Igreja e pelo governo cubano para participar das comemorações dos 75 anos das relações entre Cuba e o Vaticano.

Há expectativa pelo que possa representar a viagem de Mamberti. No seu discurso de 1º de Maio, o próprio Raúl não escondeu frustrações com o reduzido avanço de sua limitada agenda de reformas. As auditorias em empresas do Estado seriam um dos itens dessa agenda. Ele atende a anseios populares, segundo especialistas. Mas as dificuldades em avançar nesse terreno talvez expliquem os sucessivos adiamentos do congresso do Partido Comunista de Cuba. Receio, quem sabe, de que adquiram maior visibilidade sérias divergências internas. O Observer, de Londres, publicou reportagem sobre o êxodo de jovens cubanos de boa formação acadêmica, área em que a revolução mais avançou. Boa parte dos formandos, no entanto, tenta buscar fora oportunidades melhores de trabalho. As projeções são de população em queda numérica sobretudo numa área de excelência.
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*Jornalista e analista político.
Fonte: Correio Braziliense online, 02/06/2010

A célula sintética de Craig Venter

Marcelo de Macedo Brígido*
No dia 20 de maio, a revista da Associação Americana para o Avanço da Ciência, a Science, publicou um trabalho inédito do grupo do doutor Craig Venter sobre a criação de um organismo artificial ou sintético. O feito é impressionante e representa um marco na ciência por abrir uma série de novas opções na área de Engenharia Genética. Antes, sabíamos como se introduz funcionalmente um ou poucos genes em dado organismo. Agora, podemos sintetizar da forma que mais nos convier todo um genoma, isto é, todo o conteúdo genético de um organismo sintético. Mas será que temos mesmo todo esse poder, ou estamos superestimando um avanço científico importante?

O grupo americano, inicialmente, sintetizou e montou um genoma baseado no código genético de uma dada espécie de micoplasma (o menor genoma celulado), mantido na forma de cromossomo artificial em uma levedura. No desenho do genoma sintético, o grupo removeu alguns genes e introduziu algumas sequências genéticas que identificassem aquele genoma (uma espécie de código de barras genético). Feito isso, os pesquisadores introduziram esse genoma modificado em uma espécie diferente de micoplasma. Após algumas gerações, o genoma sintético substitui totalmente o genoma do hospedeiro e consegue-se a “célula sintética”.

Em termos científicos, o grande feito foi a montagem de todo um genoma de forma sintética. Com cerca de 1.078.809 de pares de bases, o genoma contém um conjunto de genes baseados no conceito de genoma mínimo. Esse conceito é fruto de quinze anos de pesquisa do grupo. São genes que, por comparação entre genomas conhecidos, parecem ser o mínimo necessário para a manutenção de uma célula viva e reproduzindo. A importância desse feito é a ausência de sequências naturais ou inesperadas no genoma proposto, ou seja, tudo ali foi colocado por eles.

Por outro lado, a metodologia de transferência desse genoma para uma célula viva é um feito notável e tecnologicamente complexo. A transferência de genomas completos de forma artificial e a eliminação do genoma da célula hospedeira representam um grande avanço científico, mais até do que a síntese do genoma. Contudo, essa técnica já tinha sido dominada e publicada em 2007 pelo mesmo grupo. Em suma, o marco mais importante dessa estória passou desapercebido pela grande mídia.

Em termos práticos, o que muda? Muito pouco. A sensação de poder criar novos organismos capazes de fazer tudo que o homem ou a natureza não consiga é a mesma daquela que conhecemos quando surgiram as primeiras clonagens de genes em bactérias na década de 70. São as mesmas também todas as questões éticas e ambientais que cercam a liberação de organismos modificados geneticamente, os conhecidos transgênicos (mas agora incluindo também os organismos sintéticos).

Em suma, o impacto fica por aí. Não cabe abordar a questão de que o homem sabe criar vida ou que entenda como se faz uma célula. O que o grupo do doutor Craig Venter fez foi trocar um genoma de uma bactéria por outro (mesmo que sintético). Os fatores celulares epigenéticos continuam lá, o que garante a continuidade da vida na “célula sintética”. Para montar uma célula viva, os genes precisam ser expressos de foram sincronizada e harmônica. A vida é uma propriedade emergente e não pode ser resumida a uma coleção de genes. É como trocar o motor de um carro em movimento, certamente um feito importante, mas não nos diz nada a cerca de como se faz um carro andar.
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*Marcelo de Macêdo Brígido é professor do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília, graduado em Ciências Biológicas, mestre em Ciências Biológicas (Bioquímica) e doutor em Bioquímica, tendo preparado parte do trabalho experimental na Tufts University (Boston, EUA). Atualmente. Tem experiência na área de Bioquímica, com ênfase em Biologia Molecular,

A luta de classes está de volta à Europa

Cidadãos Europeus, Uni-vos!

A luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os atores sociais estão perplexos e paralisados. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular relativamente do capital ou o futuro é o fascismo. O artigo é de Boaventura de Sousa Santos

Boaventura de Sousa Santos

Os dados estão lançados, o jogo é claro e quanto mais tarde identificarmos as novas regras mais elevado será o custo para os cidadãos europeus. A luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os atores sociais estão perplexos e paralisados. Enquanto prática política, a luta de classes entre o trabalho e o capital nasceu na Europa e, depois de muitos anos de confrontação violenta, foi na Europa que ela foi travada com mais equilíbrio e onde deu frutos mais auspiciosos.

Os adversários verificaram que a institucionalização da luta seria mutuamente vantajosa: o capital consentiria em altos níveis de tributação e de intervenção do Estado em troca de não ver a sua prosperidade ameaçada; os trabalhadores conquistariam importantes direitos sociais em troca de desistirem de uma alternativa socialista. Assim surgiram a concertação social e seus mais invejáveis resultados: altos níveis de competitividade indexados a altos níveis de proteção social; o modelo social europeu e o Estado Providência; a possibilidade, sem precedentes na história, de os trabalhadores e suas famílias poderem fazer planos de futuro a médio prazo (educação dos filhos, compra de casa); a paz social; o continente com os mais baixos níveis de desigualdade social.

Todo este sistema está à beira do colapso e os resultados são imprevisíveis. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra: o acúmulo histórico das lutas sociais, de tantas e tão laboriosas negociações e de equilíbrios tão duramente obtidos, é lançado por terra com inaudita arrogância e a Espanha é mandada recuar décadas na sua história: reduzir drasticamente os salários, destruir o sistema de pensões, eliminar direitos trabalhistas (facilitar demissões, reduzir indenizações). A mesma receita será imposta a Portugal, como já foi à Grécia, e a outros países da Europa, muito para além da Europa do Sul.

A Europa está sendo vítima de uma OPA por parte do FMI, cozinhada pelos neoliberais que dominam a União Europeia, de Merkel a Barroso, escondidos atrás do FMI para não pagarem os custos políticos da devastação social. O senso comum neoliberal diz-nos que a culpa é da crise, que vivemos acima das nossas posses e que não há dinheiro para tanto bem-estar. Mas qualquer cidadão comum entende isto: se a FAO calcula que 30 bilhões de dólares seriam suficientes para resolver o problema da fome no mundo e os governos insistem em dizer que não há dinheiro para isso, como se explica que, de repente, tenham surgido 900 bilhões para salvar o sistema financeiro europeu?

A luta de classes está voltando sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho. O que fazer? Haverá resistência mas esta, para ser eficaz, tem de ter em conta dois fatos novos. Primeiro, a fragmentação do trabalho e a sociedade de consumo ditaram a crise dos sindicatos. Nunca os que trabalham trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como trabalhadores. A resistência terá nos sindicatos um pilar mas ele será bem frágil se a luta não for partilhada em pé de igualdade por movimentos de mulheres, ambientalistas, de consumidores, de direitos humanos, de imigrantes, contra o racismo, a xenofobia e a homofobia. A crise atinge todos porque todos são trabalhadores.

Segundo, não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou é europeia ou não existe. As lutas nacionais serão um alvo fácil dos que clamam pela governabilidade ao mesmo tempo que desgovernam. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular relativamente do capital financeiro ou o futuro é o fascismo e terá que ser combatido por todos os meios.
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Fonte: Carta Maior online, 02/06/2010

'Se não pode espalhar, está morto'


Em visita ao Brasil, Henry Jenkins, professor de Ciências Humanas e coordenador do Programa de Estudos de Mídia Comparada do prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT), se curva ao celular iPhone e ao computador tablet iPad, ambos da Apple. Mas, ao mesmo tempo, faz um alerta: “A minha preocupação é que a nossa comunicação migre para uma plataforma fechada”. Tido como uma referência quando o assunto é a comunicação em diferentes mídias, ele, autor do livro “Cultura da Convergência”, acredita que, como as empresa perderam o controle sobre seu conteúdo, elas não devem criar barreiras de acesso, limitando a informação.

Eis a entrevista.

Como o consumo de conteúdo está mudando com os celulares, como o iPhone?
Essas novas plataformas estão desempenhando papel fundamental na integração do fluxo de mídia em nossas vidas enquanto nos movemos ao longo do dia. A combinação de convergência e mobilidade é sedutora. Comprei um iPhone há um ano. Como tenho apenas um plano local (que funciona apenas nos EUA), tenho ficado perdido. Isso me fez perceber o quanto eu confio naquela ferramenta. Eu era cético de que poderia haver uma “caixa preta” que permite a convergência de mídia. Mas eu acho que não há apenas uma única “caixa preta” que satisfaça as necessidades de mídia de todos os consumidores. Nós temos que misturar e combinar os aparelhos.
O iPhone chegou perto; e do que eu vi do iPad, ele pode chegar ainda mais perto. Mas, na rede, o conteúdo, amador e o feito por empresas de mídia, pode ser bloqueado pela Apple ou por uma outra grande companhia.
É assim que eu me preocupo com a neutralidade da rede. A minha preocupação é que a nossa comunicação migre para uma plataforma fechada. Essas são as questões que precisamos confrontar assim como pensamos a forma que os produtos da Apple então contribuindo para o nosso ambiente de mídia.

Apesar de o conteúdo migrar para todas as plataformas, muitas empresas estão fechando o seu conteúdo. Essa é a tendência?
Nosso lema básico é “se não pode espalhar, está morto”. As empresas já perderam o controle sobre a circulação de seu conteúdo. O público pode fazer o que quiser com o que é produzido e feito.
As empresas podem processar, mas só vai fazer o público ficar mais unido e determinado. E o que as empresas têm de fazer, porém, é voltar para o jogo, envolver o público e facilitar o que eles querem. A essência é descobrir para onde o público está indo e, em seguida, gritar “siga me”. Não vejo como fazer isso com a plataforma fechada, embora eu entenda que se possa querer limitar a circulação de algum conteúdo premium.

Já é possível saber como o público reage com o conteúdo nas redes sociais?
Os consumidores são ativos de diferentes formas através de diferentes canais em torno de diferente conteúdos, mas ainda não há um perfil desses diferentes tipos de público. É evidente que a maioria de nós, de alguma forma, se diverte sendo “passiva”, consumindo conteúdo em vez de produzir. Mas há uma valorização maior de quem é participativo. O conteúdo do Twitter é valorizado porque vem de pessoas como nós porque podemos participar se quisermos. A cultura é diferente no mundo que conhecemos.
Nós podemos participar a qualquer momento (na rede), e escolher quando não fazer, mas, fora da rede, vivemos em uma cultura em que nem todas as vozes são ouvidas.

Mas como as empresas podem perceber isso?
As empresas devem estar atentas ao que os consumidores estão fazendo com o conteúdo de mídia e porquê. É preciso ficar atento ao uso ilegal do conteúdo, mas não para perseguir os piratas e sim identificar sites nos quais a oferta de conteúdo legal não chega.
Essas situações exigem respostas rápidas e flexíveis. Veja o que a ABC fez com o episódio final de Lost (a emissora liberou rapidamente a exibição do episódio em outros países para evitar que o público perdesse o interesse). Num mundo global, não se pode esperar um mês ou dois para transmitir o episódio final porque havia todas essas conversas na internet. As pessoas querem ter acesso ao material ao mesmo tempo em todo o mundo.
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A entrevista é de Bruno Rosa e publicada pelo jornal O Globo, 02-06--2010.

Fonte: IHU online, 02/06/2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

Americanos são assim há mais tempo do que se pensa



Todo mundo gosta de generalizar sobre os americanos, todos os 300 milhões. Mas provavelmente poucos podem fazer isso com a autoridade de Claude S. Fischer, professor de sociologia da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Em "Made in America", Fischer embarca em um projeto ambicioso: "descrever como a cultura e o caráter dos americanos mudaram ? ou não mudaram - ao longo da história", da era colonial até hoje.

O fato de ele fazer isso em menos de 250 páginas, e de uma maneira clara e divertida, é um feito formidável. Fischer reduz seu quadro de referências considerando as relações dos americanos com cinco aspectos básicos da vida: a segurança física, os bens materiais, os grupos sociais, os espaços públicos e a atitude mental. E conclui que a prosperidade permitiu aos americanos se tornarem mais americanos, com mais pessoas aspirando à prosperidade e à liberdade individual, neles incutidas social e culturalmente há mais de 300 anos.

A análise densa de Fischer sobre as mudanças sociais ganha vida nas histórias de pessoas comuns, extraídas de documentos históricos citados em publicações acadêmicas, livros e estudos. Criadas não são mais enviadas para asilo de pobres, como ocorria na Filadélfia em 1786. Garotos de 10 ou 11 anos não são mais tratados como Chauncey Jerome, um relojoeiro forçado a trabalhar longe de casa, em 1804, depois da morte do pai.

Mas o fascínio deste livro está em revelar quanta coisa ainda continua igual. Fischer observa que a ideia dos americanos viciados em crédito e vivendo além de suas possibilidades não é tão nova quanto podemos pensar. Paul Dudley, procurador-geral da colônia de Massachusetts, lamentava, no começo do século XVIII, "que as pessoas...exagerem nas circunstâncias, em suas compras, casas, despesas, roupas e no geral do padrão de vida".

De forma mais positiva, os americanos continuaram mostrando um entusiasmo por unir grupos - de suas igrejas à Elks Fraternity, e mais recentemente os clubes do livro e sites de discussões pela internet -, uma tendência que impressionou Alexis de Tocqueville, o pensador político francês, quando este visitou a América na década de 1830.

Isso, afirma Fischer, aponta não para o individualismo ao estilo John Wayne, popularmente visto como um atributo tipicamente americano, mas sim para a própria característica voluntarista dos americanos. Ao contrário dos europeus, cujas identidades grupais eram determinadas pelo parentesco ou pela religião, os americanos, dos primeiros colonizadores em diante, podiam escolher se definir pelos grupos de que participavam. Os primeiros colonos formulavam consensualmente suas próprias regras, contratos de assentamento e comprometimento com grupos religiosos, e tinham o direito de deixar uma comunidade para entrar em outra. Esse voluntarismo americano aumentou de forma constante nos séculos seguintes.

Fischer também derruba certos mitos. Mais americanos vão hoje à igreja do que no século XVIII. Os níveis de comparecimento às urnas, em torno de 50%, podem estar abaixo dos picos registrados nas décadas de 1880 e 1890, mas permanecem em grande parte inalterados desde o princípio do século XX. Em resumo, o americano moderno é mais seguro, tanto fisica como financeiramente; as mulheres têm uma probabilidade menor de serem agredidas nas ruas e os homens uma probabilidade menor de se envolverem em brigas de bar do que seus antepassados.

Mas no geral, conclui Fischer, os americanos são mais felizes por serem mais americanos: "Não fosse pelas ansiedades que acompanham a liberdade que as pessoas têm de serem o que quiserem, as contas da felicidade teriam detectado um contentamento crescente."

"Made in America: A Social History of American Culture and Character"

Claude S. Fischer. University of Chicago Press. 528 págs., US$ 35
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Reportagem :Jonathan Birchall, Financial TimesFonte: http://www.valoronline.com.br/?impresso/investimentos/91/6299045/americanos-sao-assim-ha-mais-tempo-do-que-se-pensa 

Pegue uma cebola

RUBEM ALVES*
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Pablo Neruda, olhando para uma cebola,
escreveu: "Rosa de água com escamas de cristal..."

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PEGUE UMA cebola e corte no meio. Então olhe bem para ela com olhos de criança. Se você não sabe o que é o olhar de uma criança, leia o poeta Alberto Caeiro para aprender...

Uma paciente minha, dos tempos em que eu exercia a psicanálise, olhou com olhos de criança para uma cebola cortada ao meio e ficou tão espantada com o que viu que pensou que estava ficando louca.

Uma cebola cortada é mesmo um espanto. Pablo Neruda, olhando para uma cebola, escreveu: "Rosa de água com escamas de cristal...".

Agora, figure que uma cebola cortada é um modelo do mundo. Bem no centro, lá onde o primeiro anel é tão pequeno que não chegou a ser anel, ponha uma criança. Imagine que os anéis são os mundos que ela precisa conhecer para viver.

Mas não é possível comer o que está longe. Não é possível pular anéis. Só se pode comer o quarto anel depois que se comeu o primeiro, o segundo e o terceiro anéis.

A cebola cortada me sugeriu a forma como o primeiro currículo deveria ser organizado: como os anéis de uma cebola, na ordem certa. O que estaria contido no primeiro anel? A resposta é fácil: o primeiro anel que abraça a criança é a sua casa.

Não fui ousado ao ponto de sugerir a construção de uma casa de tijolo e cimento. Mas é a imaginação que faz o que não existe existir! Pensei que a casa onde uma criança mora, o primeiro anel da sua cebola, é um universo imenso, cheio de provocações ao conhecimento.

Primeiro, a casa como objeto matemático: ângulos, triângulos, linhas horizontais, verticais e paralelas, proporções e simetrias.

Depois, como objeto da física: a composição de forças no travamento do telhado, o prumo, o nível, as caixas de ferramentas, o martelo, o serrote, a pua, a física dos materiais, a madeira, o vidro, a cerâmica, o plástico, a eletricidade que esquenta e que esfria, a eletricidade que faz girar, que ilumina e produz música.

Esse laboratório de química chamado cozinha: o fogo, os alimentos, os temperos.

O mundo das coisas vivas: as baratas, as traças, os tatuzinhos, os piolhos, os pássaros, as aranhas, os cachorros, os gatos, os peixes, os pernilongos, os mosquitos da dengue, os caramujos.

O mundo das doenças e da saúde. Os primeiros-socorros. O lixo, as privadas... Ouse imaginar quantas toneladas de cocô por ano os humanos colocam na nossa Terra...

E, ao tomar o seu branco e puro leitinho, imagine quantas toneladas de bosta de vaca e quantos metros cúbicos de gases fétidos são lançados na atmosfera diariamente pelos bovinos inocentes.

O mundo da cultura: as revistas, os livros, a televisão, o jardim, os quadros.

Gostaria de conhecer a casa em que moro, mas não conheço. Aperto uma infinidade de botões que fazem as coisas acontecerem, mas não sei por que elas acontecem, e, quando não acontecem, fico perdido e tenho de chamar um técnico.

Pensei que as crianças gostariam da ideia assim como eu gostei. Aprendendo sobre a casa aprendemos sobre o mundo todo. Pois o mundo todo é a grande casa em que moramos, o último anel da cebola...
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* Educador. Escritor.
Fonte: Folha online, 01/06/2010