domingo, 6 de junho de 2010

''Somos parte de uma corrente que conecta a Terra ao resto da galáxia''

Chandra Wickramasinghe, diretor do Centro Cardiff de Astrobiologia

 Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

"A panspermia não é apenas possível, ela é inevitável", diz o matemático Chandra Wickramasinghe, diretor do Centro Cardiff de Astrobiologia, da Universidade Cardiff, na Grã-Bretanha. Um dos pioneiros da teoria, ele conversou com o Estado sobre vida no universo.

Quais são as evidências à favor da panspermia?
As evidências vêm da biologia, da astronomia e da geologia. Os dados biológicos mostram que o surgimento da vida numa poça d"água da Terra não é plausível. É necessário um sistema conectado de matéria que se estenda por grande parte do universo. Os dados astronômicos sobre moléculas orgânicas no espaço são melhor explicados como detritos de bactérias. Considerando que a transformação de não vida em vida é quase impossível, é muito mais provável que a vida tenha se espalhado de um único ponto onde se formou pela primeira vez do que tenha se formado várias vezes em diferentes lugares. Já a geologia nos diz que a primeira evidência de vida na Terra é de 3,8 bilhões a 4 bilhões de anos atrás, quando o planeta estava sendo pesadamente bombardeado por cometas.

Não há nada que impediria a ocorrência da panspermia? Algo que a ciência ainda não provou ser possível?
A panspermia seria inibida apenas se bactérias fossem tão frágeis que não conseguissem sobreviver à viagem espacial dentro de um sistema solar. Há uma fartura de evidências que contradizem isso. Os dados brasileiros são mais uma confirmação de que certas bactérias são resistentes à radiação cósmica.

Ainda que a panspermia seja possível, como podemos saber se ela ocorreu de fato aqui?
O fato de a vida ter começado 3,8 bilhões de anos atrás, numa época em que a Terra era bombardeada por cometas, é uma indicação forte de que cometas trouxeram vida para cá. Nesse caso, seria possível mostrar que cometas em órbita ainda carregam vida microbiana, e que micróbios continuam a ser introduzidos na Terra por cometas até os dias de hoje.

Onde, então, teria surgido a vida? Em outro ponto do sistema solar, da galáxia, do universo?
Acredito que a galáxia inteira é uma biosfera única, interconectada. Genes microbianos são continuamente intercambiados entre sistemas planetários. Assim, a evolução darwiniana ocorre em escala galáctica. Somos parte de uma corrente que conecta a vida na Terra aos lugares mais distantes da galáxia e também além dela. Nossos ancestrais genéticos ainda se escondem entre as estrelas.

''Não há razão pela qual a vida não começaria aqui''


A hipótese da panspermia é plausível, mas desnecessária para explicar a origem da vida na Terra, segundo o químico Richard Shapiro, da Universidade de Nova York (NYU). "Não há nenhuma razão pela qual a vida não poderia ter começado aqui mesmo", disse o pesquisador ao Estado.

Segundo ele, apesar das improbabilidades e das dificuldades de reproduzir esse processo em laboratório, não há nenhum fator químico ou biológico que proíba a formação espontânea de vida na natureza, via interação de átomos e moléculas. "Nós estamos aqui, então aconteceu. Em algum lugar, de alguma forma, moléculas orgânicas se juntaram para formar uma vida primitiva."

A partir daí, começa o capítulo mais familiar da história, em que a evolução transforma e diversifica essa vida primitiva em espécies cada vez mais complexas, dando origem a todos os seres vivos que já habitaram a Terra.

Muitas dúvidas, porém, permanecem sobre o capítulo inicial. Não apenas sobre o "como", mas também sobre o "onde" teria começado a vida. Há quem diga que foi na borda de chaminés submarinas, em que água fervente expelida do interior da terra se mistura com a água gélida do fundo do oceano. Há quem diga que foi em crateras vulcânicas ou em fendas no gelo. "Há muitos ambientes propícios para a formação da vida."

Para confirmar a hipótese da panspermia, diz Shapiro, seria preciso achar micróbios iguais aos da Terra congelados em cometas, meteoros ou outro planeta do sistema solar. /H.E.

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Fonte: Estadão online - Cad. Vida - 06/06/2010

Estudo brasileiro reforça hipótese de que vida na Terra veio do espaço

Pesquisa mostra como bactérias poderiam resistir
com facilidade a uma viagem interplanetária,
agarradas a micrometeoritos
Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Quantos escudos protetores você precisaria para sobreviver a uma viagem interplanetária de milhões de anos, agarrado a um pedaço de rocha, congelado, sem água nem oxigênio e bombardeado incessantemente por radiação ultravioleta? Se você é uma bactéria da espécie Deinococcus radiodurans, uma superfície rugosa e uma camada de poeira já seriam suficientes. É o que indica o primeiro estudo experimental de astrobiologia feito por cientistas brasileiros.

Os resultados, publicados na última edição da revista científica Planetary and Space Science, dão suporte à teoria da panspermia, segundo a qual a vida pode não ter se originado na Terra, mas em outro ponto do universo, e caído aqui já pronta, trazida por um cometa, meteorito ou coisa parecida. Para isso, uma forma de vida primordial - representada nos experimentos por bactérias - precisaria sobreviver às intempéries do espaço por milhares ou até milhões de anos, dormente, para então renascer na superfície de algum planeta amigável. Como a Terra.

Por mais difícil que isso possa parecer, vários experimentos realizados nos últimos anos demonstram que determinadas bactérias, em determinadas condições, poderiam sobreviver a uma aventura espacial dessa natureza. A isso soma-se, agora, o trabalho do biólogo brasileiro Ivan Gláucio Paulino-Lima, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele submeteu colônias de Deinococcus radiodurans a condições similares às encontradas no espaço e comprovou que elas sobrevivem, com relativa facilidade, a doses altíssimas de radiação.

"Uma mínima proteção contra raios ultravioleta é suficiente para aumentar significativamente a sobrevivência desses microrganismos", afirma Lima, que fez o trabalho para sua tese de doutorado. "Do ponto de vista da biologia, os resultados não são tão extraordinários. Colocados num contexto astronômico, porém, as implicações tornam-se importantíssimas."

A mais importante delas é que microrganismos primitivos resistentes, semelhantes à Deinococcus radiodurans, poderiam, sim, sobreviver a uma viagem interplanetária, presos a grãos de poeira ou rocha (micrometeoritos). A simulação foi feita utilizando o acelerador de partículas do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas, capaz de produzir feixes contínuos de radiação em vários comprimentos de onda e diferentes intensidades.

As bactérias foram colocadas sobre uma fita de carbono, cuja superfície rugosa forma uma série de "caverninhas" microscópicas nas quais as bactérias podiam se esconder da radiação - algo bem semelhante à superfície de um micrometeorito, segundo os pesquisadores. Associado a isso, bastou uma camada de poeira, matéria orgânica ou um leve empilhamento de células para que as bactérias mais abaixo sobrevivessem.

No teste mais rigoroso, as bactérias foram expostas a 16 horas contínuas de radiação ultravioleta de vácuo, numa dose equivalente ao que elas receberiam ao longo de 1 milhão de anos viajando no espaço. "É uma radiação de altíssima energia, muito mais forte do que os raios ultravioleta que chegam à superfície da Terra", aponta a pesquisadora Claudia Lage, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, que orientou o trabalho de Lima na UFRJ. A atmosfera terrestre filtra os comprimentos de onda mais nocivos da radiação solar. Caso contrário, a superfície do planeta seria esterilizada.

Em média, só 2% das bactérias sobreviveram às sessões de radiação. Parece pouco, mas numa amostra de 100 mil células, isso significa 2 mil bactérias. Mais do que suficiente para inseminar um planeta, como gostam de dizer os astrobiólogos. "É praticamente uma invasão alienígena", compara Claudia.

Na surdina. Uma invasão tão silenciosa que passaria facilmente despercebida mesmo nos dias de hoje. Além de sobreviver às intempéries do espaço, para desembarcar aqui, os micróbios extraterrestres precisariam sobreviver à entrada na atmosfera.

Em 2003, uma rachadura no escudo protetor do ônibus espacial Columbia foi suficiente para destruir completamente a nave, matando seus sete tripulantes. Da mesma forma, o calor criado pelo atrito com o ar seria mais do que suficiente para pulverizar qualquer organismo preso à superfície de um meteoro ou outro meio de transporte espacial.

Por isso, os pesquisadores especulam que as "invasão" teria ocorrido por meio de micrometeoritos - fragmentos microscópicos de rocha -, grandes o suficiente para transportar bactérias, mas pequenos o suficiente para passar pela atmosfera sem se aquecer. Estudos feitos na Antártida indicam que até 10 mil toneladas de micrometeoritos caem anualmente sobre a Terra, segundo o astrônomo Eduardo Janot Pacheco, do Instituto de Astronomia (IAG) da Universidade de São Paulo, que também assina o estudo. "Formas de vida alienígenas podem estar caindo sobre o planeta agora mesmo", especula Janot.

As evidências fósseis mais antigas de vida microbiana no planeta datam de 2,5 bilhões de anos, segundo Claudia. "O planeta já era perfeitamente habitável naquela idade", diz ela, caso algum microrganismo alienígena tenha mesmo desembarcado por aqui naquele momento.

Talvez a própria Deinococcus radiodurans - que seria, neste caso, o ancestral comum de todas as formas de vida na Terra -, ou algo parecido com ela.

Conan, a bactéria. A Deinococcus radiodurans foi selecionada para o estudo porque, como diz seu nome, é uma espécie naturalmente resistente à radiação extrema. A razão evolutiva para isso, ninguém sabe, pois ela aguenta doses muito mais elevadas do que se registra em qualquer ambiente da Terra. E também é resistente à desidratação - outra características necessária para sobrevivência no espaço.

É encontrada em todo lugar, desde desertos até comidas enlatadas. Já apareceu no Guiness Book como "a bactéria mais durona do planeta", e às vezes atende pelo apelido de Conan. "Ainda bem que não é uma espécie patogênica, senão estaríamos em apuros", conclui Janot.
PARA ENTENDER

A busca pela origem da vida

Evidências genéticas associadas à teoria da evolução (em especial, o fato de que todos os seres vivos têm DNA), indicam que todas as espécies do planeta originaram-se de um ancestral comum, bilhões de anos atrás. Essa forma de vida primordial seria um organismo extremamente simples - muito mais simples do que uma bactéria. Mas como ela se formou? Ninguém sabe. Estudos mostram que algumas moléculas essenciais das células podem se formar espontaneamente na natureza, mas ninguém foi capaz de produzir vida dessa forma até agora em laboratório. A teoria da panspermia não resolve esse problema - apenas desloca-o para outro lugar do universo.
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Fonte: Estadão - Caderno Vida - 06/06/2010

'O Brasil também não é santo

Droga que vem da Bolívia nem existiria se
 não fossem os produtos químicos brasileiros usados em seu preparo

                                                                                                                                                                                        Werther Santana/AE
Visão curta. Tanto Serra quanto Dilma veem a droga
de forma pouco abrangente
 Flávia Tavares

Wálter Maierovitch está cético. Não acredita que a discussão sobre drogas e narcotráfico levantada pelos pré-candidatos à Presidência seja abrangente. Por um lado, critica Dilma Rousseff por tratar a gravíssima epidemia de crack no Brasil de forma individualizada, transformada em problema do usuário. Por outro, acusa José Serra de hipocrisia ao apontar o governo boliviano como conivente com o tráfico; afinal, sem os insumos químicos brasileiros, o cloridrato de cocaína vindo da Bolívia sequer existiria. Nenhum deles compreende que a droga seja uma questão global.
"O uso político do debate sobre drogas é canalha", dispara o jurista, ex-secretário nacional antidrogas e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais. É canalha, explica, porque é efetivo na conquista de votos, já que a população está cada vez mais sensível ao tema. "Há 20 anos, os drogados eram os vizinhos. Hoje, o problema está dentro de casa."

Geoproblemas
"Os pré-candidatos não enxergam que o problema das drogas tem inúmeras multiplicações. É preciso conhecer sua geopolítica, geoestratégia e geoeconomia. Eles não conhecem isso e ficam em uma conversa pontual. Dilma fala do crack e Serra, da Bolívia, e só confundem o eleitor. O problema hoje é que há Estados com uma economia, um PIB, dependente das drogas. A Bolívia é um deles, mas isso não quer dizer que os governantes sejam narcotraficantes ou façam vista grossa.

Questão de química
"O que fazer com a Bolívia, a Colômbia, o Peru, o Equador, todos países dependentes da droga? Há 25 anos, fotos de satélite mostram que a área de cultivo da folha de coca se desloca, mas permanece do mesmo tamanho - mesmo depois do Plano Colômbia. Isso quer dizer que não há crescimento da produção, apenas deslocamento. No governo Evo Morales, foi aumentado o tamanho da área de produção para cada cultivador individual, e assim, a oferta de folhas de coca no mercado. O problema não está com os que compram a folha para mascar, por conta da tradição milenar, mas com os que compram para fazer pasta básica. Eles precisam de insumos químicos e nenhum desses países tem indústria química. E importam 100% dos insumos.

Consumidor e fornecedor
"As organizações criminosas usam o Brasil como dupla mão. O Brasil é o lugar de consumo, 80% da produção boliviana é consumida aqui. Ao mesmo tempo, fornecemos os insumos químicos. Não somos santos. Como é feito no Brasil, onde está a maior indústria química da América Latina, o controle desses insumos? Essa indústria é de fácil fiscalização, está no eixo Rio-São Paulo, mas não há controle algum. Quando era secretário nacional antidrogas, fiz com o secretário de Justiça de São Paulo, Belisário dos Santos, um levantamento na Junta Comercial. Há empresas que comercializam insumos químicos, mas não têm endereço.

A salvação do narcotráfico
"Nenhum tráfico de cloridrato de cocaína dos países andinos sobrevive sem insumos químicos. Quando foi feito o Plano Colômbia, descobriu-se que os dois maiores fornecedores de insumos eram os EUA e Trinidad e Tobago, que nem indústria química tem. As operações eram triangulares, vinham de vários lugares. Em dezembro de 2009, o czar antidrogas da ONU, Antonio Maria Costa, deu uma entrevista ao Observer em que admitia que o sistema de compensações entre os maiores bancos do mundo foi socorrido pelo dinheiro das drogas durante a crise. Ele está falando de US$ 300 bilhões por ano. Dá para alguém apontar o dedo sem fazer um mea-culpa?

Peso eleitoral
"A discussão colocada pelos candidatos é míope. Só que ela ecoa no eleitor, porque há 20 anos, quando falávamos de drogas, pensávamos no vizinho. Hoje, o problema está dentro de casa. Então, o uso político desse assunto é canalha, é de busca de culpados. Se você diz que não haveria oferta se não houvesse consumo, também pode dizer que não haveria consumo sem oferta. E poderia incluir que não haveria drogas sintéticas ou elaboradas se não houvesse insumos químicos. Então, o que você faz? Fecha a indústria química brasileira?

A culpa dos Estados
"No Brasil, há esse discurso enganoso de que as fronteiras do País são de impossível fiscalização. Ora, um narcotraficante não sai do nada para lugar nenhum. Ele precisa de uma rota com banco, transporte, estradas. Que tal controlar a movimentação de bancos nas fronteiras? O que o Brasil faz? E o que o mundo faz para resolver esse problema? Os Estados não fazem um esforço para mudar porque há necessidade de unanimidade para se conseguir isso.

Futuro sintético
"O problema do Brasil não será o cloridrato de cocaína da Bolívia no futuro. Serão as drogas sintéticas. Trazer a cocaína de outros países é caro. A droga sintética pode ser feita aqui. Ela vai chegar a um preço baixo o suficiente para se popularizar. E com um risco adicional: as impurezas das drogas feitas no fundo de quintal, com dosagens erradas. Haverá um problema igual ao que aconteceu na Europa dois anos atrás."
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Fonte: Estadão online, 06/06/2010

Os números e o que eles não dizem

Pesquisa de opinião é cheia de armadilhas:
por exemplo, entre gente simples,
 ser de direita pode ser entendido como 'ser direito'

Lula e o governador Sergio Cabral comemoram um gol na
quadra do Complexo Esportivo :popularidade nem sempre é carisma.

José de Souza Martins*

A concepção de que se deve ao carisma de Lula o crescimento das opções em favor da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, no confronto com José Serra, do PSDB, é explicação pobre e insuficiente. Lula tem popularidade e não carisma. Carisma não se transfere, pondera Max Weber, em sua análise dos tipos de dominação. É um atributo pessoal e histórico de que pouquíssimos são dotados. Na história política do Brasil, apenas dois governantes foram dotados de carisma: o imperador dom Pedro II e o presidente Getúlio Vargas. Ambos assumiram impessoalidade do poder e governaram conscientes do mandato da história, personificando acima dos interesses pessoais e partidários o destino do País.

Carisma, portanto, é dom que se afirma até mesmo acima da impopularidade. Popularidade nem sempre é indício de carisma, do mesmo modo que a capacidade de induzir aplausos nem sempre é indício de competência. É nessa perspectiva que se impõe a compreensão do que representam 70% de apreciação positiva de um presidente que não foi eleito com essa proporção de votos nem os teria hoje. Lula é admirado muito mais pelo que não fez e todos temiam que fizesse do que por aquilo que tem feito em seu governo. É aplaudido mais pelo fato de legar ao seu sucessor o mesmo Brasil do antecessor do que por legar a quem vier depois dele um Brasil diferente.

Pesquisa de opinião pública tem armadilhas de linguagem, que não raro geram respostas diferentes das perguntas feitas. Em pesquisa recente, mais da metade dos que optam por Serra se disse de direita. Para pessoas simples, como tenho verificado, é de direita quem é direito, sem conteúdos ideológicos. Essa afirmação deveria ser interpretada à luz de que, desde muito antes de Lula chegar à Presidência, o PT trabalhou e difundiu intensamente a concepção, infundada aliás, de que o PT e Lula eram de esquerda e o PSDB e seus aliados eram de direita. Na armadilha do conceito, muita gente se entende como de direita porque discorda do PT e está descontente com seu governo. Do mesmo modo que Lula, temendo a identificação de seu governo com o radicalismo de esquerda, tem afirmado que não é de esquerda, é apenas um sindicalista. Durante anos os constituintes do PT, apesar de sua origem em grupos conservadores, como os religiosos, e de direita, como o sindicalismo corporativo, esforçaram-se para fazê-lo aceito como partido de esquerda, que só o era em face do regime militar, claramente a sua direita.

A popularidade eleitoral de Dilma, portanto, tem outra explicação. Originária dos bastidores do governo Lula, completamente desconhecida, não tinha como ascender eleitoralmente em tão curto prazo se uma poderosa força externa a sua biografia não viesse em seu socorro. Foi esse o meio de "fabricá-la" como candidata e dar-lhe a visibilidade que tem como sombra de Lula. Dilma foi recurso para preencher o vazio em que o mensalão lançara o PT, estigmatizando seus nomes mais prováveis à sucessão presidencial. Muito antes da eleição de Lula, o PT já havia criado uma poderosa máquina de poder, baseada na lealdade religiosa dos grupos de base que o esvaziaram como partido para transformá-lo em seita. No poder, esse exército de adeptos recrutados nas igrejas, nos sindicatos e nas universidades tratou de montar a máquina da permanência e do continuísmo, a estratégia da estagnação política, econômica e social. É o retrocesso desse autoritarismo e não o carisma de Lula que move para cima a candidata do lulismo.
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*JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP E AUTOR DE A APARIÇÃO DO DEMÔNIO NA FÁBRICA (EDITORA 34)
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,os-numeros-e-o-que-eles-nao-dizem,562260,0.htm

A alma é uma bola

Rubem Alves*
A esfera é o sólido perfeito. É o único que a natureza faz natural e perfeitamente com a ajuda de uma criança que sopra bolhas de sabão... Não sei de nenhum poeta que tenha escrito um poema dedicado ao cubo ou ao cone. Mas sei de filósofos e poetas que escreveram sobre essas esferas diáfanas e transparentes. Vejam a sensibilidade de Nietzsche: “Quanto a mim, gosto da vida: borboletas e bolhas de sabão e todas as coisas que, entre os homens, se assemelhem a elas, parecem conhecer mais sobre a felicidade. Vendo flutuar essas almas leves, tolas, moveis, pequenas – isso seduz Zaratustra a lágrimas e canções.” E Alberto Caeiro: “As bolas de sabão que esta criança se entretém a largar de uma palhinha são translucidamente toda uma filosofia...”

A esfera foi objeto de espanto filosófico. Pensavam os primeiros filósofos que o universo é formado por esferas de cristal concêntricas girantes onde estão as estrelas. Deus é um geômetra. Como poderia ter ele criado o universo a não ser a partir da figura geométrica perfeita? O espantoso é que essas esferas, no seu giro, produzem música... Se o universo tivesse sido construído à semelhança do cubo ele seria cheio de planos, linhas retas e ângulos. Na esfera não há ângulos. E a expressão musical dessa perfeição é o canto gregoriano onde os encadeamentos estão todos em equilíbrio.

A se acreditar no místico Jacob Boehme, que dizia que a única coisa que Deus faz é brincar, compreende-se que a esfera, objeto geométrico perfeito, seja o que mais se presta a ser transformado em brinquedo. Bolhas de sabão, bolas de gude, de boliche, de bocha, bilhar, sinuca, basquete, bexigas coloridas, vôlei, beisebol, futebol... Lembrei-me de uma tela em que o Menino Jesus, no colo de sua mãe, tem nas mãos uma esfera: o Deus-criança brinca com o mundo! Que jogo ele jogará?

As crianças, em virtude de sua mania de ir andando e chutando o que encontram pelo caminho, logo perceberam que os melhores objetos que se prestam ao chute são os objetos esféricos. É melhor chutar uma laranja que um galho. É melhor brincar de jogar laranjas que brincar de jogar pedras. Depois de grandes as crianças continuaram. E foi assim, sob a inspiração da esfera, que surgiu esse jogo chamado futebol, cerca de 3.000 anos antes de Cristo, na China.

Era um jogo de guerreiros. Na ausência de informações históricas o escritor pode valer-se de sua imaginação para reconstituir o que acontecia. Tratava-se de celebrações religiosas, oferecidas aos deuses pelas vitórias contra os exércitos inimigos. Minha imaginação vê a cena. De um lado, o time dos Tigres. Os nomes tinham de ser ferozes. Do outro, os Águias. O estádio cheio, os torcedores aos gritos como hoje, os reis, os sacerdotes, os militares. Lá estão os jogadores no campo, à espera do início. O juiz faz soar o gongo. Como o apito ainda não havia sido inventado e o gongo sabidamente é um instrumento da China, o juiz, ao invés de ter um apito na boca, tinha um mini-gongo nas mãos que fazia soar sempre que a ocasião aparecesse. Estabelecia-se um silêncio absoluto. Aí então ele dizia em alta voz: “Boleiro, produza uma bola”. A função de produção de bolas em campo não mais existe posto que as bolas agora são feitas em fábricas. O boleiro se encontrava assentado num banco ao lado de dez homens. Esses homens eram prisioneiros de guerra que seriam homenageados pela sua bravura. Até mesmo os inimigos merecem respeito. O boleiro, que trazia à cintura uma espada reluzente, adiantava-se com um dos prisioneiros, conduzia-o até o meio do campo. Chegado ao meio do campo, o prisioneiro se curvava em ângulo reto e o boleiro, com um golpe perfeito, cortava a sua cabeça que caia no chão. O público explodia em urros. Aí quatro sacerdotes tomavam o corpo sem cabeça e o conduziam a uma pira que ardia e ali o colocavam como holocausto, oferenda aos deuses. Que gloriosa maneira de morrer! Por aquele ato sagrado o prisioneiro era libertado das correntes que o prendiam e transformado num pássaro que ascendia aos céus sob a forma de fumaça. Terminados os preliminares sagrados, iniciava-se o jogo. Chutes para lá, chutes para cá, a cabeça do guerreiro tinha pouca duração. O juiz fazia soar o seu gongo, chamava o boleiro, e tudo se repetia. Os jogos não eram medidos por tempo, posto que os cronômetros ainda não haviam sido inventados. Os jogos eram medidos por número de cabeças a serem cortadas. Enquanto todas as cabeças ao fossem cortadas o jogo não terminava.

Aí veio um tempo de paz. Cessaram as campanhas bélicas. Houve escassez de cabeças. O jogo experimentou um lamentável declínio, com conseqüências tristes para a alma do povo. A guerra faz bem à alma. A guerra faz emergir os instintos mais fortes que moram nos homens. Um torcedor possuído é um guerreiro! O povo ficou triste. Imaginem essa idéia louca, impossível: que, de repente, por um ato mágico demoníaco, desaparecessem todas as bolas! Desapareceriam também os times de futebol. Desapareceriam os campeonatos. Sobre o que os homens iriam falar? Que paixão os faria vibrar? Durante a semana não haveria o que esperar! Pois não é a espera do próximo jogo que dá sentido à vida? Seria o tédio.

Esgotadas as cabeças decapitadas a solução salvação veio de um menino. Ele estava num matadouro vendo um boi sendo estripado. Notou a sua bexiga, abandonada no chão. Curioso, aproximou-se. Era um bolsa vazia. Ele pegou a bexiga, lavou-a, e encheu-a de ar. Percebeu então que ela era um brinquedo divertido, boa para ser chutada, pulava. E foi assim que o objeto lúdico do jogo foi transferido das cabeças cortadas para a bexiga dos bois, graças a um menino! A bexiga bovina cheia de ar é o ancestral mais antigo da atual bola de futebol. Assim, ao ver a bola rolando no campo, deixe-se levar pela fantasia. O juiz toca o gongo. “Boleiro, produza uma bola...” E assim se inicia o jogo mais apaixonante do mundo!
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*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 06/07/2010

sábado, 5 de junho de 2010

Sexo, saúde e Copa

Joaquim Zailton Bueno Motta*


No mês passado, declarações do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que apontaram o valor eutrófico do sexo, repercutiram pela mídia de modo exponencial.

Tivesse ele sugerido um chá de certa planta, uma trilha em determinado morro, ninguém se daria ao trabalho de espalhar o comentário. Como foi uma apologia do sexo, surgiu essa chiadeira geral.

Todos sabemos dos benefícios do sexo, mas ele ainda é, por mais incrível que pareça, um tabu. Há ranços moralistas persistentes na nossa sociedade que o mantêm mitificado como interdição supersticiosa.

O treinador da seleção argentina de futebol, Diego Maradona, também atiçou súcubos e íncubos comentando que a prática sexual seria livre na concentração dos seus convocados.

Muitas reações e especulações polêmicas espocaram nos meios de comunicação e o clima competitivo e a política de valorização da Copa Mundial se ampliou.

Aliás, esta disputa que começa agora, dia 11, está extremamente destacada na mídia. Parece que não há divulgação publicitária que consiga promover seu produto sem apelar para o futebol.

Isso tornou aquela que é divulgada como a mais importante competição esportiva do mundo um pouco desgastada e entediante. Para a expectativa brasileira de alcançar o sexto título mundial, está chegando ao “hexagero”...

Veteranos de outras épocas, cujo sucesso futebolístico se acompanhava de certa lubricidade, foram ressuscitados. Romário e Renato Gaúcho acirraram mais os ânimos com declarações em defesa do sexo antes dos jogos.

Falando de iniciativas antigas que enaltecem a sexualidade, vale lembrar as criações de um britânico do século 18.

James Graham foi uma das figuras mais excêntricas da prática médica. Ele nasceu em Edimburgo, em 1745, onde ele começou a exercer a medicina, embora haja dúvidas se ele era oficialmente qualificado para tal. Em torno de 1780, ele se mudou para Londres, onde se estabeleceu em dependência de requintado edifício da época, o Adelphi Terrace. Ali, ele apresentava o seu ambiente como sendo o “Templo da Saúde”, onde oferecia alguns artefatos que mais pareciam atrações circenses ou de parque de diversões. Havia o “trono magnético”, a “banheira elétrica”, o “banho de terra” e até um elixir da vida.

Para culminar, Graham inventou o insólito “leito celestial”, que se tornou um dos principais atrativos da capital inglesa. Era um imponente móvel apoiado em pilastras de vidro, com uma armação estilo dossel cobrindo-o. Sobre ele, uma mulher atraente, sugerida como uma deusa da saúde nua e cheia de vida. Consta que uma das moças que participaram do procedimento foi a socialite londrina Emma Lyon, depois Lady Hamilton, amante do reverenciado herói Lorde Nelson.

Os visitantes masculinos eram convidados a repousar no leito celestial por períodos que custavam de cinquenta a cem libras, com a promessa de que o tratamento produziria a cura da impotência.

Essa história foi uma das inspirações do escritor Irving Wallace para escrever o romance A Cama Celestial, obra sobre o trabalho polêmico dos suplentes sexuais, pessoas treinadas para ajudarem pacientes com transtornos do erotismo.

Graham foi desprezado como charlatão pela hierarquia médica daquele tempo. Algumas de suas ideias não eram realmente ortodoxas, mas houve aplicações e engenhocas que ganharam crédito ao longo do tempo. Os banhos de lama, a hipnose, o uso de impulsos elétricos e certas propostas dietéticas são agora tratamentos comuns.

E o sexo revela-se terapêutico para si mesmo e para a saúde como um todo. Para se aprimorar como parceiro, a pessoa pratica os contatos sexuais, as técnicas de relaxamento, desinibição e massagens. Para a melhoria geral, é um magnífico exercício que condensa a atividade física e o prazer erótico.

Para os atletas, desde que não associado com drogas, álcool ou desmandos orgíacos, não só é recomendável, mas indispensável.
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*Joaquim Zailton Bueno Motta é psiquiatra e sexólogo.
Fonte: Correio Popular online, 05/06/2010

Leonardo Boff - Entrevista

"O Papa deveria renunciar"
Teólogo diz que Bento XVI infantiliza os fiéis,
é complacente com os pedófilos e
fechou as portas para as outras religiões

Débora Crivellaro

CRISE
Para o ex-frei, a Igreja ainda funciona como na Idade Média


O brasileiro Leonardo Boff, 71 anos, e o alemão Joseph Ratzinger, 83, têm uma longa história em comum. Intelectuais de fôlego, respeitados fora dos muros da Igreja Católica, os teólogos se conhecem há mais de 40 anos, quando conviveram na universidade, em Munique, Alemanha. O atual pontífice já era um cultuado professor, admirado pelo jovem franciscano que frequentava como ouvinte suas conferências, enquanto preparava a tese de doutorado – que contou com a ajuda providencial do alemão para ser publicada. Tempos depois, os dois trabalharam juntos em uma prestigiosa revista de teologia.


"A Igreja Católica é mais que Bento XVI. É também o papa
João XXIII, é dom Helder Câmara, é a Irmã Dulce (foto)"

Durou pouco, pois as contendas ideológicas provocaram a saída de Ratzinger. Mas o encontro mais marcante aconteceu em 1985, quando ambos estavam, definitivamente, em trincheiras opostas, dentro da mesma instituição. Boff já era o grande mentor por trás da Teologia da Libertação, movimento que interpreta o Evangelho à luz das questões sociais. E Ratzinger já havia se tornado o temido cardeal que punia severamente quem se atrevesse a mudar, uma vírgula que fosse, a interpretação oficial da “Bíblia”. O embate terminou com o silêncio forçado do franciscano e sua posterior saída da ordem, em 1992. Vinte e cinco anos depois desse encontro, casado com Márcia Miranda, padrasto de seis filhos e autor de mais de 60 livros traduzidos para diversas línguas, Boff analisa a Igreja da qual nunca se afastou e seu líder máximo. Que ele conhece como poucos.
"O cristianismo (dos padres cantores, como Marcelo Rossi)
não pode funcionar como um ansiolítico que nos alivia"

Istoé - A Igreja Católica está em crise?
Leonardo Boff - A Igreja possui uma crise própria: até hoje ela não encontrou seu lugar no mundo moderno e no mundo globalizado. Suas estruturas são medievais. Ela é a única monarquia absolutista do mundo, concentrando o poder em pouquíssimas mãos. Nesse sentido ela está em contradição com o sonho originário de Jesus que foi o de criar uma comunidade fraterna de iguais e sem nenhuma discriminação.

Istoé - Mas a Igreja Católica pode se modernizar sem perder a essência de seus princípios e, consequentemente, sua identidade?
Leonardo Boff - A Igreja se engessou em suas doutrinas, em suas normas, em seus ritos que poucos entendem e num direito canônico escrito para legitimar desigualdades e conservadorismos. Os homens de hoje têm o direito de receber a mensagem de Jesus na linguagem de nossa cultura moderna, coisa que a Igreja não faz. Ela coloca sob suspeita e até persegue quem tenta fazer.

Istoé - O que o sr. acha que a Igreja Católica deveria fazer para sair dessa crise?
Leonardo Boff - Ela deveria ser menos arrogante, deixando de se imaginar a exclusiva portadora dos meios de salvação, a única verdadeira. Ela se diz perita em humanidade, mas maltrata a muitos desta humanidade internamente e ofende a vários direitos humanos. Por isso que até hoje não subscreveu a Carta dos Direitos Humanos da ONU, sob o pretexto de que ela não faz nenhuma referência a Deus, e retirou seu apoio ao Unicef, porque ele aconselha o uso de preservativos para combater a Aids e fazer o planejamento familiar. Uma igreja que afirma constantemente que fora dela não há salvação, ela mesma precisa de salvação.

Istoé - O sr. acha que os escândalos de pedofilia contribuem para a debandada católica, com fiéis migrando, no Brasil, principalmente, para as igrejas evangélicas?
Leonardo Boff - Muitos cristãos não aceitam ser infantilizados pela Igreja como se nada soubessem e tivessem que receber a comida na boca. Estes estão emigrando em massa. Mas é uma emigração interna. Continuam se sentindo dentro da Igreja, mas não identificados com as doutrinas deste papa, nem com o estilo com o qual ela se apresenta no mundo, com hábitos e símbolos palacianos que os tornam simplesmente ridículos. As igrejas evangélicas crescem porque a católica deixou um espaço vazio.

Istoé - Muitos vaticanistas dizem que Bento XVI pensa em termos de séculos e não está preocupado em conquistar mais fiéis. O sr. concorda?
Leonardo Boff - Bento XVI é fiel a uma esdrúxula teologia que sempre defendeu e da qual eu ainda como estudante e ouvinte dele discordava. Ele é um especialista em Santo Agostinho, grande teólogo. Santo Agostinho partia do fato de que a humanidade é uma “massa condenada” pelo pecado original e pelos demais pecados. Cristo a redimiu. Criou um oásis onde só há salvação e graça. Esse oásis é a Igreja. Ocorre que esse oásis é uma fantasia. Ele é tão contaminado como qualquer ambiente, haja vista os pedófilos e outros escândalos financeiros.

Istoé - Como o sr. avalia o pontificado de Bento XVI?
Leonardo Boff - Do ponto de vista da fé, este papa é um flagelo. Ele fechou a Igreja de tal forma sobre si mesma que rompeu com mais de 50 anos de diálogo ecumênico, vive criticando a cultura moderna, desestimula qualquer pensamento criativo, mantendo-o sob suspeita. Todo papa tem a missão imposta por Jesus de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”. Esta missão, a meu ver, não está sendo cumprida.

Istoé - Por quê?
Leonardo Boff - Bento XVI cometeu vários erros de governo com respeito aos muçulmanos, aos judeus, às mulheres e às religiões do mundo. Reintroduziu o latim nas missas em que se reza ainda pela conversão dos judeus, reconciliou-se com os mais duros seguidores de Lefebvre (Marcel Lefebvre arcebispo católico ultraconservador, que morreu em 1991), verdadeiros cismáticos. Enquanto trata a nós teólogos da libertação a bastonadas, trata os conservadores com mão de pelica. É um papa que não suscita entusiasmo. Mesmo assim, convivemos com ele, porque a Igreja é mais que Bento XVI. É também o papa João XXIII, é dom Helder Câmara, é a Irmã Dulce, a Irmã Doroty Stang, é dom Pedro Casaldáliga e tantos e tantas.

Istoé - O sr. acha que ele deveria renunciar?
Leonardo Boff - O papa, para o bem dele e da Igreja, deveria renunciar. Devemos exercer a compaixão: ele é um homem doente, velho, com achaques próprios da idade e com dificuldades de administração, pois é mais professor que pastor. Em razão disso, faria bem se fosse para um convento rezar sua missa em latim, cantar seu canto gregoriano que tanto aprecia, rezar pela humanidade sofredora, especialmente pelas vítimas da pedofilia, e se preparar para o grande encontro com o Senhor da Igreja e da história. E pedir misericórdia divina.

Istoé - Como foi a convivência dos srs. no mesmo ambiente acadêmico?
Leonardo Boff - Ouvi-o muitas vezes, pois era um apreciado conferencista. Teve um papel importante na publicação de minha tese doutoral, que, por seu tamanho – mais de 500 páginas –, encontrava dificuldades junto às editoras. Ele encontrou uma, arranjou-me boa parte do dinheiro para a impressão em forma de livro. Depois fomos colegas nas reuniões anuais da revista internacional “Concilium”. Mas ele se desentendeu com a linha da revista e criou uma outra, a “Communio”, em franca oposição à “Concilium”.

Istoé - Anos depois, em 1985, já na Congregação para a Doutrina da Fé, ele o puniu. Como foi esse encontro?
Leonardo Boff - Ele me fez sentar na cadeira onde sentou Galileo Galilei, no famoso edifício, ao lado do Vaticano, do Santo Ofício e da antiga Santa Inquisição. Foi meu “inquisidor”, interrogando-me por mais de três horas sobre o livro “Igreja: Carisma e Poder”, que me custou o “silêncio obsequioso”, a deposição de cátedra e a proibição de publicar qualquer coisa. Mas devo dizer que é uma pessoa finíssima, extremamente elegante na relação, mas determinado em suas opiniões. E muito, mas muito, tímido.

Istoé - O sr. é a favor da ordenação de mulheres pela Igreja Católica?
Leonardo Boff - Não há nenhuma doutrina ou dogma que impeça as mulheres de serem ordenadas e até de serem bispos. O patriarcalismo intrínseco à instituição, governada só por homens e celibatários, faz com que não se tenha apreço pelas mulheres nem se reconheça o imenso trabalho que fazem dentro da Igreja. E, no entanto, devemos reconhecer que as mulheres, nos evangelhos, nunca traíram Jesus, como fez Pedro, foram as primeiras testemunhas do fato maior para a fé cristã, que é a ressurreição, e também foram discípulas.

Istoé - O sr. também é a favor do fim da obrigatoriedade do celibato?
Leonardo Boff - O primeiro papa, Pedro, era casado. Aceito o celibato livremente assumido pelos que se propõem a servir às comunidades cristãs. Seria tão enriquecedor para a própria Igreja se houvesse, como há em outras igrejas, padres casados e padres celibatários. Mas o celibato desempenha uma função importante no estilo autoritário da instituição: ela pode dispor totalmente dos celibatários, sem laços com a família, transferi-los para onde quiser e ver-se livre de problemas de herança.

Istoé - O sr. acha que os casos de pedofilia cometidos por padres têm relação com a obrigatoriedade da castidade?
Leonardo Boff - Entre a pedofilia e o celibato há um denominador comum que é a ­sexualidade. A educação sexual que os candidatos ao sacerdócio recebem é carregada de suspeitas e distorções e é feita longe do contato com as mulheres. Hoje sabemos que o homem amadurece sob o olhar da mulher e vice-versa. Quando se tolhe um desses polos da equação, pode surgir o recalque, a sublimação e as eventuais distorções. A pedofilia é uma distorção de uma educação sexual mal realizada. Ademais, a pedofilia é um pecado e um delito.

Istoé - O sr. pode explicar melhor?
Leonardo Boff - A Igreja só via o pecado que podia ser perdoado, e tudo terminava aí. Não via as vítimas, que eram crianças e adolescentes que sofreram violência. Ela não via o delito que deve ser levado aos tribunais para ser julgado e receber a punição adequada. Este lado sempre foi mantido em sigilo, para não prejudicar a imagem da Igreja. Isso configura cumplicidade no crime. Graças a Deus, o papa agora acordou, se redimiu, reconheceu o delito e exige a denúncia dos pedófilos aos tribunais civis.

Istoé - Quando o sr. era frei franciscano, soube de casos de abuso sexual?
Leonardo Boff - Nunca soube de nada.

Istoé - O que o sr. acha da Renovação Carismática Católica?
Leonardo Boff - É um movimento forte, que trouxe muitos elementos positivos, pois tirou o monopólio dos padres. Agora o leigo fala e inventa orações, coisa que não ocorria. Deu certa leveza ao cristianismo, muito centrado na cruz e na paixão e menos na alegria e na celebração. Mas, a meu ver, ela ficou a meio caminho.

Istoé - Por quê?
Leonardo Boff - Não se pode pensar no cristianismo sem justiça social e preocupação com os pobres. Todo carismatismo corre o risco de alienação. Eles se perdem no louvor, no cantar e dançar.

Istoé - E como o sr. avalia os padres cantores, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo?
Leonardo Boff - Eles produzem um tipo de evangelização adequada ao que é dominante hoje, que é o mercado. Mas com as limitações que o mercado impõe, tenham eles consciência disso ou não. É sempre problemático, do ponto de vista teológico, transformar a mensagem cristã numa mercadoria de fácil consumo e de pacificação das consciências atribuladas. Noto que as grandes questões sociais estão ausentes em seus discursos e cânticos.

Istoé - Por quê?
Leonardo Boff - Eles falam sobre questões subjetivas. O cristianismo não pode funcionar como um ansiolítico que nos alivia, mas deve falar às consciências para que as pessoas tomem decisões que vão na direção do outro. Para mim, a mensagem cristã não significa buscar um porto seguro onde ancoramos para repousar. Mas é um chamado para irmos ao mar alto, para enfrentar as ondas perigosas. E não pedimos a Deus que nos livre das ondas, mas que nos dê força e coragem para enfrentá-las.

Istoé - O sr. ainda é católico?
Leonardo Boff - Sou católico apostólico franciscano. Acho que São Francisco foi o último cristão verdadeiro e talvez o primeiro depois do Único, que foi Jesus Cristo. O franciscanismo me inspira mais do que o romanismo porque o romano é apenas uma qualificação geográfica.
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Fonte: Revista ISTO É online - Entrevista N° Edição: 2116 -  28.Mai - 2010
http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/

Guerra contra as mulheres

SELVAGERIA SEXUAL

CLÁUDIO CÉSAR DUTRA DE SOUZA*

Documentário holandês mostra como estupro foi usado como arma no conflito do Congo

As cineastas holandesas Ilse e Femke van Velzen estrearam o seu novo documentário Weapon of War – Confessions of Rape in Congo (Arma de Guerra – Confissões de Estupro no Congo), no dia 26 de março, em Londres. Esse documentário dá sequência ao aclamado Fighting the Silence – Sexual Violence Against Women in Congo (Combatendo o Silêncio – Violência Sexual contra Mulheres no Congo), ambos inéditos no Brasil e que descrevem a brutal realidade dos estupros em massa perpetrados durante os conflitos armados que ocorrem com grande intensidade desde 1996 na República Democrática do Congo. Mais do que uma contingência de guerra, o estupro tornou-se uma tática militar para “desestabilização emocional do inimigo”, eufemismo que justifica as mais brutais humilhações e violências contra civis inocentes.

Se em Combatendo o Silêncio a narrativa se detém nos depoimentos das vítimas de violências sexuais – mulheres congolesas, incluindo crianças, idosas e até bebês –, Arma de Guerra desloca o olhar para o lado do estuprador, enfatizando as consequências psicológicas, políticas e sociais dos soldados que agiram de acordo com a ótica do estupro como arma de guerra, uns atormentados pela consciência de seus atos, outros as justificando como algo legítimo.

Conflitos armados acontecem há décadas por todo o território e ameaçam a frágil estrutura administrativa da ex-colônia belga. Segundo dados atualizados exibidos no documentário, o exército nacional, leal ao presidente Joseph Kabila (eleito em 2006, nas primeiras eleições gerais dos últimos 40 anos), possui por volta de 30 mil homens que tentam manter a ordem institucional contra um contingente de aproximadamente 50 mil rebeldes, divididos em pelo menos 60 grupos.

Embora os números sejam sempre aproximações, pois não existem atualmente dados confiáveis, estima-se que, desde 1996, mais de 150 mil mulheres e crianças tenham sido agredidas sexualmente. Algumas dessas vítimas foram assassinadas de forma cruel após os estupros, ou obrigadas a fazerem sexo com seus parentes e, em seguida, vê-los serem mortos. Além de toda a violência, assiste-se à proliferação dos casos de Aids e ao nascimento de crianças geradas pelo estupro, adicionando elementos extras nesse cenário de horror.

O estupro é um fato tristemente comum durante o avanço dos exércitos e relatos históricos revelam que, durante as duas grandes guerras mundiais, as mulheres dos territórios conquistados eram consideradas butins de guerra, logo, de livre uso pelos soldados triunfantes. Recentemente, o mundo ficou sabendo dos relatos de mulheres asiáticas mantidas pelos japoneses como escravas sexuais, chamadas cinicamente de “mulheres de conforto militar”, dentro da degradante lógica de que essa seria a “contribuição feminina aos esforços de guerra”. Em 1965, Jean-Paul Sartre irá valer-se da adaptação de uma peça teatral do grego Eurípedes, onde são descritos os horrores da Guerra de Troia, incluindo o estupro e o rapto de mulheres como butins de guerra, para fazer uma dura crítica às ações francesas durante a guerra da Argélia, que incluíam, igualmente, a violência sexual.

Mais de 20 séculos separam o ocorrido em Troia da guerra da Bósnia. Ainda assim, mais de 40 mil mulheres foram sistematicamente violentadas pelas forças sérvias com fins de “limpeza étnica”. Em menor escala, há evidências de que unidades bósnias também realizaram essa prática contra mulheres sérvias. Nos conflitos em Ruanda e no Sudão, também encontramos práticas de violência sexual que se tornam cada vez mais brutais e sofisticadas. Dispor sexualmente das mulheres do inimigo vencido já não seria mais uma sinistra comemoração de vitória, mas, sim, um evento minuciosamente planejado e executado com o fim de destruir por completo a resistência inimiga, sua honra e tudo o que de mais importante ele possui – sua mãe, sua mulher, seus filhos.

O documentário é parcialmente narrado pelo capitão Basima, militar outrora ligado ao ditador Joseph Mobutu (1965–1996) e agora leal ao presidente Kabila, que, após vivenciar os horrores da guerra, tendo ele mesmo sido um estuprador, torna-se um pastor religioso que percorre o país tentando convencer os rebeldes a deporem suas armas, cessarem a violência sexual e se juntarem ao exército oficial do Congo. Suas empreitadas são quase sempre malsucedidas, fruto da desconfiança que os rebeldes sentem em relação ao conceito de “nós, congoleses”. Em uma cena que revela a fragilidade da ideia de Estado-nação no Congo, um ex-rebelde questiona: “Nós, nós ou nós, vocês?” O capitão-pastor Basima também celebra cultos nos quais ex-soldados confessam as suas atrocidades e nos quais ele apela à conciliação e ao expurgo do passado através da esperança de um novo recomeço. Entretanto, o ato de falar e refletir acerca dos crimes de estupro nunca é tarefa fácil, fato explicitado quando entra em cena outro personagem do documentário que, arrependido de seus atos, sofre intensa angústia devido ao seu passado.

Para alguns combatentes, o estupro é uma arma indispensável de combate. Dois homens, protegidos por máscaras, reconhecem a sua validade enquanto ferramenta de negociação. O primeiro fala que, a partir da política generalizada de estupros, o governo passou a escutar as reivindicações de seu grupo e negociar. Já o segundo não mostra dúvidas ao afirmar que “o exército é disciplina e não compaixão. Ordens são ordens e se tiver que matar meu pai, minha irmã e minha mãe eu faço isso”. Caberia aqui recordar o entendimento de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal” ao encontrarmos indivíduos que agem dentro das regras do sistema a que pertencem, sem refletir sobre seus atos, apenas cumprindo as ordens que lhe são dadas. A tortura, a execução de seres humanos ou a prática de atos do “mal” não são racionalizadas em seu resultado final, desde que as ordens para executá-los advenham de estâncias superiores, como Hannah Arendt mostra em seu famoso livro Eichmann em Jerusalém.

Weapon of War, que vem colecionando premiações em todo o mundo, nos coloca em contato direto com a fragilidade de um contrato social que costuma ser rasgado em situações de guerra. Historicamente, a violência sexual sempre foi tratada de forma trivial, um “efeito colateral” inserido dentro de uma série de outras intercorrências da guerra. Em junho de 2008, a ONU finalmente reconheceu oficialmente que o estupro é uma “arma de guerra” e que, como tal, deve ser tratado pela comunidade das nações.
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*Psicólogo clínico, mestrando em sociologia na Universidade de Paris
Fonte: ZH online, 05/06/2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Estremecimento

Poeta premiado





Ronaldo Costa Fernandes



Eu tremo de um tremor

raro e estranho

minhas mãos como se minhas não fossem

Vem de dentro de mim,

mas é como se de fora viesse

e fosse uma máquina

que desregulasse as mãos.

Fizesse delas uma peça com defeito.

Uma roldana frouxa,

uma correia sem dentes,

mão independente com motor próprio.



Mas as mãos não são elas

Independentes como quero crer.

As mãos apenas repetem meus pensamentos

apenas reproduzem a mente independente

esse ente que quer ser corpo

e que dói dentro porque esta, sim,

é de fora que a fazem doer
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Por Conceição Freitas
*O maranhense-carioca-brasiliense Ronaldo Costa Fernandes ganhou o Prêmio de Poesia 2010 da Academia Brasileira de Letras pelo livro A máquina das mãos, editado pela 7 Letras. Só o júri já revela a importância do prêmio: Lêdo Ivo, Affonso Arinos de Mello Franco e Alberto da Costa e Silva. O prêmio será entregue em 20 de julho, quando a ABL comemora 113 anos.

Fonte: Correio Braziliense online, 04/06/2010

Um flash misterioso

Alberto Veloso*
Crescem as apreensões com a recente revelação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) de que o Irã possui estoque de urânio com enriquecimento quase suficiente para construir dois artefatos nucleares. Seria ingenuidade desconsiderar o desejo de alguns Estados alcançar status de nações nucleares, e o atual cenário internacional é didático para relembrar um fato nebuloso, de 30 anos atrás.

Na madrugada de 22 de setembro de 1979, um satélite americano detectou sinais luminosos na atmosfera com características de uma explosão nuclear. A área era o sul do Oceano Índico e naquele momento dois satélites cobriam a região, mas por falha instrumental, apenas um registrou o fenômeno. Esse tipo de satélite já havia provado eficácia na detecção de explosões na atmosfera e se desconheciam falsos alarmes.

O governo norte-americano preferiu não divulgar de imediato a notícia porque existiam suspeitas do envolvimento de Israel no episódio, ademais de controvérsias técnicas por um único satélite ter registrado o evento. Mas os cientistas que tiveram acesso aos dados concluíram que o sinal indicava a detonação de uma bomba atômica. Adicionalmente, descobriu-se que uma estação hidroacústica da marinha americana — utiliza sensores submarinos para registrar ondas de choque — não apenas detectou, mas também localizou a explosão. Ela teria ocorrido à baixa altura, nas proximidades da ilha sul-africana Príncipe Eduardo, longe das rotas de tráfego marítimo. Sua potência foi estimada entre dois e quatro quilotons — força explosiva equivalente a duas a quatro toneladas de dinamite.

Na década de 1970, Israel e África do Sul firmaram um acordo bilateral. De um lado haveria transferência de tecnologia nuclear, do outro, o fornecimento de grandes quantidades de urânio natural. Houve progresso, os sul-africanos obtiveram seus armamentos, mas, voluntariamente, desistiram deles. Para demonstrar que tudo havia terminado, eles permitiram o acesso às suas instalações secretas, já desmanteladas. Nos corredores do edifício da AIEA, em Viena, são vistas partes desse antigo material, agora transformado em pequenas esculturas com temas da cultura africana. Com Israel não aconteceu o mesmo e, para muitos especialistas, o país possui várias ogivas nucleares.

Mas as discussões sobre a origem da explosão de 22 de setembro de 1979 nunca findaram, pois nenhuma nação assumiu a responsabilidade pelo episódio. Teria sido um crime perfeito? Hoje não há como repeti-lo e sair incólume da cena, pois é quase impossível conduzir um teste nuclear na total clandestinidade. Isso vale para qualquer lugar onde se queira executá-lo: na terra sólida, nos oceanos, na atmosfera, ou no espaço exterior. Nunca o mundo foi vigiado de forma tão completa. Satélites noticiam a movimentação de navios, aviões, tropas militares e se vê com admirável detalhe o que se passa em pequenas áreas do terreno. Ademais, a ONU comanda uma rede de estações de monitoramento contra explosões nucleares, em tempo quase real, e apontará o local de qualquer evento suspeito. Não há como fugir dessa poderosa vigilância.

Entretanto, o mais importante é perguntar como seria o mundo hoje se a África do Sul tivesse optado por um caminho distinto. Pela relativa proximidade geográfica, teria o Brasil também buscado status nuclear? E os países circunvizinhos, alguns com históricos conflitos fronteiriços, não procurariam esse poder? Seria enorme a chance de ter todos os sul-americanos sob intensa tensão política. Fábulas de dinheiro continuariam sendo gastas para manter os arsenais em segurança.

A história contada deveria servir de alerta para rejeitar qualquer tipo de proliferação nuclear, apesar de o tratado internacional que cuida do tema ser discriminatório: não é permitido a um país qualquer armar-se com novas bombas, mas os que as possuem continuarão com elas. Dos males, o menor, mais “players atômicos”, maior o perigo, mais difíceis as negociações e menores as oportunidades de alcançar resoluções de interesse global. Assim, é preciso contestar as manobras do Irã, que se furta de cumprir obrigações com a AIEA, além de demonstrar clara estratégia de negociações com o intuito de ganhar tempo para progredir com suas atividades nucleares. Com tais procedimentos, é altamente duvidoso aceitar as ponderações de que mantém um programa nuclear apenas para fins pacíficos. Resta ao Conselho de Segurança da ONU agir com extremo rigor para travar o avanço de mais uma tentativa de expansão nuclear.

(O original desse relato é suportado por ampla bibliografia e constitui parte do capítulo “A sismologia e os testes nucleares” de um livro, em preparação, sobre terremotos.)
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*Criador do Observatório Sismológico da UnB, foi funcionário da ONU na montagem de uma rede internacional para registrar explosões nucleares
Fonte: Correio Braziliense online, 04/06/2010

O corpo no corpo no corpo

Frei Betto*
Na festa de Corpus Christi convém lembrar que há um corpo dentro de um corpo dentro de um corpo. De uma explosão inicial, chamada Big Bang, o Universo surgiu há 13,7 bilhões de anos e continua a se expandir em velocidade constante. Há 10 bilhões de anos uma estrela chamada supernova deu origem ao nosso sistema solar. Um pedaço dela, sem calor suficiente para ser considerado estrela, resfriou, e hoje é conhecido como planeta Terra, embora nele haja mais água que terra.

Sutis combinações ambientais se somaram para permitir, na Terra, o surgimento da vida, há 3,5 bilhões de anos. Em seu processo evolutivo, o pai-universo, que gerou a ninhada de filhos conhecida como sistema solar, e no qual se destaca a filha Terra, viu irromper, no seio de nosso planeta, o fenômeno vida que, em suas variadas manifestações, gerou um ser dotado de inteligência e sede de transcendência conhecido como humano.

Milênios após o aparecimento do homem e da mulher — olhos e consciência do Cosmo — aparece no Oriente Médio um pregador ambulante que, herdeiro da tradição religiosa hebraica, nos revela que Deus é amor e habita os nossos corpos, somos templos divinos, dotados de irredutível sacralidade.

Muitos não prestaram atenção nas palavras de Jesus. Continuaram a procurar a semente fora da árvore. Não perceberam que Deus se incorporou em nosso corpo, que vive e se alimenta do corpo da Terra, que rodopia em torno do corpo do sistema solar, situado na extremidade do corpo de uma galáxia conhecida pelo belo nome de Via Láctea, uma entre bilhões de colares estelares expandindo-se pelo incomensurável corpo do Universo.

Não perceber que somos todos o corpo místico de Cristo fez a fé equivocada exilar Deus para fora de sua Criação, confundindo transcendência com deslocamento espacial. Essa visão distorcida favorece a perplexidade causada pela notícia de que um cientista estadunidense criou vida artificial no seio de uma bactéria. Como se Deus fosse o Grande Relojoeiro definido por Isaac Newton. Ora, o que importa o relógio se ele não mostra as horas?

Somos dotados de inteligência para desvendar todos os mistérios da natureza — do Big Bang, testado no superacelerador construído entre as fronteiras da Suíça e da França, ao DNA computadorizado da bactéria de Craig Venter. A confusão em que se atola a fé reside no conceito pagão, grego, de Deus. Mais o valorizamos como poderoso do que amoroso, mais criador que redentor, mais origem de todas as coisas do que fim para o qual todas as coisas, sobretudo nossas vidas, devem convergir.

Os antigos acreditavam que só Deus poderia mudar a noite em dia; até que se inventou a luz elétrica. Só Deus era onipresente; até que se inventou a comunicação eletrônica. Só Deus poderia provocar o apocalipse; até que se inventaram as ogivas nucleares.

Deixemos de lado a concepção mecanicista de Deus. Ainda que seja criada vida humana em laboratório, a questão permanece a mesma que perturbou a mente de Alfred Nobel quando inventou a dinamite para quebrar pedreiras e viu seu artefato ser usado como arma de guerra: qual o grau de egoísmo ou amor com que lidamos com os bens da Terra e os frutos do trabalho humano?

Somos como a velha que, no mercado indiano, abaixou a cabeça para procurar algo no chão repleto de lixo. Outros passaram a imitá-la. Até que um jovem indagou: “O que a senhora procura?” “Uma agulha.” “Uma agulha!” “Ora, aqui no mercado há milhões de agulhas à venda e não custam nada.”

Muitos já desistiam da busca quando ela acrescentou: “Uma agulha de ouro”. Então voltaram a abaixar a cabeça e a procurar o precioso objeto. O rapaz fez outra pergunta: “A senhora não tem mais ou menos ideia de onde a perdeu?” “Tenho sim”, disse ela, “perdi-a em casa”. “Em casa?”, retrucou o rapaz. “E nos faz de bobos procurando-a aqui no mercado?”

A velha disse a todos que a fitavam: “Sim, procuro aqui o que perdi dentro de casa, assim como todos vocês procuram fora a felicidade e o amor que está dentro de vocês”.
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*Escritor, autor de A obra do Artista — uma visão holística do Universo (Ática), entre outros livros

www.freibetto.org
Fonte: Correio Braziliense online, 04/06/2010

O "novo normal"

Armando Castelar*



"Novo normal" é uma expressão cunhada por Mohamed El-Erian para caracterizar o fato de que esta crise não é como as que vivemos nas últimas décadas, com repercussões basicamente cíclicas, mas uma crise que provocará uma ruptura estrutural: quando ela passar e as coisas voltarem ao normal, esse não vai ser o mesmo normal de antes. Não reconhecer isso é arriscar a surpresa de se planejar para a volta do normal anterior e se descobrir numa realidade bem diferente.

A última crise econômica que provocou uma mudança semelhante foi a Grande Depressão. À semelhança do que ocorre hoje, a saída para aquela crise também passou por uma política econômica anticíclica e, de forma geral, por mais intervenção estatal na economia. O maior ativismo estatal não ficaria restrito, porém, ao período da crise, mas se estenderia pelas décadas seguintes, com uma regulação cada vez mais estreita da atividade empresarial, refletindo a desconfiança com que a sociedade passou a encarar o livre mercado, tendência que prevaleceu até a revolução liberal liderada por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Ainda que o sofrimento agora seja muito menor, a mesma desconfiança está de volta.

O mundo pós-crise, se ele pode ser assim classificado, tem sido de tamanha volatilidade, que fica difícil pensar além do próximo foco de estresse. Mas alguns analistas têm especulado sobre como será esse novo normal. Alguns pontos em comum podem ser extraídos dessas análises.

O setor privado continuará no processo de desalavancagem iniciado no último par de anos, com foco nos países onde o endividamento mais cresceu nas duas décadas passadas: EUA, Espanha, Portugal, Reino Unido etc. Isso se traduzirá num aumento da poupança, com impacto deflacionário, notadamente pela dificuldade de compensar a queda do consumo pela expansão das exportações. As tensões comerciais devem crescer, especialmente se falharem os mecanismos de coordenação global criados durante a crise.

A crise europeia vai levar os governos a anteciparem o fim de algumas medidas de estímulo, mas isso não será feito tão rápido quanto justificaria a sua situação fiscal, pois se terá de compensar a fraqueza da demanda privada, o que manterá o déficit público em níveis relativamente altos, ainda que cadentes. Isso acarretará a alta da razão dívida pública/PIB na maioria dos países ricos. Nos países em que esta já é elevada, como Japão, Itália e Grécia, o quadro fiscal ficará ainda mais complicado. O receio de calote nessa dívida será uma fonte recorrente de volatilidade, a qual também se alimentará da exposição dos bancos ao risco soberano, uma vez que estes, voluntária ou compulsoriamente, absorverão boa parte da nova dívida. Além disso, os cortes de gastos e as reformas para elevar a competitividade de países com grandes déficits externos podem gerar instabilidade política e contribuir para o aumento da incerteza.

A regulação e a tributação do setor financeiro devem aumentar, não necessariamente de forma racional e coordenada, por vezes reagindo mais às motivações políticas do que à análise dos tecnocratas. As propostas de autorregulação e liberalização financeira estão enterradas. Parece claro que os bancos terão de operar de forma menos alavancada e manter maiores reservas de liquidez. As grandes instituições devem ser mais intensamente supervisionadas e pagar mais impostos. Uma maior proporção dos negócios com derivativos deve passar a ser feito em bolsas, e não diretamente com os bancos.

Bancos, empresas, governos e famílias manterão elevada sua demanda por liquidez, em claro contraste com a situação pré-crise. Isso dificultará o alongamento dos prazos das dívidas de agentes mais alavancados, especialmente governos e bancos, tornando-os mais vulneráveis a crises de liquidez, mesmo para aqueles cuja solvência não esteja em questão.

Mais intervenção estatal, mais tributação, menos intermediação financeira e maior volatilidade devem frear o investimento e o aumento da produtividade, reduzindo o potencial de crescimento mundial. Seja pela falta de demanda, seja pela expansão mais lenta da capacidade de produção, o mundo vai crescer mais devagar. O desemprego vai cair dos picos recentes, mas lentamente, gerando uma perda de capital humano que também reduzirá o potencial de crescimento. Nesse ambiente, os bancos centrais tenderão a manter os juros em patamar relativamente baixo e demorarão a reverter as medidas de afrouxamento quantitativo. O risco de alta na inflação, e mesmo de estagflação, vai ser um tema recorrente.

Os países emergentes se dividirão em dois grupos. Um, que inclui partes da África, América Latina e Ásia, deve crescer menos que no pré-crise. Outro, liderado pela China, e no qual o Brasil se insere, será a nova fonte de dinamismo global. Se forem capazes de manter a disciplina que os levou a essa situação, devem ver sua influência nos fóruns multilaterais de discussão global crescer.
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*Armando Castelar Pinheiro, analista da Gávea Investimentos e professor do IE - UFRJ. Escreve mensalmente às sextas- feiras.
Fonte: Valor Econômico online, 04/06/2010

A espiritualidade na construção da paz

Leonardo Boff*

"Espiritualidade não é apenas saber mas principalmente
poder sentir tais dimensões do humano radical.
O efeito é uma profunda e suave paz,
paz que vem do Profundo".

Todos os fatores e práticas nos distintos setores da vida pessoal e social devem contribuir para a construção da paz tão ansiada nos dias atuais. Os esforços seriam incompletos se não incluíssemos a perspectiva da espiritualidade.

A espiritualidade é aquela dimensão em nós que responde pelas derradeiras questões que sempre acompanham nossas indagações: De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido do universo? Que podemos esperar para além desta vida?

As religiões costumam responder a tais indagações. Mas elas não detém o monopólio da espiritualidade. Esta é um dado antropológico de base como é a vontade, o poder e a libido. Ela emerge quando nos sentimos parte de um Todo maior. É mais que a razão, é um sentimento oceânico de que uma Energia amorosa origina e sustenta o universo e cada um de nós.

No processo evolutivo de onde viemos, irrompeu, um dia, a consciência humana. Há um momento nesta consciência em que ela se dá conta de que as coisas não estão jogadas aleatoriamente ou justapostas, ao léu, umas às outras. Ela intui que um "Fio Condutor" as perpassa, liga e re-liga.

As estrelas que nos fascinam nas noites quentes do verão tropical, a floresta amazônica na sua majestade e imensidão, os grandes rios como o Amazonas chamado como razão de rio-mar, a profussão de vida nas campinas, o vozerio sinfônico dos pássaros na mata, a multiplicidade das culturas e dos rostos humanos, a misteriosidade dos olhos de um recém-nascido, o milagre do amor entre duas pessoas apaixonadas, tudo isso nos revela quão diverso e uno é o nosso mundo universo.

A este "Fio Condutor" os seres humanos chamaram por mil nomes, de Tao, de Shiva, de Alá, de Javé, de Olorum e de outros mais. Tudo se resume na palavra Deus. Quando se pronuncia com reverência este nome algo se move dentro do cérebro e do coração. Neurólogos e neurolinguistas identificaram o “ponto Deus” no cérebro. É aquele ponto que faz subir a frequência hertz dos neurônios como se tivesse recebido um impulso. Isto significa que no processo evolutivo surgiu um órgão interior pelo qual o ser humano capta a presença de Deus dentro do universo. Evidentemente, Deus não está apenas neste ponto do cérebro, mas em toda a vida e no inteiro universo. Entretanto, é a partir daquele ponto que nos habilitamos a captá-lo. Mais ainda. Somos capazes de dialogar com Ele, de elevar-lhe nossos súplicas, de render-lhe homenagem e de agradecer-lhe pelo dom da existência. Outras vezes, nada dizemos, apenas O sentimos silenciosos e contemplativos. É então que nosso coração se dilata às dimensões do universo e nos sentimos grandes como Deus ou percebemos que Deus se faz pequeno como nós. Trata-se de uma experiência de não-dualidade, de imersão no mistério sem nome, da fusão da amada com o Amado.

Espiritualidade não é apenas saber mas principalmente poder sentir tais dimensões do humano radical. O efeito é uma profunda e suave paz, paz que vem do Profundo.

Desta paz espiritual a humanidade precisa com urgência. Ela é a fonte secreta que alimenta a paz cotidiana em todas as suas formas. Ela irrompe de dentro, irradia em todas as direções, qualifica as relações e toca o coração íntimo das pessoas de boa-vontade. Essa paz é feita de reverência, de respeito, de tolerância, de compreensão benevolente das limitações dos outros e da acolhida do Mistério do mundo. Ela alimenta o amor, o cuidado, a vontade de acolher e de ser acolhido, de compreender e de ser compreendido, de perdoar e de ser perdoado.

Num mundo conturbado como o nosso, nada há de mais sensato e nobre do que ancorar nossa busca da paz nesta dimensão espiritual.

Então a paz poderá florescer na Mãe Terra, na imensa comunidade de vida, nas relações entre as culturas e os povos e aquietará o coração humano, cansado de tanto buscar.
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*Teólogo
Fonte: IHU online, 04/06/2010