sexta-feira, 2 de julho de 2010

O dragão da maldade e o santo guerreiro

FABRÍCIO CARPINEJAR (interino)*

A tatuagem é o horóscopo do corpo.

Não há cantada mais previsível do que exclamar que “linda sua tatuagem”. O passo seguinte é “posso ver?”. Se ela estiver escondida, o assanhamento cresce.

A vaidade anula a reação da vítima, nem percebe a cafonice do galanteio e mostra os traços. Cessa o que está fazendo para arregaçar as mangas no meio da rua e oferece o braço e os ombros para assegurar uma maior visibilidade ao espectador.

A alegria pelo reconhecimento do bom gosto apaga a consciência de que todos (todos!) fazem igual. Ocorre uma ingenuidade que entorpece o senso crítico. Uma adoração da marca que embaralha a inteligência.

Quem é tatuado se sente correspondido e fala para um estranho o que nunca ousou contar nem para si. Detalha onde realizou e o que pretende transmitir com a inscrição.

Toda tatuagem é uma tese acadêmica, com resumo pronto. Pode ser um ideograma, uma estrela, uma borboleta, um personagem infantil, linhas tribais, existe sempre uma filosofia de vida por detrás, uma explicação, uma predestinação biográfica. A tatuagem é catarse na certa. Terrível é que a intimidade forjada nunca é desmascarada. Não são identificadas as segundas intenções.

Converteu-se realmente no novo signo. Mais usado do que mapa astral, ascendente, lua e forças astrológicas no boteco e nas baladas. Qualquer um recorre a esse recurso na abordagem, não precisa conhecer a língua portuguesa para seguir em frente. Virou uma praga do vestiário e dos clubes sociais.

Na segunda piscadela, vem o diálogo pronto, o mingau da aproximação. A ordem segue o roteiro imutável de um vendedor de seguros, o deslumbramento inicial – uma tatuagem, olha só – que vira interesse comercial – me conte mais?.

A observação corre na estrada da insinuação, desembocando no convite ao strip-tease verbal. Uma tatuagem chama a outra que chama outra, e aquilo que começou com uma fotografia isolada termina em calendário de borracharia.

A cantada é genuinamente brega como “Sandra Rosa Madalena”, de Sidney Magal. Não difere coisa alguma do questionário dos Paulo Coelho da pegação: “Está machucada?”/ “Por quê?”/ “Pois você é um anjo que caiu do céu”.

Feliz era minha infância, em que a mulher tinha que possuir uma cicatriz para provocar curiosidade. Tinha que possuir uma pinta para gerar suspense. Não era simples seduzir. Os cafajestes não gozavam de facilidades como hoje.

Venho sofrendo com as tatuagens, não as minhas, de minha namorada. Estou me transformando em Bentinho vigiando Capitu. Só que os olhos de ressaca são meus.

Era fã de carteirinha dos desenhos na pele, a chance do mundo inteiro ser sardento – o sardento é um iluminado de nascença. Mas venho mudando de ideia. Ela já tem cinco tatuagens, atraindo o cerceamento de vigaristas. Em seu corpo, é possível encontrar um lagarto e uma inscrição “honrar la vida” de Mercedes Sosa cobrindo a lombar, uma ovelha negra homenageando Nietzsche na canela direita , um “Old School” com o lema em inglês “chegar lá é metade da diversão, manter-se lá é metade da batalha” e um Jack de Tim Burton na perna esquerda. E vou avisando ao leitor para que não pergunte a ela.

Eu apenas fico feliz no inverno. Quanto mais frio e casacos, menores a enxaqueca e a preocupação. Durante o verão, não vejo escapatória, devo aturar a nuvem de insetos em cima de sua brancura, uma linha sempre escapará de suas roupas, espécie de isca que denuncia o cardume silencioso da tinta.

O que me irrita é que o sujeito apaga a minha existência. Mesmo com os beijos, abraços e mãos dadas, é capaz ainda de me confundir com irmão ou amigo gay.

Na última vez, um jovem desmiolado destacou a tatuagem de Cínthya diante da plateia de meu ciúme.

Logo repliquei: – É minha namorada.

Ele encabulou. Não deixei por menos, levantei a barra da calça para que ele observasse meu Dragão cuspindo fogo.

– Não vai elogiar?
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*Fabrício Carpi Nejar, poeta, jornalista, escritor e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS.Nasceu em Caxias do Sul (RS)  aos 23 de outubro de 1972
Fonte: ZH online, 02/07/2010

Elogio à sesta

Leonardo Boff *

Van Gogh, A sesta, 1890

Depois que o jornalista e amigo Zuenir Ventura se aventurou, num importante jornal do Rio (29/05), a exaltar os benefícios da sesta como algo que faz bem à saúde e, mais ainda, que representa uma necessidade biológica tornando as pessoas mais inteligentes, me animei a fazer o elogio da sesta. É um velho propósito que alimento há anos, tendo feito até pesquisas sobre o assunto. Era até para justificar o fato de que sou um inveterado sesteiro. Tão inveterado que condiciono algumas palestras à possibilidade de fazer uma pequena sesta depois do almoço nem que seja numa poltrona ou cadeira.

Em Friburgo na Alemanha tomaram tão a sério a minha vontade que numa sala montaram uma cama de campanha para que pudesse fazer a bendita sesta. Mas não aconteceu, porque alguns alemães têm o mau gosto de organizar, durante o almoço, um encontro com algum grupo que quer conversar até sobre questões metafísicas. O resultado é que estragam seu almoço ou você acaba não comendo e, o que é pior, não tem mais tempo de fazer a indispensável sesta.

Pessoalmente vou para cama sempre recalcitrando. Não gosto de dormir e retardo o mais que posso a hora de me deitar. Mas há poucas coisas melhores, entre as gratas satisfações que o Criador deu aos "degradados" filhos e filhas de Adão e Eva, do que uma boa sesta. Não precisa ser longa. Bastam uns 20 minutos. À exceção dos sábados e domingos. Ai, como bom descendente de italianos, tomo dois copos de vinho. Não é tanto pelo vinho, mas por aquilo que ele propicia: uma sesta mais profunda e mais prolongada. Ai eu durmo "a piernas sueltas" como dizem os espanhóis, bem traduzido pelos caboclos mineiros "durmo de pé espalhado".

É misteriosa a origem da sesta. Mas por sua bondade intrínseca deve estar ligada ao processo da antropogênese, quer dizer, deve existir desde que irrompeu o ser humano. Se até os animais fazem sesta, como não iríamos fazê-la nos humanos, irmãos e irmãs mais complexos dos animais?

Alguns acham que no Ocidente ela foi oficialmente introduzida pelos monges e pelos frades. Há um dito saboroso em espanhol que diz: "si quieres matar un fraile, dále de comer tarde e quítale la siesta", traduzindo:"se queres matar um frade, dá-lhe de comer tarde e tira-lhe a sesta". Na Espanha a sesta é tão sagrada que grande parte do comércio fecha por duas horas. Nos conventos, assisti que frades chegavam a colocar pijama para fazer a sesta, especialmente depois de tomarem uns bons copos de vinho seguidos de um excelente conhaque.

Conta-se que Newton e Churchil tiveram suas melhores idéias depois da sesta. Victor Hugo falou da sesta ao se referir ao leão num poema que tem por título: "la meridienne du lion"(a sesta do leão). Beaudelaire en "La belle Dorothée" diz inteligentemente (porque fazia sesta): "a sesta é uma espécie de morte saborosa, na qual quem dorme, semi acordado, degusta as volúpias de seu desaparecimento". René Louis, em suas "Mémoires d'un Siesteur" (Memória de um Sesteiro) diz muito bem: "a sesta permite me observar dormindo; é o momento em que o tempo pára e se cala". F. Audouard, em seus "Pensées" diz belamente: "Na Provence o sol nasce duas vezes: de manhã e depois da sesta".

Aqui está para mim a vantagem da sesta: ela nos brinda uma segunda noite e dois nasceres do sol. A sesta nos permite ter, no mesmo dia, um segundo dia. Ao despertar da sesta, tudo recomeça com renovado vigor como se reiniciássemos o dia.

Se me tolhem a sesta, o corpo se vinga, especialmente durante palestras que ouço: dormito, pestanejo e, não raro, durmo mesmo. Nem posso imaginar um dia inteiro com atividade mental, prestando atenção a tantas coisas e tendo que ordenar não sei quantas ideias sem uma sesta reparadora.

A sesta é uma sábia invenção da vida. Descansa a cabeça, faz esquecer os aborrecimentos e nos dá a rara experiência virtual de docemente morrer (o sono é uma bela metáfora da morte) e de novo ressuscitar.
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* Teólogo, filósofo e escritor
Fonte: Adital online, 02/-7/2010

Futebol é arte e religião

Frei Betto *
Sou um analfubola. Ou seja, nada entendo de futebol. Todas as vezes que me perguntam para qual time torço, fico tão constrangido como mineiro que não gosta de queijo.

Torci, na infância, pelo Fluminense, do Rio, e o América, de Belo Horizonte. Influência materna. Mais tarde, fui atleticano por um detalhe geográfico: minha avó morava defronte do estádio, na avenida Olegário Maciel, na capital mineira. E só. Sem contar a emoção de ter estado no Maracanã na noite de 14 de novembro de 1963 para assistir, misturado a 132 mil torcedores, aquele que é, por muitos, considerado o jogo dos jogos, a disputa entre Santos e Milan pelo Mundial Interclubes!

Hoje, me dou ao luxo de assistir, pela TV, às decisões de campeonato. Escolho para quem torcer. E não perco Copa do Mundo. Jogo do Brasil é missa obrigatória.

Eu disse missa? Sim, sem exagero. Porque, no Brasil, futebol é religião. E jogo, liturgia. O torcedor tem fé no seu time. Ainda que o time seja o lanterninha, o torcedor acredita piamente que dias melhores virão. Por isso, honra a camisa, vai ao estádio, mistura-se à multidão, grita, xinga, aplaude, chora de tristeza ou alegria, qual devoto que deposita todas as suas esperanças no santo de sua invocação.

O futebol nasceu na Inglaterra e virou arte no Brasil. Na verdade, virou balé. Aqui, tão importante quanto o gol são os dribles. Eles comprovam que nossos craques têm samba no pé e senso matemático na intuição. Observe a precisão de um passe de bola! No gramado, imenso palco ao ar livre, se desenha uma bela e estranha coreografia. Faça a experiência: desligue o som da TV e contemple os movimentos dos jogadores quando trombam. É uma sinfonia de corpos alados. Fosse eu cineasta, editaria as cenas mais expressivas em câmara lenta e as adequaria a uma trilha sonora, de preferência valsa, ritmando o flutuar dos corpos sobre o verde do gramado.

O Brasil conta com 190 milhões de técnicos de futebol. Todos dão palpite. E ninguém se envergonha de fazê-lo, como se cada um de nós tivesse, nessa matéria, autoridade intrínseca. Pode-se discordar da opinião alheia. Ninguém, no entanto, ousa ridicularizá-la.

Pena que a violência esteja contaminando as torcidas. Outrora, elas anabolizavam, com sua vibração, o desempenho dos jogadores. Agora, disputam no grito a prevalência sobre as torcidas adversárias. E se perdem no jogo, insistem em ganhar no braço. A continuar assim, em breve o campo será ocupado, não pelo time, e sim, como uma grande arena, pelas torcidas. Voltaremos ao tempo dos gladiadores, agora em versão coletiva.

Quando ouço a estridência de vuvuzelas, como um enxame de abelhas a nos picar os tímpanos, penso que os torcedores já não prestam atenção ao jogo. Querem transferir o espetáculo do gramado para as arquibancadas. O ruído da torcida passa a ser mais importante que o desempenho dos jogadores.

Nossa autoestima como nação se apoia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido; e nossa maior invenção - o avião - é questionada pelos usamericanos. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol. Se a história dos países europeus do século XX se delimita por duas guerras mundiais, a nossa é demarcada pelas Copas. E nossos heróis mais populares eram ou são exímios jogadores de futebol. A ponto de o mais completo, Pelé, merecer o titulo de rei.

A Copa é um acontecimento tão importante para o Brasil que, no dia do jogo da nossa seleção, se faz feriado. Se vencemos, a nação entra em euforia. Se perdemos, somos tomados por uma triste estupefação. Como se todos se perguntassem: como é possível o melhor não ter vencido?

Gilberto Freyre bem percebeu que na arte futebolística brasileira mesclam-se Dionísio e Apolo: a emoção e a dança dos dribles são dionisíacos; a força da disputa e a razão das técnicas, apolíneos.

Criança, eu escutava futebol no rádio. Quanta emoção! Completava-se a imaginação com a descrição do narrador. Hoje, não há locutores na transmissão televisiva, apenas comentaristas. São lerdos, narram o óbvio e, palpiteiros, com frequência esquecem o que se passa no campo e ficam a tecer considerações sobre o jogo com seus assistentes.

"Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma", poetou Carlos Drummond de Andrade. Com toda razão.
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* Escritor e assessor de movimentos sociais. Autor de "Maricota e o mundo das letras" (Mercuryo Jovem), entre outros livros. www.freibetto.org twitter:@freibetto
Fonte: Adital online, 02/07/2010

Apologética para a geração Facebook

Entrevista com a escritora Mary Eberstadt


WASHINGTON, quinta-feira, 30 de junho de 2010 (ZENIT.org) - O Cristianismo tem em si uma credibilidade maior do que querem fazer parecer, afirma a autora do livro “The Loser Letters: A Comic Tale of Life, Death and Atheism”, recentemente publicado pela editora Ignatius Press.
Nesta entrevista concedida a ZENIT, Mary Eberstadt, pesquisadora do Hoover Institute de Washington, fala de sua abordagem apologética particular direcionada à “geração Facebook”.

ZENIT: Seu livro tem um título provocativo, “The Loser Letters”. O que tinha em mente ao escolher este título?
Eberstadt: “The Loser Letters” é uma sátira epistolar do novo ateísmo, cuja protagonista, A. F. Christian, é uma jovem mundana americana, entusiasta convertida à inexistência de Deus.
O livro é constituído por suas exuberantes cartas de admiração endereçadas aos novos ateus - Dawkins, Hitchens, Dennett e outros. A protagonista busca evidenciar as deficiências de seu movimento com o intuito de reforçá-lo. Mais tarde, com o desenvolvimento da história e a narrativa de sua conversão, o leitor compreende que está ocorrendo algo diferente.
Conforme a protagonista sublinha no início do livro, se os novos ateus têm razão sobre Deus e se todos os crentes no curso da história estavam errados, então Deus seria o maior “perdedor” (“loser”) de todos os tempos. Por essa razão, ela se refere a Deus como o “Perdedor” (“Loser”), com letra maiúscula.
É um livro que se desenvolve em diferentes níveis e que, portanto, os maiores de 16 anos podem lê-lo com interesse, principalmente porque é satírico do início ao fim. Mas eu tinha em mente em especial os leitores com mais de 20 ou 30 anos, que podem nunca ter recebido uma apologética tradicional e que não estão cientes da existência de uma vigorosa tradição que se opõe às argumentações apresentadas pelos famosos ateus modernos.
Para além da sátira, o livro é uma apologética para a geração do Facebook.

ZENIT: Quais são os argumentos convincentes do Cristianismo que deveriam ser considerados pela retórica ateísta na batalha pelas conversões?
Eberstadt: Um dos aspectos do novo ateísmo que possibilitam uma sátira fácil é que seus expoentes, em geral, têm poucos conhecimentos de história. Conforme evidencia A. F. Christian, não sem ironia, os fatos relativos ao Cristianismo do mundo – sejam históricos, intelectuais ou artísticos – são um tanto diferentes do que estes pintam.

Por exemplo – como explica A. F. em uma de suas cartas – se os novos ateus pretendem insistir no assunto dos mortos pela Inquisição, como efetivamente todos o fazem, isto é sem dúvida legítimo; mas o que dizer dos mortos do Comunismo e do Fascismo alemão – os regimes declaradamente ateus responsáveis pelos mais odiosos crimes do século XX?
Em outra carta, A. F. adverte de modo análogo que os ateus passam ao largo das discussões sobre estética, pois esta nada mais seria que uma fonte de problemas. De fato, sublinha ela, a maior parte da melhor música, arquitetura, literatura, pintura e escultura no curso da história humana foi criada em nome do “Perdedor” – ou, no que se refere à antiguidade clássica, dos “perdedores” no plural, como afirma a protagonista do livro.
Estes são alguns dos exemplos de como A. F. Christian coloca os ateus em confronto com suas próprias concepções equivocadas e sua ignorância no que se refere à contribuição judaico-cristã. A protagonista prossegue lembrando os ateus que seu único objetivo ao criticar o movimento é torná-lo mais persuasivo para as pessoas a serem convertidas. Mas, até o final do livro, o leitor descobrirá que nem tudo ocorre como se pensava.

ZENIT: A senhora menciona no livro uma reação do tipo “Ozzie and Harriet”. Do que se trata e qual seu significado em nossa cultura?
Eberstadt: “Ozzie and Harriet” era um programa televisivo americano muito popular na década de 50, protagonizado por uma família feliz composta por pai, mãe e dois filhos. Nos EUA, tornou-se um paradigma que com frequência é usado como estereótipo. Por exemplo, quando os ditos “progressistas” pretendem denegrir o conceito tradicional de família, evocam “Ozzie and Harriet” como um modelo desagradável.
O que é interessante é que esta forma de ostracismo da família natural, promovida sobretudo pelos críticos de esquerda, é desmentida – de maneira surpreendente – pela própria cultura popular dos jovens, que vibra justamente com o desejo daquela família íntegra, composta por mãe, pai e filhos.
Por exemplo, um dos cantores pop mais criticados das últimas décadas é o rapper desbocado Eminem. E, no entanto, ao escutar suas músicas, vemos que as letras remetem continuamente aos temas recorrentes da cultura juvenil: a raiva do pai que abandonou a família, o desejo de dar à irmãzinha um pai de verdade, a determinação de ser um pai melhor.
Esta reação cultural, que é muito concreta para aqueles que efetivamente a escutam e observam suas formas de expressão, é todavia mal compreendida. E, ainda assim, exprime algo de muito profundo: pode-se criar os jovens fora do ambiente da família, mas não se pode erradicar seu anseio por ter uma família natural verdadeira.
Por extensão, creio que os jovens buscam, da mesma maneira instintiva, também por outras instituições tradicionais rejeitadas pela cultura secularizada. Refiro-me em particular à Igreja. Ao narrar as “Loser Letters” em seu próprio vernáculo, espero mobilizar alguns destes anseios profundos.

ZENIT: Diversos livros já foram escritos tratando das incongruências dos ateus, tais como “Faith of the Fatherless: The Psychology of Atheism” de Paul Vitz. A. F. Christian, como nos revelam as páginas do livro, tem uma vida turbulenta e marcada pelo uso de drogas. Este elemento tem a intenção de expressar algum humor negro?
Eberstadt: Absolutamente sim. A. F. Christian poderia, num certo sentido, encarnar qualquer jovem. É uma personagem com a qual todos podem se identificar: uma jovem nascida numa família religiosa, que frequentou a universidade e acabou por perder a fé, para então, mais tarde, na vida adulta, perceber que o abandono religioso se mostrou danoso.
O que tento destacar é que as coisas ruins que ocorrem com A. F. não se dão por acaso, mas justamente porque nosso mundo secularizado torna os jovens mais vulneráveis a todo tipo de tendências nocivas. E creio que isto seja especialmente verdadeiro para as meninas.
Fazer apologia da liberdade sexual, como todo ateu faz, tem um aspecto negativo que nenhum deles admite: torna mais fácil a exploração das mulheres, em nome da liberdade - como acaba descobrindo a própria A. F.

ZENIT: Seu livro é uma sátira sobre a incapacidade do ateísmo em compreender certas realidades. Há algum conselho – além, é claro, o de ler o livro! – sobre como os católicos podem contribuir para a difusão da verdade sobre o que o Cristianismo tem realmente a oferecer?
Eberstadt: Uma das razões do sucesso das retóricas ateístas no ocidente reside no fato dos ateus serem assertivos, francos e enérgicos em suas considerações. Os jovens respondem positivamente aos adultos assertivos.
Assim, creio que a solução para aqueles dispostos a contrastar este movimento - ou aqueles que simplesmente desejam evitar tornarem-se insensíveis a nossa civilização ocidental - seja aprender com o próprio movimento ateísta sua postura pró-ativa.
Não importa se somos escritores, líderes entre os jovens, educadores ou operários; todos somos chamados a assumir uma posição, mais cedo ou mais tarde. E quando o fizermos, devemos fazê-lo – para falar em linguagem futebolística – no ataque, não na defesa. Também por essa razão decidi escrever este livro.
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Fonte: Zenit online - ZENIT (infoportuguese@zenit.org) 02/07/2010

A "ressurreição" de Tolstói

O último romance do mestre da literatura russa.

Tolstói:
retomada de personagem autobiográfico para expiar culpa antiga

Perto dos 50 anos, tendo já publicado suas duas maiores obras, "Guerra e Paz" e "Anna Kariênina", Liev Tolstói (1828-1910) caiu em profunda depressão. Sentia-se esvaziado e impotente; a presença da morte pesava sobre todas as coisas e o impedia de seguir escrevendo.

A duras penas, encontrou refúgio intelectual e consolo espiritual no cristianismo, depois de perceber que a religiosidade popular provocava nele fascínio e reverência. Mas não se submeteu a ela - ao contrário, passou a denunciar as religiões organizadas de deturpar a essência do cristianismo, que estaria na postura ascética, na recusa terminante da violência e na fraternidade incondicional. A militância quase obsessiva provocou sua excomunhão pela Igreja Ortodoxa Russa em 1901.

"Ressurreição", o terceiro e último grande romance de Tolstói, é um testemunho desse período. No centenário da morte do escritor russo, o livro está sendo lançado em sua primeira tradução brasileira feita diretamente do idioma original. O tradutor, Rubens Figueiredo, é o mesmo da mais recente edição de "Anna Kariênina" no país, de 2005.

No prefácio, Figueiredo revela a coincidência que deu origem ao enredo de "Ressurreição". Um famoso advogado contou a Tolstói a história de um jovem aristocrata que, convocado para integrar um júri, reconheceu na ré uma criada que anos antes ele havia seduzido, engravidado e abandonado. Abatido pela culpa, o nobre queria obter a absolvição para casar-se com ela e retirá-la da prostituição.

Tolstói identificou-se na hora - ele, que também era aristocrata (nasceu conde), fizera o mesmo com uma camponesa das propriedades de sua família. O impacto foi tão grande que, ao decidir fazer da história o ponto de partida de um romance, o escritor retomou como protagonista o personagem de seus primeiros escritos autobiográficos, o príncipe Nekhliúdov.

A esplêndida primeira parte de "Ressurreição" narra ao mesmo tempo os rituais bufos do tribunal e a vida dos dois personagens até chegarem àquele momento. Nekhliúdov, tal como Tolstói, vinha de um longo período de dissipação seguido de uma passagem pela frente de batalha e de uma crise que o levou a distribuir parte de suas terras aos camponeses.

Por incompetência do júri, a acusada, Katiusha Máslova, é condenada a 15 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Nekhliúdov se dispõe a acompanhá-la, mas antes assume o dever de buscar uma revisão da pena. Suas visitas à carceragem onde ela espera para cumprir a condenação o levam a abraçar a causa de vários outros internos, entre eles presos políticos comunistas e membros de uma seita religiosa.

A missão se transforma num périplo tragicômico entre aristocratas influentes, políticos e membros da poderosa burocracia estatal. Enquanto isso, Tolstói retrata com precisão clínica os deslizamentos mentais de Nekhliúdov, da mais profunda autoflagelação a picos de vaidade satisfeita com a própria e suposta generosidade. O livro encaminha-se para a correção moral do príncipe.

Nos dias de hoje, não é muito fácil tragar a peroração de Tolstói, com seu enaltecimento da culpa e da abstinência sexual. O que realmente salta das páginas de "Ressurreição" é o diagnóstico implacável (o autor, como se sabe, era anarquista) da futilidade corrosiva das instituições, que têm no sistema prisional seu ponto de culminância.
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Reportagem - Por Márcio Ferrari, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 02/07/2010

Estudo busca segredo da longevidade

Genética:
Objetivo é oferecer teste para que as pessoas saibam se chegarão
à velhice avançada


Nir Barzilai, da Faculdade de Medicina Albert Einstein, dos EUA: antecipar quem vai ou não viver mais de cem anos

Ao analisar o DNA das pessoas mais velhas do mundo, cientistas da Universidade de Boston descobriram um traço genético de longevidade, disseram ontem. Eles esperam começar a oferecer em breve um teste gratuito que permitirá às pessoas saber se carregam esse traço para viver até a velhice avançada.

Os pesquisadores, que estudaram mais de mil pessoas com idade acima de cem anos, identificaram um conjunto de 150 marcadores genéticos que, juntos, são associados à longevidade extrema. Eles reconheceram que não sabem ainda quais são todos os genes envolvidos, nem sua função em prolongar a velhice.

"É uma característica extremamente complexa que envolve vários processos", disse a pesquisadora-chefe Paola Sebastiani, bioestatística da Escola de Saúde Pública da universidade. Ainda assim, "nós podemos computar a sua predisposição específica para uma longevidade excepcional".

Os pesquisadores dizem que não têm planos de patentear a descoberta ou de lucrar com ela. Ao invés disso, eles esperam liberar este mês na internet um kit de testes para estimular a pesquisa sobre longevidade.

"É um grande avanço", disse Nir Barzilai, diretor do Instituto para Pesquisa do Envelhecimento da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, que estuda a genética da longevidade mas não participou do projeto. "Isso mostra que 150 marcadores [entre milhões] são tudo de que você precisa para fazer a distinção entre as pessoas que vivem mais de cem anos e as que não."

Há muito tempo os cientistas tentam decifrar o código genético do envelhecimento saudável. Em média, pessoas que moram em países desenvolvidos podem hoje esperar viver entre 80 e 85 anos, graças em grande parte a melhoria na dieta e saúde pública. Mas os idosos mais longevos vivem décadas mais, normalmente livres das doenças mentais e físicas da idade.

A pessoa mais velha do mundo atualmente tem 116 anos, segundo o Grupo de Gerontologia de Los Angeles. De acordo com registros, a pessoa que mais viveu chegou aos 122 anos.

Ninguém conhece a receita completa para uma vida longa e saudável. Mas os genes que ajudam a controlar as respostas celulares à fome, à seca e à capacidade de sobrevivência a outros estresses podem ter um papel fundamental em barrar as doenças e problemas crônicos do envelhecimento, sugerem os cientistas.

Embora uma vida saudável seja importante, esses fatores genéticos parecem ser ainda mais determinantes quanto mais vivemos. De fato, uma variação em um único gene importante chamado FOX03A pode triplicar as chances de uma pessoa passar dos cem anos, informaram recentemente os pesquisadores do Instituto de Pesquisas Pacific Health, do Havaí.

Em uma pesquisa publicada na internet ontem pela revista "Science", Sebastiani, junto com o geriatra da Universidade de Boston, Thomas Perls, e outros colegas estudaram variações no código bioquímico do DNA retirado de pessoas que viveram um século ou mais. Todo o grupo analisado é membros do Estudo de Centenários da Nova Inglaterra, considerado o maior e mais abrangente estudo mundial sobre pessoas que vivem muito e suas famílias.

Os cientistas compararam padrões de variação genética desses idosos com os de pessoas que viveram dentro da média. Os marcadores genéticos que encontraram estão espalhados entre os 3 bilhões de caracteres do DNA do genoma humano e relacionados a pelo menos 70 genes conhecidos. Dependendo de hábitos pessoais, dietas, lesões, acidentes e outros fatores, esses genes aumentam as chances individuais de sobrevivência na loteria da vida, informam os cientistas.

A informação permitiu que os pesquisadores da Universidade de Boston identificassem aqueles que estão predispostos a uma longevidade excepcional com 77% de precisão em testes de controle, informaram eles.

"Agora, vamos ter que descobrir quais são todos esses genes, o que eles fazem e se existe uma forma de atuar sobre eles", diz o especialista em geriatria, Bradley Willcox, que não participou da pesquisa. Ele é um dos principais pesquisadores do estudo de longevidade do Havaí e do Estudo de Centenários de Okinawa, que envolve a análise de milhares de homens que estão envelhecendo.

Ao mesmo tempo, o teste estará disponível por meio de um site público mantido pelo Estudo de Centenários da Nova Inglaterra. Para fazer o teste, contudo, as pessoas terão de fornecer o próprio genoma completo, e isso pode custar milhares de dólares com as empresas de sequenciamento genético.

Os cientistas alertaram que o procedimento pode revelar mais do que algumas pessoas gostariam de saber. Testes genéticos normalmente revelam informações provocadoras, mas incompletas sobre nossos riscos de doenças, e é difícil saber o que fazer com essa informação. Pistas sobre a longevidade, por exemplo, podem afetar decisões sobre cobertura de seguro ou tratamentos médicos de longo prazo.

"Não acho que as pessoas estejam prontas para isso", disse Perls, da Universidade de Boston. "Mas eu não acho que isso vai impedir que as empresas tentem comercializar o teste", acrescentou.
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Reportagem: Robert Lee Hotz, The Wall Street Journal Fonte: Valor Econômico online, 02/07/2010
http://www.valoronline.com.br/?impresso/tecnologia_&_telecomunicacoes/277/6356997/estudo-busca-segredo-da-longevidade

Ainda a Copa: distinguindo heróis de celebridades

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Já com a classificação do Brasil garantida, sinto o desejo de descansar um pouco de Copa do Mundo como único assunto de todos os noticiários. Em vão. Parece que ninguém consegue falar, pensar ou produzir outra coisa.

Aliás, não começou apenas agora. Há tempos, seguramente há mais de um ano, as especulações sobre a Copa, quem seria selecionado, as notícias sobre a vida íntima e não tão íntima dos jogadores, suas famílias, namoradas, amigos etc. povoavam os meios de comunicação.

E nos anos anteriores também. Não diretamente direcionado à Copa da África do Sul, mas a propósito dos vários campeonatos regionais, nacionais, latino-americanos. E também, por que não?, a propósito das apostas na bolsa de valores das celebridades esportivas. Cada vez que um jogador era comprado a peso de ouro por outro time, tínhamos que ler todos os detalhes da transação, juntamente com as reações do círculo familiar, os palpites dos comentaristas etc.

Mas o que fazer? Assim acontece com as celebridades. Estamos cercados delas por todos os lados e são elas que povoam nosso cotidiano e – aí é que está o problema – nosso imaginário. Aos jovens de hoje são propostos os famosos, os que recebem salários milionários apenas para chutar uma bola, ou para ganhar o Big Brother, ou para estrelar uma novela. Os filhos do operário honrado que sua de sol a sol para receber no fim do mês um magro salário que mal dá para pagar suas contas os admiram e sonham um dia viver a mesma vida glamourosa, repleta de êxito e dinheiro.

Não importa a formação que tenham, cultura ou inteligência, capacidade de articular duas idéias. Basta o pódio para onde a mídia e a máquina do consumo os guindaram sem que tivessem feito muito esforço. Assim é que nenhum tem o menor pudor de admitir, diante das câmeras de televisão, que fugia da escola para jogar bola e por isso não terminou os estudos. Ou ser flagrado em farra monumental com parceiros de vários sexos e ter seu estado psicológico discutido nas páginas dos jornais.

São eles os paradigmas desta líquida pós-modernidade, que fazem até as torcidas se esquecerem do esporte em si mesmo, atividade sadia e bela, que eles deviam honrar. Tornaram-se ícones de um mundo irreal e injusto, que os expõe incessantemente, para incitar aqueles que por eles são fascinados a entrar na mesma espiral que os domina.

Toda generalização é injusta e mesmo odiosa. Mas é impossível não ficarmos indignados ao assistirmos a cobertura da Copa na África do Sul, país símbolo da luta pela liberdade, tomada por esses aspectos distorcidos e mesmo irrelevantes da vida dos jogadores. Não tem sentido, durante dois meses, noticiar quem namoram ou que ganharão o equivalente a 600 mil euros se o time for campeão, além de outras informações igualmente escandalosas e injustas.

Enquanto isso, uma figura como Nelson Mandela, personalidade inspiradora, digna de toda admiração e respeito, foi posto em evidência no primeiro dia e depois escassamente recordado. Este, sim, deveria estar constantemente na mídia, lembrando ao mundo até onde pode chegar o ser humano em dignidade e nobreza quando faz uso para tal de sua liberdade.

Só resta ter saudades dos tempos em que nosso imaginário era povoado de heróis, de santos, de testemunhas dos mais variados credos e filiações. Hoje, nosso céu só é constelado de outro tipo de estrelas: celebridades e famosos, heróis fictícios e muitas vezes falsos, fabricados pelo mercado e pela mídia, que não nos levarão a condutas nobres nem alimentarão em nós grandes ideais.

Sem querer jogar água fria na alegria pela vitória brasileira nem negar que o futebol é um belo esporte. Mas... por isso mesmo, é necessário deturpá-lo e magnificá-lo desta maneira e a este ponto?
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*Maria Clara Lucchetti Bingemer é autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor" (Ed. Rocco), entre outros livros. www.users.rdc.puc-rio.br/agape
Fonte: Correio da Cidadania - http://www.correiocidadania.com.br/content/view/4785/9/

Globalização para todos

Marcio Pochmann*

 Trata-se de viabilizar uma contribuição solidária
para que os países mais pobres tenham condições
para superar desafios
da fome e
da extrema pobreza

Esteve em pauta na reunião do G-20, em Toronto, a proposta de se garantir uma contribuição justa do setor financeiro para a recuperação das economias atingidas pela crise financeira global. A oposição do Brasil tem sido interpretada erroneamente como uma mudança em relação à posição defendida anteriormente.

A base da discussão foi um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) que sugeriu a adoção de duas taxas: uma sobre as instituições financeiras - contribuição financeira para a estabilidade -, a fim de prevenir futuros gastos públicos relacionados a crises financeiras; outra sobre operações financeiras para fortalecer a base de arrecadação dos governos. Antes mesmo de ser submetido à apreciação dos ministros de finanças do G-20, na Coreia do Sul, em abril, os setores financeiros se articularam contra a proposta, em dissonância ao sentimento público nos EUA (como demonstra a aprovação de uma taxa sobre o setor financeiro pelo Congresso americano, em 25 de junho) e na União Europeia. Todavia, ambas acabaram sendo chamadas, sobretudo pela mídia, de Taxa Tobin, gerando confusão sobre o seu caráter e objetivo.

O economista Tobin lançou a proposta de uma taxa sobre transações cambiais na década de 1970 para conter as atividades especulativas em regime de câmbio flutuante e garantir um mínimo de autonomia às autoridades monetárias nacionais. Naquele momento, a proposta não emplacou, sendo retomada nos anos 1990, após as crises financeiras que envolveram ataques especulativos contra moedas (do México à Ásia).

O mercado cambial não parou de crescer em ritmo superior ao do comércio e do investimento das empresas transnacionais, atingindo um volume médio diário de mais de US$ 3 trilhões em 2010. Diante disso, surgiu a proposta apresentada pelo presidente Lula e seus colegas da França, Chile e Espanha nas Nações Unidas, em 2004, de introduzir uma taxa, pequena o suficiente para não desencadear impacto significativo na economia real e, ao mesmo tempo, grande o suficiente para combater a fome e a pobreza extrema, no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) negociados pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Em setembro de 2008, em meio à crise sistêmica global, o presidente Lula insistiu, em um evento da ONU, em se considerar a taxação dos fluxos financeiros globais na busca de mecanismos de financiamento inovadores para ajudar a viabilizar a Ação Contra a Fome e a Pobreza. Em outubro de 2009, o Brasil juntou-se à iniciativa da França e de outros dez países, entre os quais Japão, Alemanha, Chile e Grã-Bretanha, criando uma força tarefa para estudar a viabilidade técnica da taxação dos fluxos financeiros para financiar o desenvolvimento. Para isso instalou um grupo de peritos que acaba de concluir seu relatório final e apontar as transações cambiais, por estarem centralizadas em plataformas de compensação e liquidação, como a melhor alternativa para se viabilizar essa contribuição solidária. Estima-se que uma taxa de 0,005% arrecadaria entre US$ 30 bilhões a US$ 33 bilhões por ano, considerando uma queda de 14% no volume negociado.

O fato de o Brasil ter se unido ao Canadá e à Austrália, no âmbito do G-20, contra as propostas de taxação do FMI, não implica em uma contradição ao posicionamento que o presidente da República vem assumindo ao longo dos anos. Em primeiro lugar, a proposta de 2004 - e do grupo de peritos - envolve uma taxa muito inferior à do FMI justamente porque não se busca dar respostas aos problemas orçamentários - déficit fiscal e dívida pública crescente - dos países desenvolvidos. Trata-se de viabilizar uma contribuição solidária para que os países mais pobres possam alcançar as condições mínimas para superar desafios da fome e da extrema pobreza. Em segundo lugar, a taxação proposta pelo FMI seria aplicável a diferentes setores financeiros e, portanto, não deveriam ser objeto de uma decisão única.

Vale dizer, não faz sentido um imposto sobre o sistema bancário brasileiro, para prevenir crises ou para aumentar a arrecadação, pois não foram envolvidos da mesma forma na crise financeira global.

Esse posicionamento do Brasil não se contrapõe, portanto, às conclusões do grupo de peritos sobre taxação de fluxos financeiros. Para aprofundar os aspectos técnicos deste debate, o Ipea realizou no último mês de junho um seminário internacional, durante o qual foi lançado o livro: Globalização para Todos - Taxação Solidária Sobre os Fluxos Financeiros Internacionais (disponível gratuitamente no site ipea.gov.br).

Essa discussão deve ganhar força na Assembleia-Geral da ONU, em setembro de 2010, quando será realizado um balanço de dez anos dos ODM, em particular o elevado déficit entre os compromissos assumidos pela comunidade internacional e o realmente executado, explicitando as dificuldades para se atingir as metas previstas para 2015. A taxa solidária global, sugerida pelo grupo de peritos, caminha exatamente nesta direção, viabilizar uma globalização menos desigual.
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*Marcio Pochmann é presidente do Ipea e professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp.
Fonte: Valor Econômico online, 02/07/2010

Após 10 anos, Elián é 'soldado da revolução'

HAVANA
"Este é o lugar ao qual pertenço.
Aqui me sinto bem."

O jovem cubano Elián González, que há dez anos foi o pivô de uma disputa diplomática entre Cuba e os Estados Unidos, disse que ficou feliz por ter sido criado na ilha comunista.

Em suas primeiras declarações públicas em vários anos, Elián, hoje com 16 anos, afirmou ainda que não guarda mágoa de seus parentes de Miami que lutaram para mantê-lo nos EUA, alegando que lá ele teria uma vida melhor. Atualmente, o adolescente é cadete do Exército e filiado ao Partido Comunista.

Ao lado de Elián, o presidente cubano, Raúl Castro, acompanhou na quarta-feira a cerimônia religiosa que celebrou os dez anos da sua devolução a Cuba. O adolescente hoje é aluno de uma escola militar e filiado ao Partido Comunista.
Elián foi encontrado boiando dentro de uma câmara de pneu na costa da Flórida, em 1999. Sua mãe e outros cubanos morreram no naufrágio de um barco clandestino. Havana realizou uma campanha internacional para que ele fosse devolvido a Cuba e criado pelo pai. Os EUA acabaram cedendo, e agentes tiveram de arrancar à força o menino da casa dos parentes em Miami.

"Embora eles não tenham nos apoiado, não tenho nenhuma amargura", afirmou Elián na quarta-feira. "Este é o lugar ao qual pertenço. Aqui me sinto bem." "Graças à ajuda de uma grande parte do povo americano e do nosso povo, hoje estou com meu pai, e isso é tudo." /
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Fonte: Reuters - O Estado de S.Paulo online, 02/07/2010

A sociedade mundial da cegueira

Por Leonardo Boff *



O poeta Affonso Romano de Sant’Ana e o prêmio Nobel de literatura, o português José Saramago, fizeram da cegueira tema para críticas severas à sociedade atual, assentada sobre uma visão reducionista da realidade. Mostraram que há muitos presumidos videntes que são cegos e poucos cegos que são videntes.

Hoje propala-se pomposamente que vivemos sob a sociedade do conhecimento, uma espécie de nova era das luzes. Efetivamente assim é. Conhecemos cada vez mais sobre cada vez menos. O conhecimento especializado colonizou todas as áreas do saber. O saber de um ano é maior que todo saber acumulado dos últimos 40 mil anos. Se por um lado isso traz inegáveis benefícios, por outro, nos faz ignorantes sobre tantas dimensões, colocando-nos escamas sobre os olhos e assim impedindo-nos de ver a totalidade.

O que está em jogo hoje é a totalidade do destino humano e o futuro da biosfera. Objetivamente estamos pavimentando uma estrada que nos poderá conduzir ao abismo. Por que este fato brutal não está sendo visto pela maioria dos especialistas nem dos chefes de Estado nem da grande mídia que pretende projetar os cenários possíveis do futuro? Simplesmente porque, majoritariamente, se encontram enclausurados em seus saberes específicos nos quais são muito competentes mas que, por isso mesmo, se fazem cegos para os gritantes problemas globais.

Quais dos grandes centros de análise mundial dos anos 60 previram a mudança climática dos anos 90? Que analistas econômicos com prêmio Nobel, anteviram a crise econômico-financeira que devastou os países centrais em 2008? Todos eram eminentes especialistas no seu campo limitado, mas idiotizados nas questões fundamentais. Geralmente é assim: só vemos o que entendemos. Como os especialistas entendem apenas a mínima parte que estudam, acabam vendo apenas esta mínima parte, ficando cegos para o todo. Mudar este tipo de saber cartesiano desmontaria hábitos científicos consagrados e toda uma visão de mundo.

É ilusória a independência dos territórios da física, da química, da biologia, da mecânica quântica e de outros. Todos os territórios e seus saberes são interdependentes, uma função do todo. Desta percepção nasceu a ciência do sistema Terra. Dela se derivou a teoria Gaia que não é tema da New Age; mas, resultado de minuciosa observação científica. Ela oferece a base para políticas globais de controle do aquecimento da Terra que, para sobreviver, tende a reduzir a biosfera e até o número dos organismos vivos, não excluídos os seres humanos.

Emblemática foi a COP-15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague. Como a maioria na nossa cultura é refém do vezo da atomização dos saberes, o que predominou nos discursos dos chefes de Estado eram interesses parciais: taxas de carbono, níveis de aquecimento, cotas de investimento e outros dados parciais. A questão central era outra: que destino queremos para a totalidade que é a nossa Casa Comum? Que podemos fazer coletivamente para garantir as condições necessárias para Gaia continuar habitável por nós e por outros seres vivos?

Esses são problemas globais que transcendem nosso paradigma de conhecimento especializado. A vida não cabe numa fórmula, nem o cuidado numa equação de cálculo. Para captar esse todo precisa-se de uma leitura sistêmica junto com a razão cordial e compassiva, pois é esta razão que nos move à ação.

Temos que desenvolver urgentemente a capacidade de somar, de interagir, de religar, de repensar, de refazer o que foi desfeito e de inovar. Esse desafio se dirige a todos os especialistas para que se convençam de que a parte sem o todo não é parte. Da articulação de todos estes cacos de saber, redesenharemos o painel global da realidade a ser compreendida, amada e cuidada. Essa totalidade é o conteúdo principal da consciência planetária, esta sim, a era da luz maior que nos liberta da cegueira que nos aflige.
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* Teólogo, filósofo e escritor, na “Adital“.
Texto publicado em fevereiro/2010
Fonte: Adital online

A propósito de outra cegueira

Mauro Santayana*

“El peor – me disse Jorge Luis Borges, em agosto de 1975, quando o entrevistei em Buenos Aires – és cuando la mente és ciega”. O grande escritor respondia a uma pergunta delicada: como se sentia um grande escritor que ficara cego? Os cegos costumam pensar bem melhor do que os videntes, e sobre isso há o belo estudo de Diderot, Lettre sur les aveugles. Entre os exemplos da argúcia intelectual dos cegos, o filósofo cita o caso de Mademoiselle de Salignac, que nunca enxergara e era apaixonada por geometria. Ela explicava a razão de seu apego às linhas e curvas: “O geômetra passa quase toda a sua vida de olhos fechados”. Respondendo a Diderot, que lhe perguntara onde descobrira que cabiam seis pirâmides perfeitas dentro de um cubo, ela disse tranquilamente: “Dentro de minha cabeça, como qualquer pessoa”.

Saramago não foi o primeiro a imaginar uma situação em que todas as pessoas começam a ficar cegas. A ideia, com o susto que provoca, é antiga. Mas há outras situações desesperadoras. Otto Lara Resende, em O elo partido, narra a angústia de um homem que começa se esquecendo de como dar o nó na gravata, até não se lembrar de seu próprio nome. É a terrível cegueira da mente, de que me falou Borges naquela tarde. Em seu reacionarismo, ele se referia à situação política: não podia entender que os seus conterrâneos, perdidos no labirinto, buscassem, antes com Evita e naqueles meses com Isabelita, o fio que os conduzisse à saída.

Os dirigentes do PSDB que aceitaram a imposição dos “democratas” do Rio e aprovaram o nome do ex-genro de Salvatore Cacciola como candidato à Vice-Presidência da República, parecem cegos mentais. Como não sabemos o que se passa nos corações e mentes alheias, é até possível que o ex-governador José Serra esteja resignado a perder o pleito e se previna, para explicar depois a derrota pela incômoda companhia que lhe arranjaram.

O jovem entusiasmado pela justiça social e pelo futuro do Brasil que conheci em La Paz, no inverno rigoroso dos Andes, em julho de 1964, é homem dotado de inteligência, conhecimentos e experiência política. Ele decidiu, realmente, lasciar perdere, ou está engambelando o DEM, usando o tempo, que é muito escasso, a fim de encontrar uma saída e, nela, candidato com menos problemas.

Revela-se que o jovem Indio da Costa, além das perigosas ligações com Cacciola, foi alvo de investigação da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a propósito de merendas escolares, de que foi relatora Andréa Gouveia Vieira. Andréa é mineira de Belo Horizonte, descendente de famílias tradicionais na política; é neta, pelo lado paterno, de João Franzen de Lima, da antiga UDN, e, pelo lado materno, de Eduardo Lucas Pereira, do velho PSD. Pela família materna do pai é parente de Cristiano Machado, outra família histórica na política do estado – também do PSD. O pai ocupava a esquerda do clã, como dirigente do pequeno e corajoso Partido Socialista Brasileiro. Como Andréa é correligionária de José Serra, é bom refletir sobre tudo isso.

O ex-governador José Serra se tornou refém de Cesar Maia, uma das mais desastrosas invenções de Leonel Brizola, grande homem público mas ingênuo diante dos aproveitadores e oportunistas, sempre dispostos a traí-lo. Serra anda mal de aliados: além de Cesar Maia, deve suportar a companhia de Roberto Jefferson, ex-guardião de Fernando Collor.

Se agiu pensando em ser pragmático, Serra cometeu um equívoco, porque ninguém compra o que já tem: se os “democratas” não lhe derem seus votos, a quem os darão?
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*Jornalista. Príncipe das notícias políticas, segundo o teólogo Leonardo Boff.
Fonte: JB onlina, 02/07/2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010

É um pássaro? É o Super-Homem?

MÁRION STRECKER*

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É o Twitter, paraíso de gafes e confissões irrefletidas e
que já provocou crises políticas e demissões

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ÀS VEZES me perguntam sobre o Twitter: o que é, como funciona, pra que serve. Ele serve para escrever e/ ou ler frases de até 140 caracteres que os outros escrevem. São mais de 10 milhões de brasileiros que usam o site desse microblog, diz o Ibope, fora os que usam pelo celular. Então me lembrei da propaganda de um velho seriado de TV.

Os mais velhos vão sentir nostalgia. Era assim: "Mais rápido que uma bala. Mais poderoso que uma locomotiva. Capaz de transpor altos prédios de um pulo só. Olhe lá no céu! É um pássaro? É um avião? É o Super-Homem!

Um estranho visitante de um outro planeta que veio à Terra com poderes e habilidades muito além das conhecidas pelo homem. O Super-Homem! Que pode mudar o curso dos rios caudalosos, vergar o aço com as próprias mãos e se disfarça de Clark Kent, o melhor repórter de um grande jornal da cidade. Enfrenta uma luta infindável pela verdade, justiça e bem-estar de todos!".

O logotipo do Twitter é um pássaro. Ele é rápido como uma bala; e perigoso. Como a publicação é instantânea e os usuários recebem sempre o mais recente primeiro, a leitura é imediata.

Por isso essa "engenhoca dos pensamentos ligeiros", conforme descreveu aqui na Folha Fernando Barros e Silva, é o paraíso das ratas, gafes, exibições e confissões irrefletidas. Já provocou crises políticas e demissões, muito comentadas no próprio Twitter, porque ele se retroalimenta, com a mania de republicação constante de seus usuários. Daí o surgimento do novo ditado popular: "Se beber, não tuíte!".

Daí também a discussão se o Twitter pertence à esfera privada ou à profissional do autor. Claro que a ambas. KremlinRussia segue WhiteHouse no Twitter, o que evoca a capacidade de transpor altos prédios de um pulo só. Candidatos à eleição estão lá. E, se espiarmos os endereços twitter.com/eikebatista, twitter.com/paulocoelho ou twitter.com/aherchcovitch, leremos o homem mais rico do Brasil, o autor de best-sellers ou o estilista. Em tese, eles também vão ler o que qualquer um escrever para eles. Se amarem ou odiarem, talvez respondam.

O Twitter é de outro planeta, diferente daquele planeta do Orkut, do Facebook ou do Sonic, em que a lei impõe a reciprocidade para a comunicação se estabelecer.

Nas outras redes, eu só posso "ser" seu amigo se você me "aceitar" como seu amigo. No Twitter, sigo quem bem entender. Quem quiser me seguir que siga. Nem é preciso saber quem são os seguidores, como, aliás, na vida real. Pesquisa acadêmica recente mostrou que reciprocidade não passa de 22,1% no Twitter.

O Twitter pode mudar o curso dos rios caudalosos da comunicação pessoal. Há muitos que preferem o Twitter ao e-mail. Outros usam o canal para falar cobras e lagartos de empresas; e muitas empresas nem sabem. Com o agravante de que qualquer coisa escrita ali poderá aparecer em buscas do tipo Google.

Quando seguimos o Twitter de um veículo de comunicação, recebemos suas manchetes. E o Twitter se traveste de Clark Kent, como rede global de informação em tempo real, descentralizada, espontânea, incontrolável, utilíssima em situações de riscos e conflitos. Serve perfeitamente ao ativismo, inclusive o fictício, como a campanha para salvar o Galvão, que seria um pássaro da Amazônia ameaçado de extinção pelo uso de suas penas nas fantasias do Carnaval.

Esse ativismo piadista seguiu-se a outra brincadeira, que foi o uso intensivo da expressão #calabocagalvão, zoeira com o narrador esportivo que chegou ao topo do ranking mundial de menções no Twitter.

O Twitter é como um microfone aberto 24 horas por dia na boca de milhões de pessoas, inclusive falsas, dizendo banalidades ou coisas importantes, numa linha do tempo organizada do agora para o antes, sendo que o antes raramente é lido, pois, enquanto lemos o agora, o depois se superpõe.

Nesse rio caudaloso, o usuário pode desenvolver ansiedade e perder muito tempo para ver o que andam falando, mesmo que seja muita bobagem. Ou não. Essa é a questão.
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*MÁRION STRECKER, 49, jornalista, é diretora de conteúdo do UOL. Escreve mensalmente, às quintas, neste espaço.
@marionstrecker
Fonte: Folha online, 01/07/2010

"Toy Story"

CONTARDO CALLIGARIS *

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O filme me deixou com saudade da fantasia livre e maluca
que organizava meus jogos de criança

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Assisti a "Toy Story 3" na quinta passada. Era noite, e, na sala, só havia adultos, que saíram todos comovidos, sorrindo e fungando. Talvez nosso envelhecimento se pareça um pouco com o destino dos brinquedos abandonados pelas crianças que se tornam grandes.

Por exemplo, quando os filhos não brincam mais conosco, antes de tomar o caminho do sótão-asilo ou o do lixão-cemitério, sonhamos com a possibilidade de sermos, durante um tempo, brinquedos para nossos netos. Bem como os protagonistas de "Toy Story 3".

O filme me deixou também com saudade da fantasia livre e maluca que organizava meus jogos de criança. Inevitavelmente, acabei pensando nas gerações de brinquedos que me acompanharam na infância.

Quando meus pais morreram, eu morava longe, e meu irmão se ocupou de esvaziar o apartamento de nossa infância.

Foi assim que ele adentrou sozinho pelos dois imensos closets da sala, que nós chamávamos de "cavernas de Ali Babá" e que continham, entre inúmeras outras coisas, nossos brinquedos aposentados.

Meu irmão decidiu transferir esses sobreviventes para sua casa e, ao pedir meu consentimento, mencionou os mais valiosos, o trem elétrico, os soldadinhos de Fort Apache. Quanto aos outros, eu imaginava que ele os doaria ou descartaria.

Nada disso. Nestes dias, passando duas semanas na Itália, com "Toy Story" na lembrança, explorei, pela primeira vez, um armário de três portas que está no corredor do apartamento veneziano que divido com meu irmão.

Encontrei nossos velhos jogos de sociedade, quebra-cabeças, um "Pequeno Químico", um porta-aviões sem aviões, caminhões, robôs etc. Enfim, atrás desse amontoado, esbarrei num helicóptero, bem guardado em sua caixa original, com um ar de novo. Desse brinquedo me lembrei perfeitamente.

No dia de Natal, meu irmão e eu acordávamos pelas quatro da manhã, ansiosos para conhecer, enfim, nossos presentes, todos embrulhados embaixo da árvore. Abríamos os pacotes e brincávamos sozinhos, antes de meus pais acordarem.

Vencidos pelo cansaço, voltávamos para cama levando os brinquedos dos quais mais tínhamos gostado e que dormiriam conosco mais uma hora ou duas.

No Natal dos meus sete ou oito anos, eu ganhei um helicóptero. Não era teleguiado (era o começo dos anos 50), mas voava. Sim senhor, voava mesmo. Ele era ligado por um cabo a um comando mecânico (não elétrico): ao girar (freneticamente) uma manivela, o movimento era multiplicado e transmitido até às pás do rotor, de forma que, efetivamente, o helicóptero se levantava até o braço da gente cansar.

Amei o helicóptero. Amei a sensação de que ele voava não por alguma mágica, mas pelo meu esforço. Brinquei com ele mais ou menos uma hora, até que, inexplicavelmente, ele quebrou; eu acionava a manivela, ouvia um ruído de engrenagens infelizes, e as pás permaneciam paradas.

Não tenho como reconstruir exatamente a cadeia de meus pensamentos; só sei que o que prevaleceu não foi a pena pela perda do brinquedo novo, mas uma espécie de sentimento protetor. Explico.

Eu não sentia culpa (tinha brincado do jeito que era mesmo para brincar com o helicóptero), mas não aguentava a ideia de que meus pais tivessem notícia da morte precoce de seu presente, que, certamente, eles tinham escolhido com carinho e pago com esforço. Em suma, eu precisava proteger os meus pais.

Não disse nada; coloquei o helicóptero de volta na caixa e o levei para a cama comigo. Quando acordei, não sei como, consegui convencer a todos de que aquele era meu presente preferido, por isso eu não queria que outros brincassem com ele, nem meu irmão e ainda menos os sobrinhos convidados para o almoço de Natal.

Milagrosamente, mantive essa ficção durante os dias seguintes: adorava o helicóptero, e ninguém podia tocar nele.

De fato, ninguém nunca mais brincou com ele. Eu tampouco, é claro; brincar com ele quebrado teria sido revelar minha mentira.

E agora o helicóptero está aqui, na sua caixa de origem -símbolo de minha vontade sofrida e um pouco louca de fazer e proteger a felicidade de meus pais.

Tem cara de novo, mas é um pouco tarde para invocar a garantia.
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*Psiquiátra. Escritor. Colunista da Folha.
Fonte: Folha online, 01/07/2010

Animadores da Copa do Mundo

 Eugênio Bucci*
Está no ar um comercial de TV demasiadamente explícito. Nele as ruas, as casas, as pessoas e até mesmo o céu que cobre a paisagem, tudo é cenário fabricado. Nada mais ali é natureza. Trata-se da propaganda de um automóvel pequeno, cujo nome não vem ao caso. Em 30 segundos, tudo o que existe em torno do carro anunciado é montado como se fosse cenografia num palco de teatro. Até mesmo o céu, que, ao fim do filmete, vai envolvendo a cena como um cobertor aéreo. Havia outra campanha parecida, de uma empresa de telefonia móvel, na qual o céu se estendia sobre o planeta do mesmo jeito, como uma cortina na horizontal.

A ideia de que a "realidade" que nos cerca não passa de uma ambientação artificial não é exatamente nova. Ela aparece no cinema - como em The Truman Show (de Peter Weir, 1998) ou Matrix (de Andy e Larry Wachowski, de 1999) - e até nos ensaios de autores como Jean Baudrillard. Cada um a seu modo, as peças publicitárias, esses filmes e alguns filósofos apontam a hipótese de que a tal "realidade" tem sempre uma ponta de ilusão fabricada, ou pela mercadoria, ou pelo poder político. Nas perspectivas mais pessimistas, como a de Matrix, o mundo visível reduziu-se a um efeito gerado por softwares, numa sociedade administrada pela inteligência dos computadores, em que os humanos servem somente para alimentar as máquinas. Nas perspectivas mais alegres, como a da publicidade do automóvel, a ideia é menos sombria: se você comprar aquela mercadoria, sua vida vai ficar tão bonitinha como a vitrine de uma concessionária.

A Copa do Mundo, com todo o respeito, tem um pouco disso aí. Sem querer irritar os ânimos futebolísticos da Pátria de chuteiras - ou daqueles que na chuteira imaginam ter sua Pátria -, sem reclamar de vuvuzelas, que rimam com camisetas amarelas, a Copa do Mundo apresenta-se, cada vez mais, como um reality show. Foi-se o tempo em que o espetáculo ocorria no gramado. Foi-se o tempo de Fiori Gigliotti. Agora, o espetáculo envolve os que estão ali dentro, abocanha as torcidas multicoloridas e os que giram em volta da lâmpada, como os jornalistas das emissoras de TV. Além de outros.

Mais algum tempo e veremos a generalização dos torcedores profissionais, mais ou menos como aquelas mulheres que antigamente, em troca de um sanduíche de mortadela, batiam palmas no programa de auditório de Silvio Santos. Com justiça, ele as chamava de "colegas de trabalho". Agora, na Copa, todos são atores - e todos têm consciência de que estão em cena. O torcedor maquiado tem essa consciência. O jogador atingido pela botina adversária também tem: e então rola na grama enquanto faz sua melhor expressão de dor explícita - no que é mais eficiente que atores de novela. Ele se sabe em close.

Como os competidores do BBB (o programa Big Brother Brasil, da Rede Globo), os integrantes da seleção brasileira ficaram isolados até outro dia, em "concentração" - triste palavra. Com uma diferença, no entanto, uma diferença crucial. Na "concentração", a intimidade dos futebolistas profissionais não foi (ainda não desta vez) captada por dezenas de câmeras durante 24 horas por dia. Bem ao contrário: foi difícil, para os repórteres, ter acesso a eles. Tão difícil que repórteres, veículos impressos e emissoras protestaram, dizendo que povo tem fome de gol, mas também tem fome de notícia, e esse técnico do escrete nacional, cujo apelido é Dunga, não estava ajudando. Tinham sua dose de razão. Mas também o técnico tinha razão. Se seus atletas ficassem o tempo todo dando entrevistas com fundo musical, ele não conseguiria treiná-los e muito menos concentrá-los.

Humores e rabugices à parte, parece que fizeram as pazes. O que pouca gente comentou, contudo, é que, como pano de fundo desses atritos, se vai dando uma sutil reacomodação do modelo de negócio da Copa do Mundo. Dentro desse modelo, o papel que se espera daquilo a que temos chamado de imprensa - especialmente das equipes de TV - é menos o da reportagem crítica, investigativa, e mais o papel de animador de auditório. Eles são intimados a ser "colegas de trabalho" dos beques, goleiros e atacantes, dos torcedores e dos cartolas da Fifa. Não que não sejam, individualmente, bons profissionais. Isso não está em questão. Acontece que o circo que os interpela e tenta cooptá-los não deixa muita margem para a abordagem crítica.

Incrível como às vezes nos esquecemos de que a Copa é um negócio - o que não a torna pior ou melhor, por favor. Antes de serem fato jornalístico, aqueles jogos todos são espetáculo comercial, cujos direitos custam caro. Diferentemente das passeatas, dos comícios ou das guerras, eles não se dão a ver de graça. Isso significa que, para as emissoras de TV que compram esses direitos, a Copa é um programa de entretenimento, como a Fórmula 1, a Fórmula Indy ou o Domingão do Faustão. É por isso que o telejornalismo não cobre esses eventos como se eles fossem fatos de interesse público. A emissora não informa, por exemplo, quanto pagou pelos direitos de retransmissão. Isso escapa à sua pauta. Em vez disso, interessa mais a gritaria da torcedora pulando em cima do sofá na casa da avó do centroavante.

Na Copa deste ano, alguns padrões de exclusividade - inclusive a exclusividade de acesso aos desportistas - sofreram adaptações. Isso é que pegou. Alguns jornalistas protestaram, sentindo-se desconvidados. O céu artificial do espetáculo que vai engolfando o telejornalismo (pelo menos esse) ameaça deixá-los de fora. O que, convenhamos, faz a alegria da chamada "galera". Ela não quer ser aborrecida com reportagens investigativas no intervalo das partidas. Vade retro. É ela que paga o circo todo e agora, quando se abrem as cortinas, cobra a sua parte em vibração, em vitória, em divertimento.
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*JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP
Fonte: Estadão online, 01/07/2010

Quantos crimes há no Brasil?

Gláucio Soares*
O Brasil lança sua primeira pesquisa nacional de vitimização. Arredondando, serão perto de 70 mil entrevistas, número próximo das realizadas pelo National Crime Victimization Survey (NCVS), nos Estados Unidos.

Os dados a respeito do crime e da violência que se encontram nas estatísticas policiais, criminais e judiciais não são completos, embora essas estatísticas tenham inegável utilidade. Pesquisas localizadas demonstram que há muita diferença entre o que chega às autoridades e o que realmente acontece. Uma, levada a cabo há uma década aqui no Distrito Federal, revelou que percentagens muito altas da população não informam a qualquer autoridade que foram vítimas de um crime. A percentagem varia de acordo com o crime, mas os dados demonstram que as estatísticas oficiais, baseadas em boa parte nas denúncias, deixam de fora mais do que registram. Em apenas 42% dos roubos à mão armada a vítima procurou uma autoridade; nos ferimentos por arma branca que, com frequência, indicam tentativa de homicídio, dois terços deixaram de informar as autoridades.

E, no caso de ferimentos por armas de fogo, que, em sua maioria, são claras tentativas de homicídio? Nada menos de 58% não informaram. Quatro em cinco das lutas corporais, no Distrito Federal, não foram computadas. A percentagem dos crimes menores, como furto de celulares, que é informada às autoridades é muito baixa. Nesses casos, as informações oficiais são inúteis.

Pesquisa patrocinada pelo ISP (Instituto de Segurança Pública) no Rio de Janeiro revelou que apenas 24% dos que tiveram algum bem furtado comunicaram o fato. Três em cada quatro não entraram nas estatísticas. No caso de roubos, que implicam uso de força ou violência, apenas 38% reportaram o crime.

Nos furtos e roubos de veículos, dois terços fizeram a denúncia. Embora o seguro dos veículos seja obrigatório por lei, muitos não cumprem essa obrigação. Sentem-se desencorajados a fazer as denúncias. A subnotificação, que não se distribui aleatoriamente pelo espaço econômico e social, contribui para o desvio do uso racional dos recursos policiais.

O Brasil sai atrasado nessa iniciativa. O NCVS, nos Estados Unidos, começou em 1972; 10 anos mais tarde, em 1982 (há 28 anos), os britânicos começaram a coletar informações periódicas sobre o crime; o International Crime Victimization Survey começou há 20 anos e até Barbados começou antes de nós, em 2002.

Para que serve essa pesquisa? Uma pesquisa nacional de vitimização não é, apenas, uma contagem de crimes. Qualquer pesquisa pode e deve ser usada para produzir muito conhecimento. O National Opinion Research Center, onde trabalhei em 1959 e 1960, na Universidade de Chicago, desde 1972 conduz um survey muito conhecido, o GSS (General Social Survey), uma espécie de Pnad, cobrindo as experiências e opiniões sobre muitas áreas de interesse político e social. O GSS é colocado à disposição de todos logo após a coleta dos dados. Qualquer um pode baixá-lo pela internet. O único requisito é comunicar ao Norc onde e como foi usado; destarte, no texto de um artigo científico ou livro é praxe indicar as fontes que foram usadas. Não obstante, nem todos o fazem.

Com base apenas nos que informaram, sabemos que o GSS é usado nas aulas por mais de 400 mil estudantes todos os anos, como parte do aprender a pesquisar e a usar dados. Os dados do GSS foram usados em mais de 15 mil livros e artigos acadêmicos e científicos. Ou seja, o GSS é uma importantíssima fonte para a produção de conhecimento a respeito da sociedade americana que, talvez por isso, é a que melhor se conhece. Qualquer informação pode ser acompanhada ano trás ano desde o momento em que foi introduzida no questionário, o que permite conhecer tendências em muitas áreas durante décadas.
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*Sociólogo, pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj)

Fonte: Correio Braziliense online, 01/07/2010