segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"Férias na Antártica"

Livro, escrito por filhas de Amyr Klink, será lançado na Flip,   
conta aventuras das cinco viagens das gêmeas
Laura e Tamara, 13, e da caçula Marininha, 10, ao continente gelado

Entre pinguins: "Os humanos não cuidam da natureza como deveriam"



Meninas de 13 anos costumam passar férias na casa da avó, no sítio da tia, na praia ou, no máximo, na Disney. Mas as gêmeas Laura e Tamara Klink, de 13 anos, junto com a caçula Marininha, de 10, estão habituadas a traçar um roteiro incomum quando fecham as notas do segundo bimestre. Junto com os pais, Marina Bandeira e o navegador e escritor Amyr Klink, elas já foram cinco vezes à Antártica. É por isso que, apesar da pouca idade, têm boas histórias para contar e reuniram as mais curiosas e engraçadas no livro “Férias na Antártica”, escrito com a ajuda de Selma Maria e João Vilhena e publicado pela Editora Grão.
O lançamento será feito no dia 7 de agosto, na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e, em São Paulo, no dia 14 de agosto, na Bienal. Em ambos os eventos, haverá sessão de autógrafos. De volta de mais uma viagem e se preparando para a FLIP, as meninas responderam, juntas, a uma entrevista por email do iG Jovem, na qual falaram sobre o que aprenderam viajando, a escola e outras coisas que gostam de fazer.

iG Jovem: Qual é a melhor parte de viajar para a Antártica?
A melhor parte é sabermos que já cruzamos a Passagem de Drake, que é parte mais difícil... E a partir disso podemos conhecer lugares onde poucas pessoas estiveram.

iG Jovem: Dá vontade de voltar sempre?
Sim, mas sabemos que não é possível. É uma viagem longa, para um lugar distante e que exige muitos cuidados. Para ir para lá temos que estar bem preparados.

iG Jovem: O que vocês fazem por lá?
Observamos a natureza e nos divertimos de várias formas, no gelo, além das tarefas do dia-a-dia a bordo.

iG Jovem: Como é chegar ao colégio depois de passar férias em um lugar tão incomum?
É normal. Cada criança passa férias com os pais. Alguns na Disney, outros na fazenda ou na praia... E nós temos sorte dos nossos pais nos levarem para um lugar bem gelado.

iG Jovem: A leitura da redação sobre as férias de vocês deve ser a mais aguardada da aula!
Será? Não sei se nossos colegas aguardam para ouvirem sobre nossas férias. Mas talvez a gente conte histórias engraçadas. Percebemos que muitos nos perguntam o que fazemos lá. Quando respondemos, eles fazem comentários divertidos... O que mais surpreende é quando dizemos que lá não existem lojas, restaurantes e nem padarias... E que temos que levar tudo o que iremos precisar dentro do nosso próprio barco.

iG Jovem: Vocês sentem que são as garotas diferentes da classe, por já terem viajado tanto e visto tanta coisa?
Acho que somos crianças normais, iguais a todas as outras; mas temos mais consciência sobre nossas atitudes em relação ao meio ambiente. Conhecemos as dificuldades dos animais em sobreviver com os humanos no mesmo planeta... Apesar de que os humanos nem sempre cuidam da natureza como deveriam.


Meninas normais: "A gente briga, mas no final sempre se entende"

iG Jovem: Fora as viagens diferentes, vocês têm os mesmos gostos, interesses e preocupações das outras meninas da mesma idade? E quais são esses gostos e interesses?
Gostamos de ir ao cinema, de ir à praia, de viajar. Temos que estudar as mesmas matérias, ler os mesmos livros. Sabemos que temos que aprender inglês, não para passar de ano, mas para sabermos nos comunicar cada vez melhor, com as pessoas que encontramos nas viagens...

iG Jovem: Fora viajar, o que mais vocês gostam de fazer?
Ler, passear com nosso cachorro e andar de patins.

iG Jovem: O que vocês aprenderam sobre preservação ambiental e sustentabilidade?
Aprendemos que as atitudes que tomamos aqui geram consequências em lugares que nem imaginamos. Jogar uma tampinha plástica no mar pode matar um albatroz. Um saco plástico na calçada pode matar muitas tartarugas... Que óleo no mar pode matar muitas aves e mamíferos aquáticos. Por isso temos que ter cuidado com o que jogamos fora e onde estamos colocando.

iG Jovem: Como vocês fizeram o livro?
Reunindo conhecimento, experiências e imagens. As informações dos nossos diários e cadernos de desenhos foram essenciais.

iG Jovem: Que parte dele vocês mais gostam?
A parte que mais gostamos é dos comentários das nossas experiências pessoais. São relatos muito divertidos.

iG Jovem: Vocês brigam às vezes?
Sim. É normal, como todas as irmãs fazem. Mas no final a gente sempre se entende.

iG Jovem: Como é a personalidade de cada uma?
A Tamara é a mais ousada. A Laura é cuidadosa e a Marininha, a caçula, gosta de fazer um charminho para conseguir o que quer.

iG Jovem: Quais planos vocês têm para o futuro?
Lançar o nosso livro e, se possível, conseguir editá-lo em inglês.

SERVIÇO
Livro: "Férias na Antártica"
Autoras: Laura, Tamara e Marininha Klink
Editora: Grão
Preço sugerido: R$ 42
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Por Nathália Ilovatte, iG São Paulo

domingo, 1 de agosto de 2010

Células-tronco

Doutora em microbiologia e professora
do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília,
Lenise Garcia esclarece algumas dúvidas comuns
sobre o uso e a pesquisa das células-tronco.



Há quanto tempo se fala em uso das células-tronco como esperança de cura?
O primeiro uso foi há mais de 40 anos, com células-tronco de medula óssea para tratamento de leucemia e outras patologias sanguíneas. O uso em outras doenças vem sendo pesquisado há cerca de 20 anos.

Quais são os tratamentos já consolidados e com resultados comprovados?
Como tratamento consolidado, o transplante de medula, com o uso das células de medula óssea de doadores de cordão umbilical. No caso de outras doenças, há muitos experimentos em fase final de teste clínico. Isso significa que muitos pacientes já foram curados, ou existe melhora, mas se considera ainda em fase experimental. Listam-se as patologias cardíacas, acidente vascular cerebral, doenças degenerativas. Células do cordão umbilical têm dado bons resultados, substituindo as de medula. Mais de 70 doenças estão sendo pesquisadas com o teste clínico das células-tronco, chamadas “adultas” (em contraposição às embrionárias).

Quais as diferenças entre as diversas células-tronco presentes em nossos tecidos?
Temos células-tronco em todos os tecidos, por isso eles se regeneram. Costumo dizer que, se elas não existissem, seríamos cheios de buracos. São elas que atuam na permanente regeneração da nossa pele, do nosso sangue, que corrigem um osso quebrado ou um corte. Mas só recentemente desenvolvemos tecnologia para extraí-las, desenvolvê-las in vitro e usar para tratamentos específicos. As de medula e do cordão umbilical são as mais fáceis de obter. Sendo pluripotentes podem ser usadas em tratamentos diversos. Mas há casos que exigem mais especificidade, como as de retina, que já estão proporcionando tratamento de deficiências visuais.

Quais são as grandes promessas dos tratamentos com esses tipos de células?
Não podemos generalizar. Nem sempre há cura, muitas vezes apenas melhora. Doenças que envolvem degeneração celular são as que mais são objeto do tratamento. Também quando há grande perda celular, por exemplo, por acidentes.

Quais são os maiores impedimentos de começar testes e tratamentos com células-tronco em pacientes?
A dificuldade está em ter o controle sobre o crescimento celular. Esse é o maior problema técnico com as células-tronco embrionárias, que nos experimentos em camundongo ou outros animais muitas vezes levam à formação de tumores. Por isso, até hoje, não existem testes clínicos com células-tronco embrionárias. A pluripotência dessas células, muitas vezes apresentada como vantagem, pode ser também um problema, pois a célula pode se transformar em uma diferente da que necessitamos. Ninguém deseja um dente crescendo no cérebro. Todos os tratamentos existentes e testes clínicos são com células-tronco adultas. Outra vantagem da célula adulta é que ela pode, muitas vezes, ser extraída do próprio paciente, evitando problemas de rejeição.

Quais são as técnicas, hoje conhecidas e pesquisadas, para usar uma célula-mãe e transformá-la em outros tecidos?
As técnicas são complexas, mas em geral podemos dizer que se usam fatores de crescimento e diferenciação. Ainda conhecemos pouco os fatores que agem naturalmente ao longo de todo o nosso desenvolvimento. À medida que forem sendo descobertos, abrirão novas possibilidades.

Como você avalia o futuro do uso terapêutico das células-tronco?
Penso que as células-tronco adultas abrem inúmeras possibilidades. Elas são responsáveis pelas regenerações naturais do organismo e, quanto mais entendermos esse fenômeno, melhor poderemos amplificar o seu potencial. A grande promessa não está em ter “uma célula para tudo”. Os antigos sonhavam com panaceias, o “remédio para qualquer doença”, mas o desenvolvimento da farmácia e da medicina se deu com “um remédio para cada coisa”, pois a especificidade é uma exigência da natureza e o efeito específico tem menos risco de provocar danos. Penso que a terapia celular seguirá os mesmos rumos, teremos uma gama muito diferenciada de tratamentos, a partir das diferentes células-tronco adultas.
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Fonte: Correio Braziliense online, 01/08/2010

O poder do riso

Equipe de cientistas das universidades de Newcastle,
na Inglaterra, e de Tuebingen, na Alemanha,
mapeiam como o cérebro humano percebe diferentes tipos de risadas
e concluem que é mais fácil mostrar sentimentos rindo
do que falando





O homem se tornou o que é graças a uma habilidade que o diferencia dos outros animais: a fala(1). Com ela, a humanidade conseguiu criar códigos, transmitir ensinamentos de geração para geração, combinar estratégias em grupo e uma série de outras coisas que fizeram da espécie a mais evoluída da Terra. Porém, a comunicação não precisa ser verbal para funcionar. Posturas, gestos e até mesmo risadas dizem muito sobre a situação. Afinal de contas, não é preciso ser um gênio da raça para perceber um sorriso amarelo ou uma gargalhada de sarcasmo.

As possibilidades do riso foram mapeadas por cientistas das universidades de Newcastle, na Inglaterra, e de Tuebingen, na Alemanha. A equipe queria verificar como ocorre a percepção das diferentes risadas no cérebro humano, ou seja, quais partes do órgão são ativadas conforme a informação recebida por meio de estímulos externos. “A gente tem a capacidade de perceber a emoção do outro, um processo que chamamos de empatia”, detalha a neurologista Sônia Brucki, do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Associação Brasileira de Neurologia (ABN). Essa emoção pode ser verificada com o olhar, com o tato, com o tom de voz e pela forma como as palavras são pronunciadas, entre outras referências.

No estudo da risada, os pesquisadores usaram a audição para definir a emoção contida nas gargalhadas. Oito atores profissionais gravaram diferentes tipos de risos — um para diversão, outro para o sarcasmo e outro para cócegas. Voluntários tinham que ouvir as risadas e identificá-las enquanto passavam por uma máquina de ressonância magnética funcional (veja infografia). “Para fazer a pesquisa, nós fomos guiados por três motivações: diversão, curiosidade e por uma interessante hipótese de Charles Darwin, que diz que a risada pode ser o elo entre a comunicação animal e as faculdades humanas da linguagem”, explica o pesquisador Kai Alter, do Instituto de Neurociência da Universidade de Newcastle.

Darwin, o criador da Teoria da Evolução, chegou a escrever um livro(2) sobre o assunto. Na obra, ele afirmava que a comunicação das emoções precedeu a origem da linguagem verbal entre os homens. “Essa ideia é muito antiga, mas ainda é um campo de debate entre os autores. Alguns dizem que a fala surgiu da linguagem gestual. Outros afirmam que se originou a partir de vocalizações”, diz o professor Paulo Dalgalarrondo, chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Campinas (Unicamp). “A risada, o choro, as expressões de raiva, medo, são formas de comunicação emocional que os animais têm, assim como nós”, completa o especialista.

Mais simples

Por que, afinal, estudar a risada? Por ser diferente da fala, ela ativa partes do cérebro que não são usadas durante a comunicação verbal. “A risada é uma forma de tratar a informação emocional sem dizer palavras ou frases. Ela é mais fácil, porque não tem informações sintáticas ou semânticas”, diz Kai Alter, que estuda linguística e fonética desde o início da década de 1990. Assim, seria mais simples perceber o significado de uma risada do que o de uma sentença. O caminho inverso também seria menos complexo: para o cérebro, é mais fácil mostrar sentimentos rindo do que falando.

Isso pode parecer pouco, mas a ideia dos pesquisadores é explorar o resultado do estudo para estabelecer novos canais de comunicação com pessoas que têm a fala prejudicada. “Com isso, podemos descobrir os mecanismos cerebrais básicos e entender como a informação emocional é processada”, detalha o pesquisador da Universidade de Newcastle. Durante a pesquisa, ficou comprovado que o riso ligado puramente à emoção (diversão ou sarcasmo) ativa o lobo frontal. Já a gargalhada de cócegas mexe com a região acima do sulco temporal superior. “Essa área também é conhecida pelo processamento de parâmetros de voz. É por isso que a risada de cócegas soa tão diferente das outras duas”, diz Kai Alter.

No futuro, os principais beneficiados da pesquisa da risada deverão ser os portadores de doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Essas doenças provocam a perda progressiva dos neurônios, afetando funções cognitivas, como a leitura, a capacidade de cálculo e a fala. O problema também pode ocorrer em pacientes que sofreram derrames cerebrais. O acidente vascular cerebral (AVC) mata células responsáveis por essas funções, mas normalmente restringe isso a uma área determinada do órgão. No caso das doenças degenerativas, o mapeamento das consequências é mais complicado. “A gente não sabe muito bem o que acontece nas regiões cerebrais quando há o comprometimento”, afirma a neurologista da ABN Sônia Brucki.

Geralmente, portadores de Alzheimer(3) com estágio avançado de demência têm dificuldade para diferenciar emoções da forma “tradicional”. “Se alguém mostra um cartão com uma face alegre, com medo ou com raiva, a pessoa não consegue distinguir esses sentimentos”, explica Sônia. A neurologista, no entanto, lembra que os pacientes reconhecem um sorriso e conseguem sorrir. Não à toa, muitos tratamentos alternativos para o mal trabalham com a demonstração de afeto entre pacientes e cuidadores. “Quem tem demência grave não responde verbalmente, mas consegue perceber um sorriso. Esse estudo ajuda a desvendar esses mecanismos”, aponta a especialista.

1 - Evolução recente
A espécie humana surgiu há cerca de 40 milhões de anos, mas a fala só se desenvolveu nos últimos 55 mil anos. Antes dela, a comunicação entre indivíduos era baseada em gestos e sinais. Já a escrita surgiu ainda mais recentemente: há cerca de 4,5 mil anos, marcando o fim da Pré-História.

2 - Emoção comum
O livro A expressão das emoções no homem e nos animais foi lançado por Charles Darwin em 1872. É uma das três obras que completam o famoso A origem das espécies, na qual o naturalista define a sua Teoria da Evolução. A obra foi composta a partir da colaboração de outros cientistas e de observações que o próprio Darwin fez do choro de seus filhos e de reações de animais domésticos.

3 - Mal silencioso
Os pesquisadores ainda não sabem o que causa a doença de Alzheimer, nem como ela evolui no organismo. É certo, contudo, que os riscos aumentam com o passar da idade. Estudos mostram que, em um grupo de 100 pessoas com mais de 90 anos, a incidência do mal pode chegar a 40%. Aos 60, ele atinge de 2% a 3% dos idosos.
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Reportagem por:Carolina Vicentin
Fonte: Correio Braziliense online, 01/08/2010

Nacionalismo, liberalismo e capitalismo

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA*

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Quando Arábia Saudita e Egito se subordinam aos países ricos,
é porque seu avanço econômico é lento

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"THE ECONOMIST" (17 de julho) publicou editorial sobre o Egito e a Arábia Saudita (dois países ditatoriais aliados aos EUA no Oriente Médio) manifestando a esperança que se democratizem no futuro.

O surpreendente, entretanto, é que no mesmo número a revista faça resenha simpática de livro de Stephen Kinzer, ex-jornalista do "New York Times", que, depois de fazer a análise das revoluções nacionalistas e capitalistas em curso nesses países desde os anos 1920, defende a aliança dos Estados Unidos com a Turquia e o Irã.

Talvez essa atitude da grande revista liberal seja um sinal dos tempos. Reflita a desmoralização da ideologia "globalista" que caracterizou os 30 Anos Neoliberais do Capitalismo (1979-2008) -uma ideologia que condenava o nacionalismo dos países em desenvolvimento enquanto os países ricos praticavam sem hesitação seu próprio nacionalismo.

Historicamente, liberalismo e nacionalismo econômico sempre estiveram às turras, mas são ideologias complementares. Foi através do nacionalismo que os Estados-nação se formaram, e foi através desse processo que suas fronteiras foram ampliadas e que mercados internos amplos e seguros se constituíram viabilizando a industrialização.

Em outras palavras, foi através da combinação de nacionalismo e liberalismo que Estados-nação como a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos realizaram suas revoluções capitalistas.

Só foi possível ao globalismo criticar o nacionalismo econômico (esquecendo quão diferente é do horrível nacionalismo étnico) porque o nacionalismo dos países ricos não estava ameaçado: ninguém nesses países duvida que o papel do seu governo é defender o trabalho, o conhecimento e o capital nacionais.

Sem dúvida, seria melhor um mundo sem nacionalismos, mas esse seria um mundo encantado. Na realidade, a sociedade mundial está hoje organizada em famílias, organizações e Estados-nação.

Espera-se que cada indivíduo, primeiro, se solidarize com sua família, com as organizações das quais participa, e com seu país, para, depois, buscar interesses comuns e defender a cooperação entre todos. O globalismo ensina (e as elites dependentes acreditam) que os países ricos estão prontos a cooperar; não percebem que o que realmente os move são seus interesses nacionais.

Quando países como a Arábia Saudita e o Egito se tornam subordinados aos países ricos, isso significa que suas elites estão alienadas, que seu desenvolvimento econômico é lento, que a corrupção é elevada, e que a desigualdade econômica só aumenta.

Quando países como o Irã usam da religião para fortalecer seu nacionalismo, estão adotando uma velha prática para alcançar coesão nacional e completar sua revolução capitalista -uma condição essencial para que transitem para democracias consolidadas.

Enquanto os países ricos não compreenderem que esse nacionalismo religioso não é contra eles, enquanto seus porta-vozes continuarem a criticar o governo autoritário do Irã, enquanto apoiam ditaduras que não oferecem nenhuma perspectiva a seu povo, como a Arábia Saudita e o Egito, eles estarão trocando interesses de curto prazo de algumas de suas empresas pelo seu próprio interesse nacional.
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*Luiz Carlos Bresser Gonçalves Pereira (São Paulo, 30 de junho de 1934) é um economista, cientista político e político brasileiro.
Fonte: Folha online, 01/08/2010

Vazamento em estado bruto

Para vencedor do Pulitzer,
a divulgação de 92 mil registros secretos atesta que a América é um navio fazendo água


Uma ampulheta aprisiona dois mundos. O primeiro, opaco, de onde vazam segredos sujos, aos poucos se destrói - para então se recompor em um planeta novo, mais transparente, honesto. É esse o logo e a filosofia da ONG WikiLeaks, que se disseminou em jornais e blogs nessa semana ao divulgar 92 mil documentos das ações militares americanas e de forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão durante os anos de 2004 a 2009 da era Bush filho. "Eu adoro esmagar canalhas", disse o idealizador do site e hacker australiano Julian Assange, em entrevista coletiva em Londres, referindo-se aos responsáveis por supostos crimes de guerra revelados pelo calhamaço de relatórios publicado simultaneamente pela revista alemã Der Spiegel, pelo jornal britânico The Guardian e pelo americano The New York Times. Entre as denúncias estão descrições detalhadas de execuções de civis, a existência de um esquadrão encarregado de "capturar ou matar" sem julgamento 70 líderes do Taleban e evidências do envolvimento do serviço secreto do Paquistão, aliado americano na guerra, com o movimento fundamentalista afegão.


Max Nash/AP
Após revelação dos documentos, Assange, do WikiLeaks, bradou: ‘Adoro esmagar canalhas’

Em sua home page, o WikiLeaks se define como uma "avenida global" para a disseminação de documentos de interesse público. Ali, qualquer pessoa pode divulgar o que quiser sobre quem quiser. Sem amarrações e em total anonimato. Nem os organizadores do site têm acesso à identidade de suas fontes. Mesmo assim, o soldado Bradley Manning, de 22 anos, foi apontado como responsável pela extração dos registros do sistema interno de inteligência do Exército e pela postagem do conteúdo no site de Assange.
Manning já era o suspeito-mor de ter divulgado em abril, também no WikiLeaks, um vídeo mostrando, do interior de um helicóptero Apache americano, uma operação em Bagdá que resultou na morte de 11 civis iraquianos, dois jornalistas da Reuters - e nenhum insurgente. Em 2008, o WikiLeaks pipocou no noticiário internacional quando publicou uma cartilha do Exército americano que ensinava como seus soldados deveriam tratar os prisioneiros de Guantánamo e quando espalhou a conta de e-mail de Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e candidata a vice-presidente na chapa do republicano John McCain. Mas em nenhum dos casos o site recebeu tanta atenção quanto agora.
Entusiasmado com a enorme repercussão do agora chamado Diário de Guerra do Afeganistão, Julian Assange chegou a compará-lo em importância aos Papéis do Pentágono. A divulgação desse material secreto, entregue em 1971 ao The New York Times pelo analista militar e ex-funcionário do Pentágono Daniel Ellsberg, teria contribuído para o fim da Guerra do Vietnã. O mesmo não se dará em relação aos documentos do WikiLeaks, avalia o repórter investigativo do NYT e vencedor do Prêmio Pulitzer de jornalismo em 1988, Tim Weiner, para quem a comparação entre os dois vazamentos é completamente forçada. "Os Papéis do Pentágono eram 47 volumes de análise histórica cruciais para o cidadão americano entender que a guerra não poderia ser ganha com poderio militar. O material do WikiLeaks é uma tonelada de informação bruta." E completa: "Tentar obter informação útil do serviço de inteligência americano é como tentar beber um gole d’água em uma mangueira de incêndio".
Autor de um livro sobre a história da CIA, Legado de Cinzas, publicado no Brasil pela editora Record, Weiner é especialista em segredos de Estado. A ele foi concedido o prêmio mais importante do jornalismo americano por uma série de reportagens publicadas no The Philadelphia Inquirer nas quais desmascarou um orçamento secreto do Pentágono usado pelo governo para financiar a pesquisa e o desenvolvimento de novas armas. Weiner é um crítico ferrenho do serviço de inteligência americano, que, a seu ver, não cumpre o papel de assessorar a tomada de decisões estratégicas bem fundamentadas e conscientes. "O mais poderoso país do Ocidente falhou em criar um serviço secreto de primeira categoria", escreve Weiner em seu livro sobre os inúmeros erros da CIA. Para citar alguns, ele menciona a incompetência da agência em calcular as reais chances de vitória na invasão da Baía dos Porcos, em 1961, a incapacidade de prever o 11 de setembro e a invenção de que no Iraque havia armas de destruição em massa, argumento usado pelos americanos para invadir o país e depor Saddam Hussein. "Quando a inteligência falha, pessoas morrem." E a resistência da população local aumenta. É assim que se perde uma guerra contra um oponente infinitamente mais fraco, alerta Weiner.

Veja a entrevista com Eric Stover, da Universidade da Califórnia


É possível controlar a circulação de informações na era do WikiLeaks?
Primeiro, os documentos publicados pelo WikiLeaks traziam o selo de "secreto". O governo americano produz milhões de documentos "secretos" por ano. Acima do "secreto" existe o "top secret". E, acima do "top secret", incontáveis programas criptografados com senhas. Quando tudo é secreto, nada é secreto. Você não consegue manter segredos em uma sociedade aberta. A América é um navio com um furo no casco.

Recentemente o jornal The Washington Post publicou uma série de reportagens sobre o sistema de inteligência dos EUA mostrando que hoje 854 mil pessoas têm acesso a informações consideradas sigilosas. A rede de inteligência americana fugiu do controle?
Tentar obter informação útil do serviço de inteligência americano é como tentar beber um gole d’água em uma mangueira de incêndio. O sistema ejeta uma enorme massa de informação bruta, que sufoca a capacidade humana de análise e compreensão. As organizações de inteligência têm o propósito de servir como ferramentas para traçar estratégias inteligentes. Raramente elas cumprem esse papel. Quando a inteligência falha, pessoas morrem - soldados e civis. Presidentes e generais tomam decisões ignorantes. Exércitos atacam alvos errados. Quando as forças militares americanas e as tropas da Otan matam civis, o Taleban ganha pontos incalculáveis na batalha pela aliança da população local. Essa é uma das formas pelas quais uma nação pode perde a guerra contra uma guerrilha muito mais fraca, como aconteceu conosco no Vietnã.

Parece que os 92 mil documentos divulgados tem chocado mais pelo volume que pelo conteúdo. Quais podem ser as consequências políticas do episódio para o governo Obama?
Poucas informações divulgadas pelo WikiLeaks eram novidade para quem lê o trabalho de jornalistas e de organizações de direitos humanos que atuam no Afeganistão. É importante notar que os documentos cobrem o período de 2004 a 2009; portanto, são registros da guerra de Bush, não da de Obama. A informação muda muito pouco as estratégias e táticas de guerra que Obama adotou. Tanto que a Câmara de Representantes dos EUA aprovou na terça-feira, por 308 votos contra 114, a injeção de mais US$ 60 bilhões no conflito.

O vazamento poderá contribuir para o fim da guerra?
A guerra vai continuar. Os afegãos lutaram contra Alexandre, o Grande, os mongóis de Gengis Khan e Tamerlão, os britânicos, os russos e, agora, os americanos. Perderam muitas batalhas, mas nunca foram conquistados. Estive no Afeganistão sete vezes. Pelo que vi, acredito que os objetivos originais dessa guerra - matar os líderes da Al-Qaeda e neutralizar o Taleban - se perderam muitos anos atrás sob o governo Bush. Se a missão agora é a reconstrução do país a fim de transformá-lo em uma nação estável, depois de 30 anos de ocupação soviética e da ocupação americana, acredito que isso possa ser conseguido... em mais 30 anos.

O Diário de Guerra do WikiLeaks está sendo comparado aos Papéis do Pentágono.
A comparação é falsa. Os Papéis do Pentágono eram 7 mil páginas de documentos, em 47 volumes, de análise histórica preparada por experts sob o comando do secretário da Defesa de Kennedy e Johnson, Robert McNamara. Os papéis foram cruciais para os americanos entenderem que a guerra era política e não podia ser ganha com poderio militar. Considerado o mais grave vazamento da história do serviço de inteligência americano, os Papéis do Pentágono eram uma crônica das dificuldades dos americanos no Vietnã. O material do WikiLeaks são milhares de relatórios brutos da inteligência americana. Os Papéis do Pentágono foram muito mais importantes para virar a opinião pública dos americanos contra a guerra. Eles são a história supersecreta da Guerra do Vietnã de 1954 a 1967. Quando o presidente Nixon tentou impedir sua publicação, ele deu início a uma batalha contra vazamentos que, no final das contas, o levaram à autodestruição. Os papéis do WikiLeaks não trazem revelações importantes sobre a guerra. Eles adicionam detalhes de questões já bem conhecidas e compreendidas pelos que acompanham as notícias sobre o Afeganistão, que são a minoria do povo americano. No curto prazo, os documentos podem ajudar a focar a atenção do público dos EUA na guerra. Mas a terrível verdade é que milhões de americanos nada sabem sobre o Afeganistão e sua única preocupação é com os soldados americanos que estão morrendo nesse conflito.

O que significa contar a verdade sobre a guerra?
É o papel da inteligência - e dos jornalistas - penetrar o nevoeiro da guerra. Mas não existe uma coisa como total transparência em tempos bélicos. A névoa sempre ganha. Para citar McNamara: "A guerra é tão complexa que ultrapassava a habilidade da mente humana de compreender todas as suas variáveis. Nosso julgamento, nosso entendimento, não são adequados. E nós matamos pessoas sem necessidade." Essa é a verdade da guerra.

Assange, como Daniel Ellsberg, vem sendo acusado de ignorar os interesses nacionais. Foi essa uma ação irresponsável ou uma vitória jornalística?
Nenhuma das duas coisas. É uma parte natural e inevitável do embate em tempos de guerra entre o Pentágono e seus opositores em casa e no exterior.

Uma organização como o WikiLeaks - sem sede em nenhum país e, portanto, sem ter de obedecer a nenhuma lei - propicia a qualquer pessoa espaço para postar informações e opiniões, sob total anonimato. Será esse o futuro do jornalismo investigativo?
Se formos definir vazamentos de dados como revelações não autorizadas de informações confidenciais, então a única novidade que o WikiLeaks traz é o método de distribuição. O jornalismo investigativo não se baseia só em vazamento, mas na pesquisa detalhada e paciente.
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Reportagem por CAROLINA ROSSETTI
Fonte: Estadão online, 31/07/2010 e IHU online, 01/08/2010

Os últimos olés da Catalunha

Não adianta resistir: por decreto ou não, as touradas desaparecerão um dia,
como desapareceu há 32 anos o garrote vil

SÉRGIO AUGUSTO*
Na arena, o sofrimento inútil de um ser vivo para deleite de uma assistência sadomasoquista

Para as touradas na Catalunha, soou a hora da verdade. Por 68 votos a favor, 55 contra e 9 abstenções, o Parlamento catalão decidiu, na quarta-feira, que as corridas estão fora da lei na região. Ou melhor, estarão a partir de 1º de janeiro de 2012. Até lá, as Ilhas Canárias continuarão sendo a única comunidade autônoma da Espanha onde tourear é proibido, desde 1991. O verdadeiro "esporte nacional" das Canárias agora é o futebol.

Da Catalunha também. Já o era bem antes do triunfo da Fúria na Copa, pois há décadas as touradas vêm perdendo público em todo o país; hoje é passatempo de uma minoria, minguante sobretudo entre os jovens e os turistas. Abandonadas até por aficionados da velha guarda - "cansados de suportar com estoicismo um espetáculo caduco, tedioso e manipulado", na avaliação de Antonio Lorca (El País, 29/7/2010) -, as touradas sobrevivem à custa de subsídios do governo que o status de "patrimônio cultural" lhes garante.

Barcelona, a capital catalã, só dispõe atualmente de uma arena de touros (La Monumental), palco de 15 corridas anuais; a outra virou shopping. A que existia nas Canárias renasceu como arena musical. Deverá ser esse o destino de La Monumental. Sai José Tomás, entra José Carreras (e assim mesmo como Don José, não como Escamillo).

Os touros agradecem. "Chega de fazer da tortura a animais um entretenimento", festejou Nacho Paunero, presidente do grupo de defesa dos direitos de animais que comandou a coleta das 50 mil assinaturas que deram origem à histórica votação abolicionista de quarta-feira.

A criminalização da tourada não foi, portanto, ao contrário do que muitos taurófilos e diversos neutros espalharam, um golpe parlamentar, uma jogada política eleitoreira, um xaveco nacionalista visando a distinguir a Catalunha do resto da Espanha, mas a última faena de uma luta popular, democrática, seguindo os trâmites exigidos pela ordem jurídica, após amplo debate canalizado institucionalmente desde novembro de 2008, à luz de depoimentos de etólogos, filósofos, toureiros e defensores dos direitos dos animais. Em questão, apenas uma questão: o sofrimento inútil de um ser vivo para deleite de uma assistência sadomasoquista.

O filósofo Fernando Savater, a quem muito admiro, saiu em defesa da tauromaquia. Não porque aprecie touradas, mas por ser contra que assembleias "estabeleçam pautas de comportamento moral para os cidadãos", muito menos um Parlamento laico, como o da Catalunha. Até aí morreu Manolete. Savater, porém, não precisava ter comparado a decisão dos deputados catalães às sanções do Santo Ofício, exagero incompatível com sua fina inteligência, ainda mais comprometida pela acrítica acolhida que em seu protesto deu aos clichês propagandísticos da taurofilia: "costume arraigado no país", "uma forma de vida popular", uma arte secular a ser preservada, etc.

Tradições não são eternas, nem sagradas. Se o fossem, ainda estaríamos queimando feiticeiras e empalando gatos pretos ou sacrificando as viúvas, como se fazia na Índia, e os criados, como se fazia no Egito. Também pertencem à ordem das tradições e dos costumes mutilar a genitália feminina, em alguns países africanos, e judiar dos bois, como naquela farra de origem açoriana promovida todos os anos em Santa Catarina. Tradições e costumes bárbaros, incompatíveis com o que reconhecemos como mundo civilizado, ainda que nele se pratique a caça à raposa e se comam foie gras e carne de vitela.

"Comparada à vida de outros animais, a do touro é principesca", ponderou Savater. Pode ser. Mas, como provam os etólogos, o touro se estressa e sente dor, e esse é o limite da polêmica. Houve um tempo em que o mundo das touradas era sempre glamourizado e romantizado, na imprensa, na literatura, no cinema. Mesmo em romances cujos autores se diziam ideologicamente contra as corridas, como Sangue e Areia, do valenciano Vicente Blasco Ibáñez, a aura romântica não sofria um arranhão. Ernest Hemingway, primeiro com O Sol Também se Levanta, depois com Death in the Afternoon, contribuiu como nenhum outro para a sacralização da tourada como uma obra de arte, como um espetáculo transcendental, como uma tragédia sobre a fragilidade da vida e a ritualização da morte - verônicas retóricas diversas vezes denunciadas como afetações típicas de um machão suicida.

Enquanto durou o encanto, a indústria de criar e matar touros de lida faturou horrores (literalmente, inclusive) e os toureiros curtiram uma dulce vida de artista pop e ídolo esportivo, com permanente acesso aos mais nobres salões da Europa e aos mais cobiçados leitos de Hollywood. Só Luis Miguel Dominguín namorou Ava Gardner, Lana Turner, Rita Hayworth, até casar com a italiana Lucia Bosé. Antonio Ordóñez foi íntimo de Hemingway e Orson Welles. Os comuns mortais babavam de inveja.

De todo modo, já havia naquele tempo quem reverenciasse mais a memória de Bailador e Islero, os legendários touros que deram cabo, na arena, de Joselito e Manolete, quiçá os maiores matadores de todos os tempos. Do nome do touro que chifrou mortalmente Juan Gallardo não me lembro. Gallardo era o fictício toureiro de Sangue e Areia, encarnado no silencioso por Rodolfo Valentino e, no falado, por Tyrone Power.

Os socialistas ibéricos sempre simpatizaram com os touros. Antes da tomada do poder pelo franquismo, os mais radicais entre eles deram uma de MST (ou de Peta, como queiram), invadindo fazendas de criação de touros para soltar os bichos e, não raro, punir exemplarmente ganadeiros e toureiros. "Um matador a menos é um fascista a menos", justificavam-se. É histórica a ligação dos fascistas espanhois com taurófilos e toureiros. Dominguín foi companheiro de caçadas de Franco.

Os políticos conservadores da Espanha são contra a proibição das touradas. Maioria em diversas regiões, tudo farão para evitar que a lição da Catalunha frutifique pelo resto do país. Esforço inútil. Por decreto ou não, as touradas desaparecerão um dia. Como desapareceu há 32 anos o garrote vil.
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*Sérgio Augusto (Rio de Janeiro, 1942) é um jornalista e escritor brasileiro.
Começou sua carreira como crítico de cinema do periódico Tribuna da Imprensa, em 1960. Trabalhou também nos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, nas revistas O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Veja e IstoÉ e nos semanários O Pasquim, Opinião e Bundas.
Foi repórter especial da Folha de São Paulo de 1981 a 1996 e, atualmente, escreve no Caderno 2 de O Estado de São Paulo e na revista Bravo!. É bastante conhecido por seu estilo erudito, sarcástico e nostálgico, mas uma nostalgia crítica e irônica. (Wikipédia - a enciclopédia livre).
Fonte: Estadão online, 31/07/2010

A justiça do homem pequeno

Suborno, propina e corrupção são considerados aqui
componentes da estrutura da sociedade,
artifícios para torná-la viável para os que consideram
os rigores da lei um defeito social e político

JOSÉ DE SOUZA MARTINS*

Não fosse Rafael filho de atriz, é improvável que policiais fossem presos
A enraizada prática do suborno entre nós só vem a lume com alguma intensidade na repercussão de episódios graves, como este de agora, ocorrido no Rio de Janeiro, relativo à compra da omissão de dois policiais militares em caso de atropelamento fatal. Não fosse a vítima filho de atriz conhecida, é bem pouco provável que o caso tivesse a repercussão que vem tendo e menos provável ainda que os policiais envolvidos tivessem sido presos tão prontamente como foram.

Um dos nossos grandes equívocos nessa matéria é o de pensar que a corrupção é apenas um defeito pessoal de caráter e uma exceção. Na verdade, a dificuldade para varrê-la de vez do cenário brasileiro está no fato de que o suborno, a propina e a corrupção em geral são aqui componentes da estrutura da sociedade. São mecanismos e artifícios para torná-la viável para os que consideram os rigores da lei um defeito social e político. Ou que as leis são feitas para relevá-las no difundido comércio do seu descumprimento. O vocabulário que designa os atos de cotidiana corrupção, que facilitam para os inescrupulosos o transcorrer do dia a dia, já é indicativo de como a anomalia está presente na consciência social: "molhar a mão", "adoçar o bico", "amaciar o motor", "dar um jeito", "esquecer", "olhar para o outro lado", "dar um agrado". Todas elas expressões do entendimento de que a honestidade e a correção, sobretudo do funcionário público, é que são anômalas e injustas porque dificultam o arbítrio e a conveniência pessoais.

É essa consciência a do divórcio entre a sociedade e o Estado, expressão da insegurança social quanto à eficácia do poder público e, sobretudo, quanto ao funcionamento e à distribuição da justiça. É a descrença geral nas instituições que acaba sugerindo a cada um que se antecipe à aplicação da justiça para se inocentar preventivamente. É esse temor que faz do próprio cidadão, como nesse caso, o corruptor daquele funcionário público de exceção que é incapaz de conceber-se como cumpridor impessoal da lei.

Os parâmetros pedagógicos dessa modalidade de delinquência estão em toda parte. Se os do mensalão podem, e não lhes acontece nada, e seu prestígio até cresce, por que não pode agir do mesmo modo o minúsculo funcionário, policial ou não? Se a Lei da Ficha Limpa é diariamente flexibilizada em favor de poderosos de ficha suja, por que não pode o meganha da esquina agir como tribunal de Justiça, recebendo agrados para pré-interpretar a lei e fazê-la mais leve para os que se consideram mais iguais do que os mortais comuns? Se o próprio eleitorado reelege e consagra corruptos e cassados da grande corrupção, que mérito podem ter a honestidade e a correção do homem pequeno que em nome do Estado é o elo entre o poder e o cidadão da rua?
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*JOSÉ DE SOUZA MARTINS, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE A APARIÇÃO DO DEMÔNIO NA FÁBRICA (EDITORA 34) E A SOCIABILIDADE DO HOMEM SIMPLES (CONTEXTO)
Fonte: Estadão online, 31/07/2010

Crime animalesco?

A pedofilia é comportamento humano e mostra os labirintos de nossa sexualidade,
que caminha longe dos padrões instintivos

SÉRGIO TELLES*

Essa semana a Polícia Federal prendeu vários pedófilos, fruto de investigações realizadas em protocolos da internet que possibilitam o rastreamento daqueles que a usam para veicular material com tal especificidade. Dentro desse critério, o Brasil é o quarto país no ranking mundial da pedofilia.

DivulgaçãoBlitz da PF abrangeu 9 Estados

Através de suas redes sociais, a internet possibilita a comunicação entre pessoas que compartilham interesses semelhantes, mesmo os mais inusitados, facilitando-lhes a formação de grupos e a troca de experiências. Como não seria difícil imaginar, essa possibilidade até então inexistente nas comunicações humanas logo foi tomada pela atividade que nos é de tão grande relevância - a sexualidade. Isso fez com que modalidades do desejo sexual antes extremamente reprimidas e confessadas apenas nos consultórios de psicanalistas e orientadores religiosos pudessem se manifestar, adquirindo expressão e visibilidade. É o caso, entre outros, da pedofilia.

Talvez não saibamos ainda como lidar com isso. Haveria um perigo social na expressão dessas modalidades sexuais que se afastam das normas? Seria necessário o restabelecimento da repressão? Ou a manifestação dessas fantasias e desejos desviantes possibilitaria uma descarga, com posterior elaboração e integração? Como proteger crianças e menores quanto à exposição desse material sem cercear a liberdade de adultos desejosos de a ele ter acesso quando bem quiserem? Como distinguir entre hipocrisia e pedestre bom senso?

Por outro lado, vincular à internet a pedofilia faz com que o desconhecido monstro pedófilo, sempre à espreita para atacar vítimas inocentes, fique distante, escondido nas escuras malhas da rede, em algum remoto lugar deste mundo globalizado. Por mais assustadora que seja essa ideia, ela serve como anteparo protetor de uma realidade oposta e ainda mais inquietante - a percepção de que o pedófilo não está longe nem é um desconhecido. Pelo contrário, na maioria das vezes, está muito próximo, no seio da própria família, entre os amigos mais íntimos, escondido no corpo de professores ou até mesmo nos recintos supostamente mais sagrados, como o das igrejas e seus representantes. Todos temos conhecimento dos recentes escândalos envolvendo a Igreja Católica.

Sabemos que qualquer relação sexual que não seja consensual se enquadra no exercício de poder do mais forte sobre o mais fraco. Quando se fala de pedofilia, é evidente que está em jogo o abuso do adulto sobre a criança.

Assim, é indiscutível que o pedófilo traumatiza a criança. Mas demonizá-lo é ignorar que a pedofilia é apenas uma das muitas formas pelas quais o adulto pode traumatizar uma criança. Estamos no mesmo âmbito da recente discussão sobre a "lei da palmada". Até que ponto os pais podem bater nos filhos?

O fulcro do problema é o poder do adulto que impõe seu desejo sobre a criança, abusando de seu corpo e de sua mente, nela extravasando seus impulsos eróticos e agressivos.

Mas também aí a questão não é simples. A criança, ao contrário do imaginário popular, não é um anjo inocente. Chesterton dizia como lhe era assustador ver uma criança, que até então tinha como pura e boa, torturar sadicamente um gato, demonstrando grande prazer nessa atividade. Não é por outro motivo que Freud considerava, para escândalo de muitos ainda hoje, ser a criança um "perverso polimorfo", no qual as pulsões agressivas e sexuais fluem descontroladamente e que tem precário contato com a realidade externa. É ela um pequeno ser que necessita ser humanizado. Para tanto, precisa ser erotizado e educado por adultos responsáveis, habitualmente seus pais.

Nesse processo, a criança está estruturalmente submetida ao desejo desses adultos. O problema é que tais adultos muitas vezes estão aquém de suas obrigações. Não são sujeitos "maduros", com suficiente conhecimento de si mesmos ou capacidade de controlar suas emoções, pois no interior de suas mentes, como acontece com todos nós, existe uma "criança" (seus aspectos infantis e inconscientes), que se confunde com a criança real de que devem cuidar, confusão que os impede de agir adequadamente. A pedofilia e a violência agressiva são exacerbações doentias das necessárias funções de erotizar e conter a criança em seus arroubos onipotentes.

Ao ler que nas imagens apreendidas pela Policia Federal aparece um homem tendo relações com um bebê de 6 meses, somos levados a pensar ser este um comportamento "animalesco". Derrida nos corrigiria, dizendo que estaríamos praticando uma injustiça com os animais. A pedofilia é um comportamento essencialmente humano, mostra dos meandros e labirintos por onde circula nossa sexualidade, que trilha caminhos simbólicos bem distantes dos imutáveis padrões instintivos próprios dos animais.
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* SÉRGIO TELLES, PSICANALISTA E ESCRITOR, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE FRAGMENTOS CLÍNICOS DE PSICANÁLISE
Fonte: Estadão online, 31/07/2010

TREM DA VIDA

Ana Suzuki *


Eu tinha um trem imaginário

rodando pelos trilhos da bondade,

até que um anjo mau

o fez descarrilar,

na estação da saudade.



Serenidade

Virei água morna,

que se recusa a ferver

e tampouco a esfriar.

E quero manter-me assim,

sem arrepios de gelo

nem tremores de fervura.

Virei rio de planície,

sem securas na vazante

ou desatinos na enchente.

Já não corro, só deslizo.

Entre lírios e serpentes,

eu deslizo.

(In Bodas de Coral)
© Ana Suzuki
Campinas (SP) – Brasil
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*Romancista. Premiada pela Associação Brasileira de Cultura Japonesa, o Bunka Kyokai, também o fui pela Aliança Cultural Brasil-Lituânia, a Sajunga, por haver também criado a primeira personagem lituana.

Linha direta para falar com Deus

Daniela Prandi*

O livro A Cabana veio parar nas minhas mãos por acaso. Dias antes, tinha visto a propaganda sobre a obra, do canadense William P. Young, e ficado impressionada. “Nossa, que poder tem a publicidade”, pensei. É que o anúncio dizia algo como: “e se você recebesse um bilhete de Deus?”

Por pura curiosidade, comecei a ler. Faz parte do meu trabalho, afinal, e o livro está há muitas semanas no topo da lista dos dez mais do The New York Times. No Brasil, assim que foi lançado pela editora Sextante, também passou a figurar entre os mais vendidos. Não amo nem odeio os best sellers, dou chance aos livros e, livre de qualquer preconceito, encaro leituras as mais variadas em minhas poucas horas de folga.

Ler A Cabana me fez refletir muito. O livro me encantou, me comoveu e, principalmente, fiquei maravilhada com a facilidade com que William P. Young conseguiu mostrar a sua história, uma trama tão bem-pensada e cinematográfica que, com certeza, deve virar filme de Hollywood.

A aventura de Mack, um homem cuja filha caçula é assassinada por um serial killer, tem todos os elementos para prender a atenção. O protagonista, revoltado com o que lhe aconteceu, recebe um bilhete de Deus. “Papai”, como assina, chama Mack para se encontrar com ele, na mesma cabana onde os restos da roupa que a filha vestia no dia de sua morte foram encontrados.

Ao chegar ao local, ele encontra seus anfitriões, nada menos que a Santíssima Trindade: Deus, Jesus e o Espírito Santo. A cabana abandonada está bem diferente da primeira vez em que esteve lá, e, agora, rodeada por jardins, exala um cheiro de comida irresistível. Naquele momento, Mack encontra Deus, materializado na forma de uma senhora negra, que está cozinhando guloseimas para ele. Jesus é um rapaz narigudo que trabalha na marcenaria e o Espírito Santo é uma mulher oriental, etérea, iluminada e misteriosa. Entre refeições fartas, passeios pela natureza e, até mesmo, uma visão do “Céu”, a trama prende a atenção e ajuda qualquer um com um mínimo de sensibilidade a pensar.

Mack passa algum tempo com cada um deles e, aos poucos, tenta entender a “grande tristeza” que sente enquanto vislumbra a “grande alegria” que aqueles três anfitriões exprimem em cada um de seus atos. O autor, vale informar, é estudioso da religião, e fez poesia com palavras simples para reforçar sua crença em um Deus bom, que ama a humanidade, que perdoa e que espera que homens e mulheres amem e perdoem uns aos outros. É tocante a seqüência em que o protagonista é chamado a perdoar o homem que matou a sua filha.

Young não faz qualquer tipo de pregação e até sugere que o relacionamento direto com Deus prescinde das igrejas. Muitas vezes, o que escreve na “voz” divina pode provocar polêmica nos religiosos mais tradicionalistas. Seus pais, missionários evangélicos, chegaram, inclusive, a considerar A Cabana “herético”.

O autor, que tem 53 anos, diz que escreveu o livro em um período difícil de sua vida, após perder um irmão e uma sobrinha de 5 anos. A escrita teria servido, ainda, para se libertar de um trauma da infância. Quando criança, foi levado por seus pais para viver em uma tribo em Papua Nova Guiné, onde acabou sofrendo abuso sexual.

Terminei A Cabana com uma sensação muito boa, admirada pela capacidade que certas pessoas têm para falar do espiritual com tanta leveza, sabedoria e talento. É como se ele tivesse sido tocado por Deus. E seus leitores, de certa maneira — e principalmente os mais abertos aos temas do mundo divino — também.
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*Daniela Prandi é editora do Caderno C.
E-mail: daniela@rac.com.br
OBS.: O texto é datado 18/12/2008.  Gostei. Há pouco, no colégio onde trabalho, a recepcionista lia o livro A CABANA. E lia com avidez. Cheguei a folhar o livro. Espírita, ela me disse. Vou ler.
Fonte: Correio Popular online, - Acesso: 01/08/2010

Administrando um fora...

JOAQUIM ZAILTON BUENO MOTTA*

Quando a pessoa amada revela direta ou indiretamente que não mais deseja continuar na relação, o rejeitado pode sofrer intensa e dramaticamente.

É claro que, em primeiro lugar, o sofrimento vai depender do recado fornecido por quem se retira. Há aquele que passa uma comunicação clara, às vezes com doses de franqueza indelicada, até o que envia mensagens confusas, ambivalentes, com sutileza imprópria. Entre um extremo e o outro, é melhor a clareza, mesmo quando excessiva e descortês, pois a ambivalência prolonga a angústia de modo cruel.

Helen E. Fisher, antropóloga canadense que trabalha na Rutgers University (Nova Jersey, EUA), desenvolve um persistente trabalho de pesquisas sobre o amor, a paixão e o sexo. Um de seus levantamentos mais recentes mostrou aspectos biológicos do amor não correspondido. Ela comentou que o amor romântico equivale a um vício: “É um vício muito poderoso e maravilhoso, quando as coisas estão indo bem e um vício horrível quando as coisas estão indo mal”. Pessoas que padecem muito por um sentimento não correspondido ou uma relação que chegou ao fim podem recorrer agora a uma explicação biológica. Superar a rejeição amorosa pode ser semelhante a ter de se livrar de uma drogadição. O estudo, publicado na edição de julho do Journal of Neurophysiology, é um dos primeiros a examinar o cérebro de pessoas que tiveram o “coração partido”.

Os pesquisadores avaliaram o cérebro de 15 voluntários (10 mulheres e 5 homens) com idade universitária e que tinham terminado um relacionamento, mas ainda amavam a pessoa que os rejeitou. Em média, a duração dessas relações era de cerca de dois anos, sendo que no mínimo dois meses transcorreram desde o rompimento. Todos os participantes tiveram altas pontuações em um questionário que mediu a intensidade dos afetos românticos. E também disseram que os pensamentos dedicados à pessoa amada ocupavam a mente pelo menos 85% do tempo em que permaneciam acordados. Os cientistas descobriram que, enquanto olham para as fotografias dos “ex”, os homens e mulheres rejeitados têm ativadas as regiões cerebrais associadas com recompensa, ansiedade de dependência, controle das emoções, dor física e angústia.

Esses resultados ajudam na compreensão dos motivos que dificultam suportar uma ruptura e porque, em alguns casos, as pessoas são levadas a cometer atos extremos, como perseguições, suicídios e homicídios.

É possível que essa resposta à rejeição romântica possa ter uma base antropológica: os circuitos cerebrais do amor desenvolveram-se há milhões de anos para que os nossos antepassados concentrassem a energia do acasalamento em apenas uma pessoa por um dado tempo. Quando rejeitada no amor, é como se a pessoa perdesse o maior prêmio da vida, ou seja, um parceiro para o acasalamento. Então, o sistema é ativado para tentar a reconquista.

Interessante também é que a pesquisa ratificou a velha máxima: “o tempo é o melhor remédio”. Quanto maior o intervalo desde a separação, menor a atividade no cérebro associado ao prazer e à recompensa.

Outra confirmação importante foi a de que falar sobre a experiência, ao invés de simplesmente “curtir” o sofrimento, é mais saudável para o apaixonado em crise.

Esses resultados implicam evitar aquilo que chamamos de Síndrome da Arremetida. Apartada de um relacionamento, a pessoa pode insistir obcecadamente na retomada. Interpretando qualquer ato bem educado do ex como interesse em voltar, fugindo de assumir e administrar o fim. É o princípio que ocorre com um avião: ele só pode arremeter (interromper o pouso e voltar ao voo) enquanto houver combustível e condições para isso. A partir de determinado ponto, a aterrissagem será obrigatória.

Portanto, é muito melhor para o rejeitado aceitar a frustração da ruptura, não protelar a despedida e investir em novos voos.
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*Joaquim Zailton Bueno Motta é psiquiatra e sexólogo
Fonte: Correio Popular online, 31/07/2010

O estudante e o jornal

DUÍLIO BATTISTONI FILHO*

Desde os seus primórdios, a imprensa se impôs como força política e social. Tem a missão de informar e de formar a opinião do leitor, conscientizando-o dos problemas que visem ao bem-estar da comunidade. Os governos e os poderosos sempre a utilizam e a temem; por isso adulam, vigiam, controlam e punem os jornais, como no caso de certos governos latino-americanos e africanos. Somente um jornalismo engajado na democracia tem condições para desempenhar seu verdadeiro papel, pois só onde houver liberdade de expressão e pensamento poderão circular livremente as ideias e opiniões. Todos os jornais procuram atrair e conquistar o público leitor. Para isso, desenvolvem novos artifícios de sedução, com novas técnicas e um moderno parque gráfico-editorial para melhorar a apresentação do produto.

Mas o que nos interessa saber é de que maneira se poderia incentivar o jovem a preferir o jornal? O ponto de partida, a nosso ver, seriam as crianças. Os educadores afirmam que o desenvolvimento da estruturação do hábito de gostar de ler deve começar em casa. A criança que começa, na companhia da família, a compartilhar o prazer de ouvir e ler histórias, certamente será, quando adulto, um amante da leitura. Nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, os alunos ouvem exposições, veem experiências de Física e Química, fazem anotações nos cadernos, recorrem a livros e a outras formas de transmissão de cultura. Todavia, não existe, nos estabelecimentos de ensino, um espaço reservado a jornais, com exceção de alguns deles que adotam o projeto Correio Escola, levando à leitura e à discussão das notícias em sala de aula. Quantos professores teriam o exemplar do dia, ou um recorte de notícias, para comentar com os alunos? A verdade é que a leitura tem tanto ou maior influência sobre as crianças quanto o cinema, a televisão, ou mesmo a internet. O filme, o teatro, são acontecimentos fugitivos, assim como a própria televisão. A imaginação versátil da criança esquece-os depressa. Mas a leitura tem efeitos mais profundos. Daí a importância maior desses veículos de comunicação, que são o livro e o jornal.

Antigamente as escolas tinham o seu jornal estudantil que publicava questões pertinentes a vultos históricos, questões geográficas e políticas, poesias e concursos literários. Era totalmente financiado por anúncios solicitados ao comércio, rodado em rudimentares mimeógrafos, ou simplesmente um único exemplar, datilografado, que corria de mão em mão, para depois ser arquivado, com todo o zelo para a posteridade. Por outro lado, predominavam as seções nas quais um dos estudantes, com pseudônimo, falava das virtudes ou dos defeitos dos colegas, revelava uma paixão secreta ou um soneto que alguém fizera em segredo, pensando na eleita. A bisbilhotice de um periódico estudantil criava situações insustentáveis: ausência às aulas, inimizades e reprimendas da direção da escola. Em compensação, como prêmio, aqueles alunos que se destacassem nos estudos da Língua Portuguesa poderiam ser escolhidos para integrar a redação como repórteres, revisores ou articulistas. Os tempos eram outros. O periódico estudantil estava tão enraizado nas escolas que, ao final dos anos 30 do século passado, foi criado, em Campinas, a Rede Jornalística Estudantil, que teve na presidência o educador Rubem Costa, entidade que teve papel relevante no ambiente cultural campineiro.

Hoje, o enfoque do jornal é outro: levar o aluno a ler, comparar e entender o texto com o devido espírito crítico, “agarrar a história em movimento” segundo as palavras do historiador Howard Simons. Para que tudo isso aconteça é necessário que o professor não só esteja preparado e envolvido com o projeto, como também a escola ofereça condições para atingir tal objetivo.
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*Duílio Battistoni Filho é historiador e membro da Academia Campinense de Letras
Fonte: Correio Popular online, 01/08/2010

A parábola da bola

Ed René Kivitz*


Os dez homens importantes sentados ao redor da bola discutiam acaloradamente:

– A bola é grená, disse um.

– Claro que não, a bola é bordô, retrucou outro em tom raivoso.

Todos estavam fascinados pela beleza da bola e tentavam discernir a cor da bola. Cada um apresentava seu argumento tentando convencer os demais, acreditando que sabia qual era a cor da bola. A bola, no centro da sala, calada sob um raio de sol que entrava pela janela, enchia a sala de uma luminosidade agradável que deixava o ambiente ainda mais aconchegante, exceto para aqueles dez homens importantes, que se ocupavam em defender seus pontos de vista.

– Você é cego?, ecoou pela sala gerando um silêncio que parecia ter sido combinado entre os outros nove homens importantes. Era até engraçado de observar a discussão – na verdade era trágico, mas parecia cômico. Todos os dez homens importantes usavam óculos escuros, cada um com uma lente diferente. Talvez por causa dos óculos pesados que usavam, um deles gritou “você é cego?”, pois pareciam mesmo cegos.

Depois do susto, a discussão recomeçou. O sujeito que acreditava que a bola era cor de vinho debatia com o que enxergava a bola alaranjada, mas um não ouvia o que o outro dizia, pois cada um usava o tempo em que o outro estava falando para pensar em novos argumentos para justificar sua verdade. Aos poucos, a discussão deixou de ser a respeito da cor da bola, e passou a ser uma troca de opiniões e afirmações contundentes a respeito das supostas cores da bola. A partir de um determinado momento que ninguém saberia dizer ao certo quando, os dez homens tiraram os olhos da bola e passaram a refutar uns ao outros. Em vez de sugestões do tipo: – A bola é vermelha, todos se precipitavam em listar razões porque a bola não era grená, nem cor de vinho, nem mesmo alaranjada.

De repente, alguém gritou: – Ei pessoal, onde está a bola? Todos pararam de falar – estavam todos falando ao mesmo tempo, e foi então que perceberam um alarido parecido com aquelas gargalhadas gostosas que as crianças dão quando sentem cócegas. Correram para a janela e viram uma criançada brincando com a bola, que parecia feliz sendo jogada de mão em mão. Ficaram enfurecidos com tamanho desrespeito com a bola. Ficaram também muito contrariados com a bola, que parecia tão feliz, mas não tiveram coragem de admitir, afinal, a bola, era a bola.

Lá fora, sem dar a mínima para os dez homens importantes, estavam as crianças brincando e se divertindo a valer com a bola que os dez homens importantes pensavam que era deles. E nenhuma das crianças sabia qual era a cor da bola.
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*Ed René Kivitz - cristão, pastor evangélico.

Escrevo o que me contaram

Rubem Alves*


Não se deve acreditar em tudo que nos chega pelos ventos sem nome da internet. Da mesma forma como não se deve acreditar em tudo o que dizem os jornais. O texto abaixo me foi enviado pelo Chico Pinheiro. O fato que ele relata, não sei se aconteceu do jeito como está narrado. Peço, portanto, que vocês o tomem como uma parábola. Já a meditação do pastor, acho que merece consideração. Não acreditem. Usem o texto para pensar.

“No dia 1º/abr/2010, o elenco do Santos, atual campeão paulista de futebol, foi a uma instituição que abriga trinta e quatro pessoas. O objetivo era distribuir ovos de Páscoa para crianças e adolescentes, a maioria com paralisia cerebral.

Ocorreu que boa parte dos atletas não saiu do ônibus que os levou. O motivo teria sido religioso: a instituição era o Lar Espírita Mensageiros da Luz, de Santos-SP, cujo lema é Assistência à Paralisia Cerebral. Visivelmente constrangido, o técnico Dorival Jr. tentou convencer o grupo a participar da ação de caridade.

(...) Dentro da instituição os outros jogadores participaram da doação dos 600 ovos e conversaram e brincaram com as crianças.

Eis que o pastor Ed René Kivitz da Igreja Batista de Água Branca (cristão, pastor evangélico, e santista desde pequenininho - São Paulo), fez uma análise profunda sobre o ocorrido e escreveu o texto No Brasil, futebol é religião, que está transcrito a seguir.”

“Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa.

Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso, cada vez mais me convenço de que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé.

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno; ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo; ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião.

Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião.

Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.

O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai.

E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

Mas, quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.

Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, faz com que os discordantes no mundo das crenças se dêem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus.

Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.”
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* Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 01/08/2010