segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os nerds dão a volta por cima

Por que os garotos que dominam a tecnologia deixaram
de ser considerados os bobos da turma e
agora são admirados e até copiados

Claudia Jordão

ECLÉTICO
Leandro Camargo é fã de “Star Wars” e, desde criança,
gosta de videogames e computadores.
Mas isso não o impede de ter muitos amigos,
 namorar e tomar cerveja

No filme “A Vingança dos Nerds”, um clássico dos anos 80, um grupo de jovens com óculos de aro grosso, aparelho nos dentes, roupas de alfaiataria e cabelo milimetricamente arrumado se une contra os fortões da escola, cuja principal diversão é constrangê-los em público. Depois de muito sofrer, sendo vítimas, inclusive, das colegas de classe, os garotos riem por último e humilham os rivais. Na vida real, apesar de o enredo ser outro, os nerds também têm levado a melhor. De deslocados, esquisitos e antissociais, eles se tornaram populares. Segundo estudiosos, o fenômeno começou a tomar forma no início dos anos 2000, com a popularização da internet e a invasão de outras tecnologias digitais. “Cada vez mais a sociedade está tecnológica. E os nerds, que sempre tiveram facilidade com o assunto, se destacam dos demais”, diz o sociólogo e doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) Sérgio Amadeu da Silveira. “Com isso, eles conquistaram os colegas, que passaram a respeitá-los e admirá-los.”

Prova disso é a fama de PC Siqueira, nerd que fala, se veste e age como tal, e cujos vídeos são sucesso absoluto no YouTube. A febre também invadiu a tevê, com séries americanas, transmitidas no Brasil, como “The Big Bang Theory”, “Greek” e “Glee”, e com o reality show também americano “As Gostosas e os Geeks”. Na literatura de autoajuda, títulos como “Faça como Steve Jobs” – numa alusão ao todo-poderoso da Apple, um ícone nerd – sinalizam a mudança de paradigmas e apontam o modelo de sucesso a ser seguido. Até mesmo o estilo de se vestir da turma, visto com desprezo há vinte anos, se tornou tendência. Caso dos óculos de aro grosso, das camisetas coloridas com frases espirituosas, das peças de alfaiataria e das meias três-quartos presentes nas passarelas. Ou seja, ironicamente, o estilo nerd vem sendo copiado até por quem não pertence à tribo.

Tamanha admiração contribuiu para a mudança de perfil desse grupo. “O nerd de hoje ganhou status entre os colegas e se sente mais à vontade para ser o que é”, diz o psicólogo do Núcleo de Pesquisa da Psicologia da Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Marcio Berber Amadeu. “Ele é mais autoconfiante e menos introvertido na hora de falar e se vestir.” Além disso, a internet facilita no processo de desinibição. “Os sites, blogs e redes sociais permitem ao nerd, geralmente mais caladão, se expressar e fazer amizades”, diz Amadeu.

Leandro Ferreira, 24 anos, viveu o fenômeno na pele. De criança sem amigos, ele descobriu o que significa ser popular apenas na faculdade. Na escola, era o único a entender de computação. Isolado, se divertia pregando peças na aula de informática. “Eu mandava mensagens do meu computador para o dos professores”, diz. Hoje, cursa desenho industrial e trabalha como programador de site. E, como todo nerd contemporâneo, coleciona amigos virtuais e não virtuais, os quais faz questão de encontrar em eventos como o NoB (Nerds on Beer), que reúne membros e simpatizantes em bares.

Esses jovens também viraram o jogo no campo dos relacionamentos amorosos. Há uma série de comunidades virtuais formadas por garotas apaixonadas, como a Marias Nerds. Ferreira é prova de que eles também amam. E são correspondidos. Casou-se em setembro do ano passado, numa cerimônia em que máquinas de fliperama faziam a alegria dos convidados. Mas, na sua opinião, o interesse feminino por esse grupo não tem a ver apenas com suas habilidades no mundo eletrônico. Também está relacionado a uma mudança de perfil. “O nerd de hoje é uma versão light do de antigamente”, diz. “Ele se veste melhor e cuida da aparência, é muito mais interessante do que aquele gordinho de espinha e roupas manchadas.” Mas a garota que se interessar por um deles deve saber agir. Afinal, eles mudaram, mas nem tanto. A grande maioria continua tímida e se apaixona fácil. Leandro Camargo, 24 anos, por exemplo, aprecia garotas que tomam a iniciativa. “Eu costumo ficar na minha. Mas, se as meninas sonham com um mundo menos machista, estão convidadas a chegar naquele rapaz quieto pelo qual se interessaram”, afirma.

SOCIÁVEL
Casado com Márcia Oliveira (à dir.), Leandro Ferreira (à frente) gosta
de jogar Guittar Hero com o amigo João Ciocca (ao fundo)

Vida de nerd popular, no entanto, não é fácil. Ricardo Macedo, 24 anos, recebe ligações diárias, de amigos e desconhecidos indicados por amigos, para esclarecer dúvidas relacionadas à tecnologia. “Sou praticamente o suporte técnico da galera”, diz ele, que programou sua primeira animação aos 8 anos. Ricardo faz cursinho para ciências da computação, mas, graças a seus conhecimentos, há dois anos garantiu a sua vaga no mercado de trabalho. Se no campo profissional o grupo já fincou bandeira, na escola ele vem demarcando território. Educador há 20 anos, Cláudio Giardino, um dos coordenadores do ensino médio do Colégio Pentágono em São Paulo, nota uma diferença clara entre o nerd atual e o de outrora. “Eles não se misturavam com os colegas e hoje são lideranças na sala.” A vingança dos nerds tarda, mas não falha.

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Fonte: Revista ISTO É online: N° Edição: 2125 30.Jul - 21:00
- Atualizado em 02.Ago.10 - 17:33

Processo eletrônico terá uma exceção


Cezar Peluso: cartas têm sentido de habeas corpus
e o STF as recebe como tal

Ao tornar obrigatório o uso da internet para advogados ingressarem com vários tipos de ações no Supremo Tribunal Federal (STF), a partir de hoje, o presidente da Corte, ministro Cezar Peluso, sentiu-se obrigado a fazer uma exceção para os habeas corpus. "Isso não tem como mudar porque nós recebemos cartas de dentro de presídios", disse. Segundo o ministro, o Supremo recebe uma infinidade de cartas, de todo tipo e em qualquer tipo de papel. No meio dessas cartas, continuou Peluso, "há muitas que têm sentido de habeas corpus e o Supremo recebe como tal".

Para Peluso, mesmo que a maioria delas não tenha os pressupostos jurídicos para serem admitidas como habeas corpus, o tribunal deve examinar uma a uma. Para mostrar a importância desse trabalho, o presidente do STF cita um caso envolvendo a Suprema Corte dos Estados Unidos, nos anos 60.

A Corte americana recebeu um recurso de Clarence Earl Gideon, um cidadão que foi condenado por levar US$ 50,00 em moedas de uma "jukebox" num bar, na Flórida. Gideon era pobre e não tinha dinheiro para pagar advogado. Ele foi julgado e condenado sem a apresentação de defesa perante a Justiça. Uma vez preso, Gideon escreveu para o FBI e para o Supremo Tribunal da Flórida, mas não obteve ajuda. Resolveu, então, escrever para a Suprema Corte. "Nos Estados Unidos, para um recurso chegar à Suprema Corte existe uma série de requisitos formais, inclusive com limitação do número de linhas", contou Peluso. "Mas ele (Gideon) fez uma carta de próprio punho e eles receberam", disse.

O Supremo americano não apenas recebeu o recurso de Gideon, que foi escrito num papel de pão, ou, no linguajar jurídico, "in forma pauperis" (na forma de pobre). A Corte determinou que ele contasse com a defesa de um dos mais renomados advogados de Washington: Abe Fortas, professor da Universidade de Yale que, anos depois, se tornou ministro do Supremo.

"Ele (Fortas) fez a defesa de Earl Gideon e a Suprema Corte mudou um precedente, estabelecendo a nulidade dos processos em que o sujeito não teve a assistência de um advogado". A decisão foi tomada em 1963, por nove votos a zero, e é uma das mais importantes da história americana. "É por causa de exemplos como esse que não podemos exigir o computador para se ter o acesso ao STF em todos os casos", concluiu o ministro.

Fonte: Reportagem de Luiza de Carvalho - VE online, 02/08/2010
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Reportagem: Juliano Basile, de Brasília
Fonte: Valor Econômico online, 02/08/2010

Ecos

Saulo Prado*




Existe uma voz aqui dentro

Que transforma a paz em tormento

Um sentimento que não fica calado

E traz resquícios de um amor do passado

Algo que não foi resolvido

Um desejo que era proibido

O que eu julgava ser uma paixão

Na verdade era o beijo da solidão

Ela se foi sem olhar para trás

E me deixou aqui em meu triste cais

Acreditando em um sonho colorido

Sem saber que na sua agenda; eu fui para página de amigos...


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* POETA.JATAÍ, CENTR-OETE/GOIAS, Brazil
Fonte: http://meumundoquadrado.blogspot.com/

Doação gratuita de si, única cura para a avareza


Aprender a doar o que se recebeu gratuitamente é a única maneira de superar a solidão causada pela ânsia por posses que caracteriza a avareza.
Esta é a síntese do ensinamento que está no coração do artigo assinado pelo Pe. Giovanni Cucci SJ, docente de filosofia e psicologia junto à Pontifícia Universidade Gregoriana. O artigo, intitulado “A avareza, a tentativa ilusória de possuir a vida”, foi publicado na revista La Civiltà Cattolica em 3 de julho passado.
No ensaio, o sacerdote jesuíta explicita os aspectos essencialmente espirituais deste vício, que conduz a atribuir ao dinheiro e coisas semelhantes “um valor simbólico exagerado”, transformando-os em “sinônimos de estima, paz, segurança e poder”.
A avareza, portanto, se identifica com “a cobiça e a ânsia por posses, que endurecem o coração e conduzem à presunção de autossuficiência, de se bastar a si mesmo e de nada mais precisar”.
Daí se compreende o aspecto religioso da avareza, sublinha Pe. Cucci, “pois o dinheiro oferece a ilusão de onipotência: o dinheiro, por sua natureza, confere uma autossuficiência que nenhum outro objeto pode fornecer. Para Péguy, constitui a única alternativa verdadeiramente ateia a Deus, porque dá a ilusão de que se pode obter tudo, de forma que qualquer realidade pode ser convertida em dinheiro, que por sua vez possibilita possuir qualquer coisa”.
Também Marx, ao analisar a mentalidade capitalista, salientou “o caráter de consagração de todo o próprio ser a uma realidade considerada absoluta, superior a qualquer outra”.
“A avareza, uma vez que não se refere a nenhuma necessidade do corpo nem a nenhum prazer corporal, busca uma satisfação de tipo afetivo, mas ao mesmo tempo intangível, ligada à imaginação”, explica o sacerdote.
Dessa forma se configura “como uma forma mundana de consagração a um ídolo, algo para o qual se está disposto a oferecer a própria vida, sacrificando para isso a própria liberdade e dignidade”.
De fato, o dinheiro, longe de pacificar, ao se tornar um fim em si mesmo gera sempre novos temores, ansiedades e inseguranças: “o medo de perder o que foi conquistado, medo de que um rival consiga um bem cobiçado, ou de ainda de ser superado na escala social, tornando vãos todos os esforços de uma vida”.
Outro sentimento típico do avarento é a tristeza, ligada à frustração de não poder nunca encontrar algo que o satisfaça, fazendo-o sentir-se cada vez mais indigente. De modo que o “estranho masoquismo” que caracteriza este vício está em pensar que “a única fonte de felicidade é na verdade aquilo que está por arruinar a própria vida”.
Além disso, há uma estreita ligação entre a avareza e a solidão: “o avarento se encontra somente em companhia de coisas, a única realidade na qual pode confiar”.

“é no encontro com o outro,
na relação,
que o homem encontra
a verdade de si mesmo”.



Assim, o melhor tratamento para o vício da avareza é a prática de “abrir mão do que se recebeu para o bem-estar dos outros”.
“Esta disposição – explica Pe. Cucci – promove o desejo de viver bem a própria vida, tornando a pessoa capaz de sacrifícios notáveis, uma vez que seu coração se torna sensível ao sofrimento e às necessidades dos demais”.
Paradoxalmente, escreve Pe. Cucci, talvez “no fundo da avareza se encontre este esforço sobre-humano de querer dar valor à própria existência, a merecer viver; uma forma doentia de auto-estima”.
Ao contrário, porém, “é no encontro com o outro, na relação, que o homem encontra a verdade de si mesmo”.
“A verdadeira riqueza, que de fato nos pertence, é aquele que se recebe ao se oferecer o melhor de si, tornando-nos assim participantes da generosidade abundante de Deus” – conclui.
“Somente doando é possível superar a solidão infernal na qual se aprisiona o avarento”.
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Fonte: http://www.zenit.org/article-25685?l=portuguese =o2/08/2010

Fica, Soledad

L. F. VERISSIMO*


Mulheres bonitas e inteligentes existem muitas, mas são raras as que se pode dizer que têm uma beleza inteligente. Como é difícil explicar o que é isso, exatamente, passemos logo ao melhor exemplo atual do gênero: Soledad Villamil. Quem viu o filme O Segredo dos Seus Olhos sabe de quem eu estou falando. O filme é bom, mas nada no filme é melhor do que ela, no papel de uma juíza por quem o protagonista principal tem uma paixão recolhida, e poucas vezes na história do cinema foi tão fácil entender uma paixão. Soledad é fantástica dos cabelos às presumíveis pontas dos pés, passando por olhos verdes, uma boca ao mesmo tempo sardônica e sensual e um corpo que a sobriedade magistrática tenta disfarçar em vão – e tudo projetando a sensibilidade e a sabedoria que se espera da justiça humana.

A Argentina tem nos mandado um bom filme depois do outro, ultimamente, e grande parte da sua atração se deve ao estilo naturalista de representar dos seus atores. O Segredo dos Seus Olhos – que tem algumas falhas de lógica e verossimilhança que não atrapalham a bela trama – é um admirável exemplo disto. O elenco todo é extraordinário. Mas a principal razão para ver e rever o filme é a Soledad.

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Eu nunca tinha ouvido falar nela. Agora sei que tem 41 anos e já fez vários outros filmes, peças de teatro e séries para a TV na Argentina – e há pouco fui vê-la no palco como cantora. Levado, acima de tudo, pela necessidade de saber se ela era de verdade. E descobri que Soledad não apenas existe como é uma ótima intérprete de tangos e milongas e da música folclórica do seu país, com uma presença de palco que não deveria surpreender quem já a viu dominando um filme inteiro. Uma frustração apenas: ela se apresenta com um vestido longo até o chão, o que nos impediu de avaliar corretamente o corpo apenas adivinhado por baixo dos tailleurs judiciais, no filme. Mas, pelo pouco que deu para ver, ele também é perfeito.

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O perigo, depois do sucesso do filme, que venceu o Oscar de melhor estrangeiro, é levarem a Soledad embora, e da próxima vez que a virmos ela ser uma coadjuvante mexicana num filme de Hollywood. Proponho que se comece uma campanha preventiva, “Fica, Soledad”, para impedir que isto aconteça. Fique na Argentina, Soledad. Ou venha para o Brasil. Lá em casa tem lugar.
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* Jornalista. Escritor.
Fonte: ZH online, 02/08/2010

Viver de sonhos e revoluções

Um dos principais convidados da Festa Literária Internacional de Paraty,
o historiador americano Robert Darnton
defende a criação de bibliotecas públicas
com obras digitais com acesso liberado


 O pesquisador americano Robert Darnton (foto) terá jornada dupla na Festa Literária Internacional de Paraty, que começa na quarta-feira: ele participará de duas mesas que tratam do futuro do livro. Não se trata de um exagero - diretor da biblioteca de Harvard, Darnton é autor de A Questão dos Livros (Companhia das Letras), "uma apologia descarada da palavra impressa e seu passado", como escreve na introdução. Ou seja, busca conciliar a obra tradicional, em papel, com as novidades digitais. Mais que isso, defende a criação de uma biblioteca nacional de e-books, com acesso livre. Utópico? Pode ser, mas não o suficiente para frear esse colecionador de livros proibidos da França pré-revolucionária, que falou com o Sabático por telefone.

É possível comparar a revolução dos livros digitais com a de Gutenberg e a criação da imprensa?
Acredito que revoluções são coisas do passado. Podemos fazer uma lista de tudo o que é considerado revolucionário, desde novas formas de se vestir até táticas defensivas no futebol. Por isso que só uso essa palavra para algo realmente grandioso, como é o caso do livro digital, tão fabuloso como a revolução provocada por Gutenberg. Posso estar errado pois é preciso uma distância temporal muito grande para se avaliar devidamente o valor de uma transformação, mas, como vivemos, nos últimos 15 anos, mudanças decisivas na forma de comunicação que atingem nossa vida diária, o risco é seguro. Por outro lado, há quem não defenda como revolucionária a criação de Gutenberg: para alguns pesquisadores, como o francês Lucien Lefevre, a prensa retardou mudanças especialmente no tocante aos manuscritos que, ao serem adaptados ao formato de livro, perdiam muitas qualidades. Assim, segundo Lefevre, tal malefício não pode ser considerado revolucionário.

Mas o senhor concorda?
Não, acredito que Lefevre agiu como um provocador. Basta observar a evolução do papel, que atingiu níveis elevados um século antes de Gutenberg e que é mais importante que a própria invenção da prensa. Ou seja, é um assunto complicado. De uma maneira geral, acredito que a invenção da prensa trouxe mudanças menos dramáticas do que se imagina, mas, por outro lado, essas alterações são mais profundas do que se acredita.

Podemos concluir que o livro tradicional pode conviver com a versão digital, ao menos durante um tempo?
Sim, exatamente, esse é um dos principais argumentos do meu livro. Acredito que as pessoas ainda não entenderam quais são as mudanças provocadas por essa revolução. Comenta-se muito que vivemos na era da digitalização - é verdade, mas isso não significa obrigatoriamente a morte do livro tradicional. Ao contrário: ele se torna mais importante a cada ano. Basta conferir a quantidade de obras impressas que, a cada ano, ultrapassa a do anterior. Aproximadamente 1 milhão de livros a mais são impressos em todo o mundo em um ano, uma loucura.

Qual é o principal problema provocado pela migração de uma obra tradicional, em papel, para a versão digital?
Creio que você se refere à preservação dos textos digitais, um problema que preocupa a grande maioria dos bibliotecários de todo o mundo. Talvez seja esse nosso maior desafio - evitar o desaparecimento de textos extremamente frágeis. Por outro lado, o material impresso em papel resiste por décadas, especialmente o branco, utilizado a partir do século 19. Tal persistência não é ainda garantida no digital que, por conta da evolução tecnológica, tem diversos arquivos obsoletos, como aqueles guardados em disquetes, por exemplo. E um último problema está na dificuldade de muitas pessoas em coletar textos no ciberespaço, pois é preciso ter muitos detalhes desse arquivo para então encontrá-lo. Para piorar, as formas de descrição mudam com o passar dos anos, o que torna inviável hoje um caminho que antes era aconselhável. Assim, se você não dominar o método apropriado, provavelmente seu texto será perdido para sempre. Bem, colocando todos esses empecilhos em uma cesta, você estará criando uma colossal dor de cabeça, especialmente para alguém responsável por uma grande biblioteca como é meu caso, em Harvard. Para evitar isso, investimos pesadas somas de dinheiro para manter nosso arquivo digital, migrando de um sistema para outro quando surge uma nova tecnologia, ou ainda buscando lugares seguros, à prova de terremotos por exemplo, a fim de mantê-lo atualizado ou, melhor dizendo, vivo.

E quais mudanças o senhor observa em nossa noção de narrativa?
É uma boa questão. Para ser totalmente honesto, eu não sei. Mas suspeito que estamos mudando nossa forma de ler. Atualmente, os mais jovens criaram o hábito de ler pequenos blocos de texto e em grande velocidade, seja em Twitter, blogs, ou ainda na troca de mensagens recebidas em celulares e portáteis. Assim, a leitura de um livro tornou-se um ato pouco usual. Por conta disso, é possível acreditar que logo os livros serão adaptados a esse tipo de escrita, ou seja, uma prosa breve, segmentada. Isso vai influenciar decisivamente a forma de se apresentar personagens, descrever cenários, criar atmosferas, utilizar recursos narrativos. Tudo ficará achatado. É uma possibilidade. Ou ainda poderá existir um tipo de escritor que utilize a estratégia típica de um blog, por exemplo, para construir seu romance e assim capturar a atenção do leitor jovem. O fascinante é que a narrativa vai persistir, como vem acontecendo há séculos, período em que passou (e continuará passando) por transformações. Acredito que isso ocorrerá com facilidade no Brasil, por ser seu país muito aberto a novidades tecnológicas. E, como dispõem de grandes escritores, quem sabe se vocês, brasileiros, não acabarão ensinando o resto do mundo sobre novas formas narrativas?

O senhor acredita que, com a escrita digital, surgirão escritores clássicos do naipe de Dickens ou Capote?
Grandes escritores surgem independentemente da forma como é produzido seu texto, seja escrevendo com uma pena ou em um computador. O bom autor se molda com trabalho incessante e determinação, de intensa escrita e reescrita, além de uma boa dose de talento. A escrita digital, por sua praticidade, não confere naturalmente seriedade ao texto de seja qual for o autor. Mas é justamente essa praticidade que deverá modificar, no meu entender, a formação do escritor do futuro, que certamente será diferente do passado. Muitas novas ferramentas estão à disposição, o ato de escrever parece mais cômodo mas, volto a insistir, a determinação exigida há cem anos continuará necessária nos próximos cem.

Por que o senhor defende a criação de uma biblioteca de obras digitais?
É uma causa que tem tomado muito do meu tempo atualmente. Tudo começou quando o site de buscas Google decidiu digitalizar milhões de livros e torná-los públicos. Inicialmente, aprovei a ideia e a biblioteca de Harvard foi uma das cinco primeiras a liberar seu acervo. Mas o perigo do monopólio e da comercialização me fizeram repensar o caso e até a escrever um artigo a respeito. Como despertou uma série de protestos, o acordo acabou na Justiça por conta do risco de infringir as leis antitruste dos Estados Unidos. Admiro o trabalho dos diretores do Google, que prometem cobrar um preço moderado pelo acesso das bibliotecas ao seu banco de dados, mas quem estiver no comando daqui a dez anos vai manter a mesma posição? A ação é civil, não criminal, e vem sendo julgada em Nova York. Como deve se estender por um tempo, gostaria de aproveitar para incentivar a criação de uma biblioteca nacional de obras digitais, que ofereceria um acesso muito mais democrático, gratuito. O financiamento pode vir de fundações e o trabalho seria feito por pesquisadores de bibliotecas. Espero que outros países, como o Brasil, façam o mesmo, a fim de termos uma biblioteca mundial. Sei que é utópico, mas não podemos viver sem sonhos.
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Reportagem : Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo Fonte: Estadão online, 31/07/2010

'Nota mais alta não é educação melhor'

Diane Ravitch, ex-secretária-adjunta de Educação dos EUA

Erro. Ênfase em responsabilização de professor é danosa para a educação, afirma Diane

Uma das principais defensoras da reforma educacional americana - baseada em metas, testes padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal avaliadas - mudou de ideia. Após 20 anos defendendo um modelo que serviu de inspiração para outros países, entre eles o Brasil, Diane Ravitch diz que, em vez de melhorar a educação, o sistema em vigor nos Estados Unidos está formando apenas alunos treinados para fazer uma avaliação.

Secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação na administração de George Bush, Diane foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para assumir o National Assessment Governing Board, instituto responsável pelos testes federais. Ajudou a implementar os programas No Child Left Behind e Accountability, que tinham como proposta usar práticas corporativas, baseadas em medição e mérito, para melhorar a educação.

Suas revisão de conceitos foi apresentada no livro The Death and Life of the Great American School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), lançado no mês passado nos EUA. O livro, sem previsão de edição no Brasil, tem provocado intensos debates entre especialistas e gestores americanos. Leia entrevista concedida por Diane ao Estado.

Por que a senhora mudou de ideia sobre a reforma educacional americana?
Eu apoiei as avaliações, o sistema de accountability (responsabilização de professores e gestores pelo desempenho dos estudantes) e o programa de escolha por muitos anos, mas as evidências acumuladas nesse período sobre os efeitos de todas essas políticas me fizeram repensar. Não podia mais continuar apoiando essas abordagens. O ensino não melhorou e identificamos apenas muitas fraudes no processo.

Em sua opinião, o que deu errado com os programas No Child Left Behind e Accountability?
O No Child Left Behind não funcionou por muitos motivos. Primeiro, porque ele estabeleceu um objetivo utópico de ter 100% dos estudantes com proficiência até 2014. Qualquer professor poderia dizer que isso não aconteceria - e não aconteceu. Segundo, os Estados acabaram diminuindo suas exigências e rebaixando seus padrões para tentar atingir esse objetivo utópico. O terceiro ponto é que escolas estão sendo fechadas porque não atingiram a meta. Então, a legislação estava errada, porque apostou numa estratégia de avaliações e responsabilização, que levou a alguns tipos de trapaças, manobras para driblar o sistema e outros tipos de esforços duvidosos para alcançar um objetivo que jamais seria atingido. Isso também levou a uma redução do currículo, associado a recompensas e punições em avaliações de habilidades básicas em leitura e matemática. No fim, essa mistura resultou numa lei ruim, porque pune escolas, diretores e professores que não atingem as pontuações mínimas.

Qual é o papel das avaliações na educação? Em que elas contribuem? Quais são as limitações?
Avaliações padronizadas dão uma fotografia instantânea do desempenho. Elas são úteis como informação, mas não devem ser usadas para recompensas e punições, porque, quando as metas são altas, educadores vão encontrar um jeito de aumentar artificialmente as pontuações. Muitos vão passar horas preparando seus alunos para responderem a esses testes, e os alunos não vão aprender os conteúdos exigidos nas disciplinas, eles vão apenas aprender a fazer essas avaliações. Testes devem ser usados com sabedoria, apenas para dar um retrato da educação, para dar uma informação. Qualquer medição fica corrompida quando se envolve outras coisas num teste.

Na sua avaliação, professores também devem ser avaliados?
Professores devem ser testados quando ingressam na carreira, para o gestor saber se ele tem as habilidades e os conhecimentos necessários para ensinar o que deverá ensinar. Eles também devem ser periodicamente avaliados por seus supervisores para garantir que estão fazendo seu trabalho.

E o que ajudaria a melhorar a qualidade dos professores?
Isso depende do tipo de professor. Escolas precisam de administradores experientes, que sejam professores também, mais qualificados. Esses profissionais devem ajudar professores com mais dificuldades.

Com base nos resultados da política educacional americana, o que realmente ajuda a melhorar a educação?
As melhores escolas têm alunos que nasceram em famílias que apoiam e estimulam a educação. Isso já ajuda muito a escola e o estudante. Toda escola precisa de um currículo muito sólido, bastante definido, em todas as disciplinas ensinadas, leitura, matemática, ciências, história, artes. Sem essa ênfase em um currículo básico e bem estruturado, todo o resto vai se resumir a desenvolver habilidades para realizar testes. Qualquer ênfase exagerada em processos de responsabilização é danosa para a educação. Isso leva apenas a um esforço grande em ensinar a responder testes, a diminuir as exigências e outras maneiras de melhorar a nota dos estudantes sem, necessariamente, melhorar a educação.

O que se pode aprender da reforma educacional americana?
A reforma americana continua na direção errada. A administração do presidente Obama continua aceitando a abordagem punitiva que começamos no governo Bush. Privatizações de escolas afetam negativamente o sistema público de ensino, com poucos avanços de maneira geral. E a responsabilização dos professores está sendo usada de maneira a destruí-los.

Quais são os conceitos que devem ser mantidos e quais devem ser revistos?
A lição mais importante que podemos tirar do que foi feito nos Estados Unidos é que o foco deve ser sempre em melhorar a educação e não simplesmente aumentar as pontuações nas provas de avaliação. Ficou claro para nós que elas não são necessariamente a mesma coisa. Precisamos de jovens que estudaram história, ciência, geografia, matemática, leitura, mas o que estamos formando é uma geração que aprendeu a responder testes de múltipla escolha. Para ter uma boa educação, precisamos saber o que é uma boa educação. E é muito mais que saber fazer uma prova. Precisamos nos preocupar com as necessidades dos estudantes, para que eles aproveitem a educação.

QUEM É
É pesquisadora de educação da Universidade de Nova York. Autora de vários livros sobre sistemas educacionais, foi secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação entre 1991 e 1993, durante o governo de George Bush. Foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para o National Assessment Governing Board, órgão responsável pela aplicação dos testes educacionais americanos.
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Por Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo
Fonte: Estadão online, 02/08/2010

Darwinismo e o argumento moral de Deus

Michael Ruse*


"Se o tipo de naturalismo moral evolutivo que eu endosso for verdade,
então você pode ter moral,
e Deus não tem nada a ver com isso.
Isso pode não levar ao ateísmo, mas certamente enfraquece
a questão para o teísmo.
Mais uma vez, no conflito em curso entre ciência e religião,
parece que a ciência está do lado dos vencedores,
e a religião tem que bater em retirada."

No meu texto anterior, despertado pela não-diretividade essencial do processo evolutivo darwiniano, eu levantei o que me parece ser um grande problema para aqueles que gostariam de conciliar a fé cristã com a ciência moderna. Quero seguir esse tema em um veio similar, voltando-me agora para a moral, um tema discutido em um interessante texto do The New York Times da última sexta-feira pelo colunista conservador, mas que quase sempre vale a pena ler, David Brooks sobre os fundamentos da moralidade. Ele estava relatando uma recente conferência sobre o tema, em que um grupo de "naturalistas morais" debatiam essa questão. Trata-se da alegação de que se pode dar uma explicação totalmente natural à moral, sem a necessidade de envolver Deus para ditar ou apoiar nossos imperativos éticos. Eu achei isso extremamente interessante, porque – ok, estou falando de mim novamente – o tema tem sido motivo de grande preocupação e interesse para mim desde o dia em que comecei como filósofo, há 50 anos.

Como parte da nossa doutrinação para a profissão, nós, filósofos juniores, fomos ensinados que existem algumas coisas que o mundo comum pensa que são verdadeiras (ou falsas), mas que "nós sabemos melhor". No topo da lista estava a forma mais comum de naturalismo moral, a chamada "ética evolutiva." Aí é onde você argumenta que a "descendência com modificação", como Charles Darwin chamou-a, é a chave para a moral, cuja forma mais comum é aquele monstro do passado, o Darwinismo Social. Nós, pequenos aspirantes a filósofos, aprendemos a considerar todas essas teorias com um sorriso de escárnio. O grande G. E. Moore, em seu "Principia Ethica", demonstrou que todas as tentativas de relacionar a ética à evolução hesitam na "falácia naturalista": a evolução se preocupa com declarações sobre o "ser", alegações sobre matérias de fato, enquanto a moral se refere à declarações sobre o "dever ser".

Como as coisas mudaram! O maior crédito deve ir para o evolucionista de Harvard Edward O. Wilson, que em sua "Sociobiology: The New Synthesis" (1975) simplesmente ignorou os filósofos e declarou que havia chegado o momento de "biologicizar" o assunto. Claro, a evolução tinha que ser relevante para o tema da mais alta importância acerca do que fazemos e do porquê achamos que devemos fazer o que fazemos – ou porque pensamos que não devemos fazer o que fazemos. Embora a resposta da comunidade filosófica, em geral, tenha sido de um silêncio ensurdecedor tingido com desprezo, como evolucionista profundamente comprometido, eu não acho que estava sozinho em minha reação. Como se costuma dizer sobre qualquer boa ideia, primeiro você a ignora, depois você a nega e então você diz que já sabia disso tempo todo. Eu e alguns outros, incluindo o eticista Peter Singer, passamos rapidamente de uma postura de ignorar, para negar e então aceitar – dadas as atitudes de nossos colegas, um pouco como enfrentar a morte em mais de uma forma.

Nem todos nós fomos pelo mesmo caminho. Wilson, como outros eticistas evolucionários anteriores – notavelmente Herbert Spencer, do século XIX, e Julian Huxley (irmão mais velho do escritor Aldous Huxley), do século XX –, queria justificar as afirmações morais com base na evolução. Todas essas pessoas pensam que o processo evolutivo é progressivo: vai do simples ao complexo, da mônada ao homem, como eles costumavam dizer (ou talvez hoje do verme para a mulher), e em seu decorrer o valor aumenta. Obviamente, os seres humanos são de mais valor do que as bactérias ou, levando as coisas para um nível mais alto da escala, do que os trilobitas ou os dinossauros. Assim, a moral pode ser baseada na evolução, e o que devemos fazer é promover a evolução. (As interpretações de como devemos fazer isso são tão variadas quanto a interpretação cristã do Mandamento do Amor. Spencer, um liberal vitoriano à moda antiga, queria promover o "laissez-faire". Wilson, um liberal à la Al Gore da nova moda, quer salvar as florestas tropicais).

O problema, como expliquei no meu texto anterior, é que há muito boas razões para se pensar que, contrariamente às aparências, a evolução darwiniana por meio da seleção natural não é genuinamente progressiva. Eu preferiria ser um ser humano do que uma bactéria ou uma trilobita ou um dinossauro, mas essa é a minha opinião, não a da evolução. Então, qual é a alternativa? Eu e alguns outros pensamos que isso apontava para o que se conhece no comércio como ceticismo ético ou niilismo moral. Talvez não existam fundamentos para a moral! Talvez seja tudo uma questão de psicologia produzida pela biologia, e a moralidade seja apenas uma adaptação para nos mantermos todos felizes e sociais.

Sem dúvida, a moral iria quebrar se em geral nós nos déssemos conta disso, mas depois acrescentamos que parte da adaptação era a convicção de que a moral é justificada – isto é, objetiva, de alguma forma – mesmo que ela seja, de fato, subjetiva. Para usar um termo feio, nós "objetivamos" as afirmações morais. Minha única esperança de um dia entrar no "Dicionário Oxford de Citações" é a minha afirmação (muito amada pelos criacionistas, porque mostra que eles estavam certos sobre mim todo esse tempo) de que a moral é uma ilusão coletiva posta em prática pelos nossos genes para nos fazer animais sociais.

Claro que deveria haver mais coisas nessa história do que isso. Uma coisa que tinha que ser mostrada era que a evolução realmente pode produzir indivíduos morais e não apenas monstros egocêntricos. Essa parte do programa transcorreu sem problemas, com os pesquisadores empíricos mostrando em grandes detalhes como e por que a moral é uma adaptação fantástica para os animais sociais como nós, humanos. Quem lidera essa linha de pesquisa é hoje um pesquisador de Harvard, mencionado por Brooks, o psicólogo e evolucionista Marc Hauser. A questão é que o ceticismo ético é cético com relação aos fundamentos. Isso não significa que você não tenha moral. Pelo contrário, é uma questão de onde ela vem e qual é o seu status verdadeiramente.

Outra coisa que tinha que ser mostrada é que a moral é um caso especial. A razão pela qual nós não passamos na frente de um caminhão em alta velocidade voluntariamente é porque o vemos e o ouvimos. Em outras palavras, usamos adaptações evolutivas como o olho e o ouvido para percebê-lo. Mas, é claro, o caminhão realmente existe. O simples fato de a moral ser algo que surgiu através da evolução – que temos um órgão moral, como diria Hauser – não significa que os objetos de sua reflexão sejam ilusórios.

É claro que isso é verdade, mas a resposta é que, embora possa haver outras formas de sentir o caminhão – ecolocalização, por exemplo –, em última análise, é melhor que você sinta o caminhão de alguma forma. No caso da moral, no entanto, graças à não progressividade da evolução, isso não parece ser verdade. Poderíamos ter desenvolvido sentimentos completamente diferentes para sermos sociais, e o que agora achamos que é verdade, nós poderíamos, então, pensar que seja falso ou estúpido. Eu gosto de fazer referência ao que chamo de sistema de moralidade "John Foster Dulles", em homenagem ao secretário de Estado de Eisenhower. Ele odiava os russos, mas ele sabia que os russos o odiavam. Por isso, ele se acertou com eles. Talvez, em vez de pensar que devemos amar os nossos vizinhos, poderíamos pensar que devemos odiar os nossos vizinhos, mas sabemos que eles sentem a mesma coisa por nós, então nos damos bem. Aqui você pensaria que o Mandamento do Amor é simplesmente estúpido.

É claro que você ainda poderia dizer que o Mandamento do Amor é realmente verdadeiro, mas geralmente não é isso o que você gostaria de dizer sobre moral objetiva. "A moral é objetiva, mas não sabemos o que ela pede de nós e podemos nunca saber o que ela pede de nós". Talvez o sistema de moralidade "John Foster Dulles" é a verdadeira e objetiva moral, e nós, pobres tolos iludidos, pensamos o contrário.


"O argumento moral para a existência de Deus é popular e persuasivo.
Se você não tem Deus, você não pode ter moral.
Mas se o tipo de naturalismo moral evolutivo que eu endosso for verdade,
então você pode ter moral, e
Deus não tem nada a ver com isso.
Isso pode não levar ao ateísmo,
mas certamente enfraquece a questão
 para o teísmo."

Devo dizer que, quando comecei a promover essa posição, em um livro com o título um tanto pretensioso "Taking Darwin Seriously: A Naturalistic Approach to Philosophy" [Levando Darwin a sério: Uma abordagem naturalista da filosofia], os gritos de horror, desprezo e escárnio dos meus colegas filósofos foram tais que ainda podem ser ouvidos no espaço sideral. Felizmente, eu tenho o tipo de temperamento que prospera sobre isso. No meu aniversário de 50 anos, fiz uma colagem de opiniões críticas e enviei-a como convite a todos os meus críticos. Um casal teve o bom humor e o mérito de responder com um agradecimento.

Hoje, embora eu suspeite que ainda seja uma posição minoritária, o tipo de naturalismo evolucionista sobre a moral que eu endosso tem muito mais credibilidade na comunidade filosófica. A convite da Princeton University Press, eu recentemente reuni uma coletânea sobre essas questões e ainda não ouvi que os filósofos estejam organizando um boicote. Acabei de completar o meu 70º aniversário e, mesmo que eu quisesse, não poderia juntar uma colagem semelhante de opiniões críticas.

Mas ao invés de ser apenas presunçoso, eu quero levantar o que me parece ser um ponto muito importante. Parece-me que temos aqui mais do que um desafio à fé cristã como muitos imaginam – e entre esses muitos eu incluo aqueles dentre nós que estão ansiosos para reconciliar a ciência e a religião (nós, os chamados "acomodacionistas"). O argumento moral para a existência de Deus é popular e persuasivo. Se você não tem Deus, você não pode ter moral. Mas se o tipo de naturalismo moral evolutivo que eu endosso for verdade, então você pode ter moral, e Deus não tem nada a ver com isso. Isso pode não levar ao ateísmo, mas certamente enfraquece a questão para o teísmo. Mais uma vez, no conflito em curso entre ciência e religião, parece que a ciência está do lado dos vencedores, e a religião tem que bater em retirada.
________________
* A análise é de Michael Ruse é professor da cátedra Lucyle T. Werkmeister de filosofia e diretor do Programa em História e Filosofia da Ciência na Universidade Estadual da Flórida. É autor de muitos livros, incluindo uma trilogia sobre a relação ciência-religião. O artigo foi publicado no sítio The Huffington Post, 29-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.Fonte: IHU online, 02/08/2010

Laços de amizade no mundo digital



Você fala mais fisicamente com seu amigo ou por meio de
SMS, Orkut, Twitter, Myspace ou Facebook?
Saiba aqui se a tecnologia está afetando as relações das pessoas

Kléber Lima/CB/D.A Press
“Chego a falar com 10 pessoas ao mesmo tempo”,
confessa Marcus (D), ao lado do amigo Guilherme (E)

Quando toca o sinal marcando o fim de uma manhã de aulas, o estudante Marcus Gabriel de Castro, 15 anos, se encontra com o amigo e vizinho Guilherme Souza, 15, e os dois correm, cada um para sua casa, e já ligam o computador. Depois do almoço, vão para a frente da telinha e passam a tarde inteira no MSN, Orkut, Twitter, Formspring e Myspace conversando entre si e com amigos da escola, vizinhos e gente que conheceram nos encontros de fim de semana no Pier 21. “Chego a falar com 10 pessoas ao mesmo tempo”, conta Marcus. “Falo muito mais pela internet do que pelo telefone com o pessoal”, acrescenta Guilherme. Na opinião dos dois, o computador é um importante aliado para manter amizades.

E a ideia é quase consenso. Para mais de 70% dos 122 jovens entrevistados pela psicóloga e doutora em educação Suzana Feldens Schwertner, a internet é considerada uma rede legítima de encontro com os amigos, ainda antes que o espaço de casa (54%) ou da rua (52%). “A internet é importante para reforçar o contato com amigos antigos, encontrar amigos atuais e conhecer novas pessoas”, destaca a pesquisadora. O meio on-line só não barra os encontros na escola, que, para os estudantes, é onde mais se encontra os amigos (90%). O levantamento foi fruto do projeto de doutorado de Suzana pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), intitulado Laços de amizade: modos de relacionamento jovem em tempos de conectividade. Os questionários foram respondidos por alunos de 7ª e 8ª série de uma escola da rede pública de Porto Alegre (RS).

Ao todo, 54,1% afirmaram que têm muitos amigos. E a origem dessas amizades, além da escola, é família, bairro/vizinhança, internet, outros lugares que frequenta e filhos de amigos dos familiares, nessa ordem. Diariamente, o bate-papo on-line costuma durar de duas a quatro horas para 24,59%; de quatro a seis horas para 22,13%; de seis a oito horas para 18,85% e mais de oito horas para 12,3%. Os que disseram ficar até duas horas conectados correspondem a 19,67%.

Suzana lembra que, apesar das novas configurações, os laços de amizade seguem sendo considerados como fundamentais para os jovens. E não acredita que pelo meio virtual as relações se tornem mais frias e distantes. “Para eles, a intensidade é a mesma. Consigo ver que um contato complementa o outro. Muitos contam que, depois de se verem, querem entrar na internet para continuar a conversa. Além disso, outros declaram manter amizades com pessoas de outros estados”, diz.

Benefício ou prejuízo?

Mas será que a ausência de contato físico e o excesso de conversas on-line podem atrapalhar essa galera? Segundo a escritora e jornalista americana Elizabeth Hartley-Brewer, especialista em desenvolvimento infantil, ninguém sabe ainda se, a longo prazo, haverá prejuízo social e emocional para jovens por conta da forte interação e preocupação com dispositivos eletrônicos. No entanto, ela destaca que o uso obssessivo e o constante estímulo desses equipamentos pode levar a menos concentração, uma imaginação menos ativa, reduzida habilidade social e de comunicação, além de menos chances de descobrir a personalidade.

Autora do livro Making friends: a guide to understanding and nurturing your child’s friendships (Fazendo amigos: um guia para entender e alimentar as amizades de seu filho), Elizabeth acrescenta que há diferentes visões sobre o impacto da internet na amizade. Uma delas é a de que nada substitui a conversa real, que permite compreender a linguagem corporal do outro. “Alguns dizem que somente uma amizade cara a cara pode levar à empatia genuína e tolerância, que são marcas de uma amizade próxima. O tempo real das amizades ensina os jovens a moldar a si mesmos e a administrar os diferentes estágios da amizade – dar o primeiro passo, segurar a amizade, trabalhar para mantê-la e lidar com discussões que possam aparecer”, comenta.

As amizades durante a infância e adolescência, defende a escritora, são importantes para se aprender a desenvolver relações de sucesso como adultos. “Se as crianças e adolescentes confiam na internet e em smartphones, como isso pode ensiná-las a se tornar pais e companheiros compreensivos? Os filhos deles certamente não serão virtuais para serem ligados e desligados quando choram ou ficam cansativos, nem os companheiros (marido ou mulher).”

A psicóloga gaúcha Suzana Schwertner defende que não se pode encarar a internet como um mal, mas não se pode deixar de questioná-la. Para o sociólogo e professor da Universidade de Brasília Marcello Barra, especialista em internet, é importante que o jovem tenha acesso à rede mundial de computadores, desde que não use apenas esse meio para estabelecer e manter suas amizades. “Se você fica só na internet, perde um pouco das habilidades de relação social.”

Por outro lado, diz Elizabeth, alguns acreditam que a amizade virtual pode ser o início de uma amizade real. “A virtual cria mais possibilidades e pode tornar as pessoas mais próximas em diversas cisrcunstâncias e em diferentes partes do mundo.”

Bate-papo on-line fortalece as relações?

Amigas não descartam o contato físico

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Lorena (E), com a amiga Giovanna,
 passa até seis horas conectada

As estudantes Lorena Sabarense, 18 anos, e Giovanna Lopes, 17, concordam que o bate-papo on-line pode fortalecer uma amizade. Elas são o melhor exemplo de que a relação virtual dá certo. Em um passeio por um shopping da cidade, Lorena viu Giovanna perto de alguns amigos em comum e pensou que ela fosse uma antiga vizinha. Descobriu que não era e ficou com vergonha de puxar papo. Até que resolveu procurá-la no site Formspring e a encontrou.

“A gente começou a conversar, se adicionou no MSN e começamos a contar nossa vida toda. Hoje nos falamos todos os dias, sem exceção, e nos encontramos pelo menos duas vezes por semana, já que estudamos em escolas diferentes. Ela virou uma das minhas melhores amigas”, lembra Lorena. “A internet foi fundamental para a nossa amizade.”

Durante o período de aulas, Lorena costuma ficar até seis horas por dia com programas de bate-papo e sites de relacionamento conectados. Nas férias, o computador não tem trégua. Fica ligado o dia inteiro. “A internet é essencial para a minha vida. Tenho muitas amigas que não tenho como ligar. Quando viajam, é o meio que temos para contar o que está acontecendo. Pela rede também é possível demonstrar zelo e carinho pelas pessoas”, argumenta a estudante.

Mas Giovanna, Lorena, Marcus Gabriel e Guilherme têm a mesma opinião quanto à importância do contato físico com os amigos. “Dá para ter o papo virtual, mas se não tiver a presença física, não dá para manter uma relação”, pondera Giovanna. “Fico imaginando como era antes, quando as pessoas não tinham internet e ficavam sem saber o que acontecia com as outras. Hoje é instantâneo, mais prático e barato de saber, já que por telefone fica mais caro. Porém não se pode viver só numa segunda vida.” Marcus garante que costuma sair com os amigos pelo menos três vezes na semana ou aos fins de semana. “Tem que se encontrar”, defende. “Só a internet não é suficiente”, acrescenta Guilherme.
Prejuízo para o sono

Se ainda não está provado que a amizade on-line causa prejuízos sociais e emocionais, o mesmo não se pode dizer quanto à saúde, quando se leva em conta o tempo de conexão à noite. Com certeza, você já deve ter ficado horas e horas na frente do computador conversando com os amigos, nem viu o tempo rolar e, quando se deu conta, já tinha passado da hora de dormir. Resultado: ficou morrendo de sono no dia seguinte, mal-humorado e não conseguia se concentrar nas aulas.

A psicóloga e pesquisadora da Unicamp Gema Mesquita constatou em suas teses de mestrado e doutorado pelo Centro de Investigação da Pediatria da universidade que ficar no PC à noite tem prejudicado o sono de muitos jovens. Durante o mestrado, em 2007, ela acompanhou a evolução da qualidade de sono de 160 estudantes do ensino médio, entre 15 e 18 anos. E este ano, no doutorado, analisou os hábitos de vida e queixas de sono de 710 universitários. Entre os jovens do ensino médio, 74,04% afirmaram dormir mal após usar o computador até tarde. Durante a semana, o horário de maior frequência em frente à máquina ocorre no período entre 17h e 3h da manhã. Aos fins de semana, a situação fica ainda mais grave – a maioria fica on-line entre as 18h e as 6h.

Para os universitários, o período mais crítico é entre às 19h e a 0h, quando 73,33% dormem mal. Quando o horário de conexão é das 19h às 3h, a taxa de pessoas que não dormem bem é um pouco menor: 52,3%. Segundo Gema, isso se explica pelo adiantamento da fase do sono. Mais tarde, dorme-se com mais rapidez. Porém, com o passar dos anos, pode haver dificuldade de adormecer nos horários habituais, ter insônia no início ou no fim da noite e uma série de distúrbios do sono, como pesadelos.

A pesquisadora esclarece que temos horários determinantes para metabolizar o hormônio do sono. “Temos ciclos de sono que precisam ser respeitados. Se há atraso nessas fases, todo o organismo fica comprometido durante a noite e o dia.” Gema admite que o uso da internet é importante para os jovens manterem as amizades, mas pondera que é preciso saber usá-la sem causar prejuízo à saúde. A dica é evitar a utilização do computador até tarde e desligá-lo, no máximo, às 21h. De acordo com ela, o pico da metabolização do hormônio do sono ocorre às 22h.

“Quando você fica em frente à luz do computador, vai retardando esse processo e atrapalha todo um ritmo biológico. Uma noite de sono perdida nunca mais vai ser reposta”, ressalta. A psicóloga revela que a população em geral vem diminuindo o tempo de sono, mas é cada vez maior o número de pessoas com diabete e obesidade. “Porque dormem pouco, começa a surgir a intolerância à glicose. O hormônio que sacia a fome durante a noite também fica prejudicado.”



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Por Camila de Magalhães
Fonte: Correio Braziliense online, 02/08/2010

A alma dos avatares

Pesquisa revela que ícones de internautas destinados
a identificar a pessoa no mundo virtual
refletem traços da personalidade do usuário,
 mesmo que fisicamente diferentes.
Empresas podem usar esses egos cibernéticos
para aumentar seus lucros
Second Life/Reprodução



É extensa e rica a simbologia dos avatares.
Os que voam, relacionam-se à liberdade
os de cabelos louros são extrovertidos
e outros são sisudos


No mundo da internet, louras viram morenas, baixinhas ficam mais altas, os mirrados ganham músculos e quem está acima do peso pode se tornar uma Gisele Bündchen. Graças ao avatar(1), personagem que o usuário constrói para representá-lo no mundo virtual, é possível exibir uma roupagem completamente diferente da real. Ainda assim, esses egos cibernéticos conservam, em grande parte, a personalidade de seu dono. Mesmo que fisicamente diferente do indivíduo de carne e osso, o avatar reflete características psicológicas, identificadas até por quem analisa apenas o desenho que aparece na tela, sem conhecer quem o criou.

A constatação é de uma pesquisa da Universidade de Concordia, no Canadá, publicada na revista especializada Psicologia e marketing. Baseado em estudos anteriores que constataram que 80% dos usuários de internet terão um avatar até o fim de 2012, ao mesmo tempo em que as grandes empresas entrarão para as redes sociais, o psicólogo H. Onur Bodur decidiu investigar qual interpretação que os internautas fazem dos personagens que povoam o mundo virtual.

Lojas e empresas que comercializam seus produtos pela internet costumam criar avatares encarregados de tarefas simples, como tirar dúvidas dos clientes on-line, até recrutar empregados — caso, por exemplo, da alemã T-Systems, que faz uma triagem dos candidatos às vagas no ambiente virtual do Second Life. A intenção de Bodur foi decifrar a personalidade dos indivíduos por trás dos avatares, o que, de acordo com ele, pode ser uma importante ferramenta para as empresas conhecerem os hábitos e perfis dos potenciais consumidores. “O cabelo louro é uma característica de avatares associada com pessoas mais agradáveis e extrovertidas. Essa informação pode ser benéfica para as empresas, quando elas criarem seus avatares”, explicou o pesquisador ao Correio.

Embora os avatares estejam presentes em diversas redes sociais, o estudo de Bodur concentrou-se no Second Life, que multiplicou 20 vezes o número de usuários entre 2006 e 2009, chegando à marca de 15 milhões de pessoas cadastradas em todo o mundo. Nessa plataforma, existe uma moeda própria, o linden, que sofre flutuações no mercado, assim como o dinheiro real, e pode ser convertido em dólares. “A habilidade de conduzir transações na economia do Second Life aumenta o apelo desse mundo virtual”, constatou o pesquisador.

Na plataforma, os consumidores, também chamados de “residentes”, podem comprar propriedades, telefones e roupas para seus avatares. Os bens são virtuais, mas precisam ser pagos com dinheiro real, já que, para adquirir lindens, é preciso comprá-los com dólares.

De olho nas transações feitas no Second Life, grandes empresas se instalaram nesse mundo virtual, como Adidas, Dell, Disney e IBM. “Da perspectiva de uma empresa, o aumento no número de consumidores com avatares enfatiza a necessidade de saber quais dessas pessoas por trás do avatar realmente podem ser úteis do ponto de vista mercadológico”, diz Onur. Ele lembra que, nos ambientes virtuais, uma das poucas peças de informação disponíveis que um consumidor tem do outro é a aparência dos avatares. Então, é nos sinais não verbais emitidos pelos avatares que se pode tentar descobrir alguma coisa sobre o indivíduo de carne e osso, representado virtualmente pelo personagem.

1 - Ser supremo

A palavra avatar vem do sânscrito aval, que significa “descida” ou “aquele que descende de Deus”. Assim, entre os hindus, os avatares são encarnações de divindades na Terra. De acordo com o antigo texto indiano Vedas, “tais Personalidades estão situadas no mundo espiritual, o reinado de Deus. Quando Eles transcendem para a criação material, Eles assumem então o nome Avatar”. Os mais conhecidos são Krishna e Rama, avatares do deus Vixnu. O termo está associado a metamorfose, mutação, transformação.

Julgamento visual

Bodur conta que as pesquisas na área da psicologia social mostram que os indivíduos tendem a formar impressões sobre os outros baseadas nas características visuais. No mundo real, porém, é muito difícil, caro ou mesmo impossível modificar os atributos físicos. “Porém, os avatares podem ser redesenhados instantaneamente on-line por meio da tecnologia gráfica. Os consumidores têm um grande nível de controle sobre a criação de seus avatares. Deliberadamente ou inconscientemente, os avatares podem refletir sinais de seu criador”, diz.

A cor do cabelo, o estilo de roupa e o sexo escolhido podem dar pistas sobre a personalidade. “Os consumidores podem decidir criar um avatar que seja a imagem deles representada, ou criar um que reflete suas fantasias, ou o que a pessoa gostaria de ser. Ainda assim, essas características são reveladoras, porque mostram a preferência do consumidor”, explica Bodur.

Na pesquisa que ele conduziu, 103 participantes do Second Life tiveram de preencher um formulário, no qual descreveram traços de sua personalidade, assim como forneceram informações sociodemográficas. Em média, os voluntários tinham 33 anos, 56% eram mulheres, 77,7% se autodeclararam caucasianos, 40,8% viviam nos Estados Unidos e passavam cerca de 42,4 horas na internet (sendo 25,9 horas no Second Life) por semana. Entre os participantes, 45% deles pagavam US$ 9,95 por mês para ter uma conta premium na plataforma, 93,7% eram proprietários de objetos virtuais que não fossem roupas e 27,3% possuíam uma propriedade no mundo virtual.

Voluntários

A segunda fase da pesquisa envolveu também participantes do Second Life. O papel deles era observar os avatares dos voluntários que preencheram o questionário. Sem ter outra informação sobre os indivíduos por trás dos personagens, eles precisaram definir a personalidade dos criadores com base em adjetivos como: extrovertido, agradável, aberto a novas experiências, desagradável, antipático e agressivo. De acordo com o julgamento feito pelos observadores, avatares com cabelos longos e atraentes eram os das pessoas mais extrovertidas. Avatares masculinos que usavam roupas escuras foram considerados introvertidos.

Ao cruzar as respostas com a autoavaliação dos criadores dos avatares analisados, Bodur percebeu que elas se encaixavam. “Os homens que criaram seus avatares com roupas do exército ou camisas pretas eram os que tinham a personalidade mais desagradável. É interessante que as pessoas que analisaram os avatares inferiram que esses personagens eram, de fato, os menos agradáveis”, explica.

Bodur afirma que são necessárias mais pesquisas para aprofundar o tema — até porque, como todos os questionários eram em inglês, ficaram de fora possíveis participantes de vários países. Mas, segundo ele, o estudo pode significar o primeiro passo para analisar a interação entre um observador e seu alvo no mundo virtual. Para as empresas, isso pode significar mais lucro. “Por exemplo, uma agência de viagens focada em aventura pode criar em seu site um avatar que seja julgado pelos visitantes como extrovertido e aberto a experiências”, diz o pesquisador.
Três perguntas para

H.Onur Bodur Psicólogo Da Universidade Concórdia, Do Canadá

Ainda que o avatar seja, fisicamente, completamente diferente de seu criador, há semelhanças em relação à personalidade?
Nesse estudo, pedimos às pessoas que criaram seus avatares que descrevessem completamente sua personalidade. Depois, pedimos a outras pessoas que não as conheciam, mas apenas viram os avatares, para nos dizer o que pensavam sobre a personalidade do indivíduo por trás do avatar. Apesar de apenas olharem para os ícones e não terem nenhum outro tipo de informação, algumas das dimensões da personalidade bateram exatamente com a descrição feita pelos próprios criadores dos avatares. Para dar um exemplo, os homens que criaram seus avatares com roupas do exército ou camisas pretas eram os que tinham a personalidade mais desagradável. É interessante que as pessoas que analisaram os avatares inferiram que esses personagens eram, de fato, os menos agradáveis, baseado apenas nas calças camufladas ou nas camisas pretas.

Quando a pessoa cria um avatar, ela tem noção de que o personagem vai refletir sua personalidade ou isso é um processo inconsciente?
Nossas descobertas sugerem que, estatisticamente, há relações significativas entre as características dos avatares e as dimensões reais da personalidade. Os criadores podem, consciente ou inconscientemente, escolher usar essas características nos avatares de forma a refletir certo tipo da personalidade. Mas, no nosso estudo, quando havia uma diferença entre a personalidade real do indivíduo e a personalidade que se inferia pelo observador, nós tentamos identificar se isso era o resultado de uma autorrepresentação consciente. Por exemplo, descobrimos que indivíduos que participam de múltiplos mundos visuais tendem a representar eles mesmos de forma diferente em cada avatar.

Como as empresas pode usar, na prática, os dados descobertos pelo estudo?
Sugerimos que as empresas podem desenhar avatares que representem sua companhia ou marca. Por exemplo, o cabelo louro é uma característica de avatares associada com pessoas mais agradáveis e extrovertidas. Isso pode ser benéfico para as empresas, no sentido de construírem seus avatares seguindo características agradáveis, para se comunicar com os clientes no mundo virtual.
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Por Paloma Oliveto
Fonte: Correio Braziliense online, 02/08/2010

Charge do dia

Fonte: Correio Braziliense online, 02/08/2010

Os partidos políticos e suas siglas

27 Legendas
Clique para ampliar
Fonte: Correio Braziliense online, 02/08/2010


Por dentro dos partidos


Tribunal Superior Eleitoral registra 27 legendas no país.
Saiba quais são as características e
as regras para cada uma das siglas

Por Larissa Leite

Classificados como “pessoas jurídicas de direito privado” e formados por membros que, na teoria, compartilham ideias e interesses, os partidos políticos são, muitas vezes, procurados por motivos não ideológicos, como o tempo que dispõem para a propaganda partidária gratuita, o Fundo Partidário, ou mesmo a presença de um “puxador de votos”. Atualmente, existem 27 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Essa quantidade de agremiações só existe em função da Constituição Federal de 1988, que adotou o pluripartidarismo como condição básica da prática democrática — entre 1966 e 1979, haviam apenas duas siglas: a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Além da Carta Magna, a Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995, foi fundamental para a atual forma de organização das legendas. Chamada de Lei dos Partidos Políticos, a norma disciplinou toda a atividade partidária, reforçando a autonomia prevista pela Constituição e permitindo que o próprio partido estabelecesse regras internas. Conheça as normas e as características gerais que regulam e permeiam a criação, a organização, o funcionamento e a extinção dos partidos políticos no Brasil.

O número
468.890
Número de assinaturas de eleitores necessárias, atualmente, para a criação de um partido político.
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Fonte: Correio Braziliense online, 02/08/2010

ELEIÇÕES 2010

De olho no calcanhar

Assim como na mitologia,
Serra, Dilma e Marina enfrentam batalhas
para superar pontos vulneráveis da biografia e da atuação política

Desconhecimento pelo eleitorado, bandeiras que pouco ou nada significam ao grosso da população, oposição a um governo bem avaliado, falta de trajetória política. Assim como o personagem da mitologia grega Aquiles tinha em seu calcanhar um ponto vulnerável que o condenou à morte, os candidatos à presidência da República nestas eleições precisam lidar com peculiaridades que podem comprometer seu sucesso nas urnas.

Apesar de estar em sua segunda campanha presidencial e ser conhecido por cerca de 97% da população, de acordo com a última pesquisa Datafolha, o tucano José Serra é talvez o protagonista de uma das batalhas mais inglórias nestas eleições. Herdeiro do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e integrante do partido que faz oposição a um dos governos mais bem avaliados na história do país, Serra é identificado como adversário do presidente Lula por quase metade do eleitorado — 43%, também segundo o Datafolha. Lula, por sua vez, é dono de um índice de 77% de aprovação, segundo o Ibope.

“Serra fala que é o pós Lula. O eleitorado não quer o pós Lula. Quando você tem a sociedade satisfeita, a possibilidade de um terceiro nome empolgar é muito próxima do zero. Quando o (Fernando) Collor ganhou, o (ex-presidente José) Sarney tinha 8% de aprovação. Por isso, ele levou (as eleições)”, diz o cientista político da Universidade de São Paulo (USP), Rubens Figueiredo. Para tentar driblar essa dificuldade, Serra tenta desqualificar o PT e Dilma em seu discurso. “Alguém que vem por fora criticando tudo, neste cenário, não tem muita chance”, avalia Figueiredo.

Para o presidente do PSDB e coordenador da campanha de Serra, senador Sérgio Guerra (PE), a estratégia na corrida às urnas passa por marcar diferença com a candidata petista, a ex-ministra Dilma Rousseff, e reforçar a ideia de que as conquistas do governo do PT são apenas continuidade do governo tucano, anterior ao Lula. “Um candidato é diferente do outro. Além disso, o governo Lula tem dois pontos fortes: os programas sociais, que nós começamos, e a política macroeconômica, que nós definimos. Por isso, não tem quebra de continuidade no essencial.” Guerra aposta nos resultados de pesquisas que apontam a alta intenção de votos a Serra entre aqueles que aprovam o presidente.

Nesse cenário, é claro que Dilma, candidata que conta com o presidente Lula como seu maior cabo eleitoral, leva vantagem. Mas a ex-ministra também tem lá suas pedras no caminho. “O grande problema da Dilma é não ter experiência em campanha eleitoral. Ela é uma política que foi forjada na administração e não na eleição, enquanto seus dois principais adversários (Serra e Marina Silva, do PV) são políticos que já enfrentaram o processo eleitoral”, diz Figueiredo.

A dificuldade, segundo o cientista político da PUC-MG, Malco Camargos, é provar ao eleitorado que a falta de trajetória política no histórico de Dilma não faz diferença. “Precisa mostrar que basta ser boa administradora e que não é necessário ter tradição política.” O fato de ter sido parte do governo, o tempo de televisão na propaganda eleitoral gratuita e a estrutura partidária de que dispõe Dilma são seus aliados mais fortes. “Ela vai ancorar na estrutura do governo de que fez parte. E vai afirmar que as realizações do Lula só aconteceram porque na equipe tinha uma técnica capaz de gerenciar isso.”

O secretário nacional do PT, deputado federal André Vargas (PR), concorda com a avaliação dos especialistas. “De fato, a nossa dificuldade maior é termos que torná-la conhecida. Mas nosso maior potencial é o fato de governarmos o Brasil. Governamos o país e governamos bem. Nosso projeto não é dependente de uma só pessoa, mas reconhecidamente o presidente tem um carisma e isso ajuda.” Contra a pouca experiência política de Dilma, Vargas tem um antídoto: o período em que a candidata foi ministra. “Ela é boa articuladora. Não é só gerenciamento técnico, é gerenciamento político.”

Verde

A candidata Marina Silva (PV) é a postulante que tem mais percalços a superar em sua campanha. A principal bandeira de Marina é a sustentabilidade, tema que ainda não decolou como uma prioridade entre as preocupações dos eleitores. Não fosse apenas essa dificuldade, a senadora licenciada enfrenta ainda o desconhecimento nas ruas — segundo o Datafolha apenas 66% conhece a candidata — e guarda posições tidas como conservadoras pela fatia de seu potencial eleitorado.

“A pegada dela, que é o meio ambiente, está longe do dia a dia do eleitor. O sujeito está preocupado com o (programa social) Bolsa Família que o fará sobreviver mais um dia, como vai pensar em sustentabilidade?”, questiona Figueiredo. Na opinião de Camargos, apesar da plataforma política inovadora, as posições da candidata sobre temas como aborto, legalização das drogas e casamento gay são fortes complicadores. “Ela tem uma dificuldade de lidar com política mais moderna. Tem posturas conservadoras em relação a essas questões.” O baixo tempo de TV e a falta de estrutura partidária, segundo Camargos, praticamente inviabilizam o sucesso da campanha.



Ela vai afirmar que as realizações do Lula
ocorreram porque na equipe
tinha uma técnica capaz”,
Malco Camargos, cientista político da PUC-MG

Para cada dificuldade, um discurso

Dilma Rousseff (PT)
A ex-ministra-chefe da Casa Civil ostenta perfil técnico — mesmo tendo participado de diferentes cargos em vários governos, nunca disputou uma eleição. Ela tenta se desvencilhar do problema focando seu discurso na plataforma política e tentando mostrar que uma boa administradora pode ser boa presidente.
“Você acha que como ministra-chefe da Casa Civil eu sou um poste? Duvido que os grandes experientes em gestão tenham o nível de experiência que eu tenho. Duvido”, afirmou Dilma, ao ser questionada sobre o fato de seus adversários terem comparado a candidatura dela a de um poste.

Marina Silva (PV)
Apesar de ter uma bandeira moderna, como a defesa do meio ambiente, a candidata guarda posições conservadoras sobre temas como casamento gay e aborto. Para contornar a questão, joga a decisão para sociedade.
“Não sou favorável e proponho um plebiscito. Precisamos fazer um debate sério, estaremos fazendo uma grande discussão que envolve saúde pública, ética, assuntos morais”, disse Marina, ao responder se era a favor do aborto, da legalização das drogas e do casamento gay.

José Serra (PSDB)
Identificado pelo eleitorado como principal opositor do presidente Lula, que conta com aprovação de 77% da população, Serra quer se diferenciar da candidata do governo fugindo da discussão sobre plataforma política e focando nos perfis para, assim, tentar enfraquecer Dilma.
“Outro dia, Dilma disse que isso (ter alta carga tributária) era bom. A assessoria dela se esqueceu de avisá-la que não podemos comparar o Brasil, ainda em desenvolvimento, com a Suíça”, afirmou Serra em crítica à adversária, durante almoço com empresários.
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Por Daniela Almeida
Fonte: Correio Braziliense online, 02/08/2010