quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"É indispensável a transformação ecológica da economia"

É essencial convencer a sociedade de que é indispensável a transformação ecológica da economia para evitar que crises como a atual se repitam, afirmou o deputado Daniel Cohn-Bendit, líder do Partido Verde Europeu.
Esta que foi uma das figuras mais emblemáticas da revolta estudantil francesa de maio de 1968, quando a imprensa o chamou de Dany, o Vermelho, abraçou a causa ecológica no final da década de 70 e desde 1994 ocupa uma cadeira no Parlamento europeu.
Em visita ao Rio de Janeiro para a conferência “Ecologia no Século 21″, organizada pelo Partido Verde brasileiro, Daniel também disse à IPS que as mudanças para enfrentar o problema ambiental, por ser planetário, “devem ser feitas pela via democrática”.

IPS: Qual o futuro da União Europeia após a crise econômica que afetou Grécia, Espanha e outros países-membros, e também quais as suas consequências?
Daniel Cohn-Bendit: A Europa cresceu ao longo de sua história atravessando crises. Se entendermos onde erramos para chegar a esta situação apenas uma década depois do nascimento da zona do euro, creio que sairemos mais integrados, seremos “mais Europa” ainda.

IPS: Qual pode ser o impacto ambiental desta crise? Existe a possibilidade de flexibilização dos controles de contaminação em nome de uma rápida recuperação econômica?
DCB: Esse é o grande debate na Europa nestes dias: a necessidade de maiores controles em uma economia capitalista e de mercado para que não afetem as questões ecológicas. Não posso dizer quem ganhará, qual postura se imporá, mas é uma realidade que na Europa está crescendo a proposta do Partido Verde. Creio que a saída para a Europa é um debate, e o consenso entre o Partido Verde e a social-democracia. O problema é que nós, verdes, participamos pouco dos governos. Isso não quer dizer que seja necessário termos mais ministros, não quero ser um. Penso que nossa presença deve ser incentivando uma inteligência política que realmente seja considerada. A origem desta crise é que a premissa do capitalismo é sempre acumular mais e rapidamente. Vivemos durante décadas a um ritmo desenfreado de crescimento que levou à degradação do ambiente e seus efeitos sobre a mudança climática.

IPS: E quanto ao impacto social? O ajuste para o econômico afetou o cidadão comum e aumentou o desemprego.
DCB: Não creio que sejam reduzidos, por exemplo, os direitos trabalhistas. Igualmente, estamos no meio da crise e, consequentemente, o este debate não terminou. Os sindicatos e os trabalhadores defendem seus direitos e deverão alcançar posições de consenso.

IPS: Nesse contexto, como é possível levar adiante políticas ambientalistas?
DCB: Nossas iniciativas se aplicam porque, precisamente, todas as crises pelas quais passamos são consequências de um crescimento desmedido, a qualquer custo. A população de menor recurso é a que mais sofre, e não apenas em cada crise econômica, como também os efeitos sobre o meio ambiente. Por esse motivo, é necessário convencer a sociedade de que é indispensável uma transformação ecológica da economia. Caso isso não ocorra, o sistema econômico, toda a sociedade, enfrentará mais e mais crises, e suas consequências ambientais serão cada vez piores. Sempre dou como exemplo a Alemanha como melhor forma de melhorar a qualidade de vida de um país a partir de iniciativas de cuidado com o ambiente. Quando começou a investir em energias limpas em lugar da nuclear, houve uma transformação ecológica que também se plasmou na economia real das pessoas porque geraram mais empregos.

IPS: Como seria possível replicar esse tipo de estratégia na América Latina e na África, já que a realidade social é completamente diferente da existente no mundo industrializado?
DCB: Primeiro, a troca de informação entre grupos ecológicos da América Latina e da Europa é constante. Assim, é possível contextualizar as medidas para cuidar do ambiente. O mesmo acontece na África. Não se deve perder de vista que o movimento ambientalista é global e nossas propostas são soluções planetárias. Nos lugares onde mais impera a desigualdade social e econômica é onde mais se deve lutar para realizar uma transformação ecológica. Essa é a razão pela qual os problemas ambientais no Brasil e no resto da América Latina ou no mundo são iguais, porque devemos concretizar uma mudança de modelo econômico e social. Contudo, é imprescindível que tais mudanças ocorram dentro do contexto e das características sociais de cada continente, porque é impossível copiar ou pensar que essas transformações se farão igualmente em todas as partes.

IPS: As medidas para cuidar do ambiente podem afetar o direito à autodeterminação dos Estados?
DCB: As mudanças ecológicas devem ser feitas por meio da via democrática e de políticas que disparem em várias direções. A democracia tem de estar ligada ao direito internacional. Por isso trabalhei para a formação do Tribunal Penal Internacional, pois não podemos permitir que seja imposta a lei do mais forte. Também defendo que a Organização Mundial do Comércio integre os sindicatos e leve em conta as convenções trabalhistas. Ao mesmo tempo, considero que toda legislação industrial da Europa deveria valer para o resto do mundo, evitando, assim, a transferência de indústria para países onde as regulamentações e os controles ambientais são menores.

IPS: Como vê as mudanças ocorridas no mundo nestes 42 anos que se passaram desde o Maio Francês?
DCB: Este é outro mundo e seus problemas são outros. A estrutura da sociedade também é completamente diferente. Por isso, entendo que é impossível comparar aqueles anos com a problemática atual. Tampouco creio que seja possível comparar aquela geração com a atual, porque as preocupações não são as mesmas. Hoje, talvez seja mais difícil para os jovens, porque suas preocupações passam pela instabilidade no trabalho, ecologia e sobre um futuro que talvez não seja tão promissor.

IPS: É verdade, como foi publicado, que se arrepende desse levante estudantil?
DCB: Nunca disse isso. O que declarei é que devemos deixar para trás o Maio de 68 porque vivemos outros tempos e a conjuntura político-social é outra. Como sempre disse que devemos olhar para frente, então pensam que renego o passado. Nada disso, não me reprovo por nada e, pelo contrário, me sinto muito bem por ter participado.
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Reportagem PorLeonel Plügel, da IPS
(IPS/Envolverde)

É sempre virtual

DIANA CORSO*

Durante a adolescência, invejava os amigos que mantinham correspondência regular com alguma pessoa em outra parte do mundo, com a qual geralmente nunca se encontravam, e ainda em inglês ou francês, muito chique. Apesar do amigo por correspondência ser um hábito antigo, quando começou a grande onda da internet havia muita inquietude, por parte dos não usuários, relativa aos diálogos virtuais com objetivo de amor, amizade e divertimento. Nunca lhes partilhei a desconfiança. Vi minhas filhas constituírem boas amizades, algumas das quais nunca se tornaram presenciais, amigos e pacientes começaram histórias amorosas interessantes e outras nem tanto, houve gente que casou com um amor que iniciou por correspondência virtual. Acredito que um encontro real pode ser igualmente enganoso: duas pessoas podem ter compartilhado refeições, o leito e até os amigos e ainda assim desconhecer-se. Por um lado, do outro, conhecemos melhor as fantasias que temos a seu respeito, as mentiras que ele se conta e nos oferece, as versões editadas de sua história. Por outro, da nossa parte não somos mais sinceros que isso.

Vale a pena assistir ao filme Mary & Max, uma história feita com personagens de massinha, que já foi chamada de “filme de desanimação”. Na verdade, não é nada desanimadora, pelo contrário, pois se trata de uma bela amizade por correspondência que durou vinte anos, entre uma garota australiana solitária e um homem nova-iorquino, judeu, obeso e psiquicamente perturbado. Ela vivia com seus pais deprimidos e alcoólatras, era feia e maltratada na escola, ele, diagnosticado com Síndrome de Asperger, tinha terror do tumulto das pessoas e da grande metrópole. Ambos eram isolados e apoiavam um ao outro através das cartas que trocavam. Não há idealizações pueris nessa história: Mary tinha curiosidades sobre sexo e ninguém a quem perguntar, então colocava suas dúvidas nas cartas, o que produzia em Max crises de desconexão, uma das quais o levou a ser internado. Graças à gravidade do quadro dele, longas ausências marcavam essa correspondência, ao longo das quais ela se entristecia e sua vida involuía. Apesar dos contratempos, as cartas lhes faziam bem e tornaram-se essenciais um para o outro.

No fundo, estamos sempre dormindo com o desconhecido. Na amizade, pinçamos as melhores partes dos outros para nosso uso. Dos parentes, suportamos mais porque a vida nos obriga, mas reclamando. Vínculos são sempre virtuais, pois somos tecidos de fantasias, quer elas sejam vendidas ao outro por escrito ou de forma presencial.
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* Diana Lichtenstein Corso nasceu em Montevidéu, em 1960, e atualmente vive em Porto Alegre. É psicanalista, membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre)Formada em psicologia pela UFRGS, trabalhou com crianças e no campo dos problemas de desenvolvimento infantil.Atualmente atende jovens e adultos em seu consultório particular. É autora de Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis (Ed. Artmed) , em parceria com seu marido Mário Corso. É colunista do Segundo Caderno do jornal Zero Hora de Porto Alegre.
Twiter: http://twitter.com/DianaCorso
Fonte: ZH online, 01/09/2010

Prioridade na Argentina é o emprego

ENTREVISTA
Eduardo Bianchi,
secretário de Indústria e Comércio do Ministério
da Indústria da Argentina

Para espantar o fantasma de incessantes disputas entre dois vizinhos e sócios, nada como um avanço conjunto. Ontem, na abertura do Encomex Mercosul, na Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), foi divulgada projeção de intercâmbio comercial no bloco de US$ 40 bilhões até o final do ano. A se confirmar, superaria o recorde de 2008, que foi de US$ 36,6 bilhões – mais de 90% fruto do comércio entre Brasil e Argentina. Com ao menos um grande problema por semestre – alimentos e máquinas agrícolas foram os do primeiro deste ano –, Brasil e Argentina tentam harmonizar interesses em reuniões mensais. Durante um intervalo dos debates, o secretário de Indústria e Comércio do Ministério da Indústria da Argentina, Eduardo Bianchi, conversou com Zero Hora sobre as tentativas de pacificação.

Zero Hora – O que está sendo feito entre Brasil e Argentina para reduzir a repetição de problemas no comércio entre os dois países?
Eduardo Bianchi – Estamos nos encaminhando para fechar o ano com intercâmbio bilateral de US$ 40 bilhões. Se tivéssemos problemas tão grandes entre Brasil e Argentina, não estaríamos falando nessas cifras. Agora, com um comércio tão intenso e tão diversificado, sobretudo em produtos industriais, sempre aparecem alguns problemas setoriais, conjunturais. Isso é que tratamos de resolver nas reuniões bilaterais que temos todos os meses. O problema com as máquinas agrícolas foi de apenas dois dias. Sempre aparecem problemas, como nas relações humanas, o que se vai solucionando. É uma coisa normal.

ZH – É preciso então se habituar a esses problemas ou há algo que possa ser feito para evitar que ocorram com tanta frequência?
Bianchi – O governo argentino dá prioridade sobretudo à manutenção do nível de emprego e a um crescimento que seja inclusivo. Nesse aspecto, sempre que haja algum problema comercial que afete essas realidades, sempre vamos tentar discuti-lo e defender essas posições. Mas isso ocorre em geral com todos os países. No caso do Brasil e do Mercosul, ao menos temos um âmbito em que se possa discutir, com soluções mutuamente satisfatórias. Estamos trabalhando em uma agenda positiva, de integração produtiva. A ideia é encadear o setor produtivo argentino com o brasileiro, para tornar mais denso o tecido industrial do Mercosul.

ZH – A integração produtiva é interessante, mas empresários gaúchos relatam ter sido convocados a implantar unidades na Argentina para poder continuar exportando para o país. Uma integração voluntária não seria mais adequada?
Bianchi – Não tenho notícias de que isso tenha ocorrido no âmbito no qual trabalha o Ministério da Indústria argentino com o Ministério do Desenvolvimento do Brasil. Estamos buscando onde pode haver complementações e especializações setoriais e depois juntar os setores de ambos os países para que encontrem as oportunidades que há dentro desse marco geral.

ZH – No setor calçadista, houve casos de, digamos, convocação para instalação na Argentina.Bianchi – Esse é um desafio para toda a economia argentina, que está buscando, nos últimos sete anos, reindustrializar-se depois de um processo muito doloroso de política de abertura externa que representou a desaparição tanto de empresas quanto de setores. A prioridade para a Argentina é o emprego. Com emprego, há consumidores que fortalecem o mercado interno, que é o motor de todas as economias. Nesse aspecto, temos uma política que permite criar mais empregos.
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Reportagem por MARTA SFREDO
Fonte: ZH online, 01/09/2010

Uma espiadinha no subsolo

MARTHA MEDEIROS*


Mal comparando, muito mal comparando, todos nós acompanharemos uma espécie de Big Brother daqui pra frente. Mais grave, mais sério e cujo prêmio será a vida de volta. Estou me referindo, naturalmente, aos 33 mineiros que estão soterrados em pleno deserto do Atacama. Não haverá festas, nem banhos de piscina, nem namoros: o que o mundo inteiro acompanhará serão os efeitos que um confinamento provoca.

O Big Brother da Globo sempre me intrigou sob esse aspecto. Mesmo sabendo que todos sairiam de lá com mais dinheiro e uma fama episódica, ainda assim eram pessoas que passavam dois meses trancafiadas numa casa sem ter contato com o mundo. Eu me perguntava como seria ficar dois meses sem ler um jornal, sem reagir a nenhum estímulo externo, sem poder fazer planos para o dia seguinte, sem poder sumir de vez em quando. O blablablá dos participantes era imbecil, porém até a mais inteligente das criaturas sucumbiria à piração coletiva e passaria a achar relevante a discussão sobre se há alguém conspirando contra você, se o Fulano é um falso amigo ou se é verdadeiro.

Agora, será a vez de os mineiros passarem por isso, em situação incomparavelmente mais infernal. Veremos, através dos equipamentos tecnológicos disponíveis, imagens desses homens emagrecendo, jogando dominó, passando um tempo que, para nós, é veloz, mas que para eles será interminável. E veremos também – ou saberemos através de bilhetes e de depoimentos – como eles irão se virar com a pressão psicológica. É nos confinamentos que as neuras procriam, logo, haverá a hipervalorização da intriga, que gera acusações, brigas e perda de noção. As pessoas tornam-se autorreferentes ao extremo, já que entram numa bolha e ficam apartadas da realidade em companhia de outros solitários, cada um em sua prisão particular.

Existem confinamentos por opção. É quando alguém não se abastece de arte, convive com meia dúzia de alienados e, em vez de ampliar seus horizontes, faz o contrário: se fecha com suas ideias imutáveis e fica se ocupando com fofoquinha, briguinha, um minimundo sem transcendência alguma. Burros. Bitolados. Burocráticos. BBBs a granel, soltos por toda parte.

Os mineiros não escolheram entrar nesse jogo, mas passarão por testes similares e bem mais sacrificantes. Espero que possam receber livros, que é uma maneira de escapar sem sair do lugar. E que consigam, sempre que possível, manter o bom humor. Enquanto um ou outro rir da situação (já foi dito por eles que um colega não está gostando da ideia de ser resgatado porque precisará voltar a tomar banho), a sobrevivência mental do grupo estará garantida. Regra que vale aqui fora também.
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*Escritora. Colunista da ZH
Fonte: ZH online, 01/09/2010

A Alemanha está se tornando islamofóbica

Erich Follath

Político Thilo Sarrazin propaga a islamofobia e
 tem aceitação cada vez maior na sociedade alemã

Os comentários de Thilo Sarrazin a respeito dos muçulmanos provocaram ultraje na Alemanha e no exterior, mas encontraram ouvintes receptivos entre o público em geral. Sua retórica está lentamente provocando mudanças na Alemanha, transformando o país de uma sociedade tolerante em uma dominada pelo medo e pela islamofobia

O Flautista de Hamelin sabia como combater a peste. Ele conhecia melodias sedutoras e foi bem-sucedido contra o flagelo com seus métodos não convencionais. Mas como a sociedade não lhe pagou nenhum tributo e se recusou a lhe pagar o salário que lhe foi prometido por seu serviço, ele decidiu agir de forma radical e atraiu as crianças de Hamelin. Ao fazê-lo, ele destruiu a própria comunidade que antes buscou salvar. Não se sabe ao certo quando e por que o dr. Thilo Sarrazin, 65 anos, filho de um médico e de uma filha de um proprietário de terras prussiano, que supostamente realizou um bom trabalho durante seu mandato como ministro das Finanças da cidade-Estado de Berlim e que tinha ideias incomuns, se transformou em um sedutor. Ele se via como um futuro chanceler e estava aguardando ser indicado por seu Partido Social Democrata (SPD)? Teria ele preferido se tornar presidente-executivo do Deutsche Bank, em vez de “apenas” um membro do conselho executivo do banco central alemão, o Bundesbank? Ele aprecia o papel de agente provocador e de convidado popular nos talk shows alemães? E ele realmente se importa com a preocupação absurda de que a Alemanha está “acabando consigo mesma” –como alega o título de seu novo livro– ao tolerar influências estrangeiras demais em sua sociedade?

As opiniões podem divergir entre aqueles que buscam interpretar o comportamento de Sarrazin. O que importa é que ele é alguém que passou de um político audacioso, de fala dura e um brincalhão anárquico, para um racista antimuçulmanos que inventa tolices a respeito da base genética da inteligência e sobre as “origens alemãs-judaicas da pesquisa da inteligência”. Essas ideias o levaram a expressar suas preocupações a respeito da “identidade cultural” da Alemanha e do “caráter nacional”, e culpando os imigrantes muçulmanos e sua suposta não-cultura por todos os problemas de integração – ignorando o fato de que tanto os imigrantes quanto o país anfitrião têm responsabilidade.

“Nós”, ele diz, se referindo à sociedade alemã como um todo, estamos, inevitavelmente, nos tornando menos inteligentes devido aos muçulmanos, que Sarrazin caracteriza como pessoas não dispostas a se integrar, estranhas e com deficiência cognitiva, que estão produzindo mais crianças na Alemanha. Sarrazin reconhece de forma magnânima que há exceções no mundo islâmico, talvez alguns poucos turcos inteligentes aqui e acolá. Mas seus pontos de vista basicamente eliminam a necessidade de até mesmo tratar da questão de uma política de imigração controlada, da qual o próprio Sarrazin já foi um defensor veemente no passado. Sarrazin disse que os muçulmanos devem “desaparecer”. Por esse ponto de vista, a integração é inimaginável, possível apenas por meio da morte – que, naturalmente, é também uma forma de resolver o problema.

Estatísticas seletivas

O respeitado jornal “Frankfurter Allgemeine Zeitung” chamou o livro de Sarrazin de um “dossiê antimuçulmano baseado em genética”. A chanceler Angela Merkel reagiu com irritação. Stephan Kramer, o secretário-geral do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, sugeriu que o autor considere se filiar ao Partido Nacional Democrático (NPD) de extrema direita.

O ministro do Interior da cidade-Estado de Berlim, Ehrhart Körting, um membro do SPD, espera que o livro provoque um processo legal por incitação de ódio. “Thilo está atualmente se perdendo”, ele disse. “Ele sempre teve apreço por estatísticas. Mas no debate da integração, ele utiliza apenas as estatísticas que se encaixam na sua imagem do inimigo.”

Christian Gaebler, que é chefe do SPD no bairro de Charlottenburg-Wilmersdorf, em Berlim, onde Sarrazin está registrado, disse: “É hora de um basta. Caso o sr. Sarrazin não saia espontaneamente, nós iniciaremos os procedimentos para sua expulsão do partido. Nós analisaremos cuidadosamente o seu livro e discutiremos a questão em nossa próxima reunião do conselho executivo, em 6 de setembro”.

A retórica de Sarrazin provocou até mesmo ultraje no exterior. Na França, o jornal “Le Monde” o chamou de um “provocador racista”. Mas a ampla repreensão entre os políticos e a mídia (seus companheiros banqueiros permaneceram eloquentemente em silêncio durante a controvérsia) é apenas um lado da moeda. As teorias de Sarrazin, na forma de trechos de seu livro e citações publicadas na “Spiegel”, no tabloide “Bild” e no semanário “Die Zeit”, também encontraram ouvintes receptivos dentro de uma população altamente ansiosa. Na verdade, eles têm apelo junto à maioria.

Socialmente aceitável

A escritora e socióloga turca- alemã Necla Kelek fez um discurso na apresentação do livro de Sarrazin na segunda-feira, no qual ela defendeu as ideias dele. Kelek é fã de Sarrazin e já recebeu vários prêmios na Alemanha, concedidos por pessoas que –como ela– consideram todos os problemas do mundo como sendo causados pelo Islã.

O livro já estava no topo da lista de best sellers da Amazon alemã quando foi publicado. Cada ameaça de expulsar Sarrazin de seu partido ou de sua posição no Bundesbank apenas aumenta sua notoriedade. Mas se nada acontecer, ele poderá se sentir ainda mais validado.

Se Sarrazin fosse um lobo solitário, um agitador em um deserto sem simpatizantes, ele poderia ser desdenhado como uma aberração. Mas com seu toque de flauta sedutor, o homem agora conta com uma horda de acólitos, incluindo mulheres descendentes de muçulmanos que ostensivamente se recusam a vestir lenço de cabeça e outros adereços. A retórica estridente está na moda e os ataques histéricos ao Islã estão a pleno vapor. Sarrazin e seus companheiros cínicos se tornaram socialmente aceitáveis há muito tempo.

Seus esforços estão tendo um efeito e estão promovendo mudanças na Alemanha. As mudanças não são suficientemente dramáticas para ameaçar a democracia imediatamente, mas são graduais, como um veneno que age lentamente. De um país cosmopolita caracterizado pela liberdade de religião, a Alemanha está lentamente se transformando em um Estado dominado pelos temores exagerados e que demonstra o início de uma sociedade islamofóbica.

É claro que esses temores não são completamente infundados. As condições em áreas como o bairro Kreuzberg de Berlim levantam preocupações reais, justificadas. Há salas de aula onde três quartos dos estudantes são de famílias de imigrantes, estudantes cujo alemão mal dá para acompanhar a aula. Há clãs árabes e albaneses que controlam os sindicatos do crime e que recebem os benefícios do bem-estar social. Há fenômenos como os casamentos forçados e assassinatos em nome da honra. Em algumas mesquitas, os imãs estão encorajando os fiéis a praticarem o terrorismo islâmico. Tudo isso existe, mas não tem nada a ver com o Islã comum e com o cotidiano de bem mais de 90% dos muçulmanos da Alemanha. Mas são precisamente essas coisas que alimentam as tentativas baratas de criar estereótipos dos muçulmanos como inimigos.

Parte 2: Paralelos com o antissemitismo do século 19

“Em nenhuma outra religião a transição para a violência e o terrorismo é tão fluida”, escreve Sarrazin.

O ex-correspondente do “Frankfurter Allgemeine Zeitung” e autor best seller Udo Ulfkotte, outro profeta do apocalipse, expressa preocupações semelhantes quando alerta: “Um tsunami de islamização está varrendo nosso continente”. O escritor e colunista holandês, Leon de Winter, que é muito celebrado na Alemanha e um colaborador frequente da “Spiegel”, alega ter reconhecido “a face do inimigo” na religião bizarra e geralmente trata os muçulmanos de forma pejorativa, escrevendo: “Desde os anos 60, nós enganamos a nós mesmos de que todas as culturas são iguais”. O jornalista e escritor Ralph Giordano, uma autoridade moral na Alemanha, é um forte crítico da construção de novas mesquitas e caracteriza o Islã como uma religião totalitária. E aqueles que toleram o totalitarismo não são nada mais que apaziguadores? Nós já não vimos isso antes?

Potencial para violência

Não há dúvida de que há muçulmanos na Alemanha que simpatizam com ideias radicais islâmicas (o que não significa necessariamente que estão preparados para o uso da violência). Um relatório do Escritório Federal para a Proteção da Constituição, a agência de inteligência doméstica da Alemanha, inclui 36.270 muçulmanos neste grupo, um número que aumentou ligeiramente nos últimos anos – aproximadamente 9% desde 2007. Também é inegável que os homens-bomba de todo mundo frequentemente invocam o Islã –um fenômeno deplorável, mas não isolado. Toda religião monoteísta, por meio de sua reivindicação de exclusividade, contém potencial para violência.

Mas ninguém condena o cristianismo como um todo quando as facções separatistas da Irlanda do Norte cometem assassinato em nome de Deus. Nós não culpamos todos os católicos quando alguns deles matam, invocando sua fé, os médicos que realizam abortos. E não culpamos todo o judaísmo quando um terrorista judeu chamado Baruch Goldstein assassinou dezenas de muçulmanos durante suas orações em Hebron, invocando Javé.

Mas nós condenamos o Islã, cujo livro sagrado contém tantas passagens glorificando a violência quanto o Velho Testamento (que, diferente do Alcorão, menciona o apedrejamento como punição).

É claro, a desconfiança disseminada de muçulmanos, que apenas cresceu nos últimos anos, tem muito a ver com os ataques terroristas do 11 de Setembro em Nova York e Washington. Está longe de ser um fenômeno puramente alemão.

‘Crescente hostilidade’ nos EUA

Nos Estados Unidos, tradicionalmente um país de imigrantes, onde os muçulmanos estão muito melhor integrados à sociedade do que na Alemanha, o plano de construção de um centro cultural islâmico e mesquita próximo do Ponto Zero, em Nova York, provocou uma controvérsia acalorada. Os comentários dos fomentadores de ódio da “Fox News” e de importantes republicanos levaram a revista “Time” a concluir, em uma história de capa em sua mais recente edição, intitulada “A América é Islamofóbica?”, que há sinais de uma “crescente hostilidade” em relação aos muçulmanos. O novo governo da Holanda será forçado a tolerar o político populista de direita, Geert Wilders, que até mesmo propôs a proibição do Alcorão.

Na Itália, Dinamarca e Áustria, partidos populistas de direita estão marcando pontos políticos com seus rudes slogans anti-islâmicos. Na Suíça, um país com uma população muçulmana muito pequena, eles até mesmo conseguiram vencer um plebiscito proibindo a construção de minaretes. E na França, as banlieues, áreas de baixa renda na periferia das grandes cidades, estão em chamas porque o governo francês não consegue oferecer nenhuma solução para a falta de perspectivas para a maioria dos jovens muçulmanos.

Na Alemanha, que ao menos teve certo sucesso na integração de estrangeiros, o sentimento contra os muçulmanos agora é igualmente histérico. Um homem como Sarrazin é aplaudido por se comportar como uma versão menos ruidosa de Wilders. Mas por quê?

Bode expiatório popular

O grande apoio a Sarrazin também mostra que há potencial na Alemanha para um partido à direita do Partido Democrata Livre pró-negócios e do Partido Democrata Cristão conservador. Se Sarrazin criasse esse partido após sua possível saída do SPD, ele poderia conquistar pelo menos 10% dos votos. Políticos passivos e sem criatividade, grandes partidos sem nenhuma política real de integração e, acima de tudo, associações islâmicas em desacordo, contribuíram para a possibilidade de germinação da semente da islamofobia na Alemanha, que pode começar a crescer ao ser fertilizada por pessoas como Sarrazin.

O conceito dos muçulmanos como inimigos está se tornando mais direcionado, com o Islã sendo responsabilizado por muitos problemas sociais, como o desemprego, a suposta enxurrada de estrangeiros e os déficits na educação. Uma religião se transformou em bode expiatório – e alvo do ódio e intolerância.

Sites populares na Internet como o blog alemão “Politically Incorrect” nem mesmo se dão ao trabalho de fazer as distinções necessárias. Algumas das postagens no site indicam esta tendência de generalização, com postagens como: “O Islã é uma doença mental voluntária”, “É inútil lutar com essa cultura inferior” e “Há apenas uma palavra para descrever o Islã: barbarismo”. O anonimato da Internet permite que o ódio cego sem limites cruze os últimos limites da inibição. Os seguidores do Profeta Maomé são descritos de forma variada como “fornicadores de cabras” ou “vadias de véus”. “Muçulmano imundo!” e “Maldito condutor de camelo” estão entre as expressões pejorativas mais populares entre os jovens atualmente.

O Profeta Maomé tem mais do que um problema de imagem. Segundo uma pesquisa da Emnid, a maioria atualmente o considera quase tão repugnante quanto Pôncio Pilatos, o prefeito romano que autorizou a crucificação de Jesus. Cerca de 52% dos alemães seriam contrários ao casamento de seus filhos com uma pessoa muçulmana ou apenas aceitariam com fortes reservas, enquanto 46% seriam contrários ao casamento de seus filhos com uma pessoa budista e 30% com uma judaica.

‘Ódio inacreditável’

O professor Wolfgang Benz, um antigo diretor do Centro para Pesquisa do Antissemitismo na Universidade Técnica de Berlim e co-fundador do “Dachau Review”, com o qual estabeleceu a pesquisa dos campos de concentração, agora vê paralelos entre os agitadores antissemitas e os “críticos (extremos) do Islã”. “Os populistas no Ocidente estão respondendo à imagem do Ocidente como sendo o inimigo, propagada pelos demagogos dentro do mundo islâmico, com sua própria imagem do Islã como sendo o inimigo.” Eles utilizam ferramentas semelhantes, explorando imagens distorcidas e histeria. “O ato de equiparar cidadãos alemães que são muçulmanos com terroristas fanáticos é deliberado e emoldurado como um apelo ao sentimento popular.”

Benz vê a fobia contra outras culturas ou minorias como sendo um mecanismo de defesa. Uma imagem do inimigo é construída por meio de generalização e da redução da informação a boatos. Um exemplo clássico são os “Protocolos dos Sábios de Sião”, um livreto antissemita escrito no final do século 19, que supostamente fornecia evidência de uma conspiração judaica global. Apesar de cada detalhe do texto ter sido desmascarado como incorreto, czares russos e, acima de tudo, os nazistas o utilizaram para incitar as pessoas contra os judeus. O texto ainda está disponível atualmente nos países islâmicos que agitam contra Israel. “Qualquer um que fique –corretamente– indignado com imbecilidade do antissemitismo, também deve adotar uma visão crítica da forma como o Islã é retratado como o inimigo”, escreveu Benz em janeiro.

Benz tem sido fortemente atacado por esse raciocínio. Ele é alvo de agressões verbais e até mesmo de ameaças. “Eu estou diante de um ódio inacreditável”, diz Benz, apesar de não ter nenhuma intenção de trivializar o antissemitismo. Mas na Alemanha de hoje, parece que poucas pessoas estão interessadas em aceitar um ponto de vista diferente.

Nunca mais visto de novo

A Alemanha está mudando. E apesar de ainda não ser consistentemente uma sociedade islamofóbica, um república de Sarrazin, ela está certamente a caminho de se transformar em uma.

O Flautista de Hamelin nunca mais foi visto de novo após seu desaparecimento. Com todo o respeito, seria um pensamento atraente não ouvir mais a respeito de Thilo Sarrazin por muito tempo. Mas o Flautista não devolveu as crianças que abduziu. Apenas duas escaparam, uma cega e outra surda. Mas nenhuma delas conseguiu ajudar as outras crianças, que foram todas perdidas.
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Tradução: George El Khouri Andolfato

Nem rima nem solução

RUDÁ RICCI*
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A repetência e as aulas de reforço incorrem no mesmo erro:
acreditam que, pela repetição,
o aluno passa a se condicionar à resposta certa

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O tema da promoção automática de alunos surge, mais uma vez, no debate entre candidatos ao governo de São Paulo. E se confunde com um conceito distinto, o de progressão continuada. A confusão, generalizada, envolve pais e até mesmo professores, e opõe os dois conceitos ao de repetência.

A repetência nasceu de uma concepção taylorista educacional, que se forjou na última década do século 19 nos EUA, formulada por Joseph Mayer Rice.

Rice vinculou os objetivos da educação à formação para a indústria e definiu um ranking de conteúdos, tendo a matemática e a física como as principais, seguidas por biologia, química e comportamento social. Quem não atingisse um patamar ideal deveria repetir tudo o que estudou no ano anterior.

O problema é que esta concepção tem muito de administração do trabalho, mas muito pouco de educação. Os seres humanos não saltam de patamar cognitivo a cada mês ou ano. O "calendário humano" é outro. Foi estudado por Jean Piaget e Henri Wallon, para citar alguns.

A repetência é um elemento do sistema de verificação do modelo taylorista de educação. Explico: a seriação define um patamar ideal que o aluno deve atingir, a partir do qual é criado um ranking de classificação. Aqueles que não atingem um determinado índice desse ranking devem repetir.

A repetência e as aulas de reforço incorrem no mesmo erro: acreditam que, pela repetição, o aluno passa a se condicionar à resposta certa. Contudo, num mundo em que uma novidade tecnológica ocorre a cada seis meses por segmento produtivo, essa crença na memorização como carro-chefe do processo educacional cai por terra.

Repetir um aluno, portanto, é anacrônico e um equívoco educacional. A promoção automática também comete o mesmo erro. Interessante que o primeiro artigo sobre sistema de ciclos escrito por um brasileiro foi publicado na década de 1950, no Rio Grande do Sul, tendo como título "Promoção automática ou progressão continuada?".

Mais de meio século depois, continuamos não compreendendo a diferença entre as duas propostas.

São Paulo apresenta ainda mais dificuldade, porque, em 1921, Oscar Thompson, diretor geral do ensino do Estado, propôs a promoção em massa. Sampaio Dória também sugeriu algo semelhante.

Em 1956, durante a Conferência Regional Latino-Americana sobre Educação Primária Gratuita e Obrigatória, promovida pela Unesco, foi amplamente discutido um estudo sobre reprovações e sugerido como solução a promoção automática. Contudo, o sistema de ciclos não propõe a promoção automática, mas a adoção de enturmações múltiplas para alunos que apresentarem dificuldades específicas.

Digamos que, uma vez por semana, as escolas se dediquem a essas enturmações diferentes. Naquilo em que está bem, o aluno é promovido. No que apresenta dificuldades, continua em turma intermediária. Não se trata de repetência.

O problema que envolve esse tema é que, mais uma vez, o Brasil tenta criar atalhos na educação. E não percebe que, por aí, banalizamos o caminho do desenvolvimento sustentável.
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*RUDÁ RICCI, 47, doutor em ciências sociais, é consultor educacional do SindUTE-MG (Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais) e do Sinesp (Sindicato dos Especialistas de Educação do Ensino Público Municipal de São Paulo).
Fonte: Folha online, 01/09/2010

Rebanhos e propaganda

Roberto Romano*


O livro de Serge Tchakhotine (O estupro das massas pela propaganda política) foi editado pela primeira vez na França em 1939. Membro do Partido Social Democrata alemão, o autor foi obrigado a se exilar após a vitória do nazismo. A França era dirigida, seja bem notado, por socialistas, supostos inimigos de Hitler. Quando recebeu a cópia de seu trabalho impresso, o autor teve a surpresa de notar cortes e pesadas censuras às suas ideias. Maior espanto teve ele ao ser informada a fonte da violência: o ministro das Relações Exteriores da França, Georges Bonnet, socialista exemplar... Foram arrancadas as passagens que, segundo o ministro, poderiam “desagradar (!) tanto a Hitler quanto a Mussolini ”. Desde a primeira página (a dedicatória à França livre também foi cortada pelo ministério, por ser “fora de moda”), o livro, portanto, mostra quem deve ser muito criticado quando ditaduras sanguinárias se instalam no poder. No caso da Alemanha e da Itália fascistas, imensa culpa cabe à esquerda francesa, aos dirigentes ingleses e a todos os que alegam “razões de Estado” quando é preciso lutar contra a tirania escancarada.

Os referidos socialistas, como os pares alemães derrotados eleitoralmente por Hitler, tinham de si mesmos uma imagem de excelência, quase de perfeição. E confiavam mais na burocracia interna do partido (os quadros “superiores”) do que nos militantes. É contra eles que Tchakhotine se levantou ao constatar a sua incompetente propaganda, oposta ao barulho totalitário. Baseado nos trabalhos de Pavlov, mas usando sugestões da psicanálise, antropologia social, pesquisas empíricas sobre marketing e outros instrumentos analíticos (ele já emprega dados da cibernética, a partir Norbert Wiener) o autor desenvolveu, enquanto era possível, intensa prática eleitoral para defender a república de Weimar. Levando a sério a importância dos símbolos na guerra política, ele encontrou meios de neutralizar a suástica com sinais agressivos que denotavam a frente democrática. Assim, a cruz hitleriana era cortada pelos militantes democráticos (que tudo faziam por sua conta e risco, sem apoio das direções partidárias) com três flechas, o que reduzia a zero a persuasão hitlerista. Outras técnicas são descritas no livro. Em todos os lugares em que os métodos de Tchakhotine foram empregados, venceram os candidatos hostis a Goebbels.

Os dirigentes negaram apoio, dinheiro, material à campanha. No mesmo átimo, o totalitarismo era financiado por banqueiros, industriais, imprensa venal, sindicatos (conferir a biografia de Hitler publicada por Joachim Fest, que traz informações preciosas sobre o caixa dois nazista) e mesmo igrejas. As 600 páginas de O estupro das massas pela propaganda política” demonstram as bases, as técnicas, os alvos e os meios empregados no marketing comercial e político. Uma constatação repetida ao longo do texto é gravíssima, ainda em nossos dias ou, talvez, sobretudo na hora presente. “No máximo, 10% das pessoas humanas são capazes de resistir à técnica da propaganda afetiva (...), os 90% restante sucumbem ao estupro psíquico”.

O livro não é um manual. Ele desce aos fundamentos da vida coletiva, mostra as violências do poder institucionalizado nas ordens religiosa, política, econômica, bélica. Poucas análises do discurso totalitário ostentam lucidez semelhante à de Tchakhotine. Somado aos estudos de Victor Klemperer, Elias Canetti, Vance Packard (The hidden persuaders), o trabalho integra o conjunto dos clássicos cuja leitura é ainda hoje obrigatória para estudiosos e líderes políticos responsáveis.

Claro, muita coisa ocorreu na história e na teoria desde 1939. Mas o retorno do nazismo — e demais formas autoritárias —, com a internet e passeatas na Europa e nos EUA (mesmo no Brasil), indica que é tempo de ler aqueles monumentos, completando o que ali falta com pesquisa e, sobretudo, muito respeito voltado à população, ou pelo menos aos 10% que não aceitam serem tangidos como rebanho pela propaganda, sobretudo quando ela usa truques afetivos. Diante do arrazoado em pauta, todo brasileiro pensante deveria dizer : “De te fabula narratur”.
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* Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp
Fonte: Correio Popular online, 01/09/2010

Da ideologia ao personalismo

Roberto da Matta*
O PT foi o partido mais ideológico do Brasil. Ele se estruturava em teses socialistas, mas era também banhado por um lado social democrata que se ampliou depois que o Lula virou o "Lulinha paz e amor" e, graças a um marketing genial (a César o que é de César...), penetrou no imaginário dos segmentos elitistas, tornando-se um candidato viável. Pois, como o próprio Lula teoriza com sua conhecida sensibilidade sociológica, pobre não vota em pobre. Hoje, porém, graças ao que ele dramatiza na sua figura, pobre vota em pobre votado e admirado por seus patrões. Foi essa convergência cultural que permitiu a aceitação do operário candidato radical no operário pleno de paz e amor como presidente.

No primeiro governo, havia uma herança maldita, mas os fundamentos do sistema econômico implantado com o Plano Real prosseguiram. Depois veio o mensalão que implodiu o PT como partido, promoveu um expurgo e uma ascensão dos petistas possíveis. Agora, debaixo da batuta do único sobrevivente, o próprio Lula, o partido antes ideológico depende de uma pessoa. Lula salvou-se a si mesmo invocando, como Cristo, a traição de alguns companheiros que, no mensalão, exageraram a dose, dentro de um sistema político de resto igualmente marcado pela corrupção e antiliberal.

Há uma transformação crucial. O candidato que representava o operariado nacional e era um duríssimo opositor torna-se presidente e, neste papel, ele representa o trabalhador e o pobre. Mas é preciso não esquecer que ele próprio foi um pobre. Ele é a dramatização de si mesmo como um operário sem escolaridade e "diploma", como sempre enfatiza, do mesmo modo que provoca dizendo que tem azia quando lê. Mas como presidente de uma sociedade hierarquizada até o gargalo, ele sabe que pode dizer e fazer tudo quando se mora num palácio. Faz, então, um governo de "coalizão" e amplia sem limites as suas bases, realizando alianças nas quais os partidos e os movimentos sociais não são mais peças-chave, mas atores subordinados às personalidades e às relações sociais mais do que políticas dos seus membros e donos.

O universo da casa, das simpatias pessoais, domina a cena e começa a canibalizar o campo econômico em nome de um retorno de um "Estado forte" que servirá como instrumento de aristocratização. A coalizão compadresca começa a abalar aquilo que o poeta William Blake chamava de "moinho satânico", porque o mercado capitalista autorregulado não para diante de ninguém. Menos, é obvio, neste Brasil que se faz e desfaz de tempos em tempos.

No palco nacional, a ênfase no ideológico típica dos movimentos populares é paralisada. E os velhos coronéis da política marcada pelas teias de relações pessoais retornam ao "puder". Mas com uma diferença: agora, a esquerda oficial e a direita mais reacionária estão juntas. Formam um time de futebol e o seu técnico e principal craque é o Lula, um misto raro de atacante matador e de goleiro perfeito. No ataque, o PT atua nominalmente ao lado dos sindicalistas e dos empresários fornecedores do Estado estruturado pelo PAC. Na defesa, jogam os Sarneys, os Barbalhos, os Collors - os políticos personalistas que governavam na base do "aos inimigos a lei; aos amigos tudo!". Articulam-se assim, tendo como figura-chave um ator magistral e central - um Rei Lear da política nacional. O velho e bom personalismo que forma a espinha dorsal do nosso sistema social, como eu tenho dito na minha modesta e largamente ignorada obra sociológica, volta a englobar as regras democráticas liberais e as marcações ideológicas.

Com Lula tudo iria mudar e eu mesmo pensei que o governo do PT, como o do Brizola, no Rio, iria realmente promover uma transformação na administração pública. Mas a inércia cultural e a ausência de análise e percepção promoveram o retorno da linguagem da casa, de modo que me assusta (e diverte) ver o fruto de um partido ideológico, como o Lula, criar e impor uma candidata, usando metáforas da casa, da família e do parentesco. Dilma não vai ser apenas uma presidente; ela será a "mãe" inventada pelo Lula que, como tal, vai "cuidar" diretamente do povo e não administrar os recursos produzidos por esse povo.

Como um bloco de carnaval, demos alguns passos para a frente, mas agora ensaiamos um retorno ao ponto de partida. O que chamei de dilema brasileiro - o mal-estar entre leis que valem para todos e as obrigações pessoais que só se aplicam aos amigos - faz o seu freudiano retorno. Lula reencarna Getúlio. Mas, diferentemente de Vargas, poderia - se quisesse - ser aclamado presidente perpétuo do Brasil. Louvo-o por seu desprendimento. Pena que um craque do seu calibre, jogue contra uma oposição que joga contra si mesma e, assim, atropela e inviabiliza um liberalismo decente entre nós.

E sem oposição e uma consciência de limites do poder, vamos ter um longo campeonato no qual haverá apenas um campeão. No esporte, isso representa o fim do próprio jogo. Na vida pública, isso significa o fim da política como ação social e o início de um domínio à la Casa-Grande & Senzala: repleto de confraternizações e agregados. De vez em quando alguém leva uma chibatada, mas não por mal; recursos serão sempre esbanjados, mas o Brasil é rico. Afinal, como resistir a um personalismo que funda parte do sistema e jamais foi discutido em seus confrontos com o nosso lado liberal e igualitário?

Paciência. Só fomos ideológicos para trazer de volta um habitual personalismo que deve eleger - este, sim, é um fato jamais visto na nossa história - não uma mulher presidente, mas (como quer o Lula) a mãe do Brasil.
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*Antropólogo. Escritor.
Fonte: Estadão online, 01/09/2010

Líder dos céticos do clima muda de ideia

Bjorn Lomborg, mais famoso questionador do aquecimento global,
agora pede US$ 100 bi para combatê-lo

O dinamarquês está lançando um livro em
que analisa diferentes maneiras de controlar as mudanças climáticas
Suzanne Plunkett/Bloomberg News
O estatístico e ex-cético Bjorn Lomborg na
Copenhagen Business School,
onde dá aulas


O mais famoso cético do aquecimento global, o dinamarquês Bjorn Lomborg, já chamado pelos seus oponentes de "Hitler do clima", mudou de ideia. Ele disse ontem ao jornal britânico "Guardian" que vai agora lutar contra a mudança climática.

O estatístico, conhecido mundialmente por negar a importância do aquecimento global e o barulho feito por cientistas, ativistas e a imprensa em torno dele, vai lançar um livro no próximo mês pedindo dinheiro em nome da sua nova bandeira.

Na obra, ele e um grupo de economistas analisaram oito métodos de redução do aquecimento global e sugerem que seja injetado dinheiro, por exemplo, em energias limpas como vento, ondas e energia solar e nuclear.

O ex-cético não é exatamente modesto na hora de pedir dinheiro: de acordo com ele, serão necessários cerca de US$ 100 bilhões por ano para que as iniciativas tragam resultados.

VIRA CASACA

A mudança de lado do professor dinamarquês nos recentes debates sobre o clima foi uma surpresa para a comunidade científica.

Na obra que lhe deu projeção internacional ("O Ambientalista Cético"), e nas palestras e entrevistas que vieram depois dela, Lomborg abusou da matemática para mostrar que o controle do aquecimento global seria uma conta que não fechava.

Na sua opinião, o custo para combater o aquecimento era alto demais quando comparado com o benefício de ter um mundo "ligeiramente menos quente no futuro".

Lomborg costumava defender que o ritmo do aquecimento e seus efeitos sobre as pessoas estavam sendo exagerados pelos cientistas "pró-clima" e pelo lobby dos que se beneficiariam com investimentos pesados em ações como limpar a matriz enérgica, por exemplo.

Lomborg, no entanto, nega no "Guardian" que tenha feito uma reviravolta. Ele disse que sempre aceitou a existência do efeito humano no aquecimento global e que o importante, agora, é ver onde se deve gastar dinheiro para combatê-lo.

NA SÉRIE IPCC

O "episódio Lomborg" aconteceu um dia depois de um grupo de 12 cientistas independentes ter feito uma série de recomendações ao IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, na sigla em inglês).

De acordo com os cientistas -que incluem um brasileiro, o físico Carlos Henrique de Brito Cruz-, o painel do clima precisa passar por mudanças na sua gestão e na coleta de informações.

Um dos pontos nevrálgicos do IPCC que levaram à revisão independente foi a afirmação de que as geleiras do Himalaia desapareceriam em 2035, muito antes do que outras fontes sugerem.

Lomborg bateu nessa tecla anteriormente, quando ainda era cético do clima. Ele afirmou que a matemática do degelo estava errada e que, mesmo que o degelo ocorresse, isso poderia ser benéfico, pois aumentaria a quantidade de água disponível no verão para a China e Índia.

O dinamarquês pretende continuar criticando as contas do Himalaia. Mas, agora, sem desprezar as recomendações do IPCC.

Best-seller de Lomborg virou bíblia de cético

O estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg, 45, ganhou reconhecimento internacional após lançar, em 2001, o livro "O Ambientalista Cético".

A obra -até hoje uma das principais referências para céticos do clima- tem uma compilação de estatísticas que mostrariam que o aquecimento da Terra estaria "superestimado" e seus efeitos não seriam catastróficos.

O Protocolo de Kyoto e as metas de corte das emissões de carbono também foram alvos de críticas, pois seriam "um mau investimento para US$ 180 bilhões por ano".

Lomborg defende que, em vez de "estrangular a indústria e o mercado" impondo sanções e restrições, seria melhor investir na prevenção de temas mais importantes, como doenças negligenciadas.
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Fonte: Folha online, 01/09/2010

Eleições: Igreja dá critérios e fala à consciência das pessoas

Dom Damasceno
Entrevista com o arcebispo de Aparecida e presidente do CELAM

 
Qual a contribuição da Igreja para conscientização política da sociedade?
Dom Damasceno: A Igreja não tem uma posição político partidária, evidentemente. A Igreja fala à consciência das pessoas, dá critérios éticos, morais, para ajudar o eleitor a exercer este seu direito, que é um direito através do qual ele pode contribuir para o bem de todo o nosso país: o direito de escolher seus representantes.
Nós desejamos, com a orientação que a Igreja dá, que os nossos fiéis exerçam esse seu direito com muita liberdade, muita responsabilidade, com muita consciência perante Deus, perante a sociedade, pensando não só nos seus interesses pessoais ou de grupos, mas pensando no bem de todo o país.
É necessário que o eleitor não se deixe influenciar somente pelo resultado das pesquisas, não se deixe levar apenas pela emoção, o sentimento, mas que ele tenha realmente um discernimento, um espírito crítico para examinar o candidato, a sua pessoa, o seu passado, a sua competência, sua experiência, suas propostas, para ver se elas são viáveis, para que ele possa realmente, ao exercer esse direito, contribuir para o bem de todo o nosso país.

Há de se fazer o acompanhamento após as eleições também, não?
Dom Damasceno: Sim. Que após as eleições o cidadão também acompanhe aqueles candidatos que foram eleitos, para ver se de fato eles estão sendo fiéis, estão cumprindo os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral. Portanto, não basta votar, é necessário acompanhar os eleitos. E lembrar sempre que não devemos vender o nosso voto, não devemos anular o nosso voto, porque anulando nosso voto, às vezes como uma forma de protesto, muitas vezes nós estamos contribuindo para aquele que é menos melhor seja eleito. Então nosso voto positivo é uma maneira de nós buscarmos eleger aqueles que nós julgamos mais aptos, mais competentes, mas capazes para dirigir o nosso país, seja no âmbito legislativo, seja também no âmbito executivo.

Por esse caminho então a Igreja se aproxima da política.
Dom Damasceno: A Igreja não pode estar alheia à luta pela justiça. Ela não pode estar alheia aos problemas humanos, tudo aquilo que é humano é de interesse da Igreja. Ela não pode ficar alheia num momento tão importante para a vida de um país. Vem daí o dever de dar elementos e critérios para ajudar os fiéis a fazer esse discernimento e exercer seu direito com responsabilidade. Mas isso sem assumir posições político-partidárias.

A Igreja tem insistido na importância de se conhecer o candidato.
Dom Damasceno: É necessário que a pessoa acompanhe o candidato, conheça o seu passado. Pois muitas vezes a pessoa se apresenta como capaz de resolver uma série de problemas, mas nunca demonstrou isso com sua vida, seu passado, com seu trabalho, de modo que nós temos de ter um discernimento neste momento para escolher aquele que nós, diante da nossa consciência, diante de Deus e da sociedade, julgamos o mais adequado para exercer determinado cargo. Este é o voto consciente.

Como o senhor tem visto a qualidade dos candidatos?
Dom Damasceno: Não podemos fazer generalizações. Há candidatos bons, há candidatos que têm um passado, que demonstram o seu trabalho a serviço do país, mas há também, nós vemos pela lista dos candidatos, muitos que se lançam como aventureiros nesse processo eleitoral, e muitas vezes se lançam apenas para poder angariar votos para a legenda e assim contribuir para a eleição de um ou de outro candidato, mas sem aquela expectativa de que vai realmente vencer nas eleições. Mas muitas vezes são usados e instrumentalizados para poder eleger outros candidatos na sua legenda. O eleitor tem de ter muito cuidado com isso.

Qual avaliação o senhor faz do recente debate promovido pelas TVs católicas com os candidatos à presidência?
Dom Damasceno: O debate foi bom. As perguntas foram muito contundentes, muito oportunas. Permitiu que os candidatos se pronunciassem sobre questões fundamentais para nós, como a educação, a segurança, a saúde, a questão da vida, a família, o ensino religioso. Claro que teríamos outras questões para serem colocadas aos presidenciáveis, mas o tempo não permite que se alongue tanto o debate. Creio que o evento contribuiu para o melhor conhecimento tanto dos candidatos como de suas propostas. Pelas informações que temos, sabemos que o debate foi acompanhado por um grande número de pessoas em todo o Brasil, sobretudo por nossos fiéis católicos, cristãos, e que certamente tiveram ou terão ainda outras oportunidades de decidir melhor, com muita consciência, muita responsabilidade, o seu voto.
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Fonte: APARECIDA, terça-feira, 31 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – O arcebispo de Aparecida e presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), Dom Raymundo Damasceno Assis, recebeu a imprensa na sexta-feira passada para falar sobre as eleições de 3 de outubro no Brasil. Ele respondeu a perguntas de ZENIT e de outros veículos de informação presentes na coletiva. Este é um resumo de suas respostas.

O jornalismo e suas dimensões

 Mauro Santayana*

Hoje, o Jornal do Brasil inicia a ousada experiência de substituir a impressão sobre o papel pelo registro do texto e imagens no campo eletrônico. A empresa editora do Jornal do Brasil expôs as suas razões, que podem contrariar os nossos sentimentos, como jornalistas e leitores, mas são irretorquíveis, diante da realidade de um mundo limitado em seus recursos naturais, e da irresistível velocidade das inovações tecnológicas.

Faz parte da natureza humana, desde Hesíodo, lamentar que todo tempo passado foi melhor. Durante uma parte da vida, caminhamos atraídos pela esperança; depois nos amparamos nas alegrias e na vitória sobre as dificuldades. Quando faço um balanço do passado, sinto que a palavra impressa, nos livros e nos jornais, significou a metade, ou mais, de minha vida, desde o dia em que terminei, aos 12 anos, a leitura de uma tradução portuguesa de Dom Quixote. Não foram as leituras cristãs, nem marxistas, posteriores, que me fizeram a cabeça, mas, sim, os pobres, ridicularizados, desdenhados e imensos personagens de Cervantes, principalmente Sancho Pança, íntimo dos porcos e senhor de inquietante bom-senso.

Entrei para o jornal aos 19 anos, e tarde, para os costumes da época. Foi ali, e manuseando papéis virgens e impressos, ouvindo o barulho das máquinas de escrever, de composição e de impressão, que me formei. Ao cobrir os fatos trágicos do cotidiano, confirmei as minhas escolhas éticas, feitas em atribulada adolescência. Permitam-me, assim, lamentar o fim das redações e do convívio entre homens maduros e outros muito jovens – enriquecido, mais tarde, com a doce presença feminina – na corrida contra os prazos, em busca da confirmação dos fatos¸ e na catarse dos bares, depois do fechamento das edições.

O mundo sempre mudou, ao mudar o suporte da palavra escrita. O pergaminho permitiu a portabilidade dos textos, antes fixados nas pedras e nas pesadas peças de argila. O papiro barateou as edições, antes da chegada do papel, que reina há mais de mil anos na civilização ocidental, e, há mais de 500 anos, como o melhor suporte da arte tipográfica. Cada uma dessas revoluções correspondeu a um grande salto, como atestam os historiadores. É também nessa nova realidade que se torna inútil e vencida a presunção corporativista de limitar aos jornalistas profissionais o acesso aos meios de comunicação. Todos os que somos leitores, somos, hoje, comunicadores. Nessa incoercível liberdade residem a grandeza e as dificuldades do sistema democrático.

A internet, para o bem e para o mal, é muito mais do que a aldeia global de McLuhan, esse profeta meio esquecido. É a grande ágora, que tanto poderá ouvir e seguir os democratas, como foram Péricles ou Demóstenes, quanto tiranos, parelhos a Mussolini e a Hitler. Nessa nova realidade, nós, jornalistas, somos mais necessários do que nunca.

No exercício de nossa independência de pensar e de julgar, temos que arbitrar o tumultuado debate de ideias, que a liberdade de ocupar o espaço cibernético permite. Este é o nosso dever, para com os cidadãos, nossos leitores, e, para cumpri-lo, temos que recorrer, sempre mais, em todos os momentos, em cada frase redigida, aos princípios éticos que constituem os esteios do melhor de nossa experiência histórica. Eles continuarão sendo os da busca da verdade e da justiça, da igualdade, da solidariedade e da paz.
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*Jornalista
Fonte: JB online, 01/09/2010

JB: Um novo desafio para um jornal desbravador

"JB inicia nova fase de ousadia" Foto: Ricardo Stuckert/PRJB Online

BRASÍLIA - Em artigo na pioneira edição do Jornal do Brasil (www.jb.com.br ) como primeiro jornal 100% digital do País, nesta quarta-feira (1/9/2010), o presidente Lula destaca "histórico de inovações do JB". Lula enfatiza que "Brasil precisa de bons jornais. Não importa se impressos ou em plataformas eletrônicas". Para Lula, "a partir de hoje, Jornal do Brasil inicia nova fase de ousadia".

Leia abaixo a íntegra do artigo publicado na primeira edição do JB 100% digital.


Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente da República

Em mais de um século de existência, o Jornal do Brasil foi marcado por um histórico de inovações. Com poucos anos de fundação, teve a ousadia de lançar uma proposta editorial voltada para as reivindicações populares. Nos anos 1950, revolucionou a imprensa brasileira, com uma reforma editorial e gráfica que estabeleceu um novo paradigma, dando novos rumos a todos os jornais da época. Nos anos 1970, foi pioneiro na cobertura cotidiana do movimento sindical e das greves dos metalúrgicos do ABC paulista. E eu fui testemunha disso. Na última década do século passado, foi o primeiro jornal do país a publicar notícias na internet.

A partir de hoje, o JB inicia uma nova fase de ousadia. Torna-se o primeiro dos tradicionais periódicos brasileiros a abdicar da distribuição do jornal impresso. Continuará sendo publicado em formato digital, com noticiário acessível na internet mediante assinatura paga. Trata-se de um novo modelo de negócios, voltado para uma nova era da tecnologia e do conhecimento.

Como desbravador de um terreno ainda desconhecido pela imprensa brasileira, o Jornal do Brasil terá um imenso desafio pela frente: encontrar um formato que equilibre a agilidade e portabilidade das novas mídias digitais com a organização e ordenação hierárquica das informações e acontecimentos a serem compartilhados pelos cidadãos em suas relações sociais. Um formato que possa, simultaneamente, beneficiar-se de um custo de produção menor, mas que seja capaz de manter e superar o patamar de qualidade e credibilidade dos concorrentes impressos. O grande segredo dessa aventura é encontrar a fórmula de financiamento adequada ao novo empreendimento e, ao mesmo tempo, estabelecer um vínculo de cumplicidade participativa dos leitores, consolidando uma relação de confiança e fidelidade.

O jornalismo impresso está vivendo um momento de grande incerteza no mundo inteiro. Essa experiência estará sendo observada com muita atenção não só por acadêmicos, mas por proprietários e jornalistas de inúmeras publicações tradicionais do país e do exterior. Torço profundamente para que o Jornal do Brasil consiga encontrar o seu caminho e volte a ser uma publicação de referência mundial e de grande destaque na formação da opinião pública brasileira.

O Brasil precisa de bons jornais. Não importa se impressos ou em plataformas eletrônicas. O importante é que tenham qualidade e estejam comprometidos em levar a seus leitores boa informação e debate de ideias qualificado.
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Fonte:  http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/09/01/e010913955.asp

Sala de Desembrulho no Shopping

Milton Nogueira*

Aahhaa! Agora que você acabou de comprar um secador de cabelo, o que fazer com a embalagem? O secador vem embrulhado num plástico, dentro de uma caixa de isopor, dentro de outro plástico, dentro de uma caixa de papelão; por fora de tudo, uma película de celofane. A loja entrega-lhe a mercadoria numa enorme sacola de papel. Em casa, você terá de desfazer-se de tudo isso.

Um pacote de cereal matinal vem com um papel-manteiga, para manter o produto crocante; tudo dentro de uma caixa de papelão impressa em baixo-relevo em quatro cores, com qualidade melhor que a de livros de medicina. Tudo para durar dois dias em casa. Outro dia comprei colírio num frasco de 2,5 ml, menor que uma azeitona, numa caixa de papel maior que um celular antigo. A drogaria meteu tudo numa sacola plastica maior que um caderno.

O mundo não precisa de tanta embalagem. Chega de tanto embrulho!

Por que não montar em cada shopping center uma sala de desembrulho, na qual você deixaria toda a embalagem e levaria para casa apenas o produto? Ao final das compras voce iria à sala para se livrar das embalagens desnecessarias. Fácil, econômico e ambientalmente correto.

As embalagens, com suas sacolas, caixas, garrafas, frascos e bisnagas, causam grande poluição ambiental em ruas, lixões, lotes vagos, parques, estacionamentos e praças. Jogadas fora, vão parar nos lugares mais lindos da cidade, como praças, rios ou lagos. Queimadas, elas põem no ar fumaça e mau cheiro. Algumas cidades organizam coleta coletiva, mas, no fim, as embalagens irão transformar-se novamente em mais plástico ou papel de segunda. Isopor não tem solução fácil.

Se os shoppings adotassem a ideia de ter uma sala de desembrulho, as fábricas logo veriam que não precisam enfiar o produto em cinco embalagens, só para vê-las jogadas fora no próprio local da compra. Talvez os fornecedores possam redesenhar e simplificar as embalagens de modo a diminuir custos e desperdícios. Isso feito, eletrodomésticos, roupas, lápiz, sapatos e bugigangas sairiam da loja sem o embrulho ou apenas com o mínimo necessário para carregar.

Bocage, o satírico português, perguntava: sabe qual a pior compra que alguém possa fazer? Resposta: um chapéu, pois ou você leva na cabeca, ou vai no embrulho ou fica na mao. Será que os gerentes de indústria ou comércio ainda não desconfiaram de que muitas pessoas têm consciência de que são embrulhadas pelos seus marqueteiros com tanto embrulho para a infelicidade geral do planeta?

Caro leitor, pergunte ao gerente do shopping o que ele acha da ideia.
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*Milton Nogueira é engenheiro e ex-funcionário da ONU em Viena.
Fonte: Revista Carta Capital online, 30/08/2010

Para professores, ausência da família aumenta problemas em sala de aula

Docentes temem que pouca presença dos familiares transforme escola
em “depósito de crianças”

Uma certa confusão ronda a educação. O que é responsabilidade de quem parece que é uma grande dificuldade para pais e mestres. Os professores chamam atenção para a falta de participação de pais ou responsáveis na vida escolar das crianças e a transferência de responsabilidade da educação informal, aquela que acontece no ambiente doméstica e a partir do convívio familiar – para a escola.

Para o professor Tomé Ferraz, das disciplinas de física e matemática da rede pública estadual e municipal, a escola transformou-se em “depósito de crianças” e os professores seriam “babysitters” (babás) de luxo.

As crianças da geração conhecida como “Y”, parece que já nascem “conectadas” na informática e é difícil convencê-las a prestar atenção à aula ou valorizar a educação propiciada pela escola. Parte das aulas é perdida em pedidos de atenção à aula ou para desligar o “Ipod”, descreve o docente. “Eles não têm só celular, eles têm uma verdadeira tevê e levam para a sala de aula”, condena.

Lidar com essa nova face da infância e da adolescência é cada vez mais difícil sem a colaboração das famílias, indica. “A família participa pouco da vida da criança, sobra tudo para a escola”, reflete Tomé.

“Realmente não entendo como os pais, por mais simples que sejam, não tenham consciência de que é preciso valorizar a lição de casa, dar um abraço, acompanhar pelo menos um pouco o filho”, indigna-se Jaime*, da área de Geografia.

Rosana Almeida, professora de sociologia, conta que adora dar aula, mas não pode ser responsável pela educação familiar. “Eu vou ensinar a pensar, sou uma professora à antiga, comer com garfo e faca é responsabilidade de pai e mãe”, declara.

Segundo Cristina*, professora de biologia, a família ou a ausência dela “pesa muito”. “Na cabeça dos pais, parece que agora a escola é obrigada a dar toda a educação”, adverte. “Eu vejo o aluno um hora por dia, por mais vontade que eu tenha, há 35 precisando de atenção, que eu não posso abandonar”, alerta.
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* Os nomes de alguns entrevistados foram alterados a pedido dos professores
Reportagem de Rede Brasil Atual
Fonte: Revista Carta Capital online, 31/08/2010

A ousadia de Lula

Delfim Netto*

Diante de uma crise que afetou a confiança,
o presidente soube evitar que os empresários jogassem na retranca e
salvou empregos no País

Uma das grandes diferenças que marcaram as tentativas de recuperação econômica do Brasil em relação ao resto do mundo durante a crise de 2008/2009 foi a sustentação do emprego. A rede de proteção que se estabeleceu com a exoneração tributária para que as empresas pudessem continuar trabalhando resultou na manutenção dos empregos e dos níveis de consumo.

Foi a recuperação da confiança no funcionamento da economia que permitiu o forte crescimento do PIB já no primeiro trimestre de 2010, acompanhado de um persistente aumento do nível de emprego. Isso não aconteceu em nenhum país. Nem nos EUA nem na Europa, talvez com uma única exceção na Alemanha.

O fator confiança é fundamental para dar maior tranquilidade à economia, porque, quando o trabalhador não sente medo de perder o emprego, ele fica um pouco mais ousado nos seus hábitos de consumo. A expansão do consumo, como está acontecendo no Brasil, é fundamental para restabelecer o dinamismo do circuito econômico.


"Mas, ao não gastar um pedaço do salário,
eu deixo de dar emprego para alguém que
estaria produzindo o bem que eu compraria,
mas não comprei."

A característica principal das crises econômicas, especialmente quando derrubam rapidamente os mercados financeiros, é a falta de confiança que toma conta das pessoas. A primeira vítima é sempre o emprego. Na atual crise, 30 milhões de postos de trabalho ao redor do mundo deixaram de existir, a economia mundial entrou em recessão e o consumo desabou, porque: 1. Como você não confia em mim, eu não confio em você. 2. Logo, quando recebo o salário, compro menos do que preciso e guardo um restinho, com medo de perder o emprego. Mas, ao não gastar um pedaço do salário, eu deixo de dar emprego para alguém que estaria produzindo o bem que eu compraria, mas não comprei. Recebi o salário na fábrica de tratores; vou comprar feijão, arroz, roupas. Se eu deixar de comprar roupas, o produtor de algodão, do fio, o fabricante do tecido e os que vendem a roupa recebem menos recursos.

Todos passam a ter atitudes mais cautelosas em relação ao consumo, ou seja, o medo se estabelece no nosso meio. Perdemos a confiança uns nos outros. A crise é essa coisa simples que muitos países ainda não levaram em conta desde o começo da tragédia.

O Brasil enfrentou a crise, a economia resistiu ao tranco e se recuperou por uma ousadia do presidente Lula. Naqueles momentos de grande constrangimento, quando todo mundo só pensava em se proteger, em guardar, em ficar líquido, o trabalhador evitando gastar, o empresário adiando investimentos, o banqueiro sem emprestar, ele veio e disse: “Não, nada disso, vamos tocar para frente que a coisa vai funcionar. Se você, por medo de perder o emprego, deixar de comprar, aí, sim, você vai ficar desempregado”.

"O fator confiança é fundamental para dar
maior tranquilidade à economia"

A aceitação dessa forma de comportamento restabeleceu o circuito econômico: eu pago você, que paga ao Joaquim, que empresta ao José, que me paga… e, assim, esse circuito foi retomando a atividade. É por isso que a engrenagem da economia brasileira não deixou de funcionar, quando quase todo mundo derrapava e ainda luta para reencontrar a trilha.

Em termos bastante simples, foi o que aconteceu no Brasil, melhor do que aconteceu no restante do mundo. Restabeleceu-se a confiança entre os brasileiros muito mais rapidamente do que nos demais países e esse, inegavelmente, foi o fator decisivo. Hoje podemos comparar os resultados e dizer que demos um belo tombo nos analistas e especuladores que apostaram pesado contra a estratégia brasileira.

Não adianta tentar esconder que, aqui, o fator catalítico foi a ousadia do presidente Lula. Diante do assédio externo, ele se apoiou naquele mandamento do esporte predileto dos brasileiros, segundo o qual, a melhor defesa é o ataque, para neutralizar o desafio da onda corrosiva que invadira os mercados financeiros, fechando empresas e consumindo empregos.

Antes que os empresários passassem a jogar na retranca, ele mobilizou as equipes dos ministérios econômicos para desengavetar rapidamente a cenoura do diferimento de impostos, oferecendo-a como contrapartida da garantia da manutenção dos empregos. E não hesitou em endurecer o jogo nas poucas ocasiões em que o governo não encontrou a receptividade esperada.

Lula arriscou todo o seu capital de popularidade com uma mensagem direta, sem rodeios, acolhida rapidamente pelos trabalhadores, empresários e pela população em geral. Venceu a descrença inicial, atropelou a oposição de comentaristas e analistas econômicos que acreditaram na virada de jogo contra o Brasil, mas perderam o fôlego ante a subida espetacular dos índices de aceitação de seu governo.
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* Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
Fonte: Revista CARTA CAPITAL online, 30/08/2010