terça-feira, 2 de novembro de 2010

CUIDADO: 'BURN OUT'

Conhecida como a doença dos idealistas,
esta síndrome é desencadeada por situações estressantes
 e caracteriza-se por uma desilusão profunda
em relação ao próprio trabalho
Shutterstock


Perfeccionismo é fator de risco para esta doença insidiosa, que ataca a motivação de gente que rala, sem distinção de cargos hierárquicos.
O "burn out", termo que em inglês designa a combustão completa, está incluído no rol dos transtornos mentais relacionados ao trabalho. Foi a terceira maior causa de afastamento de profissionais em 2009, segundo dados da Previdência Social.
A síndrome é bem mais que "mero" estado de estresse, não pode ser confundida.
Esse transtorno psíquico mescla esgotamento e desilusão. Pode ser desencadeado por uma exposição contínua a situações estressantes no trabalho, explica a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da Isma (International Stress Management Association), entidade que pesquisa o "burn out".
"A doença é gerada pela percepção de que o esforço colocado no trabalho é superior à recompensa. A pessoa se sente injustiçada e vai se alienando, apresentando sintomas como depressão, fobias e dores musculares."
É a doença dos idealistas, diz Marilda Lipp, do Centro Psicológico de Controle do Stress e professora de psicologia da PUC-Campinas.
"O 'burn out' é um desalento profundo, ataca pessoas dedicadas demais ao trabalho, que descobrem que nada daquilo pelo que se dedicaram valeu a pena."
O estresse, compara Lipp, tem um componente biológico forte, ligado a situações em que o corpo tem de responder ao perigo. Já o "burn out" é um estado emocional em que a pessoa não sente mais vontade de produzir.
"Tem a ver com o valor depositado no trabalho", diz Lipp. "Quem apresenta exaustão emocional, não se envolve mais com o que faz e reduz as ambições pode estar sofrendo do transtorno."
O diagnóstico não é fácil: a apatia gerada pelo "burn out" pode sugerir depressão ou síndrome do pânico.
Médicos, professores e policiais são grupos de risco, diz Duílio de Camargo, psiquiatra do trabalho ligado ao Hospital das Clínicas.

DESMAIOS

O professor Cláudio Rodrigues, 43, entrou em combustão total por duas vezes. Começou como um estresse, que foi se acumulando ao longo de dez anos.
Ele lecionava 13 horas por dia numa escola da zona sul de São Paulo. E se frustrava com salas lotadas e alunos desinteressados, conta.
"Via um aluno meu entregando pizza junto com alguém que nunca tinha estudado. Eu me sentia impotente como professor". Deprimido, se manteve afastado das salas por dois anos. Em 2004, depois de receber acompanhamento psiquiátrico e tomar medicação, voltou. Em maio deste ano, recaiu.
"Nada tinha mudado na escola, estrutura péssima. Eu me sentia responsável por estar levando todos os alunos a um caminho sem futuro."
No meio de uma aula, o professor começou a suar e sentir o corpo ficar mole. Saiu e desmaiou na escada. Na semana seguinte, enquanto caminhava para o trabalho, desmaiou de novo. Está afastado desde então.
"Sinto uma insatisfação por ver que o meu trabalho não vale a pena", desabafa.
A vigia Lucimeire Stanco, 34, também passou um tempo licenciada por causa de "burn out". Em 2006, ela fazia a ronda noturna em um colégio da zona leste. Passava a noite só e por duas vezes teve que se esconder quando tentaram invadir o lugar.
"Sentia desânimo porque não me tiravam daquela situação. Me sentia rejeitada, vítima." Ela se tratou e se readaptou. Hoje, só trabalha de dia, e acompanhada de outros vigias.
Casos como esses são tratados com psicoterapia e antidepressivos mas, segundo Marilda Lipp, a medicação só combate os sintomas.
"A pessoa precisa reavaliar o papel do trabalho em sua vida, aprender a dizer não quando não tem condições de executar algo e reconhecer o próprio valor, mesmo que outros não o façam."

FACA NA GARGANTA

"Eu era infeliz e não sabia", afirma a empresária Amália Sina, 45. Hoje ela é a dona do negócio, mas há quatro anos, era a vice-presidente, na América Latina, de uma multinacional e responsável pelas atividades da empresa em 22 países.
"Dava aquela impressão de que o mundo girava em torno do trabalho, sempre com a faca na garganta", diz.
Para a empresária, o apoio que teve da família e a prática de exercícios a ajudaram a suportar as pressões. Até ela deixar a função executiva.
A empresária adotou a estratégia correta para prevenir um "burn out", segundo o psiquiatra Duílio de Camargo. "A pessoa chega a esse estado sem saber o que tem. Se não tiver acolhimento da família, o desconforto aumenta."
Na visão de Eugenio Mussak, fisiologista e professor de gestão de pessoas, as providências para prevenir essa patologia do trabalho devem partir tanto do sujeito quanto da empresa.
Segundo Mussak, todo mundo que trabalha bastante deve se permitir algumas atividades diárias cuja única finalidade seja o prazer, para compensar o clima estressante. E se o ambiente de trabalho puder criar um "estado de férias", melhor ainda.
"Chefes compreensivos, que valorizam o esforço e respeitam os limites de seus subordinados criam um ambiente menos favorável ao "burn out'", diz o professor.
Ele continua: "É preciso respeitar o limite entre o que é profissional e o que é pessoal, e a empresa deve estimular o trabalhador a respeitar esses limites também."
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REPORTAGEM POR : GUILHERME GENESTRETI - DE SÃO PAULO
FONTE: Folha online, 02/11/2010

Sobre a morte e o morrer

RUBEM ALVES*
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"Quem nos fascinou assim,
para termos um olhar de despedida
em tudo o que fazemos?"

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"Somente onde há sepulturas pode haver ressurreições".
NIETZSCHE

"A MORTE é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir, como sempre acontece, que tudo está errado e que você está ao ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua morte e pergunte-lhe se assim é. Sua morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa, a não ser o seu toque. Sua morte lhe dirá: Ainda não o toquei."
"D. Juan, o bruxo."

"A morte torna a vida maravilhosa. Porque vamos morrer precisamos poder dizer hoje que amamos, fazer hoje o que desejamos tanto, abraçar hoje o filho ou o amigo, temos de ser decentes hoje, generosos hoje, felizes hoje."
( Lya Luft)

"Há uma estranha, devoradora felicidade quando agimos com a total convicção de que, qualquer que seja a coisa que estamos fazendo, esta pode muito bem ser a nossa última batalha sobre a terra."
"Pois somos apenas a casca e a folha. A grande morte que está em todos nós é a fruta em torno da qual tudo gira."
(Rainer Maria Rilke)

"Ao matar a morte, a religião nos tira a vida: vivemos morrendo. A eternidade despovoa o instante. Porque vida e morte são inseparáveis. Tirando-nos a morte, a religião nos tira a vida. Em nome da vida eterna, a religião afirma a morte desta vida."
(Octávio Paz)

"Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada, ela virá me abrir a porta como uma velha amante sem saber que é a minha mais nova namorada."
(Vinícius de Moraes)

"... antes que se parta a corrente de prata e se quebre a taça de ouro, e despedace o cântaro junto à fonte..."
(Eclesiastes 11.6)

"Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."
(Manoel Bandeira)

"As nuvens que se ajuntam ao redor do sol que se põe ganham suas cores solenes de olhos que atentamente vigiam a mortalidade dos homens..."
(William Wordsworth)

"Fico tão longe como a estrela.
Pergunto se este mundo existe,
e se, depois que se navega,
a algum lugar enfim se chega...
-O que será, talvez, mais triste,
Nem barca nem gaivota:
somente sobre-humanas companhias..."
(Cecília Meireles)

"Quem nos fascinou assim, para termos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?"
(Rainer Maria Rilke)

"O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir...
"Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também."
(Ricardo Reis)
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*Teólogo. Educador. Escritor. Colunista da Folha.
Fonte: Folha online, 02/11/2010

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - ENTREVISTA

FHC diz não endossar PSDB que não defenda sua história

Para ex-presidente,
"entramos num marquetismo perigoso,
que despolitiza.
liderar é transformar em problema o que
 a população não vê como problema"


"Não estou mais disposto a dar endosso a um PSDB que não defenda a sua história", disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), ontem, em entrevista no instituto que leva seu nome, no centro de SP.
Presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique defende que o partido anuncie dois anos antes das eleições presidenciais seu candidato. "O PSDB não pode ficar enrolando até o final para saber se é A, B, C ou D."
O ex-presidente diz que Lula "desrespeitou a lei abundantemente" na campanha e que promove "um complexo sindical-burocrático-industrial, que escolhe vencedores, o que leva ao protecionismo".
Para FHC, a tradição brasileira de "corporativismo estatizante está voltando". Lula é uma "metamorfose ambulante que faz a mediação de tudo com tudo".

Folha - José Serra aproveitou a oportunidade do segundo turno como deveria?
Fernando Henrique Cardoso - Serra foi fiel ao estilo dele. Tomou as decisões na campanha, com o [marqueterio Luiz] Gonzalez. Não fez diferente do que se esperaria de Serra como um candidato que define uma linha e vai em frente. O PSDB, e não o Serra, tem outros problemas mais complicados. Precisa ter uma linguagem que expresse o coletivo. Os candidatos esqueceram a campanha e não definiram o futuro. O nosso futuro vai ser fornecer produtos primários? Ou vamos desenvolver inovação, a educação, a industrialização? Isso não foi posto.

O governo Lula patrocina a formação de grandes empresas, uma espécie de complexo "industrial-burocrático". Qual a diferença para o seu governo, que também usou o BNDES nas privatizações?
Tudo é uma questão de medida. Os fundos [de pensão] entraram na privatização porque já tinham ações nas teles e participar do grupo de controle lhes dava vantagem. Mas tive sempre o cuidado da diversificação.
O problema agora é de gigantismo de uns poucos grupos, nesse complexo, que na verdade é sindical-burocrático-industrial, com forte orientação de escolher os vencedores. Isso é arriscado do ponto de vista político e leva ao protecionismo.

A fila do PSDB andou? Chegou a vez de Aécio Neves para presidente?
Eu não posso dizer que passou a primeiro lugar, mas que o Aécio se saiu bem nessa campanha, se saiu. Não posso dizer que passou a primeiro lugar porque o Serra mostrou persistência e teve um desempenho razoável.
Não diria que existe um candidato que diga "Eu naturalmente serei". Mas o PSDB também não pode ficar enrolando até o final para saber se é A, B, C ou D. Dentro de dois anos temos de decidir quem é e esse "é" e tem de ser de todo mundo, tem de ser coletivo.
Não estou disposto mais a dar endosso a um PSDB que não defenda a sua história. Tem limites para isso, porque não dá certo. Tem de defender o que nós fizemos. A privatização das teles foi boa para o povo, para o Tesouro e para o país. Do ponto de vista econômico, as questões estão bem encaminhadas. O problema não é saber se a economia vai crescer, é se a sociedade vai ser melhor.

"O problema agora é
de gigantismo de uns poucos grupos,
 nesse complexo,
que na verdade é sindical-burocrático-industrial,
com forte orientação
de escolher os vencedores."

Houve sinais do que o sr. chama de "espírito" da democracia no processo eleitoral?
Não vejo. O presidente Lula desrespeitou a lei abundantemente. Na cultura política, regredimos. Não digo do lado da mecânica institucional -a eleição foi limpa. Mas na cultura política, demos um passo para trás, no caso do comportamento [de Lula] e da aceitação da transgressão, como se fosse banal.
Aqui ocorre outra confusão: pensar que democracia é simplesmente fazer as condições de vida melhorarem. Ela é também, mas não se esqueça que ditaduras fazem isso mais depressa.

Como o sr. vê a volta de temas como religião na campanha?
Com preocupação. O Estado é laico, e trazer a questão religiosa para o primeiro plano não ajuda.

A dose dos marqueteiros nas campanhas está exagerada?
Sim, em todas as campanhas. Nós entramos num marquetismo perigoso, que despolitiza. Hoje a campanha faz pesquisas e vê o que a população quer naquele momento. A população sempre quer educação, saúde e segurança, e então você organiza tudo em termos de educação, saúde e segurança.
Sem perceber que a verdadeira questão é como você transforma em problema algo que a população não percebeu ainda como problema. Liderar é isso. Você abre um caminho. A pesquisa é útil não para você repetir o que ela disse, mas para tentar influenciar o comportamento a partir de seus valores.
O que nós temos na campanha é a reafirmação dos clichês colhidos nas pesquisas. Onde é que está a liderança política, que é justamente você propor valor novo. O líder muda, não segue.

"O sujeito da social-democracia europeia
eram a classe trabalhadora e os sindicatos.
Aqui são os pobres."

A polarização nacional entre PT e PSDB completou 16 anos. Tem feito mais bem ou mais mal ao Brasil?
O que o Chile fez na forma da Concertação [aliança entre Partido Socialista e Democracia Cristã que governou o país de 1990 a 2010], fizemos aqui sob a forma de oposição. Há muito mais continuidade que quebra. O pessoal do PT aderiu grosso modo ao caminho aberto por nós. Isso é que deu crescimento ao Brasil. Agora tem aí o começo de um rumo que não é mesmo o meu, que é esse mais burocrático-sindical-industrial. E tem uma diferença na concepção da democracia.

O que seria essa social-democracia tucana?
Social-democracia, vamos devagar com o ardor. O sujeito da social-democracia europeia eram a classe trabalhadora e os sindicatos. Aqui são os pobres. O Lula deixou de falar em trabalhador para falar em pobre. Mudou. Nós descobrimos uma tecnologia de lidar com a pobreza, mas estamos por enquanto mitigando a pobreza.
Tem de transformar o pré-sal em neurônio. Esse é o saldo para uma sociedade desenvolvida. Está se perfilando, no PT e adjacências, uma predominância do olhar do Estado, como se o Estado fosse a solução das coisas.

Então a diferença entre PT e PSDB, para o sr., se dá em relação ao papel do Estado.
A nossa tradição é de corporativismo estatizante, e isso está voltando. É uma mistura fina, uma mistura de Getúlio, Geisel e Lula. O Lula é mais complicado que isso, porque é isso e o contrário disso. Como é a metamorfose ambulante, faz a mediação de tudo com tudo. Lula sempre faz a mediação para que o setor privado não seja sufocado completamente. Não sei como Dilma vai proceder.

Isso tende a se aprofundar nesse novo governo?
A segunda parte do segundo mandato de Lula foi assim. A crise global deu a desculpa para o Estado gastar mais. E o pobre do [John Maynard] Keynes pagou o preço. Tudo é Keynes. Investimento não cresceu, gasto público se expandiu, foi Keynes.
Não acho que o Brasil vá no sentido da Venezuela porque a nossa sociedade é mais forte. Aqui há empresas, imprensa, universidades, igrejas, uma sociedade civil maior, mais forte. Isso leva o governo a ter cautela. Veja o discurso da Dilma de ontem [domingo]. Ela beijou a cruz. Ela tem que dizer isso, que vai respeitar a democracia, porque senão não governa.

O que esperar de Dilma?
Não sabemos o que ela pensa, nem como é que ela faz. O Brasil deu um cheque em branco para a Dilma. Vamos ver o que vai acontecer com a conjuntura econômica. Há um problema complicado na balança de pagamentos, um deficit crescente, uma taxa de juros elevada e uma taxa de câmbio cruel.
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Reportagem
POR MARIA CRISTINA FRIAS

COLUNISTA DA FOLHA
POR VINICIUS MOTA
SECRETÁRIO DE REDAÇÃO
Fonte: Folha online, 02/11/2010

Respirar é possível

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS*

Imagem da Internet
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Para governos "desalinhados" do continente e
 para as classes sociais que os levaram ao poder,
as eleições no Brasil foram u
m sinal de esperança

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As eleições no Brasil tiveram uma importância internacional inusitada. As razões diferem consoante a perspectiva geopolítica que se adote. Vistas da Europa, as eleições tiveram significado especial para os partidos de esquerda. A Europa vive uma grave crise, que ameaça liquidar o núcleo duro da sua identidade: o modelo social europeu e a social-democracia. Apesar de estarmos diante de realidades sociológicas distintas, o Brasil ergueu nos últimos oito anos a bandeira da social-democracia e reduziu significativamente a pobreza. Fê-lo reivindicando a especificidade do seu modelo, mas fundando-o na mesma ideia básica de combinar aumentos de produtividade econômica com aumentos de proteção social. Para os partidos que, na Europa, lutam pela reforma do modelo social, mas não por seu abandono, as eleições no Brasil vieram trazer um pouco mais de ar para respirar. No continente americano, as eleições no Brasil tiveram uma relevância sem precedentes. Duas perspectivas opostas se confrontaram. Para o governo dos EUA, o Brasil de Lula foi um parceiro relutante, desconcertante e, em última análise, não fiável. Combinou uma política econômica aceitável (ainda que criticável por não ter continuado o processo das privatizações) com uma política externa hostil. Para os EUA, é hostil toda política externa que não se alinhe integralmente com as decisões de Washington. Tudo começou logo no início do primeiro mandato de Lula, quando este decidiu fornecer meio milhão de barris de petróleo à Venezuela de Hugo Chávez, que nesse momento enfrentava uma greve do setor petroleiro, depois de ter sobrevivido a um golpe em que os EUA estiveram envolvidos. Tal ato significou um tropeço enorme na política americana de isolar o governo Chávez. Os anos seguintes vieram confirmar a pulsão autonomista do governo Lula. O Brasil manifestou-se veementemente contra o bloqueio a Cuba; criou relações de confiança com governos eleitos, mas considerados hostis -Bolívia e Equador-, e defendeu-os de tentativas de golpes da direita, em 2008 e em 2010.

"Para o governo dos EUA,
o Brasil de Lula foi um parceiro relutante,
desconcertante e,
em última análise,
não fiável.
Combinou uma política econômica aceitável
(ainda que criticável por não ter
continuado o processo das privatizações)
com uma política externa hostil.
 Para os EUA,
 é hostil toda política externa
que não se alinhe integralmente
 com as decisões de Washington.

O país também promoveu formas de integração regional, tanto no plano econômico como no político e militar, à revelia dos EUA, e, ousadia das ousadias, procurou relacionamento independente com o governo "terrorista" do Irã. Na década passada, a guerra no Oriente Médio fez com que os EUA "abandonassem" a América Latina. Estão hoje de volta, e as formas de intervenção são mais diversificadas do que antes. Dão mais importância ao financiamento de organizações sociais, ambientais e religiosas com agendas que as afastem dos governos hostis a derrotar, como acaba de ser documentado nos casos da Bolívia e do Equador. O objetivo é sempre o mesmo: promover governos totalmente alinhados. E as recompensas pelo alinhamento total são hoje maiores que antes. A obsessão de Serra com o narcotráfico na Bolívia (um ator secundaríssimo) era o sinal do desejo de alinhamento. A visita de Hillary Clinton e a confirmação, pouco antes das eleições, de um embaixador duro ("falcão"), Thomas Shannon, são sinais evidentes da estratégia americana: um Brasil alinhado com Washington provocaria, como efeito dominó, a queda dos outros governos não alinhados do subcontinente. O projeto se mantém, mas, por agora, ficou adiado. A outra perspectiva sobre as eleições foi o reverso da anterior. Para os governos "desalinhados" do continente e para as classes e movimentos sociais que os levaram democraticamente ao poder, as eleições brasileiras foram um sinal de esperança: há espaço para política regional com algum grau de autonomia e para um novo tipo de nacionalismo, que aposta em mais redistribuição da riqueza coletiva.
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* BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 69, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).
Fonte: Folha online, 02/11/2010

Um sino triste há de tocar

ARITA DAMASCENO PETTENÁ*

Quando eles partiram, ninguém teve forças para impedir-lhes que fossem. Já não tinham vida. Já não tinham ação. Já não tinham alma. Partiram porque há sempre na vida uma hora de partir. E se é verdade que quem parte deixa saudades, a deles ficou maior e mais dorida ainda porque era um adeus que valia a um nunca mais.
Voltaram ao pó de que eram feitos. Misturaram-se à areia de um sepulcro. Ocultaram-se, enfim, na terra que haviam pisado tantas e tantas vezes. E suas almas? Ah! essa coisa misteriosa e imaterial que se chama espírito! Estaria dormindo com eles? Estaria fazendo parte de um outro ser? Ou estaria na imensidão de um céu azul já antegozando o prêmio de ter vivido uma vida cheia de conflitos?

"Chega-se, enfim,
à melancólica conclusão de aquilo que tantos repetiram
 “a morte é o grande prêmio da vida”
é a mais patente das verdades."

Ninguém sabe. Ninguém viu. Tudo na vida é tão efêmero que nem o próprio tempo pode impedir a trágica fugacidade das coisas. Um belo dia somos lançados no mundo. Vegetamos a vida a fazer perguntas sem respostas: Quem sou? Para que sirvo? Vale a pena viver? E as perguntas ficam sem eco porque este se perde nas fronteiras do indizível. O mundo se torna cada vez mais estranho e, muitas vezes, nem o sentimos sob o peso de nossos pés. Nossa peregrinação pela terra assemelha-se cada dia que passa a uma dura cavalgada. Instantes há que a palmilhamos de um modo passivo, submisso, mas há outros — estes mais frequentes — que nossas débeis forças humanas se libertam das comportas de nosso ser em gritos de revolta e de angústia. É o instante supremo em que reconhecemos que toda a nossa vida foi intercalada de expectativas, de dúvidas, de anseios. Raros são os momentos que sentimos, dentro de nós, o vislumbre de uma esperança. A gente vive uma existência toda à espera de que algo bom se nos aconteça e, um dia, somados todos os anos, chega-se à triste realidade de que esse algo nunca passou de um sonho fantasmagórico, de uma ilusão caída de vencida. Chega-se, enfim, à melancólica conclusão de aquilo que tantos repetiram “a morte é o grande prêmio da vida” é a mais patente das verdades.
Hoje, pelo mundo inteiro, um sino triste há de tocar finados. Pés hão de cruzar pelas estradas do mundo para reverenciar aqueles a quem Deus premiou com o descanso eterno. Haverá rosas e lágrimas e uma saudade enorme em cada olhar que ficou. Nas campas frias e solitárias, muita mãe há de chorar sentida o fruto de suas entranhas. Muito filho há de recordar, em pranto, o pai ou a mãe que se fizeram ausentes. Muita gente há de prantear o companheiro de tantos anos que dorme o sono eterno na laje fria de um cemitério. Uma prece silente e fervorosa há de subir até o infinito a rezar pelas almas dos mortos queridos. E no misterioso azul de um céu primaveril, sem que os vejamos, eles hão de dizer, em murmúrios de ternura: — Não choreis por nós que partimos. Já não sofremos injustiças, desencantos, decepções, amores fingidos. Já não nos consumiremos, como vós, no drama de cada dia, na luta contra a opressão, na luta contra o egoísmo, porque a morte nos libertou do jugo das misérias humanas. Aproveitai vosso tempo a amar constantemente o vosso irmão e só assim estareis fazendo parte do grande plano de Deus.
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*Arita Damasceno Pettená é presidente da Academia Campineira de Letras, Ciências e Artes das Forças Armadas
Fonte: Correio Popular online, 02/11/2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

André Singer - Entrevista

"Consolidação democrática é vantagem brasileira entre Bric"

 André Singer:
 realinhamento das bases petistas começou em 2002,
ampliou-se em 2006 e
consolidou-se nesse pleito

Para o cientista político André Singer, as eleições de 2010 referendam sua hipótese de que o Brasil vive um realinhamento eleitoral. As classes médias tradicionais, que estiveram na origem do PT, reagiram à emergência de uma nova classe média, saída da combinação de políticas de transferência com políticas de distribuição de renda, e engrossaram as fileiras do candidato tucano, José Serra. Em compensação, as bases petistas foram fortalecidas por pessoas que foram puxadas para cima da linha de pobreza. Num intervalo de uma das exposições feitas na Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, na quinta-feira, Singer disse ao Valor que, independentemente da polarização política que ocorre na sociedade, esses programas sociais, à semelhança do Social Security Act do presidente americano Roosevelt, na década de 30, estão consolidados. Ocuparam a agenda do país e nenhuma força teve coragem de condená-los.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:

Valor: Qual o balanço do governo e o que Lula deixa para o país?
André Singer: O que marcou politicamente esses oito anos foi a ocorrência de um realinhamento eleitoral. Realinhamento é um fenômeno que, para ser assim considerado, precisa ser de longo prazo. Se o eleitorado fica oscilando de eleição para eleição, ocorre o desalinhamento. Nós estamos entrando num novo realinhamento que deverá durar um período longo, caracterizado pela troca de bases sociais, com a perda da classe média, que era característica das candidaturas de Lula e do PT até 2002. Essa base migrou para o PSDB, que já tinha uma parcela desse setor, mas que cresceu e se consolidou a partir do afastamento em relação ao PT. Foi substituída por uma adesão maciça de eleitores de baixíssima renda, o que começou a acontecer em 2002 e cresceu em 2006.

Valor: Existe paralelo desse fenômeno na história?
Singer: Isso é muito parecido com o que ocorreu no período Roosevelt: ele ganhou as eleições em 1932 e tomou uma série de decisões políticas de combate à crise, baseadas no combate à pobreza e à desigualdade americana. O Partido Democrata incorporou uma base de trabalhadores que não tinha. Cada período de realinhamento tem uma agenda própria - no caso de Roosevelt e também nos dois mandatos do governo Lula, é a agenda que combina combate à pobreza e distribuição de renda. As duas coisas não são necessariamente a mesma: o combate à pobreza pode se dar sem uma diminuição da desigualdade.
Realinhamento eleitoral do PT mudou agenda e, mesmo se a oposição ganhasse, teria de manter os programas sociais

Valor: É efetiva a transferência com redução da desigualdade?
Singer: São duas coisas que podem estar relacionadas, mas não necessariamente. Pode ter uma melhora dos cidadãos de baixa renda, mas acompanhada por uma melhora relativamente maior dos cidadãos de alta renda. A desigualdade, assim, pode crescer. Os números do Ipea mostram que houve uma redução da pobreza da seguinte ordem: 50% da população estava abaixo da linha de pobreza quando terminou o governo Fernando Henrique, e isso caiu para cerca de um terço. São esses milhões de pessoas que saíram da classe D e foram para a classe C. Do lado do combate à pobreza, esse foi um processo acelerado.

Valor: Por que era muita pobreza ou porque a política foi eficiente?
Singer: As duas coisas. O Brasil é um país que tinha uma pobreza enorme e as políticas são efetivas porque produzem uma sinergia. Começaram com um programa de transferência de renda, que é o Bolsa Família, voltado para os cidadãos de baixíssima renda. O programa multiplicou por treze o valor da transferência no governo anterior e começou a movimentar setores da sociedade e regiões que antes estavam estagnados. Por isso é tão forte o efeito do Bolsa Família no interior do Nordeste, que vai se somar, a partir de 2005, ao aumento do salário mínimo. A recuperação do mínimo começa relativamente lenta, mas tem uma aceleração forte no segundo mandato, chegando a um aumento real de 30%. Nos dois mandatos, o aumento foi de 50%.

Valor: Salário mínimo e Bolsa Família são complementares?
Singer: A sinergia do Bolsa Família com o mínimo é enorme. Nas pequenas cidades do Nordeste, as pessoas vivem do dinheiro do Bolsa Família e das aposentadorias. Como o aumento do mínimo impacta as aposentadorias, houve um aumento da renda real, que começou a ativar a economia dessas regiões. Existe um terceiro ponto, a expansão do crédito, sobretudo para as camadas de baixa renda, e aí tem muita importância o crédito consignado, que se associa ao salário mínimo e ao Bolsa Família. Além disso, existe o Pronaf, programa de crédito para agricultura familiar. Houve uma política importante de bancarização: as pessoas que nunca tiveram uma conta bancária passaram a ter, e com isso, também acesso ao crédito.

Valor: Como se garante a continuidade desse processo?
Singer: Esse conjunto de políticas explica o realinhamento e ao mesmo tempo produz a sua continuidade, porque faz com que a agenda se desloque, criando constrangimento para todas as forças políticas. No primeiro turno, não só a candidata do governo propunha a continuidade, mas também Serra se sentiu obrigado a fazer propostas específicas - aumento expressivo do salário mínimo, décimo terceiro do Bolsa Família e aumento real dos aposentados. A candidata Marina dizia sempre que as políticas sociais não podiam ser mexidas. Isso lembra expressão que foi usada por dois cientistas políticos americanos, Wendy Hunter e Timothy Power, num artigo que escreveram sobre as eleições de 2006. Disseram que o Bolsa Família poderia se tornar, no caso brasileiro, o que nos EUA se chama de "third track", o terceiro trilho, comparável ao Social Security Act do Roosevelt. A linha do trem tem os dois trilhos pelos quais caminham os vagões, mas do lado tem uma estrutura que parece um terceiro trilho e de lá vem a energia elétrica. É uma estrutura que não pode ser mexida, sob risco de morte política.

Valor: Então, esse é um dado consolidado?
Singer: Parece que sim. Isso é típico do realinhamento. Ninguém vai mexer com o Social Securyt Act. O que eles (os EUA) não fizeram, como o sistema público de saúde, estão com uma dificuldade enorme de fazer agora. Nós estamos vivendo um período de grande mudança estrutural.

Valor: Mas ocorre também um hiato de representação política.
Singer: Eu acho que o sistema partidário brasileiro está se consolidando com as limitações que os sistemas partidários têm nas democracias em geral. Os partidos já não são mais como antes. Em todas as democracias, estão se tornando puramente eleitorais.

Valor: Isso é bom?
Singer: Faz parte da democracia em geral, porque há um esvaziamento dos mecanismos de representação. É muito ruim, mas não é um problema só brasileiro. Do ponto de vista comparado, estamos bem em relação aos sistemas políticos dos outros Bric: temos um sistema democrático que conseguiu se firmar, e não só ponto de vista das regras formais. Nesse quadro, tanto o PT como o PSDB têm se mostrado partidos representativos.

Valor: Com esse esvaziamento, os conflitos não se exacerbam?
Singer: Há hoje no país uma polarização social da classe média tradicional, que está reagindo à diminuição da desigualdade, o que é uma grande surpresa. Não é que a vida dessas pessoas está piorando, mas a das outras está melhorando e a sua está ficando igual, o que torna a classe média tradicional relativamente menos privilegiada. Há no Brasil um sentido anti-igualitário que talvez estivesse adormecido. Há autores que tendem a dizer que, na sociedade brasileira, existem setores que são muito conservadores, no sentido de naturalizar uma fratura social. Agora, isso está se expressando numa vontade ativa de que essa fratura permaneça. Por outro lado, há de fato uma certa animosidade política, que tem por trás uma polarização social real, que deve ser compreendida. Isso não significa radicalização política. Há todo um esforço do projeto político do governo de não produzir nenhuma radicalização. Isso tem relação com a ideologia do subproletariado, que quer mudanças, mas sem radicalização. Quanto à animosidade, isso é da própria campanha eleitoral, desde que evidentemente isso não se converta em atos de violência. Mas enquanto se tem uma certa expressão verbal mais alta, eu até acho que não é necessariamente negativo. É claro que não estou, com isso, fazendo elogio da baixaria.

Valor: E a representação parlamentar, isso é uma coisa que está resolvida nas novas instituições?
Singer: Acho que não. Estamos com um problema em relação à nossa representação parlamentar. Historicamente há uma avaliação negativa por parte do eleitorado e eu tenho a impressão de que o parlamento vem gradativamente deixando de ser o lugar dos grandes debates nacionais. Acho que em parte tem a ver com as dificuldades gerais da democracia, mas existem aspectos particularmente brasileiros: há uma certa desvalorização da atividade parlamentar e isso tem uma tradição histórica no Brasil e é muito ruim. É muito importante para a democracia que os três poderes, e a imprensa, pensada como um quarto poder, tenham pleno funcionamento. Quanto mais os poderes funcionam de maneira plena, mais a qualidade de democracia se eleva.

Valor: No final das contas, nessas últimas décadas, o Legislativo é o único cenário de disputa política visível. Houve esvaziamento das demais forças.
Singer: Eu acho que vivemos uma década excepcional entre 1978 e 1988. Aquilo não é e talvez nunca possa ser o normal, porque foi uma década de mobilização social como nunca houve. Um colega comentou isso comigo na própria Anpocs: a quantidade de greves naquele período não tem comparação com nenhum lugar do mundo. Naqueles dez anos, nós fizemos uma revolução democrática silenciosa. Foi um período excepcional. Quando se compara com posteriores e até anteriores a ele, se conclui que foi uma coisa de grandes proporções, que se consubstanciou numa Constituição muito avançada. Desde esse ponto de vista, acho que nós temos áreas de debate e disputa política importantes ainda. Primeiro, a própria disputa presidencial. E não estou tão convencido de que os sindicatos tenham perdido inteiramente o seu papel. Houve um forte descenso nos anos 1980, com um refluxo causado em boa medida pelo desemprego em massa - em todos os países, quando isso acontece, se quebram as pernas do movimento sindical -, e acho que temos agora um novo fortalecimento dos sindicatos. Não estamos vivendo um período como aquele que começou em 1978, mas eu diria que o movimento sindical lentamente está readquirindo a sua importância no debate político e os próprios movimentos sociais estão ativos.

Valor: Você compartilha da ideia de que o governo petista cooptou movimentos e sindicatos?
Singer: Há, claro, uma participação de dirigentes sindicais no aparelho de Estado - isso é um dado, e deve haver também participação de antigos militantes dos movimentos sociais. Mas cooptação significaria que esses movimentos perderam capacidade de representar as demandas de suas bases e agora eles não responderiam mais a elas, mas ao aparelho de Estado. Isso eu tenho dúvida. Eu li o programa que a CUT elaborou para a campanha da Dilma, e é coerente com os pontos de vista históricos da classe trabalhadora. Eu não chamaria de cooptado um programa que defende o imposto sobre grandes fortunas, o controle sobre capitais, a redução dos juros , a ideia de que o BC deve estar alinhado com metas de distribuição de renda e crescimento, além da redução da jornada para 40 horas semanais. (MIN)
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Reportagem porRuy Baron/Valor
Fonte: Valor Econômico online, 01/11/2010

Robotizando as empresas

Recursos humanos:
 Automação assusta trabalhadores,
 que chegam ao ponto de sabotar as máquinas.


Cresce o medo nas empresas de ser trocado por um robô

Eles não respondem, não ficam doentes e podem trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, sem pausa para descanso - apenas para reparos ocasionais. Mas se entrarem na empresa do jeito errado, as consequências podem ser terríveis. "Já vi pessoas sabotando robôs literalmente tirando-os da tomada. Elas temiam pelos seus empregos e os dos amigos", afirma David Bourne, o principal cientista de sistemas do Instituto de Robótica da Carnegie Mellon University.
Embora atos injustificados de destruição sejam raros, a possibilidade disso é um lembrete do que pode acontecer se um quadro de funcionários se sentir ameaçado por uma tecnologia ao ponto de tentar obstruí-la. Mesmo assim, os robôs industriais - máquinas programadas para realizar automaticamente uma variedade de tarefas - tornaram as fábricas de automóveis mais produtivas ao livrarem os funcionários dos trabalhos mais sujos e perigosos, como a soldagem, pintura e manuseio de peças pesadas.
Agora, uma nova geração de robôs, capaz de pegar um ovo sem quebrá-lo ou localizar uma lesma em uma folha de verdura, está assumindo tarefas que antes dependiam da destreza manual e visão apurada.
Empregados adequadamente, os robôs permitem às empresas criar funções interessantes para colaboradores novos ou já existentes, reduzir custos, aumentar a produção e impedir a transferência de produção para mercados onde a mão de obra é mais barata. A Alemanha, por exemplo, continua investindo mais na formação de engenheiros do que o Reino Unido, ao mesmo tempo em que instala até cinco vezes mais robôs por 10 mil empregados.

"Agora, uma nova geração de robôs,
capaz de pegar um ovo sem quebrá-lo ou
localizar uma lesma em uma folha de verdura,
está assumindo tarefas
que antes dependiam da
destreza manual e visão apurada."

Entretanto, nada disso serve de consolo se um robô "rouba" o emprego que paga os salários de um trabalhador. Conforme diz o diretor de uma empresa que está reduzindo seu quadro de funcionários: "Quando você tem pessoas que trabalham no chão da fábrica há 30 anos, é difícil levar para casa a mensagem de que as mudanças fazem parte da vida."
Resistir à inovação pode prejudicar uma empresa, mas ser o primeiro a adotar uma nova tecnologia também pode causar problemas. O professor David Bourne diz que, ao ficarem de olho no que os pioneiros estão comprando, as empresas podem se manter a par das inovações sem passar por reveses. "Com frequência, os sistemas que não funcionam são aqueles adquiridos pelos compradores mais afoitos, que não aguentam esperar", diz. "Se um concorrente usar uma tecnologia e gostar dos resultados, você não só pode adotar o mesmo sistema, como também melhorá-lo."
Implementar progressivamente o processo de automação pode ajudar nas relações industriais, ao dar tempo para que os trabalhadores sejam realocados ou treinados como supervisores de robôs. Incrementar seus sistemas robóticos permitiu à Ginsters, uma fabricante de alimentos do Reino Unido, mais que dobrar a produção de sua fábrica. O diretor Richard Bain diz que a introdução gradual dos robôs durante um período de expansão permitiu à companhia fazer isso sem precisar demitir funcionários.
Mas nem todas as equipes têm tanta sorte. Algumas empresas precisam enfrentar escolhas dolorosas sobre quem será transformado em supervisor de robôs, quem será aproveitado em outras áreas e quem será demitido. Nigel Platt, gerente de vendas e marketing da ABB Robotics para o Reino Unido e a Irlanda, diz que sua companhia vem ajudando os clientes na complicada tarefa de escolher os colaboradores que serão transformados em técnicos de robôs. Ensinar um soldador a cuidar da automação é mais fácil que ensinar um engenheiro de automação a soldar, diz ele. "Mas nem todos os soldadores têm vontade ou jeito para aprender robótica", diz.
As exigências de treinamento não devem ser subestimadas. Em 2004, a automação nos laticínios Jönköping da Suécia permitiu à Arla Foods processar mais rapidamente e com mais precisão os pedidos. Nos dois primeiros meses, porém, seus operadores de empilhadeiras tentaram encurtar o fluxo de trabalho do sistema, controlado por computador, com suas próprias improvisações, sem perceber que os robôs não operam como pessoas. O resultado foi o caos entre os robôs, seguido de uma onda de reclamações dos clientes, cujos pedidos chegavam atrasados ou organizados de maneira errada. "Achávamos que havíamos feito o suficiente para educar nosso pessoal", diz Ola Allvin, gerente técnico. "Mas depois vimos que precisávamos fazer muito mais."
Allvin diz que se tivesse essa oportunidade novamente, passaria menos tempo na sala de aula e mais no chão da fábrica, ajustando o ritmo dos robôs ao dos seus operadores. Arne Lakeit, diretor de planejamento da montadora Audi, pensa parecido. Sem as informações básicas, diz ele, os planos mais bem elaborados podem fracassar. "É preciso desenhar os detalhes do processo usando o conhecimento das pessoas que fazem aquela tarefa." Um poder de decisão maior na elaboração também pode elevar o moral dos trabalhadores que vão operar os robôs.
Tendo já vivenciado a falta de confiança provocada pela desintegração de equipes, Ken Young, um professor de automação robótica da Universidade de Warwick, considera a tarefa de voltar a entusiasmar os "sobreviventes" como alta prioridade. "Se o operador estiver determinado que o sistema vai funcionar, ele funcionará", diz ele. E o contrário também é verdadeiro.
Na medida em que se tornam mais capazes, alguns robôs começam a ficar mais parecidos com os humanos. Para um robô de dois braços que pode passar de um trabalho de montagem para outro de embalagem, a fabricante de robôs Yaskawa America Motoman Robotics optou por contornos que evocam a forma humana. "Queríamos que as pessoas vissem o robô como uma extensão delas mesmas e não como uma máquina inflexível", diz Erik Nieves, diretor de tecnologia.
Mas o prêmio para o robô mais parecido com uma pessoa provavelmente vai para o Robonaut 2, um modelo que exibe um tronco, braços e mãos e que podem manipular ferramentas feitas para pessoas. Projetado pela Nasa e pela General Motors (GM), o R2 está programado para decolar no ônibus espacial Discovery, com destino à Estação Espacial Internacional.

"O professor Bourne prevê
que um dia os robôs farão todo o trabalho de manufatura,
deixando para as pessoas a área de projetos.
Uma meta mais imediata é construir robôs ágeis
 o suficiente para penetrar
no mercado de montagem
de produtos
como iPhones
e BlackBerrys."

Quando retornar à Terra, Marty Linn, principal engenheiro de robótica da GM, pretende usar o R2 como uma "plataforma" de teste de tecnologias robóticas que possam algum dia dispensar trabalhadores de tarefas "ergonomicamente difíceis", que podem provocar danos por esforço repetitivo.
O professor Bourne prevê que um dia os robôs farão todo o trabalho de manufatura, deixando para as pessoas a área de projetos. Uma meta mais imediata é construir robôs ágeis o suficiente para penetrar no mercado de montagem de produtos como iPhones e BlackBerrys.
Por enquanto, o ciclo de vida efêmero dos pequenos aparelhos eletrônicos faz de sua produção uma zona livre de robôs. "Se você quisesse construir um robô para fabricar celulares, quando o terminasse, o modelo mais recente do celular já não estaria mais sendo fabricado", diz Bourne.
Fabricar um robô à altura dos trabalhadores de uma linha de montagem é um desafio de engenharia. Mas a tarefa administrativa de fazer as pessoas aceitarem os robôs como "colegas" de trabalho pode ser igualmente desafiadora. (Tradução de Mario Zamarian)
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Reportagem por Por Alicia Clegg - Do Financial Times
Fonte: Valor Econômico online, 01/11/2010

RENATO LESSA* - Entrevista

Ao contrário de Lula, Dilma não terá período de graça
Imagem da Internet

 
ELEITA PRECISARÁ PREENCHER "VAZIO SIMBÓLICO"
A SER DEIXADO POR ATUAL PRESIDENTE E
COSTURAR BASE DE APOIO HETEROGÊNEA


A transferência do apoio popular de Lula à presidente eleita Dilma Rousseff não transfere a ela a história pessoal do atual presidente, que impunha mesmo aos opositores um tratamento reverencial. É o que diz Renato Lessa, professor de teoria política na UFF (Universidade Federal Fluminense).
Esse dado, aliado à virulência da campanha deste ano, deve significar que a petista não desfrutará do período de graça que Lula teve entre a posse, em 2003, e as denúncias do mensalão, dois anos depois.
"Haverá oposição antes da posse", diz o cientista político, que conversou com a Folha na semana passada e ontem, após a divulgação dos resultados.
Para Lessa, Dilma também terá que preencher não apenas o "vazio simbólico" deixado por Lula, mas seu papel na costura de uma base de apoio heterogênea. "Nosso sistema é hiperpresidencialista. Quem ocupar esse lugar terá que ser personalista." Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Folha - Qual o significado da vitória de Dilma?
Renato Lessa - O resultado reitera a avaliação que Lula tem e reflete o efeito da presença do presidente na história brasileira e seu envolvimento na campanha. No futuro, a manutenção desse apoio vai depender da capacidade de Dilma de preencher o vazio deixado por ele não só em termos simbólicos, mas na costura de uma base de apoio heterogênea e com grupos às vezes antagônicos.
Há também uma imensa expectativa do eleitorado que percebeu este governo como de melhoria de suas condições materiais. Um desempenho inferior nesse quesito pode reverter essa expectativa.

A virulência da campanha terá efeito no governo?
A virulência está presente na relação entre oposição e governo desde a democratização. Tem a ver com a pouca sedimentação de uma cultura que, do ponto de vista do governo, reconheça a oposição como uma das versões possíveis do que o país deve ser, e com uma dificuldade da oposição de entender que sua derrota foi legítima.
Em 2010, houve fatores particulares. A ideia foi atacar o adversário não como portador de um projeto que deve ser combatido, mas naquilo que o vincula ao Código Penal. Isso tem a ver com a miserabilidade da reflexão política, com a despolitização do imaginário e dos atores políticos.

Mas os escândalos denunciados pela imprensa são reais.
Sim, mas você não pode ter uma campanha na qual o escândalo seja a matéria fundamental. Não tem reflexão, não tem pensamento sobre a proposta de país que os candidatos representam. Os dois candidatos se apresentaram de modo despolitizado -uma era continuadora de uma obra e outro não dizia de quem é herdeiro, se apresentava como gestor.

"A relação com os parceiros da coalizão
também mudará.
 Dilma vai lidar com profissionais
da partilha do espólio público,
há operadores no PMDB que são tétricos.
Lula lidava com isso com
esse recurso simbólico acumulado.


E isso dificultará a relação entre o futuro governo Dilma e a oposição?
Se para ela é uma vantagem ter a transferência do apoio a Lula, por outro lado isso não lhe transfere a história pessoal do Lula.
O Lula, por condensar uma série de trajetórias dentro dele, impôs uma situação reverencial mesmo na relação com a oposição. Os opositores que violaram a perspectiva reverencial foram derrotados nas urnas, como Artur Virgílio (PSDB-AM) e Tasso Jereissati (PSDB-CE).
Então haverá a ausência de um recurso político fundamental do qual Lula dispôs. Isso, no governo, pode levar a um padrão diferente na relação com a oposição. Dilma não contará com o período de graça que Lula teve entre 2003 e o mensalão; vai ter oposição antes da posse.
A relação com os parceiros da coalizão também mudará. Dilma vai lidar com profissionais da partilha do espólio público, há operadores no PMDB que são tétricos. Lula lidava com isso com esse recurso simbólico acumulado.
A relação de Dilma com os movimentos sociais também será diferente. Esses movimentos viam em Lula um apaziguador, que chegava e dizia: "Esperem, calma, eu preciso de um certo quietismo por algum tempo, vou contemplar vocês de outra maneira". Não sei se isso é reprodutível no caso dela.
Nosso sistema é hiperpresidencialista, as capacidades pessoais do presidente são fundamentais. Não se trata de personalismo. Quem ocupar esse lugar terá que ser personalista porque o sistema exige esse tipo de comportamento.

"É uma coisa terrível
que dois candidatos ateus desde criancinha
 -a não ser que tenham tido uma visão mística recente-
tenham perdido a oportunidade ímpar
de se dirigirem à nação juntos declarando que
 não tratariam de religião na campanha e
professando uma posição ao menos agnóstica,
 como a única capaz de garantir
a liberdade religiosa."


O principal eixo de intelectuais críticos ao governo Lula é o republicanismo. Dizem que o presidente se envolveu excessivamente na campanha, cooptou os movimentos sociais. Qual é sua opinião?
É um argumento forte, mas a experiência tucana também não foi muito republicana. É um argumento que vem da filosofia política, do alemão Immanuel Kant [1724-1804], que em determinado momento distinguiu o que chamou de "império paternal" de República. O império paternal é o domínio do despotismo -quando o poder é personalizado, o déspota pode até ser bom, mas a qualidade do governo depende da qualidade do governante.
A ideia de República tem a ver com ideia da liberdade sob a lei, do procedimento impessoal. A tradição brasileira é muito marcada pelo poder pessoal. Isso aparece na linguagem -o Serra fez, o Lula fez, a Dilma vai fazer.

Há algo mais a enfatizar?
A gente não sabe bem o que é uma República. Mas sabe o que não é, e não é republicano um debate político onde a religião apareça como divisor de águas.
É uma coisa terrível que dois candidatos ateus desde criancinha -a não ser que tenham tido uma visão mística recente- tenham perdido a oportunidade ímpar de se dirigirem à nação juntos declarando que não tratariam de religião na campanha e professando uma posição ao menos agnóstica, como a única capaz de garantir a liberdade religiosa.
Se tivessem feito isso, o efeito republicano seria notável. Mas não fizeram por oportunismo, por medo, pela lógica da acusação mútua. Isso mostra como os atores políticos não estão à altura da nossa democracia.
_________________
* CIENTISTA POLÍTICO
REPORTAGEM POR CLAUDIA ANTUNES DO RIO
Fonte: Folha online, 01/11/2010

A tarefa do governo Dilma

ROBERTO MANGABEIRA UNGER*

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O atributo mais importante do Brasil é a sua vitalidade.
Dar braços, asas e olhos a essa vitalidade
é a tarefa do governo Dilma Rousseff.

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A tarefa do governo Dilma Rousseff é construir um novo modelo de desenvolvimento, baseado em ampliação de oportunidades econômicas e educativas. A democratização de oportunidades e o fortalecimento de capacitações não dependem apenas de investimentos e de obras. Dependem, também e sobretudo, de novas instituições e de novas ideias.
Em educação, o tema prioritário, este projeto passa por iniciativas que reconciliem a gestão das escolas pelos Estados e municípios, com padrões nacionais de investimento e de qualidade; que substituam o enciclopedismo informativo superficial por ensino analítico e capacitador e que criem, em torno desta prioridade nacional, uma mística capaz de entusiasmar e de unir os brasileiros.
Em indústria e serviços, a tarefa do novo governo requer ações que abram em favor de dezenas de milhares de pequenas e médias empresas, a parte mais importante de nossa economia, o acesso a crédito, tecnologia, conhecimento e práticas avançadas.

"Em educação, o tema prioritário,
este projeto passa por iniciativas
que reconciliem a gestão das escolas
 pelos Estados e municípios,
com padrões nacionais de
investimento e de qualidade;"

Em agricultura, na qual nossas condições incomparáveis de sol, solo e água nos reservam papel preeminente, exige dar atributos empresariais para a agricultura familiar. E recuperar, em favor de uma lavoura eficiente e sustentável, as pastagens degradadas que hoje constituem grande parte do território nacional.
Nas relações entre capital e trabalho, demanda mudanças nas leis para resgatar da informalidade cerca de 40% da população economicamente ativa e para proteger a parte crescente de assalariados na economia formal em situação de trabalho precarizado: temporários, terceirizados ou autônomos.
Consubstancia-se a tarefa no desenvolvimento das políticas regionais -para o Nordeste, a Amazônia, o Centro-Oeste e o Sul-, entendidas e conduzidas como construção convergente do novo projeto nacional, adaptado às circunstâncias de cada um dos "Brasis".
Em todos os setores, aponta para a necessidade de adensar os vínculos entre nossas vanguardas produtivas e culturais e o resto do país. Esta obra libertadora e democratizante repousa sobre dois pressupostos: um, macroeconômico; o outro, político. O pressuposto macroeconômico é o de reafirmar o realismo e a responsabilidade fiscais (não viver além de nossos meios), combinados com aumento duradouro da poupança pública e privada, a ser canalizada para o investimento produtivo de longo prazo.
O pressuposto político é o de tomar medidas que tirem a política da sombra corruptora do dinheiro: financiamento público das campanhas eleitorais, consolidação das carreiras de Estado e revisão do processo orçamentário, resgatado do pântano que continua a ser hoje e posto a serviço do planejamento estratégico de longo prazo.
A viabilidade da obra resulta, de um lado, dos avanços alcançados no governo Lula; de outro lado, da transformação social do Brasil.

"Na transformação social,
o que mais importa é o surgimento
de uma segunda classe média,
vinda de baixo e
comprometida com
uma cultura de autoajuda
e de iniciativa."

Mais importante ainda, entre aqueles avanços, do que as políticas sociais é que, ao se identificar com Lula, o povo brasileiro aceitou-se a si mesmo.
Na transformação social, o que mais importa é o surgimento de uma segunda classe média, vinda de baixo e comprometida com uma cultura de autoajuda e de iniciativa. Já está no comando do imaginário popular. Praticar as inovações que permitam à maioria seguir o exemplo destes emergentes é o sentido da obra a executar.
Não basta popularizar oportunidades para consumir. É preciso capacitar os brasileiros, ao ampliar-lhes as oportunidades para aprender, trabalhar e produzir. E, deste modo, assegurar a primazia dos interesses do trabalho e da produção.
O atributo mais importante do Brasil é sua vitalidade: desmesurada, anárquica, quase cega. Dar braços, asas e olhos a essa vitalidade é a tarefa do governo Dilma.
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*ROBERTO MANGABEIRA UNGER é professor titular na Universidade Harvard (EUA). Foi ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos (governo Lula) e colunista da Folha .
Fonte: Folha online, 01/11/2010
Imagens da Internet

Mulheres no poder

Dilma se junta a outras 17 líderes na lista de
mulheres no poder


 Eleitas para unir, presidentes e premiês mulheres têm de 'provar que sabem usar a força'.

Ao assumir a Presidência do Brasil, em janeiro, Dilma Rousseff vai entrar para um restrito clube de líderes globais que tem, atualmente, 17 mulheres.
Ainda que cada uma dessas presidentes ou primeiras-ministras tenha chegado ao poder em circunstâncias distintas, especialistas ouvidas pela BBC Brasil traçaram paralelos entre elas. Também comentaram as dificuldades que as mulheres enfrentam no poder pelo mero fato de serem ainda poucas no panorama mundial.
Segundo dados compilados pela entidade americana 50-50 by 2020, que defende a representação igualitária dos gêneros no poder, as 17 mulheres - Dilma ainda não incluída - estão à frente de 16 países do mundo (a Finlândia tem uma presidente e uma primeira-ministra do sexo feminino), de um total de 192 nações representadas na ONU.
Imagem da Internet - Angela Merkel
"Fora dos países escandinavos, onde cerca de metade dos gabinetes já é formada por mulheres, há relativamente poucas delas em cargos eletivos", diz Wendy Stokes, autora de Women in Contemporary Politics.
Dessas 17 citadas, aliás, uma não foi eleita: Roza Otunbayeva assumiu o comando do Quirguistão após um golpe de Estado que depôs o presidente. Outras não são necessariamente as principais mandantes de seu país - caso da Índia, onde Manmohan Singh ocupa o cargo mais importante, o de primeiro-ministro, e a presidente Pratibha Patil tem um posto cerimonial.

Força militar

Segundo Charlotte Bunch, do Center for Women's Global Leadership, da universidade americana Rutgers, "as mulheres ainda vivem o desafio de mostrar que são fortes o suficiente em questões-chave, como o comando militar, em especial em países onde isso é particularmente relevante".
Para Bunch, isso é uma possível explicação para o fato de os Estados Unidos ainda não terem tido uma mulher na Presidência.
Mas são exceções significativas a Alemanha - comandada pela chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel, que mandou tropas para a Guerra do Afeganistão - e o Chile, até poucos meses atrás presidido por Michelle Bachelet, que antes fora ministra da Defesa.
Margaret Thatcher
"Margaret Thatcher (primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990) e Indira Gandhi (primeira-ministra indiana entre 1966 e 1977 e 1980 e 1984) quase tinham que dizer 'sou um homem' (para obter respeito). Hoje, as mulheres começam a serem vistas como portadoras de ideias novas."
Mas Bunch observa que há outra maneira de encarar essa possível noção de fraqueza militar feminina.
Para a estudiosa, o mundo atual espera líderes mulheres que "sejam capazes de mostrar que podem usar a força, mas somente como último recurso". Em geral, diz Bunch, elas têm sido eleitas para "colocar ênfase na paz, para unir (o país) quando tudo desmorona".


Esse foi o caso da liberiana Ellen Johnson Sirleaf (foto), eleita em 2005 para comandar um país devastado após uma ditadura e uma sangrenta guerra civil.
Sirleaf, a primeira presidente mulher eleita na África, restaurou a credibilidade da Libéria perante a comunidade internacional e é citada pelas especialistas ouvidas pela BBC Brasil como um exemplo a ser seguido por Dilma.
"Ela foi decisiva para reconstruir seu país após a guerra", diz Yvonne Galligan, do Center for Advancement for Women in Politics, da Queen's University, em Belfast. "Assim como Bachelet, virou um símbolo de unidade para seu povo."

Estereótipos

Segundo as analistas, não é um estereótipo afirmar que as mulheres no poder dão atenção a temas diferentes - em geral sociais - em comparação com seus pares masculinos.
Em seu livro, Stokes cita levantamentos feitos no Poder Legislativo americano que indicam que as representantes, independentemente de sua filiação partidária, tendem a apoiar mais agendas liberais.
Na Índia, parlamentares mulheres costumavam apoiar mais fortemente políticas de educação, saúde, higiene e controle de bebidas alcoólicas.
Ao mesmo tempo, elas não escapam de serem julgadas, sob os olhos da opinião pública, por outro estereótipo: o da vaidade.
"Na vida pública, as mulheres não têm como vencer quando o assunto é aparência", opina Galligan. "Elas costumam ser criticadas tanto se cuidam demasiado de sua imagem como se têm uma aparência ruim."
"Em geral, ninguém comenta se um político homem está gastando muito com maquiagem. E, para aparecer em público, eles também usam muita maquiagem", acrescenta.

Patronos políticos

Cristina Kirchner
Na lista de poderosas, Dilma estará acompanhada de líderes de países do G20 - as 20 maiores economias do mundo - como Merkel, a presidente argentina, Cristina Kirchner, e a primeira premiê da história da Austrália, Julia Gillard.
Também estão na lista diversas líderes asiáticas, algumas delas, seguindo uma tradição oriental, oriundas de famílias importantes que as alçaram à política.

"A eleição de uma mulher é tida
como um marco positivo de democratização."
(Stokes)


No Ocidente, essa tradição familiar não é tão forte. Mas, enquanto Cristina ascendeu na política na esteira da carreira de seu marido e antecessor, Néstor Kirchner, Dilma se tornou candidata após a bênção de Luiz Inácio Lula da Silva, que esforçou-se para transferir sua popularidade à ex-ministra.
Galligan, no entanto, relativiza a importância do patronato no caso brasileiro: "Dilma foi promovida por Lula, mas ela construiu sua própria carreira política", diz.
E, independentemente disso, ou de Dilma personificar ou não a mulher brasileira, as analistas veem sua chegada ao poder como mais um fator para despertar a atenção mundial para o Brasil.
"Em geral, é algo visto como progressista", avalia Stokes. "A eleição de uma mulher é tida como um marco positivo de democratização."
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Fonte: BBC Brasil - Estadão online, 01/11/2010