quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Quem é o outro?

José Carlos García Fajardo*
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No Ocidente existe uma tradição religiosa que proclama "amarás teu próximo como a ti mesmo" como expressão de sua espiritualidade. (Há textos hindus e budistas que a expressaram centenas de anos antes). Encontramos a síntese na parábola do Bom Samaritano como resposta ao fariseu que pretendia safar-se de toda responsabilidade para com aqueles que não fossem "os seus", aqueles com quem se relacionava.
Tanto na tradição judaica como no calvinismo, que vai dar origem ao capitalismo desumanizado, o conceito de povo, de família, de relação tem algo de contratual e de mútuo benefício: "dou-lhe isto para que me dê aquilo" ou "não lhe faço isto para que não faça a mim". Aí tem sua origem o individualismo mais feroz que vai se confundir com o modernismo surgido do Iluminismo, que se atreve a separar religião e cultura, reduzindo aquela a uma ideologia. Podem ser diferenciadas, mas não separadas, pois o religioso é uma dimensão do homem expressa ao longo dos séculos nas diferentes religiões institucionalizadas. Na Índia seria impossível fazê-lo, pois o religioso é um estilo de vida que impregna de sentido a nossa existência. A religião confere à cultura seu sentido último, enquanto que a cultura empresta à religião sua linguagem, para que possa se expressar num contexto cultural. Toda linguagem é determinada culturalmente e toda cultura é informada em última instância por uma visão última da realidade. Daí que nenhuma religião possa ter o monopólio do religioso, da dimensão transcendente do ser humano e de sua expressão por meio de rituais, cultos ou celebrações para aproximar o humano a sua dimensão mais plena. Por isso, é de néscios (ne scire) sustentar que possa existir uma só religião verdadeira, considerando falsas a todas as demais com as quais não souberam estabelecer um diálogo "intra-religioso", (que fecunda as culturas) e que vai além do inter-religioso que trata de colocar-se no lugar do outro, para considerar a realidade a partir de suas categorias e circunstâncias culturais. A sabedoria está em aceitar e respeitar as diversas tradições religiosas como fenômenos que expressam diferentes expressões de religiosidade. Esse é o sentido autêntico das diversas "moradas" às quais alude Jesus. E o profundo significado do silêncio como ambiente de sabedoria: "Não diziam palavra o anfitrião, o hóspede e o crisântemo", reza um velho haiku.

"Tanto na tradição judaica
como no calvinismo,
que vai dar origem ao capitalismo desumanizado,
o conceito de povo, de família,
de relação tem algo de contratual e
de mútuo benefício:
"dou-lhe isto para que me dê aquilo" ou
"não lhe faço isto para que não faça a mim".

Não é admissível a pretensão de alguns seguidores do hinduísmo, do budismo, do judaísmo, do cristianismo ou do islamismo, para citar algumas mais conhecidas, de que a sua religião é superior às demais. Todas as religiões se baseiam num sentimento religioso humano primordial; não obstante, cada tradição religiosa tem fronteiras determinadas por seus limites geográficos e históricos. A pretensão de universalidade e o conceito de missão levaram ao desarraigo e a explorações desumanas e injustas. Da mesma maneira que os povos poderosos pretenderam "civilizar" (porque viviam em cidade civitas) aqueles que consideraram "selvagens" porque viviam em florestas, os missionários dessas tradições prepotentes saquearam outras culturas, tratando de pagãos e supersticiosos - quando não de ateus e de idólatras - aqueles que não pensavam como eles: destruíam seus símbolos qualificando-os de ídolos e os obrigaram a ajoelhar-se ante duas toras cruzadas, ante uma caixa de metal onde guardavam um pedaço de pão ou ante uma imagem de gesso. Renegavam seus cultos com fogo e resinas aromáticas, enquanto eles usavam incenso, velas e água. Outros os obrigavam a circuncidar o prepúcio ou a se prostrar em direção à Meca. O que foi o colonialismo senão um monoculturalismo cuja essência é acreditar que a partir de uma só cultura se pode abarcar a gama total da experiência humana?
O culto verdadeiro é praticado em "espírito e em verdade". Em espírito, não importa onde nem sob que forma, porque todo lugar é santo. Em verdade, a autenticidade, porque toda verdade se inscreve em uma relação interpessoal. A verdade é sempre concreta. Tudo está relacionado a tudo, de maneira que nossa responsabilidade é universal. Sem sincretismo nem relativismo algum.
"Amar o próximo como a si mesmo" não esgota a relação de alteridade, de beneficência ou de generosidade, mas sim contém uma relação de reciprocidade. Porque "o outro" nunca poderá ser objeto de nosso amor, já que sempre será sujeito que interpela. O objeto é meio ou instrumento para um fim, e o outro - quem quer que seja, onde esteja e nas circunstâncias que sejam - é sempre um fim em si mesmo.O ser humano é pessoa (rede de relações, nó de encontros) e não mero indivíduo (mônada independente). O indivíduo não desaparece no nada, mas a pessoa se transforma na plenitude de descobrir o outro, o uno e o todo.
Ante o egoísmo da busca pelas virtudes, para não dizermos do suborno de investir-se num hipotético além, está a plena dimensão do "tive fome e me deste de comer…".
Não é recomendável se preocupar em fazer o bem, mas fazê-lo. Se se busca o mérito das ações, estas se prostituem. Daí que o justo não se preocupe em fazer coisas boas; "bom é o que faz o justo". Justo é o termo bíblico para sádhaka, aquele que se pôs no caminho descobrindo que caminho, verdade e vida são a mesma realidade.
 Como saberia o uno que é uno se não fosse pelo duo? Como saberia eu quem sou, se não fosse por você? Logo, ante a pergunta farisaica do título, levanta-se a evidência que descobrem os sábios, as crianças e os limpos de coração: o outro, o próximo sou eu.
É preciso acender uma chama para quem quer que seja e onde esteja, sem esperar por nada em troca, pelo prazer de compartilhar. Porque a esperança não é do futuro, senão do invisível. E nessa doação descobre-se a plenitude do regalo como presente. Pois se sempre há mais prazer em dar do que receber, esta é uma matéria pendente: quando se aprende a receber, se enriquece ao doador o qual transborda, "se verte" e assim se estabelece a conversação (cum versare, verter-nos juntos") e a conversão ou metanóia, que não tem nada a ver com a idéia de penitência imposta por um certo cristianismo um tanto distante da mensagem e da conduta do jovem carpinteiro de Nazaré.
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*Profesor Emérito da Universidade Complutense de Madrid. Diretor do CCS.Centro de Colaborações Solidárias

fajardoccs@solidarios.org.es

Fonte: Adital online, 04/11/2010

Como se forma a memória

Fernando Reinach*

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Entre o Oiapoque e o Chuí existem centenas de marcos geográficos que demarcam a fronteira brasileira. Um amigo dos meus pais os recitava de memória. Eu fui obrigado a decorar a tabuada, o que não ocorreu com meus filhos. Nas últimas décadas a memorização de novos conhecimentos por meio da repetição exaustiva caiu em desuso. Em parte isto se deve aos novos métodos pedagógicos que valorizam a capacidade de utilizar o conhecimento ao invés de sua simples memorização. Mas uma polêmica nos meios científicos sobre a melhor maneira de criar memórias de longo prazo também contribuiu para o ocaso da tabuada.
A teoria clássica afirmava que a repetição exata de um estímulo era a melhor forma de memorizá-lo. A nova teoria propunha que memórias mais duradouras eram formadas quando o estímulo contendo a informação era apresentado em diferentes formas a cada repetição. Na teoria clássica a melhor maneira de memorizar a tabuada era repetir cada frase centenas de vezes. Na nova teoria o aluno deveria ser submetido a uma série de repetições nas quais o contexto da informação mudasse a cada repetição. A memorização seria mais eficiente pois o conhecimento ficaria "ancorado" em diversos pontos da memória. Agora, analisando diretamente a atividade cerebral à medida que a memória é formada, os cientistas descobriram como as memórias mais duráveis são formadas.
 Os testes foram feitos em 24 voluntários. A cabeça da pessoa era colocada dentro de uma máquina de ressonância magnética capaz de medir a atividade de cada região do cérebro a cada instante. É como se a máquina estivesse filmando que parte do cérebro está ativa ou inativa a cada segundo. Com a máquina na cabeça, os voluntários observavam uma tela de computador e eram instruídos a memorizar 120 fotos de faces de pessoas. Cada face era apresentada três vezes misturada aleatoriamente às outras faces. Dada esta combinação, cada voluntário examinava um total de 360 faces enquanto a maquina de ressonância registrava a atividade cerebral. Desta maneira foi possível registrar a atividade cerebral de cada voluntário para cada uma das três vezes em que ele foi apresentado a cada uma das 120 faces.

"Na teoria clássica
a melhor maneira de
memorizar a tabuada era repetir cada frase
centenas de vezes.
Na nova teoria
o aluno deveria ser submetido a
uma série de repetições
nas quais o contexto da informação
mudasse a cada repetição."

Uma hora depois de terminada esta parte do experimento o voluntário voltava para o laboratório para tentar identificar as faces que havia memorizado. Nesta segunda etapa, feita sem o aparelho na cabeça, era apresentada a uma sequência de 240 faces sendo que 120 eram novas e 120 eram as mesmas que ele havia observado com a máquina na cabeça. Para cada uma destas 240 faces ele deveria dar uma nota de 1 a 6 dependendo do grau de certeza que a face já havia sido observada na primeira parte do experimento.
Feito isso os cientistas selecionaram, entre as faces apresentadas na primeira parte do experimento, as que as pessoas tinham certeza que se lembravam (nota 5 e 6) e as que elas seguramente haviam visto mas não se lembravam (nota 1 e 2). Sabendo quais faces haviam sido memorizadas e quais haviam sido esquecidas os cientistas examinaram a atividade cerebral do voluntário enquanto estava olhando faces memorizadas ou esquecidas. O objetivo era tentar descobrir que atividades cerebrais eram indicativas de que a memória estava se formando de forma eficiente.
A comparação da atividade cerebral de um voluntário enquanto examina duas faces distintas é pouco informativa. Já se sabe que diferentes faces provocam diferentes reações e consequentemente diferentes atividades cerebrais. Enquanto uma face pode provocar reações do tipo "ela é parecida com minha avó Zica" outra face pode provocar reações do tipo "nunca vi um homem tão triste" e é claro que a atividade cerebral que gera estes pensamentos é diferente. Foi por este motivo que os cientistas compararam a atividade do cérebro nas três vezes que a mesma face foi apresentada ao voluntário, tanto no caso das faces memorizadas quanto no caso das faces esquecidas.
Quando esta comparação foi feita em centenas de faces lembradas ou esquecidas pelos 24 voluntários ficou clara uma diferença entre as faces lembradas e as esquecidas. No caso das faces lembradas, a atividade cerebral era semelhante nas três vezes em que a pessoa observava a mesma face. No caso das faces esquecidas cada vez que a pessoa observava a face a atividade cerebral era diferente. Isto demonstra que a formação eficiente de memória ocorre quando o padrão de atividade cerebral se repete perfeitamente cada vez que o estímulo é apresentado.
Este tipo de experimento foi repetido usando palavras escritas e sons em vez de faces, confirmando que formação eficiente de memória ocorre quando o estímulo é capaz de provocar reações idênticas em nosso cérebro, e comprovando a teoria clássica do processo de memorização. É por isso que um grupo de crianças forçadas a recitar em voz alta todo dia um poema ou a tabuada acaba memorizando a informação para o resto da vida e um advogado, 50 anos depois de sair da escola, ainda é capaz de listar os rios e montanhas do Oiapoque ao Chuí.
Portanto, se o objetivo é simplesmente memorizar algo, a repetição exata é a solução preferida, mas se a ideia é educar crianças para lidar com a informação e utilizar o conhecimento de maneira critica e criativa a repetição exaustiva não é a melhor forma de educar. A arte está em combinar estas duas atividades.
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*BIÓLOGO
MAIS INFORMAÇÕES EM: GREATER NEURAL PATTERN SIMILARITY ACROSS REPETITIONS IS ASSOCIATED WITH BETTER MEMORY. SCIENCE VOL. 330 PAG. 97 2010
Fonte: Estadão online, 04/11/2010

Mulher na direção

 Luis Fernando Veríssimo*


O preconceito masculino contra as mulheres tem uma longa história, que vai desde a atribuição da origem de todos os males do mundo ao mitológico vaso (leia-se o útero) de Pandora até a última anedota sobre algum incompreensível (para os homens) hábito feminino. O preconceito tem um lado obscuro e doentio - a misoginia é um traço comum a toda a tradição judaico-cristã, e não vamos nem falar nos extremos de ambiguidade que a mulher provoca na cultura islâmica - mas manifesta-se também nessa persistente perplexidade que a mulher causa no homem, e que já é mais folclórica do que qualquer outra coisa. De acordo com o folclore, homem jamais entenderá a organização de uma bolsa feminina. Homem jamais se acostumará com a peculiar noção de tempo e pontualidade da mulher, e menos ainda com a sua lógica. E homem, decididamente, jamais confiará em mulher na direção.

"Homem jamais se acostumará com a
peculiar noção de tempo e pontualidade da mulher,
e menos ainda com a sua lógica."

Se você é homem, pense na seguinte situação: você está num táxi e um carro na sua frente acaba de realizar uma manobra, digamos, não ortodoxa. O motorista do táxi buzina, reclama e, na ultrapassagem, vê que quem está dirigindo o carro infrator é uma mulher. Comenta:
- Só podia ser. Mulher na direção...
Você faz o que? Diz ao motorista que ele está sendo antiquado e injusto, que já há quase tantas mulheres quanto homens dirigindo carros, inclusive táxis, e que a maioria não faz loucuras, ou pelo menos mais loucuras do que homens, na direção? Ou sorri, sacode a cabeça e concorda com o motorista?
Confesse: você concorda com o motorista. Você é um cara esclarecido, livre de qualquer forma de intolerância, sem resquícios obscurantistas, mas concorda com o motorista. Ele e você pertencem à mesma irmandade, a do pomo de Adão e do xixi em pé, e nada, nem mesmo o bom senso, os fará abandonar suas convicções atávicas. Mulher na direção está invadindo um território que não é dela. É uma ameaça aos seus domínios.
É verdade que, depois de domingo, nosso hipotético motorista talvez mudasse seu comentário irado. Depois de dizer "Viu só? Mulher na direção...", acrescentaria: "Sem querer falar em política, claro."
Números. Por falar em mitos, tem um que está se criando sem justificativa. Não foi a votação da Dilma no Norte e no Nordeste que lhe deu a vitória. Mesmo sem a vantagem que teve na região ela venceria o Serra com os votos que recebeu nas outras regiões do País. Só seria mais apertado. A ideia de um Brasil atrasado derrotando o Brasil mais politizado e sofisticando não se sustenta nos números.
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* Cronista. Escritor. Colunista da ZH e Estadão
Fonte: Estadão online, 04/11/2010

‘Não existe alternativa ao capitalismo’, afirma Lipovetsky



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“Se os empresários espanhóis puderem utilizar, mesmo que seja uma pequeníssima ideia do que digo para melhorar as coisas, não me sentiria absolutamente incomodado”, explica Gilles Lipovetsky (Paris, 1944). O filósofo francês, célebre teórico da pós-modernidade que descreveu há quase três décadas em A Era do Vazio (Relógio d'Água), entende que o capitalismo é indefectível, e que, por isso, não nos devemos negar a mostrar aos dirigentes as bondades que há, por exemplo, no fato de não espremer muito os empregados.

“Eu não demonizo nem o capitalismo nem a empresa”, relata, pouco antes de intervir em Santiago de Compostela na convenção de dirigentes da Associação para o Progresso da Direção (APD). Mas sua tarefa pedagógica se adivinha árdua após ouvir José María Aguirre, presidente da APD e ex-presidente do Banco Guipuzcoano, que falou antes do autor de O Império do Efêmero (Companhia das Letras). “Alguém de vocês confia no G-20?”, lançou o empresário, que se mostrou muito simpático à ideia de equiparar o papel institucional de empresas transnacionais e Estados.

O filósofo tranquilizou os participantes, chegada a sua vez, sobre os efeitos da crise nos hábitos de consumo: serão poucos, pois a tendência ao hiperindividualismo é irrefreável. “Nossa época não dispõe de nenhum sistema alternativo confiável à mercantilização total dos modos de vida”, assegurou de forma veemente.
Mesmo que costume não se pronunciar sobre questões políticas concretas – “eu sou um observador”, repete – Lipovetsky aceitou opinar sobre a elevação da idade para fins de aposentadoria na França e os protestos que a medida provocou. “Era inevitável modificar a legislação com o aumento da esperança de vida”, defende, e atribui o rechaço da população em renunciar às conquistas sociais à “tradição secular de extrema esquerda, que não é eleitoralmente poderosa, mas exerce uma pressão moral sobre a esquerda governamental que impossibilita a aprovação de reformas”.
Sobre o presidente francês, Nicolas Sarkozy, Lipovetsky diz que é um “filho da televisão”. “Onde Mitterand poderia citar Balzac ou Maupassant, Sarkozy cita Clark Gable”, resume, e acrescenta: “Em si mesmo é um hiperpresidente, mas sua forma de querer condensar os poderes é mais uma tradição francesa que um traço da hipermodernidade”.
Mas se Lipovetsky se diz liberal, recusa a vertente extrema da ideologia. “O ultraliberalismo pode representar uma ameaça para a democracia, porque recompõe as desigualdades de classe”, assinala, ao mesmo tempo em que reivindica o papel dos Governos: “É preciso que o Estado controle a loucura do mercado; caso contrário, restarão apenas os poderosos e os outros”.
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A reportagem é de Víctor Honorato e está publicada no jornal espanhol El País, 03-11-2010. A tradução é do Cepat.
Fonte: IHU, 04/11/2010

Deus – mais uma biografia não autorizada

Michelson Borges*

No livro Fama e Anonimato, o genial escritor-jornalista Gay Talese traz aquela que é considerada uma das melhores reportagens sobre Frank Sinatra, intitulada “Frank Sinatra está resfriado”. O mais interessante é que Talese produziu seu texto sem conversar diretamente com o cantor. Ele “apenas” ouviu pessoas que o conheciam e consultou várias fontes confiáveis. Fez um ótimo trabalho. A revista Superinteressante tentou algo parecido com Deus, mas passou a anos-luz de distância da garimpagem de informações realizada pelo jornalista norte-americano que sabia fazer o “dever de casa”. A matéria de capa deste mês da publicação que se considera de divulgação científica surpreende apenas por um detalhe: tratou em novembro de um tema que geralmente explora em dezembro, ou seja, religião. De resto, é o mesmo cardápio de sempre: acusações e críticas infundadas contra a fé judaico-cristã e uso de fontes limitadas e que expressam apenas um lado da questão.
A matéria está dividida em três grandes blocos: apresenta a “história de Deus” desde a “infância” (quando Ele seria apenas um deus menor no panteão dos nômades), passando pela “juventude” (torna-Se o Deus maior dos nômades e Se casa com Asherah) até a “idade adulta” (Se divorcia de Asherah e torna-Se o único Deus). E o texto sentencia logo de início: “Os deuses eram as forças por trás de uma natureza inexplicável para os primeiros humanos da Terra. Facetas de divindades borbulhavam em cachoeiras, galopavam com os cavalos selvagens, voavam com o vento, escondiam-se em cada rochedo, bosque ou duna do deserto. E do deserto veio a que daria origem ao Deus para valer.” Poético, até, mas de científico não há nada aí. São afirmações vazias, desprovidas de evidências, já que se reportam a um tempo imaginário do qual não temos registros históricos suficientes para sequer rabiscar uma história da religião. É como se pesquisadores encontrassem numa caverna uma bola de vôlei com um rosto pintado nela (lembra do Wilson do filme “O Náufrago”?) e deduzissem que homens primitivos reverenciavam bolas de vôlei. Nada mais falso. Aliás, quem brinca muito com essa história de homens das cavernas é Chesterton, em sua obra O Homem Eterno.
Mais à frente, Super diz que Javé [ou Yahweh] era uma divindade que “provavelmente começou como um deus menor, cultuado por nômades. Bem antes de a Bíblia ser escrita”. Curiosamente, na capa dessa edição, a revista não usa o “provavelmente”, mas afirma: “Houve um tempo em que Deus era apenas mais um.” É a velha tática das capas sensacionalistas e vendáveis.
A intenção do texto (que revela, na verdade, a intenção dos jornalistas e editores céticos de mãos dadas com teólogos liberais sempre convenientes) é igualar Yahweh a deuses mitológicos, desconstruindo, se possível, a fé de bilhões de pessoas. Como já disse, a matéria chega a afirmar que o Deus bíblico Se casou com a deusa Asherah, nos templos de quem se praticava a prostituição cultual tão reprovada pelos profetas de Israel. E mais: diz que “uma ameaça pairava sobre os deuses de Canaã. Era a ambição de Javé”. Francamente... Ambição tinha Lúcifer quando quis ocupar o lugar de Deus no Céu. Será que essa matéria da Super não foi “inspirada” por outras ambições?...
Depois, a reportagem se aproveita do Salmo 82 para reafirmar sua ideia de que Yahweh seria um entre tantos deuses: “[O Salmo 82] nos apresenta o chamado ‘conselho divino’: uma espécie de Câmara dos Deputados dos deuses, na qual eles se reúnem para discutir assuntos importantes.” Talvez o maior “problema” esteja com o verso 6, que diz: “Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.” Esse Salmo é citado e aplicado por Jesus em João 10:34 (o que a reportagem ignora). Como Super realmente não fez o “dever de casa”, não se deu ao trabalho de pesquisar o assunto mais a fundo. Caso tivesse feito isso, descobriria que a palavra hebraica traduzida como “deuses” nesse verso é elohim. Esse termo geralmente se refere ao único Deus, mas também tem outros usos. Os versos seguintes ao primeiro verso do Salmo 82 deixam bem claro que a palavra elohim se refere a magistrados, juízes e outras pessoas que ocupam posição de autoridade.
Biblicamente falando, chamar um ser humano em posição de autoridade de “deus” indica três coisas: (1) ele tem autoridade sobre os outros seres humanos;
(2) o poder que ele exerce como autoridade civil deve ser temido;
(3) ele obtém seu poder e autoridade de Deus, o qual é retratado no versículo 8 como julgando toda a Terra.

Segundo o site Got Questions?, “esse uso da palavra ‘deuses’ para se referir a humanos é raro, mas é encontrado em outro lugar no Antigo Testamento. Por exemplo, quando Deus enviou Moisés a Faraó, Ele disse: ‘Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta’ (Êxodo 7:1). Isso significa simplesmente que Moisés, como o mensageiro de Deus, estava comunicando as palavras de Deus e era, portanto, o representante de Deus para o rei. A palavra hebraica elohim é traduzida como ‘juízes’ em Êxodo 21:6 e 22:8, 9, 28.”
Ademais, a palavra “deuses” não pode se referir a divindades pagãs, pois, no Salmo 82, os “deuses” são juízes injustos que atuam na Terra (v. 2-4), “filhos do Altíssimo” (v. 6) e “homens” passíveis de morte (v. 7). (leia mais aqui.) Isso fortalece a ideia de que “deuses”, nesse texto, não são divindades que competiriam com Yahweh.
Para o pastor e escritor Douglas Reis, de São Francisco do Sul, SC, em artigo publicado em seu blog, há duas grandes tendências equivocadas na matéria da Super:
 (1) considerar a formulação do conceito de Deus como algo progressivo e
(2) sustentar alegações pretensiosas e descabidas, sem oferecer pontos de vista alternativos (como reza a cartilha do bom jornalismo).

Reis pondera que, “se a espiritualidade pudesse ser reduzida a uma formulação que explicasse as leis naturais, seria certo que, à medida que outros métodos fossem adotados para o estudo da natureza, a espiritualidade seria dispensável. Contudo, o que vemos no início da história da ciência? Uma contribuição significativa para a revolução científica se deu por meio da influência da Bíblia!”
Ele cita Colin A. Russel, professor de História da Ciência: “[Em] conformidade com esse conceito está o papel predominante desempenhado na nova ciência por países protestantes como a Grã-Bretanha, Países Baixos e Alemanha. O que parece agora claro, sem qualquer contradição, é que uma redescoberta do cristianismo bíblico levou a uma nova percepção qualitativa da natureza, grande o bastante para abranger essas descobertas recentes e tornar possível a Revolução Científica.”
“Assim”, explica Reis, “a teologia bíblica, longe de tratar de um mundo encantado (dos animistas) ou deificado (dos panteístas), revelou aos primeiros cientistas um mundo que eles poderiam pesquisar, o qual era distinto de seu Criador. Isaac Newton, por exemplo, estudava as leis do universo para entender seu funcionamento, sabendo que elas não oferecem ‘subsídios sobre a sua origem’.”
Segundo o pastor, a única justificativa para se entender a Bíblia como mera produção de mito surge da utilização do método histórico-crítico, que impõe ao texto bíblico concepções naturalistas contrárias à ideia de milagres e eventos sobrenaturais. Ele lembra que a teologia liberal teve seu surgimento no século 18. Johann Gottfried Eichhorn foi pioneiro ao afirmar que cada livro do Antigo Testamento não teria um único autor, mas conteria diversas contribuições históricas. Para Eichhorn, a Bíblia seria mera mitologia, da mesma forma que a grega. Super copiou e colou essa visão em suas páginas (e não é de hoje), sem dar espaço para visões divergentes. Prova disso? Leia mais esta citação da reportagem: “O Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, foi finalizado por volta de 550 a.C. Mas há textos ali de 1000 a.C., ou de antes. E nada disso foi editado em ordem cronológica – em grande parte, a Bíblia é uma junção de textos independentes, cada um escrito em tempos e realidades diferentes.”
“Embora esse pensamento tenha inundado a Teologia em séculos passados”, explica Reis, “ele nunca deixou de ser uma tendência, uma opinião de alguns eruditos. Sempre houve respostas e contrapropostas a esse tipo de abordagem.” Mas a Superinteressante não foi atrás dessas fontes, ainda que fosse apenas para mostrar que há outros pontos de vista. Seria bom fazerem um cursinho com Talese...

A “biografia não autorizada de Deus” escorrega de novo ao dizer que foi somente depois da morte do rei Josias que o monoteísmo acabou finalmente consolidado entre os judeus: “E era esse Javé único que iria para a Bíblia. E se tornaria a imagem de Deus no mundo ocidental.” Mas, conforme salienta Reis, “o monoteísmo remonta ao Pentateuco, obra que, dentro da perspectiva histórica e literária, é atribuída à autoria mosaica, segundo os mais competentes estudiosos do texto bíblico”. Bastaria a quem preparou a reportagem ter estudado a respeito do conflito relatado em 1 Reis capítulo 18, para desfazer a confusão.
A Super diz também que certas características de Yahweh teriam se originado do culto ao deus Baal, embora não apresente sequer uma evidência arqueológica ou textual para essa afirmação descabida. Reis questiona: “Há especialistas no léxico bíblico, arqueologia bíblica e conceituados [especialistas em interpretação bíblica] espalhados pelo Brasil. Por que muitos são consultados pela revista IstoÉ, por exemplo, mas continuam olvidados pelas páginas da Super?”
Boa pergunta para a qual Reis sugere uma resposta: “Fica evidente o compromisso da revista em promover uma ideologia naturalista, sem ao menos ser capaz de ouvir quem pensa diferente. Isso leva os editores a abordar assuntos que tratam da Bíblia da perspectiva liberal, embora essa tendência esteja superada em vários círculos. Seria a polêmica simples estratégia de vendas, a expensas da qualidade da informação?”
O pastor Luiz Gustavo Assis, de Caxias do Sul, RS, lembra que a reportagem da Super poderia ter consultado e citado Hershel Shanks, editor da principal publicação popular (não populesca) de arqueologia bíblica, a Biblical Archaeology Review. A revista tem mais de 30 anos e publica bimestralmente artigos de diversos especialistas, liberais e conservadores. Mas não consultaram Shanks.
Também poderia ter ido atrás de Michael Hasel, que além de ser diretor do único programa de bacharelado em arqueologia bíblica nos Estados Unidos (na Southern Adventist University, no Tennessee), é egiptólogo formado pela Universidade do Arizona e teve como orientador William G. Dever, quem sabe o principal arqueólogo da atualidade. Por que Hasel seria importante para a matéria? Porque na década de 1990 (ele terminou o Ph.D em 1996) a Universidade do Arizona tinha o melhor programa doutoral em arqueologia dos Estados Unidos e Dever, orientador de Hasel, é agnóstico. (Dever doou toda a sua coleção de peças arqueológicas para essa universidade adventista em que Hasel trabalha e escreveu na Biblical Archaeology Review que o único caminho para a arqueologia bíblica sobreviver nos Estados Unidos é aprender com os adventistas. Cf. “The death of a discipline”, Biblical Archaeology Review 21/5 [1995], p. 50-55, 70.) Hasel é especialista no chamado período do bronze tardio (1300-1185 a.C.) de Canaã e na interação egípcia com o mundo mediterrâneo oriental. Mas a Super não consultou Hasel.
Luiz diz também que os autores da matéria poderiam ter ido atrás de outros três pesquisadores: James Hoffmeier, egiptólogo e professor de Antigo Oriente Médio na Trinity Evangelical Divinity School; Alan Millard e Kenneth Kitchen, ambos especialistas em estudos de epigrafia oriental na Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Em lugar disso, “preferiram apenas a opinião de alguns indivíduos que não representam a completa opinião sobre o tópico do monoteísmo”. Mas a Super também não consultou esses três.

O pastor Luiz fez estudos em egiptologia na USP e explica que a palavra para “deus”, em egípcio é ntr (lê-se netjer), e está no singular. A forma plural seria algo como ntru (é só acrescentar o “u” que se tem o plural). “Textos egípcios antigos (bem mais antigos que o Antigo Testamento) aparentemente sugerem a crença em um único Deus antes do surgimento dos demais. Ano passado, troquei e-mails com um egiptólogo da USP que me disse ser esse um tópico controverso, mas que parece se referir a uma única divindade.” Seria bom a Super expandir o assunto e incluir essas discussões. Mas não o fez.
Nesse tipo de matéria, o que mais chama a atenção do pastor e editor Matheus Cardoso, de Tatuí, SP, é que, “quando os cristãos apresentam alguma declaração bíblica, pedem-se ‘documentos históricos’ e ‘provas’. Alega-se que tudo que não é muito bem documentado é falso. Mas todo o artigo [da Super] não passa de um belo romance, sem qualquer referência a textos antigos ou a estudiosos modernos. Como geralmente acontece com a revista, o artigo inteiro se baseia em apenas um livro; neste caso, Deus: Uma Biografia, de Jack Miles, que dá nome à matéria. Esse livro já foi base de um artigo de capa da mesma revista em 2005”. [Dezembro de 2005.]
Não há problemas com biografias não autorizadas, a menos que sejam consultadas apenas fontes não confiáveis ou parciais. Isso arranca suspiros de saudades do bom e velho jornalismo praticado por figuras como Talese e outros – infelizmente, quase em extinção.
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*Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia
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Vínculos e maturidade afetiva

 Ángela Sannuti




Um dos maiores sofrimentos em nossa maneira de nos relacionarmos são as sérias dificuldades na comunicação. O crescimento emocional e a maturidade afetiva são a base das relações saudáveis e de uma sociedade madura. Na verdadeira comunhão aconchega-se a mudança mais potente.
“Em nossa sociedade contemporânea, o ser humano se vê cada vez mais privado do reconhecimento essencial que implica a confirmação afetiva de sua existência” (Frans Veldman).
A vida afetiva humana, com suas interações, relações e sua problemática intrínseca, é a trama que sustenta o mundo em todas suas esferas, tanto privadas como públicas. No entanto, as potencialidades afetivas são freqüentemente asfixiadas, subestimadas, descuidadas, quando não ignoradas. Amadurecer e crescer são, antes de mais nada, tarefas individuais, e seu reflexo mais fiel se projeta no espelho da sociedade.
Não se pode evoluir e crescer como ser humano íntegro sem desenvolver e amadurecer emocionalmente. Não há sociedade madura sem indivíduos íntegros. A imaturidade política, social e educativa que rege nossa cultura é expressão da imaturidade emocional dos indivíduos que a integram; sob a aparência de adultos, a grande maioria são seres que evolutivamente mal superam a infância precoce ou a puberdade (1).


Desenvolver o núcleo mais íntimo de nosso ser, desenvolver a própria identidade como a capacidade de formar e manter relações, constituem as propriedades mais importantes de todo ser humano.
Identidade e alteridade são as duas caras de uma dimensão primária da existência humana. Se um ser se transforma realmente em adulto, se a pessoa atinge certa liberdade, é também livre em seus comportamentos e isto implica uma fluidez de papéis e responsabilidades nas relações interpessoais. A capacidade de amar profundamente e estabelecer autênticas relações humanas é imprescindível.
Também somos capazes de criar diferentes tipos de relações e estas adquirem muitas formas: relações superficiais e sem um verdadeiro contato, modelos de dependência nos vínculos que bloqueiam a individualidade ou distorções e perturbações na comunicação.
Mas o mais importante passa inadvertido: psicologicamente, continuamos prolongando a precoce dependência emocional da infância, e com essa profundidade psíquica encaramos o mundo e a própria vida. É complexo viver, mas a maior parte da pena e do conflito é conseqüência direta do estado de imaturidade psicológica em que nos encontramos e que nem sequer é advertida como tal.

OS TEMPOS DA VIDA


Se o destino natural de todo ser humano é crescer e amadurecer: por que se torna tão difícil atingir uma verdadeira maturidade afetiva? Muitos nem sequer se propõem isso; vivem tão ocupados em atingir o sucesso, o poder, o dinheiro e o reconhecimento, projetos meramente externos, que nunca conseguem relacionar suas ânsias e suas angústias profundas com a falta de crescimento afetivo e espiritual. E muitos outros guardam o desejo de amadurecer e evoluir, mas são muitos os obstáculos que encontram, e confundidos, frustrados ou resignados, claudicam na busca interior ou acabam consumindo fórmulas mágicas e alheias que, inevitavelmente, afastam e desviam do próprio caminho vital.
A vida é um drama formativo; drama entendido como o desenvolvimento de experiências vitais e simbólicas que marcam a passagem de uma etapa a outra de maior maturidade, de integração e auto-formação.
“Os jovens sabem que, para honrar a vida que seus pais lhes deram, devem deixar o pai e a mãe, ir ao encontro da sociedade e, longe da casa paterna, assumir sua feminilidade ou sua virilidade” (Françoise Dolto).
O caminho do amadurecimento é um processo de diferenciação e individuação psicológica; para crescer e amadurecer como verdadeiros seres livres e íntegros é necessário separar-se emocionalmente dos pais. Nenhum ser humano pode ser atributo, objeto ou complemento submetido à dependência de outro.
Quantos filhos estão fechados ao seu próprio desejo e vitalidade por pais que os pressionam com solicitação abusiva e mandatos esclerotizantes (2). O maior dom que os pais —verdadeiros ou substitutos— podem brindar aos filhos é separar-se e diferenciar-se deles — “cortar o cordão umbilical”— para que possam ter acesso a sua própria identidade, a um desenvolvimento emocional individual.
Não só os filhos devem “deixar o pai e a mãe”, são os pais, sobretudo, é que devem deixar os filhos irem embora. Alguns pais, muito poucos, permitem o crescimento e a abertura à vida, mas a grande maioria, devido às estruturas familiares rígidas e às carências emocionais próprias, freiam o processo natural de separação e diferenciação de todo crescimento.
Deste modo, cresce na tensão e na culpa e, sem saber, sob um estresse crônico que será a base de muitas relações emocionais perturbadoras. A maioria das pessoas continuam sendo psicologicamente filhos –“os filhos da infância”– e a maioria dos pais continuam exercendo o papel de “pais da infância”. Assim, a relação entre pais e filhos permanece ancorada nos primeiros anos infantis ou, no melhor dos casos, na adolescência (3).
A imaturidade da relação entre pais e filhos continua vigente ao longo da vida —por isto continua sendo uma relação conflitiva— e se projeta em todas as áreas do mundo adulto. Em grande parte da sociedade os papéis que os adultos cabais deveriam exercer estão nas mãos de “meninos dependentes” ou “adolescentes desenfreados” emocionalmente —ainda que em aparência possuam atributos de poder e autoridade—. Queremos realmente amadurecer? Do ponto de vista físico, não temos outra opção, mas quanto ao psicológico e espiritual, podemos decidir deter-nos, não atravessar o próximo portal e, se aparentemente avançamos, num nível mais profundo dizemos “não”.
Cada etapa concluída é o fundamento da seguinte. Confiar nos tempos da vida e em suas oportunidades para crescer e amadurecer nos proporciona a segurança básica e fundamental para viver.
Quando nos transformamos em adultos? Quando encontramos em nós mesmos nossa verdadeira fonte de vida e criatividade; quando chegamos a ser nossa própria mãe, nosso próprio pai e, portanto, nosso próprio filho. Se formos suficientemente livres, autônomos e fortes, aprendemos a relacionar-nos de um modo mais saudável e maduro, sem criar dependências nocivas e ataduras.

“LO MEJOR QUE SE TIENE“ (*)


Não temos consciência de tudo o que significa o prolongamento emocional de nossa infância. As maiores dificuldades nos vínculos se encontram ancoradas no mundo das vivências infantis; vivências dolorosas não superadas e que são recriadas nos estados emocionais incompreensíveis na vida cotidiana de um adulto. O que é uma neurose? O conflito infantil básico que subsiste e é transformado num sofrimento crônico, mais as atitudes repetitivas diante dos novos desafios vitais. Os conflitos e traumas de nossa história pessoal que não foram superados, voltam a expressar-se sob uma repetição implacável, cada vez mais compulsivamente. Extrair a mistura de passado e presente é o verdadeiro trabalho da maturidade (4). Uma pessoa madura, afetiva e espiritualmente, vive no presente.
Sempre que se entra em contato com o outro, nós nos encontramos nele, e este se transforma em nosso espelho. No espelho de nossas relações é onde mais aprendemos a nosso respeito.
“Cada um quer salvar sua alma, suas coisas, quando o que temos realmente é o outro. E o outro é nosso espelho humanizante” (Gerard Mendel).
Todos somos seres de relação e nosso anseio mais profundo é comunicar-nos. As comunicações são o que compartilhamos e em cada um de nós existe um forte impulso para comunicar nossas experiências. A comunicação é uma situação de interação e de mútua resposta; condições essenciais para que se desenvolva um prazer recíproco entre os que se comunicam.
A capacidade de falar é uma das qualidades fundamentais do ser humano. Mas há muita “conversa fútil” para ganhar afeto e nossa maneira de comunicar tem mais a ver com um processo de aturdimento mútuo que de escuta e profunda percepção. Quando as pessoas se vêem entre si claramente, alenta-se o aprofundamento do ser.
Psicologicamente, aprender a falar é aprender a dar voz aos próprios sentimentos e necessidades, e ao infinito universo que abrigamos em nós. Engolir os sentimentos e permanecer num silêncio forçado é reter interiormente a espontaneidade vital e entumecer a alma.
Há muitas maneiras de evitar o contato pleno com o que é profundo e autêntico de nós mesmos, o que impede ter um coração aberto para entrar em contato com o outro. Todos nós nos defendemos por medo. Por medo há pessoas que congelam e bloqueiam sua afetividade; outros vivem numa explosão irruptiva e indiscriminada de suas emoções —pânico dirigido para fora—; e estão auqeles que vivem mergulhados numa implosão de sentimentos, fechando o contato exterior a fim de preservar seu mundo interno —pânico dirigido para dentro—.
Há aqueles que introjetam e aceitam as opiniões dos outros sem nenhum discernimento e sem prestar atenção ao que eles mesmos sentem; e há aqueles que vivem projetando, atribuindo aos outros características que não estão dispostos a reconhecer neles mesmos, proliferando culpas e acusações.
Como podemos amar-nos quando tantas vezes nos detestamos e projetamos nos demais o que detestamos? Olhar para fora e ver-se dentro, a atitude de enfrentar claramente os outros e a si próprio é a qualidade mais apreciada da maturidade. O melhor que temos não são as virtudes adquiridas nem as metas obtidas; no verdadeiro contato com a gente mesmo e com os outros —não há um desejo mais profundo— ocorre um estremecimento de autenticidade e um relâmpago de reconhecimento da vida com seus dons.

O MISTÉRIO DE DAR (**)


“A maioria das pessoas vivem num deserto emocional e não sabem disso ou vivem sem certa profundidade, passando por alto a própria vida. E o amor em vez de dar-se, exige ” (Clarice Lispector).
O que resta do amor quando a idealização, a negação da verdade, a dominação e o controle, os sentimentos de culpa e o fingimento são os componentes de um vínculo que nos obriga a funcionar com uma máscara e sem uma verdadeira comunhão? Esta relação distorcida e mascarada é a que se entende universalmente como “amor”. O amor por obrigação não é amor; quando numa comunicação autêntica se aspira a reconhecer, admitir e compartilhar sem medo o que se é e se sente, a pessoa se desprende de tudo o que é mentira e hipocrisia. Em toda relação sempre há um intercâmbio, há algo que se toma em troca de algo que se dá. O mistério de dar não se pode cindir do dom de receber. Irradiar sem se empobrecer é algo que ocorre com aqueles que possuem um coração livre e aberto.


(*) Título de um livro de Griselda Gambaro.
(**) Título de  uma peça teatral de Griselda Gambaro.
(1) Os graves conflitos com seu consecuente deterioro na vida política, social e educativa da sociedade, refletem o grau de imaturidade de nossos vínculos, cujo nível de dependência passa a ser um comportamento parasitário, baseado no mútuo uso e exploração.
(2) Familias nas quais os filhos aceitam com um “sorriso de boa educação” as obrigações tácitas e internalizadas de submeter-se às “regras familiares” para sustentar a suposta “unidade da familia”, sufocando o crescimento emocional e traindo seu próprio amadurecimento.
(3) Como os pais podem tolerar que seus filos cresçam, quando eles mesmos nunca superaram o umbral da infância ou da adolescência?
(4). Quem não experimenta ou nega o poder do inconsciente, acha ingênuo tentar compreender a atividade adulta sob a perspectiva infantil.
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Ángela Sannuti.  Escritora Argentina. Artigo publicado na revista Criterio, www.revistacriterio.com.ar 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Netcultura



A net-cultura sempre tem sido uma comunidade intelectual e tecnológica variegada e com frequência rixenta em seu interior. Fora das nossas fronteiras nacionais podiam enumerar-se entre os seus expoentes o místico e holístico Kewin Kelly e o visionário artista Lew Manovich, o jurista libertário Yochai Benkler e o inspirador dos common criativos Lawrence Lessig, o guru do free software Richard Stalmman e o entusiasta agit-prop da wikinomiks, Don Tapscott.

A reportagem é de Benedeto Vecchi, publicada no jornal Il Manifesto, 17-10-2010. A tradução é de Benno Dischinger.

Mas, se todos estes estudiosos e tecnólogos podem ser considerados, além das diferenças evidentes nas teses que desenvolveram com o tempo, as colunas mestras da visão dominante na Internet e na assim dita Web 2.0, não podem ser removidas as contribuições de quem procurou indagar criticamente a “revolução do silício” a partir da verificação das teses marxianas sobre o capitalismo contemporâneo. Neste caso, o acento tem sido posto nas características do “trabalho cognitivo”, individuando na Rede um laboratório no qual se manifestavam as características dominantes da relação entre capital e trabalho vivo na contemporaneidade.
A centralidade do conhecimento, das relações sociais, da capacidade de desenvolver uma cooperação produtiva centrada na inovação do produto e dos processos laborais era associada a uma leitura parasitária da função empresarial. A inovação e o poder da cooperação produtiva vinham sendo “capturadas” somente quando já se haviam manifestado através de articulados “dispositivos normativos” como as leis sobre as patentes e os copyrights, através dos quais a cooperação produtiva vinha sendo coercitivamente reduzida à propriedade intelectual das empresas. Ao mesmo tempo, a estratificação do trabalho vivo, a divisão entre perms e temps – respectivamente os trabalhadores em tempo indeterminado e em tempo determinado -, o deslocamento para a Índia, a China e a Rússia legitimavam a expressão de “escravos da rede” quando se falava de produção high-tech.

Sufocados pelo bom senso

Nicholas Carr - Imagem da Internet
E, no entanto, é indubitável que, não obstante as conflitantes leituras apologéticas ou conflitivas da Rede, entre os anos noventa e a primeira década deste novo milênio a Internet e a assim chamada Web 2.0 tem sido interpretadas como a realidade na qual o progresso tecnológico teria conduzido magicamente ao sempre desejado “reino da liberdade”. Neste reino cada um podia exprimir do melhor modo sua criatividade, porque posto ao reparo das sufocantes hierarquias das organizações produtivas típicas do longo século vinte. Há alguns anos, todavia, precisamente dentro da net-cultura emergiram posições decididamente menos indulgentes com o mundo conectado da Rede. Por exemplo, faz alguns anos que o estudioso estadunidense Nicholas Carr torna pública sua visão crítica sobre o mundo digital. A comunicação on-line e a presença das empresas na Internet põem em risco aquele bem inestimável que é a ‘privacy’, argumenta Carr no volume “O lado obscuro da rede” (Etas).
Enquanto isso, faz soar o bumbo do alarme social quando sustenta que a Internet provoca uma espécie de regressão cognitiva de massa, porque é no computador que vem sendo sempre mais delegada a tarefa de fazer uma série de operações que são prerrogativa somente dos humanos – fazer cálculos, confrontar materiais, fazer pesquisas (a este propósito seria discutido a fundo seu recente ensaio “The Shallows: What Internet is doing to Our Brain” [Os frívolos (superficiais): o que a Internet está fazendo com nossos cérebros] ).

John Freeman - Imagem da Internet
Ao mesmo tempo, conhecidos críticos literários, como John Freeman, não tem muitas delongas em denunciar a “Tirania do e-mail” (Código edições), entendendo com isso os efeitos desastrosos sobre as relações sociais dos indivíduos provocados por aquela duradora conexão à rede de homens e mulheres que, além do computador, tem como meio de comunicação os telefones celulares de nova geração. As posições de Carr tem tido muito eco nos Estados Unidos, provocando uma espécie de suspiro libertador por parte da Inteligência liberal que vê com sempre mais fastio uma realidade invadida pela comunicação on-line. Assim, os símbolos da Web 2.0 – Facebook, YouTube, Twitter, Wikipédia – são de tempos em tempos definidos como os “vetores” de uma barbarização generalizada que já atingiu, por exemplo, as jovens gerações e que agora também está colonizando a vida em sociedade dos adultos.

A onda neo-aristocrática

Haveria muito a discutir sobre a incapacidade do pensamento liberal de compreender a realidade contemporânea a partir do reflexo neo-aristocrático que o caracteriza. Este reflexo frequentemente o conduz a teorizar a despedida daquilo que acontece na sociedade em defesa de um estilo de vida metropolitano marcado pelo vezo que os liberais são os únicos depositários de um saber humanístico capaz de tornar-nos imunes do contágio dos processos de massificação do capitalismo global. Seria, no entanto, um erro relegar esta deriva elitista do pensamento liberal à Rede. Atualmente basta folhear as páginas culturais dos cotidianos anglo-saxões, alemães, franceses e italianos para deparar com escritores mais ou menos jovens que professam sua distância do neoliberalismo e, ao mesmo tempo, seu desprezo em relação a quanto acontece na sociedade, elevando seu bom senso ao máximo do pensamento crítico. A crítica à rede, como também à sociedade do espetáculo se traduz, pois, numa crítica da sociedade de massa e da tecnologia reduzida a um sistema auto-suficiente e “totalitário’. Uma atitude aristocrática e blasé, em todo caso funcional e complementar àquela ordem neo-feudal da qual desejaria tomar distância.

Jaron Lanier - Imagem da Internet
Nesta direção vai também o ensaio de Jaron Lanier, “Tu non sei um gadget” [Tu não és uma máquina] (Mondadori), a quem vai inscrito o mérito de não andar demasiado às voltas com respeito ao estado da arte da Internet e da Web 2.0. Para o pioneiro da realidade virtual, a Rede é o reino da homologação e de um “totalitarismo cibernético”, onde a péssima qualidade do software usado se conjuga muitíssimo bem com uma multidão de balbuciantes navegadores que inundam a rede de gracinhas e tolices. Além disso, após a crítica maciça aos intermediários do saber em nome do compartilhamento, Lanier considera necessário restaurar a autoridade perdida dos “sábios” sobre a “multidão” e, ao mesmo tempo, resgatar do lamaçal as mágicas virtudes da ética do trabalho (assalariado) e da função empresarial “pura”.
O autor de “Tu não és uma máquina” é uma figura anômala no panorama digital. Em seu início como pesquisador sobre as realidades virtuais ele considerava a fronteira digital como uma terra inexplorada a colonizar, afim de que homens e mulheres tivessem ao alcance de um click um instrumento para potenciar as faculdades do ser humano. Alguns lustres após se propõe, com inalterada presunção, representar uma espécie de distrofia produzida pela invasividade da tecnologia, esta última entendida como um sistema auto-referencial e auto-replicante que oprime os indivíduos e as coletividades. Já nos anos sessenta, figuras controversas da cultura humanista como o filósofo francês Jacques Ellul haviam disparado dardos contra as tecnologias eletrônicas, equiparando-as a um sistema autoritário que oprime a sociedade.
Uma atitude hostil ao digital que também contaminou muitos movimentos contra-culturais presentes na Rede, os quais estão teorizando, precisamente através da Internet e dos social network, a necessidade de abandonar o mundo digital para melhor enfrentar o apocalipse social próximo vindouro.
O que gera perplexidade nesta renovada onda contra a rede não é só a propensão elitista e neo-aristocrática que a caracteriza, quanto a indisposição contra quem, ao invés, considera que a Web 2.0 e a Rede sejam antes como um campo de possibilidades de libertação, do que um sistema de máquinas que quereria encerrar a cooperação social no interior de um regime fundado sobre o trabalho assalariado. Em suma, a manobra a ser feita é sempre aquela de estar dentro e contra o regime de acumulação capitalista. Por isso, é preciso despedir-se daquele senso comum que está na base das teses expressas por muitos críticos da Rede que inundam as páginas dos cotidianos e as prateleiras das livrarias propondo infinitas e sedutoras conspirações a favor da ordem constituída.
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Fonte: IHU online, 03/11/2010

Somos todos passageiros

 Roberto da Matta*

Imagem da Internet
São 13 horas do dia 23 de outubro e eu estou no aeroporto de O"Hare, em Chicago. Eu sou um dos 13 milhões e duzentos e trinta mil passageiros que aqui transitaram este mês. Ando, como e compro jornais neste ponto de encontro de objetos voadores conhecidos, os quais carregam e descarregam tripulantes e passageiros. Aliás, o meu filho mais velho muitas vezes aterrissou nessas enormes pistas e voamos muitas vezes com ele para o Brasil. Esse Brasil que tem hoje (são 21 horas do dia 31 de outubro e estou no meu escritório em casa, em dois espaços e tempos simultâneos) essas coisas que só o espírito humano e a literatura permitem. Meu filho morreu com a Varig, mas o aeroporto e o governo Lula continuam, já que acabo de saber do resultado da eleição.
Minhas saudações à nova e primeira mulher a ser eleita presidente do Brasil. Meus votos de que realmente venha a cuidar do povo brasileiro, sobretudo dos mais pobres.
No momento, em O"Hare, eu estou usando o centro de computação e estou me lembrando do filho comandante que perdi graças ao governo que termina, pois em todos esses locais de trânsito aéreo, sua bela, alta e forte figura surge de dentro do meu coração, tornando-o mais forte e mais valente para lutar contra as empulhações do mundo e da vida. Para combater o desânimo, a falsidade e as mentiras do velho populismo brasileiro que vimos tantas vezes reiteradas neste processo eleitoral por todos os candidatos. Pois nenhum falou de dificuldades, mas - como santos ou virgens - apenas fez promessas. Mas eis que o Comandante aparece. Vejo-o uniformizado ao meu lado, incentivando-me a falar o que penso deste Brasil que todos nós temos o dever de mudar. Ei-lo vivo e morto do caixão negro, obrigando-me ao duro diálogo no qual um lado meu se faz de outro. Ei-lo também instigando a minha revolta contra esses populistas populares que se imaginam imortais porque têm um cordão de puxa-sacos.

"Minhas saudações
à nova e primeira mulher a
ser eleita presidente do Brasil.
Meus votos de que realmente
venha a cuidar do povo brasileiro,
sobretudo dos mais pobres."

O fato é que eu estava destinado a aeroportos. Estava fadado a ter essa consciência de ser sempre um passageiro que, transitório, acidental e anônimo. Eis o paradoxo. Eu, esse ser invisível pronto a ser ferozmente identificado e inapelavelmente esquecido, devo passar todo o dia em O"Hare de onde sigo para Miami e depois para a minha querida Niterói - esse nome impossível de ser pronunciado em inglês. Quando eles têm a coragem de tentar, sai algo como: em Nai-tí-roaí! Imagine...
Estou ao lado de milhares de outros humanos. Todos sem rosto, mas todos com alma e coração. Todos passantes neste ponto de chegada e saída que, como um cemitério vivo, recebe e despacha para a terra dos esquecidos seus cidadãos embarcados em naves voadoras, não em caixões que se movem pelas mãos dos parentes e amigos.

"Estou ao lado de milhares
de outros humanos.
Todos sem rosto,
mas todos com alma e coração."

Tomo um café e devoro um bolo. Ao meu lado, senta-se um jovem do Texas que é negociante. Vende e compra adubos e, como eu, vive de transformar bosta em dinheiro. Só que eu transmuto tudo em parábolas ou porcarias (como muitos leitores já me disseram), ao passo que ele - como os políticos - vende merda por esterco. E assim a vida segue com os passageiros passando, com alguns esverdeando, e outros dormindo, outros mais roubando ou enganando e, como falava Manuel Bandeira: com os cavalinhos correndo; e nós cavalões comendo... O sol tão claro lá fora; e em minhalma - anoitecendo!
O fato é que, no mundo, todo mundo passa. E quanto mais se quer ficar, mais rapidamente se vai. Como um relâmpago no céu das tempestades de verão ou o arroto num jantar elegante. Você, leitor, escolhe.

*Camus dizia que há mais compaixão
no condenado que sabe quando vai morrer
do que em cada um de nós,
meros passageiros que
não sabemos quando vamos embarcar."



Uns vão depressa. Outros muito lentamente. E as duas situações são duras de viver e acompanhar com emoção e amor. Num caso, é como um barco que explode; noutro, é como um navio que vai partindo de uma ilha para chegar Deus sabe aonde. Talvez do tal além postulado pela incrível resistência humana ao finito, porque o nosso imaginário não conhece fim, nossas almas não têm fundo. Pelo nosso amor que jamais se satisfaz. Camus dizia que há mais compaixão no condenado que sabe quando vai morrer do que em cada um de nós, meros passageiros que não sabemos quando vamos embarcar.

"O sol tão claro lá fora;
e em minhalma - anoitecendo! 
O fato é que, no mundo,
todo mundo passa."
Agora vale a pena esperar para ver se vai surgir algum rosto novo no velho cordão dos sicofantas nacionais. A eles eu recomendo discreta contenção, senão o nariz fica um tanto amarronzado.
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*Antropólogo. Escritor. Articulusta do Estadão.
Fonte: Estadão online, 03/11/2010

A janela

José Tolentino Mendonça*
J.H.W. Tischbein

Vi há uns anos na Casa Goethe, em Frankfurt, uma imagem que me tem acompanhado. É uma aguarela de J.H.W. Tischbein que representa Goethe na sua residência romana, situada na conhecida Via del Corso. Vemo-lo de costas, a partir do interior da casa, trajado com a informalidade das horas domésticas. E está à janela. Na verdade, esgueira o corpo e a curiosidade por meia janela apenas. Mas mesmo meia janela, por vezes, é como se fosse o mundo todo. Gosto daquela mistura de descontração e atenção que atravessa a sua figura, daquele estar debruçado (dir-se-ia mergulhado) para uma coisa que só ele vê. Gosto da luz azulada ou branca desse exterior, talvez a luz de uma manhã já alta.

Teixeira de Pascoaes escreveu:
 «Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das cousas,
Eu não era o que sou».

 Eu sei que isso é verdade. Quando fecho os olhos e penso nas janelas que frequentei (nas janelas da infância e da adolescência, donde o visível se avista com um intacto esplendor; nas janelas da vida adulta; nas janelas de lugares próximos ou distantes; nas janelas de passagem; nas janelas fechadas contra a noite ou para ela abertas, numa espécie de silêncio ou súplica…), reconheço a certeza do verso de Pascoaes: «eu não era o que sou».
As janelas exteriores são símbolo da abertura interior. Uma janela é uma sugestão. Em si mesma pode até não significar nada de especial. Especial é o que ela desencadeia, trazendo-nos e levando-nos para lá dos nossos pontos de vista, deslocando os nossos patamares, alargando o nosso campo de visão.

Fernando Pessoa explica isso muito bem:
«Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave…».

Sempre entendi este «não ter filosofia nenhuma» como um apelo a não sobrepormos os nossos pré-conceitos e os nossos pré-juízos à contemplação da realidade em si. Há uma disponibilidade autêntica que precisamos de adquirir para olhar o mundo e nos olharmos, inclusive, a nós próprios. Para isso «Não basta abrir a janela»: é necessário abrir o coração.
No diário de Paul Claudel há esta frase interessante: «A vida espiritual não é uma questão de portas, mas de janelas». De facto, a grande recomendação que, por exemplo, os monges fazem é a do permanecer na sua cela (isto é, no seu território interior). Como qualquer planta, também nós resistimos mal a contínuas transplantações. Precisamos de raiz, de âncora, de terra estável que sustente a nossa maturação… Acho que isso é a porta. A janela é outra coisa: é a quotidiana necessidade de abrir a vida, nem que seja por um segundo, e deixar entrar o imprevisível de Deus.
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* José Tolentino Mendonça - In DNotícias.pt -01.11.10
Obs.: O texto é digitado em português de Portugal.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mil razões para ler Maurice Dantec

Juremir Machado da Silva*


Traduzi “Raízes do mal”, de Maurice Dantec (publicado pela Sulina).
Está no balaio da livraria Sulina, na Feira do Livro de Porto Alegre, a dez reais.
O preço original é 70 reais.
Por que ler Dantec?
Aqui vão mais alguns dados sobre ele para que vocês tenham uma pequena ideia da sua importância mundial como escritor. “A sereia vermelha”, seu primeiro livro, foi adaptado para o cinema de saída, vendeu 200 mil exemplares e foi classificado pelo rigoroso jornal “Libération” como “um dos maiores romances policiais de todos os tempos”.
Apenas isso.
“Raízes do mal”, seu segundo livro, também publicado pela mais prestigiosa editora francesa, a Gallimard, foi traduzido em 16 países e já vendeu mais de 600 mil exemplares, sendo considerado uma obra-prima pela revista L'Express e um dos melhores romances do final do século XX pelo jornal Libération.
O homem é simplesmente “cult” e arrasador.
Para escrever “Raízes do mal”, tal o esforço exigido para contar uma história de serial-killers, ele diz ter feito um pacto com o diabo. Escritor de engajamentos e ideias, grande leitor de Gilles Deleuze, Dantec foi escolhido pela Gallimard como autor símbolo nas comemorações dos 50 anos da “Noire”, talvez a mais famosa coleção de romances policiais do mundo. Durante a guerra da Bósnia, Dantec foi ao teatro das operações para testemunhar os horrores do genocídio comunista. Defendeu os católicos croatas e os muçulmanos.
Quando brigou com a Gallimard, que recusou um dos seus livros mais polêmicos, Dantec foi convidado pela Flammarion, que tentou censurar parte do texto. Dantec ficou uma fera e recusou na bucha.
Saiu batendo a porta para uma melhor.
A revista “Paris-Match” (a Caras da França) comentou: “Dantec é uma granada pronta para explodir disputada por todas as editoras”.
Antoine Gallimard, lamentando a perda, referiu-se a Dantec como “um dos maiores escritores atuais”.
A revista “Lire” concordou: “Maurice Dantec é um dos mais importantes escritores de língua francesa depois de 1945. A sua obra é fulgurante, visionária e polêmica, o que faz dele o mais admirado e o mais odiado dos escritores pela mídia”. Patrick Raynal, ex-diretor literário da Gallimard, foi mais longe: “As pessoas ainda não compreenderam que Dantec é o maior escritor do século, de todo o século”.
Acharam pouco?
Querem mais?
Roqueiro, admirador da cultura norte-americana, vivendo exilado no Canadá, Maurice Dantec não dá para mole para ninguém. Do porte dele, só Houellebecq.
Desde 2008 seus livros são estudados nas mais importantes universidades dos Estados Unidos. “Babylon Babies”, seu terceiro romance, foi adaptado para o cinema de Hollywood pela "XXth Century Fox" ao custo de 60 milhões de euros, com direção de Mathieu Kassovitz, e pode ser visto no Brasil.
Os seus livros saem nos Estados Unidos pela Random House (a Gallimard americana), cujo editor vê nele “o maior escritor europeu atual e o herdeiro de Philip K. Dick”.
Até agora, ele já vendeu mais de dois milhões de exemplares.
Dou esses dados de barato para que não haja engano.
Tudo isso que eu disse acima, repito, custa dez reais na Feira.
Balaio, meu bom balaio!
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* Filósofo. Escritor. Articulista do CP
Fonte: Correio do Povo online, 02/11/2010
Imagens da Internet

A casa dividida

Miguel Tedesco Wedy*
Imagem da Internet

Em 16 de junho de 1858, Abraham Lincoln, futuro presidente dos EUA, proferiu um discurso histórico, que marcaria o futuro daquela nação. Embasado no Livro de Mateus (12:25), de que “toda casa dividida contra si mesma não pode permanecer”, Lincoln combateu e criticou a imoralidade da escravidão, afirmando que o país não sobreviveria com Estados livres e Estados escravocratas.
Com esse discurso, Lincoln desnudava a assimetria entre os Estados americanos. Os Estados do Sul, marcados por uma aristocracia sustentada na monocultura, conservadora e exploradora da escravidão, economicamente fragilizada e com grande concentração de renda. Os Estados do Norte, na sua maioria refratários à escravidão, caracterizados por uma crescente industrialização, abertos para novas iniciativas, com grande pujança econômica e melhor distribuição de renda.
Impossível não comparar essa realidade com o Brasil atual. O resultado eleitoral expôs claramente a preponderância da candidata do presidente Lula nos Estados mais pobres, dirigidos por velhas elites e aristocracias (Collor, Sarney et caterva) conservadoras e decadentes. Com populações mais sujeitas ao manejo eleitoreiro de medidas populistas e políticas assistencialistas. De outra parte, a grande votação de Marina Silva no primeiro turno, o alto índice de abstenção, a vitória do “anticarismático” candidato de oposição nos Estados do Sul, do Centro-Oeste e em São Paulo, que possuem PIBs maiores, melhor distribuição de renda e maior instrução, caracterizam claramente a profunda divisão do país no atual momento histórico. Um país que ainda se debate entre sua tradição assistencialista, conservadora e estamental, como diria Raymundo Faoro, e uma tradição modernizadora e republicana.
Na lição de Lincoln, “Eu não espero a divisão da União – eu não espero ver a casa cair –, mas espero que ela deixe de ser dividida. Ela toda terá que se tornar uma coisa ou outra”.
Infelizmente, o que se deu nos últimos tempos foi uma espécie de avanço daquelas tradições políticas mais arcaicas, uma “sertanização” do Brasil, que aumenta a corrupção, fragiliza e partidariza instituições, torna a federação uma quimera, o cumprimento da lei uma bobagem e a ética republicana uma qualidade irrelevante.
Esperemos que a presidente Dilma, mercê de seu passado destemido e correto, tome como exemplo o que neste país é louvável, como a criatividade do seu povo, a sua capacidade de indignação e de trabalho, o apreço pela iniciativa, e combata com empenho as práticas políticas, culturais e negociais carregadas de vícios éticos, morais e jurídicos.
Façamos isso também ou, para não esquecer do lenhador do Kentucky, “vamos então dormir sobre a mentira”.
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*Advogado e coordenador executivo do Curso de Direito da Unisinos
Fonte: ZH online, 02/11/2010