domingo, 2 de janeiro de 2011

O advento da era da razão

Gaudêncio Torquato*
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Dúvidas balizam as interlocuções nos mais diversos ambientes: como será o governo da presidente Dilma Rousseff? Ela vai impor autoridade? Será pálida sombra do ex-presidente Lula? Sem traquejo na área política, conseguirá administrar as pressões partidárias e passar pelo olho do furacão nas Casas congressuais? As interrogações se apresentam pelo fato de suceder a um governo acentuadamente marcado pelo perfil do líder mais carismático de nossa contemporaneidade.
Sob esse prisma, a leitura mais linear é a de que a fosforescência do ciclo anterior tende a ofuscar a luz que se acende no palco que se abre. Pode-se apostar nessa hipótese? Não. A tendência é a de que a nova iluminação até propicie comparações de cores e matizes com a anterior, particularmente no seio de conglomerados que não mais verão no palanque a pessoa que identificavam como uma de suas legítimas representantes. As massas cultivam a catarse gerada por líderes carismáticos, que nelas provocam contínuas descargas emotivas. Vão perdê-la. Se a perda ocasionará algum vazio para elas, fará bem à identidade do governo Dilma. A alteração da maneira de agir do governante, pela forma de contato com as plateias, será benéfica ao País, pois o império da razão suplantará o reinado da emoção. Ciclos calcados na glorificação de imagens geralmente descambam na anestesia social. E uma sociedade anestesiada fecha as portas do futuro.
Não é preciso ser profeta para anunciar que a primeira mulher a comandar o País abrirá a era da racionalidade. Basta examinar sua trajetória na coordenação do Ministério Lula. Trata-se de pessoa afeita a planejamento, gerenciamento, controles e cobrança. Isso, por si só, é merecedor de aplausos, eis que passamos - e perdemos - um bocado de tempo interpretando a expressão do presidente que saiu ou ensaiando versões sobre o que disse ou tentou dizer. A substituição do verbo pela ação constitui um avanço. Os grupamentos pragmáticos, a partir das forças produtivas, terão motivos para comemorar o fato de que, doravante, encontrarão pautas mais concisas e objetivas. Os eventos serão desprovidos da verve de discursos improvisados e metáforas, ganhando mais substância. O que será condizente com um país que precisa regular os parâmetros a uma nova ordem. Há uma conta (grande) a ser paga e que, sabe-se, tem sido empurrada com a barriga - 2011 se prestará a ajustes, entre os quais o financiamento da área da saúde, o preenchimento dos buracos da Previdência, cada vez mais fundos dada a expansão da conta dos aposentados, carências no setor de segurança, etc.
"Não é preciso ser profeta
para anunciar que a primeira mulher
a comandar o País abrirá a era da racionalidade.
 Basta examinar sua trajetória
na coordenação do Ministério Lula.
Trata-se de pessoa afeita a planejamento,
 gerenciamento,
 controles e cobrança.
Isso, por si só, é merecedor de aplausos..."
Quando se diz que o Brasil passou ao largo da crise financeira internacional (2008-2009), pouco se destaca que isso não se deu de maneira fortuita. A política que propiciou a milhões de brasileiros amplo acesso ao consumo oxigenou as veias da economia. Chegou, porém, o momento de o País adequar a política econômica às novas disposições da economia internacional, no entendimento de que não é uma ilha de segurança no mundo conturbado. O início de um novo governo é ideal para integrar políticas e alinhar posições. Nesse ponto emerge o perfil da presidente. Não se espere que o primeiro ano da governante seja pleno de realizações e ações de impacto. Servirá, isso sim, para a correção de rumos e desvios, justaposição de programas e projetos, a partir de rígida revisão do PAC. Como agirá Dilma? É possível distinguir na nova mandatária-mor um senso crítico mais acentuado que o de seu antecessor. Será mais exigente e inflexível do que Lula nas cobranças. Essa característica, aliás, ganhará relevo, até porque é esse vetor que balizará sua identidade. O alinhamento da equipe ministerial tomará um bom tempo, não se devendo descartar a possibilidade de substituição de um parafuso na engrenagem, em caso de desgaste. Trata-se de uma constelação sem grandes estrelas, facilitando sua harmonia. Mas o conjunto de ministros escolhidos deve ser considerado um grid de largada. No meio e no final da pista, a disposição poderá ser diferente.
As expectativas em torno do desempenho da presidente levam ainda em conta a questão do gênero. Há muita curiosidade para saber se uma mulher terá melhor desempenho que um homem no comando da Nação. Especula-se que suas dificuldades serão menores nos espaços do obreirismo e nas áreas sociais (programas assistenciais) e mais complexas nas frentes econômica e política. A permanência do ministro Guido Mantega na Fazenda, a escolha de um perfil técnico para o Banco Central (Alexandre Tombini) e a nomeação de Antônio Palocci para comandar a Casa Civil, tendo sido ele ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula, lhe darão conforto e garantia de que a política econômica estará sob controle. E para ajudá-la a administrar a relação com as esferas política e jurídica a presidente terá à disposição a experiência de seu vice, Michel Temer, professor de Direito Constitucional e presidente do PMDB, que dirigiu a Câmara dos Deputados por três vezes. Com esse respaldo são mínimas as possibilidades de grandes crises na frente política.
Por último, a pergunta recorrente: Lula mandará no governo Dilma? Trata-se de hipótese débil. A dirigente deverá impor seu estilo. O ex-presidente, por sua vez, quer ver a glória da sucessora. A intromissão descabida na gestão seria um desastre para ambos. É evidente que deverá ser acionado para dar conselhos, principalmente em circunstâncias tormentosas. Luiz Inácio, como animal político, continuará a circular por muitas plagas, usufruindo o prestígio que angariou, fazendo palestras, recebendo honrarias, comovendo-se com aplausos. Sabe, porém, que há uma liturgia de poder a ser preservada. Sob pena de esboroamento do edifício que construiu. E queima da própria imagem.
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* JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO.
Fonte: Estadão online, 02/01/2011

Cosmos versus caos

MARCELO GLEISER*
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Se a vida é fruto da luta contra a entropia
que não pode ser evitada,
é ainda mais bela por ser frágil

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ACONTECEU NOVAMENTE, mais um ano passou. Alguns acham que passou rápido, outros devagar. Queremos aprender com nossos erros, evitá-los, começar novas atividades, dietas, exercícios, um blog novo, trabalhar como voluntários em alguma ONG "do bem". Fazemos isso para tornar o ano novo realmente novo, separá-lo daquele que acaba de terminar, torná-lo melhor e, nesse processo, melhorarmos também.
Somos artesãos, construímos para desfazer a tendência da natureza a desfazer as coisas. Tentamos trazer ordem, um senso de controle sobre a desordem que nos cerca: cosmos (ordem) versus caos.
Alguns podem discordar do que afirmei acima, da ideia de que a natureza tende a desfazer as coisas.
Diriam que vemos ordem por toda a parte, nas flores, no arco-íris e, claro, em nós mesmos. Segundo as leis da termodinâmica, em particular a segunda, a desordem (entropia) tende a aumentar num sistema fechado. E nós, as flores e outras estruturas naturais não somos um sistema fechado: trocamos energia uns com os outros e, mais importante, recebemos energia do Sol. Somos criaturas solares, dependemos dele para sobreviver.

"Quanto mais nos preocupamos
com o "fim",
 menos vivemos o agora.
Nós e todas as criaturas vivas
 (e as estruturas ordenadas não vivas,
como os furacões e o arco-íris)
 somos quem faz a diferença.
Eis a riqueza das estruturas organizadas
que emergem na
rota em direção à desordem -essas guerreiras
contra o decaimento
final da matéria."
Muitas das estruturas organizadas que vemos à nossa volta, furacões, ondas e tempestades, todos os seres vivos, podem ser interpretados como mecanismos para aumentar a desordem cósmica, degradando a luz que vem do Sol, transformando-a em radiação infravermelha que a Terra emite para o espaço. A segunda lei diz: essas estruturas são meros obstáculos ao inexorável fim, quando a desordem triunfará. Esse tipo de pensamento deprimia muita gente no século 19. Ainda o faz hoje.
Está na hora de mudar o foco; algo mais a fazer nesse novo ano.
Quanto mais nos preocupamos com o "fim", menos vivemos o agora. Nós e todas as criaturas vivas (e as estruturas ordenadas não vivas, como os furacões e o arco-íris) somos quem faz a diferença.
Eis a riqueza das estruturas organizadas que emergem na rota em direção à desordem -essas guerreiras contra o decaimento final da matéria. Olhar para as coisas de forma unidimensional nos leva à uma visão distorcida da realidade. Alguns acham que ciência é isso, que usa apenas a razão para compreender a Natureza. Pelo contrário, existem muitas formas de olhar para um arco-íris, e cada uma tem o seu objetivo e a sua importância.
Só quando olhamos para um arco-íris de modos diferentes é que podemos admirá-lo em sua plenitude. Cientistas não são unidimensionais.
Não usamos apenas a razão para explorar a natureza. Buscar explicações para os fenômenos naturais é, como disse Einstein, uma forma de devoção religiosa. Admirar uma flor ou um arco-íris por sua beleza e tentar entender suas funções dentro da natureza os torna ainda mais belos.
A palavra religião vem de "religare", reconectar. Mas com o quê? Escolhas diferentes para religiões diferentes. Ao buscarmos as leis que descrevem a natureza e suas criações, estamos nos reconectando com nossas origens cósmicas. Esse é o meu "religare", que traz sentido à minha vida e lhe dá direção. Se a vida é fruto da luta contra o inexorável crescimento entrópico e o decaimento material, é ainda mais bela por isso. Por que não chamá-la, afinal, de sagrada?
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*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"
FONTE: Folha online, 02/01/2011

Luta por mulheres moldou os homens

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Análise de bioantropólogo americano aponta
que as características masculinas humanas
favorecem combate
Hipótese concorrente diz que traços
teriam evoluído como forma de parecer
mais atraente para
possíveis parceiras

A fama de trogloditas dos seres humanos do sexo masculino é mais do que justificada, afirma um bioantropólogo americano. Depois de analisar os traços físicos característicos dos homens, ele diz ter batido o martelo: estamos falando de armas.
"Os fenótipos [características] dos homens exibem fortes evidências de terem sido moldados pela competição direta", disse à Folha David Puts, da Universidade do Estado da Pensilvânia.
A conclusão está no artigo "Beauty and the beast: mechanisms of sexual selection in humans" ("A bela e a fera: mecanismos de seleção sexual em humanos"), na revista científica "Evolution and Human Behavior".
Puts realizou uma detalhada análise da literatura científica justamente para se opor ao que parece ser a visão predominante entre quem estuda a evolução do comportamento humano.

EM MINORIA

É que, segundo levantamento feito pelo biantropólogo e um assistente, mais de três quartos das pesquisas da área publicadas entre 1997 e 2007 negam que a disputa violenta, ou a ameaça dela, tenha forjado os machos da nossa espécie. A maioria dos estudos defende que a preferência das mulheres por certos tipos de homem -e vice-versa- teria sido a variável mais importante da equação.
No fundo, trata-se de saber se os homens estão mais para pavões ou para bisões (veja quadro abaixo). Grosso modo, essas são as duas principais formas assumidas pela chamada seleção sexual.
A seleção sexual, estudada pela primeira vez por Charles Darwin no século 19, refere-se justamente às características visíveis dos sexos, como a barba dos homens e os seios avantajados das mulheres, entre outros.
Em alguns casos, essas características são armas para a disputa por parceiros, como os chifres dos bisões, usados em combate. Em outros, elas são meros adornos, sinalizadores de qualidade genética cujo propósito é seduzir o(a) parceiro(a). É o caso da plumagem carnavalesca dos pavões do sexo masculino.

FORÇA E HONRA
Puts aposta que somos bisões, apoiando essa hipótese, em primeiro lugar, na grande diferença de força física entre homens e mulheres -disparidade típica de espécies nas quais há disputas entre os machos.
Da cintura para cima, por exemplo, os homens são, em média, 90% mais fortes do que as mulheres, e 65% mais fortes da cintura para baixo. Na verdade, aliás, o homem médio é mais forte do que 99,9% das mulheres.
Experimentos também mostram que a barba espessa, as sobrancelhas grossas e a voz grave, tipicamente masculinas, fazem os homens parecerem maiores e mais intimidadores do que realmente são (quando apenas a voz do sujeito pode ser ouvida, ou quando se compara o rosto com ou sem barba, por exemplo).
Ao mesmo tempo, esse conjunto de traços é relativamente pouco atraente para as mulheres. Se elas forem totalmente livres para escolher, muitas vezes preferem homens ligeiramente "femininos", a tal "cara de bebê".
O efeito de barba ou voz grossa sobre a capacidade de atrair parceiras é muito menor do que sobre a aparência de "dominância" do sujeito.
Para o bioantropólogo, embora o que as mulheres acham atraente tenha tido um papel na evolução dos machos também, o mais provável é que as disputas tenham predominado, e que os vitoriosos no combate tivessem mais chance de monopolizar parceiras ou até de multiplicar o número delas.
Em grupos de caçadores-coletores, com pouca diferença social, é mais difícil ter recursos para manter mais de uma mulher, reconhece ele.
"Mas os homens dominantes também poderiam conseguir mais parceiras de curto prazo, o que, se feito com frequência, seria equivalente à poligamia do ponto de vista reprodutivo", especula.
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Reportagem por REINALDO JOSÉ LOPES EDITOR DE CIÊNCIA
Fonte: Folha online, 02/01/2011
Imagens da Internet

São Genet

Juremir Machado da Silva*
Crédito: ARTE PEDRO LOBO

Quantos sabem hoje, no Brasil, quem foi Jean Genet? Quantos ainda o leem no seu país, a França? No último dia 19, os que ainda lembram dele festejaram cem anos do seu nascimento. A revista Magazine Littéraire dedicou-lhe uma edição. Genet viveu no tempo, não muito distante, em que a literatura provocava escândalo sem bruxinhos, duendes, magos ou vampiros. Depois dele, só Michel Houellebecq conseguiu sacudir a cidadela empoeirada da chamada "instituição literária". Genet começou a escrever na prisão de Fresnes. Ele foi certamente o maior maldito da literatura europeia do século XX. Filho de uma operária e prostituta, de pai desconhecido, foi entregue muito cedo aos cuidados de uma família de marceneiros.
A vida de Genet foi um romance cheio de peripécias: bom aluno, parou logo de estudar. Passou por um tratamento psiquiátrico, esteve no Exército, atravessou a França a pé, perambulou pelo Norte da África, desertou, praticou pequenos delitos. Homossexual, viveu grandes e trepidantes amores enquanto a Europa mergulhava nas trevas do nazismo e da guerra. Preso em flagrante, quando praticava um furto, de posse de uma arma e de documentos falsos, foi parar na prisão. Identificado como desertor, diagnosticado como "desequilibrado e amoral", foi ao fundo do poço. Em 1942, na prisão de "la Santé", em Paris, começou uma obra-prima, "Notre-dame-des-fleurs". Em poucos anos, seria reconhecido como um escritor genial. Para alguns, no seu gênero, o mais genial depois de Sade. Virou autor da prestigiosa editora Gallimard.
"Genet escrevia com as tripas.
Não fazia concessões.
Queria a revolta, não a revolução.
Buscava a liberdade total.
 Nada de migalhas."

Jean-Paul Sartre o imortalizou com um texto intitulado "São Genet, comediante e mártir", em 1952. Admirado, adulado e incensado, Genet foi sempre um maldito. Jamais renegou suas ideias. Jacques Derrida chegou a dizer que a obra de Genet escapava de qualquer grade de interpretação filosófica, psicanalítica e moral. Em 1949, Sartre e Jean Cocteau organizaram um abaixo-assinado pedindo o perdão do resto do tempo de pena que lhe cabia cumprir. Deu certo. Livre, Genet, passa um tempo sem inspiração. Viaja, lê, ama e, finalmente, volta a escrever. "Pompas Fúnebres" é um dos seus melhores textos. Depois de anos instalado no Marrocos, Genet voltou à França. Morreu na madrugada de 15 de abril de 1986 num hotelzinho parisiense. Genet escrevia com as tripas. Não fazia concessões. Queria a revolta, não a revolução. Buscava a liberdade total. Nada de migalhas.
A montagem de "O Balcão", de Genet, fez muito sucesso no Brasil. Por que, mesmo famoso, Genet continuou um maldito? Porque se tornou um dos mais ácidos críticos da hipocrisia da alta sociedade francesa, do racismo dominante no Ocidente, da homofobia e das políticas de Estado voltadas para a imposição dos interesses dos mais fortes. Tornou-se amigo dos "black panthers" americanos, apoiou os estudantes em 1968, denunciou o horror das prisões e foi, em 1982, o primeiro europeu a testemunhar o massacre de palestinos praticado por milícias aliadas de Israel. Quem puder, leia "Quatro em Chatila". Genet via-se como um "inimigo declarado" dos podres poderes.
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* Filósofo. Escritor. Jornalista. Professor universitário.
Fonte: Correio do Povo online, 02/01/2011

Deixe-se em paz

MARTHA MEDEIROS*


Que mania a gente tem de fazer listinha de resoluções,
como se uma simples virada de ano bastasse
para nos transformar em
uma pessoa mais completa

Geralmente é o que se deseja intimamente: paz para o mundo, paz para todos, paz para os torcedores, paz para os moribundos, paz para os iraquianos. É um desejo legítimo, mas qual a nossa contribuição prática para ajudar a construir uma serenidade universal? O máximo que podemos fazer é garantir nossa própria paz. Portanto, esses são os meus votos: deixe-se em paz.
Parece uma frase grosseira, mas é apenas um desejo sincero e generoso. Deixe-se em paz. Não se cobre por não ter realizado tudo o que pretendia, não se culpe por ter falhado em alguns momentos, não se torture por ter sido contraditório, não se puna por não ter sido perfeito. Você fez o melhor que podia.
Aproveite para estabelecer metas mais prosaicas para o futuro que virá, ou até meta nenhuma. Que mania a gente tem de fazer listinha de resoluções, prometer mundos e fundos como se uma simples virada de ano bastasse para nos transformar numa pessoa mais completa e competente. Você será o que sempre foi – e isso já é muito bom, pois presumo que você não seja nenhum contraventor, apenas não consegue dar conta de todos os seus bons propósitos, quem consegue? Às vezes não dá. Vá no seu ritmo, siga sendo quem é, não espere entrar numa cabine e sair de lá vestido de super-homem ou de supermulher. Deixe de fantasias. Deixe-se em paz.
Se quer tomar alguma resolução, resolva ajudar os outros, fazer o bem, dedicar-se à coletividade, seja mais solidário. Não deixe os menos favorecidos na paz do abandono, na paz do esquecimento. Mas esquecer um pouco de você mesmo, pode. Deve. Não se enquadre em comportamentos que não lhe caracterizam, não se enjaule por causa de decisões das quais já se arrependeu, não se arrebente por causa de questionamentos incessantes. Liberte-se desses pensamentos todos, dessa busca sofrida por adequação e ao mesmo tempo por liberdade. Nossa, ser uma pessoa adequada e livre ao mesmo tempo é uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Será mesmo tão necessário pensar nisso agora? Deixe-se em paz.
"Se quer tomar alguma resolução,
resolva ajudar os outros,
 fazer o bem, dedicar-se à coletividade,
seja mais solidário.
Não deixe os menos favorecidos
na paz do abandono,
na paz do esquecimento."
Não dê tanta importância à melhor roupa para vestir, à melhor frase para o primeiro encontro, às calorias que deve queimar, à melhor resposta para quem lhe ofendeu, às perguntas que precisa fazer para se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Deixe-se em paz.
No fundo, estou escrevendo pra mim mesma. Não me deixo em paz. Estou sempre avaliando se agi certo ou errado, cultivo minhas dúvidas com adubo e custo a me perdoar. Tenho passe livre para o céu e também para o inferno. Preciso me deixar em paz, me largar de mão, me alforriar.
Só falta alguém ensinar como é que se faz isso.
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* Jornalista. Escritora. Cronista da ZH e o Globo.
Fonte: ZH online, 02/01/2011

A ciência da felicidade

COMPORTAMENTO
 Cena do filme "A Suprema Felicidade" de Arnaldo Jabor

O que é capaz de fazer alguém feliz?
No mundo inteiro,
cientistas estão debruçados
sobre o tema

A última pesquisa internacional World Values Survey é uma voz com discurso superotimista. Durante 25 anos, alguns pesquisadores dedicaram-se a reunir os resultados de pesquisas nacionais representativas em 97 países, que perguntavam às pessoas se elas se consideravam muito, razoavelmente, não muito ou nem um pouco felizes. Todo esse interrogatório resultou no chamado índice de bem-estar subjetivo, uma expressão que, no fundo, quer dizer apenas o quão feliz você é, na língua dos cientistas. O índice acabou virando uma tabela cheia de números que pode ser traduzido em até que somos bem felizes. A Dinamarca aparece em primeiro lugar no ranking; O Brasil, em 30º. Entre 1991 e 2007, o número de brasileiros que dizem ser felizes aumentou em 15%. Só perdemos para o México, que chegou a 25%.
O problema é que, se de um lado juramos a pesquisadores que estamos vendendo felicidade, do outro somos obrigados a enfrentar uma realidade contraditória. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aposta que em 2020 a depressão será a segunda causa de morte no mundo, perdendo apenas para doenças do coração. E tão surpreendente quanto essa sentença é saber que só a menor parte dos casos ocorrerá devido a tendências genéticas.
Outra pesquisa recente, da Faculdade de Medicina de Harvard, mostra que atualmente 80% das consultas médicas são devido ao estresse.
Talvez por isso, a felicidade – vista no passado como um assunto fútil no meio acadêmico – tenha ganhado outro status. Hoje, é tema de centros de pesquisa especializados na Europa, preocupa governos e autoridades, é protagonista de linhas de pensamento da psicologia e virou assunto batido de palestras motivacionais nas empresas. Inglaterra e França chegaram a encomendar a economistas e psicólogos pesquisas para estimar o grau de felicidade das suas populações. No Brasil, buscar a felicidade está em vias de virar oficialmente direito do cidadão, carimbado na Constituição pela PEC da Felicidade.
– A sociedade contemporânea prometeu muito. Consumo, progresso, modernidade. Veja os Estados Unidos hoje. Um país riquíssimo, mas onde a população é mais infeliz do que há alguns anos. E aí as pessoas se perguntam: “Poxa, cadê o pote de ouro?” É hora de repensar – reflete a psicóloga Lilian Graziano, autora da tese Felicidade Revisitada e diretora do Instituto de Psicologia Positiva.
Decifrar a felicidade tem deixado malucos psicólogos e pesquisadores. Por um motivo muito simples: ela é diferente para cada um e, ainda que os cientistas estabeleçam métodos de medição do nível de felicidade individual, esse índice será sempre relativo.
– Existe uma escala de respostas que te pergunta, de um a sete, quão feliz você se sente. Porém, um seis para mim pode ser diferente de um seis para você. Nunca saberemos – diz Lilian Graziano.
Para facilitar as coisas, a ciência decidiu criar uma definição que guia todas as pesquisas e serve, na verdade, como uma espécie de autodiagnóstico.
– Seria um balanço que se faz da própria vida e que inclui relações afetivas, sentimentos agradáveis e baixos níveis de humores negativos – explica Lilian.
E isso, é bom lembrar, não quer dizer estar contente o tempo inteiro.
– Não podemos estar superenergéticos o tempo todo, nem deveríamos querer – reflete o também adepto da psicologia positiva Jonathan Haidt, professor da Universidade da Virgínia (EUA). – Mas podemos ter como constante companheira a sensação de que temos uma vida plena, a qual batalhamos. Ser feliz depende do que você considera felicidade.
Há cerca de três anos a disciplina mais disputada na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, berço de uma quantidade incontável de gênios e profissionais bem-sucedidos nas mais diversas áreas, atendia pelo nome de introdução à economia. Hoje, uma revolução desse cenário serve para, no mínimo, se fazer uma reflexão sobre para onde caminham as preocupações humanas. No lugar da economia, cerca de 1,4 mil alunos disputam todos os semestres uma vaga nas aulas de psicologia positiva. Em outras palavras, brigam por uma chance de aprender a serem mais felizes, simples assim como quem aprende cálculo ou regras gramaticais na escola.
A psicologia positiva é uma linha recente de pensamento que tem conquistado adeptos nas universidades e clínicas. Simplificando, funciona mais ou menos como aquele ditado do prevenir ou remediar: entre curar doenças mentais ou cuidar do bem-estar das pessoas e prevenir para que elas não apareçam, melhor a segunda opção. Assim, as disputadíssimas aulas de Harvard são espécies de treinos para uma vida mais feliz.
– É muito mais do que só “vamos pensar positivo” – sublinha a psicóloga Lilian Graziano, uma das pioneiras da psicologia positiva no Brasil. – É educar para a felicidade. Uma aula prática de exercícios para que emoções positivas, como alegria, gratidão e perdão se sobreponham às negativas.
A busca dos universitários faz certo sentido, segundo o empresário Anderson Cavalcante, autor de As Coisas Boas da Vida. Para ele, felicidade leva mais ao sucesso do que o contrário. E, para provar, existem inclusive pesquisas. Uma delas constatou que, de um grupo de 1,5 mil universitários, 102 haviam se tornado milionários 20 anos após pegarem os diplomas. Deles, 101 tinham em mente, ao deixar a faculdade, mais ser feliz do que ter uma carreira bem-sucedida.
– O importante é saber que nunca é tarde para se aprender – incentiva Cavalcante. – Um dos caminhos é olhar para o administrador da sua vida, que é você, com os olhos de um chefe. Veja se concorda com as suas decisões, se elas estão no rumo das metas da “empresa” e analise, com muita frieza, se você demitiria ou promoveria essa pessoa. Então, comece a agir no sentido de arrumar a casa – ensina.
Se a felicidade é um enigma difícil de ser decifrado, significa, então, que o homem está condenado à eterna amargura? De acordo com a psicóloga Lilian Graziano, tanto chororô tem várias explicações. A primeira teoria é que, por questões de sobrevivência, acabamos condicionando nosso cérebro a prestar mais atenção às coisas negativas. A segunda questão é a mania de ver sempre o que falta. Há também a hipótese genética.
– Acredita-se que até 50% da nossa tendência à felicidade seja determinada pelos genes – aponta a psicóloga Sonja Lyubomirsky, autora de A ciência da Felicidade e uma das referências no assunto.
– Algumas pessoas conseguem ser infelizes em qualquer situação. São seus maiores inimigos, mas não podemos culpá-las. Ninguém escolhe seus genes – completa o psicólogo norte-americano Jonathan Haidt.
A última das teorias é a de que tanto pensar sobre a felicidade leva a frustrações. É como dizia o filósofo John Locke: “Pergunte a si mesmo se você é feliz, e deixará de ser”.
– Perseguimos a felicidade no pior sentido da palavra perseguir: com hostilidade, como quem persegue um animal selvagem – compara o historiador Darrin McMahon. – E o que acontece quando capturamos a presa? Precisamos matá-la ou então aprisioná-la.

Tempo de delicadeza
Há pouco tempo estava em cartaz nos cinemas brasileiros um outro olhar sobre a relação da humanidade com os problemas e com a alegria. O filme era A Suprema Felicidade, do cineasta e jornalista Arnaldo Jabor. Quando começou a escrever o roteiro, a história da adolescência e das muitas descobertas do personagem Paulo, Jabor tinha em mente lembranças da própria infância, “um tempo de delicadeza, mais esperança e mais certezas”, como descreve. “Não sei se a felicidade era mais fácil, mas era certamente mais simples”, constata. Dos 8 aos 18 anos, o protagonista, Paulo, apaixona-se, decepciona-se, apaixona-se de novo, conhece a noite carioca, aproxima-se do pai, de quem sempre fora distante. No fim das contas, percebe que a felicidade pode estar nas menores coisas, nas pessoas, nos lugares e pode mesmo durar alguns minutos, o que não a diminui.


Questão de Estado
Segundo a nova e repentina prioridade sobre a busca da felicidade, não basta investir em obras megalomaníacas, prometer os céus e apostar numa política econômica forte se isso não se refletir na sensação de bem-estar da população.
lançou consulta pública para definir como medir
o grau de felicidade dos britânicos

– A felicidade do cidadão é obrigação do Estado. É ele quem precisa dar ao seu povo condições para que a busca dele um dia gere resultados – defende o filósofo Ubirajara Carvalho, professor da Universidade de Brasília.
Há algumas semanas, o Reino Unido lançou uma consulta pública para definir como fazer uma pesquisa capaz de mostrar o grau de felicidade dos britânicos. Até se chegar a um consenso sobre essa metodologia, a população será interrogada sobre o que a faz feliz. Dinheiro? Amigos? Família? Segurança? Eles é que vão dizer.
Futuramente, a ideia é chegar a um índice trimestral, que será divulgado com o resultado do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
A iniciativa tem o aval do primeiro-ministro David Cameron, que diz que as informações serão úteis para nortear investimentos futuros – ou cortes, se preciso for. Na mesma linha, o presidente francês, Nicolas Sarkozy encomendou aos vencedores do Nobel de Economia Joseph Stiglitz e Amartya Sen uma pesquisa com o mesmo intuito da iniciativa dos ingleses.
 uma pesquisa a dois prêmios Nobel
para avaliar o nível de satisfação dos franceses
No Brasil, essa preocupação está em vias de tomar corpo pela Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 10/2010, de autoria do senador Cristovam Buarque, que ficou conhecida como PEC da Felicidade e tramita no Congresso. A intenção é incluir o direito à busca da felicidade na Constituição Federal. A proposta é uma espécie de resgate dos direitos sociais que andavam esquecidos, além de reforçar que eles são essenciais à felicidade, embora não suficientes. Assim, se for aprovada e passar a valer, a PEC vai alterar o artigo 6º da Constituição, que passará a ser: “São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância”.
– A ideia é lembrar ao cidadão que esses direitos sociais são fundamentais para a felicidade. É fazer as pessoas entenderem que sem saúde fica difícil ser feliz, sem trabalho também – explica o senador. – É chamar a atenção para o fato de que uma escola é mais importante para a felicidade que um viaduto. Incentivar as pessoas para que elas busquem para si esses direitos, porque buscar “para todos” não funciona.
Um dos apoiadores da proposta é o Movimento Feliz, idealizado pelo publicitário Mauro Motoryn. Assim como o filósofo Ubirajara Carvalho, ele acredita que felicidade é um sentimento individual, mas que, se o Estado tiver condições de facilitar essa busca, então está mais que na hora de ajudar.
– Não é ajudar a encontrar um namorado – diz Motoryn. – É usar a felicidade como norteadora de políticas públicas. Por exemplo, se o governo tem que escolher entre investir uma verba no trem-bala ou na educação, é pensar: “O que vai trazer mais felicidade para a população?” E aí ele chega numa resposta que é óbvia – defende o publicitário. – É um resgate dos direitos básicos: alimentação, saúde, educação, e por aí vai. O processo leva muito em conta a mobilização social. As políticas públicas são muito importantes. O Brasil é um país alegre. Mas felicidade é diferente.
Todo mundo já o viu por aí, redondo, amarelo e sempre muito simpático. O Smiley, que virou símbolo da felicidade, nasceu em 1963 pelas mãos do designer Harvey Ball, por encomenda de uma empresa de seguros que queria levantar o astral dos funcionários depois de uma redução no quadro. Dizem que Ball recebeu apenas US$ 240 pela criação. Em 1970, foram vendidos mais de 50 milhões de broches do Smiley.
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Fonte: DONNA ZH, 02/01/2011

Palavras-chave

MOACYR SCLIAR*


Estamos nos refundando, estamos nos reinventando, estamos na virada

Nos artigos científicos costuma figurar a expressão key words, palavras-chave. São termos que, se não chegam a resumir o que foi abordado, pelo menos dão uma dica a respeito. Nesse sentido, podemos dizer que 2010 teve suas palavras-chave, palavras ou expressões que, mesmo tendo existência anterior, apareceram repetidamente durante o ano, na mídia, em discursos de políticos ou de formas variadas. E quais são essas palavras?

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A primeira delas foi objeto de minha coluna do domingo passado. É reinventar. Não é palavra nova. Já dizia um poema da grande Cecilia Meireles (1901-1964): “A vida só é possível/reinventada.”Em 2010, contudo, reinventar voltou ao vocabulário. Dizia uma notícia sobre o Corinthians: “Timão se reinventa em 2010” (mas não ganhou o campeonato no ano de seu centenário; no caso, reinventar não foi suficiente). Em Belo Horizonte músicos de pagode se reuniram e criaram o grupo Reinventar. Um documentário (TV Cultura) sobre o heterodoxo psicanalista francês Jacques Lacan recebeu o título de Reinventar a psicanálise. Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social é o título de um livro do sociólogo Boaventura de Souza Santos.

Refundar. Dizia uma notícia de dezembro: “Senador eleito por Minas, Aécio Neves conseguiu o apoio do governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para seu projeto de refundar do PSDB”. O que quer dizer isso, refundar? Para alguns dicionaristas de maus bofes a palavra significa tornar mais fundo, afundar, mas certamente não era isso que Aécio pretendia, a menos que seja um político maquiavélico, o que não é o caso. Refundar significa fundar de novo, em outras bases. Um pouco mais que renovar, sem chegar ao nível de revolucionar. A propósito, FHC, citado na notícia, não é muito fã do termo, pelo menos quando usado pelos adversários. Tempos atrás considerou “um tanto pretensiosa” a declaração do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, de que o Ministério das Comunicações precisa ser “refundado” no Brasil. “É a mania de refundar tudo. Lula não começou o Brasil de novo?”, ironizou. “Agora todo mundo quer refundar. Isso é conversa, precisa melhorar, precisa aperfeiçoar.”

Virada. Outra palavra que esteve na moda em 2010, e numa variedade de situações, todas elas destinadas a atrair um grande público. Para começar, Virada Cultural foi a expressão que a Casa de Cultura Mário Quintana usou para a maratona de atividades que comemorou 20 anos da instituição, incluindo shows musicais, encenações teatrais, sessões de cinema, oficinas, workshops, atividades infantis. Viradas culturais ocorreram também em São Paulo, em Curitiba e em outras cidades. Em outubro realizou-se, em São Paulo, a Virada Imobiliária, um evento que disponibilizou abundante crédito para a aquisição de imóveis. Em novembro, São Paulo realizou a Virada Esportiva 2010: 36 horas de atividades esportivas e recreativas em vários lugares da capital paulista. E a loteria de fim-de-ano foi a Mega-Sena da Virada. Muita virada, portanto.

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Qual o denominador comum dessas palavras? É a mudança. O Brasil quer mudar, e está mudando. Com algumas exceções (a explosão da droga, a corrupção, os problemas do trânsito) as mudanças tem sido benéficas. Estamos nos refundando, estamos nos reinventado, estamos na virada. E isto, considerando o triste passado do nosso país, é muito bom. Antecipa um grande 2011.
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* Médico. Escritor. Colunista da ZH.
Fonte: ZH online, 02/01/2011

MEU APARTAMENTO

Rubem Alves*

Tantas coisas estão no meu apartamento que não têm nenhuma relação umas com as outras... Como no corpo. Que relação tem a unha com o umbigo, ou o dedo do pé com a cor dos olhos? Sem relação formal e anatômica umas com as outras e, no entanto, fazem parte de um organismo vivo... Peças de um quebra-cabeças..
Uma pedra que peguei no alto da serra da Boa Esperança (por milhões de ano ela havia estado a contemplar das alturas, o vale lá embaixo), três folhas de caquizeiro que transformei num quadro, uma canastra velha que comprei que comprei por um dólar numa loja do Exército da Salvação em Trenton (USA), várias garrafas de pimenta que nunca vou abrir porque são obras de arte para serem vistas o que me sugere uma alteração no aforismo que todo mundo conhece, “nos olhos dos outros pimenta é refresco”: “pimenta dentro da garrafa é refresco pros olhos da gente”; elas, as pimentas engarrafadas, não ardem. Brincam. Ver as pimentas vermelhas me faz lembrar um hai-kai de Basho, “Essas pimentas! Daí-lhe asas e serão libélulas!”
Continuando: um ramo com folhas desidratadas que prendi num sarcófago de vidro que estava numa árvore que fazia sombra ao túmulo de Abelardo e Heloísa no Cemitério Pere Lachaise em Paris – Abelardo e Heloísa, um dos mais intensos e trágicos casos de amor que se tem registro. (O amor para se tornar literatura há de ser trágico. Se Romeu e Julieta tivessem se casado, é provável que seis meses depois Romeu estivesse passando noites nas tavernas...).
Garrafas de Bourbon Jack Daniels – há muitos risos e lágrimas dentro delas... Mais que bebidas, sacramento. Uma pesada prancha de madeira onde mandei esculpir um poema de Alberto Caeiro, uma espada do exército brasileiro, um mínimo relógio de sol que os peregrinos que iam adorar em San Thiago de Compostela usavam como colar, conchas que sempre me foram objetos de assombro por sua beleza, nunca entendi como é que aqueles animais de corpo mole sabem fazer tais objetos matematicamente perfeitos, uma das conchas se parece com um peixe virado do avesso, o esqueleto todo espetado como se fosse um porco espinho arrepiado, vários quadros guardados atrás de armários que não cabem nas paredes, estão lá a espera, uma tela de Arcimboldo (século 16) na porta da cozinha, um rosto feito com abobrinhas, cabeças de alho, azeitonas, espigas de trigo, abóboras, chuchus, como é que essa loucura aparece na cabeça de um pintor eu não sei... também pintou um rosto com flores, um outro com livros, e outro com frangos.
"Mais as coisas invisíveis,
memórias de tempos passados
que continuam presentes no meu corpo
e vão comigo por onde quer que eu vá
e é preciso que eu escreva ou fale
para que fiquem visíveis".

Porta-fogos chamados velas, quadros nas paredes, uma velha fazenda onde vive quando menino e sobre a qual escrevi, caquis de mármore, quebra-cabeças feitos pelo Hans, símbolos religiosos, a saudação franciscana aos que chegam: “Pax et Bonum”, paz e bem na porta de entrada, uma placa de cerâmica com a bênção irlandesa sobre os que partem: “Que o caminho seja brando a teus pés, o vento sopre leve em teus ombros, que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas em teus campos. E até que eu de novo te veja, que Deus te guarde na palma de sua mão...”
Mais as coisas invisíveis, memórias de tempos passados que continuam presentes no meu corpo e vão comigo por onde quer que eu vá e é preciso que eu escreva ou fale para que fiquem visíveis. Doei 30 caixas de livros, livros que eu não mais leria porque o tempo é curto e o espaço do apartamento para o qual me mudei é pequeno.
Guardei alguns poucos livros de arte, de literatura e poesia. Guardei também músicas adormecidas em CDs esperando que eu queira ouvi-las. Como se fossem namoradas à espera do amado...
Espero que esse rol de objetos insignificantes tenha provocado a sua imaginação. Volte sempre. Há muitas estórias a ser contadas.
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* Teólogo. Pedagogo. Educador. Poeta. Escritor.
Fonte: Correio Popular online, 02/01/2011.
Imagens da Internet

Câncer - sem terror...

Imagem da Internet

Este post foi originalmente publicado em inglês no divertidíssimo The Oatmeal (em inglês), e está sendo reproduzido aqui com autorização do autor.
3 razões  pelas quais
TUMORES SÃO UNS BABACAS
(Para Dave)





Thank you Matthew Inman.
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Fonte: http://hypescience.com/  Acesso 02/01/2011
Título meu.

sábado, 1 de janeiro de 2011

NA OPOSIÇÃO A DEUS

The Observer – Vítima de um câncer no esôfago,
Christopher Hitchens (foto) desdenha
de quem vê na sua doença uma vingança divina.

POR ANDREW ANTHONY*

Eu não tinha certeza do que, ou talvez quem, esperar quando a porta se abriu no apartamento de cobertura de Christopher Hitchens, no centro de Washington. A última vez que eu havia entrevistado o famoso polemista, escritor, crítico literário e novo habitante da condição médica que ele chamou de Tumortown foi em 2005. Naquela ocasião, ao terminarmos às 5 da manhã nossa conversa lubrificada com extravagância, fui eu quem sentiu a necessidade premente de cuidados hospitalares.
A partir daí houve duas mudanças de circunstâncias drásticas. A primeira foi o sucesso de vendas internacional de seu volume ateístico Deus não É Grande. Depois de décadas de um trabalho aclamado, mas basicamente confinado, Hitchens de repente revelou-se a um público massa, tornando-se possívelmente a figura de proa global dos chamados novos ateus. Quase da noite para o dia, ele foi promovido da notoriedade intelectual, como um defensor declarado da invasão do Iraque, ao extremo comercial da fama na corrente dominante. Nos Estados Unidos, em particular, atingiu aquela rara posição de um jornalista que se torna notícia.
Infelizmente, a notícia, que produziu a segunda transformação pessoal, foi que em junho ele teve diagnosticado um câncer no esôfago, doença cujos índices de sobrevivência não dão boa leitura na hora de dormir. Como contenção é uma qualidade pela qual nem Hitchens nem seus críticos são conhecidos, as ironias foram irresistíveis para muitos comentaristas. Para os zelosos da religião, o arquiateu sofrer de uma doença mortífera falava de retribuição divina – sendo a ironia não admitida que a crença nesse deus vingativo só servia para endossar a tese de Hitchens.

Para moralistas mais seculares, estava em ação um tipo diferente de contabilidade cósmica. O célebre beberrão e fumante que um dia afirmou que “bebida e cigarro são a felicidade” havia sucumbido a um câncer geralmente associado a beber e fumar. Tendo, previamente, chegado ao ponto de promover os benefícios do fumo na adolescência, ele fez uma espécie de retratação pública. “Eu poderia dizer a qualquer pessoa que está assistindo”, ele anunciou em uma entrevista na tevê, “que se você puder reduzir o fumo e os drinques talvez seja melhor fazê-lo”.
Hitchens havia impregnado essa história de significado no prólogo de sua recente memória. Hitch-22, em que ele medita sobre a imprevisível incursão da morte. Um motivo para realizar o livro ele confessou, foi a necessidade de fazê-lo antes que fosse “tarde demais”. Ao escrever essas palavras, ele não sabia do tumor que crescia em seu esôfago e havia feito metástase em seus nódulos linfáticos e seu pulmão. Foi somente quando estava em uma turnê promocional do livro que adoeceu e foi diagnosticado.
Seguiu-se o espetáculo menor de grupos de oração invocando o descrente em sua comunicação espiritual e até, em setembro, a designação informal de um “dia de todo mundo rezar por Hitchens”. Apesar de evitar qualquer envolvimento direto, o escritor declarou-se tocado pela atenção. Mas, para um conhecedor tão astuto da forma, essas ironias eram sem dúvida um pouco retumbantes demais para Hitchens apreciar.
Por cima disso havia o rumor distante da biografia liiterária. Um dos grandes heróis de Hitchens é George Orwell, que assim que produziu suas principais realizações ( A Revolução dos Bichos, 1984) teve de enfrentar a perspectiva da morte prematura. Orwell foi uma figura frágil e presa à cama no final de sua breve vida, um destino que parecia confirmar sua forma de coragem ascética.

Tudo muito bem para o homem que nutriu sua tuberculoso sozinho na úmida reclusão do Jura, mas a doença jamais seria uma imagem que combinasse com Hitchens, uma definição ambulante do bom vivant cosmopolita. As primeiras fotos e aparições pós-quimio não foram animadoras. Sem sua franja dândi, marca registrada, ele parecia ter sofrido uma redução sansônica. Os poucos fios de cabelos restantes zombavam da maliciosa expressão infantil que se havia escondido devidamente atrás dos olhos tristonhos. Ele parecia velho e maltratado. Parecia um homem de 61 anos com câncer em fase 4.
Ele me disse por e-mail que tinha dias bons e ruins. Enquanto o pressionava para dar a entrevista, foi com certa apreensão que segurei uma inócua garrafa de vinho branco – supondo que sua doença habitual de uísque tivesse sido, retirada do cardápio. No início, quando ele me cumprimentou, não tive muita certeza se estava em um de seus melhores dias. Embora parecesse mais firme e atento do que nas imagens anteriores, tendo perdido um pouco do peso e com a cabeça agora mais calva, o que lhe ia bem, o apartamento estava escuro e ele me convidou para observar o crepúsculo. Tudo parecia muito abandonado.
Se havia provocado seu câncer, queimar a vela nas duas extremidades, como ele comentou recentemente, também produziu uma “luz adorável”. O ocaso dourado sobre a capital americana possuía seu próprio encanto luminoso, ao menos porque parecia recarregar Hitchens. Então foi assim que durante uma parte considerável das 24 horas seguintes ele discorreu com firme eloquência sobre um tesouro de assuntos, incluindo a Guerra do Iraque e suas prováveis consequências, a ameaça jihadista global, seu amor pelo debate, romance, doença e, é claro, as reivindicações persistentemente intrusivas da religião.

“Os piores dias são quando você sente a cabeça enevoada”, ele diz. “Chamam de cérebro de quimio. É terrível porque você se sente chato. Além de chateado. E idiota. E resignado. Você não tem qualquer motivação, o que é ruim. Você não se importa com o que vai lhe acontecer. Isso às vezes dura dois dias. E quando vem com náusea, mesmo que você tenha comido, tem de passar mal, é muito incômodo”.
Seja qual for seu regime de saúde, não parece ter afetado seus níveis de trabalho. A combativa coluna semanal em Slate, os abrangentes ensaios literários para The Atlantic Monthly e os despachos para Vanith Fair são todos enviados no prazo. E ele continua a participar de debates públicos.
Nos Estados Unidos foi sugerido pro alguns tipos religiosos que sua condição poderia provocar uma revisão de seu ateísmo. Não é uma hipótese que ele respeite muito.
“Então, agora que sei que existe outra vida em meu corpo que não pode sobreviver a mim, mas pode me matar, é o momento perfeito para reconhecer agradecimentos que sou o produto de um projeto cósmico? Quem inventa esses argumentos? Na verdade é uma pergunta insultuosa: “Ouvi falar que você está morrendo. Bem, não seria um bom momento para se livrar de suas crenças? Experimente isso com eles e veja se gostariam. ‘Cristão, certo? Câncer nos seis?’ ‘Bem, sim, já que você pergunta.’ ‘Bem, posso sugerir que agora você abandone toda essa bobagem?’”
Eu digo que na Grã-Bretanha a ideia de que ele passe por algum tipo de conversão no leito de morte tem uma adesão mínima. O que se encontra aqui com mais frequência é a acusação de que o Novo Ateísmo, como foi exposto por Hitchens e seus colegas campeões de venda Richard Dawkins, Sam Harris e Daniel Dennett, é um ataque “militante” ou mesmo “fundamentalista” ao sobrenatural e ao incompreensível.
Um de seus lemas:
"O que pode ser afirmado sem provas
pode ser rejeitado sem provas"
Hiato. Hitchens não parece ter
a dúvida de Michelangelo.
Para ele, Adão é o Criador.
Hitchens certa vez escreveu uma frase que quase adquiriu a posição de epigrama filosófico ou mesmo pronunciamento científico: “O que pode ser afirmado sem provas pode ser rejeitado sem provas”. Embora isso faça eco à famosa declaração de Wittgenstein sobre o inefável – “Daquilo que não podemos falar, portanto devemos manter silêncio” -, a versão de Hitchens é menos um sinal de “entrada proibida” do que um lembrete cívico para colocar o lixo no latão.
Na verdade, poderia se dizer que em Deus não É Grande Hitchens ignorou seu próprio conselho ao conduzir uma extensa pesquisa teológica e histórica para montar sua tese. Sua queixa, em todo caso, não é realmente contra a fé em si, mas contra a maneira como todas as fés são obrigadas a fazer exigências irracionais a crentes e descrentes, igualmente.
Hitchens despreza o título de “Novo Ateu”. “Não é realmente novo”, ele disse, “exceto que coincide com enormes avanços feitos nas ciências naturais. E houve um desafio incomumente violento aos valores pluralistas pelos defensores de pelo menos um monoteísmo com frequência desculpado pelos simpatizantes de outros. Então eles dizem que somos fundamentalistas. Uma ideia imbecil como essa é difícil de extinguir, porque qualquer idiota pode aprendê-la em dez segundos e repeti-la como se fosse a primeira vez. Mas como não há uma posição única que qualquer pessoa mantenha sobre alguma coisa que dependa de uma afirmação que não possa ser contestada, acho que ela morrerá ou eles se cansarão dela”.

Quanto à noção de que seu tipo de ateísmo é redutivo ou infeliz, é a religião, ele contesta, que é “cosmicamente desesperada, como todo o masoquismo que a acompanha – você tem de passar a vida inteira pagando pelo verme que você é. O que é isso senão degradante? Não se faz isso às pessoas. Dizemos que você pode saber que é um primata, mas, anime-se, os primatas são capazes de grande coisas”.
Hitchens menciona uma “diferença estreita, mas muito profunda” entre ele e Dawkins. Diferentemente do biólogo evangélico, ele não pretende converter o mundo inteiro ao seu ponto de vista, mesmo que isso fosse possível. Em outras palavras, ele saboreia a discussão. Como John Stuart Mill, ele é consciente do final vazio dos objetivos alcançados. A verdadeira satisfação está nos meios. Embora Hitchens seja frequentemente considerado um provocador ou um espírito do contra, e ambos são realmente aspectos de sua personalidade, no âmago ele é incuravelmente apaixonado pela dialética.
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*Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.
Fonte: Revista Carta Capital nº 624 – dezembro/2010

O novo anticristo

Entrevista SAM HARRIS
Ateu convicto, o filósofo americano propõe
que a religião pare de determinar o que é certo e errado
em nossa condutapor

Por segurança, o filósofo americano Sam Harris não revela onde mora. Depois de escrever Carta a uma Nação Cristã (2007) e O Fim da Fé (2009), em que diz que as religiões são responsáveis por boa parte dos males do mundo, Harris não fez muitos amigos. Recebeu milhares de e-mails furiosos, alguns com ameaças. Aparentemente, ele não quer fazer as pazes com os religiosos que o criticaram. Ph.D. em neurociência, Harris acaba de lançar nos EUA Moral Landscape (Panorama moral, ainda sem edição no Brasil), no qual defende que, para construir nossos valores, não precisamos de crenças. Bastam alguns cálculos científicos.

*Você critica cientistas que defendem a convivência entre crenças culturais e ciência. Por quê?
Sam Harris: Nos últimos 100 anos, a antropologia, baseada nos testemunhos de diferentes identidades culturais, estabeleceu que não poderia haver uma verdade moral, que deveríamos considerar os pontos de vista de todas as culturas e levar em conta seus valores. Isso se espalhou e os cientistas hoje fingem que é possível conciliar ciência e religião. Mas não é. Se, na ciência, desprezamos várias hipóteses que se mostram ridículas, por que deveríamos considerar todas as ideias, por mais bizarras que sejam, sobre os valores de uma sociedade? Há formas de organização social e ideias claramente inferiores que deveriam acabar.

*Você pode citar exemplos?
Harris: É claro que os muçulmanos estão errados uma vez que as mulheres, nessa cultura, sofrem mais do que nas outras. No Afeganistão, a expectativa de vida para as mulheres é de 44 anos, apenas 20% são alfabetizadas e a taxa de mortalidade materna (em decorrência da gravidez) é uma das maiores do mundo. Por causa da religião, aquele é um lugar terrível para ser uma mulher. Não podemos respeitar seus valores.

*Você não teme ser taxado de intolerante?
Harris: Ao criticar culturas, estou preocupado com o sofrimento terrível causado por elas. Tolerar a intolerância não é uma virtude, é uma covardia. Quem aceita o comportamento de homens muçulmanos com as mulheres, as ameaças aos jornalistas e a trabalhadores de ajuda humanitária, não é tolerante. Apenas tem uma compaixão falha.

*Se não pela religião, como poderíamos construir valores?
Harris: Há uma ciência da moralidade surgindo. O objetivo, com novos estudos e pesquisas, é aumentar o bem-estar, que pode ser medido pela expectativa de vida, taxas de mortalidade e indicadores cerebrais de prazer, por exemplo. Muito em breve será possível analisar o cérebro de pessoas em diferentes regiões do planeta para medir que tipos de prática as deixam num estado mais próximo ao da felicidade. Esse tipo de pesquisa já começa a ser feito por neurocientistas. Com esse tipo de abordagem, podemos argumentar, cientificamente, que algumas culturas estão erradas, porque são falhas em promover o bem-estar.

* A ciência é subproduto da cultura e também usada politicamente. Buscar nela os valores não seria igualmente perigoso?
Harris: Cientistas podem falhar, mas a ciência é a forma mais honesta de lidar com os valores. Ela confia em observações claras e raciocínio honesto num grau não alcançado por nenhuma outra área do discurso humano. Há, por exemplo, 21 estados americanos em que é permitido bater em crianças na escola como forma de punição educativa, mesmo com incontáveis estudos mostrando que isso é prejudicial ao seu desenvolvimento. Essa prática está baseada em ensinamentos da Bíblia. A ciência é claramente mais indicada para estabelecer esse tipo de conduta social do que as tradições religiosas.

* A religião não deve, então, influenciar nenhuma decisão?
Harris: Não. Após a globalização, nosso desafio é construir uma civilização unicultural, com os mesmos valores para todos. Não podemos tolerar argumentos radicais na saúde, por exemplo. Se os chineses agirem mal sobre alguma doença, matando milhares nas suas cidades, isso se torna um problema em todo o mundo porque tal doença pode se espalhar em horas. Meio ambiente, política e economia também não podem se sujeitar a diferentes interpretações. Só deveriam resistir as diferenças que não causam sofrimento, como na arte, na arquitetura e na gastronomia. Mas crenças díspares sobre o que é bom e ruim para as nossas vidas podem causar um dano tremendo.
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Reportagem por: Tiago Mali

Fonte: Revista GALILEU, jan/2011

Shimon Peres - Entrevista

Presidente de Israel.

Entrevista concedida à Revista 30 DIAS
O senhor esperava que o presidente Obama recebesse o Nobel da Paz? No discurso de aceitação do prêmio, na Casa Branca, Obama falou da guerra “justa”. O senhor acredita que exista uma guerra “justa”?
O pensamento judaico sobre as guerras é muito simples. Se alguém vem para matar você, tenta matá-lo antes que ele o mate. Essa é a posição dos nossos sábios no Talmude babilônico, e eles repetem essa regra quatro vezes em passagens diferentes. Fora esse caso, nenhum de nós tem o direito de matar. Esse é um dos Mandamentos, o sexto [segundo a tradição judaica, ndr]. E na obediência a essa norma não pode haver nenhuma negociação.

Pelo que diz respeito ao Nobel, creio que as pessoas tenham-se perguntando: o prêmio é um reconhecimento por resultados alcançados ou um convite a obtê-los, um encorajamento? Era cedo demais para dizer que Obama já tivesse alcançado alguma coisa, mas o que ele queria alcançar parecia realmente merecedor de apoio. Esse, para mim, é o verdadeiro significado da premiação. E considero também que com seus discursos ele tenha dado uma nova energia à Europa, à comunidade internacional e ao próprio mundo islâmico. Isso também é uma mudança. Assim, creio que tenha merecido o prêmio.

Foi David Bem-Gurion quem disse que “em Israel quem não crê nos milagres não é realista”. Se estivesse vivo hoje, diria a mesma coisa?
Ele afirmou algo muito pragmático, ou seja, que todos os especialistas são o que são graças a algo que já aconteceu. Ninguém é especialista do que poderia acontecer. Assim, a expressão “milagre” significa que podem acontecer coisas que você não pensava que pudessem ocorrer. Isso depende de seus esforços, de sua prontidão a sacrificar-se: essa era a visão dele... Ele era essencialmente um filósofo – um homem com uma vontade forte, com um carisma e uma capacidade de direção excepcionais. É célebre seu pensamento sobre Israel: “Nosso futuro depende de estarmos na posição justa e da nossa força. Mas estar na posição justa vem antes”. Ele queria a paz, a igualdade, investiu muito no estabelecimento de uma relação entre Israel e seus vizinhos árabes: estava pronto a pagar o preço mais alto. Quando as Nações Unidas decidiram pela divisão de Israel, deram-nos um pequeno pedaço de terra que tinha mais fronteiras que espaço. Todos criticaram o fato, mas ele o aceitou.
Eu não o conhecia, li sobre ele, e quando tinha 16 ou 17 anos me convenci do que ele dizia. Ele se levantava contra o comunismo com uma força incrível; diante das tendências de extrema esquerda, ele dizia: “Não precisamos de Karl Marx, nem de Lenin, nem de Trotsky. Nós temos os nossos profetas”. Não queria que nos chamássemos Partido Socialista: “Se tivermos de ter um nome, deveria ser Partido da Bíblia”. Queria retornar aos conceitos fundamentais para os quais os profetas da tradição judaica tinham chamado a atenção, ressaltava o fato de que eles falavam o hebraico, a língua das origens, a língua que realmente importa.
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Reportagem por GIOVANNI CUBEDDU
Fonte: Entrevista completa na Revista 30dias nº10-2010, p.16/22
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O TEMPO

Rubem Alves*
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Há duas formas de marcar o tempo. Uma delas foi inventada por homens que amam a precisão dos números, matemáticos, astrônomos, cientistas, técnicos. Para marcar o tempo de forma precisa, eles fabricaram ampulhetas, relógios, cronômetros, calendários. Nesses artefatos técnicos todos os pedaços do tempo – segundos, minutos, dias, anos – são feitos de uma mesma substância: números, entidades matemáticas. Não há inícios nem fins, apenas a indiferente sucessão de momentos, que nada dizem sobre alegrias e sofrimentos. Apenas um bolso vazio. Nele, a alma não encontra morada.
Nas Olimpíadas, a performance dos corredores e nadadores é medida até os centésimos. Fico a me perguntar: “Como é que conseguem? Que diferença faz?”.
A outra foi inventada por homens que sabem que a vida não pode ser medida com calendários e relógios. A vida só pode ser marcada com a vida. Os amantes do Cântico dos Cânticos marcavam o tempo do amor pelos frutos maduros que pendiam das árvores. Quando as folhas dos plátanos ficam amarelas sabemos que o outono chegou. Os ipês-rosas e amarelos anunciam o inverno.
Qual a magia que informa os ipês, todos eles, em lugares muito diferentes, que é hora de perder as folhas e florescer? E sem misturar as cores. Primeiro os rosas, depois os amarelos e, finalmente, os brancos.
Sugeri que algum compositor compusesse uma sinfonia ou uma brincadeira musical em três movimentos. Primeiro movimento, “Ipê-rosa”, andante tranquilo, em que os violoncelos cantam a paz e a segurança. Segundo movimento, “Ipê-amarelo”, rondo vivace, em que os metais, cores parecidas com a dos ipês, fazem soar a exuberância da vida. Terceiro movimento, “Ipê-branco”, moderato, em que o veludo dos oboés cantam a mansidão. Seria bom se nós, como os ipês, nos abríssemos para o amor no inverno.
A precisão dos números marca o tempo das máquinas e do dinheiro. O tempo do amor se marca com o corpo.
Um calendário é coisa precisa: anos, meses, dias, horas, que são marcados com números. Esses números medem o tempo. Mas os pedaços de tempo são bolsos vazios: nada há dentro deles. O bolso vazio do tempo se torna parte do nosso corpo quando o enchemos com vida. Aí o tempo não mais pode ser representado por números. O tempo aparece como um fruto que vai sendo comido: é belo, é colorido, é perfumado. E, à medida que vai sendo comido, vai acabando. Vem a tristeza. O tempo da vida se marca por alegrias e tristezas. Há inícios e há fins.
Tempos fugit; o tempo foge. Portanto, carpe diem: colha o dia como um fruto que amanhã estará podre.
Viver ao ritmo de alegrias e tristezas é ser sábio. “Sapio”, no latim, quer dizer, “eu saboreio”. O sábio é um degustador da vida. A vida não é para ser medida. Ela é para ser saboreada.
Um texto bíblico diz: “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos um coração sábio”. Acho que Jesus sorriria se eu acrescentasse ao “Pai-Nosso” outra súplica: “A fruta nossa de cada dia dá-nos hoje...”. Caqui, pitanga, morango à beira do abismo, melancia...
Heráclito foi um filósofo grego fascinado pelo tempo. Contemplava o rio e via que tudo é rio. Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez, as águas serão outras, o primeiro rio já não existirá. Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo... Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar. Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmáticos. Dentre eles, um me encanta: “Tempo é criança brincando, jogando; da criança o reinado”.
Para nós, o tempo é um velho, cada vez mais velho, sobre quem se acumulam os anos que passam e de quem a vida foge. Heráclito, ao contrário, diz que o tempo é criança, início permanente, movimento circular, o fim que volta sempre ao início, fonte de juventude eterna, possibilidade de novos começos.
Tempo é criança? O que o filósofo queria dizer exatamente eu não sei. Mas sei que as crianças odeiam Chronos, o deus dos cronômetros, dos segundos, dos centésimos de segundos O relógio é tempo do dever: corpo engaiolado.
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* Teólogo. Pedagogo. Educador. Poeta. Escritor. Ensaísta. Cronista.
Fonte: ALVES, Rubem. Do universo à jabuticaba. SP, Ed. Planeta do Brasil, 2010, pp.141/144.
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