quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Como fazer para que seu discurso seja aceito

Minha imagem:
 Dilma, Lula e empresários esquecem
 que a roupa é uma forma
de comunicação não verbal.
Lula Marques/Folhapress
 Marcela Temer errou na blusa e no cabelo,
Dilma acertou no modelo e
 deslizou na cor,
e Lula nem sempre acerta no terno

Com a abolição do traje black-tie e a entrada do visual passeio na posse da presidente Dilma Rousseff, o evento mais solene do país foi passarela para um desfile dos mais diversificados. Era preciso exercitar o que parece ser uma raridade entre os governantes: pensar no visual. Havia de tudo, quem apostasse no brilho da balada, nos tecidos de algodão dos momentos de lazer e até em um pouco mais de pele à mostra. Diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, os políticos brasileiros não têm o hábito de recorrer ao auxílio de consultores de imagem e encarar diante do espelho os artifícios que a moda pode oferecer a seu favor.
Mas a postura dos políticos com relação à própria imagem é um reflexo de como a sociedade está acostumada a fechar os olhos para as formas de comunicação não verbais - roupas, acessórios, cabelo e maquiagem. Pode ser difícil encarar o fato de que a maneira como alguém se veste seja determinante para uma promoção ou para ser respeitada no ambiente de trabalho. Os consultores de estilo podem dar uns "puxões de orelhas", mas trazem o olhar apurado (e profissional) de quem enxerga de fora o que o visual diz sobre alguém.

Ana Paula Paiva/Valor
Silvana Bianchini luta pela profissionalização
dos consultores de imagem:
confusão com "serviço para celebridades"

Silvana Bianchini, da consultoria de imagem Dress Code, é presidente no Brasil da Association of Image Consultants International (AICI), uma entidade que recentemente se instalou no país e que tem como objetivo desmistificar a profissão, que é normalmente tachada de serviço para celebridades. Ela atende clientes famosos ou não, dá consultoria e workshops para empresas como Cirella, Pão de Açúcar e Itaú Unibanco. Na entrevista a seguir, Silvana comenta os acertos e erros de políticos e executivos e também como melhorar a autoimagem.

Valor: Os políticos usam bem sua imagem?
Silvana Bianchini: Nos Estados Unidos eles fazem isso muito bem. Lá é muito comum contratarem consultores para aprimorar o visual. Isso gera planejamento e coerência para quem vê. Os brasileiros não costumam usar esse serviço por falta de informação. Os homens, que predominam no ambiente político, de maneira geral raramente se preocupam com a própria imagem. Começaram, muito devagar, a se olhar no espelho há oito anos.

Valor: O ex-presidente Lula se saiu bem nesse quesito?
Silvana: Não muito. A imagem dele foi trabalhada só por um publicitário [João Santana, atual marqueteiro da presidente Dilma Rousseff] e não houve planejamento. As cores e as formas dos ternos e até dos trajes mais casuais poderiam ter sido pensados de maneira diferente.

Valor: O que achou do visual de Dilma na posse?
Silvana: Estava muito bom, mas poderia ter sido melhor. A cor, um pérola muito aberto, era clara demais, chegava antes dela aos nossos olhos. Sem contar que, ao lado daquele monte de homens de terno escuro e gravata, ela se sobressaía demais. Se era essa a intenção, acertaram. Mas não acho positivo. Teria caído melhor um tom menos claro. Como ela tem um andar masculinizado, foi acertada a escolha por saltos baixos. A forma e o corte da roupa eram muito apropriados para a ocasião. Era um traje formal, sem brilho.

Valor: O que o visual de Dilma na posse diz sobre o estilo da presidente?
Silvana: Dilma também não tem uma pessoa que olhe para o todo de sua imagem. Só o Celso Kamura, que pensa no cabelo e na maquiagem que ela usa. Na posse, por exemplo, o objetivo de quem a ajudou a se vestir deve ter sido amenizar a sisudez que ela imprime. Mas essa é uma característica que precisa ser amenizada no visual dela - afinal, não é bom para o que uma presidente quer comunicar. Conseguiram, ela acabou ficando mais feminina. Mas houve muitas tentativas e erros até chegar nesse resultado. Já vimos a presidente usando, por exemplo, babados, o que não tem absolutamente nada a ver com a personalidade dela.

Valor: Então, como deve se vestir uma presidente da República?
Silvana: Em poucas palavras, é preciso pensar que quando se quer agradar muita gente, como é o caso do visual de uma presidente, é preciso usar elementos simples e que a maioria entenda. Cores e formas básicas.

Valor: Apesar dos olhares voltados à nova presidente, a polêmica ficou por conta do visual da esposa do vice-presidente, Michel Temer, Marcela.
Silvana: E não foi à toa. Ela usou uma blusa e um penteado inadequados. Aquela trança lateral caberia mais a um casamento, não a um evento solene. O ombro de fora também não corresponde à situação. Ali, o objetivo dela deveria ter sido passar despercebida. Afinal, como ela é jovem, loira e tem os cabelos longos, obviamente chamaria a atenção de qualquer jeito. Por isso, deveria ter trabalhado mais a elegância do que a beleza. Todas as cores e formas do visual deveriam ser neutros e sóbrios.

Valor: Por que os homens têm dificuldade de lidar com a própria imagem?
Silvana: No ambiente profissional, eles têm o hábito de achar que estão sempre ótimos quando vestem qualquer terno e gravata. Existe uma coisa que se chama coloração pessoal, ou seja, cada pessoa fica bem com determinadas cores (claras ou escuras, quentes ou frias, opaca ou viva, etc.). Isso pode ser determinante para a boa escolha de um terno, assim como os comprimentos e ajustes corretos.

Valor: Qual o impacto de usar as roupas certas no ambiente de trabalho?
Silvana: As pessoas são mais aceitas quando estão bem arrumadas e todo mundo, desde a infância, quer ser abrigado em algum grupo. No mundo adulto, isso faz mais sentido ainda quando se pleiteia um determinado cargo. A roupa ajuda a pessoa a ser reconhecida nesse novo grupo.

Valor: Em que momento os homens procuram por serviços de consultoria de imagem?
Silvana: Normalmente, depois de um rompimento amoroso ou em um momento de "dress down" [ou "casual friday", por exemplo]. Muitos que estão acostumados ao terno e à gravata se perdem quando precisam se vestir casualmente. Também é comum que o serviço chame a atenção de quem procura um emprego ou uma promoção. São pessoas que têm muita bagagem técnica, conteúdo, mas ainda não têm a imagem necessária para assumir um novo cargo. Assim como é necessário aprender a falar uma nova língua, por exemplo, é preciso ter noção de como se vestir adequadamente.

Valor: Qual a regra básica para não errar no "casual friday"?
Silvana: Na hora de escolher o que é a roupa casual é preciso pensar que não se pode perder a cara de quem está indo trabalhar. Brilho remete à festa. Alças, decotes e estampas muito coloridas também não têm cara de trabalho.

Valor: A senhora costuma dar palestras e treinamentos em empresas. Quais as principais reclamações sobre a imagem dos funcionários?
Silvana: São o comportamento (dificuldades de respeitar o espaço físico e sonoro, saber trocar cartões...) e a vestimenta casual. Homens erram quando optam por jeans rasgados, tênis e camisetas. Mulheres, quando confundem o visual de trabalho com o da balada. Deixam pele à mostra, usam unhas muito coloridas ou cabelo solto e armado, esvoaçante. Isso acontece, de novo, por total falta de informação. Há dez anos, as regras de vestimenta eram aprendidas nas escolas, que tinham normas rígidas sobre isso. Hoje, muitas crianças se vestem como querem para ir à aula.

Valor: E quais os resultados de quem passa por essa aula de estilo?
Silvana: As pessoas ficam mais conscientes da própria imagem para alavancar seus objetivos. Elas se dão conta de que, no ambiente de trabalho, os funcionários são a mídia humana da empresa que representam.

Valor: Como funciona o braço da Association of Image Consultants International (AICI) no Brasil?
Silvana: Fundamos a AICI aqui no país em agosto de 2010. Hoje, já contamos com 75 membros, todos profissionais da área de consultoria de imagem, que pagam um valor mensal e têm encontros e palestras. Nossa maior luta é para conscientizar as pessoas sobre o que é a profissão de consultor de imagem. É comum sermos confundidos com "consultores de celebridades". Mas atendemos qualquer pessoa, famosa ou anônima, que precise de autoconhecimento para se comunicar com o mundo de forma não verbal. E essa comunicação é muito importante, pois impacta cinco vezes mais que a verbal.
Valor: Então, a primeira impressão é realmente a que fica?
Silvana: Sim, claro! Isso porque esse primeiro olhar é o julgamento de quem está olhando. E o ser humano tende a acreditar muito em seu próprio julgamento. Se você for capaz de causar uma boa impressão visual no trabalho ou em um relacionamento amoroso, o seu interlocutor ficará muito mais favorável a aceitar o seu discurso, seja ele qual for.
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Reportagem Por Rebeca de Moraes, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 06/01/2011

''É preciso um Nuremberg dos especuladores''.

  Entrevista com Jean Ziegler

Diplomata internacional na ONU, Ziegler publicou o ensaio El odio a Occidente, uma crítica ao sistema capitalista dominado pela Europa e pelos EUA.
A reportagem é de Guillaume Fourmont Madrid, publicada no sítio Publico.es, 29-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Que ninguém se deixe enganar pelo seu cargo muito oficial de membro do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Por trás de seus óculos de professor de universidade, o suíço Jean Ziegler (Thoune, 1934) é um revolucionário. Ele gosta de provocar e gritar o que os seus colegas diplomatas não ousam dizer nem nos corredores das organizações internacionais.
Um exemplo: "Uma criança que morre de fome hoje em dia é um assassinato". Outro: "Somos democracias, mas praticamos um fascismo exterior". Ziegler é um argumento que argumenta cada frase com números ou citações de grandes intelectuais, como esse grito de dor do poeta anticolonialista Aimé Césaire: "Vivo em uma ferida sagrada / Vivo em um querer obscuro / Vivo em um longo silêncio".
Dessa ferida, Ziegler falar em seu último livro, El odio a Occidente (Ed. Península), um título que responsabiliza os países desenvolvidos pelos males do mundo. O escritor não perde a esperança e aspira a uma "revolução para acabar com a ordem canibal do mundo". Na capa do seu ensaio, a letra "i" da palavra ódio é uma bomba com detonador. Resta só um segundo para que ela exploda.

Eis a entrevista.

O mundo vai tão mal assim?
Jamais na história um imperador ou um rei teve tanto poder como o que a oligarquia do poder financeiro possui na atualidade. São as bolsas que decidem quem vive e quem morre. Doze bilhões de pessoas podem comer, o dobro da população mundial. Mas a cada cinco segundos, uma criança menor de 10 anos morre de fome. É um assassinato!

É daí que vem o ódio do qual o senhor falar? Por que nos odeiam?
É preciso distinguir dois tipos de ódio. Um, primeiro, patológico, como o da Al Qaeda, que assassina inocentes com bombas. Mas nada justifica essa violência, nada! E o meu livro não trata disso. Refiro-me a um ódio meditado, que pede justiça e compensação, que chama a romper com o sistema estrutural do mundo, dominado pelo capitalismo.

Não aprendemos nada com a crise?
Lições? É pior ainda: esses bandidos de especuladores que provocaram a crise e a quebra do sistema ocidental atacam agora produtos como o arroz e o trigo. Há milhares de vítimas a mais do que antes. É preciso sentar esses especuladores na cadeira. É preciso realizar um Nuremberg para eles!

O senhor trabalha na ONU. Não acredita no papel da comunidade internacional?
O mero fato de que a comunidade internacional seja consciente dos problemas do mundo é positivo. Os Objetivos do Milênio não se cumpriram, mas não sou uma pessoa cética.

Não acredita, no entanto, que o Ocidente só se interessa pelo Ocidente e que mantém o Terceiro Mundo na pobreza de propósito?
É verdade! Mas não se trata de doar mais, mas sim de roubar menos. Na África, podem-se encontrar produtos europeus mais baratos do que os locais, enquanto que as pessoas se matam trabalhando. A hipocrisia dos europeus é bestial! Nós geramos fome na África, mas quando os imigrantes chegam às nossas costas em balsas os mandamos embora. Para acabar com a fome, é preciso uma revolução!

No Ocidente? Isso é possível?
A sociedade civil se despertou. Há movimentos como Attac, Greanpeace e outros que fazem uma crítica radical da ordem mundial. No Ocidente, temos democracias, mas praticamos um fascismo exterior. Embora não haja nada impossível na democracia. "O revolucionário deve ser capaz de ouvir a grama crescer", disse Karl Marx.

Em seu livro, o senhor fala da Bolívia de Evo Morales como exemplo.
É um caso exemplar. Pela primeira vez na história, o povo boliviano elegeu como presidente um deles, um indígena aimara. E, em seis meses, expulsaram as empresas privadas que ficavam com todos os benefícios das energias do país. O governo pode, com esses milhões ganhados, lançar programas sociais, e a Bolívia é agora um Estado florescente e, principalmente, soberano. Veja, não sou um ingênuo, mas na Bolívia a memória ferida do povo se converteu em uma luta política, em uma insurreição identitária.

Em outros termos, Morales merecia mais o Nobel da Paz do que Obama.
Claro! O Nobel de Obama era ridículo, era una operação de marketing.

Obama não trazia consigo nenhuma esperança?
Ver uma cara negra de presidente dos Estados Unidos na capa de grandes revistas foi incrível, principalmente porque o bisavó da esposa de Obama era um escravo. Mas é só um símbolo. O império norte-americano é três coisas: a indústria armamentícia, Wall Street e o lobby sionista. Obama sabe que se tocar em algum dos três está morto. E não vai fazer isso. A esperança vem da sociedade civil. Se conseguirmos criar uma aliança planetária de todos os movimentos de emancipação, do Ocidente e do Sul, então haverá uma revolução mundial, uma revolução capaz de acabar com a ordem canibal do mundo.
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Fonte: IHU, 06/01/2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Uma revolução ainda por fazer

Leonardo Boff *
Imagem da Internet
Toda mudança de paradigma civilizatório é precedido por uma revolução na cosmologia (visão do universo e da vida). O mundo atual surgiu com a extraordinária revolução que Copérnico e Galileo Galilei introduziram ao comprovarem que a Terra não era um centro estável, mas que girava ao redor do sol. Isso gerou enorme crise nas mentes e na Igreja, pois parecia que tudo perdia centralidade e valor. Mas lentamente impôs-se a nova cosmologia que fundamentalmente perdura até hoje nas escolas, nos negócios e na leitura do curso geral das coisas. Manteve-se, porém, o antropocentrismo, a ideia de que o ser humano continua sendo o centro de tudo e as coisas são destinadas ao seu bel-prazer.
Se a Terra não é estável -pensava-se - o universo, pelo menos, é estável. Seria como uma incomensurável bolha dentro da qual se moveriam os astros celestes e todas as demais coisas.
Eis que esta cosmologia começou a ser superada quando em 1924 um astrônomo amador Edwin Hubble comprovou que o universo não é estável. Constatou que todas as galáxias bem como todos os corpos celestes estão se afastando uns dos outros. O universo, portanto, não é estacionário como ainda acreditava Einstein. Está se expandindo em todas as direções. Seu estado natural é a evolução e não a estabilidade.
Esta constatação sugere que tudo tenha começado a partir de um ponto extremamente denso de matéria e energia que, de repente, explodiu (big bang) dando origem ao atual universo em expansão. Isso foi proposto em 1927 pelo padre belga, o astrônomo George Lemaître o que foi considerado esclarecedor por Einstein e assumido como teoria comum. Em 1965 Arno Penzias e Robert Wilson demonstraram que, de todas as partes do universo, nos chega uma radiação mínima, três graus Kelvin, que seria o derradeiro eco da explosão inicial. Analisando o espectro da luz das estrelas mais distantes, a comunidade científica concluiu que esta explosão teria ocorrido há 13,7 bilhões de anos. Eis a idade do universo e a nossa própria, pois um dia estávamos, virtualmente, todos juntos lá naquele ínfimo ponto flamejante.
Ao expandir-se, o universo se autoorganiza, se autocria e gera complexidades cada vez maiores e ordens cada vez mais altas. É convicção de notáveis dos cientistas que, alcançado certo grau de complexidade, em qualquer parte, a vida emerge como imperativo cósmico. Assim também a consciência e a inteligência. Todos nós, nossa capacidade de amar e de inventar, não estamos fora da dinâmica geral do universo em cosmogênese. Somos partes deste imenso todo.
Uma energia de fundo insondável e sem margens - abismo alimentador de tudo - sustenta e perpassa todas as coisas ativando as energias fundamentais sem as quais nada existe do que existe.
A partir desta nova cosmologia, nossa vida, a Terra e todos os seres, nossas instituições, a ciência, a técnica, a educação, as artes, as filosofias e as religiões devem ser resignificadas. Tudo e tudo são emergências deste universo em evolução, dependem de suas condições iniciais e devem ser compreendidas no interior deste universo vivo, inteligente, auto-organizativo e ascendente rumo a ordens ainda mais altas.
Esta revolução não provocou ainda uma crise semelhante a do século XVI, pois não penetrou suficientemente nas mentes da maioria da humanidade, nem da inteligentzia, muito menos nos empresários e nos governantes. Mas ela está presente no pensamento ecológico, sistêmico, holístico e em muitos educadores, fundando o paradigma da nova era, o ecozóico.
Por que é urgente que se incorpore esta revolução paradigmática? Porque é ela que nos fornecerá a base teórica necessária para resolvemos os atuais problemas do sistema-Terra em processo acelerado de degradação. Ela nos permite ver nossa interdependência e mutualidade com todos os seres. Formamos junto com a Terra viva a grande comunidade cósmica e vital. Somos a expressão consciente do processo cósmico e responsáveis por esta porção dele, a Terra, sem a qual tudo o que estamos dizendo seria impossível. Porque não nos sentimos parte da Terra, a estamos destruindo. O futuro do século XXI e de todas as COPs dependerá da assunção ou não desta nova cosmologia. Na verdade só ela nos poderá salvar.
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* Teólogo, filósofo e escritor
Fonte: Adital, 03/01/2011

2014, 2018...

Renato Janine Ribeiro*

Já podemos especular sobre as eleições presidenciais de 2014. A introdução da reeleição, em 1997, trouxe um resultado imprevisto, mas decisivo: o presidente, governador ou prefeito em primeiro mandato é candidato nato à sua própria sucessão. Só não concorre se não quiser. Bom exemplo é a ex-governadora gaúcha Yeda Crusius, que, com magras intenções de voto, quis e conseguiu concorrer à reeleição - sem chegar sequer ao segundo turno.
Esse princípio, que sagra Dilma Rousseff como candidata do campo petista em 2014, se explicitou após uma experiência do Rio Grande do Sul. Em 2002, o prefeito da capital, Tarso Genro, conseguiu derrotar nas prévias internas do PT o governador Olívio Dutra, que teoricamente poderia disputar a reeleição. Os adversários do PT usaram então este argumento: se o próprio partido não achava bom o governo de Olívio, por que os gaúchos haveriam de achar bom mais um governo do PT?
Lula, que no mesmo ano se elegeu presidente, concluiu desse episódio que o chefe do Poder Executivo em primeiro mandato seria, sempre, candidato nato à reeleição - a não ser que não o quisesse. Isso resolve a questão 2014 para o PT, salvo, claro, um grande imprevisto.
Ou seja, com a reeleição, não há fila de candidatos. Cada vez que alguém é lançado candidato com chances reais de se eleger, está sendo proposto não para um mandato de quatro anos, mas para dois mandatos sucessivos, totalizando oito anos seguidos. Esse é um ponto delicado, porque significa que, em princípio, nenhum líder petista ou de esquerda, salvo Dilma, poderá pleitear a Presidência antes de 2018.
Também significa que o próximo candidato do PSDB, se este continuar liderando a oposição, se apresentará em 2014 com a opção de não sair da Presidência antes de 2022. Aqui, não importam promessas. Dizem que José Serra teria prometido, na última eleição, cumprir um único mandato e ceder a vez em 2014 a Aécio Neves. Pode ser. Mas é uma promessa que ele não seria senhor de cumprir ou não - nem ele nem ninguém. Porque, se tivesse sido eleito e estivesse bem avaliado em 2014, por que substituí-lo? E mesmo mal avaliado, se teimasse em concorrer, quem o impediria, sem rachar o partido?
"Cada vez que alguém é lançado
candidato com chances reais de se eleger,
está sendo proposto não para um mandato
de quatro anos,
mas para dois mandatos sucessivos,
totalizando
oito anos seguidos."
A reeleição pode criar, pois, um clima difícil dentro de cada agremiação partidária. Lembre-se que a indicação de Dilma à Presidência foi imperial: com o PT fragilizado após os escândalos de 2005, e o presidente fortalecido por sua popularidade, não havia nomes fortes alternativos ao dela, nem lideranças aptas a se opor à escolha de Lula. Note-se que no PSDB as coisas foram mais difíceis: mesmo com as pesquisas de opinião e a mídia deixando clara a preferência por Serra, muitos acusaram Aécio, antes do primeiro turno e depois do segundo, de não ter apoiado seu candidato o bastante.
Se hoje o PT sabe quem deve ser seu próximo candidato, o PSDB está entre dois favoritos, Serra e Aécio, e corre o risco de todas as tensões possíveis - justamente porque o candidato disputará oito anos, e não quatro: o nome escanteado poderá perder, para sempre, qualquer pretensão presidencial. Basta pensar que, não fosse a reeleição, em 1998 o PSDB teria emplacado qualquer nome à sucessão de FHC: Serra poderia ter sido presidente. Não fosse a reeleição, em 2006 o PT não teria candidato viável à sucessão de Lula e o PSDB emplacaria o nome que quisesse: Serra poderia ter sido eleito para a Presidência. No entanto, pode ser que Serra, o nome mais presente nos últimos 20 anos, com Lula, em todas as bolsas de apostas, termine a carreira sem nunca chegar ao Planalto. Artes da reeleição...
Mas se por ora a bola está no campo do PSDB, para o PT já se começa a anunciar a eleição de 2018. Com efeito, entre os nomes hoje mais fortes politicamente no PT, os presidentes Lula e Dilma, a senadora Marta Suplicy e o governador Tarso Genro pertencem à mesma geração, nascidos que foram entre 1945 e 1947. O governador Jaques Wagner é de 1951. Ora, seria provável um único partido eleger três presidentes seguidos na mesma faixa etária, ainda mais quando cada mandato tende a ser de oito anos? Lula elegeu-se pela primeira vez com menos de 60 anos; qualquer dos líderes que mencionei terá, em 2018, em torno de 70. O Brasil seria governado durante um quarto de século por pessoas do mesmo partido nascidas na mesma meia década, aquela que os americanos chamam dos baby boomers? Pouco provável, ainda que quase nada, em política, seja impossível.
De todo modo, o PT precisa tornar viáveis novos nomes para suas campanhas. Finalmente bateu a conta do desastre de 2005, que ceifou Dirceu, Genoino e outras lideranças históricas: o PT precisa renovar-se amplamente. Mas candidatos à Presidência precisam da vitrine que lhes dá um governo de Estado ou um Ministério importantes. (A única exceção a essa exigência é Lula, nunca ministro, jamais governador; mas ele foi e é, rigorosamente, excepcional.)
Portanto, no Ministério de seu primeiro mandato (que, a bem dizer, pode ser o único), Dilma terá de preparar nomes que não rivalizem com ela em 2014, mas componham a nova geração que se possa credenciar para 2018. Com quase 20 ministros pertencendo ao PT, vários deles jovens, o que na política quer dizer com 50 anos ou menos, é provável que entre eles - e nos governos estaduais - se estejam formando os presidenciáveis petistas do futuro.
Mas é claro que tudo isso pode mudar. Pressuponho, aqui, que a política brasileira continue se jogando entre times liderados pelo PT e pelo PSDB. E se o PSDB não souber construir uma alternativa ao PT? E se o PT se esvaziar? E se surgir uma terceira via, que hoje parece chamar-se desenvolvimento sustentável e não é relevante para nenhum dos dois grandes partidos? E se a onda simbolizada por Marina Silva se fortalecer, com ela ou outro nome? O fascinante, na política, é que ela tem um forte elemento imprevisível.
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* PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA DA USP
FONTE: Estadão online, 05/01/2011
Imagem da Internet

A vida é curta

MARTHA MEDEIROS*


Amanhã é Dia de Reis. Segundo a tradição, é quando se deve desmontar a árvore de Natal, mas fico pensando se a trabalheira não será à toa. O próximo Natal já se aproxima, não seria mais conveniente deixar a árvore onde está, como um enfeite vitalício da casa? O espaço entre dois Natais nunca foi tão curto.
Constatado o milagre da redução dos anos (antigamente eles possuíam 365 dias, mas desconfio de que somem hoje no máximo uns 274), o melhor a fazer é desfrutar o tempo que nos resta.
Pra começar, chega de seguir ao pé da letra as regras de bem viver estabelecidas pela intelectualidade. Claro que cultura é importante, que não se deve desdenhar da sabedoria transmitida pelos filósofos, que a inteligência é o valor maior. Mas basta desse monopólio: é chegada a hora de valorizar também os instintos.
Se a palavra de ordem é produzir, produzir, produzir, responda com uma boa soneca: durma depois do almoço. Assuma o espanhol que há em você: siesta! Se não puder sair do escritório, tire um cochilo onde estiver, estique-se em algum canto, durma no carro, dentro do banheiro, sentado numa cadeira. Feche os olhos e desapareça por 20 minutos, mesmo que todos continuem vendo.
Você está indo bem na terapia, quase acredita que está se curando, ainda que não tenha entendido exatamente do que deve se curar. Mas, sem que seu digníssimo analista suspeite, reprise alguns de seus erros de vez em quando. Recaia. Sucumba. Vai atrasar o tratamento? Vai. Mas logo, logo, é Natal, jingle bell, paz na terra, estarão todos perdoados por terem reincidido em seus pequenos e deliciosos crimes contra si mesmo.
Se dirigir, não beba. Se costuma ficar violento, não beba.Se é do tipo que dá vexame, não beba. Se tem um histórico de alcoolismo, não beba. Mas se não for colocar ninguém em risco, muito menos a si próprio, celebre. Tim-tim!
"Se a palavra de ordem é produzir,
produzir, produzir, responda
com uma boa soneca:
durma depois do almoço."
E se é verdade que dentro do mais chique dos mortais há um brega enrustido que não vê a hora de se manifestar, eis o momento. Abuse do Roberto Carlos, cante no chuveiro, leia um best-seller daqueles que fazem seus amigos torcerem o nariz e enfeite seu drinque colocando nele uma sombrinha de papel colorido.
A sombrinha de coquetel é o símbolo máximo do “estou nem aí para o que irão pensar, sempre quis me sentir num luau havaiano”. Pode ser uma sombrinha metafórica, desde que simbolize seu estado de espírito, que faça parte do plano de desestressar e curtir a seu modo o restinho de ano que sobra. Estamos em janeiro, o inverno é amanhã e o Natal não demora. Contra-ataque com a sombrinha.
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* Jornalista. Escritora. Cronista.
Fonte: ZH onlline, 05/01/2011

EDUCAÇÃO: ''Precisamos investir em qualidade''

Um dos ministros do governo Lula mantidos no cargo,
Fernando Haddad fala de seus planos para a Educação

Fernando Haddad, ministro da educação
Andre Dusek/AE-16/12/2010
Avanço. Para Haddad, ensino médio precisa ser diversificado

A educação brasileira vem avançando, mas num ritmo lento. A questão, ainda, é a qualidade. O governo criou avaliação, um índice e metas que estão sendo alcançadas antes mesmo das datas previstas. Não se pode ser mais exigente com essas metas?
As metas já são exigentes. Se você comparar a renda per capita do Brasil com a dos países da Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a discrepância é muito grande. Combinando isso com a má distribuição de renda, que ainda é muito grande no Brasil, é fácil concluir que não é tarefa simples chegar à qualidade de países que têm um desenvolvimento social muito superior ao nosso. O MEC propõe manter essa linha e, eventualmente, se mais um ciclo de avaliação, em 2011, demonstrar que é possível, antecipar em dois anos a meta final. Mas temos de esperar mais um ciclo para fazer uma reavaliação com os pés no chão para depois não se frustrar. Estamos com dois anos de vantagem.

Outra questão, quando se fala em qualidade da educação, é o professor. E o novo governo deverá enfrentar o reajuste do piso salarial previsto no Plano Nacional de Educação (PNE). Salário é o que falta para o professor?
Se queremos um corpo docente preparado para os desafios educacionais temos de fazer com que a carreira seja competitiva. O que estamos sugerindo é que o professor, em média, não ganhe menos do que a média dos demais profissionais não docentes com nível superior. Porque só aí o jovem vocacionado para o magistério não vai abdicar dessa vocação por razões sócio-econômicas. A carreira docente precisa ser atraente também pelas condições de trabalho que ela oferece.

Mas o MEC investiu em formação, o piso nacional foi aprovado e o reajuste está no PNE. O que mais precisa ser feito?
Agora precisamos corrigir a carreira. Aí entra a questão da prova nacional de concurso. Duas tarefas nós cumprimos: a formação gratuita de qualidade e o piso nacional. Precisamos concluir esse processo, o que significa melhorar a condição de carreira e ao mesmo tempo ter sistema de seleção de docentes que faça sentido. Todos os estudos que conheço mostram que hoje a seleção não é bem feita.

Outra área em que o País ainda está devendo é na educação infantil. O que se pode esperar nesses próximos anos?
Em oito anos, aumentamos em 80% a matrícula na creche. Houve a inclusão no Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), a extensão de todos os programas educacionais. A creche não recebia nem merenda escolar. Mas ainda não houve uma mudança cultural. Ainda se vê a creche como um estabelecimento meramente de assistência. Precisamos, além de expandir, qualificar esse atendimento como educacional.

Na outra ponta da educação básica, o ensino médio é um eterno problema.
Eu entendo que temos de inaugurar o governo Dilma Rousseff com uma resposta para a juventude, especialmente a que atualmente não está na escola. Nessa faixa de 15 a 17 anos temos a meta de universalizar o ensino até 2016, mas temo que aí a questão não seja de oferta, mas de demanda. O aluno tem de querer estudar e, para ele desejar estar na escola, sobretudo por uma situação social que pode ser muito difícil, nós temos de tornar esse ensino médio mais interessante. E isso se consegue com a diversificação. Precisamos oferecer possibilidades que não o ensino médio tradicional. Mas, para falar a verdade, eu só notei uma maior preocupação dos Estados com ensino médio apenas de dois anos para cá. O trabalho de indução é muito difícil.
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Reportagem por Lisandra Paraguassu - O Estado de S.Paulo
Fonte: O Estado de S.Paulo online, 05/01/2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O movimento anti-homem

Ivan Martins*
Cena do filme VOLVER, do Almodóvar

No dia de Natal revi Volver, do Almodóvar, na casa da minha mãe. Confirmou-se a impressão que eu já tinha: o filme é um majestoso manifesto anti-homens. As mulheres são criaturas coloridas, dignas, corajosas e lutadoras. Os homens são canalhas inúteis e sombrios, que estupram ou tentam estuprar as próprias filhas. Merecem ser mortos. E são.
Almodóvar não está sozinho.
Cenas do filme Minhas mães e meu pai
O filme americano Minhas mães e meu pai, da diretora Lisa Cholodenko, sugere coisa parecida. Apresenta um casal de lésbicas com dois filhos adolescentes que entra em convulsão quando o menino e a menina conhecem o sujeito que doou o sêmen para que eles fossem concebidos. Essa presença masculina arrebenta a família. Ao fim do filme, o “doador de sêmen” (para que mais servem os homens?) é expulso como um invasor destrutivo, um germe egoísta e inconsequente.
Esses dois filmes fazem parte do que eu identifico como um movimento de ataque ao masculino. Homens são violentos, homens são egoístas, homens são negligentes. Homens têm de ser educados e domesticados pelo bem da sociedade. Homens têm de ser controlados.
Será mesmo?
Ontem eu comecei a ler a biografia de Barack Obama, escrita pelo jornalista David Remnick. Chama-se A Ponte, e foi publicada pela Companhia das Letras. Ali se aprende que o pai do presidente dos Estados Unidos era um economista queniano que caberia direitinho no perfil de homem-bicho-papão. Um sedutor ególatra e falastrão, ele enganou três mulheres, casou com as três, fez filhos com todas e não cuidou de ninguém além dele mesmo.
Como ele, há milhões de homens soltos pelo mundo, vários deles na nossa vizinhança geográfica e existencial.
Então eu penso no Obama filho, que parece ser um pai amoroso, um marido dedicado e um cidadão preocupado em transformar o mundo em que vive. Ele é da minha geração, que mudou muito em relação à geração dos nossos pais. Os homens mais jovens, de 20 e 30 anos, estão literalmente reinventando as relações de família – são presentes, participativos, envolvidos de modo prático e afetivo com a casa e os filhos. São os homens novos, sobre os quais eu já escrevi nesta coluna.
É injusto tratar esse macho solidário como se ele fosse o mesmo predador social das gerações anteriores. Injusto e incorreto.
Tenho a impressão de que por trás desse discurso antimasculino existe (além da incompreensão da mudança) o ressentimento e o medo provocado por um fato da vida: os homens vivem há mais tempo e de forma muito mais profunda a sua própria liberdade. Têm há séculos o poder de escolher o que fazer com a própria existência, de forma radical. Isso está impregnado na cultura masculina.
Ao contrário das mulheres, que têm vivido cercadas por amarras sociais e biológicas, os homens sempre puderam ficar no casamento ou sair andando. Cuidar dos filhos ou virar as costas. Dedicar-se à família ou encher a cara. Arar o campo ou esmolar na rua. Homens puderam ser Buda, Stalin ou Paulo Leminski. Ou ninguém.
"O que vale são escolhas feitas em liberdade
e relativo destemor. Os homens têm vivido
com isso há muito tempo.
Agora as mulheres estão chegando
à mesma situação."
Essa liberdade faz dos homens seres humanos menos previsíveis e muitas vezes menos responsáveis do que as mulheres. Assustadores, às vezes.
Quem era o pai do bebê que a garota de Belém jogou no quintal do vizinho na noite de Natal? Ninguém pergunta. Para todos os efeitos, o bebê era apenas dela. A maternidade é um fato biológico, enquanto a paternidade (até mesmo isso) pode ser apenas uma escolha social.
Algum filósofo já disse que o valor moral das virtudes obrigatórias é baixo. O que vale são escolhas feitas em liberdade e relativo destemor. Os homens têm vivido com isso há muito tempo. Agora as mulheres estão chegando à mesma situação.
Suspeito que a compreensão mútua vai melhorar. Os homens parecem estar abraçando de forma voluntária as responsabilidades históricas das mulheres, enquanto as mulheres exploram com menos temor a liberdade que agora pertence a elas.
Já não me parece o caso de insuflar um movimento antimasculino. Precisamos de um movimento por seres humanos solidários e responsáveis. De qualquer sexo. De todos os sexos.
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*É editor-executivo de ÉPOCA
Imagem captadas na Internet

Keynes, economia e filosofia social

Luiz Gonzaga Belluzzo*
Imagem da Internet
"Vejo-nos livres para voltar a alguns dos mais seguros
e tradicionais princípios da religião e
da virtude tradicional - de que a avareza é um vício,
 a usura uma contravenção,
o amor ao dinheiro algo detestável.
Valorizemos novamente os fins acima dos meios e
preferiremos o bem ao útil.
Honraremos os que nos ensinam a passar virtuosamente
 e bem a hora e o dia, as pessoas agradáveis capazes de ter
um prazer direto nas coisas,
os lírios do campo que não mourejam nem fiam."
J. M. Keynes em "Perspectivas Econômicas para Nossos Netos".


Autor de três volumes sobre a vida e obra do celebre economista, Robert Skidelsky, entregou à praça recentemente o livro "The Return of the Master". Digo ao leitor que o livro, um ensaio, nos apresenta um Keynes mais revolucionário e inovador do que o revelado na alentada biografia em três volumes.
A transfiguração do economista defunto nas mãos de seu biógrafo mais badalado coincide com a derrocada intelectual da teoria econômica dominante nas últimas quatro décadas. Os assim chamados "economistas clássicos", de Alfred Marshall a Pigou, criticados por Keynes em tantas ocasiões, eram tão razoáveis quanto modestos, se comparados aos desatinos "científicos" cometidos desde os anos 70 pelos figurões da Teoria Econômica.
A escola Nova Clássica, por exemplo, levou ao paroxismo, para não dizer ao ridículo, as hipóteses construídas a partir do agente racional e da tendência ao reequilíbrio "espontâneo" dos mercados. Na concepção dos novos economistas, a sociedade econômica é formada por indivíduos racionais e maximizadores, partículas obcecadas pelo calculo utilitarista e que jamais alteram o seu comportamento na interação com as outras partículas carregadas de "racionalidade".
Skidelsky vai fundo ao argumentar que os economistas definem o comportamento racional como o comportamento consistente com seus próprios modelos. Todas as outras formas de comportamento são tratadas como irracionais, configurando um enorme projeto ideológico incumbido de definir os humanos como pessoas que acreditam nas coisas que os economistas pensam sobre eles.
As teorias do comportamento "racional" pressupõem que os agentes são movidos pelo autointeresse e pelo conhecimento quantificável. Eles fazem escolhas inteligentes entre vários futuros possíveis, o que permite à teoria das expectativas racionais concluir que eles podem convergir para apenas um futuro possível."
Keynes construiu uma teoria das decisões privadas quanto à posse da riqueza em condições de incerteza. Argumentava que não é possível a avaliação inequívoca dos resultados mais vantajosos mediante o cálculo de probabilidades. As pessoas, diz Athol Fitzggibons, agem movidas pelo autointeresse inteligente, mas apoiadas num conhecimento não quantificável. Na vida real dos mercados, os empresários, tangidos pelo otimismo quanto aos resultados dos novos empreendimentos, atropelam o medo do futuro e decidem produzir nova riqueza. Mas o sucesso não aplaca, senão excita o desejo, suscitando a febre de investimentos excessivos e mal dirigidos, crédito excessivo e bolhas especulativas.
A meta é evitar os ajustamentos deflacionários e manter a trajetória do pleno emprego
Em sua obra "keynesiana" - hoje reconhecida como inovadora e fundamental para a compreensão da dinâmica dos mercados financeiros e, portanto, do capitalismo realmente existente - Hyman Minsky desmonta a dicotomia racionalidade/irracionalidade. Cuida de demonstrar que os possuidores de riqueza tomam suas decisões em um determinado ambiente institucional em que se digladiam, em interminável batalha, constrangimentos públicos e incentivos privados.
Keynes investiu seu esforço teórico na avaliação das consequências das decisões sobre a posse da riqueza tomadas em condições de incerteza radical e intratável. Em seu sistema, a estabilidade é desestabilizadora, porque os confortos das decisões privadas bem-sucedidas tornam frouxa a percepção dos riscos e estimulam, sob a euforia do crédito fácil, a formação de posições nos balanços que caminham das cautelas do hedge para a insanidade das pirâmides do Ponzi.
Por isso, Keynes insistia "na direção inteligente pela sociedade dos mecanismos profundos que movem os negócios privados". As instabilidades da economia monetária da produção só podem ser neutralizadas mediante a ação jurídica e política do Estado Racional e pela atuação de "corpos coletivos intermediários", como, por exemplo, um Banco Central dedicado à gestão consciente e socialmente responsável da moeda e do crédito.
A filosofia social exposta na epígrafe acima e na Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda orienta as recomendações de política na direção de quatro objetivos fundamentais: 1) a socialização do investimento, ou seja, a definição de um orçamento de capital do governo destinado a amortecer as tendências à instabilidade do investimento privado; 2) a eutanásia do "rentier", entendida como o controle pela autoridade monetária do poder monopolista exercido sobre a sociedade pelos detentores e administradores do capital líquido e do crédito; 3) a redistribuição de renda, mediante o uso da política fiscal, com o propósito de auxiliar na estabilização do investimento e, finalmente, 4) a construção de instituições internacionais públicas que permitam o ajustamento sem traumas cambiais e monetários dos déficits (e superávits) dos balanços de pagamentos. Isto significava, na verdade, dentro das condicionalidades estabelecidas, facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os países superavitários. O propósito de Keynes era evitar os ajustamentos deflacionários e manter as economias na trajetória do pleno emprego.
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*Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo , ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve toda primeira terça-feira do mês.
Fonte: Valor Econômico online, 04/01/2011

Comer, Rezar, Amar: três verbos para se encontrar a si mesmo

Há quem diga que Liz Gilbert é uma mulher fria que abandonou o marido para curtir a vida. Há quem diga que ela é uma espécie de Bridget Jones mais magra. Há quem apenas tenha inveja e há quem diga que ela é corajosa e determinada. Eu sou da última opinião. Seria um crime grande demais ser infeliz por toda a vida porque um dia tomamos uma decisão errada ou porque não temos coragem de admitir que nós mudamos com o tempo.
Há pessoas que o entendem como um livro de “auto-ajuda”. Não é. Mas e se fosse? Desde quando um livro de auto-ajuda não pode ser bom? Seja pela experiência profissional, pessoal ou pelo trabalho de pesquisa do autor, existem diversos livros que nos apóiam na reflexão de questões importantes. Nem somente de Shakespeare vive o leitor.
Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love, EUA, 2010) é um filme baseado no livro homônimo da jornalista americana Elizabeth Gilbert. A estória é verídica e se passa em três países, pelos quais a escritora faz uma jornada a fim de se encontrar a si mesma.
Eu sou bem democrática em relação à leitura, seguundo alguns critérios, obviamente. Confesso que, à primeira vista, o livro “Comer, Rezar, Amar” não me agradou. Talvez fosse o título, direto demais. Porque há pessoas que precisam que o título seja mais intrigante, tenha algo de misterioso, ao estilo Agatha Christie. Eu sou uma dessas pessoas.
É claro que é uma questão muito pessoal, mas eu – que tinha acabado de sair de um relacionamento – não estava interessada em ler um livro que me mandava fazer as três coisas que eu queria evitar.
Então, algum tempo depois, fui ver o filme. Com aqueles mesmos três verbos que prometiam dar-nos a luz para o autoconhecimento. Fomos ao cinema em um grupo de quatro mulheres. Todas solteiras, felizes e querendo comprar alguma passagem para um lugar bem distante daqui. É claro que o filme deu certo conosco. E muito. Não somente pela identificação com a personagem de Julia Roberts, mas pela identificação com a liberdade de comer horrores na Itália sem nos preocuparmos com o ponteiro da balança no dia seguinte. O filme era exatamente tudo o que queríamos. Largar nossa vida e cair no mundo – de boca – em outras culturas, com a desculpa de que precisávamos achar nosso verdadeiro “eu” e toda aquela conversa típica de divã ao custo de 150 a sessão.
Depois de assistir ao filme, apesar do terrível português de Javier Bardem – que interpreta um brasileiro, atual marido de Elizabeth Gilbert – fiquei intrigada acerca do livro. Pela minha experiência tive certeza de que a versão cinematográfica escondia tesouros importantes da estória.
Pois bem, li o livro. E ele consegue ser extraordinariamente encorajador e inspirador. Elizabeth Gilbert é, de fato, uma mulher forte que abriu mão de uma situação estável e conveniente para buscar o que realmente a deixava feliz. E, em um mundo no qual o comodismo e o contentamento são colossais, o livro, no mínimo, nos deixa inquietos.
O que a maioria de nós, certamente, faria – ao descobrir um descontentamento com nossa vida – seria entender isso como uma crise existencial. Choraríamos, faríamos terapia e continuaríamos na mesma. Mas Liz agiu diferente. Estava infeliz, queria mudar. Não queria o convencional – o que todas as mulheres de 36 anos desejam, ou deveriam desejar: filhos, uma casa com jardim e colchas feitas à mão, uma sopa reconfortante que borbulha no fogão – como a própria autora descreve. Não. Seus sonhos eram outros naquele momento. Mas como dizer tal coisa para o marido e amigos? “A única coisa mais inconcebível que ir embora, era ficar”. E assim, Liz Gilbert foi-se.
O roteiro, de uma forma genérica, é bem leal ao livro. Sua jornada começa na Itália, onde Liz rende-se aos prazeres culinários sem culpa. Mais tarde vai à Índia procurar por alguma espiritualidade e paz interior. Sua viagem termina na Indonésia, onde encontra Felipe, o homem que conquistaria seu coração para sempre.
O livro virou best-seller e o filme foi elogiadíssimo pela crítica e consagra, novamente, Julia Roberts como uma da melhores atrizes de todos os tempos. Com a direção de Ryan Murphy (diretor das séries de TV “Nip/Tuck” e “Glee”), o longa traz no elenco os atores James Franco, Billy Crudup, Viola Davis e o charmoso Javier Bardem. A fotografia é espetacular e a trilha sonora é impecável, com músicas de Neil Young, Eddie Vedder, além da sonoridade brasileira de Bebel Gilberto.
Se deixarmos o preconceito de lado, podemos curtir um bom livro e um bom filme. É uma estória inspiradora, a qual permite questionarmos, de maneira particular, nossa própria zona de conforto e até onde iríamos se realmente tivéssemos coragem. As circunstâncias de Liz foram essas, mas existem muitas outras diferentes que têm o potencial de fazer-nos ficar na mesma posição da jornalista.
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Publicado em cinema por Rejane Borges em 3 jan 2011
FONTE: http://obviousmag.org/archives/2011/01

O casamento vai à festa

MICHAEL KEPP*
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Evoluiu entre minha mulher e eu um acordo
para conviver em festas:
até 20 minutos a sós com desconhecidos

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EU E MINHA mulher, Rosa, levamos uma década para relaxar em eventos sociais quando o outro batia um papo prolongado com um(a) desconhecido(a) do sexo oposto. Essa ansiedade, uma mistura de ciúme com abandono, talvez seja parte da natureza humana.
Quando começamos a ir a festas, especialmente àquelas em que a música dançante criava um clima, a ansiedade crescia à medida que o outro passava mais tempo com o(a) desconhecido(a). Voltando para casa, revelávamos nossa indignação: "Eu me senti preterido(a)".
Mas essas cobranças não freavam nosso comportamento gregário -o meu em particular- em festas cheias de desconhecidos.
Com o passar do tempo, evoluiu entre nós um acordo subentendido, selado sem uma só palavra, que nos permitiu conviver sem cobranças com o comportamento do outro em festas -desde que nenhum dos dois passasse mais de 20 minutos com um(a) desconhecido(a).
Se isso ocorresse, qualquer um de nós -se não estivesse engajado em papo similar- podia chegar e dizer "Querido(a), vamos dançar?", o que encerraria a conversa.
Depois de uma década de casamento e com o crescimento da confiança mútua, sem combinarmos, o acordo passou a valer por 45 minutos, um tempo de um jogo de futebol, que também requer um intervalo.
A maioria dos nossos amigos considera esse limite de tempo uma eternidade. Um deles não deixa a mulher falar com um desconhecido em festas por mais de cinco minutos sem invadir o espaço dos dois. A mulher dá a ele dez minutos.
Em uma festa dançante, há cinco anos, a música era tão alta que uma mulher que eu acabara de conhecer sugeriu que achássemos um lugar mais sossegado para conversar. Fomos para um quarto, onde ficamos de porta aberta. Mas, após 30 minutos, ela começou a ficar preocupada com a possibilidade de Rosa aparecer ali enciumada a qualquer momento.
Passados 40 minutos, eu não conseguia mais conter seu nervosismo.
Então, contei a ela sobre o acordo tácito e acrescentei que ainda tínhamos alguns minutos. Um minuto depois, apareceu Rosa.
Sem olhar para a desconhecida, disse: "Querido, vamos dançar?". Minha previsão de que ela apareceria naquele momento, fazendo aquele convite, provocou-nos gargalhadas.
Mais tarde, expliquei a Rosa o motivo dos risos e pensei que nosso acordo funcionava muito bem. Nos últimos anos, a confiança cresceu tanto entre nós que hoje, nas festas, o único acordo é se divertir.
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*MICHAEL KEPP , jornalista norte-americano radicado há 27 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)

Fonte: Folha online, 04/01/2011

A ciência da procrastinação

JOÃO PEREIRA COUTINHO*
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Em janeiro, as promessas para 2011
 jazem com 2010.
O peso não baixa.
 O cigarro é ainda a chupeta predileta

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O ANO começa e os enganos começam também. Quando o relógio marca a virada, o digníssimo leitor vai elaborando, material ou mentalmente, as grandes decisões para 2011. Perder peso. Deixar de fumar. Trabalhar melhor. Amar melhor. Fazer aquela viagem. Se possível, deixar de roer as unhas.
Em finais de janeiro, as promessas para 2011 jazem com 2010. O peso não baixa. Aumenta. Os cigarros continuam a ser a chupeta predileta. O trabalho continua entediante, massacrante. A relação, definitivamente, não dá. A viagem -enfim, será possível viajar numa altura dessas?
O estresse é tal que já não existem unhas para roer; nem sabugo; às vezes, nem dedos.
Sei do que falo. Também eu sou dado ao delírio. Consulto os meus diários passados e constato, sem surpresa, que jamais cumpri uma única promessa das mil que faço anualmente.
Durante anos, como Samuel Pepys (1633-1703), também nos diários, usava um chicote mental de culpa e frustração para fustigar a minha consciência.
Descubro agora, via "The New Yorker", que o meu problema -melhor: o nosso problema, irmão leitor, é um dos grandes desafios filosóficos do tempo moderno.
Chama-se "procrastinação", mas, na verdade, é maleita que já existe desde os gregos.
Nossos antepassados até tinham um termo mais rigoroso para ela: "akrasia". Significa tomar uma decisão que é racionalmente contrária aos nossos interesses. Ou, no caso em apreço, não tomar decisão nenhuma. Adiar. Mascarar. Preguiçar. E desistir.
Segundo James Surowiecki, autor do artigo, o número de pessoas que admite problemas de procrastinação não para de aumentar em todos os estudos feitos sobre a matéria.
Um dos últimos, intitulado "The Thief of Time" (Oxford, 320 págs.) e analisado com detalhe por Surowiecki, dá apenas um exemplo entre mil: 70% dos pacientes com glaucoma arriscam a cegueira porque não usam as suas gotas regularmente. Deixam ficar para amanhã. Ou para depois de amanhã. Ou para depois de depois de amanhã.
Exatamente como nós: perder peso é um objetivo nobre. Para começar amanhã. Ou depois de amanhã. Ou depois de depois de amanhã. E eis que chega 2012.
Como explicar o fenômeno? Mentes pessimistas diriam: porque somos intrinsecamente preguiçosos.
Outras, mais otimistas, dirão que a preguiça nasce da ignorância: se os homens sabem o que é melhor para eles, agirão em conformidade para seu próprio bem.
"A nossa consistência é testada,
todos os dias, por fatores que não controlamos e
 que subvertem a beleza imaculada de nossas aspirações.
Uma súbita promoção.
Um súbito despedimento.
Novos amores. Novos desamores.
 Alegrias imprevistas.
Tristezas imprevistas."

A tradição intelectual do Ocidente assenta nessa fé: sabedoria é virtude, já dizia Platão.
Infelizmente, a procrastinação arrasa com tais certezas. E, contrariamente ao que imaginam otimistas e pessimistas, é traço humano e bem racional da nossa condição.
Afirma Surowiecki que todos os nossos planos assentam numa falácia simples: a ideia de que somos, como humanos, consistentes ao longo do tempo.
Mas não somos. A nossa consistência é testada, todos os dias, por fatores que não controlamos e que subvertem a beleza imaculada de nossas aspirações. Uma súbita promoção. Um súbito despedimento. Novos amores. Novos desamores. Alegrias imprevistas. Tristezas imprevistas. Como diria o sábio Nelson, a vida como ela é.
E, na vida como ela é, não dependemos apenas de fatores contingentes. Nós próprios estamos perpetuamente divididos entre o curto prazo e o longo prazo, avisa Surowiecki.
Uma batalha espiritual onde o diabrete do imediato vence o anjo mais distante. Repito: perder peso é uma aspiração nobre. Mas só depois de mais uma fatia de doce.
Conta o autor, em pormenor divino, que o escritor Victor Hugo (1802-1885) tinha por hábito escrever despido, pedindo ao criado que escondesse as suas roupas.
Era a única forma de ele ficar sentado à mesa, a trabalhar, sem ceder à tentação da vadiagem pelas ruas de Paris. Como eu o entendo.
Começa 2011. E nós começamos a construir planos para uma vida mais rigorosa, e saudável, e equilibrada.
Não funcionará. A vida não é assim. Nós não somos assim.
E se existe alguma certeza na "ciência da procrastinação" é esta: objetivos vagos e distantes começam a recuar perante necessidades mais imediatas, mais prementes. Mais presentes.
Ou, inversamente, nossos planos devem ser diários; humildes; transitórios; e sempre frágeis.
Rasgo todas as listas que preparei para 2011. Sem sentimento de culpa. O que será, será. Mas uma coisa prometo: amanhã mesmo, começarei a escrever despido.
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* José João Pereira Coutinho (Porto, 1 de Junho de 1976) é um jornalista e comentador político português.Frequentou a Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, acabando por se licenciar em História (na variante de História da Arte), pela Universidade do Porto. Prossegiu estudos na Universidade Católica Portuguesa, onde se doutorou em Teoria e Ciência Política Contemporânea e é, actualmente, Professor Convidado.(Wikipédia)
jpcoutinho@folha.com.br
Fonte: Folha online, 04/01/2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A frase da década

Montserrat Martins*
As retrospectivas são mais definitivas que as previsões, porque avaliam fatos já constatados, ao invés de promessas de novidades que podem não se concretizar. Mas as retrospectivas também servem para identificar tendências para o futuro, por observarmos a direção na qual estamos caminhando, no mundo inteiro – sim, a globalização da economia é um fato hoje evidente para todos, bem mais do que há uma década atrás.
Nesta primeira década do novo milênio, o fato mais marcante na economia internacional foi a fragilização do monopólio americano, que entrou em era de desvalorização do dólar em relação às outras moedas. Fruto da enorme dívida dos Estados Unidos que, por sua vez, decorre do excesso de gastos, que incluía as guerras da era Bush. Trocando de governo em meio à crise financeira internacional, desencadeada lá mesmo, os americanos viram o novo presidente assumir com uma frase emblemática: "The world has changed and we must change with it" “O mundo mudou e precisamos mudar com ele”.
Sim, Obama passa por dificuldades na gestão de seu país, mas sua frase pode ser eleita a frase da década porque representa uma realidade inédita – pela primeira vez se reconheceu a necessidade de alguma mudança de rumos da única superpotência mundial que restou ao final do século XX. A outra superpotência do século passado já havia sucumbido às suas contradições (a União Soviética, que deixou inclusive de ser um país) e é a China que se anuncia agora como uma nova superpotência para o século XXI – mas já repleta de problemas, como uma realidade social que aparenta uma forma de “trabalho escravo” de sua população, que vive miseravelmente e sem direitos de cidadania básicos, em comparação à riqueza que a economia daquele país vem acumulando. Os Estados Unidos ajudaram na derrocada soviética (há um filme que é quase um documentário sobre isso, “Charlie Wilson’s War’, de 2007, mal traduzido para “Jogos do Poder”). Mas esqueceram de cuidar da própria economia, o que terão de fazer agora, se não quiserem ser superados pelos chineses, japoneses, alemães ou europeus unidos, por exemplo.
“O mundo mudou e
precisamos mudar com ele”.
(Obama)
Para o mundo, é melhor um “multilateralismo” do que uma simples troca de hegemonia que o mundo experimentava desde o final da Segunda Guerra Mundial – toda a segunda metade do século XX foi marcada pela absoluta supremacia americana na economia e na cultura internacionais. É bom para o mundo que os americanos tenham de gastar menos em guerras e fazer a sua “lição de casa”, como foi bom para a economia japonesa e para a alemã que seus países tivessem sido proibidos de formar exércitos após a derrota na guerra. E a possibilidade de uma economia de fato multilateral é bem melhor que a simples troca de “donos do planeta”, pois no ritmo atual está previsto para no máximo mais duas décadas (até 2030) a concretização do monopólio chinês, de modo comparável ao que foi a supremacia ianque no século passado. Será bom que os americanos se “reciclem” ao invés de apenas sucumbirem como potência, para não termos de vivenciar uma advertência que os mais experimentados já detectaram, como o meu pai que na sabedoria dos seus 80 anos de idade anunciou: “Se você não gosta do imperialismo americano, espere para ver como vai ser o imperialismo chinês”.
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*Montserrat Martins, colunista do EcoDebate, é Psiquiatra

domingo, 2 de janeiro de 2011

Intelectuais e poder

Roberto Romano*
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Quem se importa, hoje, com indivíduos e grupos "intelectuais"? No pretérito, escritores, filósofos ou cientistas eram combatidos, aceitos ou silenciados pelos regimes políticos, igrejas, patrões ou operários. É imenso o rol dos pensadores, de Erasmo a Bertrand Russell, envolvidos em problemas humanos candentes. No século 20, manifestos assinados por acadêmicos valiam programas políticos e competiam com encíclicas. Daí a estranheza escandalizada quando os "grandes nomes" silenciavam em situações de injustiça, como nas tiranias de esquerda ou direita.
O totalitarismo domou intelectuais famosos e fez do seu discurso propaganda ou hipocrisia. O realismo enfraquece a mente mais brilhante, nela obnubila o sentido ético e moral. No Brasil, O Pasquim criou o slogan exato para quem seguiu a ditadura: "Eu preciso sobreviver, entende?" O periódico espelha a reflexão de Elias Canetti em Massa e Poder. O Prêmio Nobel comenta a conivência entre autores e governo. O poderoso e seus áulicos preferem guardar a própria vida, em detrimento dos outros seres humanos. Para eles não existem família, amizade, partido ou formas religiosas, tudo o que fazem tem por alvo alongar a sua permanência na ordem pública, vampirizando todos ao seu redor.
Certeira analogia é feita por Canetti entre poderosos e intelectuais maníacos da glória. Para eles, as demais criaturas "não têm outra razão de viver senão a de pronunciar um nome muito determinado (...). As diferenças entre o rico, o detentor do poder e o famoso podem ser resumidas mais ou menos assim: o rico coleciona montes e rebanhos. No lugar destas coisas está o dinheiro. Os homens não lhe interessam; para ele é suficiente o fato de poder comprá-los. O detentor do poder coleciona homens. Os montes e os rebanhos nada significam para ele, a não ser que necessite deles para a aquisição de homens. Mas ele deseja homens que vivam, para arrastá-los ou para levá-los consigo à morte. (...) O famoso coleciona coros. Destes quer escutar apenas o seu nome. Eles podem estar mortos ou vivos, ou podem nem ter nascido ainda; tudo isto lhe é indiferente. Basta que sejam numerosos e tenham sido exercitados em repetir seu nome".
Intelectuais do século 20
levantaram-se contra tiranias,
mas também serviram aos poderosos,
pouco importa a cor do príncipe,
se parda ou rubra.
O poderoso que busca a sobrevida e o intelectual sedento de fama podem empreender boas e belas coisas: surgem os estadistas e os escritores imortais, que, segundo Canetti, alimentam a humanidade. A maioria dos governantes e acadêmicos, no entanto, é bem representada por líderes como Vargas e Sarney (ambos da Academia e, portanto, imortais...), beneficiários da censura imposta aos seres comuns.
Intelectuais do século 20 levantaram-se contra tiranias, mas também serviram aos poderosos, pouco importa a cor do príncipe, se parda ou rubra. "Não são aplausos que faltam aos intelectuais, mas sim votos aos partidos que eles apoiam (...). Uma coisa é formar o discurso político, outra é ter poder sobre a vida pública" (Gerard Lebrun, Quem Tem Medo dos Intelectuais?). Após a 2.ª Guerra, muitos intelectuais aceitaram viseiras (políticas, religiosas, econômicas), tentando colocar idênticos tampões na opinião pública. Imaginar "bons" escritores em luta contra "bandidos" (na direita ou na esquerda) é lenda que impede entender o reino animal do espírito, nome dado por Hegel à "comunidade" dos cerebrinos.
No Brasil de agora, emudecem os que parolavam sobre ética e serviço ao povo.
As bases militantes acusam suas direções, escondendo de si mesmas o fato de que os dirigentes não agiriam com desenvoltura se tivessem recebido críticas... dos intelectuais. O "bom acadêmico" (como o bom selvagem) contenta-se com penduricalhos (uma assessoria ou cargo honorífico), mas recolhe as ordens dos superiores e as justifica para o público.
Boa parte dos universitários fica de joelhos e usa truques para não atacar a falsa República brasileira. Fingem não ler péssimas notícias, ignoram o privilégio de foro, os lobbies informais, os caixas 2, as pressões corruptas no Estado e na sociedade. Eles antes falavam demais porque, ainda citando Lebrun, "a crítica das instituições e dos privilégios sempre terá mais atrativo do que a banal apologia da ordem estabelecida". Seu vício anabolizante se encontrava na denúncia. Como não podem mais desmascarar, humilhar, destruir inimigos de seus partidos e devem preservar, blindar, adular a própria grei, eles se ocultam no tíbio silêncio. Se os abusos dos três Poderes são gritantes, o dever manda apontar ao público o que se passa nos gabinetes, mesmo à custa de processos judiciais, prisões, exílios, solidão. Quando Voltaire denunciou o caso Calas, não recebeu apoio da sociedade. Ao escrever o tremendo Eu Acuso, Zola não se tornou popular. No tribunal sobre o Vietnã, Sartre e Bertrand Russell recolheram apupos.
Os intelectuais arvoravam mentirosa independência política. Hoje, o seu máximo empenho é assinar listas de apoio eleitoral ou em defesa própria.
Muitos deles passaram oito anos criticando à socapa o governo Lula e, na bacia das almas, assinaram manifestos em favor de sua candidata. Na outra margem, muitos se acomodaram, deixando o candidato oposicionista à deriva.
Eles precisam sobreviver, entende? Bolsas de estudos, recursos de pesquisa, publicação de livros e artigos justificam as zumbaias dos famosos (outros nem tanto) dirigidas aos governantes. Seguir exércitos fortes, no Brasil, traz popularidade, verbas e verbo. É o tempo das vivandeiras, agora no reino do espírito. Os "intelectuais orgânicos", no Brasil e no mundo, mostram para que servem: universalizam slogans em favor dos palácios. Eles são apenas a caricatura piorada de Glauco e Trasímaco.
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* FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP), É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ''O CALDEIRÃO DE MEDEIA'' (PERSPECTIVA)
FONTE: Estadão online, 02/01/2011