quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

“É dando que se recebe?”

Leonardo Boff*
Estamos em tempos de montagem de governos. Há disputas por cargos e funções por parte de partidos e de políticos. Ocorrem sempre negociações, carregadas de interesses e de muita vaidade. Neste contexto, se ouve citar um tópico da inspiradora oração de São Francisco pela paz “é dando que se recebe” para justificar a permuta de favores e de apoios onde também rola muito dinheiro. É uma manipulação torpe do espírito generoso e desinteressado de São Francisco. Mas desprezemos estes desvios e vejamos seu sentido verdadeiro.
Há duas economias: a dos bens materiais e a dos bens espirituais. Elas seguem lógicas diferentes. Na economia dos bens materiais, quanto mais você dá bens, roupas, casas, terras e dinheiro, menos você tem. Se alguém dá sem prudência e esbanja perdulariamente acaba na pobreza.
Na economia dos bens espirituais, ao contrario, quanto mais dá, mais recebe, quanto mais entrega, mais tem. Quer dizer, quanto mais dá amor, dedicação e acolhida (bens espirituais) mais ganha como pessoa e mais sobe no conceito dos outros. Os bens espirituais são como o amor: ao se dividirem, se multiplicam. Ou como o fogo: ao se espalharem, aumentam.
Compreendemos este paradoxo se atentarmos para a estrutura de base do ser humano. Ele é um ser de relações ilimitadas. Quanto mais se relaciona, vale dizer, sai de si em direção do outro, do diferente, da natureza e até de Deus, quer dizer, quanto mais dá acolhida e amor mais se enriquece, mais se orna de valores, mais cresce e irradia como pessoa.
Portanto, é “dando que se recebe”. Muitas vezes se recebe muito mais do que se dá. Não é esta a experiência atestada por tantos e tantas que dão tempo, dedicação e bens na ajuda aos flagelados da hecatombe socioambiental ocorrida nas cidades serranas do Rio de Janeiro, no triste mês de fevereiro, quando centenas morreram e milhares ficaram desabrigados? Este “dar” desinteressado produz um efeito espiritual espantoso que é sentir-se mais humanizado e enriquecido. Torna-se gente de bem, tão necessária hoje.
Quando alguém de posses, dá de seus bens materiais dentro da lógica da economia dos bens espirituais para apoiar aos que tudo perderam e ajudá-los a refazer a vida e a casa, experimenta a satisfação interior de estar junto de quem precisa e pode testemunhar o que São Paulo dizia:”maior felicidade é dar que receber”(At 20,35). Esse que não é pobre, se sente espiritualmente rico.
"Nosso drama é que não aprendemos
nada da natureza. Tiramos tudo da Terra e
não lhe devolvemos nada
nem tempo para descansar e se regenerar.
Só recebemos e nada damos.
Esta falta de reciprocidade levou
a Terra ao desequilíbrio atual."
Vigora, portanto, uma circulação entre o dar e o receber, uma verdadeira reciprocidade. Ela representa, num sentido maior, a própria lógica do universo como não se cansam de enfatizar biólogos e astrofísicos. Tudo, galáxias, estrelas, planetas, seres inorgânicos e orgânicos, até as partículas elementares, tudo se estrutura numa rede intrincadíssima de inter-retro-relações de todos com todos. Todos co-existem, inter-existem, se ajudam mutuamente, dão e recebem reciprocamente o que precisam para existir e co-evoluir dentro de um sutil equilíbrio dinâmico.
Nosso drama é que não aprendemos nada da natureza. Tiramos tudo da Terra e não lhe devolvemos nada nem tempo para descansar e se regenerar. Só recebemos e nada damos. Esta falta de reciprocidade levou a Terra ao desequilíbrio atual.
Portanto, urge incorporar, de forma vigorosa, a economia dos bens espirituais à economia dos bens materiais. Só assim restabeleceremos a reciprocidade do dar e do receber. Haveria menos opulência nas mãos de poucos e os muitos pobres sairiam da carência e poderiam sentar-se à mesa comendo e bebendo do fruto de seu trabalho. Tem mais sentido partilhar do que acumular, reforçar o bem viver de todos do que buscar avaramente o bem particular. Que levamos da Terra? Apenas bens do capital espiritual. O capital material fica para trás.
O importante mesmo é dar, dar e mais uma vez dar. Só assim se recebe. E se comprova a verdade franciscana segundo a qual ”é dando que recebe” ininterruptamente amor, reconhecimento e perdão. Fora disso, tudo é negócio e feira de vaidades.
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*Teólogo. Escritor. Autor de A oração de São Francisco, Vozes 2010.
(Envolverde/O autor) 02/02/2011

Haruki Murakami Ensina Como Superar Pressões

Decidida a conferir por que livros de Haruki Murakami se tornam blockbuster instantâneo entre jovens, comecei com aquele cujo título me atraía e atingia 20 milhões de exemplares no Japão: Norwegian Wood, 1987 (Portugal: Civilização Edit. – 2004), da canção-título dos meus eternos ídolos. Na canção de 1965, que faz o protagonista do livro se lembrar de ex-amada, Norwegian wood é madeira de pinho boa para mobília e para lenha de lareira; Lennon nos transmite sensação de aconchego: “so I lit a fire; isn’t it good, Norwegian wood?” Detalhe: o título original do livro é “Norway-no-Mori”, Norwegian woods. Não vá botar fogo nos bosques da Noruega, Lennon.
No enredo, que recorda ritual de passagem pós-adolescência em Tóquio-1969, sobressai sequência das histórias de cada personagem. São todos solitários, perdidos entre experiências sexuais, estudos tediosos, e vazio saturado de tristeza por amores não correspondidos: Toru que ama Naoko, que ama Kizuki, que se suicida. Midori que ama Toru, que ama Naoko, que se suicida. Preparada para ser virtuose do piano desde os quatro anos de idade, e muitas tentativas de suicídio, Reiko é como irmã para Naoko, Naoko cuja cintilante irmã – superestudante, superatleta, com paredes do seu quarto cobertas de medalhas e certificados de excelência – havia se suicidado. Hatsumi namora Nagasawa, amigo de Toru e brilhante aluno da Todai, que a humilha, maltrata e a abandona. Hatsumi se mata. Suicídio é uma fuga fácil demais para os problemas, um gesto fácil demais para ser imitado por almas fragilizadas. (Em 1970 o escritor Yukio Mishima cometia espetacular suicídio-seppuku, abalando a juventude japonesa).
O protagonista de Norwegian Wood, Toru Watanabe, 20 anos de idade, era vidrado em livros como O Grande Gatsby e A Montanha Mágica, sobre juventude dourada de duas épocas distintas em momentos cruciais da História: de F. Scott Fitzgerald, ícone da Geração Perdida pós-horrores I Guerra, e de Thomas Mann que questionava valores políticos e morais do mundo pré e pós-horrores II Guerra. O jovem Haruki Murakami (Kyoto, 1949) cultuava esses dois escritores e outros como Jack Kerouac – todos em buscas existenciais. Autor e protagonista são representativos da geração après guerre do Japão, do consumismo desenfreado, da juventude que tinha tudo, educada ao ápice por zelosas kyoiku mamas. Dominavam qualquer assunto e arrasavam ao piano e violino, ou guitarra, violão, ao executarem Bach, Mozart, jazz, Beatles, bossa-nova. Porém, incapazes de se relacionar, amar, se dar ou receber – trancados desde tenra idade num pequeno mundo dourado. Em tal contexto, sem um apoio espiritual, frágil será um jovem para suportar a pressão de contínua competição e permanente cobrança de alta performance. Um outsider, Toru sobrevive incólume.
"Segundo estatística divulgada pela
Agência Nacional de Polícia do Japão
no começo de janeiro,
o número de suicídios ultrapassou 30.000
pelo 13º ano consecutivo: 31.560 pessoas
se mataram no país em 2010."
Ao se transformar em ícone de cultura pop mesmo sem querer, há que se cuidar com o que despeja mundo afora com sua caneta ou suas digitações, quando quem compra seus livros são multidões de jovens em formação, num país onde suicídio é quase herança cultural. Uma só palavra sua pode ser senha para libertação, ou para destruição.
Segundo estatística divulgada pela Agência Nacional de Polícia do Japão no começo de janeiro, o número de suicídios ultrapassou 30.000 pelo 13º ano consecutivo: 31.560 pessoas se mataram no país em 2010. O Partido Democrata do Japão, do governo Naoto Kan, com colaboração de ONGs, lançou um grupo de trabalho para estudar medidas anti-suicidas para antes de março próximo; é a época em que, segundo a NHK, o índice de suicídios tende a subir devido ao fechamento do ano fiscal e mudanças nas empresas, que sempre provocam cortes em empregos e consequentes problemas sociais.
Em 2007, Haruki Murakami lançou novo best-seller, Do que eu falo quando eu falo de corrida (Brasil: Editora Alfaguara, 2010): são ensaios sobre o ato de correr e sobre o que pensa uma pessoa enquanto ela corre, ou o que leva uma pessoa a correr maratonas; tudo recheado com tiradas e reflexões pessoais. Preocupado com vida sedentária, Murakami se tornara fundista e triatleta, levando milhares de fãs a também se viciarem em corridas. Jovens, crianças, velhos, balzaquianas acessam seu endereço eletrônico comentando sobre tipos e marcas de tênis, agasalhos para corridas, como melhorar a performance etc. etc., e a compartilhar a sensação de euforia e bem-estar atlético pós exercícios. Haruki Murakami, quem diria, de guru pop pós-moderno virou personal trainer on-line. Médicos alertam: sensação de euforia atlética pode produzir hormônios de bem-estar para o corpo e a alma. Ponto para Murakami-san.
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* Economista.
Por: Naomi Doy - Seção: Livros e Filmes
Fonte: http://www.asiacomentada.com.br/2011/02/02 

Solidariedade, um anestésico de ocasião para consciências pesadas

(*) Ucho Haddad
“Nunca compreendi a solidariedade.
Aceitei-a como artigo de fé tradicional.
Se tivéssemos coragem de afastá-la completamente, l
ivrar-nos-íamos do peso que incomoda
 a nossa personalidade.”
(Henrik Johan Ibsen, dramaturgo norueguês)

Diferentemente do que pensa a maioria, a palavra solidariedade não tem em sua essência o viés da benemerência, da compaixão e da piedade que tantos insistem em lhe impor. Com origem no latim, “solidare”, solidariedade, em termos etimológicos, significa “solidificar”, “confirmar”. A origem é a mesma do adjetivo “sólido” (do latim “solidu”), que significa aquilo “que tem consistência, que não é oco, que não se deixa destruir facilmente”.
Há dias, nas reticências da tragédia que alvejou a serra fluminense, muitos veículos de comunicação noticiaram ser o povo brasileiro o mais solidário de todos. Uma inverdade descomunal, pois o que se viu foi uma correria repentina e desordenada para socorrer as vítimas das chuvas que levaram, morro abaixo, casas, vidas, sonhos futuros, histórias passadas. Tudo não passou de uma ação pontual e coletiva, que funcionou como um alvejante sob encomenda para mentes normalmente imundas e pecaminosas.
No contraponto, com o passar do tempo, a realidade recobrou suas forças e retornou ao seu lugar de sempre. O altar da sordidez. Muitas das doações enviadas às cidades serranas foram alvo de desvios e subtrações criminosas, enquanto autoridades e entidades de ajuda humanitária disputavam o direito de comandar a operação de socorro aos sobreviventes.
Analisando com a devida calma a situação decorrente da mais recente catástrofe natural do País – no próximo verão teremos mais – é possível perceber que a solidariedade tem suas semelhanças com a fé. Quando se encontram em enrascadas ou dificuldades, os crentes recorrem às orações, quando não aos santos de plantão. O mesmo acontece com a solidariedade, que precisa de uma matança em larga escala e com detalhes trágicos para que as pessoas descubram que a solidariedade é a principal garantia de uma existência coletiva e recíproca. Nessas horas de destruição e dor ninguém é capaz de pensar que a solidariedade só existe como relação social quando se permite uma via de múltiplas mãos.
"Como se solidariedade tivesse
prazo de validade,
que depois de aberta deve ser consumida
em poucos dias."

Na verdade, a solidariedade traduz com certa elegância uma relação típica de democracias responsáveis, onde a união ocorre à sombra da semelhança horizontal existente entre as pessoas enquanto cidadãs. Em outras palavras, a solidariedade é uma relação de interdependência, de reciprocidade contínua. Não devemos confundir a interdependência anteriormente citada como uma situação em que um depende do outro e vice-versa. É, em suma, uma relação em que prevalece o respeito mútuo e a reciprocidade incondicional, sempre sob a batuta da dignidade.
Como sempre lembra o brilhante jornalista Carlos Brickmann, em tempos de escassez de notícias até castelo de areia na praia é forte candidato a manchete. No momento em que as avalanches de terra dizimaram centenas de vidas no Rio de Janeiro, a imprensa nacional estava sob a pasmaceira noticiosa que sempre marca o começo de qualquer ano. Como se repetissem o comportamento de anos anteriores, a maioria dos veículos buscava pautas capazes de gerar audiência – e leitores também – e que por consequência rendessem polpudas quantias de dinheiro. Essa receita maltrapilha normalmente funciona, pois o ser humano, não é de hoje, se acostumou a usar a desgraça alheia como atenuante para os próprios problemas. Uma espécie de indutor do conformismo boçal.
Encerrada a temporada de sensacionalismo midiático, as vítimas das chuvas e dos deslizamentos de terra, que arrasaram as cidades fluminenses, caíram na costumeira vala do esquecimento. Como se solidariedade tivesse prazo de validade, que depois de aberta deve ser consumida em poucos dias. A destruída serra do Rio deu passagem ao corre-corre cotidiano da vida, acabou substituída pelos ridículos e exibicionistas participantes demais edição do enfadonho Big Brother Brasil, um sucesso de renda e público que consegue aniquilar a consciência popular, inclusive de uma parcela daqueles que ainda raciocinam minimamente. Os veículos de comunicação, sempre assanhados diante das verbas oriundas da publicidade oficial, passaram a escassear de forma homeopática e imperceptível os espaços destinados ao tema. É aquela velha e binomial teoria que reina no submundo da imprensa genuflexa. Quem recebe se cala; quem cala, consente. Tudo no melhor estilo rufião de lupanar. Mas isso pouco importa, pois as vítimas da incompetência do Estado deixaram momentaneamente de dar lucro. E a ordem mundial, burra como sempre, é caminhar na direção da próxima cornucópia, mesmo que dela surjam níqueis lamacentos.
Mas não foi apenas a bizarrice da bacanal televisiva exibida pela sempre virulenta Vênus Platinada que roubou a atenção dos outrora “solidários”, que até recentemente se organizavam em caravanas rumo aos desabrigados. Agora eles têm uma nova diversão, algo diferente para se preocupar. Nas próximas duas ou três semanas, até a chegada da folia momesca, esses pretéritos e meteóricos monges da bondade se divertirão com as besteiras de alguns políticos estreantes, que em pouco tempo terão transformado o Brasil em um picadeiro de dimensões continentais. Aquela turma que sonhava em ajudar o próximo estará ocupada com as novas Excelências, como os deputados Tiririca e Romário. Estarão atentas aos bofetes que o deputado-pugilista Popó dará na face do imaculado (sic) senador Eduardo Suplicy, pois ambos combinaram de subir ao ringue. Tudo porque cada um desses respeitáveis representantes do povo consome, ao seu modo, R$ 130 mil mensais do suado dinheiro do contribuinte.
Palhaçadas e galhofas políticas à parte, o meu propósito é discorrer sobre solidariedade. Mas o que é solidariedade? É um estado de consciência plena daqueles que sabem e querem viver e conviver com o seu semelhante de maneira respeitosa e civilizada. Ser solidário é não se entregar ao consumismo, pois tal comportamento, algumas vezes psicótico, gera lixo além do necessário. E lixo é o tipo de mercadoria que não há mais onde colocar. Ser solidário é não abrir a janela do carro e arremessar a bituca do cigarro no asfalto, pois em algum momento o bueiro da esquina vai dar a sua resposta. Ser solidário é não parar em fila dupla à porta de colégios, academias e outros estabelecimentos, até porque o seu filho não consta da árvore genealógica do Aladim, assim como sua filha jamais será dona do “derrière” mais empinado e cobiçado do planeta. Ser solidário é ter consciência que calçadas foram inventadas para pedestres e jamais devem ser transformadas em estacionamentos privados, como se aquele que caminha tivesse culpa por ter nascido.
Ser solidário é um estado de alma, de espírito, é um dos importantes capítulos do exercício da cidadania. É entender que o seu direito termina exatamente no ponto em que começa o do outro. É não ter a mente oca, é ter consistência de pensamento, é agir de forma sólida em relação ao próximo. Ser solidário não é tirar do armário aquelas roupas velhas e fora de moda, que não lhe servem mais, e enviar aos menos afortunados, arrumando espaço para abrigar as novas compras do próximo final de semana. Até porque, atitudes como essa não passam de um éter oportunista capaz de reduzir a nada a dor que qualquer consciência pesada provoca silenciosamente nos incoerentes.
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* Ucho Haddad, 51, é jornalista investigativo, analista e comentarista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira, do Inforel e da Gazeta do Oeste.
Fonte: www.ucho.info -01/02/2011

Professor de cursinho

Do outro lado do balcão:
Um provocador na sala de aula


Professor que faz sucesso em cursinho popular
conta que se tornou vegetariano
após debate com alunos


O professor de literatura Roberto Gonçalves Juliano, de 60 anos, sabe que seus alunos no cursinho precisam de bom desempenho no vestibular. Para chamar a atenção, ele faz uma espécie de terapia de choque. "O homem moderno precisa ser chocado, sempre. Acha que perderei a chance (de discutir o assunto com eles) quando fico sabendo de um ato homofóbico na Avenida Paulista ou da morte de um estudante na USP?".
Juliano dá aulas no Cursinho da Poli, onde as mensalidades giram em torno de R$ 180. Ele sabe que precisa fornecer um estímulo extra aos seus alunos. A maioria é oriunda da rede pública e está consciente de largar mal na corrida por uma vaga no vestibular.

"Após mais de quatro décadas fisgando peixinhos,
 Juliano está convicto de que a dinâmica
no cursinho é diferente em relação
a outros ambientes escolares."

Ao entrar na sala no primeiro dia de aula, o docente começa a desfiar o rosário de provocações e pergunta o tamanho do sonho de cada estudante. "Dependendo da resposta, ele vai conquistar ou não o que quer. A trilha é difícil, a trajetória é dura. A universidade pública é o único caminho possível de realizar o sonho de quem não pode pagar uma particular", afirma.
As aulas são ministradas pelo professor em salas com 200 alunos em média. "Em um dia posso dar 10 ou 12 aulas e chego a falar com quase 1.500 pessoas em algumas horas. É uma oportunidade que nem eu e nem nenhum outro professor pode perder", afirmaA mágica, diz Juliano, está em dizer o que eles querem ouvir junto com o que eles precisam escutar. "Se eu não fizer isso, perco o aluno, a atenção, a aula. É preciso fisgar o peixinho", resume.
Após mais de quatro décadas fisgando peixinhos, Juliano está convicto de que a dinâmica no cursinho é diferente em relação a outros ambientes escolares. A pressão e a competição são mais intensas. "O aluno precisa ouvir, estar de olhos e ouvidos abertos."
Nos dois primeiros meses, de acordo com o professor, os estudantes se perdem, pois estão maravilhados com o ambiente. "Querem estudar tudo e ao mesmo tempo nada. Nunca tiveram professores com aquele jeitão descontraído e têm matérias que às vezes nunca viram no ensino médio."
Depois de ganhar a cumplicidade de seus alunos, o professor conta que a relação fica próxima. E a troca de informações é intensa. Juliano às vezes até aceita sugestões dos jovens. A mais radical foi se tornar vegetariano. "Após debates, me questionaram ‘por que não?’ e resolvi experimentar."
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Reportagem por Felipe Mortara, especial para o Estado
Fonte: Estadão online, 02/02/2011
Imagens da Internet

Facebook, o bem e o mal

Arnaldo Jabor*
Claude Monet em seu barco Studio Por Manet
Eu estava em Paris, em férias. Claro que fui ver a maravilhosa exposição de Claude Monet no Grand Palais e mergulhei na imensa galeria de auroras, crepúsculos, falésias, jardins, flores, arvoredos, lagos e ninfeias - um cântico de amor à natureza boa e calma que nos protege.
Chego ao hotel e vejo na TV a natureza matando mil brasileiros afogados na lama, com o mesmo destino de ratos ou vermes da terra.
Medo, pena, culpa de estar vivo em Paris, impotência - tudo se abateu sobre mim. Sempre confiamos no Deus brasileiro, como também acreditávamos nos poderes infalíveis do Ocidente, ferido desde o 11 de Setembro.
Era a mesma natureza, vista no êxtase sublime dos quadros de Monet que devastava três cidades no Brasil - era o sublime ao avesso, o terror incompreensível das forças sem controle.
Ferido por esta dor, fui no dia seguinte à exposição de Jean-Michel Basquiat, no Museu de Arte Moderna. Eu, que desconfiava da genialidade do neguinho, tive uma revelação: ali estava retratado o sentimento do mundo atual, o impacto da dor de um "excluído", pela casual união entre o mais miserável e o mais profundo: filho de haitiano, homeless, pele preta, drogado, mas com um talento "picassiano". Ali estava o ódio à feiura do progresso, ali estava um desgraçado pintando não como vítima, mas com os dentes agudos, com olho de profeta, com o desespero dos grafites atacando a normalidade da monumental Manhattan.
Basquiat morreu de overdose aos 28 anos e via o mundo ao avesso de Monet. O sentimento de paz burguesa do impressionista nos acolhe no sonho de beleza do século 19 e a visão de Basquiat nos aterroriza com a caricatura trágica de um futuro terrível já contido num presente sem controle.
Realmente, dá medo. Hoje em dia as coisas têm vida própria e seus criadores não controlam mais os produtos. Somos levados por uma tumultuosa marcha de fatos sem causa aparente, de acontecimentos sem origem, de objetos sem sujeitos. Cada vez temos mais ciência e menos entendimento. Temos um acesso à informação infinita, mas nada se fecha em conclusões coerentes, nada acaba, nada se define. O socialismo não deu certo, o capitalismo global não trouxe paz, tudo que depende da vontade dos homens e de seus sonhos de controle não chega a um final feliz. Pensadores sofrem porque veem que é impossível mudar o curso da vida que se transforma sozinha, pouco se lixando para nós, assim como a lama das encostas, as cinzas dos vulcões, como as marés assassinas.
"Viramos objetos de um "sujeito" imenso,
sem nome, sem olho, misterioso, secreto,
que talvez só vamos entender
depois do tempo esgotado,
quando for tarde demais.
 Não temos mais culpados nítidos pelo Mal.
Essa é a sensação dominante."

As teorias políticas não deram certo; Kafka e outros escritores do século 20, como Beckett, sacaram o lance. Esperando Godot é mais profético que 100 anos de esperança política.
Viramos objetos de um "sujeito" imenso, sem nome, sem olho, misterioso, secreto, que talvez só vamos entender depois do tempo esgotado, quando for tarde demais. Não temos mais culpados nítidos pelo Mal. Essa é a sensação dominante.
Mas, eis que, depois de sair do mundo eletrizante de Basquiat, chego ao hotel e vejo na TV a súbita irrupção da revolução na Tunísia, contaminando Egito e outras tiranias. Estavam ali os dentes em faca de Basquiat, os oprimidos se erguendo em revolta por obra e graça do Facebook.
Isso: um garoto nerd de Boston queria ver os peitinhos de meninas em Harvard e aí inventou um troço, ficou bilionário e deflagrou uma mudança histórica no mundo árabe. Isso ninguém previu, nenhum pensador horrorizado pensou neste "bem".
Uma revolução saída da web. A produção material da tecnociência gerando anticorpos contra o futuro sem saída.
Nos noticiários vemos também o Julian Assange sendo investigado pelo WikiLeaks, piração transgressiva que abre buracos nas muralhas protegidas do poder.
E já dá para ver que estamos diante do imprevisível total, mas com alguns sinais no ar. Começa um tempo de progressiva porosidade entre Estado e sociedade, uma época de reis nus, de impotência da razão para resolver impasses históricos. Sem dúvida, as equações de mil incógnitas que a política armou já nos trouxeram de volta o "tempo do trágico", como escreveu Jean-Marie Domenach. Agora, não temos mais a progressiva ascensão de um mal resistível como foi Hitler, por exemplo, mas a explosão do horror no equilíbrio ecológico ou em inesperada guerra nuclear.
Sente-se no ar o desejo inconsciente por uma tragédia qualquer que pareça uma "revelação". Sim. Diante de tantos fatos insolúveis, surge a fome por algo que ponha fim ao "incontrolável", a coisa que o Ocidente mais odeia.
Há o perigo de que toda a teia de aranha dos grandes impasses políticos possa reviver o sonho de um autoritarismo rápido, eficaz, que identifique os "culpados" pelo mal do mundo; pode voltar a saudade por regimes que restaurem certezas, crenças familiares como: futuro, ordem, nação, identidade, povo. Já temos uma fome de irracionalismo religioso, mas é possível também o irracionalismo laico, que é bem legível para paranoicos.
"O tempo atual é muito humilhante
 para os chamados "idiotas da objetividade".
Talvez isso seja bom,
para acabar com a folga."
No entanto, a progressiva ligação entre as redes sociais e políticas pode sugerir um cenário melhor.
Suspeito, com otimismo talvez ingênuo, que as coisas que comandam a vida possam produzir antígenos para si mesmas, que contra um "mal" sem sujeito possam surgir, "dialeticamente", alguns "bens" sem dono. Assim como o Osama em 2001 lançou aviões como torpedos, usando a tecnologia contra nós, fenômenos como o Facebook na Tunísia podem ajudar a corroer a estupidez do terrorismo e até inventar soluções para graves perigos contra a natureza.
Lembro de uma frase de Proust: "Para entender uma situação desconhecida, lançamos mão de elementos conhecidos e por causa disso não conseguimos entendê-la". O tempo atual é muito humilhante para os chamados "idiotas da objetividade". Talvez isso seja bom, para acabar com a folga. Seremos obrigados a confiar em que talvez haja uma razão dentro da loucura. Devemos acreditar em uma espécie de "inconsciente histórico" dentro da marcha das coisas, que nos protegerá contra o suicídio.
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* Arnaldo Jabor (Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1940) é um cineasta, crítico e escritor brasileiro.  Colunista do Estadão.
Fonte: Estadão online, 01/02/2011
Imagens da Internet

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O desenvolvimento é mais embaixo

Antonio Delfim Netto*
Uma das funestas consequências da crise construída pelo sistema financeiro internacional, sob os olhos complacentes das autoridades monetárias, foi a desmoralização da economia de mercado como instrumento eficiente de um Estado indutor (constitucionalmente controlado) para criar as condições do desenvolvimento social e econômico num contexto compatível com a liberdade de iniciativa individual.
Todos sabemos que ela não foi inventada. É produto de um processo que começou há mais de 130 mil anos, quando os homens abandonaram a África para ocupar o mundo. Sendo um processo, foi encontrando mecanismos flexíveis para satisfazer os objetivos sempre mutáveis dos homens. Esses, lentamente, transcenderam às suas necessidades materiais.
É esse caminho da "humanização" do homem, a rigor explorado apenas nos últimos 300 anos, que permitiu sextuplicar a população mundial, que aumentou em mais de sete vezes a disponibilidade per capita de bens e serviços e aumentou (graças à ciência e à tecnologia) a expectativa de vida ao nascer de 35 para 70 anos.
É claro que tal organização está longe de ser plenamente satisfatória, mesmo porque, sendo um processo, a cada momento criam-se novas "necessidades": a civilização sempre exige mais civilização... Ela está longe de ser perfeita e terminada, mas todas as alternativas construídas por cérebros peregrinos, que imaginaram construir a "sociedade perfeita" habitada pelo "homem perfeito", fracassaram miseravelmente. O século XX é um cemitério dessas aventuras. O século XXI promete mais alguns cadáveres...
A urna corrige excesso do falso tecnicismo econômico
Os economistas estão sempre atentos a relações entre eventos e, quando as encontram, inventam histórias para "explicá-las". Uma história que tem sobrevivido desde Adam Smith (que "explica bem o caso da Holanda e da Inglaterra) é que aquela economia de "mercado" só aparece e se desenvolve quando a sociedade aceita e dá dignidade à atividade exercitada pelos que têm iniciativa, e os benefícios de suas "inovações" podem ser apropriados por eles. Isso, obviamente, exige um Estado indutor, com mãos leves e amigável com relação a eles.
Essa história talvez "explique" melhor do que as funções de produção o fenomenal desenvolvimento da China, a partir de 1978, e da Índia a partir de 1991. Os fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e as funções de produção inventadas pelos economistas já estavam lá em estado latente há dezenas de anos, e a produtividade total dos fatores, medida estatisticamente, era muito próxima de zero. O que faltava era um Estado indutor que: 1) respeitasse e dignificasse a atividade do setor privado; 2) libertasse o "espírito animal" dos empresários para utilizar e dar maiores oportunidades de progresso à mão de obra; e 3) garantisse que cada um poderia apropriar-se dos benefícios de sua iniciativa.
O mesmo fenômeno talvez se repita na Rússia, onde o governo promete remover o "entulho" que sobrou depois da queda da URSS, quando a transferência da atividade estatal para o setor privado foi entregue aos feudos do velho Partido Comunista. Houve, até agora, simples transferência da ineficiência estatal para uma cleptocracia, que destruiu até os setores de ponta tecnológicos do país. Diante da necessidade imposta por uma nova eleição (em 2012), Vladimir Putin apela para uma reabilitação moral da atividade econômica privada.
A nova "meta" é dar dignidade ao lucro honestamente obtido e libertar o espírito empreendedor pela ampliação da competição; privatizar US$ 50 bilhões de ativos (inativos!), que estão nas mãos do Estado (vender hotéis e times de futebol!); cortar as asas dos oligopólios (que estão ainda nas mãos de velhos companheiros da KGB!); estimular a abertura de novos investimentos, diminuindo a burocracia; ampliar a venda de tecnologia nuclear; diminuir a dependência do setor energético com fontes alternativas; proteger com tarifas e estimular com subsídios os setores automotivo e aeroespacial, a agricultura e diversificar a exportação de petróleo. A China hoje importa ¾ do total.
Para quem ainda tem dúvida que o respeito à dignidade da atividade industrial de bens e serviços (que nada tem a ver com os predadores financeiros!) é fundamental, basta observar os últimos movimentos de Barack Obama. Ameaçado pelas urnas, tenta uma reaproximação com o setor real da economia americana.
Seu maior erro foi a pirueta inicial para agradar os democratas: salvar os desonestos que produziram a crise à custa de 17 milhões de desempregados (metade dos quais há mais de seis meses) que ganhavam a vida honestamente. Como agora também os EUA sabem, a urna corrige o excesso do falso tecnicismo econômico. Às vezes um pouco tarde...
Essas historietas têm muitas e proveitosas lições para o Brasil.
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*Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento
Fonte: Valor online, 01/02/2011

A beleza que não existe

Rodolfo Papa*
O que é a beleza? Uma longa tradição filosófica refletiu sobre este tema, buscando a explicação sobre o que é, como os homens a conhecem, como a admiram, aprofundando na experiência comum, que é o ponto de partida de toda boa explicação.
Desta reflexão surge que a capacidade de admirar da beleza, natural ou artística, caracteriza-se por um "prazer" que reúne não somente os sentidos, mas toda a pessoa: emoções e paixões; razão e intelecto; trata-se de um prazer não destinado ao útil - portanto, um prazer pelo prazer: isso é uma vivência do prazer frente a qualquer coisa que se conhece, sem pretender comprá-la, possuí-la, modificá-la.
A beleza tem um vínculo particular com a vista. São Tomás de Aquino, com sua célebre afirmação - "Pulchrum est quod visum placet" (Summa Theologiae, I, q. 5, a. 4, ad 1um) -, indica que do belo importa a apreensão e, de forma especial, o deleite: o belo é "agradável ao conhecimento" (ibid., II-II, q. 27, a. 1, ad 3um), porque o belo exige ser "conhecido".
A beleza, além disso, tem características constantes, como a harmonia e a regularidade, que o próprio São Tomás afirma com a "integritas sive proportio", ou a certeza, na "debita proportio sive consonantia", ou na "claritas", ou no esplendor corpóreo ou espiritual: a beleza do corpo consiste em ter os membros bem proporcionados (debita proportio), com a luminosidade devida à cor (claritas). A beleza espiritual consiste no fato de que o comportamento e as ações de uma pessoa sejam bem proporcionados (proportio), segundo a luz da razão (claritas) (Ibid., I, q. 39, a. 8, resp.).
"A beleza, além disso, tem características
 constantes, como a harmonia
 e a regularidade..."
Esta definição da beleza, que alguns tacham de intelectualista, constitui a análise racional de experiência comum e geral: confirmando isso, existem diversas buscas de ordem psicológica e antropológica que confirmam como, desde crianças e independentemente da cultura, tende-se a reconhecer como belo e agradável o que é harmônico e proporcionado.
No entanto, nos últimos dez anos, foi-se consolidando uma concepção da beleza separada totalmente do conhecimento sensorial e racional, divorciada do prazer estético e da experiência comum. Trata-se precisamente de um "conceito" de beleza construído por alguns teóricos sem nexo algum com a realidade e com a visão.
Sobre a base deste pressuposto nasceram, ao mesmo tempo, diversas tipologias de arte, implicadas por esta esotérica concepção de beleza (beleza como ausência, como falta de harmonia, como algo estranho...). Nestes "objetos" não se chega a apreciar a beleza de nenhuma das maneiras, mas alguns adeptos destas obras dizem que a beleza está presente.
Acontecem então situações hilariantes, que a meu ver podem ser descritas pela fábula "A roupa nova do imperador", escrita por Hans Christian Andersen (1805 - 1875). A fábula conta a história de um imperador muito vaidoso que é enganado por dois ladrões que dizem ter um tipo de tecido tão belo que só os estúpidos não podem ver. Assim, eles enganam o imperador com um tecido inexistente, que ele finge ver e admira sua beleza, para não ser considerado estúpido. Pede aos ladrões que confeccionem uma roupa com esse tecido, e todos os dignatários da corte e os cidadãos fingem admirar o traje, pensando que não veem a beleza do tecido porque não são capazes de se deleitar. Só uma criança tem coragem de exclamar que o imperador está nu e só então as pessoas se sentem valentes para crer em seus próprios olhos e reconhecer que não viam nada.
Bem, frequentemente, passeando nas salas de muitos museus de arte contemporânea, veem-se muitos imperadores vaidosos, cortesãos e cidadãos, que fingem admirar uma beleza que parece estar reservada só a mentes superiores, até que alguém, com a inocência dos simples, tem a valentia de dizer que não há absolutamente nada.
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* Rodolfo Papa é historiador da arte, professor de história das teorias estéticas na Universidade Urbaniana, em Roma; presidente da Accademia Urbana delle Arti. Pintor, autor de ciclos pictóricos de arte sacra em várias basílicas e catedrais. Especialista em Leonardo Da Vinci e Caravaggio, é autor de livros e colaborador em revistas.
Fonte: Zenit.org. 01/02/2011

Manual de instruções para ser cristão na era do Facebook

Entrevista com o especialista Guillaume Anselin

Verdade e autenticidade são o programa e o manual de instruções que Bento XVI oferece aos cristãos presentes na internet e nas redes sociais, explica Guillaume Anselin, especialista em comunicação de marcas e instituições.
Nesta entrevista, Anselin, que já trabalhou em cargos executivos de alguns dos mais importantes grupos de mídia, como McCann Erickson, Ogilvy e Publicis, comenta com ZENIT a mensagem que o Papa enviou por ocasião do Dia Mundial das Comunicações Sociais.

ZENIT: "As novas tecnologias não mudam apenas a maneira de se comunicar, mas a própria comunicação", diz Bento XVI. Estamos diante de uma pós-cultura?
Guillaume Anselin: O Santo Padre assinalou que "criou uma nova forma de aprender e de pensar, bem como novas oportunidades para estabelecer relações e criar laços de comunhão". Isto não só se refere ao canal internet, mas a uma nova "era digital", sinal de uma nova cultura em que já entramos.
A era digital é uma sociedade de "tudo-comunicação", permanentemente conectada, que redefine a relação individual com o mundo, com os outros e a maneira de consumir ou produzir informação. Nesta era "digital", a informação circula principalmente através de "círculos sociais", com o risco de dar mais crédito ao que está mais estendido ("popularizado" pelos "amigos" reais ou virtuais) que às fontes oficiais. O perigo é, obviamente, uma visão distorcida da realidade.
Implica também a abolição das fronteiras e distâncias, uma cultura da imagem ao invés da escrita, uma sociedade "de conversação", na qual o conteúdo é o próprio objeto da conversa em grande escala.
É um fenômeno cultural inédito e recente: social, midiático, de informação imediata, que não deixa tempo para respirar, com suas comunidades de interesse e cerca de dois bilhões de pessoas online em todo o mundo. Basta lembrar que, há seis anos, Facebook, YouTube, Twitter, tão presentes em nossa vida diária, não existiam.
No caso de países de cultura midiática intensa, podemos falar efetivamente de pós-cultura, no sentido de uma mudança em direção a uma "sociedade digital".

ZENIT: "Os jovens estão experimentando essa mudança na comunicação com todas as aspirações, as contradições e a criatividade daqueles que se abrem com entusiasmo e curiosidade às novas experiências de vida", explica o Papa. Quais são os riscos e desafios disso?
Guillaume Anselin: A era digital implica, obviamente, em um salto geracional. A televisão dos nossos pais já não é a de hoje. Com o advento do "tudo multimídia", há uma forte migração do público jovem para o mundo digital (internet, celular etc.). Amanhã haverá gerações inteiras que terão conhecido desde sempre o Facebook como o principal canal de proximidade para informar-se, falar ou encontrar-se.
A internet exerce um fascínio: nela temos um meio pessoal no qual eu posso construir a identidade que eu quiser, conter-me com os outros, estar "conectado" e falar sobre o que eu quiser e com quem eu quiser. Um lugar no qual eu posso criar algo, mergulhar em universos pré-existentes, jogar, ouvir música, ver vídeos, ler...
A internet é vista como o "último mundo livre", democrático, pois permite a expressão de qualquer opinião minoritária, sem obrigações nem consequências... e em aparente segurança para quem a utiliza.
O perigo, como explica o Papa, é o a coexistência de duas identidades, uma digital (um avatar de si próprio) e outra real, assim como duas vidas paralelas: uma real e contingente e outra virtual e fácil, apesar de ser também muito real, pois ocupa uma parte importante da minha vida.
O desafio é a construção da pessoa, sua unidade de vida, e a formação da consciência, graças a uma utilização equilibrada da internet no que ela tem de melhor: um maravilhoso instrumento prático e lúdico, quando sabemos utilizá-lo. Pois encontrar uma informação na internet não significa sempre encontrar uma solução.

ZENIT: "Existe um estilo cristão de presença também no mundo digital", afirma o Papa, convidando o cristão a "dar testemunho coerente" do Evangelho na era digital. Como responder a este convite do Papa?
Guillaume Anselin: O Papa nos oferece um programa e um manual de instruções muito claro: a verdade e a autenticidade. Em questão de estratégia de comunicação, não poderia fazer uma proposta melhor! É um incentivo a comprometer-se sem ter medo e com lucidez. Podemos ficar com três aspectos importantes para o comunicador cristão:
1. Em primeiro lugar, a verdade antes de tudo, pois, em matéria de fé, nós, nós, cristãos, não temos nada melhor a oferecer em resposta a essa sede inscrita no coração dos homens. Em uma época cada vez mais saturada de informação, isso quer dizer estar presente e dar razões: fontes fiáveis da doutrina (visíveis, com uma linguagem acessível) e testemunhar com simplicidade aquilo em que cremos e a maneira como o vivemos, com os meios à nossa disposição (a informação, a narração, os vídeos, fóruns, blogs etc.).
"Temos de responder a
esta questão eterna do homem,
do seu anseio de transcendência,
com projetos grandes, interativos,
que transmitam
o que recebemos."
Implica também em restabelecer um equilíbrio no ecossistema digital e dar aos jovens dois elementos essenciais: o direito de saber e de escolher. Ser cooperatores Veritatis (colaboradores da Verdade, slogan de Bento XVI, N. da R.) para anunciar o Evangelho e favorecer um encontro pessoal com Jesus, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Em outras palavras: não estar decididamente presente no continente digital é uma contraverdade. É um dever de justiça e um serviço à caridade em um mundo em aceleração, no qual frequentemente se procura apagar a dimensão espiritual e o valor da mensagem cristã.
2. Para conseguir isso, o Santo Padre nos oferece o manual de instruções: é preciso ser autêntico (...), com coerência, constância, para entrar em diálogo com o Outro. Ser o que somos, sem ceder no fundamental, com uma escuta ativa, para ser tudo para todos.
Como Bento XVI nos disse várias vezes, o estilo cristão não procura agradar, correndo o risco de desvirtuar aquilo que recebemos. Nossa comunicação é afirmação alegre, positiva... e delicada. É também coerente e social, pois se integra nas culturas da nossa época. É evangelização, para tocar os corações e as inteligências. É unidade, para apoiar todas as realidades pastorais e eclesiais.
Mas o Santo Padre nos alerta também sobre a tentação do "tudo digital", pois as tecnologias devem permitir a aproximação de uma prática de fé, vivida em nossas comunidades cristãs, na Igreja.
3. A verdade, por último, merece uma nova atitude. Por este motivo, Bento XVI conclui convidando-nos a uma "criatividade responsável" e a um sentido de "escrupuloso profissionalismo". São necessárias habilidades particulares, pois a internet exige hoje uma atitude totalmente profissional e meios adequados. Temos de construir as catedrais do saber, os átrios e as ágoras do continente digital... formados por avenidas e praças, mas também por cantos nos quais as pessoas se perdem.

ZENIT: "Manter vivas a questões eternas sobre o homem." Como diz Bento XVI, a busca de sentido e respostas sobre a fé e a vida é intensa entre os nossos contemporâneos. O que o continente digital oferece, neste sentido?
Guillaume Anselin: A oferta é diversificada, mas também altamente fragmentada. Muitas iniciativas têm dificuldade em encontrar o seu público devido à falta de recursos, à oferta editorial, ou porque é difícil ir além dos públicos tradicionais. Para entrar em um site católico, é preciso sê-lo, pelo menos um pouco...
A força dos grandes projetos na internet é sua dimensão claramente multimedial e uma inteligência conectiva, a partir de uma necessidade claramente identificada. No campo da fé, faltam iniciativas nas quais, muito além de publicar notícias de atualidade, sejam oferecidas respostas simples nos formatos mais variados às questões levantadas pelas pessoas sobre a fé, a vida e a sociedade.
Temos de responder a esta questão eterna do homem, do seu anseio de transcendência, com projetos grandes, interativos, que transmitam o que recebemos.
É preciso responder ao "porquê" e ao "como" com criatividade, modernidade e apoiar o trabalho pastoral das pessoas, como sacerdotes, educadores, religiosos, catequistas e todos aqueles que no mundo investem suas energias na produção de blogs e sites.
No fundo, não é nada novo: assim como os cristãos se comprometeram, há tempos, a favor do progresso das sociedades em nossas cidades e campos, da mesma forma, o continente digital espera também nossa presença visível, serena, à altura dos desafios desta "sociedade digital".
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Reportagem por Jesús Colina
Fonte: Zenit.org. 01/02/2011

Responsabilidades dos leitores

Carlos Castilho*

Mudanças no jornalismo aumentam responsabilidades dos leitores
Imagem da Internet

Um dos principais legados das grandes indústrias da comunicação é o mito de que o jornalista é um personagem indispensável à democracia. Entre outras coisas, este mito justifica o corolário de que sem as empresas jornalísticas também não existe democracia. E aí que está a justificação do poder assumido pelos donos de impérios da comunicação.
A mudança de paradigmas na informação, provocada pela internet e pela informática, mostrou que os jornalistas não são hoje nem mais e nem menos relevantes para a democracia do que os cidadãos comuns. A notícia deixou de ser monopólio dos profissionais e das empresas jornalísticas. Ela chega hoje às pessoas por circuitos que não passam pelas indústrias da comunicação.
Mas isso não quer dizer que o jornalista se tornou descartável e desnecessário. A profissão está tendo que se adaptar ao novo contexto das ferramentas digitais na comunicação. O jornalista não é mais o certificador de credibilidades, mas o profissional que pode mostrar aos consumidores de informação como chegar à confiar em notícias.
O profissional deixou de ser um oráculo e o interlocutor privilegiado de governantes e empresários para se tornar um tutor de leitores. A função antiga tinha mais glamour e prestígio nos corredores do poder político, mas a nova tem muito mais relevância social, sem falar que está mais próxima da realidade concreta do dia a dia das pessoas.
Não é mais possível ter uma medida única para avaliar a confiabilidade de todas as notícias. O jogo de interesses complicou extraordinariamente a tarefa de separar o joio do trigo no noticiário. O jornalista pode e deve dar aos leitores de um jornal, por exemplo, os elementos para avaliar credibilidades no contexto concreto de cada evento, dado ou indivíduo.
"Os jornalistas foram colocados
diante de uma série de dilemas
no contexto criado
pelas novas tecnologias."
Também não se pode mais jogar nas costas do jornalista toda a responsabilidade pelo patrulhamento das autoridades e do governo. Hoje o conjunto dos cidadãos numa comunidade tem um poder de produzir e circular informações muito maior do que o dos repórteres e editores. A revolução tecnológica democratizou a informação e isso faz com que os leitores de jornais também tenham responsabilidades informativas.
Uma das funções novas de repórteres e editores, mas que não é tão nova assim, é a da investigação jornalística. Na indústria da notícia, a produção de material voltado para atrair pupilas e vender anúncios atropelou a investigação ao privilegiar a produção em série de informações. Mas agora, na era da avalancha informativa, investigar tornou-se tão essencial quanto saber se algo é confiável ou não.
Os jornalistas são profissionais da informação e para fazerem jus a esta qualificação precisam desenvolver ao máximo a habilidade de identificar causas, consequências, beneficiados e prejudicados em eventos onde existe uma grande convergência de interesses nebulosos.
Ninguém pode substituir o jornalista nessa função, nem mesmo os promotores públicos e os investigadores policiais. Estes se orientam pelas leis enquanto o jornalista tem o interesse público como parâmetro. Na teoria não haveria conflito entre um e outro, mas na realidade a coisa é um pouco diferente.
Os jornalistas foram colocados diante de uma série de dilemas no contexto criado pelas novas tecnologias. Mas isso aconteceu também com o público e é por isso que há muita gente pedindo a volta dos “bons tempos”, quando a maioria dos leitores achava que a verdade estava nas páginas de um jornal ou no telenoticiário. A realidade se encarregou de desfazer essa ilusão, mas as pessoas resistem a encarar os fatos. É mais cômodo queixar-se dos jornalistas do que enfrentar a necessidade de fazer avaliações e opções.
Há todo um discurso que está sendo reformulado quando se trata do exercício do jornalismo. É um processo mais lento, porque a prática já mudou, mas os valores ainda continuam os mesmos dos tempos em que a única forma de obter informação era pela leitura de um jornal.
É fundamental que os jornalistas contemporâneos entendam este processo para que possam encontrar novos nichos de atividade profissional e consigam buscar a sua sustentabilidade financeira numa profissão que foi a mais afetada, em suas rotinas e valores, pela internet.
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* Mestre e doutorando em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC.
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com
Imagens da Internet

“A memória é uma arma humana”

Esther Grossi*
Esta afirmação da nossa presidente Dilma Rousseff, na cerimônia do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, em Porto Alegre, neste ano de 2011, dia 28 de janeiro, tem tudo a ver com a frase célebre de Sara Pain – “nós somos as nossas recordações”; ou, em sua língua materna – “nosotros somos nuestros recuerdos”. Como seres de cultura e não de natureza, não estamos predeterminados por instintos. Constituímo-nos como pessoas a partir de nossas experiências entre pessoas, das quais construímos nosso acervo de recordações. E somos responsáveis pelo que fazemos com nossas recordações, pois elas são armas. E uma arma pode servir tanto para nos defender como também pode servir para matar a nós e/ou a outros.
É que, em verdade, nós não somos todo o conjunto de nossas recordações, porque ele é riquíssimo. Nós somos aquelas lembranças que pinçamos dentre todas, por serem as mais significativas. Porém, o que dá significado às nossas recordações é a dupla “prazer e dor”. Toda recordação está associada a algum afeto, isto é, a algo que nos afetou. Guardamos na nossa memória episódios de nossa vida que nos afetaram mais que outros, que nos fizeram muito felizes ou muito infelizes. E elas passam a nos orientar de acordo com nossa bússola, a qual está sempre voltada para o polo encantado do prazer. Temos como vocação tentar ser felizes.
A partir de nossas recordações, que encerram ideias sobre o que pode ou não nos dar prazer, é que decidimos nosso rumo. Amamos o que nos parece que pode nos causar prazer e odiamos o que pensamos que pode nos causar dor. Mas aqui ocorre um fenômeno curioso – quando sofremos muito, se não tivermos ocasião de compreender minimamente o que aconteceu, facilmente nos enganamos sobre a causa do sofrimento. E a arma que vem desta recordação terá uma mira equivocada. Ela acaba sendo perigosa para nós mesmos e também para outros que pensamos ter parte na responsabilidade por nosso sofrimento.
"A partir de nossas recordações,
que encerram ideias sobre o que pode
ou não nos dar prazer,
é que decidimos nosso rumo."
Por isso, o editorial de Zero Hora, dois dias depois do pronunciamento da presidente, adverte adequadamente: “A memória somente será uma arma de paz se for municiada pela verdade”. Por sugestão de Walter Kohan, acrescentamos que seja municiada por verdades que expandam a vida, que nos tragam alegria, que ampliem a justiça e não por aquelas carregadas de preconceitos, de ressentimentos ou de culpas, ou de medos.
Reconstituir a verdade sobre o que nos faz sofrer e que foi mal caracterizada não é tarefa fácil. Requer a coragem de trazer à tona o sofrimento que foi recalcado para que, junto com ele, se refaça a ideia que a ele ficou associada indevidamente.
Por isso, nada melhor do que, na hora de um sofrimento, por doloroso que seja, sempre que possível, criar-se condições para que se o analise. E análise implica pôr palavras a respeito do que aconteceu. Pôr palavras significa dialogar com alguém. Sem interlocutor, a análise não faz sentido. E mais, é preciso uma interlocução que nos desperte energias para tarefa tão necessária, mas tão difícil.
O bom será se pudermos, como a Dora do filme Central do Brasil, chegar ao ponto de poder escrever – “tenho saudade de tudo”. Na interlocução extraordinária com Josué, ela descobriu que seu pai bêbado podia ter qualidades, como as descobriu no pai, também bêbado, de Josué.
Que multipliquemos a interlocução entre nós, aprendendo a ajudar-nos a só associar algumas boas verdades às nossas recordações.
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*Educadora
Fonte: ZH online, 01/02/2011

Coisas que eu queria saber aos 21: Boris Fausto

Aos 80 anos, historiador lembra dos tempos de estudante
no colégio e na Faculdade de Direito da USP


MARCIO FERNANDES/AE
Aos 32 anos, Boris Fausto trocou carreira jurídica por nova graduação


"O centro de São Paulo, na minha juventude, era um lugar muito mais formal que hoje. Eu ia para a aula, na Faculdade de Direito da USP, de terno e gravata. Chegava ao Largo São Francisco de ônibus ou de bonde. Naquela época, anos 1950, a gente precisava ficar de pé quando alguns professores entravam na sala. Mas também havia muita brincadeira, palhaçada. Afinal, éramos jovens universitários.
A USP era um nome sem concorrência, porque tinha – e ainda tem – o melhor curso de Direito do País. Ainda assim, o nível dos professores era fraco, com algumas honrosas exceções. A relação deles com os alunos era distante, você não podia perguntar nada, só ouvia. E nesse clima de falta de comunicação passaram-se cinco anos...
Foi fácil escolher a universidade e, de certa forma, o curso também. Minha família só me deu três opções, mas desisti de Engenharia e de Medicina: era muito fraco em matemática e não queria cortar cadáveres. Sobrou-me Direito.
Não existia essa loucura de vestibular, e a seleção para a faculdade ocorria escola por escola. Fazíamos um exame escrito e um oral. Acho que passei em 4.º lugar, entre 250 candidatos.
A minha predileção pelas humanidades vinha desde a adolescência. Estudei no Colégio Mackenzie do jardim de infância até o equivalente, hoje, ao 1.º ano do ensino médio. A escola tinha uma fama muito boa, mas não havia muita diversidade. Seu objetivo era formar engenheiros e, por isso, o colegial clássico era nitidamente desvalorizado, ao contrário do científico.
Fiz seis meses de aula e desisti, porque me sentia um peixe fora d’água em um ambiente em que os alunos eram desinteressados e os professores, muito fracos.
Lembro-me de uma conversa com um amigo do meu pai em que falei de minhas dúvidas e a insatisfação com a escola. Ele e outras pessoas me recomendaram procurar o Colégio de São Bento.
Sair do Mackenzie foi uma decisão minha, com o apoio do meu pai – minha mãe já havia morrido.
Por ser judeu, precisei convencer os monges a me aceitaram, pois não tinha o batismo católico. Fiz muitos amigos na nova escola. Dois deles, para a vida inteira: os irmãos Augusto e Haroldo de Campos (que se tornariam os pais do concretismo).
"Aliás, se tem uma coisa de que
eu me arrependa é ter sido muito fiel aos estudos.
Deveria ter sido um aluno mais ou menos e
aproveitado mais
a juventude."
Fundamos O Centro, jornalzinho do centro literário do São Bento, em que eu escrevia sobre coisas variadas. Lembro que a primeira edição foi um escândalo, porque fiz um editorial chamada Me apresentando. Esse pronome causou um furor – os padres chegaram a dizer que eu era um mau exemplo!
Já na faculdade, fazia parte de uma minoria socialista em um ambiente predominantemente udenista, que fazia oposição a Getúlio Vargas. Depois, radicalizei e virei trotskista. Acho que tinha a ver com a juventude e com o contexto da época. Aos poucos, fui me democratizando.
Formado em Direito, advoguei por dez anos em um escritório que aceitava demandas de todas as área. O trabalho era interessante, mas não dava para continuar porque os ganhos eram irregulares. Havia me casado e precisava ter uma renda fixa. Passei em um concurso para procurador do Estado e fui designado para a consultoria jurídica da USP.
Os salários haviam melhorado e, aos 32 anos, com apoio da minha esposa (a educadora Cynira Stocco Fausto, que morreu no ano passado), que via minha insatisfação intelectual, resolvi fazer História.
Trabalhava praticamente no mesmo prédio em que tinha aulas. No fundo, entrei na faculdade sem muitas ilusões. Para mim, era uma maneira de sistematizar o estudo, ter referências bibliográficas. E ali eu me destacava, porque a turma era mais nova e eu já tinha experiência de vida e de leitura.
Aliás, se tem uma coisa de que eu me arrependa é ter sido muito fiel aos estudos. Deveria ter sido um aluno mais ou menos e aproveitado mais a juventude. Não que eu tenha deixado de jogar futebol, namorar, ir ao cinema. Mas poderia ter feito mais. Por outro lado, se eu não tivesse investido tanto tempo nos livros, não teria chegado onde cheguei."
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Fonte: Estadão online, 01/02/2011

COISAS LOUCAS

MARION MINERBO*
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Eleitores do reality show escolhem
quem vai representá-los
no panteão da fama rápida

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O RECORDE de votação registrado na edição de 2010 do "BBB" revela a popularidade crescente do programa. Certamente ele atende a certas demandas da população.
A mais óbvia é o consumo ávido das imagens do longo e trabalhoso processo de "gestação" da celebridade, bem como do instante preciso em que ela vem ao mundo.
Por que o fascínio pela celebridade? Empoderada pela mídia, a celebridade pode ser protagonista de sua própria história, o que é muito difícil para o cidadão comum.
O termo empoderar é do educador Paulo Freire. Tem a ver com a capacidade de pessoas e grupos assumirem a responsabilidade pelo próprio destino, em lugar de esperar que alguém o faça por eles. O "BBB" empodera o cidadão comum. A votação maciça mostra que as pessoas estão ávidas para ser protagonistas da história.
"Talvez a descrença nos políticos
explique por que o Brasil seja
o recordista mundial em
participação no "BBB".
O programa empodera pessoas que não acreditam nas instituições políticas nem que a participação democrática altera seu destino.
Mas que acreditam que seu voto pode mudar a vida de alguém que os representa, e que, por tabela, é a sua. O "retorno" do voto é imediato.
O vencedor chega anônimo e sai com capital social, além do dinheiro, que o torna apto a construir o próprio destino.
Dentro do mais puro espírito democrático, os eleitores do "BBB" têm o direito -e fazem questão de exercê-lo- de decidir quem vai representá-los no panteão da fama rápida, valor máximo na sociedade do espetáculo. Quem merece gozar das benesses do sistema no lugar deles.
Quem vai realizar coisas que não estão ao seu alcance.
Por isso acompanham o "BBB" com notável espírito crítico. Li num site uma conversa entre fãs do "BBB10" que discutiam quem deveria sair e quem deveria vencer o jogo: "Quem deve sair é a Lia.
Achei ela muito autoritária.
Quem deve ficar é o Dourado.
Espero que ele ganhe, porque está se comportando como um "gentleman".
Pena que o cidadão comum não se sinta tão empoderado por nossas instituições políticas para o exercício da cidadania, como idealizou Paulo Freire ao criar o termo. E que tamanha energia seja canalizada para essa paródia de democracia.
Talvez a descrença nos políticos explique por que o Brasil seja o recordista mundial em participação no "BBB". O público se empenha para não eleger um picareta. O finalista tem de ser um lutador que não sacrificou sua ética para vencer no jogo, assim como o povo não a sacrifica para vencer na vida.
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* MARION MINERBO, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Neurose e Não-Neurose" (Casa do Psicólogo)
Fonte: folha online, 01/02/2011

Pedidos precavidos, recusas ríspidas

MICHAEL KEPP*
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É curioso os brasileiros usarem
modos tão diretos para pedir favores
e tão indiretos para recusá-los

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APESAR DE OS brasileiros acharem os americanos "objetivos", um eufemismo para "curto e grosso", meus compatriotas não são nada diretos quando pedem um favor.
Talvez porque os americanos sejam ensinados a pedir desculpas até pela menor inconveniência. Sempre dizem "com licença", seja quando esbarram em um pedestre, seja como preâmbulo para uma pergunta.
Os preâmbulos que precedem o pedido de um favor são ainda mais precavidos.
Eles começam com um "com licença, mas" e se escoram em um "se". Uma vez, pedi a um amigo carioca: "Com licença, mas você se importaria se eu abusasse e perguntasse se pode me emprestar esse CD?".
Ele achou o pedido incrivelmente barroco e disse que um brasileiro só diria "cara, me empresta esse CD".
Apesar dos meus 28 anos de Brasil terem me tornado um híbrido de duas culturas, meu lado americano ainda acha esse pedido brusco meio presunçoso.
Talvez porque me lembre do tratamento diferenciado que alguns brasileiros esperam receber das classes menos favorecidas quando fazem pedidos. Veja o empresário que chega ao botequim quando está fechando e diz ao gerente: "Amigo, fique aberto mais um pouco. Estou com um famoso cineasta faminto".
Acho curioso os brasileiros usarem modos tão diretos como "me dá" ou "me deixa", mas escolherem modos tão indiretos de recusa.
Veja expressões vagas como "pode ser" e "vamos ver", seguidas por "se não der, fica para a próxima", com as quais se dribla o "não".
Os americanos não navegam em torno dos negativos quando recusam um favor.
"Talvez o modo ideal de pedir e
recusar favores seja incorporar
o melhor das duas culturas."
É por isso que os brasileiros os consideram tão diretos. Um ianque encerra um convite com "não posso, estou ocupado".
Uma vez, ao chegar a um hotel num parque nacional americano, vi que precisaria de um carro para ir às trilhas.
Pedi a um funcionário: "Com licença, mas eu estaria pedindo demais se perguntasse se estaria interessado em me levar até uma trilha por um valor que achasse aceitável?".
Sua recusa ríspida, "sim, você estaria", foi pior do que "não posso, estou ocupado".
Talvez o modo ideal de pedir e recusar favores seja incorporar o melhor das duas culturas. Os pedidos não seriam bruscamente brasileiros nem barrocamente americanos, e as recusas seriam definitivas, sem ser duramente americanas ou evasivamente brasileiras.
Nesse mundo de fantasia, eu perguntaria ao funcionário: "Você poderia me levar a uma trilha por uma grana?".
E ele responderia: "Gostaria, mas estou ocupado. Fica para a próxima".
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*MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 28 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)
Fonte: Folha online, 01/02/2011

Preocupação Com os Idosos na Ásia

Paulo Yokota*
Muitos entendiam que os ensinamentos de Confúcio seriam fortes suficientes para que os países asiáticos tivessem menores problemas de abandono dos idosos que ele recomendou que fossem respeitados. No entanto, o que está se verificando é que sem o Estado preparado para assisti-los convenientemente, os conceitos das famílias estão sofrendo alterações com a urbanização não sendo suficientes para manterem os contatos dos descendentes com seus idosos. Muitos estão se sentindo abandonados, aumentando o índice de suicídios entre eles.
No The New York Times, a jornalista Sharon LaFraniere publica um artigo informando que um ministro chinês está propondo que os trabalhados dos centros urbanos sejam obrigados a visitar seus genitores no meio rural por ocasião do Ano Novo Lunar. Este é um problema que vem sendo detectado no Japão, onde os longos feriados seguidos estão sendo utilizados pelos jovens para excursões no exterior em vez de visitas aos seus familiares que permaneceram em suas terras natais.
"..decisões judiciais têm obrigados
os filhos a remeterem, regularmente,
recursos para os seus genitores
que permaneceram no meio rural,
mas ainda são em
número insignificante."

O fato concreto é que nas sociedades asiáticas o número relativo de idosos vem aumentando assustadoramente, e os jovens não se sentem obrigados a assisti-los como era no passado. Muitos estão sendo obrigados a trabalhar e viver nos centros urbanos, distantes das áreas de onde provieram suas famílias. O fluxo de deslocamento de populações nestes períodos de mudança do ano, bem como no chamado Golden Week no Japão, quando há uma longa sequência de feriados, aumenta assustadoramente, mas muitos são destinados para turismo em países próximos.
Os acadêmicos chineses são de opinião que medidas legais não são suficientes para reverter este processo, e algumas decisões judiciais têm obrigados os filhos a remeterem, regularmente, recursos para os seus genitores que permaneceram no meio rural, mas ainda são em número insignificante.
Na realidade, o avanço da legislação previdenciária não é suficiente para assistir às necessidades das populações idosas, e os laços familiares tendem a se tornar mais tênues. Está se tornando um problema grave nestas sociedades onde as expectativas de vida vêm se elevando substancialmente, enquanto o número de jovens em idade de trabalho está se reduzindo relativamente.
Os asiáticos, em média, procuravam manter uma poupança para seus dias de velhice, explicando a elevada taxa destes ativos que eram mantidos. No entanto, os rendimentos que eles proporcionam estão cada vez mais baixos, não sendo suficientes para suas anteriores previsões.
Muitas medidas oficiais estão sendo adotadas para aumentar a natalidade nestas sociedades, mas estas mudanças são mínimas, não sendo suficientes para alterar o quadro geral que é preocupante. Em alguns países, a idade para a aposentadoria está sendo elevada, mas nem todos os idosos continuam com seus empregos, precisando abrir espaço para o trabalho dos jovens.
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*Economista, ex-professor na FEA-USP, ex-membro do Advisory Committee on Technical Service (Genebra,Suíça), quando teve a oportunidade de ajudar o Hospital do Pénfigo, Campo Grande – MT, que cuida do “fogo selvagem” (1962); ocupou diversos cargos públicos como o de Diretor do Banco Central do Brasil (1971), Presidente do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (1979), Comissário do Governo Brasileiro para Ciência e Tecnologia na Expo-Tsukuba, no Japão (1985). No setor privado, foi diretor de uma Trading brasileira para a Ásia, e é consultor de empresas associado ao Professor Antonio Delfim Netto. É o atual Presidente (voluntário) da Diretoria Executiva da Sociedade Brasileira e Japonesa de Beneficência Santa Cruz – Hospital Santa Cruz, e dirigente de diversos organismos comunitários.
Fonte: http://www.asiacomentada.com.br/2011/01/30