domingo, 3 de abril de 2011

Camille Paglia - Entrevista

Fruta madura e suculenta


Para a ensaísta Camille Paglia, Elizabeth Taylor representou
o poder sexual feminino que
uma Hollywood puritana
hoje tenta dissimular

A crítica cultural e ensaísta americana Camille Paglia é obcecada por Elizabeth Taylor. E assume. Professora de estudos de mídia e disciplinas humanistas da Universidade das Artes, na Filadélfia, considera a atriz - morta no último dia 23 aos 79 anos - uma protofeminista "com o poder sexual que o feminismo tentou destruir". Na entrevista a seguir, Camille exalta a vitalidade, a exuberância e o amor pelos homens em Liz Taylor, em contraponto à "silhueta anoréxica, afinada pelo pilates" das Gwyneths Paltrows, à técnica fria das Meryl Streeps e à tensão politicamente correta das Angelinas Jolies. É a velha Camille de sempre, fiel ao seu estilo inteligente e abrasivo.

Seu ensaio sobre Elizabeth Taylor na Penthouse em 1992 qualifica a atriz como ‘uma pré-feminista com o poder sexual que o feminismo tentou destruir’. As feministas rechaçaram a ‘femme fatale’ como um libelo misógino, um lugar-comum?
Exatamente. Você precisa entender que, naquela época, Elizabeth Taylor era ainda subestimada como atriz. Ninguém a levava a sério - ela chegou até a fazer piadas em público sobre isso. E quando escrevi o ensaio, Meryl Streep era promovida como a maior atriz de todos os tempos. Fiquei revoltada pois considero Elizabeth uma atriz maior. No fim da década de 90, a Turner Classic Movies permitiu que as pessoas puderam assistir aos antigos filmes de Elizabeth e mudassem de ideia. Seu poder como atriz e a grandeza do que realizou em seus filmes ficaram evidentes. Ela representou um tipo de feminilidade hoje impossível de encontrar nas telas inglesas ou americanas. Uma feminilidade com raízes na realidade hormonal - a vitalidade da natureza. Ela foi a contestação viva do pós-modernismo e do pós-estruturalismo que sustentam que gênero é apenas um conceito social. Um exemplo: o filme de Lisa Cholodenko The Kids Are All Right é maravilhoso, mas Julianne Moore e Annette Bening - que devia ter ganho o Oscar pelo retrato que fez da mulher contemporânea que quer fazer carreira - estavam esquálidas na tela. Essa é a aparência de inanição das atrizes de Hollywood hoje: uma silhueta anoréxica, esquelética, afinada pelo pilates. Há algo de androide nessa representação.

Você tem escrito a respeito das estrelas magérrimas, as Gwyneths Paltrows...
Se Gwyneth Paltrow tivesse nascido na década de 30, teria sido tratada como sem graça e desajeitada. Se sentiria humilhada pelo seu corpo esquelético. Mas tudo que tem a ver com ela é empurrado para as jovens americanas como o ideal. Eu não engulo isso. Passei alguns dias dando conferências no Brasil e fiquei fascinada com as brasileiras - seu humor, energia, abertura, a maneira como expressam sua sexualidade de maneira tão natural e bela. Adoro isso porque é bem ao velho estilo de Hollywood. Agora, a persona de Elizabeth Taylor, no início era uma continuação da de Ava Gardner. Ambas tinham espontaneidade e vigor, um magnetismo animal, embora não dominassem a técnica da interpretação. É por isso que as pessoas elogiam tanto Meryl Streep. "Oh, ela tem um sotaque excelente, uma articulação perfeita..." Mas Meryl não vive realmente seus personagens, ela apenas dissimula. Tudo é cerebral, não vem do coração ou do corpo. Richard Burton, considerado o maior ator shakespeariano depois de Laurence Olivier, costumava dizer quanto aprendera com Elizabeth Taylor sobre como trabalhar com a câmera. O mais leve pestanejar da pálpebra diz muita coisa e é nesse aspecto que Elizabeth é superior. Meryl está sempre estudando seu personagem, exigindo que o público se curve diante dela, "veja o que estou realizando!". É uma atriz boa e inteligente, mas não chega perto de Elizabeth na tela. Como não foi uma atriz de palco como Meryl, Elizabeth tinha uma debilidade vocal - quando falava mais alto, sua voz parecia esganiçada - o que foi perfeito para a personagem Martha, em Quem Tem Medo de Virginia Woolf, mas não tão bom no caso de Cleópatra. Mas era uma fruta madura, opulenta, suculenta. Desfrutava a vida ao máximo. Adorava comer e beber, amava quinquilharias e tinha um tremendo senso de humor - dizem que se podia ouvir sua gargalhada a um quilômetro de distância.
Camille Paglia - Imagem da Internet
Sua obsessão pela atriz é conhecida...
Elizabeth Taylor foi uma colossal deusa pagã para mim desde que eu tinha 11, 12 anos. Tive muita sorte em vê-la no auge. E minha sensibilidade como crítica de cultura e feminista foi profundamente formada por ela. Nos anos 50, nos EUA, as loiras eram o ideal ariano supremo. Doris Day, Debbie Reynolds e Sandra Dee comandavam. E havia Elizabeth Taylor, com aquele visual étnico, morena, linda. Parecia uma judia, uma italiana, espanhola, até moura! Era transcultural - uma resistência radical ao domínio da irmandade das rainhas e animadoras de torcida loiras. E sua sexualidade era visível naquele período tão puritano. Era ousada. Conquistou um homem atrás do outro. Roubou Eddie Fisher de Debbie Reynolds. Liz era má. Uma menina má. Adorava isso.

E não era o ícone exagerado e vulnerável como Marilyn Monroe...
Exato. Tinha grande resistência, comparada à ruína emocional de Marilyn Monroe e Rita Hayworth. Rita também projetou uma feminilidade maravilhosa na tela, mas Elizabeth era jogo duro, tinha instinto de sobrevivência. Conseguiu se recuperar de tragédias e experiências que quase a levaram à morte e transferiu esse sofrimento para as suas interpretações. Quem pode esquecer quando ela quase morreu de pneumonia em Londres, em 1961? Foi dramático vê-la sendo carregada numa maca e ser submetida a uma traqueotomia de urgência. Mas ela se recuperou e ganhou o Oscar. Aquela foi uma das grandes noites de TV em toda a minha vida, assistindo à entrega dos prêmios, rezando para que ela ganhasse. Quando subiu ao pódio com aquele decote e o pescoço nu, sem faixas, nem um curativo, de modo que todo mundo podia ver a cicatriz, disse com a voz entrecortada e débil, "muito obrigada". Foi um delírio.
Cena do Filme Butterfield 8
Ela conquistou o Oscar por Butterfield 8.
Butterfield 8 foi a minha bíblia. Elizabeth não queria fazer esse filme. Odiou o papel durante toda sua vida. Mas Butterfield 8 significou tudo para mim como adolescente. O filme formou muitas das minhas ideias sobre a tradição pagã que nos chegou da Babilônia e sobreviveu à violenta investida cristã na Idade Média. A primeira vez que você a vê no filme, naquela combinação apertada, colada no corpo, é fascinante. O vestido jogado no chão, ela escova os dentes com uísque, vai para diante do espelho e escreve, raivosamente, "não estou à venda" com batom. Para mim ela representava o poder supremo da mulher sexual. Houve um grande ataque feminista contra o símbolo sexual de Hollywood como se fosse mero objeto, uma commodity, passivo diante do olhar masculino. Isso é estupidez. Em Butterfield 8 há uma cena no bar em que ela está usando um vestido preto e brigando com Laurence Harvey. Ele a agarra pelo braço e ela pisa no pé dele com o salto fino do sapato. É o macho versus a fêmea - um jogo feroz em pé de igualdade. Ele é forte, mas ela também é. Essa cena mostra o poder e a intensidade da heterossexualidade, com todas as suas tensões e conflitos. Mostra também quão terrível é o cinema de Hollywood atual - com seu sexo falso e manufaturado. Butterfield 8 crepita de erotismo por causa da distância psicológica e a atração animal entre o macho e a fêmea. O filme captura as complexidades e lutas da sexualidade - tudo isso foi perdido neste nosso período de mudança de gênero fácil. A era das grandes rainhas do cinema acabou. Sharon Stone teve seu momento estelar em Instinto Selvagem. Não só na famosa cena do interrogatório na delegacia de polícia, mas em todas as outras ela comandou o sexo e a câmera. Ali, tive um breve momento de esperança: será que o sexo finalmente voltou a Hollywood? Mas não, eles jamais apresentaram novamente alguma coisa boa como essa para Sharon Stone.
Angelina Jolie - Imagem da Internet
Nem Angelina Jolie tem esse furor?
Para mim, o grande desempenho de Angelina foi em Gia, onde ela interpretou a modelo bissexual Gia Carangi, que morreu de aids. Angelina tinha a sensualidade e a energia animal de Ava Gardner, que ninguém conseguiu copiar. Mas depois que ficou famosa, decidiu se tornar uma incentivadora das causas humanitárias. Elizabeth fez isso, porém mais no final da carreira. De repente, Angelina acha que é a embaixadora das Nações Unidas para toda miséria humana, com uma coleção de filhos de várias raças. O resultado foi um total achatamento da sua imagem artística. Com base em todos os relatos, Elizabeth era uma mulher calorosa e maternal, uma qualidade fundamental para seu poder heterossexual. Ela gostava dos homens e eles gostavam dela. Havia química entre ela e eles, que vinha do seu próprio instinto maternal. A mulher heterossexual feliz e bem sucedida sente-se terna e maternal com relação aos homens. Mas isso se perdeu na nossa era feminista. Hoje as mulheres dizem aos homens: você tem que ser meu companheiro e ser como uma mulher; seja meu melhor amigo e escute minha tagarelice. Em outras palavras, as mulheres na verdade não gostam mais dos homens; elas querem que os homens sejam parecidos com as mulheres. Mas Elizabeth gostava de homens e os homens a amavam porque sentiam isso. Não que fosse uma pessoa fácil. Há as famosa brigas com Richard Burton. Nenhum homem jamais a dominou. Mas, ao mesmo tempo, seus homens não eram dominados por ela. Elizabeth gostava de homens fortes.

Estamos falando sobre uma pequena parte da carreira dela, mas décadas depois ela se tornou outra figura pública.
Certo. A caminho da biblioteca esta manhã, eu ouvia a rádio WABC, de Nova York, no carro e eles falavam como todos os estagiários acham que Elizabeth Taylor era apenas a amiga de Michael Jackson ou "aquela velha maluca numa cadeira de rodas". Para muitas pessoas mais velhas, no entanto, nossas vidas foram impregnadas por ela. Elizabeth despertou em nós emoções as mais profundas. É interessante notar a forte relação que ela sempre teve com homens gays, a começar por Montgomery Cliff. Foi sua grande amiga e conselheira. Depois, ele sofreu aquele terrível acidente de carro que deformou seu rosto. Eu li que ela saiu às pressas pela estrada em seu socorro e salvou-lhe a vida puxando a língua dele para fora. Uma cena sangrenta - Montgomery estava morrendo asfixiado. Ela tinha um dom para se comunicar intimamente com homens, gays ou não.
Catherine Deneuve - Cena do filme A bela da tarde.
Não há ninguém em Hollywood que tenha captado, como você disse, sua sensualidade viva e exuberante?
Acho que não. Mas há inúmeros exemplos na tradição europeia - estrelas genuinamente sexuais e maternais, como Sofia Loren. A ternura de Sofia Loren com os homens é óbvia. Ao mesmo tempo, ela é muito forte - a italiana de classe operária que sobreviveu à guerra. E temos as francesas, como Jeanne Moreau, cuja sexualidade manifesta é fabulosa. Mas ela tem algo de decadente que Elizabeth Taylor não tinha. O erotismo de Jeanne era matizado com uma espécie de enfado da vida, um cansaço: "Já vi tudo. O que você pode me mostrar?" As atrizes francesas também projetam uma feminilidade delicada. Catherine Deneuve, por exemplo, passa uma autêntica emoção e sensibilidade, mas é sempre fria, um pouco distante. Temos algumas atrizes com grande energia, exuberantes, como Stockard Channing e Bette Midler, mas sempre existe alguma coisa levemente irônica em relação a elas.
Sofia Loren - Imagem da Internet
É conhecido o fato de que você colecionou 599 fotos de Elizabeth Taylor quando era adolescente. Qual é a sua favorita?
A canônica cena de Elizabeth Taylor usando uma combinação branca, colada no corpo, no filme Butterfield 8, é uma das grandes imagens artísticas da minha vida. Ela é a mulher pagã da Babilônia - a deusa Ishtar, a anti-Maria. Essa foto prenuncia o despontar da revolução sexual, entre outras coisas. Mas as líderes feministas rejeitaram as sex-simbols de Hollywood desde o início. Raquel Welch ainda se queixava disso quando a entrevistei em 1994. Gloria Steinem não permitiu que Raquel discursasse numa manifestação pró-aborto, nos anos 70. Puritanas idiotas! Mas graças a Madonna, a ala defensora do pop e do sexo surgiu com uma vingança nos anos 90 e varreu os puritanos para a lata de lixo da história.
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Reportagem por Kerry Lauerman Salon
Tradução de Terezinha Martino
Fonte: Estadão online, 02/04/2011

São muitos, os céus

Rubem Alves*
O céu estava enfarruscado. O vento soprava nuvens cinzentas desgrenhadas. Nem lua nem estrelas. Bem dizia minha mãe que em dia de chuva elas se escondem, por medo de ficar molhadas. Lembrei-me de Prometeu: foi ele quem roubou dos deuses o fogo - por dó dos mortais em noites iguais àquela. Se não fosse por ele, o fogo não estaria crepitando no fogão de lenha. O fogo fazia toda a diferença. Lá fora estava frio, escuro e triste. Na cozinha estava quentinho, vermelho e aconchegante. No fogo fervia a sopa: o cheiro era bom, misturado ao cheiro de fumaça. Comida melhor que sopa não existe. Se eu tivesse de escolher uma comida para comer pelo resto da vida não seria nem camarão, nem picanha, nem lasanha. Seria sopa. Sopa é comida de pobre, que pode ser feita com as sobras. Pela magia do fogo, caldeirão, água e qualquer sobra vira sopa boa. Tem até a estória da sopa de pedra.
O fogo é um poder bruxo. Tem o poder de irrealizar o real: os olhos ficam enfeitiçados pela dança das chamas, os objetos em volta vão perdendo os contornos, acabam por transformar-se em fumaça. Quando isso acontece, começam a surgir, do esquecimento em que estavam guardadas, as coisas que a memória eternizou. O fogo faz esquecer para poder lembrar. Dizia sempre para os meus clientes que, em vez do divã, que lembra maca de consultório médico, eu preferia estar sentado com eles diante de um fogão aceso. É diante do fogo que a poesia aparece melhor. Não admira que Neruda tivesse dito que a substância dos poetas são o fogo e a fumaça.
"- Antigamente eu costumava propor uma troca com Deus: um ano de vida por um dia só dia da minha infância. Hoje não faço isso. Tenho medo de que ele me atenda. Não acho prudente, na minha idade, dispor assim dos meus anos futuros, pois não sei quantos estão ainda à minha espera..." Assim falou a Maria Alice com voz mansa , saudade pura. O fogão de lenha é lugar de saudade. Porque os fogões de lenha, eles mesmos, são fantasmas de um mundo que não mais existe.
"- Quando eu era menino, lá em Mossâmedes, nas noites frias a gente se reunia na cozinha, todos assentados em volta de uma bacia cheia de brasas, os pés nos pauzinhos das cadeiras, era bom o calor do fogo nos pés frios..."
"... a mãe enrolava um pano na cabeça e dizia: 'Vou quintal apanhar umas folhas de laranjeira pra fazer um chá pra nós' - e virava a taramela para abrir a porta da cozinha. O pai dizia sempre a mesma coisa, todo dia: - 'Mulher, você vai é ficar estuporada, de boca torta. Faz mal tomar friagem com corpo quente de fogo...' Mas a mãe nem ligava. Com as canecas quentes de chá na mão - como era bom o cheiro de folha de laranja! Posso até sentir ele de novo" - a gente pedia ao pai pra contar estórias. Ele contava. Eram sempre as mesmas. A gente já sabia. Mas era como se ele tivesse contando pela primeira vez. vinha sempre o assombro, o medo, os arrepios na espinha."
Aí ele parou e começo a divagar. Lembrou-se de um tio.
"- Naquele tempo as pessoas eram diferentes. Pois esse meu tio tinha, na frente da casa dele, uma sala grande, vazia, que nunca era usada. Houve gente que quis alugar a sala - ele receberia um bom dinheirinho por ela. Recusou. E se explicou: - Não alugo, não. É dessa sala que eu vejo a chuva vindo, lá longe. Se eu alugasse, ficaria triste quando a chuva viesse...' É, as pessoas eram diferentes..."
Houve um silêncio. Aí a memória poética se transformou em imaginação teológica.
"- Eu acho que há muitos céus, um céu para cada um. O meu céu não igual ao seu. Porque céu é o lugar de reencontro com as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. No céu está guardado tudo aquielo que a memória amou..."
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*Escritor. Teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 03/04/2011
Imagens da Internet

sábado, 2 de abril de 2011

Geoff Dyer - Entrevista

"Inclassificável", Dyer faz visita ao Brasil

Imagem da Internet

Escritor inglês, elogiado pela crítica por ter um estilo original, participou do lançamento da revista "Serrote"
O autor, que diz ser fã de bossa nova e da obra de Machado, lança em 2012 um livro sobre o filme russo "Stalker"

DANIEL BENEVIDES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O simpático escritor inglês Geoff Dyer parece sempre acompanhado de uma enorme curiosidade.
Na curta passagem pelo Brasil, foi à praia, estádio de futebol e museus. E participou dos lançamentos da nova revista "Serrote", com palestras nos Institutos Moreira Salles do Rio e de São Paulo.
Em conversa com a Folha, falou sobre seu estilo peculiar, que fez com que fosse considerado "totalmente inclassificável" e angariasse elogios rasgados de Martin Amis, Zadie Smith, Christopher Hitchens e outros.

Folha - Como é ser "totalmente inclassificável"?
Geoff Dyer - É o natural para mim. Eu apenas escrevo de um jeito que parece funcionar. Não é para me gabar, mas seu fosse a um médico, eu diria: "Doutor: eu tenho um problema; acho sou um escritor bastante original".

E como você definiria essa originalidade?
Fui muito influenciado por Roland Barthes, Thomas Bernhard, John Berger e outros. Mas sempre que eu quis parecer com essas pessoas, acabava parecendo comigo mesmo. No jazz é a mesma coisa, você só encontra sua voz tentando imitar alguém.

No ensaio da "Serrote", "Sobre Ser Filho Único", você revela que quase não havia estímulo cultural em casa. Seus pais leem seus livros?
Não, ainda bem (risos). Mas eles têm bastante orgulho do que faço. Os únicos livros na sua casa são os meus. Eles adoram esse estranho objeto que permite que eu não precise ir ao trabalho e ainda assim ganhe dinheiro.

Você cita como mentores alguns escritores engajados politicamente, como John Berger e o marxista Raymond Williams. Como você se coloca diante da política?
Fico surpreso que meus textos sejam apolíticos. Como pessoa, me importo bastante com o desespero e a miséria no mundo. E o fato de ter nascido numa família da classe operária certamente mexe comigo. Mas como escritor é diferente. Acho que é assim que funciona a disposição literária de cada um.

Você ainda se considera um "penetra"?
Não, seria muito autoindulgente da minha parte. No momento em que publiquei o ensaio dizendo que eu era um penetra, já não era mais. Agora sou aquele que é convidado (risos).

Para o "Instante Contínuo" você se inspirou numa curiosa classificação de animais, feita por Borges.
Esse livro demandou sua própria forma de estrutura. Combina bem com a internet, em que você pode mover a página para várias direções ao mesmo tempo. É mais ou menos o que Borges dizia com seu "Aleph", em que você pode ver tudo ao mesmo tempo. Tentei juntar o sucessivo ao simultâneo.

Como você vê as fotos em que você é o retratado?
(Ri) Boa pergunta. Richard Avedon dizia: "Eu não gosto dessa foto de mim, mas não posso dizer que não sou eu". Essa é uma verdade crucial sobre a fotografia. Tenho sido fotografado várias vezes nos últimos tempos. E o que eu vejo é esse cara grisalho de meia-idade. Quando eu ando na praia, esqueço da minha aparência; mas a fotografia me lembra dessa terrível verdade (risos).

Do que você gosta no Brasil ?
Ah... bossa nova, Jorge Amado, Machado... vou perguntar algo terrível: Saramago é português ou brasileiro?
Português.
OK, foi mal (risos). Bem, Sebastião Salgado...

E o que você acha dele?
Ele tem esse coisa épica ao retratar a pobreza. Não é o tipo de fotógrafo que me atrai mais. Prefiro trabalhos mais casuais, como os de Garry Winogrand.

Próximos planos?
Meu editor me pediu um livro sobre tênis, um esporte que eu adoro. Até pensei em escrevê-lo, mas por alguma razão, que deixou meu editor louco da vida, acabei escrevendo um livro inteiro sobre o filme "Stalker", do cineasta russo Andrei Tarkovski. Sai na Inglaterra em fevereiro de 2012. É um livro totalmente insano e muito engraçado.

RAIO-X
GEOFF DYER

VIDA
Nasceu em 5/6/1958, em Cheltenham, Inglaterra. Formou-se no Corpus Christi College, em Oxford

LIVROS
Autor de "Ioga Para Quem Não Esta Nem Aí" (2003) e "Jeff Em Veneza, Morte Em Varanasi" (2009). A obra "But Beautiful: A Book About Jazz" (1991), vencedora do prêmio Somerset Maugham Award, não tem tradução no Brasil

JORNALISMO
Tem artigos publicados em jornais como "The Guardian", "The Independent", "New Statesman", "Esquire" e "The New York Times"

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Fonte: Folha online, 02/04/2011

Por que o câncer ainda é tão letal?

A mais dura campanha

José Alencar perdeu o combate contra a doença, mesmo assistido por renomados especialistas. Afinal, por que o câncer ainda é tão letal? Essa é uma das questões para o brasileiro Antonio Wolff, oncologista e professor em Baltimore (EUA)

Mônica Manir - O Estado de S. Paulo

‘O câncer para mim não é novo", já diria José Alencar em 2006, referindo-se aos primeiros tumores de seu extenso protocolo médico. Em 1997, na antevéspera do Natal, ele extraíra um do rim direito e outro do estômago, ambos malignos, e iria nessa toada pelos anos seguintes, completando um currículo de 17 cirurgias, sistemáticas sessões de quimioterapia e um procedimento experimental nos Estados Unidos que o fez, enfim, anunciar: "É preciso que haja uma evolução no tratamento para que o paciente fique mais seguro, porque, no fim, ele vira uma cobaia, que é o que acontece comigo".
Para o oncologista Antonio Wolff, brasileiro radicado nos EUA desde 1988, o câncer também é velho de guerra, mas como foco de pesquisa. Professor da Johns Hopkins, ele faz a ponte entre a bancada do laboratório e o leito do paciente, buscando especificar o câncer que trata - o de mama. A proposta, que ele estende aos demais tipos de tumor, é aos poucos trocar o bombardeio indiscriminado da quimioterapia pelo míssil teleguiado de novos medicamentos, que vão direto ao ponto, com o mínimo possível de efeitos colaterais.
Sob o sotaque chiado de um carioca da gema, entremeado por expressões em inglês prontamente traduzidas, Wolff explica a seguir o que há de novo no horizonte dessa doença multifacetada, começando pela incidência e terminando pela cura.

O que nos leva a crer que há mais pessoas morrendo de câncer? A maior divulgação da doença? O envelhecimento da população?
O envelhecimento, sem dúvida. O que vem acontecendo nas últimas décadas é o aumento da expectativa de vida da população, seja nos países desenvolvidos, seja nos países em desenvolvimento, em função especialmente da melhoria das condições socioeconômicas. E o câncer é uma doença que, em geral, afeta as pessoas mais velhas. Há uma quantidade pequena de casos com motivação genética, que pode estar ligada a uma mutação. Isso explica tumores em pacientes mais jovens. Mas na maioria das vezes o câncer provém de um acúmulo, ao longo dos anos, de pequenos defeitos na duplicação do DNA que fazem com que certas células venham a ter uma vantagem replicante de sobrevivência. Elas não morrem, mas se imortalizam e perdem o freio.

Existe uma idade a partir da qual todos devem se preocupar?
Não funciona assim, como um interruptor que o corpo ativa a partir de certo momento. É cumulativo. Aos 50 anos, por exemplo, o risco de câncer de mama é de 1 caso em 50. Aos 80 anos, é de 1 em 9. O risco vai aumentando gradativamente. A boa notícia quanto ao envelhecimento é que, quanto mais se vive, mais se vive. Funciona como numa maratona. No primeiro quilômetro, você não tem muita ideia de quem vai completar a prova. Mas quem já fez os primeiros 20 quilômetros tem uma chance muito maior de chegar aos 42 do que aquele que está começando. Os que resistiram até o quilômetro 35 com certeza terminarão a corrida. Em outras palavras, a expectativa de vida aos 65 anos de idade é de mais 20 anos. Aos 75 anos, não é de 10 anos a mais, mas de 12 anos, isto é, espera-se que a pessoa chegue até os 87 anos. Aos 85 anos, a expectativa é de mais 6. Ou seja, aos 91. Faz parte do processo natural de seleção. Mas para isso também é importante se cuidar, evitar o fumo e a obesidade, que aumentam o risco de doença cardíaca e diabete, fazer exercícios. Ou seja, usar bom senso.

Entre os fatores ambientais que poderiam ajudar a disparar o gatilho da doença, quais o senhor destacaria?
Aqui também se pode falar em acúmulo de fatores: há o fumo, o álcool, a radiação... Nos casos de câncer de pulmão e de câncer de cabeça e pescoço (boca, língua, laringe, cordas vocais), o fumo é o mais importante. Há uns 30 anos, o hábito de fumar entre os homens começou a diminuir, ao mesmo tempo que aumentava esse vício entre as mulheres a partir da liberação feminina nos anos 60, 70. Daí decorreu uma pequena redução na frequência de câncer de pulmão em fumantes do sexo masculino e uma maior incidência e mortalidade nos do sexo feminino. Agora, com um atraso de dez anos em relação aos homens, pela primeira vez o câncer de pulmão não é mais o primeiro em mortalidade feminina. Está começando a cair, o que reflete a eficácia das campanhas antifumo a partir do final dos anos 80.

Há algo comprovado em relação ao uso exagerado do celular?
Já cogitaram a associação do uso frequente do celular com o desenvolvimento de tumores no cérebro, mas não existe nenhum estudo definitivo a respeito. O que se sabe, isso sim, é que o álcool e o fumo são uma combinação perigosa para detonar tumores de cabeça e pescoço.

Que efeitos a radiação nuclear pode provocar nas células?
Pensando em Fukushima, sabe-se, depois de três semanas da tragédia, que os níveis de iodo radioativo encontrados no leite e em outros alimentos não são perigosos para adultos, mas para crianças que viviam perto da usina nuclear japonesa, já que a tireoide delas é mais sensível a essa exposição. Ou seja, a preocupação maior é com a tireoide infantil. Mas confesso que, quando você mencionou a palavra radiação, de imediato pensei nos raios solares e no câncer de pele. Não falo só do melanoma - o mais grave, com risco de mortalidade muito maior, porém mais raro -, mas do carcinoma basal, relacionado à exposição aos raios UV. E há também a exposição à poluição ambiental proveniente de outras fontes de energia. Nos EUA, ao redor de 30% da energia produzida vem do carvão e 5% das usinas hidroelétricas, exatamente o oposto do Brasil. O número de pessoas que morrem de câncer anualmente em função de problemas ambientais ligados à extração do carvão e às usinas termoelétricas acaba sendo muito maior do que o número de pessoas que possivelmente foram ou serão afetadas por esse acidente nuclear no Japão.

Pesquisas americanas apontam que metade dos homens e 1/3 das mulheres terão câncer. Por que eles são mais suscetíveis?
Provavelmente por causa de fatores ambientais. Embora o consumo de cigarros venha diminuindo entre os homens, ele está aumentando em países como a China, por exemplo. Comparando os sexos quanto aos tipos de câncer, sabemos que tanto para eles como para elas a incidência de câncer no fígado, no pâncreas e nos rins vem aumentando, assim como o melanoma.

No caso de tumores mais agressivos, como o que afetou o ex-vice-presidente José Alencar, faz diferença descobri-los quanto antes?
O diagnóstico precoce é fundamental no câncer ginecológico, do intestino grosso e de mama, por exemplo, mas no de pulmão e de pâncreas, principalmente neste último, o risco de desenvolver metástase é muito grande, mesmo em tumores diagnosticados precocemente.
"Na minha especialidade,
metade das pacientes com
doença metastática morre ao
 final de dois ou três anos.
Ao mesmo tempo,
cerca de 10 a 15% delas ainda estão vivas,
e com a doença,
dez anos depois."

Metástase é sentença de morte?
Depende do tipo de câncer. Na minha especialidade, metade das pacientes com doença metastática morre ao final de dois ou três anos. Ao mesmo tempo, cerca de 10 a 15% delas ainda estão vivas, e com a doença, dez anos depois. Isso varia em função do subtipo de câncer de mama que tenham desenvolvido. Com a maior integração entre os pesquisadores de laboratório e os pesquisadores clínicos, aprendemos a identificar de uma maneira mais acurada esses subtipos, o que pode levar a prognósticos bem diferentes.

O tratamento também varia em função do subtipo?
Sem dúvida. O câncer de mama, hoje, não é mais conhecido apenas como um tipo de câncer, mas como, pelo menos, quatro ou mais. Isso nos permite tratamentos mais individualizados, com uma perspectiva maior de eficácia e um risco menor de toxicidade. Existem muitas mulheres com diagnóstico de câncer de mama nas quais diminuímos o risco de recorrência futura após a cirurgia com o uso de agentes antiestrógeno como o tamoxifeno, uma medicação oral, um comprimido enfim, que pode ser mais eficiente para tumores com receptores de estrogênio do que o tratamento com quimioterapia. O comprimido pode inclusive ser ministrado como preventivo para mulheres que tenham um risco definido de desenvolver o câncer num prazo de cinco anos. Em vários casos, até contraindicamos a químio como parte do tratamento.

A quimioterapia estaria com os dias contados?
Quimioterapia é um tratamento muito genérico, mas ela ainda persistirá. De qualquer forma, estamos aprendendo a usá-la de maneira mais específica, sempre em menor quantidade, em casos mais selecionados e com melhores medicamentos de suporte que diminuam efeitos colaterais como náusea e vômitos. Começamos, portanto, a ter remédios que atacam pontualmente certos defeitos genéticos. Em vez do bombardeio geral, buscamos o míssil teleguiado. Num tratamento de câncer de mama, a quimioterapia seria o bombardeio, mas se conseguirmos identificar que a paciente tem uma amplificação de um gene chamado HER2, por exemplo, ela poderá receber um anticorpo que ataca especificamente aquela proteína. Esse anticorpo não causa dano às células padrão, só às anormais.

Há pesquisas comprovando a eficácia dos fitoterápicos?
Meu receio são as modas, o que chamamos em inglês de wishful thinking. São tratamentos recomendados aos pacientes sem nenhum embasamento científico, sem nenhum estudo comprovado. Mas a maior parte dos doentes toma alguma coisa, que seja uma dose maior de vitamina ou uma substância natural, que um amigo recomendou.

Eles confessam o uso desses recursos?
Muitos não confessam, mas sugiro aos meus pacientes que me contem tudo, porque prefiro manter minha cabeça aberta - mesmo porque existem tratamentos alternativos que podem ter uma interação negativa com a quimioterapia, aumentando sua toxicidade ou diminuindo sua eficácia. Peço que dialoguem comigo para saber se faz sentido aliar essas duas frentes. É uma negociação.

O que podemos esperar da terapia gênica?
Pesquisas, mais pesquisas. Esses estudos, aliás, já nos permitem reconhecer os danos genéticos mais fundamentais de tipos diferentes de câncer, o que pode nos ajudar a desenvolver as tais drogas específicas para atacar as células mais primitivas do tumor.

Há perspectiva de uma vacina contra a doença?
Levará um tempo para se chegar a uma vacina desse gênero. Mas uma proporção significativa do custo mundial da doença poderia ser diminuída com a vacinação contra o vírus da hepatite B, doença que pode levar ao câncer de fígado, que é endêmico no Sudeste da Ásia. Da mesma maneira poderíamos aumentar o acesso à vacina contra o HPV, principal causa do câncer cervical, um problema nos países em desenvolvimento. Há a recomendação dos pediatras para que, a partir dos 11 anos de idade, tanto as meninas quanto os meninos sejam vacinados contra o vírus do papiloma humano - antes, portanto, que comecem a atividade sexual na adolescência ou como adultos jovens.

O que existe de mais avançado com relação à imunoterapia?
Na semana passada foi aprovado um medicamento pela FDA, o ipilimumabe, anticorpo que ataca proteínas de linfócitos e pode aumentar a sobrevida de pacientes diagnosticados com melanoma. Esse tipo de câncer de pele tem se mostrado, de certa maneira, intratável - a não ser com cirurgia, e nos estágios iniciais. Nos avançados, a quimioterapia e outros imunoterápicos têm uma ação reduzida.

Em função desse cenário heterogêneo do câncer, há como vislumbrar a cura plena?
Temos que ser um pouco mais honestos conosco e com o público em geral. Você pode dizer que vamos curar a doença cardíaca? Isso não seria realista. Da mesma forma a cura do câncer. Ele não é apenas uma doença. Tipos diferentes podem afetar órgãos diferentes. E o tratamento é individualizado em função do tipo de tumor, do subtipo e do órgão que está sendo afetado. Além disso, se o aumento de casos está muito vinculado ao envelhecimento, não teremos como barrar essa evolução. O que conseguiremos é diminuir a incidência ligada a fatores ambientais, melhorar o diagnóstico precoce, diminuir a morbidade em função do tratamento nas fases iniciais. Naqueles diagnosticados com metástase, pensa-se no controle da doença e na sobrevida graças ao tratamento multidisciplinar com cirurgiões, radioterapeutas, oncologistas. Só nos EUA há 12 milhões de sobreviventes de câncer, curados ou com a doença, grande parte deles reintegrados a uma vida normal e produtiva. Isso, sim, é um dado realista.
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Fonte: Estadão online, 02/04/2011

“Cisne Negro” e a dor de uma alma reclusa

HELENA ARDAIZ SURREAUX*

O FILME DO DESASSOSSEGO 

Filme de Aronofsky traz desconforto porque vai a fundo na investigação de uma vida esvaziadaCisne Negro, o filme de Darren Aronofsky, estrelado por Natalie Portman, não passa despercebido, provocando intensa reação no público em geral. Já na sessão a que assisti, houve atraso de início porque alguém havia passado mal e necessitou ser retirado da sala. Surpreendentemente, durante a sessão seguinte, a situação se repetiu: nova interrupção para que uma jovem, visivelmente mareada, pudesse ser removida do local.
Tais reações frente a uma obra convidam a refletir acerca da experiência vivencial que ela oferece. Em que pontos da alma ela toca para causar desassossego e tão difícil metabolização emocional?
Em uma atmosfera lúgubre, o relato é o da vida que a bailarina Nina leva junto com sua mãe, possessiva, uma relação exclusivista, privada de amigos, vida social e com uma meta única: a performance perfeita na dança clássica. A condução consistente de Aronofsky aos poucos insinua as obscuras entranhas de uma relação entre filha e mãe, afável apenas em aparência. A obsessão desta última em autorretratar-se, cobrindo uma parede inteira com desenhos roçando o sinistro, seu discurso explícito de ter abortado uma promissora carreira de bailarina por uma gravidez (de Nina), falam de egoísmo e de sua consequente incapacidade de ver a filha com sentimentos e visão de mundo próprios.
A imagem de mãe dedicada e extremosa vai cedendo lugar à da mulher amarga e obstinada na realização de suas metas pessoais frustradas, apropriando-se, para isso, da vida da filha. Esta, inconscientemente, entrega-se a esse objetivo alheio, hipotecando sua existência no vão propósito de remendar os fracassos maternos, realizando-o no sonho narcisista da perfeição técnica como bailarina. Tal vicissitude da relação pais-filho, surpreendentemente frequente na clínica psicanalítica, produz sofrimento reconhecível na infelicidade e no alheamento daquele que o padece, com respeito às “suas” realizações.
A pessoa que tem sua alma hipotecada em prol de outro anda pela vida como um robô, fazendo coisas que não sabe para quê, nem por que e nas quais não obtém prazer. A bailarina funcionava como um autômato programado para a conquista de uma meta determinada e esse era o sentido que animava sua existência. Tal sentido, não sendo construído pela personagem na sua experiência de viver, mas implantado, como um chip maligno que a sobrecarregava com a responsabilidade de reparar as lacunas da outra, a condenava a um insuportável vazio de si mesma.
"A pessoa que tem sua alma hipotecada
em prol de outro anda pela vida
como um robô, fazendo coisas que
não sabe para quê, nem por que e
nas quais não obtém prazer."
O jogo de culpas que se travava entre mãe e filha fica bem retratado na cena em que Nina rejeita o bolo oferecido pela mãe. A reação desta é imediatamente culpabilizadora, ameaçando jogar o doce no lixo, até que a filha, visivelmente perturbada, volta atrás e aceita comê-lo.
As constantes automutilações da jovem, como os arranhões nas costas e a extirpação das unhas podem ser lidas como decorrentes de sua escassa sensação de existir; provocando-se dor e lesões, testava os limites do seu corpo, bem como a sua presença concreta no mundo. Assim como Nina, todos somos oriundos de um desejo parental que nos constitui, nos dá consistência para existir psiquicamente. Temos, portanto, que levar, pela vida afora, o caldo que somos, cuidadosamente cultivado, engendrado nas entranhas indissociáveis de pais e filho, desde o início da vida.
Entretanto, em algum momento, para encontrar-nos adultos, temos que atravessar uma fronteira, cuja aduana exige um tributo por esse transporte, a ruptura com o desejo parental, quando este vai além de seus limites, invadindo o sujeito com uma carga que não lhe pertence.
Este corte é vivido com dor também pelo filho, para quem decepcionar os pais vem junto ao temor de perder o seu amor. O desamparo, mais evidente nessa fase, faz da criança um ser necessitado de afeto e dedicação para protegê-la do mundo. Não hesita em sacrificar o que estiver ao seu alcance com o propósito de manter os pais motivados na tarefa de tornar-lhe suportáveis as tensões do mundo, permitindo-lhe metabolizar a experiência de viver.
Esse modelo, impresso pelo desamparo, tem tal força que teima em estender-se, às vezes anacronicamente, para além da infância, quando os progenitores já não são vitais à sobrevivência. Todos os pais, inconscientemente e em alguma medida, valem-se desse poder para o gozo narcisista de ver os filhos transitando por valores comuns aos seus. Até certo ponto isso é natural e desejável. Até certo ponto.
Quando a influência dos pais passa a ser invasão? Quando denota a paralisação de aspectos importantes da vida do sujeito, situação que vem acompanhada de angústia, sensação de estranheza, confusão, insatisfação nos investimentos, impossibilidade de desfrutar do que faz. Uma espécie de obstaculização em seu movimento existencial, devido à intromissão tirânica do desejo parental, geralmente movida por conflitos pendentes do passado dos pais, que se transmitem, num movimento inconsciente, para a geração seguinte.
Nina se vê frente ao desafio mais importante de sua vida ao ser escolhida pelo poderoso e sedutor Thomas Leroy, coreógrafo da companhia de balé, para desempenhar um rol protagonista, cobiçado por todas as bailarinas. Trata-se do papel de Odete, doce e obediente rainha dos cisnes, em nova versão do clássico O Lago dos Cisnes, de Tchaikowsky. Mas o papel exige também a representação do duplo de Odete, Odile, a feiticeira, que aparece sob a forma de um cisne negro, que simboliza paixão, sexualidade e maldade, aspectos que a personagem não consegue retratar, dada sua limitação afetiva, reparada na busca obssessiva da perfeição técnica.
"...ao buscar a paixão dentro de si mesma,
Nina só encontra o vazio.
E o vazio é o supremo horror.
Nada mais terrível do que ser confrontado
com o vazio de sua existência."
Acredito que o mal-estar que provoca o drama da bailarina vai muito além de um confronto da personagem com uma parte obscura de si mesma. O que é exigido dela é muito mais difícil: que se encontre com algo que não tinha – a paixão.
Este estado é exclusivo das almas livres, que já transitaram pelas areias escaldantes do desejo e conseguiram construir uma existência que repousa numa identidade singular, formada da síntese do sonho que as constituiu e da ruptura com ele. Esse me parece o aspecto mais nauseante e desesperador para o público: ao buscar a paixão dentro de si mesma, Nina só encontra o vazio. E o vazio é o supremo horror. Nada mais terrível do que ser confrontado com o vazio de sua existência.
Aí se precipita o processo de enlouquecimento da personagem. A busca do “cisne negro”, em vez de anunciar o enriquecimento de sua personalidade por multifacetar-se com o surgimento de novos aspectos, traz a morte, já que não havia um estofo de representação de si mesma que sustentasse a descoberta. Em estruturas psíquicas frágeis como a de Nina, escavações profundas são vividas como violência e provocam o desmoronamento do frágil edifício que abriga a sua alma.
Ao invés da insuportável pressão que sofreu por parte de seu diretor artístico, a personagem necessitaria de uma intervenção que visasse, antes de tudo, dar consistência psíquica a sua humanidade, encontrando o seu contorno singular. Essa é a condição para a construção da sexualidade, da paixão e da fruição estética da vida. Primeiro, é necessário existir!
"Penso que o material de onde
tira seu cisne negro é do único
desejo genuíno nela: o de existir.
Esse é o seu profundo clamor
pelo que a vida lhe negou."
No filme, entre alucinações e delírios, Nina por fim consegue desempenhar o cisne negro com a intensidade que se esperava dela. Mas de onde tira material para essa performance? Retomemos: para realizar o projeto traçado pela mãe, tinha de realizar o sonho da bailarina perfeita, por isso o cisne branco, representação da fantasia e do desejo materno, fluía perfeitamente em sua dança. No entanto, para chegar ao seu destino, tinha de se encontrar com o cisne negro, tudo o que lhe fora negado e proibido na relação com a mãe, que consumia a sua vida. O “cisne negro” pressupõe ser tocada pela mágica de um homem (pai) que a transforme em “princesinha” (como passou a chamá-la Leroy) e descubra a sua feminilidade ardente e apaixonada. E o paradoxo se equaciona da seguinte forma: para cumprir com o projeto de sua existência, chegando à performance perfeita, teria que desobedecer e descobrir em si um cisne negro.
Penso que o material de onde tira seu cisne negro é do único desejo genuíno nela: o de existir. Esse é o seu profundo clamor pelo que a vida lhe negou. E o cisne vem e se apodera dela, realizando a tragédia já anunciada na condição asfixiante de sua humanidade.
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*Psicanalista
Fonte: ZH online, 02/04/2011
Imagem da Internet

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Arte

A Galeria Opera em Nova York recebe uma mostra em homenagem aos 15 anos do seriado South Park. A exposição reúne 15 artistas que reinterpretam seu personagem favorito ou momentos da série animada. Participam os artistas Colin Christian, Sas Christian, Beau Stanton, Kid Zoom, Dave White, KaNo, Kathie Olivas, Clark Fox, Greg Simkins, Mark Dean Veca, Lindsey Way, Naoto Hattori e Tristan Eaton.


A Última Ceia em South Park de Ron English Scott Beale / Laughing Squid
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Fonte: http://blogs.estadao.com.br/radar-cultural/exposicao-comemora-15-anos-do-south-park-em-ny/

Seres infames

Juremir Machado da Silva*
Crédito: ARTE RODRIGO VIZZOTTO

Mostrei ao governador Tarso Genro, na terça-feira, antes de entrevistá-lo na comemoração do primeiro ano do "Esfera Pública", programa que apresento todos os dias, entre 13h e 14h, na Rádio Guaíba, junto com Taline Oppitz, um parágrafo do livro "O Abolicionista", de Joaquim Nabuco, um dos maiores intelectuais brasileiros. Tarso, homem de livros e de sensibilidade social, sabe perceber a força das palavras. Dizia Nabuco, antes da abolição da escravatura: "Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para a habitação e cultura, estradas e edifícios, canaviais e cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas, alfândegas e correios, telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais, tudo, absolutamente tudo que existe no país, como resultado do trabalho manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar", doação forçada dos negros aos brancos.
Os negros "doaram gratuitamente" o Brasil construído aos brancos, que nunca os indenizaram por isso. Sempre que alguém brada contra as cotas, eu penso nessa dívida jamais quitada. Somos todos beneficiados por essa "doação" obtida de maneira infame. Pensei nisso ao ler as declarações do indigesto Jair Bolsonaro ao ser questionado por Preta Gil, no programa "CQC", se aceitaria o relacionamento de seu filho com uma negra. O infame Bolsonaro, com quem já discuti na Rádio Guaíba, respondeu que "não corria o risco", pois "eles foram muito bem-educados". Bolsonaro deveria ler esse texto de Joaquim Nabuco. Mas seria inútil. Analfabeto intelectual, ele não o entenderia. Nos últimos anos, só discuti com um sujeito tão intragável quanto Bolsonaro, o insuportável Juca Chaves, cujo reacionarismo já não faz mais ninguém rir.
"Para Joaquim Nabuco não havia dúvida,
"o abolicionismo deveria ser a escola primária
de todos os partidos, o alfabeto da nossa política".
Tudo o mais era menor. Continua sendo.
Precisamos abolir o preconceito."
Bolsonaro alega que se enganou. Não teria pensado que Preta falava em relacionamento do filho dele com uma negra, mas com um gay. Tenta escapar da infâmia racista abrigando-se na infâmia do preconceito sexual. Além de racista e homofóbico, parece burro, se isto não for preconceito meu com esses pobres animais. O preconceito corre solto no Brasil. Tapamos o sol com a peneira nos estádios de futebol. Depois que publiquei "História Regional da Infâmia, O Destino dos Negros Farrapos e Outras Iniquidades Brasileiras", vi pessoas mudaram de comportamento comigo. Não me assusto. Releio Nabuco sobre o primeiro dever de qualquer um no século XIX: "Antes de discutir qual o melhor modo para um povo ser livre de governar-se a si mesmo - é essa a questão que divide os outros - trata de tornar livre a esse povo, aterrando o imenso abismo que separa as duas castas sociais".
Para Joaquim Nabuco não havia dúvida, "o abolicionismo deveria ser a escola primária de todos os partidos, o alfabeto da nossa política". Tudo o mais era menor. Continua sendo. Precisamos abolir o preconceito. Enquanto os Bolsonaro da vida vomitarem infâmias, será preciso combatê-los a golpes de Nabuco. Demora. A inteligência cala lentamente no concreto da estupidez.
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* Filósofo. Escritor. Tradutor. Colunista do Correio do Povo
Fonte: Correio do Povo online, 31/03/2011

Comunicar, como está acontecendo?


Olá BLOGUEIRO/A,
Será que estamos conseguindo nos
comunicar adequadamente em nosso dia a dia?
- Quando estamos falando, as pessoas entendem
o que dizemos?
- Quando estamos ouvindo, entendemos
o que estão nos falando?
- O produto de nossas comunicações
são situações harmônicas?
Nós, como emissores ou receptores,
estamos preparados para
uma comunicação sustentável?

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Fonte: Reflexão NORTUS

A natureza reclama

Reportagem de capa:
Mortes e prejuízos com catástrofes naturais
tendem a crescer, de acordo com climatólogos.


Minamisanriku, cidade no nordeste do Japão,
foi arrasada em março pelo terremoto seguido de tsunami,
que provocou um vazamento de radiação
na usina nuclear de Fukushima

A pergunta pode ser feita de três maneiras: estariam os desastres naturais mais frequentes, seja ou não por culpa do ser humano? Ou terá sido simplesmente o acesso à informação que se tornou mais eficiente? Ou ainda, será que o ser humano, empurrado pelo crescimento populacional, se expôs aos perigos da natureza, ao ocupar regiões suscetíveis a terremotos, vulcões, enchentes, queimadas, secas, ciclones etc.?
Não é impossível que a resposta correta para todas as perguntas seja positiva. "Quando penso nas nevascas de 2010 no Hemisfério Norte, os temporais no Brasil, as queimadas na Rússia, eu me pergunto: será que isso tudo acontece porque nós poluímos? Ou será algo em nível global? Não dá para saber ao certo com as informações que temos", disse ao Valor o sismólogo Afonso Lopes, do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo (IAG-USP).
A Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, mantém um Centro de Estudos de Epidemiologia de Desastres (Cred), que contabiliza anualmente os desastres naturais e seus estragos, tanto humanos quanto econômicos. De 1970 a 1982, o número de desastres identificados ficou entre 60 e 160. Em 1990, atingiu-se o pico de 278 desastres, superado apenas pelos 413 de 2000 e os 421 de 2002. O recorde foi atingido em 2005, com 432 eventos calamitosos. Em comparação, os 373 casos de 2010 parecem modestos, embora incluam o terremoto de 7,0 graus na escala Richter que atingiu o Haiti, matando 316 mil pessoas.
A diretora do Cred, Debarati Guha-Sapir, adverte que muito desse aumento é fruto de efeitos estatísticos. Os desastres naturais só passaram a chamar a atenção de pesquisadores a partir da década de 1970 - o Cred foi fundado em 1973. É normal que se detectem mais catástrofes quando alguém as procura e cataloga, como explica a própria Guha-Sapir. Na classificação do Cred, um evento é um desastre natural quando afeta diretamente ao menos cem pessoas, ou deixa um mínimo de dez mortes.
É possível, porém, discernir quanto do acréscimo resulta de um aumento nas ocorrências e quanto resulta da melhor capacidade de as encontrar. Os desastres naturais podem ser divididos em dois grandes tipos. Os "geológicos" são aqueles que têm origem, como diz o nome, na estrutura geológica do planeta: terremotos, maremotos, vulcões. Os "hidrometeorológicos" são fenômenos climáticos, como ciclones, enchentes, secas, ondas de calor ou frio, vendavais. A maior parte dos climatólogos estima que a principal razão do possível aumento nas catástrofes naturais é a atividade do ser humano, em particular o efeito estufa e as mudanças de regime de chuvas em consequência do desmatamento.
O físico americano Michael Mann, um dos principais estudiosos de climatologia do mundo, explicou ao Valor a utilidade de observar separadamente os tipos de desastres naturais. "A mudança do clima causada pelo ser humano provocará um aumento na frequência de certos tipos de desastres naturais: ondas de calor, enchentes, furacões. Por outro lado, não há ligação evidente de fenômenos como tsunamis e terremotos com as mudanças climáticas." Ou seja, os fenômenos geológicos não se seguem da ação humana. Já os fenômenos hidrometeorológicos podem resultar de atividades como a emissão de gás carbônico, o desmatamento, o crescimento das metrópoles e a manipulação de bacias hidrográficas. Portanto, é lícito concluir que todo aumento verificado nos dados de desastres geológicos advém da coleta mais precisa de informações. Para os fenômenos hidrometeorológicos, o acréscimo que ultrapasse essa proporção pode ser imputado ao ser humano.
Fábio Motta/Agência Estado
Teresópolis, na serra fluminense, foi atingida por mais de quatro horas de chuva
na madrugada de 11 de janeiro: em toda a região,
 mais de 900 pessoas perderam a vida e
35 mil ficaram desabrigados

O Cred oferece análises que distinguem os tipos de desastre. Os dados revelam que, na primeira década do século XX, houve 40 desastres geológicos e 28 hidrometeorológicos. Nos anos 1940, os segundos já eram mais comuns do que os primeiros: 120 contra 52. Nos anos 1970, foram 776 casos hidrometeorológicos contra 124 geológicos. De 2000 a 2005, a proporção explodiu. A soma de terremotos, maremotos e erupções vulcânicas atingiu 233 casos. Já enchentes, secas, ciclones e outros fenômenos ligados ao clima chegaram a 2135. Não é difícil identificar os fenômenos hidrometeorológicos em questão: o mais recente no Brasil aconteceu na região serrana do Rio de Janeiro. A destruição de Nova Friburgo e outras cidades foi fruto de um temporal que durou mais de quatro horas. Em 2008, Santa Catarina assistiu a uma veloz destruição pelas águas, vitimando cidades no vale do Itajaí. Em 2005, Nova Orleans, nos EUA, ficou submersa após o furacão Katrina. A Rússia, em 2010, sofreu com uma onda de calor, com temperaturas de até 40º, que provocou secas e incêndios florestais, matando 55 mil pessoas.
Ou seja, há mais informação sobre a ocorrência de desastres naturais e também mais crises no mundo, sobretudo climáticas. Mas algumas das maiores catástrofes do século XXI são desastres geológicos: a tsunami que atingiu a Indonésia em 2004 e matou 230.210 pessoas; o terremoto chileno de 2010, com seus 562 mortos; o sismo haitiano, com 316 mil vítimas diretas e a consequente epidemia de cólera, devido ao colapso da infraestrutura de Porto Príncipe; e o abalo de 9,0 graus que destruiu o nordeste do Japão, desencadeou uma tsunami e uma crise nuclear, com um saldo, até agora, de 11 mil mortos e 16 mil desaparecidos.
O que há de mais notável nesses desastres geológicos é o número de vítimas - mortos, feridos e desabrigados. Outra preocupação é a ligação entre os desastres naturais e suas consequências artificiais, como no Japão, onde a radioatividade nos alimentos vendidos em supermercados não é culpa de placas tectônicas, mas de quem decidiu instalar usinas nucleares em áreas de risco. "A relação entre a catástrofe natural e a humana vai ser cada vez mais íntima", afirmou ao Valor Kevin Trenberth, chefe da Seção de Análise Climática do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos EUA. "A pressão populacional é crescente, o que significa mais pessoas em mais lugares. Só que os melhores lugares já estão tomados, então as pessoas se estabelecem em planícies inundáveis e regiões costeiras vulneráveis. A mudança do clima é uma das causas, mas se duas ou mais causas se unem, o desastre é pior."
Afonso Lopes diz que as construções em áreas perigosas seguem um cálculo de risco em que a vulnerabilidade é ponderada com o perigo. "O nível de exigência é alto para uma usina hidrelétrica, cuja ruptura poderia matar um milhão de pessoas. É mais baixo para um hospital, porque morreriam cem pessoas se ele desabasse." Em seguida, diz o físico, o cálculo é estatístico. "Compara-se a recorrência do sismo com a vida útil da obra. Às vezes, um risco de 2% é aceitável. Para uma usina nucelar, o nível aceitável é quase zero." O erro japonês foi passar por cima desse cálculo. "Cinquenta reatores numa ilha que pode afundar a qualquer hora? Eu não recomendaria", conclui Lopes.
A classificação do Cred também incorpora o fator populacional. Se uma catástrofe é definida como evento que atinge cem pessoas ou mata dez, então a presença crescente de pessoas no planeta as coloca na linha de frente de eventos extremos. Ainda que seja possível questionar a maior frequência das catástrofes, é quase consensual que elas estão mais destrutivas, isto é, afetam cada vez mais pessoas e, por consequência, provocam maiores prejuízos. Como os casos do Haiti e do Japão apontam, um desastre que rompa linhas de suprimento e comunicação pode comprometer a sobrevivência de milhões de pessoas ou desencadear outras crises, colocando em risco a possibilidade de ocupação de certas áreas.
AP
O terremoto que atingiu o Haiti em 2010 matou cerca de 316 mil pessoas,
comprometeu a infraestrutura da capital Porto Príncipe e
 provocou uma epidemia de cólera

"Desde 1722, quando começamos a ter informações, nunca houve um sismo com mais de 6,2 pontos no Brasil", diz Lopes. "Mas a probabilidade de um tremor mais forte não é nula. O Brasil não está assentado sobre uma falha continental, mas temos inúmeras pequenas falhas, algumas de menos de um quilômetro." A região mais exposta a terremotos no Brasil é o Nordeste, mas os maiores já registrados, ambos em 1955, tiveram 6,2 graus e aconteceram no Mato Grosso e no litoral do Espírito Santo, em regiões pouco habitadas, sem deixar vítimas. Porém, Lopes lança uma dúvida. "Não sabemos tudo. São Paulo, por exemplo, está assentada num terreno sedimentar de seis quilômetros de profundidade. O que há debaixo disso? Uma falha, talvez?"
A soma dos desastres de 2010 provocou, na estimativa do Cred, prejuízos de US$ 109 bilhões. Mas o evento mais mortífero, o terremoto haitiano, ficou apenas na quarta colocação entre os mais custosos: US$ 8 bilhões. Os maiores prejuízos foram causados pelo terremoto chileno de fevereiro, com US$ 30 bilhões em destruição, os dilúvios do verão na China, que causaram perdas de US$ 18 bilhões, e as enchentes do Paquistão, em julho e agosto, com custo estimado em US$ 9,5 bilhões. Ou seja, há outros fatores em jogo além da vida humana, já que os prejuízos são proporcionais não só à intensidade da catástrofe, mas também à riqueza econômica na área atingida. "No caso de uma usina hidrelétrica, um investidor que coloca R$ 8 bilhões pode não se preocupar com a vida das populações próximas, mas certamente se preocupa em não perder o dinheiro. A preocupação em não perder é maior do que em lucrar", afirma Lopes.
O setor econômico com o olhar mais atento sobre o lado financeiro das tragédias é o de seguros. A maior companhia internacional de resseguros para desastres naturais é a alemã Munich Re. Nas estimativas da empresa, só o terremoto japonês já tornou 2011 mais custoso do que 2010, com prejuízos de €150 bilhões, cerca de US$ 211 bilhões. Nos primeiros meses do ano, a Oceania já tinha sofrido com as catástrofes naturais: um terremoto em Christchurch, na Nova Zelândia (6,3 pontos), uma inundação em Brisbane e um ciclone, ambos na Austrália. O Brasil, com a tragédia fluminense, engrossou o quadro sinistro do ano. Segundo a companhia de seguros, o conjunto forma um prejuízo de € 2,5 bilhões.
AP
Os diques que protegiam Nova Orleans, nos EUA,
não resistiram à fúria do furacão Katrina, em 2005:
cerca de 80% da cidade ficou debaixo d'água e
 sofreu com saques
Os títulos vinculados a catástrofes ("cat bonds") vêm ganhando importância no mercado financeiro desde sua criação, como resposta à passagem do furacão Andrew pela Flórida, em 1992. Para 2011, os analistas da Munich Re preveem a emissão de novos US$ 6 bilhões em "cat bonds". "Estamos particularmente satisfeitos com o crescente interesse de investidores tradicionais, como fundos de pensão, porque eles contribuem para um desenvolvimento sustentável e mais estável desse mercado ainda jovem", declarou o especialista em risco da empresa alemã Rupert Flatscher, em comunicado para a imprensa.
Enquanto o mercado de capitais desenvolve ferramentas para dissolver o risco financeiro das catástrofes climáticas e geológicas, cresce o debate sobre o impacto possível das mudanças globais sobre a vida cotidiana. Climatólogos, como Kevin Trenberth, advertem que os padrões de produção agrícola e ocupação de territórios poderão sofrer alterações profundas nas próximas décadas, como já se pode observar pela navegação crescente no círculo polar ártico, antes bloqueado pelo gelo. Trenberth traça um quadro perturbador: "Quanto mais longe olhamos no futuro, mais as variações do clima ultrapassam as fronteiras da experiência que temos. Vários ecossistemas podem não tolerar essas mudanças e uma grande mortalidade pode ocorrer. O risco de queimadas cresce, porque temos maior ocorrência de secas e calor. A vegetação não crescerá mais como hoje, nem nos mesmos lugares, então algumas áreas terão de aprender a cultivar alimentos diferentes. As mudanças projetadas para os próximos 40 anos são suficientes para causar uma enorme preocupação".
A se realizarem as projeções catastróficas de especialistas como Kevin Trenberth e Michael Mann, áreas até hoje incólumes passarão a ser alvo de desastres naturais para os quais não estão preparadas. "De fato, podemos observar que os furacões estão começando a acontecer em lugares novos, como próximos da costa brasileira e também na Espanha, como em 2005", cita Trenberth.
"A distribuição regional das mudanças climáticas é incerta, mas modelos de simulação preveem que as tendências regionais para temperatura e chuvas ficam mais intensas. Há motivos para crer que os mercados agrícolas já enfrentam traumas e perdas como resultado de mudanças climáticas", diz Mann. A dificuldade em definir o que vai acontecer em cada região, segundo Trenberth, resulta do pouco conhecimento que já se desenvolveu sobre a distribuição da energia na atmosfera. Fenômenos climáticos, como os geológicos, são movimentos dinâmicos que concentram energia, em forma de radiação, para em seguida descarregá-la. O problema, para Trenberth, é que o efeito estufa e a queima de combustíveis fósseis provocam um acúmulo de energia. Por consequência, os fenômenos, quando acontecem, descarregam mais energia e são mais extremos, além de mais destrutivos.
"Secas acontecem normalmente em associação com inundações em outras partes do planeta. No caso brasileiro, houve secas em 2005 e 2010, ambas relacionadas com temporadas de furacões fortes na América do Norte. Isso não é coincidência", argumenta Trenberth. Segundo estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pode-se esperar uma diminuição no índice pluviométrico no Nordeste e no Centro-Oeste ao longo do século XXI. Ao mesmo tempo, pode haver mais chuvas no Sul e na parte mais ocidental da Amazônia. Hoje, a maioria dos desastres naturais no Brasil (59%) são inundações; depois, deslizamentos (14%), tempestades (9%) e secas (8%).
reuters
A erupção do Eyjafjallajokull, vulcão islandês, provocou uma nuvem de cinzas
que interrompeu o tráfego aéreo na Europa
durante uma semana em 2010

Diante das perspectivas de um planeta mais perigoso e de um clima mais catastrófico, também há cientistas que expressam dúvidas. Os "climatocéticos", como são chamados, se dividem entre aqueles que negam o aquecimento global, aqueles que discordam do papel do ser humano nesse processo e aqueles que rejeitam apenas a certeza com que a questão é tratada.
"Há uma discussão sobre mudanças climáticas que está sendo abafada", aponta Lopes. "É evidente que existe um aumento de temperatura associado ao acréscimo do gás carbônico na atmosfera. Mas há estudos que sugerem que o processo acontece ao contrário do que se espera: a temperatura aumenta primeiro, acelerando certos processos biológicos, e por isso sobe a proporção de gás carbônico na atmosfera. Não necessariamente é a ação humana a causa."
Autor do livro "O Mito Climático", o matemático francês Benoît Rittaud se dedica a encontrar inconsistências nos modelos dos climatólogos que tentam demonstrar o aquecimento global causado pelo ser humano e fonte de desastres naturais. "O caso do clima é revelador da maneira como vemos o mundo. O homem é supostamente todo-poderoso, capaz de mudar o clima simplesmente pela sua ação. Mas, ao mesmo tempo, o ser humano é representado como incapaz de controlar sua própria potência. É uma mistura de orgulho e desencanto", disse o matemático ao Valor.
Após o sucesso de "Uma Verdade Inconveniente", documentário do ex-presidente americano Al Gore que buscava conscientizar as massas para o problema do aquecimento global, seguiram-se iniciativas de questionamento, na maior parte virulentas, como o livro do geólogo francês Claude Allègre, "A Impostura Climática", e o documentário "A Grande Enganação do Aquecimento Global", do britânico Martin Durkin. Em novembro de 2009, uma troca de mensagens entre cientistas que advogam a causa da mudança climática foi vazada na internet. A partir de alguns trechos, divulgou-se que os cientistas admitiam a inexistência do fenômeno. Desde então, o debate subiu de tom, com acusações de parte a parte.
O debate, segundo Lopes, não elimina a necessidade de ação. "Se for mesmo por causa do homem, temos de fazer algo desde já. Se não for o homem, pelo menos tomamos uma atitude. Já mandamos pessoas para a lua, criamos meios de comunicação incríveis, mas ainda dependemos do petróleo? Não sei se é o petróleo que está gerando mudanças climáticas, mas está na hora de achar outras fontes de energia", afirma.
Com esse objetivo, a ONU (Organização das Nações Unidas) realiza conferências anuais, com a participação de especialistas e chefes de Estado, para debater iniciativas que combatam as mudanças climáticas. A edição de 2010, em Cancún, no México, terminou com um protocolo de intenções para a criação de um fundo global e um centro tecnológico para reverter a tendência de aquecimento do planeta. Para a reunião de 2011, em Durban, na África do Sul, espera-se o aperfeiçoamento e o aprofundamento do Protocolo de Kyoto, assinado em 1997, que pretende controlar as emissões de gás carbônico (causador do efeito estufa). Até hoje, o protocolo não foi ratificado pelo país mais poluidor do planeta, os EUA.
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Reportagem por Diego Viana De São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 01/04/2011

Dia da Mentira ou Dia dos Bobos

Ricardo Orlandini*


Existem muitas explicações para que o dia 1º de abril tenha se transformado no “Dia da Mentira” ou “Dia dos Bobos”.
Uma delas diz que a brincadeira surgiu na França. Desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado no dia 25 de Março, data que marcava a chegada da primavera no continente europeu. As festas duravam uma semana e terminavam justamente no dia 1º de abril.
Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX, da França, determinou que o ano novo fosse comemorado no dia 1º de janeiro. Alguns franceses resistiram a esta mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1º de abril. Gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Essas brincadeiras ficaram conhecidas como “plaisanteries”.
Em países de língua inglesa o dia da mentira costuma ser conhecido como “April Fools Day” ou “Dia dos Tolos”, na Itália e na França ele é chamado respectivamente “pesce daprile” e “poisson davril”, o que significa literalmente peixe de abril.
No Brasil, o 1º de abril começou a ser difundido em Pernambuco, onde circulou A Mentira, um periódico de vida efêmera, lançado em 1º de abril de 1848, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. A Mentira saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia 1º de abril do ano seguinte, dando como referência um local inexistente.
Mas o dia 1º de abril também marcou outros momentos de nossa história, com eventos sérios.
Em 1964, no rastro do golpe militar iniciado na madrugada do dia anterior, diversas prisões começaram a ter efeito. Muita gente, como “no rabo de um foguete” (sic), começavam a deixar o Brasil.
Já em 1º de abril de 1977, o general-presidente Ernesto Geisel brindou o país com uma grande surpresa. Utilizando-se do AI-5 (Ato Institucional nº 5), decretou o fechamento do Congresso Nacional e uma série de reformas constitucionais, que ficaram conhecidas como o “Pacote de Abril”.
Durante os 14 dias em que o Congresso esteve fechado, uma série de medidas foram baixadas voltadas principalmente a garantir a preservação da maioria governista no Legislativo, especialmente no Senado. Geisel não podia se esquecer da estrondosa vitória do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) nas eleições de 1974, que elegeu 16 das 22 cadeiras do senado então em disputa. Por isso mesmo, uma das novidades do chamado Pacote de Abril foi a criação da eleição indireta para 1/3 dos senadores, logo denominados pejorativamente de biônicos.
Composto de 14 emendas e três artigos novos, além de seis decretos-leis, o Pacote determinou ainda, entre outras medidas:
• Eleições indiretas para governador, com ampliação do Colégio Eleitoral;
• instituição de sublegendas, em número de três, na eleição direta dos senadores, permitindo ao partido governista, a Arena (Aliança Renovadora Nacional), recompor as suas bases e aglutiná-las sob o mesmo teto;
• ampliação das bancadas que representavam os estados menos desenvolvidos, nos quais a Arena costumava obter bons resultados eleitorais;
• extensão às eleições estaduais e federais da Lei Falcão, que restringia a propaganda eleitoral no rádio e na televisão e fora criada para garantir a vitória governista nas eleições municipais de 1976;
• alteração do quórum - de 2/3 para maioria simples - para a votação de emendas constitucionais pelo Congresso;
• ampliação do mandato presidencial de cinco para seis anos.
Este “Pacote de Abril” possui efeitos até hoje, mantendo desproporcionais as bancadas dos estados com menor população e peso político em relação aos estados mais desenvolvidos e com maior população.
Da brincadeira aos “casos sérios”, o primeiro de abril marca a história do mundo, e a do Brasil.
A propósito...
... notícias de última hora dão conta da aprovação pelo Congresso Nacional de que “políticos com ficha suja ou envolvidos em casos de corrupção serão banidos da vida pública”.
Brincadeirinha...
Primeiro de Abril...
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*Do blog RicardoOrlandini.net 01/04/2011