segunda-feira, 4 de julho de 2011

Corruptinhos

RICARDO SEMLER*

--------------------------------------------------------------------------------

É preciso separar tempo de aula para
 que a meninada pense no que eles fazem
 que perpetua a corrupção

--------------------------------------------------------------------------------
MONTAMOS UM EVENTO que reunia os 50 mais representativos brasileiros para discutir os nós górdios do Brasil. O evento chamava-se DNA Brasil. Num dos anos, o tema foi "Somos ou Estamos Corruptos?"
Um dos participantes, paladino da ética, confessou que tinha sido parado por um guarda rodoviário e, dada a pressa, decidiu colocar R$ 50 junto com a carteira de motorista.
Nós, brasileiros, participamos de uma longa série de pequenos subornos e atos que não achamos bonitos, mas consideramos um mal necessário, ou uma convenção cultural. Depois, apontamos os dedos para os eleitos pelo voto.
Sim, cada um dos partidos está compromissado com um sistema que envolve desonestidade estrutural. Mas cada brasileiro dá apoio contínuo à corrupção, mesmo na vida particular.
Desde o Cabral que veio com Pero Vaz de Caminha, passando pela alta elite que escolhia presidentes, a ditadura e a totalidade dos partidos existentes, o país sempre se caracterizou por grandes malandragens.
Nenhum político eleito tem o luxo de ser completamente honesto. E nós estamos sempre elegendo gente que exige propina, cargos ou favores -sob ameaça de paralisar o governo, como Dilma está percebendo.
O nosso Cabral atual, que anda de jatinho de empresário que depende de favores oficiais, não se digna sequer em ficar vexado. Sabe que vai ficar por isto mesmo. Talvez porque qualquer brasileiro aceitasse uma carona de jatinho em troca de ceder um favor? Afinal, não se troca voto por camiseta?
Claro que isto tudo não é uma característica apenas brasileira. Num congresso anticorrupção em Praga, lembrei à delegação alemã de que a lei deles -na época- permitia deduzir do imposto qualquer suborno dado a pessoas fora da Alemanha! Vê-se a hipocrisia da realpolitik.
E a formação desta mentalidade, começa na escola? Se a maçã da professora já é símbolo sutil, de que forma a educação pereniza a desonestidade? Existe algo mais institucional do que a "cola"?
E mais: alguns dos empresários e políticos mais jovens e destacados são príncipes da corrupção, desbancando o sonho de que as novas gerações seriam menos sórdidas do que as antigas.
A cidadania ensinada na escola não chega a este tema, porque é incômodo para os pais. Preferível falar de meio ambiente, ou ensinar a não atirar o pau no gato.
Precisamos separar tempo de aula -que está sequestrado por trigonometria e tabelas periódicas- para que a meninada pense no que eles já fazem -e veem os pais fazerem- que perpetua a corrupção.
Afinal, hoje estamos presos num ciclo eterno onde filho de corrupto corruptinho é.
--------------------------------------------------------------------------------
* RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco") que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas. Escreve a cada 14 dias neste espaço.
Fonte: Folha on line, 04/07/2011
Imagem da Internet

O sol sobre o pântano

LUIZ FELIPE PONDÉ*

--------------------------------------------------------------------------------
O ceticismo em mim é um produto
 do cérebro réptil, tão automático
quanto a inspiração
e a expiração
--------------------------------------------------------------------------------
CÁ ESTOU mais uma vez em meio ao vazio. Lá embaixo, o Atlântico mergulhado na majestade do silêncio. Estou num Jumbo que rasga o céu a mil quilômetros por hora e a 35 mil pés de altitude.
Minha relação com aviões tem a tara de tudo que é infantil. Meu pai, que quando nasci era capitão médico da Aeronáutica, me levava pra voar ainda muito pequeno nos aviões da FAB.
Aqui, você se sente ao mesmo tempo o criador do avião (na medida em que se trata de uma invenção humana), e também sua vítima indefesa. Majestade máxima do homem técnico, majestade máxima de sua fragilidade. Os olhos do nada acompanham de perto o avião no seu deboche da lei de Newton. Uma maravilha que carrega a majestade da morte em sua elegância.
No escuro, com a pequena luz que me cabe neste silêncio, leio Georges Bernanos. Se você é uma alma como eu (que pressente o pecado como sua substância), e nunca leu Bernanos, leia.
Aliás, antes que um desses inteligentinhos pense "oh, como este colunista é dominado pela moral católica retrógrada da culpa" ou "pela ideologia burguesa da vergonha", não perca seu tempo, desista de me salvar. Sua "salvação" é comparável às emoções de uma bela adormecida.
Sinta-se liberto do inferno onde vivo. Dois minutos na sua companhia, eu dormiria de tédio. O "bem" na sua face "social" é um tédio como o gosto de uma alface. A beleza do Bem começa no seu respeito pelo Mal e no destino único que os une: os tormentos da liberdade. Um com o perfume da esperança, o outro com o hálito do vazio. O pecado é no fundo uma paixão pela aniquilação de si mesmo, ainda que se disfarce de desejo de "gozar a vida".
Esses "bons moços" de hoje em dia nada entendem do ser humano, e por isso tiram de nós nossa única dignidade: a luta interior contra nós mesmos.

"um sol sobre o pântano",
sendo o pântano nossa alma,
e o sol (muitas vezes demoníaco),
o gosto de olhá-la nua."



Sou um medieval, graças a Deus. Não acredito no homem, e muito menos em mim mesmo.
Mas lembre-se, inteligentinho: sou um niilista, não veja em mim um velho seminarista assustado (que não sou). Entre você e eu, é você que teme o Mal, eu sei que sou feito de sua substância mais íntima. E você, no fundo, se acha "do bem", e aí reside sua mais pura miséria.
Meu Deus, como sou fraco!
A habilidade de pensar em mim não é uma virtude intelectual, mas um vício de temperamento que pode parecer uma ética do "amor ao conhecimento", mas que na verdade não passa de um gosto maníaco por ver como o pensamento disseca a realidade a serviço do nada.
O ceticismo em mim é um produto do cérebro réptil, automático, como a respiração.
Tomo emprestado a imagem, muitas vezes usada pra descrever a obra do grande Nelson Rodrigues, como título dessa coluna: "um sol sobre o pântano", sendo o pântano nossa alma, e o sol (muitas vezes demoníaco), o gosto de olhá-la nua.
O pecado, por sua vez, me parece ainda a melhor ferramenta pra nos conhecermos.
Voltando a Bernanos, em seu maravilhoso "Sob o Sol de Satã", editado no Brasil pela É Realizações, o autor, num dos seus grandes momentos, descreve quatro pecados essenciais e "seus efeitos", por assim dizer (traduzo livremente da edição francesa da Plon de 1968):
"O avaro corroído pelo seu câncer, o luxurioso como um cadáver, o ambicioso tomado por um único sonho, o invejoso que está sempre em vigília". A avareza é um câncer que se manifesta não só no "amor" ao dinheiro, mas que também se trai na gula pelo corpo, pela saúde, pela vida, pela felicidade. Um câncer que destrói a alma cujo corpo a avareza visa "preservar".
A luxúria que, em sua obsessão pelo gozo sexual, muitos hoje em dia idiotamente assumem como uma forma de redenção, transforma-nos num objeto mudo. Quem apenas "faz" sexo sabe o quanto o corpo "gostoso" pode ser feio.
A ambição em sua cegueira pelo sucesso que faz da felicidade uma obsessão. E a inveja em sua tensão doentia da vontade, que deseja tudo que os outros têm, destruindo o valor de tudo que temos, fazendo de nós uma espécie de zumbi sem fim.
Enfim, o nada lá fora, o nada aqui dentro. Ao meu redor, todos dormem, mas eu estou de vigília. A turbina ao meu lado.
----------------------------
* Filósofo. Escritor. Professor Universitário. Colunista da Folha.ponde.folha@uol.com.br
Fonte: Folha on line, 04/07/2011 
Imagem da Internet

A poesia da práxis perde o seu principal poeta...

Mário Chamie*

abri/1933 - julho/2011


PLANTIO

Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.
--------------
* Mário Chamie (Cajobi, 1 de abril de 1933 - São Paulo, 3 de julho de 2011[faleceu hoje]) foi um poeta e crítico brasileiro.
OBS.: Depois da poesia concreta, a  vanguarda poética dos anos 50 e 60 que mais deu o que falar foi a poesia práxis. Como o nome sugere, a idéia central era construir poemas com base na prática da vida. Segundo Mário Chamie (1933-), principal poeta e teórico do grupo, os poemas práxis resultavam de um levantamento de palavras dentro do campo semântico do tema escolhido para o poema ou livro.
 "Plantio", vem do volume Lavra Lavra (1962), que se propõe a representar o universo do trabalho rural. Assim, lá estão termos como enxada, braço, cova, grão.

domingo, 3 de julho de 2011

UM AVANÇO FASCINANTE

Entrevista

DERRICK ROSSI

O cientista americano explica como gerou célula-tronco em laboratório, um dos feitos mais promissores no combate a doenças degenerativas como Parkinson e Alzheimer.
Quem entra no laboratório de pesquisa do biólogo Derrick Rossi, na Universidade Harvard, não encontra nada de especial. São bancadas com pipetas e tubos de ensaio, prateleiras atulhadas de frascos de reagentes. Ali, trabalham nove pessoas – seis com pós-doutorado, dois técnicos e um estudante, com orçamento anual de 1 milhão de dólares. Nesse ambiente austero, Rossi conseguiu um feito espetacular: criou um novo método, mais eficiente, menos perigoso e menos invasivo, de reprogramar células adultas, fazendo-as voltar a um estado infantil, quando têm a capacidade de se transformar em qualquer tecido do organismo humano. É o caminho mais promissor para a cura da doença como diabetes, Parkinson e Alzheimer. Em seu minúsculo e despojado escritório, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.
O método com que o senhor gerou célula-tronco de pluripotência induzida animou os cientistas, mas, antes de mais nada, o que são células-tronco de pluripotência induzida? Essas células são conhecidas como iPS ( a sigla vem do nome em inglês: induced pluripotent stem cells) e foram geradas pela primeira vez em laboratórios pelo professor Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, no Japão. Em 2007, ele conseguiu pegar uma célula adulta comum e introduzir nela quatro fatores, fazendo com que ela voltasse ao estado pluripotente. O estado pluripotente é uma fase inicial da vida da célula, quando ela ainda tem a capacidade de se diferenciar em qualquer um dos diversos tecidos do organismo humano, como acontece com as células-tronco embrionárias. É o feito mais sensacional que já vi na biologia celular em toda a minha carreira. Mesmo hoje, revendo a pesquisa do professor Yamanaka, fico impressionado com o volume de conhecimento biológico que envolveu. É um trabalho brilhante.

Qual a diferença entre as células pluripotentes do professor Yamanaka e as suas? A diferença central está no método de reprogramar as células. Nosso método é mais eficiente. A taxa de sucesso de reprogramação celular do método de Yamanaka é de 0,1%. O nosso é pelo menos 100 vezes mais eficiente. Segundo ponto: nos experimentos do professor Yamanaka, a reprogramação usa um vírus como, digamos, meio de transporte. O vírus transporta os fatores para dentro da célula, alterando o seu genoma. O problema é que o vírus é um vetor indesejável, perigoso. Ele pode ativar ou desativar funções da célula, o que acaba resultando em doenças. No nosso caso, em vez de vírus, usamos um RNA sintético, que chega à célula de modo, por assim dizer, invisível. Por ser invisível, o RNA sintético não provoca nenhuma resposta antiviral da célula e, melhor ainda, também não altera o genoma da célula.

Qual a vantagem de evitar uma resposta antiviral e não alterar o genoma da célula? A vantagem está na segurança e no controle. O uso de vírus e a mudança do genoma são um risco. Podem levar as células a um desenvolvimento descontrolado, desordenado, resultando em câncer, o que inviabiliza seu uso em pacientes. No nosso método, isso não existe. O genoma da célula permanece inalterado. Quando nossa pesquisa foi publicada, a imprensa americana deu muita atenção a esses aspectos, que são realmente relevantes, mas acabou esquecendo um dado que, a meu ver, é ainda mais importante. Além de gerarmos iPS mais seguras, verificamos se as nossas células pluripotentes se transformavam nas células que quiséssemos. Em outras palavras, testamos se era possível direcionar a diferenciação das células pluripotentes para a linhagem que desejássemos. Fizemos a experiência induzindo a criação de células musculares, e deu certo. Criamos músculos.

"A ideia é chegarmos ao momento
em que poderemos pegar
uma célula-tronco da pele de um
paciente com um grave problema hepático e,
a partir dela, criar um fígado novo.
Será o auge da terapia celular"
Mas já houve experiências de criação de músculos em laboratório. Por que o senhor considera isso tão importante na sua pesquisa? Criamos músculos como prova de conceito, para verificar em termos práticos se nossas células iPS tinham mesmo o potencial que esperávamos. É razoavelmente simples criar músculos em laboratório porque envolve apenas um fator, e testamos nossa experiência com músculo exatamente por se simples. O conceito se comprovou. Isso é importante porque fechamos todo um ciclo: de uma célula adulta – no nosso caso, uma célula de pele – criamos uma célula pluripotente que direcionamos para que se transformasse em uma célula muscular, sem a presença do vírus e sem alteração no genoma. Agora, estamos trabalhando na geração de tipos mais complexos de células. Junto com Douglas Melton, diretor do instituto de células-tronco de Harvard, tentamos criar células beta do pâncreas, que produzem e liberam insulina. No meu laboratório, estamos trabalhando para fazer células-tronco hematopoiéticas, que dão origem ao sangue. Em parceria com outros laboratórios de pesquisa, estamos tentando criar cardiomiócitos, que são fibras do músculo cardíaco.

(...)

Qual o benefício mais imediato que sua descoberta pode trazer para pacientes? A curto prazo, as células iPS vão nos permitir pesquisar sobre doenças que, por qualquer razão, são difíceis de estudar. O diabetes Tipo 1, por exemplo, é uma doença que surge com um ataque autoimune massivo que, basicamente, mata as células beta, que fazem a insulina. Quando a criança é diagnosticada com diabetes tipo 1, a maioria das células beta já foi destruída. Como não podemos examinar o desenvolvimento da doença, fica difícil entendê-la. Até hoje não sabemos exatamente o que deflagra o ataque autoimune. Agora, com a tecnologia que criamos, será possível a curto prazo gerar células beta para estudar o diabetes tipo 1 e descobrir tratamentos mais eficazes. Isso vale para muitas outras doenças, como Parkinson ou Alzheimer. Estou falando apenas da biologia celular, mas essa tecnologia tem aplicação em 10 000 áreas da biologia. Nossa tecnologia levará, com certeza, a uma explosão de pesquisas.

Como seu método cria iPS semelhantes às células-tronco embrionárias, os cientistas poderão deixar de usar embriões humanos em pesquisas, encerrando a polêmica moral e religiosa sobre o uso de células embrionárias em laboratórios? Essas pesquisas seguem sendo fundamentais. Toda vez que surge uma experiência criando algo parecido com células-tronco embrionárias, a direita religiosa divulga a ideia de que vamos poder dispensar o uso de embriões. Foi o que aconteceu em 2002, quando Catherine Verfaillie descreveu na revista Nature uma nova classe de célula-tronco adulta com propriedades típicas de célula-tronco embrionária. Também foi o que aconteceu em 2007, quando o próprio Yamanaka gerou células pluripotentes. Agora, estão dizendo a mesma coisa. Se tivéssemos parado a pesquisa com embriões depois do trabalho de Verfaillie, Yamanaka não teria feito o seu achado. Sem Yamanaka, nós não teríamos feito o nosso. As células-tronco embrionárias são a medida-padrão das pesquisas em biologia celular. Sem elas, estaríamos trabalhando no escuro. A direita religiosa diz que é imoral usar embriões em pesquisas porque isso equivale a acabar com uma vida humana. Creio que é o contrário. Os embriões estão em clínicas de fertilização e foram descartados. O destino deles é a lata de lixo. É um imperativo moral que sejam aproveitados em pesquisas para o bem da humanidade. Imoral é jogá-los no lixo.

As células-tronco apareceram como a grande promessa da ciência, mas, como ainda não saíram do laboratório para o hospital, criou-se a sensação de fracasso. O que deu errado? A ciência demora - e é bom que demore, em nome da segurança. O transplante de medula óssea levou décadas. No ano 50, quando Donnall Thomas fez o primeiro transplante, que valeu o Nobel, não sabíamos nada sobre rejeição. O primeiro transplante foi feito entre gêmeos idênticos. Aos poucos, fomos entendendo o processo. Hoje, são realizados cerca de 30 000 transplantes de medula óssea por ano nos Estados Unidos, mas, para chegar a isso, foram anos e anos de estudo. Temos todos os motivos para estar otimistas com as células iPS, mas não vamos ignorar a realidade. Tenho recebido muitas cartas e e-mails de gente que tem um amigo, um filho, o marido doente, perguntando se as iPS podem ser usadas para ajudá-los. Não chegamos lá ainda. A pior coisa que pode acontecer é a terapia ser aplicada cedo demais e matar pacientes. Isso faria parar tudo por anos a fio. Precisamos dar tempo à ciência.

Em algum momento, a terapia celular vai criar órgãos humanos inteiros, como um rim ou um fígado, ou isso é ficção científica? Creio que será possível, sim. Já fazemos isso com o sangue. O sangue, embora não pareça, é um tecido. Quando transplantamos células que formam sangue – as chamadas células hematopoiéticas – de uma pessoa para outra e reconstituímos o tecido, estamos criando sangue. Talvez, o sangue sejam um tecido especialmente fácil de criar porque não tem veias nem nervos, mas o fato é que pequenos organoides são desenvolvidos toda hora. Não são órgãos inteiros, mas têm as propriedades de um órgão. A criação de um rim ou um fígado, contudo, é coisa para longo prazo. A ideia é chegarmos ao momento em que poderemos pegar uma célula-tronco da pele de um paciente com um grave problema hepático, digamos, e a partir dela criarmos um fígado novo. Será o auge da terapia celular, mas é para longo prazo. Não sabemos como criar um fígado. É preciso reproduzir vasos, nervos, toda uma estrutura. É difícil chegar lá. A vida é complexa, mas estamos cada vez mais perto.
-----------------------------------
Reportagem de ANDRÉ PETRY, de Boston
Fonte: Revista VEJA impressa (reportagem completa). Ed. nº 2224, 06 de julho de 2011, paginas amarelas.
Imagem da Internet

INTIMIDADES

Lya Luft*

Como é normal, haverá os que vão odiar a coluna e os que vão apreciar. Fora os indiferentes, para quem tanto faz: alienar-se ao menos por um tempo pode ser bom. Não ligar a TV de manhã, não abrir o jornal, não deixar que nada nos envenene a alma desde cedo. Por outro lado, há que saber: a alienação pode ser perigosa.
Pois quero falar da nossa intimidade, que vai ficando rara e complicada num momento em que nossa cultura apela para uma dramática inversão do público e do privado. Queremos ( ou achamos que é preciso) saber tudo, revelar tudo, abrir a roupa, tirar a roupa, escancarar a casa, o quarto, filmar a cama, relatar o dia a dia minuto a minuto, para um ou milhares de desconhecidos ou amigos virtuais. E sobretudo flagrar o outro: a toda hora somos “flagrados” ou “flagramos” alguém, ainda que simplesmente andando na calçada com o filho pequeno. O que importa numa pessoa, a dita celebridade ou (que alívio) um anônimo cidadão comum, não é ser uma pessoa decente, interessante, produtiva, engajada em coisas boas, conciliadora na hora certa e indignada idem, mas que esteja com tudo à mostra. Se não tiver uma pontinha de escândalo, não interessa. Discrição não está com nada, recato é coisa fora de moda, os tímidos precisam ser fortes e resistentes na sua timidez abençoada. Estamos ávidos de exposição, nossa e alheia. Por exemplo, vai parecendo obrigatório gritar aos quatro ventos se somos gays ou não. Receio que em algum tempo ou não gays serão objetos do mesmo horrendo preconceito que hoje persegue os próprios. A orientação sexual de cada um, seja ela qual for, deveria ser encarada com naturalidade (esse é o objetivo de todos os justos movimentos e manifestações pelo mundo), como a cor da pele, o formato dos olhos, o peso, o jeito. Um dia será assim, talvez. Mas derrubar um preconceito é longo e duro trabalho. Quanto mais gritamos contra ele, mais ele aparece e se fortalece. É preciso passar um tempo, acalmar-se a onda, equilibrarem-se as coisas e as emoções , para que a gente possa encarar o outro com mais respeito, e que isso seja o habitual. Sem que se tenha de expor intimidades, fazer barulho, causar impacto, agarrar-se em público como na cama, onde vale o amor, não o escândalo. (Isso se refere a todos, em tudo: alguma elegância, algum comedimento, tornam a vida mais palatável.)

"Discrição não está com nada,
recato é coisa fora de moda.
Estamos ávidos de exposição,
nossa e alheia"

E isso não só em questões sexuais. Tem-se falado sobre amamentar em público, coisa que sempre se fez quando necessário. Com discrição. Amamentar é natural, é belo, é saudável, mas, se tiver de ser em público, sempre há como proteger mãe e bebê, nesse ritual de intimidade: um lenço, um virar-se para outro lado. Não é preciso vociferar, expor-se raivosamente. Talvez a palavra seja: agressivamente. Amos, sexo, afeto maternal, alegria, felicidade, ate dor, tornam-se naturais se tratados como algo natural, não escrachado para chocar eventuais espectadores ( os que ainda se chocam com alguma coisa).
Não me lixo para a opinião dos leitores. Ao contrário. Mas não me importa, às vezes, parecer antiquada. Amantes, manifestantes, quaisquer pessoas numa condição que busca ser respeitada, ou na luta mais louvável contra qualquer maligno preconceito, podem protestar sem uma feroz agressividade que traz mais hostilidade, quando o que a gente quer é o direito de ser quem se é, como se nasceu, como se gosta ou como se pode ser. Com dignidade, com altivez, com compostura. Em qualquer aspecto da humana lida e luta, tão múltipla e variada.
Talvez este seja ainda o momento do grito, do peito de fora, da carícia ardente em público, do possível escândalo. Com o tempo, imagino e espero, a gente vai mudar, as coisas vão se estabelecer, alguns preconceitos vão cair ( outros surgirão, com certeza, porque nós somos assim). É possível que sempre haja gritaria e humilhação de um lado, crueldade e mesquinharia do outro, seja em que aspecto for. Que nesse caminho se preserve, em tudo o que envolva intimidade, isso que todos desejamos tanto: respeito, a começar por nós próprios e a nossa circunstância.
--------------------
*Escritora gaúcha e tradutora brasileira. É também uma professora universitária aposentada e colunista da revista semanal Veja.

Fonte: Revista VEJA impressa, ed.2224 – 06 de julho de 2011, pg.24

Cérebro de pipoca

GILBERTO DIMENSTEIN*

--------------------------------------------------------------------------------
Pesquisadores detectam há tempos distorções,
 como a compulsão para se manter conectado,
 como um vício
--------------------------------------------------------------------------------
O GOOGLE anunciou na semana passada um projeto para enfrentar o Facebook, disposto a reinventar a mídia social. A notícia teve óbvio impacto mundial e despertou a curiosidade sobre mais uma rodada de inovações tecnológicas, capazes de nos fazer ainda mais conectados.
No dia seguinte, porém, o Facebook reagiu e anunciou para esta semana uma novidade também de grande impacto, possivelmente em celulares. Para alguns psicólogos americanos, esse tipo de disputa produz um efeito colateral: um distúrbio já batizado de "cérebro de pipoca".
Esse distúrbio é provocado pelo movimento caótico e constante de informações, exigindo que se executem simultaneamente várias tarefas. Por causa de alterações químicas cerebrais, a vítima passa a ter dificuldade de se concentrar em apenas um assunto e de lidar com coisas simples do cotidiano, como ler um livro, conversar com alguém sem interrupção ou dirigir sem falar ao celular. É como se as pessoas tivessem dentro da cabeça a agitação do milho explodindo no óleo quente.
A falta de foco gera entre os portadores do tal "cérebro de pipoca" um novo tipo de analfabetismo: o analfabetismo emocional, ou seja, a dificuldade de ler as emoções no rosto, na postura ou na voz dos indivíduos, o que torna complicado o relacionamento interpessoal.
Sou um tanto desconfiado de notícias alarmantes provocadas pelo surgimento de novas tecnologias. Toda ruptura desencadeia uma onda de nostalgia e de temores em relação ao futuro.
Mas algumas pesquisas em torno do "cérebro de pipoca" merecem atenção por afetar o processo de aprendizagem. Uma delas foi realizada em Stanford, a universidade que, por ajudar a criar o Vale do Silício, na Califórnia, impulsionou a tecnologia da informação.
Neste ano, Clifford Nass, professor de psicologia social na Universidade Stanford, revelou num seminário sobre tecnologia da informação a pesquisa que fez com jovens que passam muitas horas por dia na internet, acostumados a tocar muitas tarefas ao mesmo tempo.
Ele mostrou fotos com diversas expressões e pediu que os jovens identificassem as emoções. Constatou a dificuldade dos entrevistados. "Relacionamento é algo que se aprende lendo as emoções dos outros", afirma Nass.
O problema, segundo ele, está tanto na falta de contato cara a cara com as pessoas como na dificuldade de manter o foco e verificar o que é relevante, percebendo sutilezas, o que exige atenção.
Os pesquisadores estão detectando há tempos uma série de distorções, como a compulsão para se manter conectado, semelhante a um vício.
Trata-se de uma inquietude permanente, provocada pela sensação de que o outro, naquele momento, está fazendo algo mais interessante do que aquilo que se está fazendo. Tome o Facebook ou qualquer outra rede social.
Chegaram a desenvolver um programa que envia para o celular da pessoa um aviso sempre que um amigo dela está se aproximando de onde ela está.
O estímulo, porém, começa no mercado de trabalho. Vemos nos anúncios de emprego uma demanda por pessoas que façam muitas coisas ao mesmo tempo.
Mas o que Nass, o professor de Stanford, entre outros pesquisadores, defende é o contrário. Quem faz muitas tarefas ao mesmo tempo, condicionando seu cérebro, fica menos funcional. Não sabe perceber as emoções e trabalhar em equipe, não sabe focar o que é relevante e tem dificuldade de estabelecer um projeto que exige um mínimo de linearidade. Não sabe, em suma, diferenciar o valor das informações.
Não deixa de ser um pouco absurdo valorizar tanto os recursos tecnológicos que aproximam as pessoas virtualmente, mas que as afastam na vida real.
Daí se entende, em parte, segundo os pesquisadores, por que, em todo o mundo, está explodindo o consumo de remédios de tarja preta para tratar males como a ansiedade e a hiperatividade.

PS- Perto da minha casa, aqui em Cambridge, há uma padaria artesanal, com mesas comunitárias, que decidiu ir contra a corrente. Seus proprietários simplesmente proibiram que se usasse celular lá dentro para diminuir a poluição sonora e a agitação. Sucesso total. O efeito colateral: ficou difícil conseguir lugar.
--------------------------
* Jornalista.Colunista da Folha de S.Paulo e da rádio CBN.
Fonte: Folha on line, 03/07/2011

A verdade e o erro

MARCELO GLEISER*
--------------------------------------------------------------------------------
Podemos não ser a medida de
todas as coisas, mas o fato de sermos criaturas
que conseguem medir as coisas
 é algo notável
-----------------------------------------------------------------------------
NO Domingo passado, o jornalista Carl Zimmer publicou um artigo no "New York Times", no qual argumentou que, na prática, a ciência é bem menos eficiente em corrigir seus erros do que se acredita. Ele cita uma série de exemplos da literatura científica recente, quando um resultado publicado gera uma série de críticas de membros da comunidade, mas raramente uma tentativa de duplicação no laboratório. Essa questão, de fato, toca a essência do método científico.
A refutação de um resultado experimental ocorre apenas após outros grupos falharem na tentativa de replicá-lo. Por outro lado, a repetição de um experimento requer imenso cuidado. As condições experimentais devem ser replicadas exatamente, incluindo os vários compostos químicos usados.
Está claro que a reprodução de um resultado experimental é problemática. Ademais, o ganho em fazê-lo não é dos maiores. Afinal, cientistas querem ser os primeiros a descobrir algo de novo, e não a provar que a descoberta de um colega é incorreta. Porém, mesmo sem ter o mesmo glamour, a refutação experimental é extremamente importante. Sem ela a ciência simplesmente não funcionaria.
Na prática, nenhum experimento pode ser exatamente duplicado. Temos que nos contentar com o melhor possível. Um cínico (ou um pós-modernista) poderia argumentar que esse é o calcanhar-de-aquiles da ciência: se não é possível duplicar exatamente um experimento, como podemos nos certificar de que seu resultado está certo? Como descobertas científicas podem ser consideradas como a "verdade"?
Isso me lembra o ditado atribuído ao filósofo grego Heráclito: não podemos entrar no mesmo rio duas vezes. Felizmente, em ciência ao menos, isso não é necessário. (Aliás, quando é? Tudo na Natureza está em fluxo constante, que é o que Heráclito quis dizer com sua filosofia.)
Todo resultado científico inclui margens de erro que representam a precisão do procedimento. Nenhuma medida é exata. Por exemplo, quando você mede seu peso numa balança com uma escala graduada em meio quilo, a precisão da medida será no máximo de um quarto de quilo, 250 gramas; ou seja, metade da menor graduação. (Portanto, o pessimista fazendo dieta pode dizer que ganhou 250 gramas, enquanto que o otimista diria que perdeu.)
Medidas experimentais sempre incluem margens de erro. Se o resultado estiver correto, outros grupos poderão reproduzi-lo dentro do intervalo de erro aceito. Para diminuir erros experimentais (existe um outro tipo de erro, o erro sistemático, que é mais complicado), é necessário aumentar a precisão das medidas, usando equipamento melhor ou um número maior de medidas. Mesmo assim, não existe um valor final, "verdadeiro": apenas o mais preciso dentro do que é possível com a tecnologia existente.
Talvez não sejamos a medida de todas as coisas, conforme sugeriu Protágoras em torno de 450 a.C. Mas somos as coisas que podem medir. Mesmo que nossas medidas não sejam exatas, o fato de que temos um procedimento universal para distinguir o certo do errado é notável. A ciência pode não ser perfeita; mas a alternativa, o subjetivismo descontrolado, é muito pior.
--------------------------
* MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"
Fonte: Folha on line, 03/07/2011
Imagem da Internet

Miolo x couve-flor

Rubem Alves*


Meu sogro nasceu na Alemanha e veio para o Brasil depois da Primeira Guerra. Era filho de um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Como é bem sabido, os membros desse grupo religioso são extremamente rigorosos acerca de seus hábitos alimentares. Não comem carne de porco ou sangue, não bebem bebidas alcoólicas, café ou chá. Meu sogro, muito embora estivesse deixado de ser um fiel praticante, não se esquecera dos tabus alimentares. Eles estavam escritos em sua própria carne. E tinha mesmo um tabu todo seu, particular: ele não comia miolos, muito embora nunca os tivesse comido antes. O fato é que, mesmo assim, sem comer, não gostou...
Um dia foi convidado para um jantar. Era o convidado de honra, jovem alemão recém-chegado ao Brasil. E ficou muito contente ao ver que a anfitriã, certamente sabedora de seus hábitos quase vegetarianos, havia escolhido couve-flor empanada como prato principal. Delícia pura! Comeu, gostou e repetiu. Ao final, reconciliado com a vida (isso sempre acontece quando a comida nos dá prazer), a alquimia da digestão já se tendo iniciado, disse à dona da casa:
- A couve-flor empanada estava um prato digno dos deuses...
- Quem bom! - ela responde.
- Alegro-me que o senhor tenha gostado. Só que não era couve-flor; era miolo...
Pobre senhora! Não podia imaginar a tempestade que uma palavra inocente na boca podia provocar no corpo... Meu sogro, esquecendo-se de todas as regras de etiquetas, pulou da cadeira, correu para o banheiro, e vomitou tudo...

"O corpo tem uma filosofia que é toda sua.
Para ele "realidade" não é aquilo que
comumente chamamos
por esse nome."

Como explicar o ocorrido?
A "coisa": os sentidos já não a haviam aprovado, declarando-a deliciosa? A boca não a havia transportado para dentro do corpo, dando assim o seu nihil obstat? E o estômago? Não estava feliz, entregue a seus jogos alquímicos de incorporação? Que catástrofes físicas e químicas poderiam ter acontecido por obra mágica de uma simples palavra, sopro, vento, para que o corpo mudasse de opinião tão de repente, vetando tudo aquilo que já havia provado e aprovado?
Nenhuma. Meu sogro, na cabeça, sabia que as palavras não podem mudar a coisa. Mas seu corpo seguia outra filosofia, pois para o corpo a comida não é só a coisa: é a coisa misturada com palavras. Não foi o gosto, não foi o cheiro, não foi a vista, não foi o tato, o que provocou o vomitório. Foi uma simples palavra. Meu sogro não vomitou a coisa. O que ele vomitou foi uma palavra. O que dá prazer e desprazer não são as coisas, mas as palavras que nelas moram. Como Zaratustra sugeriu, o que torna as coisas agradáveis são os nomes e os sons que lhes são dados. Por razões desconhecidas a palavra "couve-flor", no corpo de meu sogro, era moradora de um mundo bonito, enquanto a palavra "miolo" era o elo de uma cadeia de imagens repulsivas. Basta uma única palavra para transformar um príncipe num sapo. E nem é preciso a presença de uma bruxa. O próprio príncipe se enfeitiça...
O corpo tem uma filosofia que é toda sua. Para ele "realidade" não é aquilo que comumente chamamos por esse nome. Não é algo dado, pronto. É antes o resultado de uma operação alquímica por meio da qual a coisa sem nome é misturada com palavras. É assim que seu mundo é criado. E é isso que é dado ao corpo para ser comido. Guimarães Rosa conhecia a sabedoria do corpo e foi por isso que disse: "Tudo é real porque tudo é inventado". "Somos feitos de sonhos", diz Norman O. Brown. Meu sogro não vomitou a coisa. Ele vomitou sonhos maus, pesadelos, entidades sinistras invocadas pela palavra enfeitiçante...
-------------
*Escritor. Teólogo e educador.
Fonte: Correio Popular on line, 03/07/2011

sábado, 2 de julho de 2011

Parlamento no fosso

IVAN MARSIGLIA*
Celso Junior/AE
Estudo inédito mostra que o
 ‘presidencialismo de coalizão’ no Brasil
acaba por esvaziar a atuação do Congresso


Lançado sexta-feira de modo inusual na tradição acadêmica - via internet, em formato e-book - O Papel do Congresso Nacional no Presidencialismo de Coalizão traz uma nova e preocupante visão das instituições democráticas no País. A tese central do cientista político José Álvaro Moisés, coordenador do estudo, é que "a democracia incorporou a hipertrofia do Poder Executivo herdada do período militar".
A pesquisa, realizada pelo Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo, baseia-se em dados empíricos sobre o desempenho do Parlamento brasileiro entre 1995 e 2006, abrangendo os dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso e o primeiro de Luiz Inácio Lula da Silva. Mostra que, se por um lado o chamado "presidencialismo de coalizão" resolveu o problema da governabilidade - apontado no estudo pioneiro do cientista político Sérgio Abranches em 1988 -, por outro esvaziou de protagonismo o Congresso Nacional. E prejudicou seu papel de fiscalização do Poder Executivo.
Na entrevista a seguir, o professor José Álvaro Moisés expõe os riscos embutidos nesse padrão de funcionamento das instituições, fala da consequente deterioração da vida política no País e discute os percalços vividos pela presidente Dilma Rousseff com sua base de apoio no Congresso.

Que novidades a pesquisa traz?
Nosso estudo está situado em uma agenda de pesquisas sobre a democracia apoiadas em dados empíricos. Ele se insere numa tradição de trabalhos realizados desde os anos 90 sobre Legislativo e Executivo. A contribuição nova, creio, é um olhar que não se restringe ao ângulo da governabilidade - segundo o qual o Congresso tem respondido de maneira positiva ao Executivo e mostrado um padrão de funcionamento em que parlamentares são disciplinados em relação aos partidos e suas lideranças. Isso é importante, e diversos colegas da área de ciência política, como Fernando Limongi, Angelina Figueiredo, Fabiano Santos e Amorim Neto já o afirmaram. Já não existe o risco, sintetizado na formulação clássica do Sérgio Abranches sobre o "presidencialismo de coalizão": a ideia de que temos um pluripartidarismo fragmentado, governadores fortes demais e um federalismo problemático que impediriam o Executivo de agir. Mas os estudos de meus colegas não tratam das consequências desse padrão de funcionamento. A pergunta que fica é: se o Congresso tem sua agenda fundamentalmente definida pelo Executivo, atendendo à governabilidade, como ficam a representação da diversidade da sociedade e suas funções de fiscalização?

Qual é a resposta?
Que todos os incentivos institucionais existentes desde a Constituição de 1988 quase que forçam os parlamentares a se comportarem de maneira reativa e positiva em relação ao Executivo. E perde-se a dimensão de accountability, ou seja, de autonomia do Congresso para, nos casos necessários, corrigir a ação do Executivo. Isso não quer dizer que, na doutrina de divisão de poderes, Executivo e Legislativo tenham que entrar em conflito, mas não se pode perder essa ação permanente de fiscalização.

Como se explica que em um quarto de século o Congresso tenha passado de uma situação de protagonismo, com a Constituinte e o debate sobre parlamentarismo, para o padrão atual, ‘mais reativo que proativo’?
Tem a ver com decisões tomadas no contexto da formação do "centrão", durante a Constituinte. Não podemos esquecer que ela se realizou sob a égide do governo Sarney. E que as escolhas institucionais feitas estavam muito focadas no que houve no período 1946-1964 - quando tivemos momentos de paralisia decisória por conta da queda de braço entre o Executivo e o Legislativo. O regime militar introduziu uma mudança em relação a esse aspecto com os decretos-lei. Hoje, a continuação dos decretos-lei são as medidas provisórias. Manteve-se a hipertrofia do Executivo que caracterizava o regime militar após a redemocratização. Isso prejudica a qualidade de nossa democracia. Um sistema democrático não pode representar a ditadura da maioria sobre a minoria. Já no século 19 John Stuart Mill chamava a atenção para isso.

Apesar da maioria folgada que possui nas duas casas, a presidente Dilma Rousseff tem tido grande dificuldade nas votações no Congresso. Isso não contradiz sua hipótese?
Isso é ocasional, parte do jogo através do qual se arma o funcionamento do presidencialismo de coalizão. Temos uma situação em que a presidente eleita não foi a figura que liderou a formação da coalizão. Então, está tendo que enfrentá-la agora, ex post facto, depois que o governo começou. O que os parlamentares da base aliada estão dizendo? "Nós formaremos a coalizão majoritária se forem respondidas as nossas demandas de distribuição de cargos e de recursos das emendas." Veja bem, não estou dizendo que isso é ilegítimo. Partidos existem para disputar o poder. O problema é em que condições. No caso brasileiro, em vez das condições de estabelecimento da coalizão estarem subordinadas à negociação pública de um programa, isso não ocorre. Por isso, Dilma está numa saia justa, obrigada a fazer uma série de concessões que havia dito que não faria.

Esse tipo de negociação explica por que o Congresso é tão impopular? O estudo registra que 80% dos brasileiros desconfiam da instituição e menos de 16% a aprovam.
São dados que trouxe de minha pesquisa anterior, sobre a desconfiança dos cidadãos nas instituições. Creio que há uma percepção dos eleitores de que as instituições não estão funcionando para aquilo que foram criadas. E aí temos duas leituras: uma diz que na democracia o que importa é que as instituições produzam decisões. Outra que, além de decisões, as instituições têm uma dimensão valorativa, que diz respeito a sua missão. Qual é a do Congresso? Incorporar a diversidade de posições da sociedade. Entretanto, como afirma meu colega professor Edson Nunes, da PUC-SP, no Brasil todo mundo está representado dentro do Congresso - mas este não age de forma a responder a essa representação. Sentimentos e aspirações da sociedade que colidam com a maioria jamais se realizam. Claro que nem sempre a opinião pública é justa com o Congresso. Por exemplo, verificamos na pesquisa que as CPIs produzem resultados de fato, encaminham relatórios ao Ministério Público e fazem proposições em lei para corrigir os problemas detectados. Mas isso não aparece de maneira clara para o eleitor. Se você pensar em todo o período democrático, dos anões do orçamento ao mensalão, passando pelos desmandos na compra de ambulâncias, há uma dimensão positiva que pouco aparece nas pesquisas de opinião. Não por acaso, 1/3 dos eleitores brasileiros acredita que a democracia poderia funcionar sem o Congresso ou partidos políticos. É perigoso ter por muito tempo uma percepção pública que deslegitime as instituições.

O sr. citou o ‘mensalão’. Um trecho da pesquisa afirma que ele teria sido consequência da dificuldade de compreensão por Lula do presidencialismo vigente. Pode explicar?
Fernando Henrique sempre soube que o presidente sozinho não governa. No seu primeiro mandato, Lula não levou isso em consideração. No segundo, ele corrigiu. A experiência do "mensalão", desse ponto de vista, foi educativa. Lembre-se que antes de Lula assumir houve uma tentativa liderada pelo futuro ministro José Dirceu de fazer aliança com o PMDB, que Lula vetou. Seu governo ficou apoiado numa coalizão incompleta, com um ministério formado em grande parte pelo PT, e se desestabilizou. Autores como o professor Lúcio Rennó, da UnB, dizem que o presidencialismo de coalizão depende da virtude do presidente. Se o mandatário tiver habilidade e capacidade de negociar, cria uma base homogênea para acompanhá-lo.

Como se faz isso?
Com base em um programa de governo, claramente anunciado. Dizer para a sociedade: "Vai haver coabitação de partidos no governo, mas o programa que eles têm a realizar é este aqui". Como fiz parte do governo Fernando Henrique, o que vou dizer agora pode soar como observação parcial. Mas quero fazê-lo, tomando um passo de distância. Desde antes do início do governo, o presidente admitiu que o PFL faria parte da coligação. Chamou o PFL para governar e compartilhar responsabilidades. Por exemplo, foi feita uma correção na estrutura financeira, pelo Proer, apesar de uma série de bancos serem administrados por lideranças do PFL. O Econômico, na Bahia, foi fechado, o que deixou Antônio Carlos Magalhães muito bravo. O mesmo ocorreu no Paraná, com o Bamerindus. Em Minas Gerais, foi o banco da família Magalhães Pinto. Todos segmentos conservadores que faziam parte do bloco do governo. Mas o programa foi cumprido. É possível fazer uma composição com forças que não sejam homogêneas e, ao mesmo tempo, manter uma linha programática durante todo o mandato. Quando isso não ocorre o governo pode ficar sujeito a chantagens de sua base, como tem acontecido com a presidente Dilma.
"No Brasil, ou no mundo,
a democracia representativa precisa de reformas.
Mas ela não está em questão.
Precisamos valorizá-la e
 melhorar sua qualidade."
Nota-se nos últimos anos um certo esvaziamento no perfil dos parlamentares. Quase não se veem mais os grandes tribunos. É um sintoma do problema que o sr. aponta?
É o resultado dessa deterioração na vida política, no padrão de comportamento e de decisões do Parlamento. Nós citamos na pesquisa o depoimento de parlamentares que em 2010 decidiram não disputar as eleições. Jefferson Péres foi um deles. Pedro Simon disse que não iria, acabou disputando, mas também se diz desiludido. Figuras de qualidade acabaram se afastando da vida parlamentar - porque esta perdeu importância. A hipertrofia do Executivo sobre o Legislativo é tal no Brasil hoje que o presidente praticamente define a agenda das casas, a partir dos líderes e da composição das mesas. E, além das medidas provisórias, tem a prerrogativa exclusiva de definir o orçamento e a famosa possibilidade de pedir "urgência" ou até "urgência urgentíssima" (risos). É o recurso do recurso.

Isso não ocorre em outras democracias?
Muitos cientistas políticos consideram haver no mundo uma tendência de fusão dos Poderes Executivo e Legislativo. Aparentemente, isso seria mais visível no parlamentarismo, onde o líder do Parlamento se transforma em chefe de governo. Ainda assim, o presidente brasileiro é provavelmente um dos mais poderosos do mundo. Nos EUA, onde as instituições foram formadas sob forte influência de Montesquieu, os federalistas estavam preocupados em criar pesos e contrapesos para as instituições. Há alguns meses, congressistas americanos ameaçaram votar um orçamento que não correspondia ao desejo do governo Obama. O impasse só se resolveu mediante uma negociação de natureza institucional, entre os dois poderes.

Fala-se em ‘hiperativismo do Judiciário’. O presidente do STF, Cezar Peluso, argumentou que ‘o Legislativo tem que legislar’. É uma resposta ao vazio deixado pelo Legislativo?
Sim. Eu não concordei com a decisão do STF a respeito da cláusula de barreira, por exemplo. Mas a lei, que foi produzida no Congresso, tinha problemas de tecnicalidade jurídica. O Congresso, às vezes, mesmo quando toma decisões importantes não leva em conta os cuidados necessários para que a lei não seja barrada no Supremo. Será que não foi o que aconteceu com a Lei da Ficha Limpa, que veio como uma legítima aspiração da sociedade? É mais um problema de eficácia do Legislativo. Outro exemplo é a união civil de homossexuais, definida pelo STF. Ela não poderia ter sido objeto de lei no Congresso? Tenho certeza de que há projetos nesse sentido lá. O problema é que eles nunca tramitaram. Descobrimos que há 26 mil projetos parados na Câmara e 8 mil no Senado. Mas incluir ou não um projeto para votação nas casas depende da vontade da coalizão majoritária.

O desempenho deficitário do Parlamento brasileiro dificulta o trabalho da oposição?
Como toda a lógica do sistema vai na direção de estimular os parlamentares a aprovarem proposições feitas pelo Executivo, isso induz a uma diluição do papel da oposição. Parlamentares que queiram ter suas emendas contempladas são obrigados a incluí-las nos programas do governo. E acabam empurrados a votar com a coalizão majoritária. Claro que há questões de interesse nacional, as quais a oposição pode e deve apoiar. Mas quando se verifica que em 45% das votações a oposição segue a orientação do governo, algo está errado.

O filósofo espanhol Daniel Innerarity disse sobre a 'primavera árabe' e os movimentos na Grécia e Espanha que 'há um assalto generalizado contra a ideia da intermediação, uma visão segundo a qual a vontade geral é algo que se pode construir sem instituições'. A democracia representativa está em crise?
Vi essa afirmação e estive dialogando com o professor Renato Janine Ribeiro sobre isso. Acho que, primeiro, é preciso separar os casos. O anseio por democracia no mundo árabe não se confunde com a situação na Grécia e Espanha, que têm instituições, estruturas partidárias, direitos garantidos. Ainda que existam déficits de representação, democracias como a Itália e França introduziram mecanismos de consulta direta à população, como plebiscitos e referendos. A revolta popular no mundo árabe é uma força revolucionária que está gestando perspectivas novas. Mas veja que, no caso do Egito, a desmobilização ocorreu quando a junta militar que assumiu o poder prometeu uma nova Constituição. Ou seja, a ideia de que se ia institucionalizar foi uma resposta, boa ou má, aceita pelos manifestantes. Outra coisa é quando se defende a destruição das instituições. Aí, o risco que se corre é o da violência, da submissão dos mais fracos pelo poder dos mais fortes. No Brasil, ou no mundo, a democracia representativa precisa de reformas. Mas ela não está em questão. Precisamos valorizá-la e melhorar sua qualidade.
-------------------------
*Ivan Marsiglia é jornalista, bacharel em Ciências Sociais e editor assistente do caderno Aliás.

Fonte: Estadão on line, 02/07/2011

“Não me arrependo”

Foto: Leonardo Rodrigues/E-SIM
O desembargador Fausto De Sanctis fala de seus casos e da Justiça brasileira.

Não há mais a sensação de claustrofobia, reforçada pelas dezenas de processos espalhados pelo corredor e pela sala de pouca ventilação dos tempos da 6ª Vara Federal. O agora desembargador Fausto De Sanctis ocupa- um gabinete amplo no prédio do outro lado da rua e os documentos, em menor volume, estão diligentemente organizados em mesas e prateleiras. No horizonte, em vez de fachadas sujas, uma rara aglomeração de árvores na Avenida Paulista, o Parque Mário Covas. Para seres de espírito burocrático, não incomuns no Judiciário, talvez fosse a dose final de acomodação. Mas De Sanctis permanece irremediavelmente irrequieto. Nos últimos meses, absorto nas novas funções e à espera do desenrolar das ações disciplinares contra ele, o magistrado assistiu à completa desmontagem de suas decisões contra criminosos de colarinho-branco. Em um curto espaço de tempo, tribunais superiores suspenderam a Operação Castelo de Areia, que investiga propinas pagas a políticos pela empreiteira Camargo Corrêa, e a condenação do banqueiro Daniel Dantas no curso da Satiagraha. Nada disso parece ter abalado suas convicções. “Não me arrependo de nenhuma decisão”, diz o juiz, cujo trabalho é atacado no Brasil e elogiado fora dele, inclusive nos Estados Unidos. Durante pouco mais de uma hora, resumidos a seguir, De Sanctis lembrou os principais casos na primeira instância e falou da Emenda Peluso, do abuso no uso do habeas corpus, da Marcha da Maconha e, claro, da corrupção no Brasil.

CartaCapital: Nos últimos anos, e nas últimas semanas, o seu trabalho esteve constantemente sob holofotes. O senhor foi muito criticado. Arrepende-se de alguma decisão?
Fausto De Sanctis: Todas as minhas decisões foram refletidas, levaram em consideração as garantias individuais, os fatos, a lei e a necessidade de proteção da sociedade. As decisões de grande repercussão foram pautadas por uma consistência e uma preocupação perene em tentar fazer o melhor. Não me arrependo de nada. Pela natureza dos casos que chegavam à 6ª Vara, pela notoriedade dos acusados, meu trabalho acabou muito exposto, mas nunca busquei os holofotes. Tive a preocupação não só de decidir, de condenar ou absolver, mas de prover a sociedade com os recursos devidos. Ao todo, 38 entidades beneficentes receberam repasses de recursos obtidos de delações premiadas e vendas antecipadas de bens apreendidos em casos julgados por mim. Visei contribuir para uma Justiça de Primeiro Mundo, solidária e igual.
(...)
CC: O que senhor acha da proposta do ministro Cezar Peluso para apressar a execução das penas e reduzir o tempo de trâmite dos processos:
FDS: O juiz tem de levar em consideração os fatos e as normas. Não é possível mais, como se faz hoje, fazer a interpretação da norma enquanto valor, e dar as coisas aos fatos, à realidade. Há quem diga, como Douglas Fisher, que a verdadeira jurisdição constitucional e a ordinária, pois o juiz de primeiro grau está em contato direto com as partes. É incompreensível que o sistema brasileiro abarque o princípio da inocência de tal maneira que exija um transcorrer até ó último grau de jurisdição. A Emenda Peluso é muito importante para minimizar os efeitos danosos da morosidade da Justiça. Mas eu incluiria outra questão.

CC: Qual?
FDS: A interpretação e a elasticidade que se dão aos habeas corpus se justificam? Tenho de dizer que o habeas corpus é um instrumento absolutamente necessário, e deve ser usado pelos advogados como recurso constitucional, mas o HC tem sito utilizado como uma maneira de fraudar o devido processo legal, que também é um valor constitucional. É uma maneira de se evitar que o processo tenha o seu trâmite normal, que seja objeto dos seus recursos previstos legalmente e que haja apreciação profunda da prova no campo adequado e não por decisão monocráticas, isoladas, fora do contexto fático e da responsabilidade ética e jurídica.

CC: O que o senhor acha do novo Código de Processo Penal?
FDS: É um movimento garantista radical. Veja o caso da prisão preventiva. Quando estava na vara 6ª Vara, o índice de prisões preventivas era de 0,25% dos casos. Portanto, não sou fanático pela prisão preventiva. Ms o que o novo código prevê é um absurdo, veda a preventiva para crimes com pena inferior a quatro anos. Isso retira do juiz a possibilidade de apreciar a conveniência ou não da prisão no caso concreto, e isso me assusta. Furtos consumados, crimes econômico-financeiros não são mais possíveis de prisão preventiva. O juíz ficará de mãos atadas se, por exemplo, um acusado ameaçar uma testemunha. O curioso é que as convenções internacionais consideram grave uma pena igual a quatro anos, no Brasil não. Não tenho só críticas. Considero válida a inserção no Código de medidas alternativas à prisão.

CC: Não é a consagração do princípio de que só vai para a cadeia o ladrão de galinha?
FDS: Não posso negar que, ao se fazer um estudo nas cadeias brasileiras, só vamos encontrar pessoas de baixa estatura econômica. E o Judiciário existe para igualar, justiça significa olhar o outro e igualar, ela é a condição de bem-estar e jamais pode ser dissociada da realidade, da sua utilidade. A tarefa do Juridiciário é a correação de rumos. O país peca por inssitentemente não querer as mudanças necessárias e adequadas. Participei, recentemente,  de um seminário internacional no Peru e as discussões, lá, eram como tratar as organizações criminosas, que são devastadoras do Estado, capazes de influenciar na vontade da Polícia, do Ministério Público, dos políticos e do juiz. Temos de impedir que o crime organizado tome o controle como tem ocorrido em vários países.

CC: O Brasil corre esse risco?
FDS: Não tenho dúvida, o tráfico de drogas usa o País como um corredor natural de distribuição. Fico surpreso com o atual nível de discussão na sociedade. A Marcha da Maconha, para mim, é um exemplo claro do estado de secessão da sociedade brasileira.

CC: Por quê:
FDS:  A preocupação de um grupo de privilegiados é com a liberação de uma droga, mas a lei já totalmente benevolante. Não vejo no Brasil uma marcha por uma educação pública de qualidade, porque não é uma preocupação das elites dominantes, ou pelo combate à corrupção, que é avassaladora. Não vejo uma marcha por uma saúde pública de qualidade. Por quê? Porque as pessoas privilegiadas estão preocupadas em descriminalizar o uso da maconha. Agora, veja, na questão das drogas, o País praticamente já descriminalizou, pois hoje o juiz só pode oferecer ao consumidor uma medida educativa.

CC: Como lidar com o assunto? A repressão, a guerra às drogas, não tem obtido muitos avanços.
FDS: O risco de se liberar simplesmente o consumo de drogas é o de se perder o controle sobre a saúde pública. A discussão tem de partir de até que ponto o País está pronto para assumir essa massa de viciados que virá com a liberação. Na Nova Zelândia, por o exemplo, a BZP, uma droga sintética, foi permitida em determinado momento. Perceberam-se depois seus efeitos danosos. Primeiro, o governo tentou reduzir a distribuição. Por fim, decidiu proibir o consumo novamente. O Brasil não está preparado para receber massa nenhuma de viciados. Não cuidamos nem dos que existem hoje.
-------------------------
Reportagem por Sergio Lirio
Fonte: Carta Capital on line e impressa, 06/07/2011.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 653, já nas bancas.

A soma e o resto

Fernando Henrique Cardoso*
Tomo de empréstimo o título de um livro de Henri Lefebvre, escritor francês que rompeu com o Partido Comunista em 1958 e publicou suas razões para tanto neste livro de 1959. Anos mais tarde, em 1967/68, fui colega de Lefebvre em Nanterre quando demos início, junto com Alain Touraine, Michel Crozier e com o então quase adolescente Manuel Castells a uma experiência de renovação da velha “Sorbonne”, na área das ciências humanas. Sempre gostei do título do livro de Lefebvre e agora, ao escrever estas linhas – sem qualquer pretensão a devaneios psicanalíticos –, me recordo também que Lefebvre tinha uma grande semelhança física com meu pai. Mas o fato é que há momentos para fazer um balanço. No caso, Lefebvre descontava o que o Partido Comunista lhe tirara ou ele do mesmo e via o que sobrava: a experiência dramática das revelações que Kruschev fizera dos horrores stalinistas, somadas à invasão da Hungria, provocaram uma remexida crítica na intelectualidade europeia, que não deixou de afetar a brasileira e a mim próprio.
Hoje, ao completar 80 anos, diante do fato inescapável de que o tempo vai passando e às vezes não deixa pedra sobre pedra, eu, que não sou dado a balanços de mim mesmo (e nem dos outros), senti certa comichão para ver o que resta a fazer e a soma das coisas que andei fazendo. Mas, não se assuste o leitor: o espaço de uma crônica não dá para arrolar o esforço de oito décadas para tentar construir algo na vida, quanto mais para alistar o muito de errado que fiz, que pode superar as pedras que eventualmente ficaram em pé. Além do mais, prefiro olhar para frente a mirar para trás. Quando algum repórter me pergunta o que acho que ficará de mim na História, costumo dizer, com o realismo de quem é familiarizado com ela, que daqui a cem anos provavelmente nada, talvez um traço dizendo que fui presidente do Brasil de 1995 a 2003. Quando insistem em que fiz isso ou aquilo, outra vez meu realismo – não pessimismo, nem hipocrisia de modéstia – pondera que, no transcorrer da história, quem sobra nela é visto e revisto pelos pósteros ora de modo positivo, ora negativo, dependendo da atmosfera reinante e da tendência de quem revê os acontecimentos passados. Portanto, melhor não nos deixarmos embalar pela ilusão de que há pedras que ficam e que serão sempre laudadas. Além do mais, dito com um pouco de ironia, se o julgamento que vale para os homens políticos e mesmo para os intelectuais é o da História, de que serve o que digam de nós depois de mortos?
Pois bem, se é assim, se o que vale é o agora, não tenho palavras para agradecer a tantos, e foram muitos, os que se referiram a mim com generosidade neste passado mês de junho. Mesmo sabendo, repito, da efemeridade dos juízos, é bom escutar pessoas próximas, não tão próximas e mesmo distanciadas por divergências, procurarem ver mais o lado bom, quando não apenas ele, e expressarem opiniões que me deixaram lisonjeado e, a despeito de meu realismo, quase embalado na ilusão de que fiz mais do que penso ter feito. Como não posso agradecer a cada um pessoalmente, nem desejo deixar de lado alguém nem os muitos que me disseram pessoalmente palavras de estímulo ou as registraram por cartas, e-mails ou na web, aproveito esta página de jornal para reiterar que não sei como exprimir o quanto a solidariedade dos contemporâneos me emocionou.

"Pode parecer “coisa de velho”,
mas o fato é que a esta altura da vida estou convencido,
sem prejuízo das crenças partidárias e ideológicas,
de que cada vez mais, como humanidade,
 como cidadão e como seres nacionais, simultaneamente,
estamos nos aproximando de uma época
na qual ou encontramos alguns
pontos de convergência,
uma estratégia comum para
a sobrevivência da vida no planeta e
para a melhoria da condição de vida
dos mais pobres em cada país,
ou haverá riscos efetivos de rupturas
no equilíbrio ecológico e no tecido social."

Não posso me queixar da vida. Vivi a maior parte do tempo dias alegres, mesmo que muitas vezes tensos. Assim como senti as perdas que fazem parte de sobreviver. Perdi muita gente próxima ou que admirava à distância nestes 80 anos. Pais, irmãos, mulher, amigos, amigas, companheiros de vida acadêmica e política. Ainda agora, para que nem tudo fosse rosas, perdi às vésperas de meu aniversário um companheiro de universidade com quem convivi cerca de 50 anos, Juarez Brandão Lopes. E no momento em que escrevo estas linhas veio a notícia da morte de Paulo Renato Souza, companheiro, colaborador, grande ministro da Educação, colega de exílio. As perdas, para quem está vivo, são relativas. Aprendi a conviver na memória com as pessoas queridas e mesmo com algumas mais distantes com as quais “converso” vez por outra no imaginário para reposicionar o que penso ou digo. Tomo em conta o que diriam os que não estão mais por aqui, mas deixaram marcas profundas em mim. Na soma, não cabe dúvida, mantive mais amigos que adversários. Não sinto rancor por ninguém, talvez até por uma característica psicológica, pois esqueço logo as coisas de que não gosto e procuro me lembrar das que gosto e pelas quais tenho apego.
Por fim, para não escrever uma página muito água com açúcar, se me conforta ter tantos amigos e receber deles tanto apoio e se prezo a amizade acima de quase tudo, devo confessar que apesar de meu pendor intelectual ser forte, no fundo, sou um homo politicus. Herdado de meus pais e de algumas gerações de ancestrais, vivo a vida na tecla do serviço ao público, da polis, e para mim o público hoje não é apenas o brasileiro, mas tem uma dimensão global. Pode parecer “coisa de velho”, mas o fato é que a esta altura da vida estou convencido, sem prejuízo das crenças partidárias e ideológicas, de que cada vez mais, como humanidade, como cidadão e como seres nacionais, simultaneamente, estamos nos aproximando de uma época na qual ou encontramos alguns pontos de convergência, uma estratégia comum para a sobrevivência da vida no planeta e para a melhoria da condição de vida dos mais pobres em cada país, ou haverá riscos efetivos de rupturas no equilíbrio ecológico e no tecido social.
Não é o caso de especificar as questões neste momento. Mas cabe deixar uma palavra de advertência e de otimismo: é difícil buscar caminhos que permitam, em alguns temas, uma marcha em comum, mas não é impossível. Tentemos. Vi tanta boa vontade ao redor de mim nestas últimas semanas que a melhor maneira de retribuir é dizendo: espero poder ajudar a todos e a cada um a sermos mais felizes e dispormos de melhores condições de vida. Guardarei as armas do interesse pessoal, partidário ou mesmo dos egoísmos nacionais sempre que vislumbrar uma estratégia de convergência que permita dias melhores no futuro. Com confiança e determinação, eles poderão vir.
----------------------------
*Ex-presidente da República
Fonte: ZH on line, 03/06/2011
Imagem da Internet

O futuro do Brasil passa por mudança em seu papel na nova ordem mundial

Delfim Netto*
O momento que vivemos oferece algumas características que nos estimulam a olhar o que vem por aí na economia. Um desses estímulos me veio da observação recente do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, quando chamou a atenção para o fato de que o Brasil não deve aproveitar inocentemente o excesso de liquidez que existe no mundo. Esse enorme fluxo de dólares vai ter consequências para a nossa economia ao supervalorizar o real e ampliar as dificuldades para a indústria. E abre também a perspectiva de problemas para bancos e empresas que estão se endividando mais do que seria prudente.
Um olhar sobre o futuro permite antever que alguns setores que estão se endividando alegremente além da conta podem ter de enfrentar apertos sérios se a economia mundial voltar a piorar.
Outro estímulo decorre do entusiasmo que vem despertando além-fronteiras o formidável desempenho do setor agropastoril brasileiro. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) divulgou recentemente uma estimativa segundo a qual ao menos 30% do aumento da oferta de alimentos que vai sustentar a demanda da população mundial, de 9 bilhões em 2040, deverá ser garantido pela produção brasileira. Será ótimo se isso vier a se realizar, mas não podemos contar com um desenvolvimento tecnológico que ainda não ocorreu.
Tais cálculos são sempre duvidosos. Lembro que nos anos 70 do último século era seguro que todos estaríamos mortos de fome hoje, caso as previsões estivessem corretas. Minha impressão é de que não cabem no mundo 9 bilhões de pessoas em 2040/2050 com a renda per capita de 20 mil dólares. Seria necessário usar a terra de um outro mundo para produzir comida. Além disso, quem se arrisca a garantir que a China manterá por mais 20 ou 30 anos o dinamismo econômico de hoje e a estrutura política atual, que já dá alguns sinais de fadiga?
É claro que o Brasil não pode aceitar passivamente o modelo de desenvolvimento agromineral-exportador induzido que lhe está sendo imposto pela nova divisão internacional do trabalho: para a China, o fornecimento universal dos bens industrializados, para a Índia, o fornecimento global dos serviços, e, para o Brasil, o de fornecedor residual de produtos agrícolas e minerais.

"O que precisamos é voltar nossas
atenções para o futuro do setor
criador de empregos por excelência,
 restaurando as condições de isonomia
que permitam aos nossos empresários
e trabalhadores da indústria consolidar
a expansão do mercado interno
que vai assegurar os bons cargos
a nossos filhos e netos."



O setor, que é o maior poupador de mão de obra, será incapaz de dar emprego de boa qualidade a quase 150 milhões de brasileiros com idades entre 15 e 65 anos que viverão em 2030! A aceitação desse modelo coloca em risco o futuro da economia brasileira como instrumento de construção de uma sociedade justa, com baixos índices de desemprego e suficiente emprego de boa qualidade. O que precisamos é voltar nossas atenções para o futuro do setor criador de empregos por excelência, restaurando as condições de isonomia que permitam aos nossos empresários e trabalhadores da indústria consolidar a expansão do mercado interno que vai assegurar os bons cargos a nossos filhos e netos.
É exatamente a criação dessa capacidade que abre as portas para a construção da sociedade que todos desejamos, capaz de dar igualdade de oportunidade para todo cidadão.
Não deixa de ser perturbador como um grande número de pessoas assume um papel conformista diante do que supõem ser uma fatalidade histórica, que é melhor aceitar do que combater. Aquela divisão internacional do trabalho não tem nada de natural ou inexorável. É apenas produto de uma inteligente política do governo chinês, oportunisticamente aceita na OMC pela simbiótica relação com alguns países (em particular os EUA) e pela complacência de outros, como é o nosso caso.
É claro que o Brasil faz bem em aproveitar o aumento da demanda física de alimentos e minerais por parte da China e as altas de preços estimuladas pela política monetária americana. Como o dólar nominal é a unidade de conta internacional, quando ele perde valor, a contrapartida do mercado é elevar ainda mais os preços das commodities.
Apenas para dar um exemplo: há dez ou 11 anos, um mix de exportação de 1 tonelada do Brasil comprava um mix de 0,9 tonelada da importação. Hoje 1 tonelada exportada compra 1,4 tonelada importada. Isso correspondeu a um choque de “produtividade”, que permitiu a libertação da economia brasileira- da permanente situação de iliquidez externa, cuja última manifestação foi no final do governo FHC, quando tivemos de correr ao FMI para permitir uma eleição tranquila. Mas é uma temeridade e uma grande imprudência supor que isso não vai mudar nos próximos 20 ou 30 anos…
----------------------------
* Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.
Fonte: Carta Capital on line, 02/07/2011