quinta-feira, 7 de julho de 2011

Tempos sábios, tempos tolos

ZANDER NAVARRO*
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Continuaremos atacando os
cânones da produção do conhecimento
 e propondo "alternativas",
 como se o resto do mundo fosse errado?
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Dickens publicou "Um Conto sobre Duas Cidades" em 1859, e o primeiro parágrafo da obra se tornou célebre, evocando as contradições daqueles tempos.
Seria, segundo o cronista da aspereza vitoriana, simultaneamente, o melhor e o pior dos mundos.
Uma época em que os cidadãos teriam tudo diante de si, mas também nada perante a sua existência.
A lembrança literária é oportuna para reavivar a recente polêmica em torno do excêntrico livro adotado pelo MEC, que pretende naturalizar alguns barbarismos de linguagem. É outro sintoma das múltiplas faces de um danoso e subterrâneo processo em andamento no período contemporâneo.
Na primavera democrática, vale tudo, e qualquer aspecto tortuoso da vida social é confundido com a necessidade de contestação política e de um passado a ser banido, zerando a história.
Esse difuso comportamento, indistinto em suas origens, mas sobrepondo ação partidária, primária ideologização, visões anárquicas ou mágicas, voluntarismo político e fundamentos religiosos (provavelmente da esquerda católica), vem também contaminando gradualmente a ciência brasileira.
Desde os anos 90, prenunciando sombrios impactos futuros, têm sido rebaixados os papéis da ciência e dos cientistas. Curiosa regressão, pois ocorre quando o país ostenta uma legião de especialistas em todos os campos, com inéditos níveis de aperfeiçoamento científico.
São movimentos insidiosos, que vão corroendo as práticas de pesquisa, instaurando um populismo que se pretende científico. E são tendências graves, pois usam fundos da sociedade; muitas autoridades sancionam essa ação destrutiva, o que confunde socialmente. No limite, deseduca e distorce o valor universal da ciência.
Cito três exemplos. Primeiramente, a publicação "Transgênicos para Quem?", lançada com fanfarra em cinco cidades.
É livro que não resistiria a nenhuma análise, pois reúne um amontoado de fantasias ideológicas, sem nenhum lastro factual.
Um deplorável panfleto financiado com fundos públicos. E reacionário, por ser este um tema vencido em nossos dias.
Em segundo lugar, o recente documento da SBPC e da ABC, que pretenderia se contrapor à mudança do Código Florestal. Assinado por respeitáveis cientistas, seu arrazoado deveria iluminar a controvérsia sobre o novo Código. Mas não: o texto parece ter sido feito às pressas. Ao fim e ao cabo, uma intervenção inútil, ainda se arvorando como representativa da comunidade científica.
Finalmente, registre-se a audiência pública destinada à discussão de uma notável conquista da ciência brasileira, uma variedade transgênica da Embrapa que permite controlar uma das maiores ameaças à produção de feijão, causada por um vírus.
Um feito digno de manchetes, que nos enche de orgulho. Mas a audiência foi circense, pois ONGs e o representante do Consea, ligado à Presidência, carnavalizaram o evento, com argumentos infantis e ostensivamente anticientíficos.
Ficam as perguntas que os brasileiros precisam responder: queremos o conhecimento científico? A ciência é inimiga do povo? Continuaremos atacando os cânones da produção do conhecimento e propondo "alternativas", como se tudo aquilo feito no restante do mundo fosse errado? E o que dizer de tantos absurdos patrocinados com recursos públicos?
Quando debateremos com transparência e sem intimidação os rumos da ciência brasileira?
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* ZANDER NAVARRO, 59, é sociólogo e professor na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Entre 2003 e 2010 foi professor e pesquisador no Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento, na Inglaterra.
Fonte: Folha on line, 07/07/2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Entrevista com Eric Hobsbawm sobre a crise econômica

 Eric Hobsbawm - Imagem da Internet

Eric Hobsbawm fala, entre outros assuntos, sobre o que é hoje o marxismo e a crise na União Europeia. Hobsbawm acredita que, no futuro próximo, praticamente todos ou quase todos os países europeus serão governados por governos de direita, de um tipo ou de outro. Para ele, a crise econômica que se arrasta desde 2008, tem muito a ver com a deriva à direita na Europa.
Para Hobsbawm, crise explica deriva à direita na Europa*
O blog do italiano Beppe Grillo entrevistou Eric Hobsbawm no dia do seu 94º aniversário. Hobsbawm, que faz questão de dizer que é um historiador, não um futurologista – fala, entre outros assuntos, sobre o que é hoje o marxismo e a crise na União Europeia. Hobsbawm acredita que, no futuro próximo, praticamente todos ou quase todos os países europeus serão governados por governos de direita, de um tipo ou de outro. Para ele, a crise econômica que se arrasta desde 2008, tem muito a ver com a deriva à direita na Europa. "Acho que, hoje, só quatro economias na Europa, na União Europeia, estão sob governos de centro ou de esquerda".

(1) Sobre o marxismo hoje

Eric Hobsbawm: Sou o Eric Hobsbawm. Sou um historiador muito velho. Como tal, telefona-me no dia do meu 94º aniversário. Durante toda a minha vida escrevi principalmente sobre a história dos movimentos sociais, a história geral da Europa e do mundo dos séculos XIX e XX. Acho que todos os meus livros estão traduzidos para italiano e alguns foram até bastante bem recebidos.

Blog de Beppe Grillo: A nossa primeira pergunta é sobre o seu livro. O marxismo é considerado um fenômeno pós-ideológico. Poderia explicar-nos porquê? E quais serão as consequências dessa mudança?
Eric Hobsbawm: Eu não usei exatamente a expressão “fenômeno pós-ideológico” para marxismo, mas é verdade que, no momento, o marxismo deixou de ser o principal sistema de crenças associado aos grandes movimentos políticos de massa em toda a Europa. Apesar disso, acho que sobrevivem alguns pequenos movimentos marxistas. Nesse sentido, houve uma grande mudança no papel político que o marxismo desempenha na política da Europa. Há algumas partes do mundo, por exemplo, a América Latina, em que as coisas não se passaram do mesmo modo. A consequência daquela mudança, na minha opinião, é que agora todos podemos concentrar-nos mais e melhor nas mudanças permanentes que o marxismo provocou, nas conquistas permanentes do marxismo.
Essas conquistas permanentes, na minha opinião, são as seguintes: Primeiro, Marx introduziu algo que foi considerado novidade e ainda não se realizou completamente, a saber, a crença de que o sistema econômico que conhecemos não é permanente nem destinado a durar eternamente; que é apenas uma fase, uma etapa no desenvolvimento histórico que acontece de um determinado modo e deixará de existir e converter-se-á noutra coisa ao longo do tempo.
Segundo, acho que Marx concentrou-se na análise do específico modus operandi, do modo como o sistema operou e se desenvolveu. Em particular, concentrou-se no curioso e descontinuo modo através do qual o sistema cresceu e desenvolveu contradições, que por sua vez produziram grandes crises.
A principal vantagem da análise que o marxismo permite fazer é que considera o capitalismo como um sistema que origina periodicamente contradições internas que geram crises de diferentes tipos que, por sua vez, têm de ser superadas mediante uma transformação básica ou alguma modificação menor do sistema. Trata-se desta descontinuidade, deste reconhecimento de que o capitalismo opera não como sistema que tende a se auto-estabilizar, mas que é sempre instável e eventualmente, portanto, requere grandes mudanças. Esse é o principal elemento que ainda sobrevive do marxismo.
Terceiro, e acho que aí está a preciosidade do que se poderá chamar de fenômeno ideológico, o marxismo é baseado, para muitos marxistas, num senso profundo de injustiça social, de indignação contra a desigualdade social entre os pobres e os ricos e poderosos.
Quarto, e último, acho que talvez se deva considerar um elemento – que Marx talvez não reconhecesse – mas que esteve sempre presente no marxismo: um elemento de utopia. A crença de que, de um modo ou de outro, a sociedade chegará a uma sociedade melhor, mais humana, do que a sociedade na qual todos vivemos atualmente.

(2) Uma deriva à direita na Europa?

Blog: No norte da África e em alguns países europeus – Espanha, Grécia e Irlanda – alguns movimentos de jovens que nasceram na internet e usam redes, por exemplo Twitter e Facebook, estão aproximando-se da política. São movimentos que exigem mais envolvimento e mudanças radicais nas escolhas das sociedades. Mas, ao mesmo tempo, a Espanha tende à direita; a Dinamarca votou pelo encerramento das fronteiras com a Hungria; e na Finlândia, e até mesmo na França, com Marie Le Pen, estão surgindo partidos nacionalistas de extrema-direita. Não é isto uma contradição?
Eric Hobsbawm: Não, não acho. Acho que são fenômenos diferentes. Acho que, na maioria dos países ocidentais, hoje, os jovens são uma minoria politicamente ativa, largamente por efeito de como a educação é construída. Por exemplo: os estudantes sempre foram, ao longo dos séculos, elementos ativistas. Ao mesmo tempo, a juventude educada hoje é muito mais familiarizada com modernas tecnologias de informação, que transformaram a agitação política transnacional e a mobilização política transnacional.
Mas há uma diferença entre (a) esses movimentos de jovens educados nos países do ocidente, onde, em geral, toda a juventude é fenômeno de minoria, e (b) movimentos similares de jovens em países islâmicos e em outros lugares, nos quais a maioria da população tem entre 25 e 30 anos. Nesses países, portanto, muito mais do que na Europa, os movimentos de jovens são politicamente muito mais massivos e podem ter maior impacto político. O impacto adicional na radicalização dos movimentos de juventude acontece porque os jovens hoje, em período de crise econômica, são desproporcionalmente afetados pelo desemprego e, portanto, estão desproporcionalmente insatisfeitos. Mas não se pode adivinhar que rumos tomarão esses movimentos. No todo, os movimentos dessa juventude educada não são, politicamente falando, movimentos da direita. Mas eles só, eles pelos seus próprios meios, não são capazes de definir o formato da política nacional e todo o futuro. Creio que, nos próximos dois meses, assistiremos aos desdobramentos desse processo.
Os jovens iniciaram grandes revoluções, mas não serão eles que necessariamente decidirão a direção geral pela qual andarão aquelas revoluções. Cada direção, claro, depende do país e da região. Obviamente as revoluções serão muito diferentes nos países islâmicos, do que são na Europa ou, claro, nos EUA.
E é verdade que na Europa e provavelmente nos EUA pode haver uma deriva para a direita, na política. Mas isso, parece-me, será assunto da terceira pergunta.

(3) A crise econômica

Blog: Sim, a próxima pergunta é sobre a crise econômica em que vivemos desde 2008. As crises de 29, 33, levaram o fascismo ao poder. Prevê algum risco de a crise atual ter os efeitos que tiveram as crises de 28, 29, 33?
Eric Hobsbawm: Bem, não há dúvidas de que a crise, a crise econômica que se arrasta desde 2008, tem muito a ver com a deriva à direita na Europa. Acho que, hoje, só quatro economias na Europa, na União Europeia, estão sob governos de centro ou de esquerda. Algumas daquelas devem perder. A Espanha provavelmente também se moverá em direção à direita. Nesse sentido, parece verdade. Não acho que haja aí qualquer risco de ascensão do fascismo, como nos anos 1930s. O perigo do fascismo nos anos 1930s foi, em grande medida, resultado da conversão de um país em particular, um país decisivo politicamente, nomeadamente a Alemanha sob a alçada de Hitler.
Não há sinal de que nada disso esteja a acontecer hoje. Nenhum dos países importantes, segundo me parece, dá qualquer sinal nessa direção. Nem nos EUA, onde há um forte movimento direitista, pode-se concluir que aquele movimento ganhe poder nas urnas. Nem, tampouco, no caso dos partidos e movimentos de extrema-direita nos países europeus. Apesar de serem fortes, têm-se mantido como fortes minorias sem grandes hipóteses de se tornarem maiorias. Mas, sim, creio que, no futuro próximo, praticamente todos ou quase todos os países europeus serão governados por governos de direita, de um tipo ou de outro. Recorde-se que um dos efeitos logo termo da crise económica dos anos 1930s foi que praticamente toda a Europa tornou-se democrata e de esquerda, como jamais antes acontecera. Mas isso levou algum tempo. Portanto, há um risco, mas não é o mesmo risco que havia nos anos 1930. O risco é antes o de não se agir o suficiente para lidar com os problemas básicos, enaltecidos pelo capitalismo dos últimos 40 e enfatizados pelo renascimento dos estudos marxistas.

Blog: O que pensa sobre a União Europeia e sobre o que já foi conseguido? A União Europeia conseguirá consolidar-se ou voltará a ser uma simples reunião de estados?
Eric Hobsbawm: Acho que a esperança de que a União Europeia venha a ser algo mais que uma aliança de estados e área de livre comércio, essa, não tem grande futuro. Não irá muito além do que já foi até aqui, mas não acho que seja destruída.
Acho que o que já se fez, um grau de livre comércio, um grau muito mais importante de jurisprudência comum e lei comum permanecerão. A principal fraqueza da União Europeia, parece-me, razão do fracasso, foi o conflito entre a economia e a base social da União Europeia. Um conflito que resultou da tentativa para eliminar a guerra entre a França e a Alemanha e unificar economicamente as partes mais ricas e desenvolvidas da Europa. Esse objetivo foi alcançado. Tal foi misturado em seguida com um objetivo político associado à Guerra Fria e ao desenvolvimento após o fim deste período, nomeadamente o objetivo de extensão das fronteiras a todo o continente e mais além. Este processo dividiu a Europa em partes que já não são facilmente coordenáveis.
Economicamente, as grandes crises são ambas muito parecidas no que diz respeito às aquisições para a União Europeia desde os anos 1970s, na Grécia, em Portugal e na Irlanda, por exemplo. Mesmo politicamente, as diferenças entre os antigos estados comunistas e os antigos estados não comunistas da Europa enfraqueceram a capacidade de a Europa continuar a desenvolver-se. Se a Europa continuará a conseguir manter-se como está, eu não o sei. Não creio, contudo, que a União Europeia deixe de existir e acho que continuaremos a viver numa Europa mais coordenada do que a que conhecemos, digamos, desde a II Guerra Mundial.
De qualquer modo, devo dizer que está fazendo-me perguntas enquanto historiador mas sobre o futuro. Infelizmente, os historiadores sabem tanto sobre o futuro quanto qualquer outra pessoa. Por isso, as minhas previsões não são fundadas em nenhuma especial vocação que eu tenha para prever o futuro.
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Tradução: Coletivo Vila Vudu
Fonte: Blog de Beppe Grillo Data: 18/06/2011

Uma direção ou nenhuma

Ruy Carlos Ostermann*

Não é exatamente fácil corrigir uma tendência antiga que se pode ter, a de ir a duas ou três direções, quase sempre. Outra direção não chega a ser exatamente uma direção, um caminho demarcado pela experiência de muitos anos, uma faixa branca e iluminada, fácil de ver e entender o seu significado. Mas não é mais do que um aceno, uma mancha na parede ou na calça, enfim, não passa de uma discreta advertência.
E uma tendência antiga é um calo, se pode reparar nele todo o dia, mas não se deve raspá-lo com canivete ou com lixa de unha. Deixa marcas, solta sangue e volta a ser o mesmo algum tempo depois. Não pensem que estou ficando vago e descolorido. Nada disso, estou sendo eu mesmo, numa outra direção.
Não é fácil perceber que uma coisa dessas está acontecendo com a gente. Somos sempre assim, preferentemente: disfarçamos, falamos de outra coisa, até com ênfase mentirosa. E se tiverem a ousadia de perguntar com surpreendente precisão sobre o que é mesmo que está acontecendo - pela intimidade e conhecimento que têm, pela percepção privilegiada que sabem operar -, é preciso logo disfarçar porque, se não bastasse todo o incômodo provocado por essa incerteza pessoal, alguma coisa que dá na pele e move os olhos, a perturbação e o sentimento de abandono são inevitáveis.
E assim, ficamos tristes e solitários, vamos para um canto. E a vida é que passa.
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* Ruy Carlos Ostermann é chamado de professor. O apelido o acompanha desde os tempos da Folha da Tarde, em 1957, quando começou sua carreira jornalística. Não se deve à análise criteriosa que faz do futebol ou à seriedade com que trata essa paixão nacional. Ruy é professor, de formação. E Filósofo.
Formado na UFRGS, foi assistente do professor Ernani Maria Fiori na cadeira de Introdução à Filosofia. Lecionou Filosofia no Colégio Israelita Brasileiro e no colégio João XXIII e foi professor de Psicologia da Educação na UFRGS.
Fonte: http://www.encontroscomoprofessor.com.br/06/07/2011
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Senador diz que projeto é 'polêmico'

O senador Valdir Raupp (PMDB-RO) assume: seu projeto de lei que pretende criminalizar a venda de videogames "ofensivos" é polêmico. Trocando o "ofensivo" por "violento", ele comentou o projeto por telefone:

Folha - O que exatamente o projeto criminaliza?
Valdir Raupp - Na verdade, são os games violentos. Estou convocando uma audiência pública para trazer especialistas pra falar sobre esse assunto, antes de tocar esse projeto pra frente. Vamos ouvir o que a equipe de especialistas tem a dizer.

A ideia seria criminalizar venda e fabricação de videogames violentos?
Não seria nem a fabricação, porque eles não são fabricados no Brasil. Seria a comercialização.

O que podemos considerar como game violento?
São uns três ou quatro que matam, em que a pessoa ganha pontos por matar mais ou atropelar mais pessoas na calçada. Aqueles que matam com facas ou tiros. E naquele episódio do Rio de Janeiro, no Realengo, ficou provado que o cara estava praticando por meio dos videogames. As aulas que ele estava tendo eram no computador.

Você pode dar algum exemplo?
Não tenho nomes.

Seria como o Counter-Strike?
Isso.

Hoje já não existe uma classificação indicativa que vem junto com os jogos?
Sabe que eu não sei? Acho que não tem.

Nos Estados Unidos existe...
Pode ser até que tenha, mas ninguém controla. Não existe controle sobre isso. De repente, o que falta é esse controle. (AD)

OBS.do BLOG: Estranho a resposta do ilustre Senador: não sabe dar exemplos e nem se existe classificação indicativa junto com os jogos. O nosso Senado...

OUTRO LADO


'Videogame é discriminado no projeto de lei'

O projeto de lei que quer proibir a venda de videogames considerados "ofensivos" discrimina o videogame enquanto mídia, segundo Julio Vieitez, diretor da Level Up!, uma das maiores empresas de videogames no Brasil.
"Os jogos são um produto de entretenimento. Assim como eles, existem TV, música, filmes. Por que um conteúdo seria considerado inadequado e passível de crime dentro de um jogo, mas não em um filme 3D?", questiona.
Vieitez comenta que o mercado de jogos, como qualquer outra operação comercial, já está sob as leis atuais.
"Muitos dos assuntos tratados no projeto de lei, como os que tratam do respeito a raça e religião, a própria Constituição já define se é ou não crime. Então, ele acaba sendo uma repetição", diz.
O diretor da Level Up! conta que já existe uma classificação indicativa dos jogos feita pelo Ministério da Justiça, mas assume que existem falhas. "Por mais que eles tenham feito um esforço bacana de classificação, muitas empresas não respeitam. A venda de jogos é bem regulamentada, o que falta é uma fiscalização maior", diz.
Por meio de seu site (bit.ly/minjustica), o Ministério da Justiça permite que o usuário consulte a classificação indicativa de um jogo eletrônico. Para fazer a pesquisa, basta inserir o título do game em questão.

PIRATARIA

Outro problema do projeto de lei é a eficiência, diante da quantidade de pirataria que existe no mercado, segundo Vieitez.
"A pirataria no mercado de consoles é muito grande, então é estranho que eles queiram proibir a pequena porcentagem de jogos que é realmente legalizada. A grande maioria vai continuar sendo vendida sem nenhum problema", conta.
A falta de detalhamento no que poderia ser considerado ofensivo ou violento é outro problema. "O que também me chama atenção é o que poderia ser considerado 'ofensivo'", diz o diretor. (AD)
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Fonte: Folha on line, 06/07/2011
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Pensador cria regras para excesso de e-mails

Chris Anderson tenta 'desafogar' os usuários


O tempo médio que uma pessoa leva para responder a um e-mail é maior do que o usado para compor um original. Assim, os usuários acabam causando uma avalanche de mensagens virtuais.
Pensando nisso, Chris Anderson criou uma lista de dez grandes regras para colocar um fim nesse ciclo (emailcharter.org).
Anderson é curador do TED (www.ted.com), um evento que reúne especialistas de várias áreas para exporem suas ideias.
Em suas regras, o pensador propõe que o usuário tente não prejudicar a caixa de e-mail do destinatário de sua mensagem.
(AMANDA DEMETRIO)

Respeite o tempo do destinatário do e-mail
Como remetente, é sua a função de minimizar o tempo que o seu destinatário levará para responder o e-mail

Concisão e lentidão
Compreenda quando um e-mail demora para chegar e não dá respostas detalhadas. Ninguém quer soar grosseiro, então não leve para o pessoal

Clareza
Escreva o assunto do e-mail de maneira clara e, se achar necessário, use marcações como "[importante]" ou "[baixa prioridade]"

Evite perguntas abertas
Cuidado com e-mails longos finalizados com questões como "O que você achou?". É melhor fazer perguntas simples e fáceis de responder

Corte suas respostas sem conteúdo
Você não precisa responder a todos os e-mails. Se seu e-mail é apenas um "legal" ou "está OK", evite enviá-los

Diminua os rastros
Contexto é importante, mas você não precisa incluir todas as conversas anteriores no e-mail. Tente deixar só as mensagens mais relevantes -as três últimas bastam

Evite arquivos em anexo
Não use elementos gráficos, como assinaturas que aparecem como arquivos em anexo nos e-mails. Também evite enviar textos como arquivos em anexo

Seja claro quando não há necessidade de resposta
Se a mensagem que você está enviando não precisa ser respondida, seja claro. Finalize o e-mail com "não é preciso responder"

Cuidado com as cópias
Quando você adiciona uma pessoa em cópia em um e-mail, está multiplicando o tempo que a mensagem levará para ser respondida. Use a opção com cuidado

Desconecte-se
Idealmente, quanto menos tempo gastarmos com e-mail, menos e-mails receberemos. Considere dosar o tempo dedicado a eles e tire uma folga nos finais de semana
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Fonte: emailcharter.org
Folha de São Paulo on line, 06/07/2011
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terça-feira, 5 de julho de 2011

A agenda progrediu, mas falta fazer mais

Desenvolvimento:
Atendidas necessidades essenciais, é hora de passar
a uma requalificação das políticas sociais.

Aline Massuca/Valor

Simon Schwartzman e Edmar Bacha:
ideias para dar novos focos a políticas de saúde, educação, previdência,
renda e enfrentamento da violência urbana

"Brasil - A Nova Agenda Social"
Edmar Bacha e Simon Schwartzman (org.).
LTC 380 págs., R$ 65,00
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O Brasil já ultrapassou a etapa de atendimento das necessidades básicas da população e agora, sem descuidar dos mais pobres, precisa avançar na agenda das políticas sociais, buscando um salto de qualidade nos serviços prestados. Em essência, essa é a tese que está contida no livro que o economista Edmar Bacha e o sociólogo Simon Schwartzman, ambos ex-presidentes do IBGE, organizaram, reunindo textos de 18 autores sobre os temas saúde, educação, previdência, políticas de renda e violência urbana. O trabalho resulta de seminários organizados pelo Instituto de Política Econômica Casa das Garças, dirigido por Bacha, e pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), presidido por Schwartzman.
Em entrevista ao Valor, Bacha e Schwartzman dizem que a universalização da saúde prevista na Constituição relegou o princípio da equidade e criou uma "focalização perversa", que acaba desfavorecendo os mais pobres. Pregam o ensino pago nas universidades públicas e, indo além do livro que será lançado hoje em São Paulo (Livraria da Vila), propõem o uso das Forças Armadas no combate à violência urbana.

Valor: O que juntou um economista e um sociólogo para fazer esse trabalho?
Bacha: A Faculdade de Ciências Econômicas de Belo Horizonte. Nós dois nos formamos no mesmo ano, na mesma faculdade, em 1963. A Faculdade de Ciências Econômicas tinha três cursos: economia, ciências sociais e administração... Na verdade a preocupação com a questão social não é exclusiva, nem de sociólogos nem de economistas.

Valor: O senhor um dia (década de 1970) comparou o Brasil a um misto de Bélgica no econômico e Índia no social (Belíndia). E agora, qual a relação entre o quadro macroeconômico e o social?
Bacha: Obviamente que a gente veio de uma condição miserável. Lá nos anos 1970 e 1980, os índices sociais do Brasil eram vergonhosos, dado o nível de renda que o país tinha. O Simon também participou do seminário e do livro que a gente fez, nos anos 80, junto com um historiador americano chamado Herbert Klein ("Transição Incompleta") no qual, justamente, a temática era essa: o país tinha feito a transição de uma economia agrária para uma economia industrial urbana, mas tinha deixado para trás boa parte da população que tinha se transferido do campo para a cidade e que estava vivendo em condições miseráveis, sem educação, sem saúde. De lá para cá, a partir da redemocratização (1985) e da estabilização (1994), o Brasil fez enormes progressos. Eu acho que, nas necessidades básicas da população, demos conta do recado. É isso que a gente quer dizer quando está discutindo uma "Nova Agenda Social": a gente precisa ir além do básico.

Valor: O Brasil realmente deu conta do básico?
Schwartzman: Não totalmente. O que acontece hoje é que tem problemas que atingem não os 16 milhões [número oficial de pessoas que ainda vivem na miséria no Brasil], mas grande parte dos 170 milhões [o restante da população]. São pessoas que não estão entre os extremamente pobres, mas que vivem em situação complicada na periferia das grandes áreas urbanas, não têm acesso a esgoto, têm problema sério de falta de acesso à saúde... Ainda se pensa muito da forma antiga. Problema no Brasil? Pobreza extrema! Problema do Brasil? Grande desigualdade! Tudo isso ainda existe, mas a pobreza extrema diminuiu, a desigualdade diminuiu. Os problemas são de outro tipo, questões muito complicadas e que estão sendo muito pouco consideradas.
Bacha: Está faltando foco.

Valor: A política de combate à pobreza recém-lançada pela presidente Dilma está errando no foco?
Schwartzman: Não estou entrando no mérito da política especificamente. O fato de focalizar em um segmento da população que ainda vive uma pobreza muito grande não está errado. O problema não é esse. O problema é: cadê o foco em outras coisas?
Bacha: Vou por os números no que ele está falando. Nessas cinco áreas que a gente considera no livro, o governo gasta 24% do PIB. Quanto disso é para a pobreza extrema? É 0,5% do Bolsa Família, 0,6% do Loas [benefício pago a idosos e deficientes físicos] e 1,5% da aposentadoria rural. Nós estamos falando aí de 2,6% do PIB. Ou seja, do que chamamos de políticas sociais no Brasil, só 10% de fato são focados no pobre. Os outros 90% são para outra gente. Então, não é só que a natureza do problema mudou. É que a maneira como a gente gasta não parece ser adequadamente focada. Paulo Renato [ministro da Educação do governo Fernando Henrique Cardoso, morto há dez dias] pôs todo mundo na escola. Agora, vamos ensinar a eles alguma coisa.

"A Constituição fala que a saúde é universal,
mas não diz em nenhum lugar que
ela é equitativa. A equidade não
foi assumida como o valor principal
desse processo."
Valor: O SUS, teoricamente, universalizou a saúde...
Bacha: Universalizou, mas o que a população quer é plano de saúde. É essa ideia de que o SUS é para os pobres, exceto quando eu preciso dele para emergências e para os gastos extraordinários. Foi concebido como universal, e de fato é muito desigual. E é desigual porque foi concebido como universal. Criou o espaço necessário para que os grupos de interesse com real poder político no país se aproveitassem da chamada universalidade para poder beneficiar a si próprios. A Constituição fala que a saúde é universal, mas não diz em nenhum lugar que ela é equitativa. A equidade não foi assumida como o valor principal desse processo.

Valor: Como se transpõe essa análise para a educação?
Schwartzman: O que se gasta com ensino superior público é sete vezes mais do que se gasta com ensino básico. Há alguma distorção aí, não é? E tem outra ordem de questão. Será que as escolas estão funcionando como deveriam? As universidades estão produzindo competência, pesquisa e conhecimento correspondentes aos seus custos? O mesmo se pergunta na saúde.

Valor: É possível, politicamente, o Brasil ter um ensino público universitário cobrado?
Bacha: A Colômbia cobra, o Chile cobra...
Schwartzman: Até o México está começando a cobrar, a Inglaterra cobra, a China cobra, todos os países da Europa Oriental cobram, a Ásia inteira cobra... Por que o Brasil não pode cobrar?

Valor: Hoje, todos concordam que é necessário reformar a Previdência. Qual é a reforma possível?
Bacha: Hoje, já gastamos mais do que 11% do PIB com previdência. É 7,2% com o INSS, 2% com o sistema público federal e 2% com o estadual e municipal. Isso, com 10% da população com mais de 60 anos. Em 2050, vamos ter 30% da população com mais de 60 anos. Hoje, as aposentadorias estão atreladas ao salário mínimo. O salário mínimo está atrelado ao PIB... Essa conta não vai fechar, logo, logo.

Valor: Vai ser preciso mexer na Constituição para fechar as contas?
Bacha: Seguramente. Acho que hoje o Brasil não faria essa Constituição. Você estava saindo da ditadura, com uma enorme dívida política e social a ser paga... e com a inflação comendo. E sem criar nenhuma percepção de restrição orçamentária. Existe uma concepção segundo a qual o princípio da solidariedade social, com o qual todos nós concordamos, exige a universalização dos serviços. E a Constituição proclama isso e instituiu isso. De fato, o que ela criou foi uma focalização perversa. Queremos fazer uma focalização correta. E é assim que a gente vai produzir a solidariedade.

Valor: As políticas da inclusão produtiva dos mais pobres estão caminhando de maneira correta?
Schwartzman: O que a gente tem sobre isso [no livro] é a parte das políticas de renda, Bolsa Família... O que você pode dizer do Bolsa Família é que, basicamente, deu um pequeno ganho monetário para populações de muito baixa renda. Além disso, você não vê efeito sobre educação, sobre saúde... O programa que o governo lançou agora, tenho a impressão que não acrescenta muito. Em parte, é uma extensão do Bolsa Família.

Valor: Como tratar o problema da segurança pública e como a experiência das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Rio de Janeiro pode contribuir?
Bacha: O que parece que é peculiar do Rio, por causa da geografia, é o domínio territorial [pelo tráfico armado] dos morros que são vizinhos aos locais onde os ricos moram. Normalmente, a pobreza está no subúrbio. Não sei se o formato específico das UPPs é extensivo a outras experiências. Fora isso, tem diversas experiências aqui no Brasil de sucesso no combate ao crime violento e que o Rio está adotando, indo além da UPP. São Paulo, Belo Horizonte, Diadema... E tem outro aspecto [não está no livro] que é o papel das Forças Armadas. Acho que é um tema importante e emergente: qual o papel que as Forças Armadas podem ter para lidar com a violência, especialmente no Norte e no Nordeste do país, onde as estruturas administrativas dos governos locais parecem ser insuficientes?

Valor: A macroeconomia pode ser um obstáculo para que se dê esse salto de qualidade que os senhores propõem nas políticas sociais?
Bacha: Com a macroeconomia de 1980, não dava nem para começar a pensar. Só estamos considerando esses problemas da forma como estamos porque a macroeconomia permite.

Valor: Mesmo com os escorregões fiscais?
Bacha: São questões de conjuntura. Não existe risco de uma hiperinflação, risco de crise do balanço de pagamentos... Estamos discutindo qual é o grau de aperto ideal da política monetária. Aqui e no resto do mundo. Nesse ponto de vista, estamos normais. Nossas políticas sociais é que não são normais.
Schwartzman: O que a gente pergunta é como usar melhor o que a gente tem. Estamos dizendo que, no tamanho que a gente está, temos que fazer melhor.
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Reportagem por Chico Santos Do Rio
Fonte: Valor Econômico online, 04/07/2011

A nossa época tem necessidade de Deus?

A necessidade de Deus
Gaston Piétri
Deus é, sim, desejável, mas também
é devastador.
Porque o homem só pode se realizar
aceitando ser devastado nas
 suas falaciosas seguranças.


Em outubro de 2010, os "estados gerais do cristianismo", por iniciativa da revista La Vie, colocavam esta pergunta: "A nossa época tem necessidade de Deus?". Voltava-me à mente a afirmação de Dietrich Bonhoeffer: "O Deus que nos deixa viver no mundo sem a hipótese de trabalho 'Deus' é aquele diante do qual nós estamos continuamente. Diante de Deus e com Deus vivemos sem Deus".
Podemos entender dessas palavras que Bonhoeffer nos adverte a não ter que esperar "injeções" de poder sobrenatural nos campos onde somos chamados sobretudo a fazer o nosso trabalho de homens responsáveis. Essa necessidade só poderia nos enganar tanto sobre Deus, quanto sobre a nossa vocação de homens. Certamente, a palavra "necessidade" é ambígua. Não podemos esperar respostas peremptórias da parte de Deus só para nos dispensar de procurá-las. Mas é verdade que há situações em que, para chegar ao fundo, experimentamos como a humanidade tem o fòlego curto. Incontestavelmente, a nossa época sente isso mais do que outras, quando deplora o desaparecimento de pontos de referência, quando toca com o dedo a falta de certezas.
A política, no mesmo momento em que vê se restringir a sua capacidade de decisão com relação à economia, engloba, no seu próprio âmbito, a causa do poder que nos foi dado por extraordinários progressos tecnológicos, problemas que, até as últimas décadas, pouco tinham a ver com os responsáveis políticos. De fato, trata-se da vida humana. O seu início e o seu fim estão, mais do que nunca, em nossas mãos. Como padronizar os instrumentos excepcionais que nos são fornecidos? Quem poderia dar ao homem a sabedoria e a lucidez suficientes para decidir nesses campos, sem comprometer gravemente o futuro da nossa sociedade? O que fazer, para continuarmos dignos da condição humana, quando se pode decidir em detalhes sobre as modalidades da vinda ao mundo, sobre as condições do prolongamento ou da abreviação da vida deteriorada pela doença?

 "Na nossa felicidade de acreditar,
há a experiência de uma mensagem que,
 segundo a expressão do Concílio Vaticano II,
está "em harmonia com as aspirações
mais secretas do coração humano"
(Gaudium et Spes, n. 21) ."


Desenvolver instrumentos tão aperfeiçoados é uma coisa, que, além disso, compete legitimamente ao poder do homem mediante a pesquisa científica. Utilizá-los segundo o verdadeiro bem do homem é outra coisa. Independentemente da confiança que possamos ter na razão humana, como não como admitir que, sobre tais assuntos, a razão está colocada a uma dura prova? Diante de desafios tão cruciais, o recurso de Deus volta a nos aparecer como uma íntima necessidade. Quem ousaria tratar com leviandade essa necessidade do homem posto diante dos seus próprios limites? Mesmo que devamos, segundo a recomendação de Dietrich Bonhoeffer, guardar-nos, a todos os custos, de fazer de Deus o "tapa-buracos" das nossas insuficiências.
Encarregamo-nos de nós mesmos e ir até o extremos dos nossos recursos é, ao mesmo tempo, a nossa honra de homens e a expectativa de Deus com relação a nós. Se ele se cala, ele que nos disse tudo em seu Filho, é para não tomar a palavra no nosso lugar. Mas o convite a "viver sem Deus", como entendia o crente Dietrich Bonhoeffer, é acompanhado por uma surda inquietação quando os problemas de hoje se tornam tremendos. Os fiéis são então obrigados a ouvir a voz de alguns daqueles que apagaram Deus decisivamente do seu horizonte ou jamais sequer imaginaram em encontrá-lo. Não fogem da inquietação ou não buscam acalmá-la por meio de Deus.
A advertência de Nietzsche merece ser ouvida: "Se não fazemos da morte de Deus uma renúncia grandiosa e uma contínua vitória sobre nós mesmos, deveremos pagar caro por essa perda". É porque Nietzsche via que a sombra de Deus permanecia nas mentes que deveriam se dar conta da sua morte. Mais perto de nós, Marcel Gauchet, no final do seu livro O desencantamento do mundo (1985) escrevia, como em confidência: "O declínio da religião se paga com a dificuldade de ser nós mesmos". Ele definia as nossas sociedades como "psiquicamente estressantes". A seus olhos, o compromisso grave é ter que elaborar as respostas por nossa conta, enquanto a fé podia fornecê-las no interior de um sistema tranquilizador.
Somos crentes, mas não dispomos de um manual com as soluções. O desconforto também faça parte do nosso destino. Então, qual é a nossa consolação? Essa palavra é mais ambígua que existe, mesmo que pertence à nossa tradição espiritual. Na nossa felicidade de acreditar, há a experiência de uma mensagem que, segundo a expressão do Concílio Vaticano II, está "em harmonia com as aspirações mais secretas do coração humano" (Gaudium et Spes, n. 21). Como eco à aspiração que sobe da melhor parte do nosso espírito, há a certeza de uma nobreza inalienável do nosso destino. Deus é, sim, desejável, mas também é devastador. Porque o homem só pode se realizar aceitando ser devastado nas suas falaciosas seguranças.
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* Gaston Piétri, padre francês de Ajaccio, publicada no jornal La Croix, 03-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU online, 05/07/2011

Os gays e a paranoia do mundo

Arnaldo Jabor*

As recentes "paradas gay" surpreendem - nunca pensamos que houvesse tanta gente "dentro do armário". São milhões pelas avenidas, atacados depois por evangélicos e caretas em geral, que criticam a falta de pudor.
Será ilusão ou estatística? Antes, havia três ou quatro homossexuais declarados no Brasil. Diziam: "Fulano é "mulherzinha", ou sicrano é "pederasta" ou ainda beltrano é fresco, fruta, maricas, invertido, perobo, tia e: veado (ou "viado"?) Creio que foi Millôr Fernandes quem escreveu uma vez que "quem escreve "veado" em vez de "viado" é viado. Acho a melhor palavra para definir "homossexual" em português, apesar dos traços pejorativos do nome.
Mas, por que "gay", que também revela sutilmente uma "finesse" falsa, um eufemismo em inglês meio preconceituoso? "Gay" é originalmente "alegre", o que também é uma denegação do sofrimento que tiveram (e têm) de enfrentar.
Viado é uma doce palavra brasileira e devia ser assumida como oficial. "Sexo, por favor?" "Viado", responde a "santa".
Há muito tempo, procurei a origem da palavra que tanto inquieta o macho brasileiro. Cheguei uma vez a telefonar para Antônio Houaiss, que me disse que talvez a origem venha do particípio passado do verbo venari em latim (que significa "caçar", ou seja, venatus, o "caçado").
Esta palavra já descrevia o "corço" desde o século 13, mas o sentido de pederasta passivo surge com o carioca do século 20, talvez, me aventou o Houaiss, pelo fato de que o corço é seduzido pela corça, sendo portanto um macho passivo. Veado é a grafia certa, mas tira da palavra sua conotação sexual. Houaiss me autorizou a usar "viado".
Esta palavra me transtorna desde pequeno.
Lembro-me de que, na rua da infância profunda do Rio, escutei pela primeira vez: "Fulano é viado!" Senti que era um rótulo apavorante e antes mesmo de saber o que era aquilo, era necessário não ser "viado". Era inquietante ver indícios na minha infância: garotinhos que davam atrás do muro, um fremir de medo diante da violência do futebol de rua, uma alvura de nádegas nos cantos de quintal, era o pecado nascente nos subúrbios dos anos 50, quando tudo era pecado - gravidez solteira era uma espécie de doença venérea que as mulheres podiam pegar.
Havia outros palavrões, claro, que íamos descobrindo. "Puta", por exemplo, carregava uma pecha brutal, mas pelo menos tinha contornos visíveis. Puta era supergráfica. Uma mulher era "puta" ou não era. Qualquer uma podia ser, menos a mãe da gente, claro. "Viado", não. "Viado" tinha uma sombra de ambiguidade, um quê de duplo, um desequilíbrio que assustava.
Acho que aprendi da complexidade da vida com a palavra "viado". A palavra dava medo, porque nos fazia perder a identidade; não seríamos nem homem nem mulher. Viado era o ser dividido. Viado era o mistério.
Isso me ensinou que não havia apenas o pai e a mãe; havia uma terceira coisa mais além, mais perigosa. Aprendi que a vida não era simples como pensávamos, que corríamos o risco de cair no mundo terrível de "Amélia", um mendigo viado que fazia trejeitos com os olhos pintados que, diziam, tinha dado mijo à mãe doente que lhe pedira água e, por isso, Deus o castigou. Lendo Proust, vemos que a barra era mais pesada ainda no início do século, quando ele próprio se referia ao homossexualismo como "vício".
Ser viado nos anos 50 era uma permanente tarefa de ocultação.
Os homossexuais tinham de se esgueirar entres dois mundos, o do macho e da fêmea, em vielas e disfarces.

"Eles provam que as causas e efeitos
 não se cruzam tão facilmente e
celebram uma ambiguidade muito mais rica
que o discurso feminista
ou machista radical."


Nos anos 50, os mais corajosos e livres chegavam no máximo à categoria de "bichas loucas", assumidas, mas mantendo uma caricatura de si mesmas, feita de trejeitos autoaviltantes.
Com os anos 60, o gay tornou-se a celebração viva do complexo, do múltiplo, de uma alegre liberdade, num parentesco com o mundo hippie e psicodélico.
Ser gay virou uma força política, a "gay power", um orgulho que só foi ferido com a trágica chegada da aids.
A epidemia virou a desculpa para a ressurreição rancorosa dos "homofóbicos" e conservadores que puseram a culpa nas vítimas da doença que viraram "culpados". A partir daí, a sexualidade sofreu uma mutação sinistra para todos, pois na hora do amor e sexo pensamos no perigo de morte.
Hoje, o crescimento das marchas e bandeiras está assustando os "heteros", com a intensidade ideológica da luta dos gays.
Uma amiga me disse: "Hoje só há três tipos de homem: os casados, os "roubadas" e os viados".
Mas, é verdade que os gays têm uma importância política hoje, pois carregam a lâmina das incertezas. Eles são a prova de que o mundo não é dois. Eles provam que as causas e efeitos não se cruzam tão facilmente e celebram uma ambiguidade muito mais rica que o discurso feminista ou machista radical.
Segundo psicanalistas, o homossexual não entra no "mundo do pai". Fica no estágio mais seguro de um drama edípico não realizado. Fica em uma casa com a mãe imaginária, não sai para a vida da Lei, do mundo real, da diferença sexual, da aceitação dos dois sexos.
Aí, arrisco minha humilde tese esquemática (bem o sei...): o mundo está virando uma barra tão pesada que a saída da casa (mãe) para a rua (pai) está cada vez mais apavorante. Como querer que uma pobre criança vire macho, se os exemplos de macheza são dados pela estupidez terrível dos homens do Poder? O sujeito olha o mundo lá fora, desmunheca e grita: "Nem morta!" E fica na saia da mãe.
A aceitação do homossexualismo ajuda a desenhar a constelação polivalente de hoje, a nebulosa de sentidos, as mil caras das injustiças.
Os viados são os didáticos habitantes deste mundo árido e confuso. São menos lineares, mais coloridos.
Estudando o caso do dr. Schreber, Freud argumentou que a paranoia seria talvez uma forma de defesa contra o homossexualismo latente.
Portanto, seguindo a minha linha simplista, acho que se a paranoia era uma defesa contra a viadagem, a viadagem é hoje uma defesa contra a paranoia.
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* Cineasta. Crítico. Escritor. Colunista do Jornal Estado de São Paulo.
Fonte: Estadão on line, 05/07/2011

RAZÕES EGOÍSTAS PARA TER MAIS FILHOS

HÉLIO SCHWARTSMAN*

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Em livro polêmico, economista sustenta
que os pais têm pouca influência
no futuro das suas crianças
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Cansado(a) de controlar quantas horas de TV seus filhos veem por dia, ralhar com eles cada vez que não escovam os dentes e carregá-los para todas as atividades extras que eles precisam fazer?
A solução para os seus problemas chegou. É o livro "Selfish Reasons to have More Kids: Why Being a Great Parent Is Less Work and More Fun Than You Think" (razões egoístas para ter mais filhos: por que ser um bom pai ou mãe é menos trabalhoso e mais divertido do que você pensa), do economista Bryan Caplan.
Lançada em abril nos EUA, a obra sustenta que pais exercem pouca influência sobre o futuro dos filhos e que, por isso, em vez de ficar martirizando-se com cuidados desnecessários, é melhor relaxar e "aproveitar a jornada".
Caplan foi apelidado de "anti-Mãe-Tigre", em referência a Amy Chua, a autora de "Grito de Guerra da Mãe-Tigre", onde ela se gaba de proibir as filhas de ver TV, brincar com amiguinhas, de não admitir notas inferiores a "A" e obrigá-las a ensaiar música ao menos seis horas por dia.
Ao contrário de Chua, porém, Caplan apresenta evidências científicas em favor de sua tese. Suas afirmações estão baseadas em décadas de estudos com gêmeos (que partilham 100% do material genético e muito do ambiente) e com crianças adotadas (que partilham com irmãos de criação muito do ambiente e nada do material genético). Aplicando estatística a essas bases de dados, que, no caso de países nórdicos, começaram a ser coletadas no final do século 19, é possível eleger uma característica qualquer e calcular o efeito da natureza (genes) e do ambiente (criação) sobre ela.
Diferentemente do que os espíritos mais conciliadores poderiam esperar, a natureza vence com folga o ambiente na maioria das características que os pais desejam para os filhos. Trocando em miúdos, a criação quase não afeta longevidade, altura, peso e nem a saúde bucal. Para não dizer que não precisamos fazer nada, pais podem ter pequeno efeito sobre uso de tabaco, álcool e drogas.
Saindo do campo da higiene, no longo prazo as atitudes paternas também não influenciam a inteligência, a felicidade nem o sucesso profissional dos filhos. Em relação aos valores, a situação é mais complicada. A criação é determinante para definir se o sujeito vai declarar-se batista ou judeu, republicano ou democrata, mas pesa muito pouco quando se analisam as atitudes religiosas e políticas mais profundamente, como frequência a cultos ou grau de militância. Boa notícia para pais que gostam de manter suas filhas sob rédeas curtas: a criação tem um efeito moderado sobre o início da vida sexual, mas apenas para meninas, não para meninos.
Uma categoria em que o ambiente dá um banho na natureza é a apreciação, isto é, a forma como os filhos adultos vão lembrar de seus pais. Aqui, as atitudes paternas fazem toda a diferença. É com base nisso que Caplan afirma que o importante é "aproveitar a jornada".
Esses achados, é claro, precisam ser interpretados com muitas cautelas. Para começar, dizem respeito ao longo prazo. É mais provável que seu filho tire "A" em matemática se você obrigá-lo a estudar do que se deixá-lo brincar no computador. Mas, se olharmos para os efeitos duradouros, para além do ano letivo e do vestibular, o peso da criação fica bem menor.
Como diz Caplan, virou lugar-comum comparar crianças a barro, que os pais precisam moldar com a educação. Uma imagem mais feliz seria plástico. Ele se dobra quando o pressionamos, mas logo volta à posição original.
Outro ponto é que todas essas pesquisas foram feitas no Primeiro Mundo. Suas conclusões provavelmente podem ser estendidas para a classe média alta do Brasil, mas não valem no Haiti ou no Zimbábue, onde a fome e as péssimas condições sanitárias impedem as crianças de atingir todo seu potencial genético.
É preciso ainda lembrar que os resultados refletem valores médios, que nem sempre dão conta de situações específicas. Se a única chance de seu filho estudar medicina é entrando na USP, mas ele é patologicamente preguiçoso, então acordá-lo cedo pode ser um caso em que esforços paternos fazem a diferença.
Aqui, o regime de Mãe-Tigre preconizado por Amy Hua não fica tão flagrantemente contraditório com o "carpe diem" de Caplan.
A ideia de que as pessoas nascem mais ou menos prontas -segundo o autor, o que de melhor você pode fazer por seu filho é selecionar um(a) bom(a) parceiro(a) para gerá-lo- não é a única tese polêmica do livro.
Caplan também apresenta dados para nos mostrar que o mundo (ao menos os EUA) hoje é muito mais seguro para crianças e jovens do que o era nos idílicos anos 50. O objetivo final é nos convencer a ter mais filhos do que planejávamos originalmente. A ideia mestra é que, se não formos tão "mãe-tigre", eles dão menos trabalho do que se pensa e trazem grande satisfação. Essa satisfação só vem no longuíssimo prazo e na forma de netos.
De acordo com o autor, infância e adolescência são fases passageiras e, quando tivermos mais de 60 anos vamos querer o maior número possível de netos para mimar e estragar.
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*Articulista do jornal Folha de São Paulo. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.
Fonte: Folha online, 05/07/2011
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No campo ou na cidade?

SUZANA HERCULANO-HOUZEL*
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Parece que o cérebro de quem cresce
em metrópoles aprende a esperar o pior,
em situações de estresse
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Tenho a SORTE de morar em um pedaço de cidade grande que até parece interior: prédios baixos, comércio pequeno de rua e, mais importante, duas árvores enormes, que preenchem a vista da janela da sala.
Quando vizinhos, recentemente, tentaram remover as duas árvores, alegando risco de queda durante tempestades, descobri-me defendendo-as ferrenhamente, perturbada muito além do que seria razoável.
Mas até a emoção tem suas razões: aquelas árvores, tão fundamentais para meu bem-estar, são o que me restam de uma sugestão de campo ""e da paz associada a ele.
Viver na cidade tem suas vantagens: mais riquezas e condições de educação, melhor saneamento e serviços de saúde em geral. Mas isso tem seu preço, e não só no bolso. A vida urbana se desenrola em um ambiente social exigente e estressante, que inclui disparidades sociais acentuadas e maiores riscos. E é acompanhada de uma taxa de 20% a 40% maior de distúrbios de humor e de ansiedade do que em moradores de áreas rurais.

"Quem vive atualmente em
centros urbanos mostra uma atividade
mais exacerbada da amígdala
durante o estresse, o que deve levar
a uma reação mais forte a ele."

Faz todo sentido: o estresse crônico, afinal, é um dos grandes fatores de risco desses distúrbios. Mas seria o ambiente urbano de fato associado a modificações no cérebro relacionadas ao estresse?
Um estudo canadense publicado recentemente na revista "Nature" diz que sim. Enquanto resolviam tarefas de aritmética contra o tempo, os voluntários do estudo, moradores de áreas rurais ou cidades grandes, alguns criados nessas, outros não, tiveram seus cérebros vasculhados pelos pesquisadores atrás de diferenças entre uns e outros. E lá estão elas.
Quem vive atualmente em centros urbanos mostra uma atividade mais exacerbada da amígdala durante o estresse, o que deve levar a uma reação mais forte a ele. Quem foi criado em cidades grandes tem um aumento da atividade do córtex cingulado anterior, uma região envolvida na regulação da atividade da amígdala, de emoções negativas e do estresse.
Quanto maior o tempo passado em cidades grandes até a fase da adolescência, maior a hiper-reatividade do cingulado anterior.
É como se crescer em cidades grandes, não importa para onde se vá depois, fizesse o cérebro aprender a esperar pelo pior em situações de estresse. E só isso: sem estresse, o cérebro urbano não parece diferente do cérebro rural. Para quem insiste em viver em cidades grandes, portanto, fica a dica: se seu cérebro é hiper-reativo ao estresse... fuja do estresse!
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*SUZANA HERCULANO-HOUZEL é neurocientista, professora da UFRJ, autora do livro "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com
Fonte: Folha on line, 05/07/2011
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Desculpas e culpas

MIRIAN GOLDENBERG*

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Por trás dessa atitude de
dominação feminina parece estar
uma mania de
perfeição da mulher
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Tenho observado entre as mulheres brasileiras algo que pode ser chamado de "cultura da desculpa". Elas usam justificativas para fazer (ou deixar de fazer) o que precisam ou o que querem.
Alguns exemplos: "Amor, hoje não dá, estou com uma TPM horrorosa"; "Sair? Nem pensar. Estou sem roupa"; "Preciso fazer ginástica, mas não tenho tempo"; "Lógico que estou irritada! Você não me ajuda com as crianças!".
Outras típicas desculpas: "O trabalho está acabando comigo. Não tenho energia para mais nada"; "Sou difícil mesmo. Toda a minha família é assim. É genético".
Muitas se colocam como vítimas que apenas reagem ao que lhes é imposto pela natureza ou pela cultura. Culpam hormônios, trabalho, família por um temperamento difícil, intolerante e até agressivo.
Os homens que pesquisei criticam o que consideram um comportamento manipulador das mulheres.
Um analista de sistemas, de 43 anos, diz: "Minha mulher tem mania de perfeição. Fica estressada quando as coisas não saem como ela quer. Reclama que não ajudo em casa, mas quando tento, ela diz que sou incompetente, porque não fiz do jeito dela. É autoritária, mandona."
Por trás da dominação feminina está a "mania de perfeição" das mulheres.
Como disse um jornalista, de 38 anos: "Não sei como satisfazer a minha mulher. Ela está sempre exigindo tudo perfeito. É obsessiva. Se não está ocupada, se sente culpada. Nunca relaxa. Cobra de mim e dos meninos, mas cobra muito mais dela mesma. Está sempre se comparando com outras para ganhar alguma competição de mulher-maravilha. E as amigas dela são iguais. Insuportáveis!"
É indiscutível que as mulheres brasileiras estão sobrecarregadas e exaustas.
É verdade que os hormônios deixam as mulheres malucas e que alguns homens sabem ser irritantes.
É verdade também que a busca insana de perfeição tem atrapalhado a vida de muitas mulheres.
Jean Paul Sartre escreveu: "não importa o que a vida fez de você, o que importa é o que você faz com o que a vida fez de você".
Em outras palavras, para usar uma ideia meio fora de moda, temos livre arbítrio para construir a nossa vida, não somos apenas produto da sociedade, da família, dos hormônios etc.
Sem culpa ou desculpa, tente responder: Depois de décadas de luta pela liberação feminina, o que nós, mulheres, fazemos com o que a vida fez de nós?
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*MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de "Coroas: Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade" (Ed. Record)
Fonte: Folha on line, 05/07/2011
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Para pensar


Perder uma ilusão
 faz você mais sábio
do que achar
uma verdade.
(Escritor alemão Karl Ludwig Borne)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O filósofo brasileiro no Show de King Kong

Paulo Ghiraldelli Jr.
Não é segredo para ninguém que a formação em filosofia, no Brasil de hoje, obriga o futuro filósofo a uma dedicação aos clássicos que, em geral, outras áreas negligenciam. Assim, em termos de especialização, a formação acadêmica básica em filosofia – graduação, mestrado e doutorado – é realmente algo que demanda esforço e tempo. Mas, infelizmente, isso não tem produzido entre nós, no volume que precisamos, pessoas que, como filósofos, conseguem “dar conta” dos problemas ditos “cotidianos”. Desse modo, o professor de filosofia brasileiro acaba ficando aquém da condição de filósofo.
Ele, o professor universitário de filosofia, às vezes sabe, em alemão, o que Wittgenstein disse em um parágrafo X de uma de suas obras, e consegue comentar aquilo por meio de um texto de mais de oitenta páginas. Mas essa mesma pessoa não consegue usar da filosofia para resolver um problema com a namorada ou até mesmo usar do próprio Wittgenstein para equacionar um problema que implica em saber qual “jogo de linguagem” usar com a esposa ou com o gerente do banco. Não raro, o estudioso acadêmico de Epicuro, mestre do bem viver, não consegue tirar férias – sempre vai a um lugar que ele acha legal, mas que sua esposa ou namorada acha “um saco”. Assim, eis que a modernidade de Weber se realizou de modo especial para o professor de filosofia: ele se tornou o homem moderno par excellence, o “especialista sem inteligência e o hedonista sem coração”. Ele não sabe nada além de um campo restrito e ele não consegue gozar a vida embora acredite sinceramente que está se divertindo.
O que há de errado nisso? Ora, o que há de errado é que, talvez mais que outras graduações, a graduação em filosofia força os estudantes a falarem, com palavras técnicas, sobre o que não sabem conversar com palavra alguma e a respeito do qual jamais tiveram experiência. Os estudantes são jovens e ignorantes. Tudo bem. Mas, uma vez na universidade, a juventude lhes é incentivada (ninguém quer o aluno “um pouco maio velho” ou o aluno que amadurece um pouco e efetivamente questiona) e a ignorância passa a ser algo que ele deve cultivar. Caso ele comece a ler mais coisas do que aquilo que é dado em aula, e então deixe a imaginação voar, ele é cortado. Caso ele queria “aplicar” o que aprende, é posto de lado. Deve repetir o que é dado, mesmo que não saiba o que significa. Aliás, principalmente, não é cobrado sobre o significado do que diz e escreve (ou tenta escrever!). Além do mais, não deve sair do script, tendo de ser antes um puxa-saco do professor que um pensador. E isso se torna ainda mais verdade quando esse estudante faz um curso onde existe pós-graduação. Aí ele logo é transformado em um capacho de primeira classe, pois vai entrar no mestrado daquele mesmo lugar antes pela sua força bajuladora que pelo seu esforço cerebral. Às vezes ele, estudante, nem percebe isso. Não se dá conta que se tornou, ao longo dos anos, uma mente dócil e uma alma pobre.

"A formação em filosofia deveria
começar a articular história, temas filosóficos e,
ao mesmo tempo, problemas cotidianos – aliás,
como fizeram os grandes filósofos,
a começar de Sócrates e Platão."

É assim que nossa filosofia tem dado passos largos para se transformar naquilo que aparece como show de King Kong nas ANPOFs da vida. Ali, grandes gorilas ficam tentando derrubar aviões falsos enquanto uma massa de desinformados olha o espetáculo e tenta aparecer diante das câmeras, como figurantes, antes que o monstro despenque. Há quem acredite que se trate de uma reunião de filosofia. Mas, uma parte dos frequentadores, sabe que não é assim. Mas essa parte faz pouco para mudar. No geral, voltando para suas universidades, reproduzem o ensino de graduação que só irá fazer surgir outros grandes macacos, profissionais da imitação, seguidos de figurantes, profissionais da mediocridade.
Pude perceber isso com clareza em uma época em que fui incumbido de receber e avaliar projetos para entrada em um doutorado com várias áreas, inclusive filosofia. Os candidatos de história, antropologia, pedagogia etc. vinham para a entrevista com um problema e um tema, por sua vez, os candidatos da filosofia, antes de falarem do tema e problema, que nem sempre tinham, diziam com quem haviam feito o mestrado. Eles assinavam em baixo de uma declaração anti-kantiana, anti-iluminista: pensar era antes de tudo pensar segundo o que havia dito um orientador, um professor que eles achavam importante; pensar não era pensar pela própria razão. Vi isso e computei. De fato, a área de filosofia é uma das que mais faz o que em política chamamos de o “culto à personalidade”. E nem sempre o orientador ao qual se referem é de fato uma personalidade, às vezes é alguém que, uma vez no Jô Soares, pode ser chicoteado e ridicularizado – exatamente porque é um tipo que não sabe lidar com a vida, embora tenha lido exatamente os grandes homens que tentaram dar instrumentos para lidarmos com a vida.
A formação em filosofia deveria começar a articular história, temas filosóficos e, ao mesmo tempo, problemas cotidianos – aliás, como fizeram os grandes filósofos, a começar de Sócrates e Platão. Esses três elementos precisariam ser bem cuidados, bem amarrados e, então, teríamos um aluno com alguma chance de não se tornar um tolo. A filosofia não pode continuar formando gente que passa por ridículo todo dia. A área de filosofia deveria não ter de cair no colo de Weber e vê-lo tomar o formado nela como seu exemplo predileto do gênio imbecilizado.
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Filósofo, escritor e professor de filosofia da UFRRJ.

É possível inovar em português

ÉDA HELOISA PILLA*

Foto Gilmar de Souza
Adoção indiscriminada de palavras em inglês no Brasil despreza mecanismos de renovação de nossa línguaNovas palavras geradas pelas línguas obedecem a uma coerência, em razão da relação que elas mantêm com as outras palavras já existentes nesse sistema linguístico. Conforme colocou Ferdinand de Saussure em sua teoria estruturalista, o léxico das línguas (vocabulários) se assemelha a um tecido onde todas as malhas são interdependentes e se condicionam mutuamente. Quando uma nova malha é acrescentada ou modificada, todo o sistema é abalado.
O sistema cultural que dá suporte à língua é, ao mesmo tempo, causa e efeito ao engendrar as palavras, pois ele é tanto afetado pelas significações das já existentes como responsável pelo surgimento das novas. A integração entre léxico e cultura constitui a identidade da língua. Por isso, cada sistema linguístico é único e explica por que cada língua conceptualiza o mundo a sua maneira e difere das demais.
Sendo assim, ao adquirir sua língua materna, um falante já herdaria toda a carga de significações contida em suas palavras. Esse processo (diferente de língua para língua) molda a maneira específica com que interpretamos o mundo, constituindo uma lente através da qual percebemos as coisas.
A diversidade linguística, porém, não se refere apenas às diferenças entre línguas/culturas, mas também, e sobretudo, à necessidade de manutenção dessas diferenças. Ela constitui uma riqueza natural inestimável a ser preservada acima de qualquer interesse econômico, comercial ou político.
Em muitos momentos da história, entretanto, essa ordem foi ameaçada ou quebrada.
Muitas línguas desapareceram em razão da extinção física de seus usuários, como as línguas indígenas do Brasil; outras se enfraqueceram e perderam seu status de línguas oficiais pela imposição da língua e cultura do colonizador, como o caso das línguas nacionais da Índia, durante os 80 anos de colonização inglesa, e outras, ainda, sofreram sanções temporárias, como o português do Timor Leste durante a invasão indonésia e o catalão durante a ditadura franquista. Essas duas últimas se reergueram graças à perseverança, coragem e zelo de seus usuários.
Todos esses exemplos mantêm um traço comum: quase sempre a causa do desaparecimento ou enfraquecimento da língua se deveu a relações de poder e dominação.

"As palavras que entram em nossa
 língua tomam o espaço das nossas,
inibem a criação de novas segundo
nossas normas, subvertem nossa fonologia
ou mesmo nossos valores culturais."

No caso do Brasil, o que se verifica é um uso extensivo de palavras de outra língua, mormente do inglês, que penetram em nosso léxico à distância, por assim dizer, sem a imposição explícita de um invasor, mas tampouco sem restrição ou resistência por parte dos usuários da língua receptora. Talvez por essa razão, o fenômeno venha tomando proporções alarmantes, extrapolando o limite do razoável. As palavras que entram em nossa língua tomam o espaço das nossas, inibem a criação de novas segundo nossas normas, subvertem nossa fonologia ou mesmo nossos valores culturais. Mas o pior não é a quantidade (não há estatísticas sobre isso), mas a instalação de uma tendência aceita e estimulada, entre outros, pelos meios de comunicação e pela propaganda.
Como os novos termos, normalmente introduzidos pela literatura que acompanha uma inovação técnica, tecnológica, científica ou literária, não são traduzidos ou não se criam palavras nacionais para substituí-los, a perspectiva é de que, em um futuro não tão remoto, nossa língua possa se restringir a um uso doméstico-familiar, e, quando tivermos que falar ou escrever sobre temas especializados, terá de ser em inglês, pois não disporemos de vocabulário para tal. Esse é o caminho que conduz à homogeneização linguística.
Tendo sido rompida uma ordem natural, é necessária a interferência humana para resgatá-la. As línguas enriquecem quando exploram seus próprios recursos. O inglês vem fazendo isso sistematicamente, mas nós, não. Em vez disso, copiamos as palavras dele, que nada têm a ver com a natureza semântica, sintática, morfológica e, muito menos, fonológica do português.
O princípio que promove a criação de novas palavras ou expressões relacionadas e condicionadas às já existentes, mencionado acima, ao mesmo tempo que respeita um sistema anterior organizado, facilita o entendimento da nova palavra por parte dos demais falantes, proporcionando-lhes meios naturais de decodificá-la.
Por um processo de derivação muito prolífico para cunhar palavras novas, em quase todas as línguas, a nominalização, criou-se, em inglês, a palavra bullying, um deverbal, a partir do verbo to bully + o sufixo ing, ambos já pertencentes àquela língua, de longa data. O verbo to bully (já derivado de bull) derivou, por sua vez, bullying por analogia a outros casos já lexicalizados da mesma forma que o verbo to solve (solucionar) derivou solving (solução); to read (ler) derivou reading (leitura) e to meet (encontrar) derivou meeting (encontro). Sendo assim, bullying é uma palavra facilmente decodificável, previsível e virtualmente presente na consciência dos falantes de inglês. Para nós, entretanto, ela é totalmente estranha, alheia ao nosso sistema, e por isso não nos diz nada.
O sufixo nominalizador -ing ,por sua vez, é tão fecundo quanto os nossos: -ção, -mento e - ança (entre outros) que também formam substantivos a partir de verbos. Vejamos os exemplos, em português, de verbos já lexicalizados como: preservar que derivou preservação; motivar que derivou motivação; sucatear - sucateamento; enfrentar - enfrentamento; gastar - gastança e cobrar- cobrança.
Por outro meio de derivação – a composição –, foi criada, em inglês, a expressão: home-theater, cunhada a partir de dois itens lexicais já existentes naquela língua: home e theater, e por um processo sintático absolutamente previsível da língua inglesa. Trata-se de uma colocação nominal que corresponde, em português, a formações ligadas pelas preposições de, em ou por hífem, como por exemplo: cartão de crédito (tradução de credit card ); ciência da computação (de computer science); fermento em pó (de baking powder); questão-chave (de key question) e livro-texto (de text book), e assim por diante. Por que não traduzir home- theater por cinema em casa?
Ainda outro tipo de criação lexical usado pelas línguas é a mutação de sentido que ocorre no neologismo semântico. Isso se dá quando um conteúdo novo é denominado por uma palavra já existente. O inglês é abundante neste recurso. É o caso de chip (que significa lâmina), hardware (produto; artefato; equipamento de metal); mouse (rato); stand by (espera) e attached (unido/junto), para citar alguns exemplos. Todos já existiam antes de assumirem novos sentidos no campo semântico da computação.
Aqueles que conhecem os recursos da língua portuguesa para criar novas palavras, professores, linguistas e estudiosos das línguas em geral, devem estar se perguntando por que os brasileiros, de algum tempo para cá, estão sabotando sua língua e sua cultura, e adotando, irresponsavelmente, palavras de outro sistema linguístico que usa exatamente os mesmos meios de geração de palavras de que nós dispomos.
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*Professora de letras da UFRGS, autora de “Os Neologismos do Português e a Face Social da Língua” (AGE, 2002)
Fonte: ZH/CULTURA, 02/07/2011