domingo, 2 de outubro de 2011

Voyeurismo e exibicionismo no parque

Fome de ver
RESUMO Neste ensaio escrito para a revista de fotografia "Zum",
o romancista Bernardo Carvalho reflete sobre
aspectos psicanalíticos do voyeurismo
a partir de uma série de imagens de casais flagrados
em um parque de Tóquio.
Na era da internet, o exibicionismo narcisista
se impõe sobre o voyeur "clássico".
Kohei Yoshiyuki/Divulgação
Imagem de série feita de 1971 a 1973 em parques de Tóquio; em entrevista ao "NewYork Times",
fotógrafo revelou que contato de voyeurs com "presas" nem sempre acabavam bem

BERNARDO CARVALHO*

ENTRE 1971 E 1979, o fotógrafo japonês Kohei Yoshiyuki fotografou a atividade noturna em três parques de Tóquio: Shinjuku, Yoyogi e Ayoama. As fotos mais perturbadoras expõem casais heterossexuais entrelaçados em encontros furtivos, jogados na grama ou atrás de arbustos, enquanto uma matilha de voyeurs os espreita e cerca, como hienas ao redor de animais feridos, aguardando o melhor momento para o ataque.
Captadas no escuro, graças ao recurso de um filme especial e flash infravermelho, que permitiram ao fotógrafo permanecer não identificado entre seus "modelos" ou "presas", as imagens constituem a parte principal da exposição "O Parque" (2007), apresentada na galeria Yossi Milo, em Nova York. Uma segunda parte, menos impressionante, é composta de fotos de homossexuais (aparentemente menos vorazes que seus colegas heterossexuais, talvez pela ausência dos voyeurs) em Ayoama e se completa com uma série de imagens que revelam detalhes íntimos de cenas amorosas captadas por câmeras de vídeo em quartos de hotel. O que vemos aqui é a primeira parte: as fotos que representam e restituem, em princípio (mas só em princípio), a relação não consentida que sustenta e define o ato do voyeur.

VOYEURS
Yoshiyuki era um fotógrafo comercial em Tóquio, no início dos anos 1970, quando, do alto do apartamento de amigos, percebeu pela primeira vez a atividade noturna em Shinjuku. Passou a frequentar os parques à noite. Ficou amigo dos voyeurs, fez-se passar por um deles, como se compartilhasse os mesmos interesses, sem deixá-los perceber que carregava uma pequena câmera.
As fotos foram expostas pela primeira vez em 1979, na galeria Komai, em Tóquio, no escuro e em tamanho real. Cada espectador recebia uma lanterna ao entrar na galeria. O fotógrafo queria reproduzir a escuridão do parque e a experiência do voyeur. Queria que o espectador examinasse as fotos de perto, reconhecendo os corpos por partes, como os voyeurs retratados nas fotos, cercando as vítimas.
As ampliações foram destruídas depois da exposição, e as imagens só voltaram a despertar a atenção (dessa vez também de alguns dos principais museus americanos, que as incorporaram a seus acervos) 25 anos depois, quando o fotógrafo decidiu fazer uma nova tiragem.

FREUD
Por ironia do acaso, tive de passar por uma cirurgia de última hora no olho esquerdo na mesma semana em que havia programado para escrever este texto sobre voyeurismo. A operação me deixou visualmente inoperante por uns dias, o suficiente para que uma amiga psicanalista tivesse tempo de me enviar o texto de Freud, de 1910, sobre a "perturbação psicogênica da visão", que, com o perdão do trocadilho, me fez ver as fotos de Yoshiyuki com outros olhos.
No texto, Freud cita Friedrich Schiller: "Todos os instintos orgânicos que atuam em nossa mente podem ser classificados como fome ou amor". Está falando da oposição, da queda de braço entre os instintos de autoconservação do indivíduo (fome) e os instintos sexuais (amor) pelo controle dos mesmos órgãos - a boca, por exemplo, que, além de órgão da comunicação e da nutrição, funções básicas para a sobrevivência, também é uma zona erógena.
É dessa oposição que nascem a repressão e as neuroses. A cegueira histérica, por exemplo, nada mais é do que a vingança do instinto sexual contra uma repressão por assim dizer "exagerada" que lhe é infligida pelo instinto de autoconservação do eu, quando um órgão que deveria servir a uma finalidade da percepção sensorial (no caso, o olho) "começa a se comportar como um genital".
Na "Introdução ao Narcisismo", de 1914, Freud escreve que a teoria da libido (que trata da satisfação) repousa sobre essa suposta oposição entre os instintos sexuais e a autoconservação do indivíduo. "O indivíduo tem de fato uma dupla existência, como fim em si mesmo e como elo de uma corrente, à qual serve contra -ou, de todo modo, sem- a sua vontade."
Os instintos o levam a fazer o que ele não quer, mas também a achar que faz porque quer. Os instintos seguem caminhos tortuosos na luta para convencer o indivíduo a participar dessa corrente maior da qual ele é apenas um elo e cujo fim é a autopreservação e a reprodução da espécie. Mas os meios mascaram os fins, e o que era artimanha muitas vezes acaba tomando a dianteira sobre o objetivo. Assim, o homem é constituído por satisfações que não visam apenas à autoconservação.
Nenhum fumante, por exemplo, acredita que o cigarro sirva para sua autopreservação, e nem por isso para de fumar. Da mesma forma, o voyeurismo é um dos efeitos colaterais dessa guerra entre os instintos, um desvio, uma perversão. O voyeur projeta e constrói no objeto do desejo o que bem entende, o seu "autorretrato" inconsciente. Ou melhor, ele transforma o desejo em objeto, eliminando todo contato físico e descartando todo fim reprodutivo. É o próprio desejo que ele espreita, encantado.
Logo se veem as consequências em cascata de fotografar voyeurs à noite, num parque, para que em seguida espectadores possam perscrutar essas cenas em galerias, catálogos e museus.

LACAN
A propósito do voyeurismo, Jacques Lacan vai retomar, no célebre "Seminário 11", a ideia que Freud apresenta em "Os Instintos e Seus Destinos", de 1915: que os instintos estabelecem um circuito com o objetivo de satisfazer um estímulo, mas não atingem o objeto do desejo, apenas o contornam para voltar ao sujeito. Os instintos são constantes, de modo que satisfazer totalmente e zerar um estímulo (o que seria, em princípio, seu objetivo) também significaria paradoxalmente o seu fim, a interrupção do circuito.
É por isso que o instinto apenas contorna o objeto do desejo. O estímulo não pode ser totalmente satisfeito. Para que não se esgote na satisfação, o instinto precisa circular. O instinto de olhar, por exemplo, "é autoerótico no início de sua atividade, pode ter um objeto, mas encontra-o no próprio corpo", escreve Freud.
Lacan vai além ao dizer, sobre o voyeurismo, que "o objeto é o olhar". Mas esse olhar só se revela quando o voyeur é pego em flagrante: "O olhar é esse objeto perdido, e repentinamente reencontrado, na conflagração da vergonha, pela introdução do outro. Até aí, o que é que o sujeito procura ver? [...] O que o voyeur procura e acha é apenas uma sombra, uma sombra detrás da cortina. Aí ele vai fantasiar não importa que magia de presença, a mais graciosa das mocinhas, mesmo que do outro lado haja apenas um atleta peludo. [...] O que se olha é aquilo que não se pode ver. [...] A fantasia é a sustentação do desejo; não é o objeto que é a sustentação do desejo."

SUJEITO
E é a súbita consciência da presença de uma testemunha que revela ao voyeur o circuito do seu instinto, o olhar, e lhe permite afinal constituir-se por um instante em sujeito. É uma revelação análoga que as fotos de Yoshiyuki fazem ao espectador, pego de surpresa pelas imagens que representam seu olhar refletido na voracidade dos voyeurs.
Para o voyeur, a transgressão está no ato de ver. E as fotografias de Yoshiyuki nos põem no lugar do voyeur, num jogo de espelhos que transforma o objeto da nossa observação em nosso retrato, revelando o princípio narcisista do voyeurismo. O que torna essas imagens tão mais desconcertantes é que elas funcionam também como testemunha e consciência do nosso olhar. Somos surpreendidos na espreita da espreita.
Quem vê corre o risco de ser visto. As fotos de Yoshiyuki nos perturbam porque desnudam esse lugar que nos parecia protegido e seguro. Elas fazem dos voyeurs as vítimas da objetiva, do olhar da câmera, e assim põem o espectador na pele do voyeur no momento do flagrante. Diante dessas fotos, o espectador também é visto e está nu. É como se elas fossem testemunhas do olhar do espectador. São elas que o observam a observá-las.
O circuito do voyeurismo depende, portanto, de um ponto de vista inconsciente e protegido (mas nem por isso menos arriscado) que a presença de um terceiro vai romper e revelar à consciência. O voyeurismo pressupõe a invasão e a preservação simultâneas e complementares da privacidade (alheia e própria, respectivamente). Tudo tem a ver com um jogo de espelhos, uma dialética entre ver e ser visto como posições vulneráveis, transgressoras e de risco.
O voyeur não pode ser visto, assim como sua presa, cuja intimidade ele invade com o olhar. Mas esse é também um jogo de denegações, porque a transgressão, e a excitação que dela decorre, só existe onde há risco - nesse caso, risco de ser visto. Não seria descabido pensar no ato do voyeur como um desejo dissimulado (e espelhado em sua presa) de ser visto, como nos jogos infantis em que se esconder é uma forma de chamar atenção para si mesmo.

PRIVACIDADE
A própria ideia de privacidade como um direito a ser defendido ganhou corpo sob a ameaça da fotografia no final do século 19. Por outro lado, era um ponto de vista preservado e aparentemente seguro que garantia a revelação do mundo à fotografia feita fora dos estúdios, quando a câmera ganhou as ruas e passou a depender da inconsciência e da naturalidade dos objetos fotografados para representar o mundo como ele é, sem o artifício da pose.
Nesse sentido, voyeurismo e retrato só podiam trilhar caminhos divergentes. Um é inconsciente; o outro, consciente. As fotos de Yoshiyuki subvertem essa dicotomia, fazendo o "retrato" da inconsciência do espectador por meio do flagrante diferido dos voyeurs.
Num texto incluído no catálogo da exposição, o crítico Vince Aletti escreve que "é como se o fotógrafo tivesse entrado na cabeça de um sonhador e gravado as aparições inconstantes, bruxuleantes, antes que elas fugissem de volta para o subconsciente profundo".
"Além do ponto de vista protegido,
o voyeur precisa de uma relação não
consentida para agir
e transgredir."
Na verdade, a cena é o próprio "subconsciente profundo", pois ela registra uma ação que só pode ocorrer sem a consciência do registro e do olhar. O que Yoshiyuki registra é a inconsciência do olhar, o desejo em ação. Como por milagre, graças ao filme e ao flash infravermelho, o flagrante não acontece na hora em que é feita a foto (os voyeurs não se dão conta de que estão sendo fotografados, de que há uma testemunha, e atribuem a luz eventual do flash aos faróis dos carros que passam). Assim o flagrante é postergado e transferido para a consciência do espectador. Nós é que somos pegos em flagrante diante da foto. Somos, ao mesmo tempo, o voyeur e a terceira pessoa, a testemunha.

RUÍDO
Tudo isso já seria fascinante se não houvesse ainda um elemento desestabilizador, um ruído, pondo todo o sistema sob suspeita. Além do ponto de vista protegido, o voyeur precisa de uma relação não consentida para agir e transgredir. Pode eventualmente até pagar para ver (como nos "peep-shows"), mas seu desejo se alimenta mesmo é da inconsciência do objeto observado.
É o contrário da pornografia, que depende de um consentimento remunerado. Por isso, voyeurismo e exibicionismo não podem se completar (embora um leve ao outro, havendo uma passagem natural da atividade de olhar à passividade de ser olhado, assim como amar leva a querer ser amado). Mas não teria nenhuma graça nem faria nenhum sentido para o voyeur espreitar quem quer ser espreitado. O voyeurismo depende do não consentimento da vítima.
E o que é que acontece nas fotos de Yoshiyuki? Num primeiro momento, a câmera simplesmente assume o ponto de vista do voyeur, sempre preservando a identidade (o rosto) dos indivíduos, dos corpos fotografados. Não há nada entre a objetiva e os casais no parque, que a ignoram.
Aos poucos, entretanto, entram em cena os voyeurs, cercando os casais, atrás das moitas, esgueirando-se pelo chão, igualmente inconscientes da presença da câmera. E, de repente, quando menos se espera, começam a tocar as vítimas! E toda a lógica do não consentimento desmorona, pondo em dúvida, por tabela, a própria ignorância desses personagens em relação à presença do fotógrafo.
"Não pode haver flagrante onde tudo
é consentimento. É um mundo mais próximo
de uma simulação da pornografia,
onde já não há lugar nem para
 a privacidade nem para
a transgressão."

Afinal, que gente é essa? Quem são esses casais que se deixam observar e tocar? E quem são esses voyeurs que não estão aí para ver, não se contentam com a visão -ou simplesmente não veem-, mas precisam tocar os objetos, como cegos? E, como se não bastasse agir em grupo sem nenhum pudor (como se o voyeurismo fosse uma atividade social, e não individual), não percebem a presença da câmera! Que voyeur é esse que tateia como cego, em grupo? Que voyeur é esse cujo objeto não é mais o olhar?
Se o voyeur se alimenta do não consentimento da vítima, o exibicionista, em contrapartida, tira excitação de uma relação de consentimento com o espectador. O toque não tem nada a ver com voyeurismo. Não há correspondência nem complementaridade entre o desejo do voyeur e o do exibicionista, embora nada impeça que o voyeur se torne exibicionista e vice-versa.
Para que se instaure o circuito do instinto, porém, o objeto não pode corresponder à fonte do desejo. Para o voyeur, é preciso que não haja conivência do objeto observado para que o desejo possa circular: o objeto é o próprio olhar.
O que essas fotos mostram é outra coisa (e talvez não seja por acaso que Lacan considerasse os japoneses não analisáveis). Há uma conivência ambígua entre o voyeur e seu objeto, que, no fundo, se revela um exibicionista dissimulado em vítima. O voyeur toca sua presa, e ela continua a ignorá-lo, fingindo que não o vê (em entrevista ao jornal "New York Times", Yoshiyuki revelou que, na realidade, esses contatos nem sempre terminavam bem).

INTERNET
Com o advento da internet, dos sites de relacionamento, das redes sociais e do sexo virtual, o fetiche da autoexposição e do narcisismo foi amplificado para dimensões mundiais. O exibicionismo se impôs ao voyeurismo. Os reality shows (onde os participantes não só consentem em exibir uma pretensa intimidade ou privacidade, mas são selecionados, "contratados", para isso) confirmam essa hegemonia. A despeito das aparências, é um mundo que nada tem a ver com o voyeurismo. Não pode haver flagrante onde tudo é consentimento. É um mundo mais próximo de uma simulação da pornografia, onde já não há lugar nem para a privacidade nem para a transgressão.
Tanto o sexo virtual como a rede social e o reality show têm a ver com a ideia de celebridade levada ao paroxismo, igualada, pelo excesso e pela generalização, a seu oposto, o anonimato. Brincar de celebridade (autopublicar-se, autoexibir-se, autopromover-se, essa redundância reflexiva) equivale a se vender, a encarnar a puta ou o pornógrafo, a expor as próprias fantasias em público, a deixar de ser sujeito para se tornar objeto. A excitação vem do consentimento.
"O voyeurismo é um dos efeitos colaterais
 dessa guerra entre os instintos, um desvio,
uma perversão. O voyeur projeta e constrói
no objeto do desejo o
que bem entende"
E é como se as fotos de Yoshiyuki anunciassem a passagem de um mundo a outro, da fome de ver à fome de mostrar, de um mundo da transgressão para a sociedade do consentimento generalizado. Ninguém é pego em flagrante, porque todo mundo se entrega antes, mostra antes.
Não faz mais sentido falar em vigilância (nem combatê-la, nem denunciá-la, o que não significa que ela não seja mais eficaz que nunca) numa sociedade tautológica, de autoexposição voluntária. A transgressão foi anulada pela banalização do consentimento coletivo. É como se toda a sociedade de repente fizesse a passagem de que fala Freud, da atividade do voyeurismo para a passividade do exibicionismo.
Afinal, todos têm seus minutos de celebridade, como previu Andy Warhol, e todos têm seus minutos de puta, com a desvantagem de, em geral, não receber nada por isso. E o mais perverso desse mecanismo é que a promessa de celebridade massificada resulta sempre em mais anonimato, na indiferenciação das diferenças e das individualidades. A rede vende a ilusão de que a exceção é a regra, e assim anula a exceção.
Se a constituição do sujeito passa mesmo, como diz Lacan, pela surpresa de ser pego em flagrante, por ser visto desejando, sem seu consentimento, essa passagem se torna inoperante num mundo em que tudo é consciência prévia, onde o voyeurismo se tornou uma atividade social, de grupo, onde já não se cultiva a privacidade e onde tudo já está à vista de saída -embora por isso mesmo nada seja revelado.
Na sua excepcionalidade, a tragédia do estudante gay que se suicida depois de ver suas imagens, gravadas à revelia por um colega de quarto durante um ato sexual e em seguida divulgadas na internet, só confirma a violência extrema desse mundo de autoexposição absoluta, no qual a consciência (o flagrante e a revelação) passa a ser insuportável. O flagrante acarreta a consciência de si, a responsabilidade e a culpa.
Nada disso é possível quando a exposição coletiva em rede e o narcisismo massificado vêm obliterar a própria ideia de exceção e desvio individual. Os voyeurs de Yoshiyuki agem em grupo. E não deixa de ser irônico que o sexo virtual (típico desse mesmo mundo) torne mais arriscado e mais obsceno mostrar o rosto (e os olhos) do que o próprio sexo.
Mostrar o rosto aí significa entregar ao público (ao olhar do outro) o pouco que resta de individualidade sob controle privado (do sujeito) num mundo de exibição generalizada, mas também, paradoxalmente, restabelecer o flagrante (ainda que pela contradição em termos de um flagrante deliberado) onde já não é possível nenhum flagrante.
Revelar o olhar é a única transgressão (suicida, talvez) que resta quando tudo foi posto à vista. É romper com a passividade cega de ser visto para poder voltar a ver.
As fotos mais perturbadoras expõem casais heterossexuais entrelaçados em encontros furtivos, enquanto uma matilha de voyeurs os espreita e cerca, como hienas
O voyeurismo é um dos efeitos colaterais dessa guerra entre os instintos, um desvio, uma perversão. O voyeur projeta e constrói no objeto do desejo o que bem entende
As fotografias de Yoshiyuki nos põem no lugar do voyeur, num jogo de espelhos que transforma o objeto da nossa observação em nosso retrato
Todos têm seus minutos de celebridade, como previu Andy Warhol, e todos têm seus minutos de puta, com a desvantagem de, em geral, não receber nada por isso
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* BERNARDO CARVALHO, 49, é jornalista e escritor, autor de "Nove Noites" e "O Filho da Mãe" (ambos pela Companhia das Letras)
Fonte: Folha on line, 02/10/2011

Da vocação*

Lygia Fagundes Telles*
Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres, umas santas, lembra?
Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinês imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, não chores que a vida / é luta renhida. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos de casa certos de que vamos encontrar alguma... O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus, oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte – ainda intensos – seremos um fantasminha claro de amor.
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*Escritora ficcionista. Romancista.
*Do livro:  TELLES, Lygia Fagunde A DISCIPLINA DO AMOR, Círculo do Livro, SP, p.43
Imagem da Internet

Incertezas

Fernando Henrique Cardoso*
Para quem já sofreu as consequências de várias crises financeiras internacionais, não chega a ser surpreendente o que ocorre nos países mais desenvolvidos da Europa, contagiados pela crise financeira que tem origem nos menos desenvolvidos da região.
No passado recente, bancos centrais e ministros de finanças dos primeiros procuravam mostrar que não havia como equiparar a situação de seu país com a tragédia que ocorrera noutro. As situações fiscais não seriam as mesmas, a proporção da dívida com relação ao PIB não era tão grande assim, num caso a dívida interna estava nas mãos de agentes financeiros internacionais e se denominavam em dólares, noutros, ao contrário, eram os poupadores nacionais que emprestavam aos governos locais em moeda do país etc. Mas, quase sempre, havia uma variável crítica: o mutável estado de confiança dos agentes do mercado financeiro internacional. Quando se instalava a desconfiança quanto à solidez das contas fiscais e/ou externas de um determinado grupo de países de alguma maneira correlacionados, os argumentos sobre as diferenças perdiam força. E viravam pó, se surgisse o fantasma do default – da moratória, como se dizia.
O receituário do FMI tampouco era atento às diferenças. Exigia sempre mais do mesmo, às vezes não sem alguma razão: ajuste fiscal, reforma patrimonial do Estado etc. Mas fazia ouvidos moucos à demanda por maior regulação do mercado financeiro internacional. Era o que pedíamos à comunidade internacional os que dirigimos os países naquela época de aflições.
Reclamávamos maior regulação internacional para conter a especulação contra as moedas nacionais, ou seja: a criação de fundos de socorro maiores e de mais fácil acesso, o fortalecimento da base financeira do FMI e o aperfeiçoamento de suas práticas. Era preciso maior rapidez no atendimento dos países com crise de liquidez e menos “condicionalidades”, ou seja, as imposições restritivas à política econômica e fiscal dos países devedores, pois se o ajuste fiscal passasse de certo ponto impediria a retomada de crescimento econômico. Para financiar os novos fundos, alguns de nós relançamos a ideia de uma Taxa Tobin, apesar dos reclamos contínuos dos especialistas quanto aos efeitos desse tipo de imposto.
"Não haverá condições político-morais
para proceder a tais reestruturações sem,
 ao mesmo tempo, distribuir melhor o
custo da “socialização das perdas”.
Alguns países emergentes tiveram melhores condições para negociar com o FMI, como foi o caso do Brasil, que havia realizado o Plano Real por sua conta e risco, sem o aval do Fundo. Com o Plano Real, modificamos drasticamente as bases da política fiscal, saneando as finanças da União e as dos Estados, impusemos regras severas ao sistema financeiro, seguindo as recomendações de Basileia para controlar a “alavancagem”, isto é, os empréstimos sem uma base adequada de capital próprio nos bancos. Ao mesmo tempo, não descuidamos de, ao privatizar, ampliar a concorrência e manter ativos os instrumentos públicos de crédito no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e no Banco do Brasil, tornando-os aptos a reestruturar empresas nacionais ou localizadas no país. Ao lado disso, desde 1994 até hoje, os diferentes governos sustentaram um aumento constante do salário mínimo real e, a partir de 2000, foi possível criar uma rede de proteção social, da qual as Bolsas-Família, iniciadas com nomes diferentes, se tornaram símbolo de inclusão social, diminuindo a pobreza e reduzindo um pouco as desigualdades.
Pela primeira vez, os países mais desenvolvidos sentem as consequências da falta de regulação do sistema financeiro. Olhando agora o que ocorre na economia global, deparamos com uma situação incerta. A regulação financeira proposta nas reuniões do G-20 encontra dificuldades para se efetivar, dada a diversidade de interesses nacionais. Cada banco central opera como melhor lhe parece. O Fed inunda os Estados Unidos e o mundo com dólares e faz operações típicas de bancos comerciais sem se preocupar com a ortodoxia. Os responsáveis pelos desmandos financeiros não são punidos, recebem bônus (ao contrário do que ocorreu com o programa brasileiro de saneamento do sistema financeiro, que puniu os banqueiros) e o desemprego não cede porque não há consumo nem investimento. O Banco Central Europeu e o FMI exigem dos países em bancarrota virtual sacrifícios fiscais que impossibilitam a retomada do crescimento e, portanto, a volta à normalidade. As taxas de juros se mantêm próximas de zero, sem previsão de mudança, e as economias não reagem. Na Europa, cada país faz a política fiscal que deseja, não há mecanismos de unificação. O desemprego e o mal-estar político minam esses países, e a ameaça de default é seu parceiro constante.
Desse quadro escapam as economias emergentes, China à frente de todas. Até quando? É óbvio que uma recessão prolongada ou uma grande contração, como diz Kenneth Rogoff, transmitirá às economias emergentes seus maus fluidos pelo conduto do comércio internacional. É preciso, antes que isso ocorra e o desastre seja maior, que haja um entendimento global. Este deveria partir do reconhecimento de que as dívidas de alguns dos países europeus são impagáveis. Com o nome de reestruturação ou outro qualquer, à la Brady, é preciso aliviar já a situação da Grécia, de Portugal e eventualmente da Espanha e da Itália. Suas dívidas internas e externas e a penúria de seus bancos cheios de títulos de qualidade desconhecida não lhes dão alternativas de retomada do crescimento sem uma redução substancial dos valores de seus passivos.
Não haverá condições político-morais para proceder a tais reestruturações sem, ao mesmo tempo, distribuir melhor o custo da “socialização das perdas”. O grito de Warren Buffet, seguido por milionários de outros países, mostra o descalabro do Tea Party ao querer impor mais ônus aos mais pobres, com responsabilidade zero na crise. Por fim, ou o euro se derrete pela falta de unificação fiscal, ou esta se faz, ou a União Europeia se encolhe, autorizando alguns de seus membros a desvalorizar e usar outra vez uma moeda nacional.
Nada disso pode ser feito sem lideranças políticas fortes, dispostas a redistribuir o poder global e reorganizar suas bases decisórias. Terão força para tanto? Eis o enigma.
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*Ex-presidente da República
Fonte: ZH on line, 02/10/2011
Imagens da Internet

Einstein errou?

MARCELO GLEISER*

 
Muitos sonham em desmentir
o genial físico alemão;
por enquanto, porém, suas teorias,
que inspiraram tecnologias
como laser e GPS ,
 resistem ao teste do tempo

Esta semana marcou o 106º aniversário da publicação do artigo de Einstein com a famosa fórmula E=mc2, talvez a mais famosa da física.
Aos 26 anos, Einstein redefiniu nossa compreensão da matéria, mostrando sua íntima relação com a energia. O elo da correspondência é a velocidade da luz, representada pelo "c", com um valor aproximado de 300 mil km/s.
Você pisca o olho e a luz dá sete voltas e meia em torno da Terra. Segundo a teoria da relatividade, nada na natureza pode viajar mais rápido do que a luz: qualquer objeto com massa, de um elétron a um cometa, necessariamente deve viajar com uma velocidade mais baixa do que "c".
Porém, vimos recentemente cientistas dos laboratórios europeus Cern, em Genebra, na Suíça, e Gran Sasso, na Itália, anunciando a detecção de partículas com velocidades maiores que a da luz.

FANTASMAGÓRICAS

As partículas são neutrinos, conhecidas como "partículas-fantasmas" devido à sua fraca interação com a matéria: neutrinos atravessam paredes, pessoas e planetas como se não existissem, apenas raramente colidindo com outras partículas.
Os experimentos começam criando neutrinos no Cern. Depois, eles viajam 730 quilômetros através da crosta terrestre até chegar aos detectores em Gran Sasso.
Embora o porta-voz da experiência tenha afirmado que o processo é simples, que basta dividir distância por tempo para obter a velocidade, na prática a coisa é bem mais complicada. De fato, a maioria absoluta dos físicos vê os resultados com muito ceticismo, duvidando que sobrevivam por muito tempo.
Ou, claro, pode ser que os neutrinos tenham viajado mesmo algumas dezenas de bilionésimos de segundo mais rápido do que as partículas da luz. Mas eu não apostaria nisso.
O que acho interessante é o burburinho que surge cada vez que um cientista crê demonstrar que Einstein errou.
Cientistas têm o dever de testar teorias. Dada a profundidade das teorias de Einstein, achar uma falha numa delas pode revolucionar a nossa compreensão do mundo natural. Esse tipo de ceticismo é vital para o funcionamento da ciência.

MATURAÇÃO LENTA

Muitas vezes, uma teoria demora a maturar. De volta a Einstein, esse foi o caso com a sua teoria da relatividade geral, a que relaciona a atração gravitacional com a curvatura do espaço.
A teoria foi desenvolvida aos poucos, entre 1907 e 1915, até Einstein chegar à sua versão final. Afirmar que Einstein deu passos "errados" no meio do caminho é ignorar o processo criativo dos cientistas; a ciência não anda numa linha reta entre dois pontos. Ela meandra aqui e ali até chegar ao seu objetivo.
Que eu saiba, os resultados principais de Einstein estão todos ainda conosco e continuam a inspirar novas pesquisas, sem falar nas tecnologias "einstenianas" do cotidiano.
Mesmo que, um dia, algumas das ideias de Einstein sejam suplantadas por novas teorias-e isso deve acontecer -, dizer que ele estava errado é no mínimo ingênuo.
Será que podemos dizer que Newton estava errado quando Einstein corrigiu suas teorias? Certamente não! Toda teoria deve ser aplicada dentro do seu limite de validade: julgá-la errada quando aplicada fora desses limites é não saber como usá-la.
O próprio Einstein considerou uma de suas ideias como o "maior dos seus erros", a adição da chamada constante cosmológica às equações descrevendo a geometria do Universo.
Em 1931, Einstein visitou o astrônomo Edwin Hubble no observatório do monte Wilson, na Califórnia, e teve a oportunidade de ver o desvio para o vermelho da luz emitida por galáxias distantes. A interpretação mais imediata desse desvio é a expansão do Universo, isto é, que as galáxias estão se afastando umas das outras a altas velocidades. Em 1917, Einstein havia escrito um artigo onde supõe que o Universo é estático, sem expansão alguma.
Para isso, teve de adicionar a constante cosmológica, que garante a solução estática que queria. O resultado de Hubble mostrou que sua suposição não era necessária.

REVIRAVOLTA

Ironicamente, em 1998, astrônomos descobriram que o Universo está em expansão acelerada, efeito que pode ser causado justamente pela constante cosmológica de Einstein. A natureza tem razões que a razão desconhece.
Outro "erro" de Einstein é sua posição com relação à mecânica quântica, que descreve as partículas da matéria. Ele nunca aceitou que, conforme dizia essa área da física, a realidade tivesse um forte componente aleatório.
Até hoje, nada de anormal foi encontrado com a mecânica quântica. Em defesa de Einstein, não houve aqui um erro, mas uma diferença filosófica na sua visão de mundo. É prematuro julgar se sua posição está certa ou errada.
A lição aqui me parece simples: é bom termos cuidado ao julgar teorias a partir de resultados recentes e com pouco escrutínio. Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias.
Embora o questionamento constante seja vital para a ciência avance, as trombetas da revolução só devem ser soadas após a revolução ter mesmo começado.
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MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". ook: http://goo.gl/93dHI
Fonte: Folha on line, 02/10/2011
Imagem da Internet

Monsieur Verdoux

Rubem Alves*
Imagem da Internet - Cena do Filme Monsieur Verdoux
Troy Davis, negro, foi executado no estado
americano da Geórgia,
 com uma injeção letal
Monsieur Verdoux é um filme de 1947, dirigido e estrelado por Charles Chaplin A Wikipédia o descreve como filme do gênero "humor negro". Humor negro é gênero de humor que faz uso de "situações de mau gosto, usualmente de natureza mórbida, para fazer rir" Mas, quando o vi, em nenhum momento senti vontade de rir. Portanto seu "script" nada tem de humor. Para mim ele está mais próximo da tragédia. Em Portugal ele apareceu com o nome de Barba Azul que, a meu ver, é um equívoco, porque coloca na sombra o segundo personagem do filme, que faz contraponto Monsieur Verdoux.
Coisa semelhante os pregadores fizeram com a parábola chamada de O Filho Pródigo. Mas onde se encontra o segundo irmão? O sentido da parábola vem, precisamente do contraponto que acontece entre os dois irmãos. Fazendo silêncio sobre o segundo filho a parábola perde completamente o seu sentido. Chamar o filme de Barba Azul é perder o seu sentido.
Monsieur Verdoux era um homem casado com uma mulher paralítica, com quem havia tido uma filha. Sem meios para sustentar esposa e filha a quem muito amava, ele inventou uma técnica para ganhar dinheiro: viajava com olhos de caçador, procurava mulheres ricas e solitárias, envolvia-as numa trama amorosa, convencia-as a passar seus investimentos econômicos para ele, matava-as e fazia o corpo desaparecer. Até aqui o filme é uma simples repetição da estória do Barba Azul...
Monsieur Verdoux era um assassino amoroso; matava não por maldade, mas por compaixão.
Mas, paralelamente à estória de Monsieur Verdoux, corria ao mesmo tempo uma outra. Era tempo de guerra. Tempo de guerra é tempo de muitas mortes. Só que as muitas mortes das guerras não são assassinatos, não são crimes. São atos impostos pelas razões do poder bélico. Não há culpados. Aqueles que matam muitos são heróis, recebem condecorações.
Não estou bem certo acerca dos detalhes que se seguem... Aparece o segundo personagem da estória: um industrial que se enriquecera com a fabricação de canhões... Como se sabe a fabricação,venda e uso de armas é uma das grandes fontes da riqueza e do progresso das nações.
Muitos anos atrás eu li um livro com o título Report from the Iron Mountain. Era o fim da guerra fria. O fim da guerra fria trazia um perigo: um esfriamento no negócio das armas. Pois é claro: sem a ameaça de guerra a demanda de armas seria menor. O dito livro continha um relatório: o governo dos Estados Unidos, preocupado com o impacto econômico da paz, reuniu vários cientistas e lhes propôs um problema: "Que rumo deveria tomar a economia norte-americana se um período de paz viesse para o mundo?" Os ditos cientistas, depois de analisar a questão, concluíram: "Um período de paz teria consequências imprevisíveis, devastadoras, catastróficas, impensáveis, para a economia norte-americana". É preciso reconhecer: a economia dos países ricos depende pesadamente da produção e venda de armas. É preciso reconhecer: o crime e o terrorismo são o lado negro, escondido, do progresso econômico.
O filme termina com uma lição sobre a alma da política e da economia: o fabricante de canhões fica mais rico e é condecorado. Monsieur Verdoux é descoberto e guilhotinado.
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* Teólogo. Escritor e educador.
Fonte: Correio Popular on line, 02/10/2011

sábado, 1 de outubro de 2011

Por que os vivos têm de cuidar dos mortos?

Betty Milan*

Tratar o corpo dos mortos para conservá-lo até a incineração, ou o sepultamento, é uma prática antiga e comum a todas as grandes civilizações. Na era contemporânea essa prática, a tanatopraxia, está mais disseminada nos países de culta anglo-saxão do que nos de cultura latina. No Brasil, ela é pouco conhecida, certamente por causa do tabu da morte.
O tanatopraxista tanto pode ser encarregar do preparo simples do corpo quando de sua conservação. Ele também pode restaurar um rosto deformado por uma enfermidade ou fazer o molde de uma face. Precisa ter conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia. Sua profissão é considerada artística.
Cuidar da pessoa amada depois de morta é indício de grande respeito a ela. E recorrer ao tanatopraxis faz bem também para a família, já que estabelece uma continuidade entre o momento da morte e o da incineração, ou inumação. Evita que a separação seja abrupta e ameniza a dor. A presença do tanatopraxista na casa do morto é em geral recebida pelos familiares como uma ajuda. O filme de Yojiro Takita A Partida, ganhador do Oscar de produção estrangeira de 2009, é um belíssimo exemplo disso.
"A ritualização da morte é necessária
porque ninguém a aceita automaticamente.
Queremos vê-la positivamente,
como uma transformação.
 A ritualização está a serviço
dessa transformação. Sem ela,
o luto é mais penoso"
A finalização da morte é necessária porque ninguém a aceita automaticamente. Queremos vê-la positivamente, isto é, como uma transformação, uma mutação, ou um acesso do morto a outro mundo. A ritualização está a serviço dessa transformação. Sem ela, o luto é mais penoso.
Nós sofremos sem os nossos mortos, mas não podemos viver com eles. O ritual serve para encontrar a boa distância. Como diz Baudry, grande estudioso do assunto, temos de evitar a disjunção (a completa negação da morte) e a confusão (a relação ininterrupta com o morto).
A morte de um ser querido nos faz sofrer. Mas também nos reenvia à nossa condição de mortais e nos humaniza. Lembra que tudo passa e ensina a valorizar o presente
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• Psicanalista. Escritora. Assina a coluna Consultório em VEJA.
• Fonte: VEJA IMPRESSA, Ed. 2237, nº 40 – 05 de outubro de 2011

Philip Roth: "A cultura literária vai acabar em 20 anos"



O escritor americano afirma que a tecnologia deve acabar com o livro em papel e que a literatura tende a perder a influência na formação dos jovens

O autor Philip Roth em Nova York, em 2010.
Após 52 anos de carreira, ele continua um favorito
 na lista dos cotados para o Nobel de Literatura
(Foto: Steve Pyke/ContourPhotos/Getty Images)

O edifício Austin, com seus 20 andares, fica a um quarteirão do museu de História Natural de Nova York. O porteiro indica o elevador que leva ao 12o andar. Ali, à porta de um apartamento despojado, com vista para a região plana e repleta de prédios do Upper West Side de Manhattan, uma criatura mitológica dá boas-vindas. “Entre, por favor!”, diz Philip Roth, sorrindo. Ele é mais simpático do que se esperaria do criador de personagens beligerantes, frequentemente à beira do desvario. Tampouco lembra o fauno lúbrico descrito pelas feministas. Magro, alto e em forma, Roth tampouco parece um verbete da enciclopédia do romance. Aos 78 anos, 52 de carreira, ele é tido por críticos respeitados como o maior escritor vivo e figura há décadas na lista de possíveis ganhadores do Prêmio Nobel. É o único autor vivo a merecer a edição de suas obras na editora The Library of America, dedicada a escritores consagrados. Sob sua supervisão, o nono e último volume com os romances curtos deverá sair em 2013. Dele fará parte Nêmesis, seu 22º romance, recém-lançado no Brasil. Roth chegou a declarar que não escreveria mais. Nesta entrevista a ÉPOCA, no entanto, diz por que mudou de ideia, e já está pensando em uma novela em um gênero que jamais praticou: o fantástico.

ÉPOCA – Não há nenhum computador nesta sala. O que o senhor pensa sobre os avanços tecnológicos como tablets e e-readers? Eles melhoram a compreensão do mundo?
Philip Roth – Não sou fanático por tecnologia. Tenho o mesmo telefone celular há anos e não pretendo trocá-lo. Escrevo em computador, como fiz antes com a máquina de escrever. É óbvio que as máquinas facilitam a finalização de um texto. Só que as coisas estão se transformando muito rapidamente para meu gosto. Não consigo achar graça em ler livros em formato eletrônico em e-reader. Outro dia passei em uma loja Apple com a forte disposição de comprar um iPad. Cheguei lá, vi tanta gente se acotovelando para ver como funcionava o aparelho e cheguei a testá-lo. Acabei desistindo. Não sei por que, mas o iPad não me convenceu, talvez porque pareça chato escrever nele, e ler nele é dispersivo. Quem vai conseguir ler um livro inteiro meu naquele tablet? É mais um totem do culto à tecnologia. Hoje, toda a cultura se encontra a nossa disposição. E isso me preocupa. A cultura literária como conhecemos vai acabar em 20 anos. Ela já está agonizando. Obras de ficção não despertam mais interesse dos jovens, e tenho a impressão de que não são mais lidas. Hoje, a atenção é voltada para o mais novo celular, o mais novo tablet. Daqui a poucas décadas, a relação do público e do escritor com a cultura será muito diferente. Não sei como será, mas os livros em papel vão acabar. Surgirá outro tipo de literatura, com recursos audiovisuais e o que mais inventarem.

ÉPOCA – Sua trajetória foi ascendente, de um autor quase maldito de O complexo de Portnoy, de 1969 – que era lido pelos meninos como eu como uma iniciação aos segredos do sexo –, ao mestre canonizado dos romances filosóficos, que tratam da velhice e da morte. O que mudou em sua vida nestes 42 anos?
Roth – Não sei, você sabe? O que terá sido? No tempo de O complexo de Portnoy, muita gente disse que eu tinha inventado a masturbação! Quanto à consagração, a vida e a atividade literária se confundem. Para mim, escrever foi sempre a prioridade. Foi um caminho natural, de juventude, amadurecimento e velhice. Talvez o mundo tenha ficado mais parecido comigo. Hoje, ninguém precisa ler meus livros atrás de nenhuma técnica sexual! (risos)

"Não sou religioso nem mantenho
em casa símbolos judaicos.
Os judeus americanos de minha geração
não sentiram o peso da tradição"
Philip Roth

ÉPOCA – O senhor tem milhares de fãs jovens no Brasil, e obviamente não mais por causa dos métodos de masturbação de Portnoy. Já pensou em visitar o país e se encontrar com seus leitores?
Roth – Já fui convidado a participar de eventos literários no Brasil. Gostaria de ir, mas recusei muitas vezes, pois na minha idade não tenho mais ânimo para viajar. Em junho, me convidaram para ir a Londres receber o Man Booker Prize. Agradeci e disse que não poderia ir. A organização gravou um vídeo com uma mensagem minha, e tudo correu muito bem. Não pretendo mais fazer viagens fora dos Estados Unidos. Aliás, minhas viagens têm sido de minha casa de campo, em Warren, Connecticut, e Nova York. Gosto dessa rotina segura.

ÉPOCA – Que referências o senhor tem do Brasil?
Roth – Infelizmente não conheço nada do país nem de sua cultura. Nunca ouvi falar de um autor brasileiro atual. Não tenho nenhum contato por lá. Nem sei nem o nome de meu editor em São Paulo. Você sabe que li um único autor brasileiro? É a imagem que tenho do Brasil. Não me recordo do nome dele, mas é um romance irônico, de narrativa descontínua, sobre um homem morto que conta suas paixões e confusões em primeira pessoa. Adorei...

ÉPOCA – É Memórias póstumas de Brás Cubas, publicado aqui sob o título de Epitaph for a small winner. O autor é Machado de Assis.
Roth – Isso! Alguns amigos meus como (o crítico inglês) John Gledson me recomendaram a leitura, e gostei demais. Outro amigo, o crítico Harold Bloom, colocou o livro entre os maiores exemplos do cânone ocidental e chamou Machado de Assis de gênio. Como não conheço outros livros dele, não sei dizer. Ele me parece bastante influenciado por Tristram Shandy (romance do irlandês Laurence Sterne). Mas com uma abordagem menos pilhérica, mais consistente e aforística. Acho que deveria ler mais autores brasileiros. Ler é o que mais gosto de fazer, além de ouvir música e nadar.

ÉPOCA – O que o senhor tem lido ultimamente?
Roth – Estou em um momento da vida em que ler significa reler. Permaneço no século XVIII! (risos) Releio clássicos. Mas, de uns meses para cá, parei de ler ficção. Leio história, sobretudo livros que tratam de meus tempos de menino, o período da Segunda Guerra Mundial, que vivi em Newark, (cidade vizinha a Nova York), onde nasci. Eu não tinha a dimensão dos fatos. Os historiadores me ajudam a entender aqueles tempos. Sou fascinado pela era Roosevelt, e há ensaios e estudos recentes sobre o período – parecido com o atual, com os problemas da recessão econômica. Um livro que me impressionou foi O jovem Stalin, de Simon Sebag Montefiore. Ele traça um perfil aterrador do futuro ditador russo. Stalin é tão mau que faz Ivan Karamázovi parecer uma criança de jardim de infância.

ÉPOCA – Seus pais eram judeus, filhos de imigrantes da Europa Central. O senhor manteve tradições como o hebraico e o ídiche e o culto a símbolos religiosos?
Roth – Não. Meus pais eram cidadãos americanos pragmáticos. Eles criaram a gente sem obrigações religiosas. Fiz meu bar mitzvah aos 13 anos, mas desde então nunca mais entrei em uma sinagoga! Nunca entendi uma só palavra em hebraico que tive de recitar na ocasião e até hoje não sei o que o rabino disse naquele dia. Não sou religioso nem mantenho em casa símbolos judaicos. Os judeus americanos de minha geração não sentiram o fardo da tradição. Ser judeu em Nova York hoje é uma espécie de modo de vida cultural. Meus livros trazem personagens que carregam a tradição de forma bem mais pesada do que eu.

ÉPOCA – Muitos de seus livros se passam em Newark. Quanto de realidade contêm suas tramas?
Roth – Retirei muitos dos personagens e das situações do ambiente da Newark dos anos 1940 e 1950. Mas nem tudo em minha obra é Newark, como dizem alguns críticos. Como escritor, misturo várias referências – inclusive geográficas.

ÉPOCA – A moralidade e a mortalidade são os temas centrais de sua obra?
Roth – Em minhas histórias, a trama conduz a determinado tipo de problema moral. Os personagens caem sozinhos nas armadilhas de seus destinos. Não sou assombrado por dilemas morais nem temo a esperada vitória da morte. Mas o fato de ter perdido amigos aparece em meus livros. Há um ano morreu o mais brilhante de todos, John Updike. Perdi parentes, amores, amigos. A impressão é de que meu mundo está encolhendo. Não há como não se entristecer.

ÉPOCA – Apesar da fama de eremita, o senhor parece cercado de gente...
Roth – Sim, meus melhores amigos são colegas de profissão. Sou próximo a Joyce Carol Oates, Don DeLillo e Doctorow. Procuro manter uma vida social ativa, na medida do possível, já que decidi viver a maior parte do tempo no interior. Quando estou em Nova York, como você está vendo, todo mundo me liga para marcar encontros.

ÉPOCA – Como é seu dia a dia?
Roth – Acordo cedo, escrevo no computador, saio, converso com os vizinhos de Warren e vou nadar. Nado cinco vezes por semana: nado crawl e costas. Aqui, frequento uma piscina no centro da cidade. Nadar para mim não melhora só a musculatura. Nadar me faz pensar, me obriga a refletir sobre o que estou fazendo. Já inventei muitas histórias debaixo d’água! Depois de nadar, almoço, volto a escrever até cansar. Aí ouço música, vejo um filme e vou dormir.
"Nadar me faz pensar e me obriga
a refletir sobre o que estou fazendo.
Já inventei muitas histórias
debaixo d'água"
Philip Roth

ÉPOCA – Qual é seu método para criar uma história?
Roth – Não monto um esquema como alguns autores. Sou intuitivo. Começo com uma ideia e vou testando para ver se ela gera uma ação. Os personagens ganham vida, e o livro toma corpo. Minhas histórias surgem da surpresa da escrita.

ÉPOCA – Quais escritores mais o influenciaram?
Roth – Depende da idade. Aos 10 anos, lia um autor que me marcou: Thomas Wolfe. Foi um grande contador de histórias – e seus romances me ensinaram o valor da ação, da reviravolta e da veracidade dos personagens. Aos 20, fiquei fascinado pela ideia do grande romance americano. Com as obras de Theodore Dreiser e Henry James, aprendi a lidar com vários planos narrativos. Em 1953, aos 30, descobri As aventuras de Augie March, de Saul Bellow. Ele abriu o caminho para mim. Meu estilo não tem a ver com o de Bellow, seu humor é mais corrosivo. Mas ele me inspirou, pois mostrou que o mundo judaico americano podia atingir a universalidade.

ÉPOCA – Cite escritores inócuos em sua formação.
Roth – John Cheever, com seus dramas suburbanos, criou uma obra maravilhosa, fui amigo dele, conversamos muito, mas em nada me afetou. Há também Jack Kerouac. Os livros dele têm sido supervalorizados. Ele nunca passou de um narrador banal, um eterno adolescente.

ÉPOCA – Os críticos europeus denunciam o isolamento cultural da ficção americana. O senhor concorda com a análise?
Roth – Não. O que vejo é surgir um bom romance americano a cada semana. Só para mencionar meus amigos, há a Joyce Carol Oates e DeLillo. Entre os novos, Nicole Krauss tem produzido romances excelentes, como Great house. E Mollly Molloy, autora de El Sicario. A ficção americana cresce nos momentos difíceis.

ÉPOCA – O senhor anunciou que não vai mais escrever. É verdade?
Roth – Sinto desapontá-lo, mas tive de rever meu anúncio. Por sugestão de uma amiga, já estou trabalhando em uma novela curta fantástica, com figuras mitológicas. É só o que tenho a dizer por enquanto.

ÉPOCA – Por falar em mitologia, a editora Carmen Callil, jurada do Man Booker Prize de 2010, disse que não votou no senhor porque o senhor é um fauno que reduz as mulheres a objetos sexuais. Por que sua obra desperta tanto a ira das feministas?
Roth – Não sei. Isso é péssimo para minha reputação sexual, mas não há nada que eu possa fazer. Não conheço Carmen Callil. Mas um amigo meu me disse que a única razão para ela me odiar tanto é porque ela foi casada comigo.

ÉPOCA – Se o senhor ganhasse o Nobel, como se sentiria?
Roth – Seria uma honra. Mas não penso nisso como algo fundamental. Já me sinto satisfeito com o que conquistei. Queria mesmo era ganhar o Nobel da Literatura Feminista! (risos)
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Reportagem por LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE NOVA YORKFonte: http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2011/09

Divorciados que novamente casam. Um problema de urgência pastoral

Jean Rigal*

O problema dos católicos, divorciados e que casam novamente, é um problema de urgência pastoral que reemerge na discussão católica. Propomos este texto, publicado pela revista Témoignage Chrétien (Paris, 19 de setembro de 2011), de Jean Rigal, docente de eclesiologia no Institute Catholique de Toulouse, França. A tradução é de Benno Dischinger.
O autor é conhecido como um dos mais importantes eclesiólogos de língua francesa da segunda metade do século vinte. Entre suas obras “L’Église, obstacle et chemin vers Dieu [A Igreja, obstáculo e caminho para Deus] (1983) ; - «L’Église em chantier” [A Igreja em canteiro de obras](1994); - é também autor de uma grande obra, “L’Ecclésiologie de communion. Son évolution historique et sés fondements” [A Eclesiologia em comunhão. Sua evolução histórica e seus fundamentos] (1997): esta obra constitui um verdadeiro tratado sobre a igreja, que põe no centro a categoria de comunhão”.

Eis o artigo.

Muitos católicos, incluindo certos bispos (pelo menos privadamente) dizem não se sentirem bem relativamente à posição da Igreja católica referente aos casais de divorciados que se casam novamente. O problema não foi enfrentado pelo Concílio Vaticano II, mas desde então continua a representar-se de muitos modos, e por vezes de maneira oficial. E eis que retorna à baila, nestes dias, a propósito de uma entrevista de D. Robert Zollitsch, presidente da Conferência episcopal alemã e ao “manifesto” de mais de 300 padres austríacos.
Não é de se admirar. Embora sufocadas e retomadas por certo período, as verdadeiras questões voltam à baila. Tanto mais que o número dos divorciados aumentou; na França há 50% de divórcios relativamente aos matrimônios.
Os divorciados que casam novamente são sempre mais numerosos nas assembléias litúrgicas e entre os responsáveis eclesiais. Muitos padres não se consideram autorizados, em consciência, a falar-lhes a propósito da comunhão eucarística: “Vinde à mesa... mas não comei”.
Não se trata de banalizar uma situação que compreende o seu peso de feridas e sofrimentos, nem de considerar tudo em função daquela realidade.
São pessoas diversas por sua origem e por sua história, mas também pela prova conjugal que tiveram que viver e que os marca, como nos casos de abandono da parte do marido ou da mulher. Com freqüência, o segundo matrimônio dá uma estabilidade e uma maturação que permitem construir um novo projeto na confiança.
"Acolher, dar prova de misericórdia,
 convidar ao discernimento,
 situar esta dificuldade em sua dimensão eclesial,
não seria mais evangélico
do que despejar proibições?"
Em suas prescrições, a Igreja não toma em conta esta diversidade. Deveria ser um primeiro ponto de atenção, antes que afastar os divorciados que casam novamente da comunhão, se não até mesmo do sacramento do Perdão.
Muitos que casam novamente no civil não se preocupam com isto, mas alguns sofrem profundamente em sua vida de crentes. Solicitar-lhes, diante de todos, para uma comunhão somente “espiritual” os torna mais ainda diferetes acrescentando-lhes ainda mais dor ao sofrimento ou à falência.
Em 1980 o Sínodo dos Bispos sobre a família solicitava, com 179 votos contra 20, “que se lhe dedicasse uma nova pesquisa sobre o mérito, tendo em conta também Igrejas do Oriente, de modo a colocar melhor em evidência a misericórdia pastoral”. Esta solicitação explícita não produziu nenhum resultado.
No ano subsequente, após haver recordado que “a Igreja é uma mãe misericordiosa”, João Paulo II, em sua exortação apostólica sobre a família, justificava o ensinamento tradicional: “Os divorciados redesposados se tornaram eles próprios incapazes de serem admitidos à comunhão eucarística, porque o seu status e sua condição de vida está em contradição objetiva com a comunhão de amor entre Cristo e a Igreja, que se exprime e está presente na Eucaristia”.
Muitos bispos expressaram, mais ou menos explicitamente, o seu distanciamento ou também o seu desacordo. Citamos na França D. Le Bourgeois, bispo emérito de Autun, e três bispos alemães, Kasper, Lehmann e Saïer, conhecidos por sua grande competência teológica universitária e pastoral. Mas, suas intervenções não tiveram consequências.
Sem recolocar em discussão o princípio da indissolubilidade do matrimônio, muitas vozes solicitam hoje, com insistência, que se ponha fim à discriminação atual e que se admitam à comunhão eucarística, em casos determinados e sob certas condições, divorciados que novamente casaram que o solicitarem. Retomar o problema em sua base seria, de resto, necessário para evitar que se encorajem decisões individuais sempre mais numerosas.
Em 1992, num documento intitulado “Les divorciés remariés”, os divorciados redesposados, a Comissão da família do episcopado francês propõe: “Quando os divorciados redesposados desejam sinceramente avançar no caminho da santidade, mas não podem aceitar a idéia de separar-se, especialmente por causa dos filhos, a Igreja não poderia, sem impor-lhes viver na continência, dar-lhes a absolvição e admiti-los à comunhão eucarística? Não poderia, pelo menos, reconhecer-lhes o direito de decidir em consciência o que devem fazer?”.
Acolher, dar prova de misericórdia, convidar ao discernimento, situar esta dificuldade em sua dimensão eclesial, não seria mais evangélico do que despejar proibições?
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*Eclesiólogo francês.
Fonte: IHU on line, 01/10/2011

Vínculos Grudentos

Joaquim Zailton B. Motta*
O relacionamento amoroso implica uma dinâmica complexa que vai muito além do afeto e do erotismo, mobilizada por emoções e comportamentos tantas vezes estranhos e contraditórios. Em princípio, imagina-se que os pares se interessam por ampla convivência - estar juntos é perspectiva natural e até idealizada por eles.
Alguns pensam em compartilhar todos os momentos da vida, até os viscerais - já circulou pela internet um curioso modelo de banheiro para casal com dois vasos sanitários acoplados. Os exageros, no entanto, podem levar um casal às fronteiras das obsessões mais tresloucadas, transformando os pares em verdadeiras “ostras”, de modo que a sobrecarga de companhia pode promover tanto ou mais mal do que a indiferença e o distanciamento.
À primeira impressão, podemos pensar que uma relação grudenta é efeito do controle rigoroso de um ciumento. Ocorre que o ciúme tende a formar o grude de modo unilateral, é causa de um sistema um pouco diferente. O exercício dessa unilateralidade é geralmente ligado a uma história de traição ocorrida com a companhia atual ou uma anterior, ativando o medo do traído ser mais uma vez vitimado pela infidelidade. A insegurança vinda do ciúme implica uma supervisão contínua e ininterrupta, criando um clima paranóico e pesado. Um relacionamento que se acomoda em uma interligação extrema pode produzir casais mutuamente dependentes em grau tão elevado que pode anular um dos pares. E, de certo modo, quando um deixa de existir, individualmente ambos não existem.
Casais mais velhos que conviveram por muitas décadas em grande interdependência podem chegar a essa anulação individual. A afinidade intensa deste vigoroso companheirismo que pode contemplar um projeto romântico de ligação profunda e inabalável pode cair no radicalismo, prejudicando um deles ou ambos. Há os que conseguem se manter bem unidos e individualizados, o que leva um a confiar, a ter certeza, no que o outro fará em todos os momentos que envolvem o casal, preservado o respeito ás demandas pessoais e exclusivas. Mas há os que desistem da vida individual, como ocorre com os viúvos que se deixam morrer logo depois da morte de sua companhia habitual.
O psicoterapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Jr., expoente da Sexualidade Humana no Brasil e América Latina, diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, observa que essas características grudentas costumam aparecer mesmo antes do casamento. Depois, uma vez instituídas e repetidas, elas estendem-se e cristalizam-se, exigindo um árduo trabalho para excluí-las e refazer a relação.
Um estudo realizado pela Universidade de Iowa (EUA), uma das mais conceituadas universidades americanas, com mais de 160 anos de tradição e destaque em pesquisas, constatou que o companheirismo excessivo - como dar conselhos que o outro não solicitou - pode ser mais nocivo para o casamento do que um parceiro indiferente.
 Cuidar demais da companhia determina o desaparecimento do senso individual. Há alguns mitos da idealização romântica em que se cultua a ideia da “alma gêmea” com exacerbação fanática. A pessoa acha que deve ter a capacidade de ler a mente do seu par e saber exatamente como oferecer ajuda, aprovação ou crítica, como se estivesse lá dentro do outro.
 Se existir essa espécie de adivinhação entre os pares, a comunicação sofrerá demais, o que costuma enfraquecer o casal. Para reformar a relação, os exercícios psicológicos principais são exatamente permitir a referência individualizada, o reconhecimento das diferenças e semelhanças interpessoais e o aprimoramento da comunicação. Cada um vivendo a sua vida, e convidando o outro a participar dela quando assim o desejar, sem deixar de interagir e cuidar dos aspectos comuns.
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* Médico psiquiatra, psicoterapeuta e sexólogo.  Escritor, já publicou 07 livros, o mais recente em maio de 2007.  Participou também de coletâneas e outras publicações. Palestrante e congressista de vários eventos nacionais e internacionais. Articulista, mantém há 07 anos a coluna Sexualidade do jornal Correio Popular. Professor – convidado do curso de especialização em Sexualidade Humana da Unicamp e da UniAraras. Coordenador do GEACamp (Grupo de Estudos sobre o Amor de Campinas)
Ex-professor do Departamento de Neuro-Psiquiatria da PUCCAMP
Ex-delegado regional (região de Campinas) da SBRASH
Imagem da internet

“A invisibilidade deixa a criança à mercê dela mesma”

ENTREVISTA: JORGE BROIDE*

A FAMÍLIA DE FILIPE IV (AS MENINAS)” (1656),
DE DIEGO VELÁZQUEZ

Para especialista, crianças e adolescentes violentos carecem do olhar estruturante do outro e estão impedidos de falar sobre seus próprios dramasDedicado há 33 anos ao trabalho com crianças e adolescentes, o professor da Faculdade de Psicologia da PUC de São Paulo Jorge Broide sustenta que, por trás do comportamento violento de um jovem, existe com frequência a impossibilidade de ser visto e ouvido.
Para o especialista, é preciso remover o manto de invisibilidade que cobre esses jovens na família, na escola, na rua e permitir que possam falar sobre suas vidas a fim de que exista alguma perspectiva de mudança na sua condição. Na terça-feira, por telefone, o psicanalista porto-alegrense, 57 anos, radicado na capital paulista há 45, concedeu a seguinte entrevista:

Zero Hora – O senhor diz que a rua invadiu a escola. A que o senhor atribui esse fenômeno?
Jorge Broide – Esse fenômeno, que tem ocorrido nas cidades brasileiras, principalmente nas periferias, é o efeito da retirada do Estado nos últimos 30 anos. Nesse período, com o neoliberalismo, o Estado se recolheu. Se a presença dele antes já era precária nesses lugares, ficou mais precária ainda. Com isso, começa a vigorar nesse território não mais a lei do Estado, da ordem do simbólico, e sim a lei da violência, de quem tem mais força. Assim, avança o tráfico de drogas, que tem mais força num contexto de ausência do Estado. Essa desorganização e fragmentação do território gera fenômenos novos e contraditórios. Por um lado, permite o surgimento de novas maneiras de as pessoas se agruparem, se organizarem e lutarem pela sobrevivência. Por outro, gera formas de violência típicas de onde vigora a lei do mais forte. A rua invade a escola exatamente quando o espaço da escola é ocupado por esse território fragmentado. O professor não consegue mais falar em nome do conhecimento, da humanidade, da cultura. Ele fala em nome próprio, e tem diante dele um adolescente de 1m80cm falando também em nome próprio. Nesse caso, é evidente que o professor fica acuado. É como se deixasse de haver a divisão entre aquilo que é a escola e aquilo que é a rua, e a rua, com suas regras próprias, entra para dentro da escola.

ZH – A partir dos anos 1960, a psicanálise, entre outras disciplinas, contribuiu para colocar em xeque valores ditos tradicionais como família nuclear, a escola e o próprio Estado. Sua posição sugere uma certa nostalgia dessas instituições. O senhor acredita que, nesse caso, a psicanálise contribuiu para jogar fora a criança com a água do banho?
Broide – Não se trata de uma nostalgia, muito pelo contrário. O território no mundo mudou muito com o processo de globalização. Trata-se de encontrar políticas públicas que deem conta dessa transformação. Quando falo em Estado, me refiro a políticas públicas. A questão hoje é como o Estado – não aquele Estado antigo com políticas públicas antigas – pode exercer o seu papel na sociedade. O que é uma verdadeira política de segurança? O que é verdadeiramente falar de educação, de saúde mental? Enfim, o que se coloca hoje como ação do Estado? Não há resposta para isso. É um fato muito novo. Não se trata de ressuscitar o velho Estado, as velhas instituições, a velha família ou a escola antiga, que certamente não dão conta do que está ocorrendo hoje.
"Esse menino estava enredado numa
invisibilidade brutal. Essa questão é
tão central que podemos falar em
três hipóteses para o olhar do outro em
relação a essa criança:
 ou é um olhar aniquilador, que destrói o filho;
ou é um olhar que estrutura;
ou é a ausência do olhar.
Aqui, a invisibilidade deixa a criança
 à mercê dela mesma, de suas próprias pulsões,
sem que possa ser pautada, estruturada
pelo olhar do outro."
(Caso do menino de 10 anos que disparou a arma contra a professora)
ZH – O senhor diz que é preciso reabilitar a palavra na relação entre família, escola e jovem. O que significa isso?
Broide – A reabilitação da palavra se dá de várias formas. A psicanálise precisa estar onde a vida está. É preciso haver a possibilidade de se falar, na escola ou nas comunidades, do que não é dito. Conflitos e desejos, na medida em que não podem ser falados, se transformam em sintomas. Passamos a lidar com uma série de sintomas que se apresentam como rupturas na escola, no território, nas ruas. Temos que abrir caminhos para a palavra que antes não podia ser falada, para o pensamento que não podia ser formulado. Entendo que o papel da psicanálise é fazer com que a palavra circule. O que pode ser dito, pode ser pensado e transformado.

ZH – Uma parte desses comportamentos violentos, ao se cristalizarem, também fazem uso da palavra e dão origem a um discurso. Alguns exemplos são os os ramos violentos das torcidas organizadas de futebol ou os jovens que combinam confrontos pelas redes sociais.
Broide – O discurso, nesse caso, consiste em esconder aquilo que está ocorrendo com eles. É o discurso defensivo, por assim dizer. Quando partem para uma briga, precisam descarregar uma violência enorme que há dentro deles. O que estou dizendo é que a psicanálise pode nomear essa violência enorme existente no interior do sujeito para que esse sujeito possa se apropriar disso, pensar sobre isso e transformá-lo.

ZH – Como pais e professores podem agir diante de casos como o de São Caetano do Sul, no qual um menino de 10 anos disparou contra uma professora e, em seguida, se matou?
Broide – No caso de São Caetano, vou me pautar pelos fatos divulgados pela imprensa. O eixo central para a gente pensar no caso desse menino é a invisibilidade. Veja a invisibilidade em que se encontrava esse menino na escola e na família. Em primeiro lugar, não é possível que uma criança de 10 anos que comete um ato dessa natureza não tenha nenhum sintoma, nenhum sinal. Nesse sentido, ele estava invisível. Em segundo, quando se deixa uma arma em casa ao alcance de uma criança, isso também é um indício de que a criança está invisível. Na escola, todos dizem que ele era normal. Não estou fazendo aqui uma análise patológica, de normal versus doente. Estou dizendo que alguém prestes a cometer um ato como esse dá algum sinal. Esse menino estava enredado numa invisibilidade brutal. Essa questão é tão central que podemos falar em três hipóteses para o olhar do outro em relação a essa criança: ou é um olhar aniquilador, que destrói o filho; ou é um olhar que estrutura; ou é a ausência do olhar. Aqui, a invisibilidade deixa a criança à mercê dela mesma, de suas próprias pulsões, sem que possa ser pautada, estruturada pelo olhar do outro. Havia uma arma carregada em casa, ou ele a carregou se estava descarregada. Como é que uma criança de 10 anos aprendeu a fazer isso? Na escola, ninguém estava olhando para ele, todos diziam que ele era normal no senso mais comum da normalidade. Quando se suicidou, ele estava na realidade matando não a si mesmo, mas àquilo dentro dele que cometeu o ato insustentável para si mesmo. Os jovens da periferia sofrem de invisibilidade porque ninguém os vê, eles só imaginam poder ser vistos se tiverem roupas de grife, tênis de marca, e seu sofrimento leva à violência.

ZH – É possível traçar relações entre esse episódio e o da escola de Realengo, no Rio, quando um ex-aluno invadiu uma escola e matou 12 crianças?
Broide – Voltamos à questão daquilo que não pode ser dito e à diferença entre poder dizer e não poder dizer. No caso de Realengo, esse rapaz enfrentou bullying a vida inteira. Ficou conversando interiormente com o bullying a vida inteira. Acabou formulando a resposta 10 ou 20 anos depois porque nunca tinha podido falar sobre isso, não havia quem o escutasse. Também estava na invisibilidade, e foi isso que gerou essa violência tremenda. A invisibilidade não permite que se estabeleçam limites. Se ele estivesse sendo visto, o bullying teria sido interditado na infância e ele poderia falar sobre isso.
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*Psicanalista e professor da PUC de São Paulo
Fonte: ZH on line, 01/10/2011

Um mundo pós-aids?

PATOLOGIA DA ÉPOCA
Cláudio César Dutra de Souza*
Trinta anos após o primeiro diagnóstico, os avanços no combate ao HIV sepultaram uma série de ideias preconceituosas associadas à doençaChegamos este ano ao trigésimo aniversário de uma doença que modificou definitivamente nossos valores e percepções sobre relacionamentos e sexualidade. A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Acquired Imune Deficiency Syndrome, ou Aids) nasce, oficialmente, em 5 de junho de 1981, nos EUA, quando o Centro Americano para a Prevenção e Controle de Doenças registrou um estranho surto de pneumonia em Los Angeles. Nesse mesmo período, várias ocorrências de um raro tipo de câncer chamado Sarcoma de Kaposi aconteceram em San Francisco, levando os estudiosos a concluir que algo de muito estranho e sério estava ocorrendo. A sigla aids só foi oficializada em 1982, sendo que em seu início a doença era conhecida como Gay-Related Immune Deficiency (GRID), já que o primeiro grupo a ser afetado pela nova doença eram os homossexuais masculinos americanos. Naquela época, de acordo com o filósofo e ativista francês Daniel Denfert, existia uma sigla pouco conhecida através da qual os pacientes com aids eram referidos nos corredores dos hospitais: WOG – Wrath of God, ou seja, Ira de Deus. Nos idos de 1980, um paciente soropositivo carregava, de fato, uma sentença de morte em curto prazo.
Não obstante a gravidade natural da doença, ainda sem tratamento naquela época, o doente de aids sofria em dobro pelo preconceito contra si. A crença inicial de que a aids afetava tão somente “grupos de risco” tais como homossexuais, viciados em drogas injetáveis e “promíscuos em geral”, deixava implícito, para alguns, que de certa forma aquelas pessoas, por seu comportamento desviante, haviam feito por merecer o mal de que padeciam. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, Ronald Reagan e Margareth Thatcher lideravam uma guinada conservadora de resgate dos valores tradicionais após décadas de fortes reivindicações sociais e libertárias nos anos 1960 e 1970. Mais do que nunca, o modelo tradicional familiar era vendido como a correta proteção contra os malefícios da “peste gay”. Tais injunções foram corroboradas pelo Papa João Paulo II, ao afirmar que castidade e monogamia deveriam ser observadas como forma aceitável de evitar a doença.
Susan Sontag sintetizou em seu livro A Aids e suas Metáforas (1989) os principais estigmas e preconceitos que os doentes sofriam em meados da década de 1980. Para Sontag, a aids, além de punir os “culpados”, provocava igualmente uma situação de perigo aos “inocentes” que poderiam ser expostos a um risco imerecido. O desconhecimento e a ignorância foram responsáveis por diversas e tristes cenas de exclusão de soropositivos nas escolas, no trabalho e no ambiente social como um todo. Vivia-se o que Foucault iria conceituar como um “erotismo discursivo generalizado”, onde o sexo das crianças e dos adolescentes foi privilegiado como um importante foco de observação e sobre o qual se dispunham uma série de dispositivos institucionais e estratégias discursivas como forma informação, prevenção e vigilância. Entretanto, tal situação logo veio a se modificar. Nas décadas seguintes, estudos aprofundados provaram o erro de se pensar em “grupos de risco” quando, na verdade, havia “comportamentos de risco”, tornando todos, incluindo os heterossexuais, suscetíveis à contaminação pelo HIV. Desde o surgimento da aids, estima-se que 25 milhões de pessoas morreram e que ainda temos 34 milhões de infectados no mundo todo.
"No momento, a certeza de que temos
é que um mundo pós-aids está
 cada vez mais próximo."

No entanto, a certeza de “morrer de aids” foi gradativamente substituída pela realidade de “viver com aids”. O esforço conjunto de cientistas, movimentos sociais, filantropos e governos foram responsáveis por enormes avanços para deter a disseminação do HIV, frustrando as funestas previsões iniciais sobre uma pandemia apocalíptica de proporções incontroláveis. Grupos de medicamentos, os conhecidos coquetéis, possibilitaram ao portador do vírus HIV uma vida praticamente normal por tempo indeterminado. Aliado às campanhas de prevenção, o índice de contaminação pela aids é menor do que 0,5% no mundo desenvolvido, embora ultrapasse os 4% na África subsaariana, segundo dados de 2009 da Unaids. A boa notícia é que o Brasil possui os mesmos índices dos países desenvolvidos graças ao empenho social e governamental em focar o problema desde muito cedo. Embora polêmicas, as quebras de patentes para os principais medicamentos que compõem o coquetel contra a aids em 2001, 2007 e 2011 possibilitaram acesso às classes mais vulneráveis a um tratamento gratuito via SUS. Cabe lembrar que, embora sob controle, a aids é ainda uma doença grave e sem perspectivas de cura.
Exatamente por isso, a vulnerabilidade dos mais jovens fez com que a sua sexualidade fosse encarada de forma mais direta e franca, já que não se constitui em uma questão se o adolescente está fazendo sexo, ou não, mas sim como ele está se protegendo. Nos relacionamentos amorosos, o conceito de lealdade começou a substituir gradativamente o de fidelidade. Lealdade pressupõe o uso do preservativo em qualquer aventura extraconjugal, na suposição tácita de que elas acontecerão de qualquer forma. Ironicamente, o “castigo divino” que propiciaria o retorno a valores mais conservadores acabou por sepultá-los de vez em prol de uma nova racionalidade positiva na qual é sempre prudente evitar um juízo de valor precoce. No momento, a certeza de que temos é que um mundo pós-aids está cada vez mais próximo.
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*Psicólogo clínico, mestre em sociologia pela Universidade de Paris X
Fonte: ZH on line, 01/10/2011

Palmatória, sim e não!

“Estamos criando a ditadura das crianças”

Olga Inês Tessari, psicóloga e escritoraA psicóloga Olga Inês Tessari, de São Paulo, vocaliza o pensamento de muitos pais brasileiros que se sentem acossados pelo projeto de proibir os castigos corporais. Confira a entrevista:

Zero Hora – Quais são as objeções que a senhora faz à proposta de proibir castigos corporais?
Olga Inês Tessari – Essa lei interfere na educação que os pais dão aos filhos. É óbvio que, se existem pais que agridem, temos de proteger a criança. Mas é um exagero proibir o pai de dar uma palmadinha, para colocar limite, nas situações em que falar não adianta mais ou quando a criança não entende o sentido das palavras, até por causa da idade. Muitas vezes, uma palmadinha não mão para entender que não se pode fazer alguma coisa é o suficiente para resolver. Temos de conter a violência, é claro, do pai que descarrega suas neuroses e raivas no filho.

ZH – A senhora acredita que a lei trata de forma igual pais que agem de forma diferente?
Olga – Exatamente. A lei nivela por baixo. Se observamos qualquer ação violenta de um pai contra a criança, temos obrigação de denunciar. Não precisamos de lei nova.

ZH – A senhora entende que a palmada pode ser educativa?
Olga – Todo mundo levou palmada na infância e nem por isso virou uma pessoa violenta e traumatizada. A palmada pode ser educativa, quando usada com parcimônia e depois que se esgotaram todos os argumentos. Não é violência. Tem de permitir isso quando for estritamente necessário, o que não significa dar palmada em qualquer caso.

ZH – Proibir a palmada e punir os pais pode criar problemas dentro da família?
Olga – Sim. Estamos criando a ditadura das crianças. Elas podem tudo, e os pais não podem nada. Os pais não vão mais poder educar direito os filhos. As crianças vão poder fazer o que querem e vão aprender que podem tudo. O que vai ser delas no futuro, quando depararem com realidade diferente fora de casa?

“Quando se bate, se ensina a bater”

Carlos Zuma, da secretaria executiva da rede Não Bata, EduqueFormada por uma série de entidades de defesa à criança, a rede Não Bata, Eduque apoia a proposta de banir os castigos corporais. Leia a entrevista com Carlos Zuma:

Zero Hora – O país está atrasado em relação aos castigos corporais?
Carlos Zuma – Sim. Está arraigada no Brasil a ideia de que o pai pode bater. A gente vê isso até em novela. Como signatário da Convenção Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, o país tem obrigação de proibir os castigos corporais. Mas não é só a lei que muda a cultura, tem de mostrar formas positivas de educar.

ZH – Que formas seriam essas?
Zuma – Os pais têm obrigação de educar e disciplinar, mas confundem educação com castigo físico. Eles dizem que batem porque não querem que o filho se transforme em bandido. Queremos mostrar que existem métodos de educar sem necessitar do castigo corporal. Propomos uma educação na qual se explica à criança o que pode e o que não pode. Em última instância, recorre-se a castigos que não sejam físicos e que não humilhem, como deixar a criança cinco minutos no corredor da casa.

ZH – Quais são as consequências do castigo corporal?
Zuma – A criança tende a reproduzir o modelo. Nos grupos de reflexão que promovemos com homens que batem nas mulheres, 70% relatam que apanharam quando crianças ou presenciaram violência do pai contra a mãe. Quando se bate em criança, ela está sendo disciplinada, mas também aprendendo que pode responder batendo. Há várias consequências: retraimento, dificuldade de aprendizado e baixa autoestima.

ZH – Adversários do projeto de lei argumentam que ele interfere em uma questão de foro íntimo.
Zuma – Essa argumentação é estranha, a mesma que surgiu em oposição à Lei Maria da Penha. A Constituição e o ECA dizem que a responsabilidade pelo desenvolvimento das crianças não é só do pai e da mãe, mas de todos. Se há violência, não existe espaço privado.
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Reportagem Itamar Melo
Fonte: ZH on line, 01/10/2011