quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pela liberdade e pela solidão

 Reprodução / Reprodução

Sara Maitland deixou tudo para unir-se a seu grande amor - o silêncio -, mudando-se de Londres para uma cabana numa planície remota da Escócia e com quilômetros de vistas para o nada. A autora inglesa, que vive em Galloway, passou antes por longos períodos de introspecção e solitude a fim de pesquisar e escrever "The Book of Silence" (Granta Books), isolando-se em diferentes regiões do mundo, dos vales verdes no interior da Inglaterra às tempestuosas colinas escocesas ou o deserto do Sinai. A jornada culminou num profundo relato sobre a história cultural do silêncio, no qual trata, com delicadeza e paixão, das dimensões religiosa, mística, artística e psicanalítica do assunto. É um livro delicioso para quem deseja conhecer o que a literatura, a poesia e a ciência registram sobre o poder da quietude.
Casada por 20 anos com um pastor anglicano, de quem se divorciou nos anos 1990, a católica praticante, socialista e feminista Sara faz no livro relato autobiográfico para explicar como surgiu o fascínio pelo silêncio. Criada numa ruidosa família de seis irmãos, na qual todos falavam alto e ao mesmo tempo e o recolhimento individual simplesmente não era permitido, ela conta como se tornou escritora e foi atraída pela alegria da liberdade e da solidão quando seu casamento já estava desmoronando, no fim dos anos 80.
"Em nossa cultura obcecada pelo barulho é muito fácil esquecer quantas das maiores forças das quais dependemos são silenciosas - gravidade, eletricidade, luz, marés, o não visto e não ouvido girar do cosmos. A terra gira, e gira rapidamente. Gira ao redor de seu eixo a cerca de 1.700 quilômetros por hora (no Equador); ela orbita ao redor do Sol a 107.218 quilômetros por hora. E todo o sistema solar gira através da galáxia a velocidades que eu mal ouso pensar. A atmosfera da terra também gira com eles, e é por isso que não sentimos o girar. Tudo acontece silenciosamente", escreve Sara.
Ela não respondeu aos pedidos de entrevista do Valor. Seu assessor na Granta gentilmente disse que tentaria outra vez contatar a escritora, mas possivelmente não haveria resposta, já que ela permanecia "desconectada, em seu lugar de isolamento". Mas em seu site (www.saramaitland.com), o leitor é informado de que, no lugar onde mora com seu border terrier Zoe, tendo por vizinho só um bando de corujas, ela "escreve, ora e é feliz". Um conflito grave, contudo, tem tirado a sua paz: a notícia de que uma usina de energia eólica deve ser instalada nas proximidades, para tirar proveito da força dos ventos uivantes, uma das poucas sinfonias que fazem parte da intimidade de Sara. 
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Reportagem Por Marília de Camargo César | De São Paulo
Fonte: Valor Econômico on line, 04/06/2012

Uma vida moldada pela história


 Pat Carter/AP
A vida de Juan Gabriel Vásquez, assim como a de seus personagens literários, está condicionada pelos grandes acontecimentos históricos. Nascido em Bogotá em 1973, o escritor viveu de perto o período de extrema violência causada pelo narcotráfico nos anos 1980 e começo dos 1990 na Colômbia e acabou deixando o país por isso. Agora, após 16 anos na Europa, Vásquez se prepara para voltar. Antes, ele visita o Brasil para participar da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e lançar o livro "A História Secreta de Costaguana" (L&PM). De Barcelona, o escritor conversou por telefone com o Valor.

Valor: Você deixou a Colômbia em 1996, passou pela França, esteve um tempo na Bélgica e 12 anos na Espanha. Como vai ser voltar depois de tanto tempo?
Juan Gabriel Vásquez: Vai ser estranho. É uma decisão que não é só minha, tem a ver com questões pessoais da minha mulher. Vai ser uma mudança importante. Eu sempre me senti bem na condição de estrangeiro. É cômodo para mim, me sinto bem morando em um lugar que não é o meu. É algo que me dá tranquilidade para fazer e dizer coisas que talvez eu não faria ou diria no país. Agora não sei como será. Tenho pensando bastante nisso.

Valor: Você sempre escreveu sobre a Colômbia estando fora. E agora, como vai ser?
Vásquez: O romance que eu acabo de começar ainda acontece na Colômbia, mas já tenho em mente um seguinte que fala de Barcelona, a história acontece em grande parte aqui. De modo que parece que estou seguindo esse roteiro: ir dos lugares para começar a falar deles.

Valor: A mesa em que o você está na Flip é sobre história e ficção. Parece bem acertada, porque nos seus livros há um tema constante: como os grandes acontecimentos históricos afetam a vida das pessoas "comuns".
Vásquez: Já no meu primeiro livro eu comecei a me obcecar com essa ideia de que a vida pública sempre acaba se metendo em nossas vidas privadas, condicionando-a, dando-lhe forma. Digamos que esse lugar onde a História com maiúscula se encontra com nossas pequenas histórias íntimas me interessa muito. Explorar o que acontece aí, como acontece, como a história pública molda nossas vidas, é o assunto para o qual dediquei três livros inteiros. Nos dois primeiros ["Os Informantes", de 2004, e "A História Secreta de Costaguana", de 2007] eu tentava averiguar quais os eventos que, desde um ponto de vista histórico, haviam me afetado. Nós somos resultados de um processo que nos transcende, que é maior que nós. No terceiro livro ["El Ruído de las Cosas al Caer", de 2011, ainda inédito no Brasil] percebi que as marcas que essa experiência na Colômbia me deixou estavam em nível mais íntimo. Queria saber como era isso. Não de um ponto de vista da História, mas da memória. O que aconteceu? No que me afetou ter nascido nessa época de violência extrema? Eram essas as minhas perguntas.

Valor: É muito forte dizer que a História também condicionou a sua vida, a decisão de ir embora da Colômbia...
Vásquez: Não é forte, é bem certo isso. E escrever esse último livro foi, em boa parte, um exercício de memória, de tentar pensar em como isso me marcou. Percebi, com surpresa, que as pessoas dessa geração compartilham essa ideia do medo, de que você não pode controlar sua vida, e de ter que conviver com a incerteza. Só que naquele momento não tínhamos isso claro. Desenvolvemos estratégias emocionais e mentais para conviver com a ameaça e o medo. Escrever esse romance foi, sobretudo, trazer isso à tona, tirar as proteções mentais e ver como isso realmente nos havia afetado.

Valor: Seria possível escrever uma novela como essa estando na Colômbia?
Vásquez: Eu também me pergunto isso. Minha teoria é de que não teria sido possível. Demorei muito não só para escrever sobre isso, mas para pensar nisso. Quando saí da Colômbia esses assuntos não estavam no meu radar de interesse. O gênero narco na literatura é algo que eu sempre desprezei. O primeiro surpreendido quando comecei a escrever uma história que tocava o mundo do narcotráfico e do terrorismo fui eu mesmo. Acho que a possibilidade de falar sobre isso veio por eu ter me separado desse universo. Eu saí da Colômbia em 1996 com uma sensação de repulsa, uma necessidade de deixar as coisas para trás e esquecer. E foi só a distância que permitiu que eu recuperasse isso.

Valor: Você já esteve no Brasil? Já havia escutado falar da Flip?
Vásquez: Só estive uma vez e em uma situação pitoresca. Era capitão do time de futebol do meu colégio, em um campeonato latino-americano que aconteceu no Rio. Eu tinha 16 anos. Foi minha única visita: fui para jogar futebol. O que me parece muito bom, porque o futebol é muito importante. Ficamos em terceiro lugar e quem me entregou a medalha e o troféu foi o Zico, que era um grande ídolo da minha infância. No ano retrasado havia uma possibilidade de que me convidassem para a Flip, mas eu preferi guardar esse convite para quando meus livros tivessem sido lançados no Brasil, senão não teria muito sentido. É uma feira fantástica com bons amigos.

Valor: Por que demoraram tanto para publicar no Brasil seus livros? "História Secreta" é de 2007 e vai sair agora. E seu último livro nem tem previsão para ser lançado.
Vásquez: No sentido inverso também a coisa é lenta. É uma situação bastante ridícula contra a qual creio que escritores e jornalistas deveríamos nos rebelar. Na história do século XX houve, sempre, uma falta de comunicação total entre Brasil e a América hispânica que me parece completamente absurda. Acho que já é hora de quebrar essa parede. Quanto à tradução, não demoraram muito mais do que em outras línguas. O que acontece é que fazendo parte do mesmo continente e de uma sensibilidade muito similar, parece absurdo que aconteça isso. E também que em espanhol se demora tanto para que escritores como João Paulo Cuenca sejam traduzidos.

Valor: Você tem curiosidade para saber como fica um livro seu traduzido? Costuma olhar isso?
Vásquez: O que me interessa é saber se o tradutor entendeu a música. Meus livros têm tons muito diferente entre eles. E o tom, a música dessa linguagem, é que me interessa. E numa língua latina como o português eu posso ver se o tradutor pegou isso. Ainda que eu não entenda o significado das palavras, o som e o ritmo se percebe. E o que faço é de não me preocupar muito como fica a tradução em hebreu ou chinês porque aí sim eu não tenho nada que fazer.

Valor: Parece que o fato de ser bastante lido incomoda algumas pessoas na Colômbia. Você tem muitos inimigos lá?
Vásquez: Quando meus livros começaram a ter certo reconhecimento eu experimentei na carne isso que o Neruda dizia: para cada elogio receberás dois insultos. Às vezes a proporção é maior. Isso se agrava porque tenho uma coluna política em um jornal colombiano e gosto de utilizar esse espaço para denunciar os desmandos da Igreja, defender o aborto e a legalização das drogas, por exemplo. São temas muito espinhosos e a Colômbia é um país muito conservador. Isso também gera inimigos, mas não só não me preocupa, senão acho que demonstra que algo de valor estou fazendo para receber tantos ataques.

Valor: E ter ganho um prêmio importante [Alfaguara em 2011], muda alguma coisa? Gera uma cobrança maior?
Vásquez: Não vejo assim. Primeiro porque, pelo menos no meu país, nem os elogios nem os ataques são feitos pelas razões corretas. A literatura nunca tem a ver com isso. Segundo porque meu projeto literário sempre esteve muito claro na minha cabeça e um prêmio não vai mudar isso. Sei qual tipo de livros tenho que escrever. O prêmio é um acidente e a ampliação do público por causa dele também. Não acho e nem espero que meus próximos livros tenham tantos leitores e não vou escrever para que isso aconteça. Escrevo por razões pessoais e encontrarei os leitores interessados.
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Reportagem Por Ricardo Viel | Para o Valor, de Madri
Fonte: Valor Econômico on line, 04/06/2012

Teologia pública

Johan Konings*

A fé em Deus não é propriedade particular, mas riqueza a ser partilhada (Foto: Divulgação)
 
Já me disseram que alguns dos meus artigos caberiam melhor na rubrica ‘religião’. Não concordo.  Minhas reflexões sobre o ser cristão devem ter um lugar no espaço público, ao lado da economia e do futebol. Ainda que Deus me seja mais íntimo do que meu próprio íntimo, como disse Agostinho, o lugar onde ele manifesta sua presença é o mundo que eu habito e que me habita –e que me dá as palavras do meu dizer.

Deus não é um passageiro clandestino, confinado no espaço sagrado. A fé em Deus não é propriedade particular, mas riqueza a ser partilhada. A teologia, explicação de nossa percepção de Deus e de nossa fé, não deve ficar reservada a correligionários usando jargão inacessível. Não é só para padres e assemelhados, enquanto para os fiéis comuns bastaria o Catecismo. Aliás, o próprio Catecismo se apresenta na linguagem da teologia ensinada nos seminários... Melhor seria se fosse a da teologia pública!

Convém que a explicação da fé cristã seja oferecida no espaço público, em diálogo com os interlocutores honestos e sinceros que aí se encontrarem, crentes ou não. Em primeiro lugar, porque aquilo que não se pode explicar aos outros ‘animais racionais’ talvez não seja racional. Por racional não entendemos o raciocínio formal, silogístico, mas aquilo que razoavelmente se pode conversar com as pessoas normais, mostrando que faz sentido e não é absurdo.

Uma segunda razão para o diálogo público da teologia é que esta se insere numa tradição cultural, dela se alimenta e, por sua vez, a enriquece. Os autores bíblicos não recearam acolher, dos povos vizinhos, determinadas imagens, símbolos e conceitos que traduzissem a própria percepção de Deus –adaptando-os e marcando as devidas diferenças. Isso lhes permitia dialogar com seus semelhantes que encontravam no intercâmbio cultural, comercial etc. O grande exemplo de ‘inserção cultural’ foi a teologia dos primeiros cristãos, que traduziram os conceitos e imagens bíblicos, enraizados na cultura judaica, para o mundo grego e latino, contribuindo decisivamente para a cultura da Ásia ocidental e da Europa.

Uma terceira razão é que a teologia pode apontar para todos os dotados de razão os limites dessa mesma razão, e isso faz bem. É importante poder dizer, em termos que as pessoas em geral entendem, que nossa percepção humana não é a última palavra (nem a primeira). A teologia traduz para a compreensão universal almejada pela racionalidade –e consciente dos limites desta–, a percepção subjetiva da transcendência, a poesia e a mística, sem as quais o ser humano, crente ou não, se torna inumano. 

Uma quarta razão é que a teologia fala de coisas práticas que devem ser partilhadas com os demais sujeitos no espaço humano e cidadão. Por exemplo, a questão operária. Toda a tradição bíblica judaica e cristã insiste no tratamento justo do trabalhador. “No próprio dia darás ao trabalhador seu salário, antes do pôr do sol” (Deuteronômio 24,15). Isso não pode ficar escondido no debate público em torno do trabalho. Outro exemplo: o cuidado do meio ambiente. A representação bíblica de Adão como jardineiro e cuidador do jardim do Éden (Gênesis 2,15) contém uma mensagem para o atual debate. O mesmo se diga da unidade de homem e mulher, unidos em amor constante, que se desprende de Gênesis 2,23-24. O crente não pode guardar suas convicções práticas para si, a não ser que se encapsule numa sociedade à parte. O que, hoje em dia, seria impossível, pois há muito gente se movimentando no mesmo espaço...

Na mesma linha, em vista inclusive da atual histeria em torno do ‘Estado laico’ –que já espetei e tornarei a denunciar–, não se pode excluir do espaço público, nem da discussão política, compreensões da vida humana e opções práticas inspiradas pela convicção religiosa. Esta é tão humana quanto uma ideologia política. Desde que tal convicção seja argumentada em contexto e modo democráticos.

Finalmente, importa contemplar o diálogo entre as diversas religiões e mundivisões, mesmo ateias ou agnósticas. Mas isso exige uma explanação mais ampla, que deixo para outra oportunidade.

Cristãos menos acostumados a esta abordagem talvez temam que tal teologia saia do âmbito da fé e se torne ‘secularizada’. Isso seria perigoso somente se ‘secular’ significasse alheio a Deus. Mas se se entende por secularidade o que diz respeito à realidade do mundo (‘saeculum’ em latim significa mundo), é um grande avanço para a fé, pois torna Deus mais presente no mundo que ele mesmo fez e faz surgir. A ‘encarnação’ de Deus é uma doutrina fundamental da fé cristã. Por isso, o mundo humano deve ser o mundo em que a presença e ação de Deus são ‘levados à fala’. Entre pessoas respeitosas, deve ser tão natural falar de Deus e de sua fé como falar de futebol (o que também só se deve fazer com pessoas que tenham respeito...).
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*  Johan Konings nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colegio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Foi professor de exegese bíblica na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (1972-82) e na do Rio de Janeiro (1984). Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, onde recebeu o título de Professor Emérito em 2011. Participou da fundação da Escola Superior Dom Helder Câmara. 
Fonte: http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=2886

O Prazer e a Felicidade

Arnaldo Jabor*
Eu escrevia um artigo sobre a felicidade como obrigação do mercado, quando li o texto de Contardo Calligaris na Folha, que citava uma pesquisa sobre o tema, chamada "Procurar a felicidade pode fazer as pessoas felizes?".
Diz um trecho da pesquisa: "Espera-se que aqueles que buscam a felicidade alcancem resultados benéficos. Não necessariamente (diz a pesquisa) porque quanto mais valorizam a felicidade, mais poderão se decepcionar."
Eu penso: que felicidade? A de ontem ou a de hoje?
Antigamente, a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros; a felicidade demandava "sacrifícios".
Hoje, o mercado demanda uma felicidade dinâmica e incessante, como uma "fast-food" da alma. O mundo veloz da internet, do celular, do mercado financeiro nos obriga a uma gincana contra a morte ou velhice. Ser deprimido não é mais "comercial". É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja.
A felicidade hoje é "não" ver. Felicidade é uma lista de negações. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os mendigos na rua, não ter coração. A felicidade é ter bom funcionamento. Há décadas, McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador.
Felicidade é ser desejado, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo.
Sem a promessa de eternidade, tudo vira uma aventura. Em vez da felicidade, temos o gozo rápido do sexo em vez do longo sofrimento gozoso do amor.
O amor hoje é o cultivo da "intensidade" contra a "eternidade". Aí, a dor vem como prazer, a saudade como excitação, o instante como eterno.

 "O prazer não quer ter fim.
 A felicidade é analógica e 
o prazer digital."

Por isso, perdemos esperanças de plenitude e celebramos sonhos efêmeros. Bem - dirão vocês - resta-nos o amor... Mas, onde anda hoje em dia, esta pulsão chamada "amor"? O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem "olhos de ressaca", nem o formicida com guaraná. É o fim do "happy end". Mas, mesmo assim, continuamos ansiando por uma felicidade impalpável.
Por isso, em vez da felicidade, cresce o império do prazer.
Mas o prazer pode nos dar culpa e a culpa pode dar prazer. Os masoquistas sabem disso: todo prazer será castigado. O prazer deixa muito a desejar, o prazer nos deixa insatisfeitos porque acaba logo. O prazer sempre demanda mais prazer, orgias mais perversas, drogas mais alucinantes. O prazer não quer ter fim. A felicidade é analógica e o prazer digital. A felicidade ficou chata, tem de ser administrada, e é feita também de sofrimentos e dúvidas. O prazer não; pega, mata e come. As caras das revistas ostentam uma gargalhada eterna. O prazer quer botar o mundo para dentro, sugar, comer a vida como um pudim, pela boca, por todos os buracos. Prazer é "cool". Felicidade é careta.
Mas o prazer (infelizmente) precisa da proibição. Antigamente, tínhamos pecados perfumando os prazeres, mas hoje ficou tudo no instante pleno, principalmente no sexo, para substituir frustrações políticas e sociais.
Nosso prazer anda muito exclusivista; o chamado "outro" não passa de um pretexto para nosso narcisismo masturbatório.
Aliás, o vício solitário é bem seguro. A punheta é onisciente e gira em todas as direções, é um caleidoscópio de mulheres ou de homens. Não me refiro à mera "coça na miúda", nem no "estrangulamento do pele-vermelha", mas à masturbação na alma, ao narcisismo de seres perdidos num deserto de possibilidades sem-fim. Em meio a tanta liberdade, nunca fomos tão solitários. A masturbação existe até no grande amor romântico, onde os dois narcisismos se beijam, se arranham, mas não se comunicam. Cada vez mais o parcial, o fortuito é gozoso. Só o parcial nos excita. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que nunca alcançamos.

 "A matéria nos sonha com tanta perfeição
 que pensamos que temos espírito.
O prazer da matéria é paciente. 
Só sentiremos um grande prazer 
quando não estivermos 
mais presentes."

Não há mais "todo"; só partes. Não se chega a lugar nenhum porque não há onde chegar. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a falta de sentido de tudo. Usamos uma máscara sorridente, um disfarce para nos proteger desse abismo. Mas esse abismo é nossa salvação. A aceitação do incompleto é um chamado à vida. Temos de ser felizes sem esperança.
Mas aí, dirá o leitor mais sábio e, talvez, mais velho: "Sim, mas e a contemplação calma da natureza, os lagos dourados, as flores e as crianças correndo, e as auroras, os céus estrelados? E a arte? Isso não é prazer?" Sim, sim, mas por trás dessa calma contemplação de auroras e belezas, florestas e oceanos, há um ensaio para o fim, há o preparo para o maior prazer de todos, há a saudade oculta de algo que está mais além da vida, ou antes dela. Entre flores e lagos dourados contemplamos nosso fim. É uma saudade não sabemos de quê...
É um prazer além do prazer (v. Freud), é o prazer da matéria. A matéria quer paz. Nós somos um transtorno para a matéria que quer voltar a seu silêncio. A vida e o prazer enchem o saco da matéria que é obrigada a nos suportar. A matéria olha nossos arroubos de vida e espera pacientemente que acabe a valentia para voltarmos ao prado, à grama, à terra, ao sossego da tumba. Mais além do princípio do prazer, está a invencível vontade de morrer. Somos sonhados pela matéria da qual somos apenas um tremor, um despautério, uma agitação banal. A matéria nos sonha com tanta perfeição que pensamos que temos espírito.
O prazer da matéria é paciente. Só sentiremos um grande prazer quando não estivermos mais presentes.
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* Jornalista. Cineasta. Escritor. Colunista do Estadão.
Fonte: Estadão on line, 04/06/2012
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O Zé e o BIS

Antonio Delfim Netto*

 
Meu compadre Zé, sujeito arretado, trabalhador honesto e temente a Deus, ganha com seu trabalho duro cerca de R$ 1.200 por mês. Pagava R$ 200 de aluguel. Cuidadoso, não tinha qualquer dívida. Não constava nas estatísticas dos bancos e muito menos na de devedores duvidosos.
Foi tentado pelo Diabo. Comprou uma residência no programa Minha Casa, Minha Vida e hoje paga R$ 200 de prestação. De acordo com a mistificação estatística a que todos somos sujeitos, o Zé está agora altamente endividado! Num fechar de olhos, passou de virtuoso não devedor a um suspeito inadimplente potencial que deve 20% da sua renda! Pobre do Zé. Quem mandou ser ambicioso!
Isso não é uma parábola. Há milhares de Zés "exagerando" no crédito porque essa é a sua "riqueza"! Isso impressionou alguns economistas locais e acabou sendo ouvido em Basileia. Foi expresso no relatório anual do Bank of International Settlements, o famoso BIS.
O assunto causou comoção. Os economistas do BIS contam-se entre os mais bem apetrechados do mundo. E justamente. Sempre mantiveram distância da vertigem cientificista. De fato, em 2005/2006, seus trabalhos deixavam claro que a aparente calmaria que o Fed atribuía às virtudes da sua política monetária escondia perigos insuspeitados.
Eles e mais meia dúzia de bons profissionais alertaram para a crise que se construía num sistema financeiro cuidadosamente desregulado em nome de uma suposta "ciência". É preciso, portanto, ouvi-los quando falam.
O aumento do endividamento das famílias no Brasil é mencionado ligeiramente nas págs. 26 a 30 do relatório, sempre com muito cuidado. Não há qualquer observação com conotação negativa. Aliás, a comparação das taxas de crescimento da relação crédito/PIB é tratada corretamente: "O rápido crescimento do crédito não é necessariamente ruim. Os sistemas financeiros de alguns países emergentes ainda são relativamente subdesenvolvidos e muitas famílias e empresas estão fora deles. Assim, o rápido crescimento do crédito pode refletir tanto um desenvolvimento financeiro quanto um excesso" (pág. 28).
Como deveria ser óbvio, o aumento da relação crédito/PIB de 25% para 50% em poucos anos no Brasil não pode e não deve ser considerado um "excesso", porque ainda temos uma das menores bancarizações do mundo. E como aumentá-la senão fazendo o crédito crescer mais do que o PIB?
Houve, seguramente, algum excesso no setor de automóveis que foi agravado pela imbecilidade que atingiu o sistema de leasing. O que ninguém falou é que na pág. 30 do relatório (gráfico III.7) o BIS mostra a higidez do sistema bancário brasileiro.
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* ANTONIO DELFIM NETTO é economista. Colunista da Folha.
contatodelfimnetto@terra.com.br
Fonte: Folha on line, 04/06/2012
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Questão ambiental e social

Frei Betto*


Os países ricos e emergentes consomem excessivamente bens naturais, como água e energia (Foto: Divulgação)
 
A questão ambiental é também uma questão social. A conclusão é da Royal Society, a mais conceituada academia científica do Reino Unido.

Em dois anos de pesquisas ela constatou que não basta falar em preservação ambiental, energias renováveis e desaquecimento global, sem tocar no tendão de Aquiles apontado pelo velho Marx no século 19: a desigualdade social.

Os países ricos e emergentes consomem excessivamente bens naturais, como água e energia. E o fazem através de processos extrativos que não levam em conta danos ambientais e efeitos sobre a população local, como é o caso da construção da usina de Belo Monte, no Brasil, ou o uso de energia nuclear mundo afora.

Aprendemos na escola que o nosso corpo reflete a composição do planeta: 70% de água. Da água do mundo, apenas 2,5% são potáveis. Dessa parcela, 69% estão congelados nos pólos da Terra, e 30% que se acham sob o solo (aquíferos) são ainda inacessíveis à atual tecnologia. O resto – 140 mil quilômetros cúbicos – encontra-se em lagos, rios etc.

Um estadunidense consome 50 vezes mais água que um indiano. E 500 vezes mais energia. Assim como já se iniciou a guerra fria por alimentos, com o uso de poderosos mísseis como os transgênicos, em breve teremos a guerra pela água. Prevê-se que, em 2025, 1,8 bilhão de pessoas padecerão de escassez de água.

A carência de água deve-se sobretudo às mudanças climáticas. Devido ao consumismo, países desenvolvidos e emergentes – cerca de 20 ao todo - emitem 50 vezes mais gases estufa que países pobres. O uso excessivo de agrotóxicos provoca a erosão do solo e o desmatamento prolonga os períodos de estiagem, estimulando movimentos migratórios e acentuando a pobreza.

O planeta ganha, a cada ano, 80 milhões de pessoas, apesar da queda na taxa de fertilidade. Para o neoliberalismo, 80 milhões de consumistas (não confundir com consumidores) em potencial.

Entre 1960 e 2007 a fabricação de novos artefatos tecnológicos – cada vez mais descartáveis – quadruplicou a produção de cobre e chumbo, e aumentou em 77 vezes a exploração de minerais associados à alta tecnologia, como tântalo e nióbio.

A Rio+20, tanto na reunião dos chefes de Estado quanto na Cúpula dos Povos, deveria ter debatido como o consumismo desenfreado e a desigualdade de renda entre os povos afetam o equilíbrio ambiental. Considerar poluição e pobreza como fatores divorciados é adotar uma postura míope, equivocada, frente à degradação da Terra e a ameaça de escassez de seus recursos naturais.
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* Escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "Batismo de Sangue", e "A Mosca Azul", entre outros. 
Fonte:  http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=2883

No rio da incerteza

Vânia de Morais*

As incertezas movem o homem em suas tentativas de compreender o mundo em que vive(Foto: Divulgação)
“Suspeitar é negar-se à certeza.”
Bartolomeu Campos de Queirós

Desde muito cedo andei buscando pela vida algum caminho que me levasse até onde morassem as certezas. Busquei nas religiões, nas palavras dos mais vividos, nos livros. Optei pela ciência e empilhei mais e mais livros nas prateleiras dos meus pensamentos. No entanto, a cada passo nesta longa busca, me deparo cada vez mais com a incerteza.

Hoje, tenho uma relação ambivalente com as certezas ou, se preferirem, com as verdades. Às vezes ainda as desejo intensamente como forma de aquietar o meu espírito, de dar-lhe o descanso de perguntar. Mas, na maior parte do tempo, convivo com as incertezas e suspeito das verdades.

As verdades disponíveis, geradas pela cultura, pela sociedade, pelas religiões, são parciais e estão comprometidas por interesses econômicos e ideológicos. Ao mesmo tempo, não podemos prescindir dos valores compartilhados, pois sem eles não haveria ética possível. Vivemos nos equilibrando na corda bamba de acreditar duvidando.

Apego às verdades

O apego de cada um às próprias verdades é a maneira mais comum de se lidar com as incertezas, muitas delas avassaladoras. Para a maioria de nós, é difícil considerá-las sem que se abra no peito um vão sem fim. As incertezas sobre a duração e os rumos da vida dos que amamos, sobre os resultados dos nossos esforços, as dúvidas sobre o amor, o desconhecido final da vida de cada um são temas angustiantes que pedem respostas, às quais não se pode obter, a não ser recorrendo ao campo da fé.

Mesmo sem ter apego a alguma religião, para acudir às suas dúvidas, muitos recorrem à crença no destino, ideia que nos oferece uma resposta simples. Mas essa é uma crença provisória, pois, quando o desejo se apresenta, as pessoas lutam pelo que querem e não esperam que o destino providencie sua realização. Ao contrário, frequentemente amoldam a convicção no destino ao desejo, afirmando que este é uma manifestação daquele.

Não... Não sabemos nada sobre o futuro, nem sobre a morte, nem sobre o que se passa nos sentimentos e pensamentos de outra pessoa, nem mesmo sobre os mecanismos das nossas próprias engrenagens, que nos surpreendem com sonhos, imagens e pensamentos que independem da nossa vontade. Não sabemos quase nada e vivemos pisando num terreno novo a cada instante.

É claro que isso é assustador e algumas pessoas criam estratégias sofisticadas na tentativa de controlar a vida, em vez de serem levadas na corrente viva do tempo. Mas, quanto mais tentam, menos conseguem. Nos extremos, encontramos pessoas que ritualizam suas vidas, obcecadas por controlar ações e pensamentos e por manter firmes as rédeas do tempo nas mãos. Tudo em vão. A vida faz emergir, a cada instante, o novo, e não há como impedir.

O grande desafio

Eis o grande desafio que temos pela frente todos os dias: o novo. Temos que encará-lo e aprender, com o correr dos dias, novas maneiras de interagir com ele. Nossas fórmulas pré-estabelecidas podem não ser úteis ao lidar com o que surge e por isso é bom que não nos apeguemos a elas.

As incertezas movem o homem em suas tentativas de compreender o mundo em que vive. Como resultado da busca, temos muitas respostas dadas pelas ciências, mas elas não respondem à pergunta sobre como devemos viver.

Essa resposta precisa ser recriada a cada dia e, para isso, a aprendizagem deve ser incessante. Aprender a perceber o empuxo da correnteza, a se entregar boiando nas águas dos dias, a nadar a braçadas firmes, a mergulhar e conhecer as profundezas, a invocar as forças da natureza, a apreciar a paisagem.

Observar a vida – e observar-se na vida – é fundamental para que a tomemos nas mãos. Temos que conviver diariamente com as incertezas. A disposição de refletir e de discernir nos dá o poder de escolher a direção e de dar sentido às nossas experiências. Sem isso, seríamos carregados, sem escolha, pelas correntes. E de nada serviria nos agarrar à margem e negar-nos à força do rio. Não há meio de controlar as águas. Ninguém pode impedir o fim da viagem.
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* Vânia de Morais Psicóloga, doutoranda em Linguística (PUC Minas, bolsista pela Fapemig), mestre em Ciências da Saúde (UFMG), pesquisadora em cognição e linguagem. Concentra seus estudos nas questões relativas à linguagem em psicoterapia. Professora em cursos de capacitação de psicoterapeutas e de Especialização em Terapias cognitivas da UFMG. 
Fonte:  http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=2884

terça-feira, 3 de julho de 2012

Me dê motivo

Ninguém mais precisa dar explicação para pedir o divórcio, cuja lei completa 35 anos. Mas não é bom saber o que faz uma união acabar? 
Por que um casal se separa? Porque pode, diz a advogada Maria Berenice Dias, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família. Antes da lei do divórcio, que completa 35 anos, também podia, mas era difícil.
Nas últimas décadas, quase tudo mudou na dinâmica do casamento. Já as razões pelas quais ele acaba são as mesmas, segundo advogados especializados em divórcio ouvidos pela reportagem.
Os motivos campeões são, não necessariamente nesta ordem: traição, ciúme, dinheiro e até a tanto genérica quanto válida "incompatibilidade de gênios".
São as razões de sempre, mas atualizadas. Veja a questão da traição, por exemplo.
"Quase todos os adultérios que chegam ao meu escritório foram comprovados por e-mail ou mensagem de texto", afirma Priscila Corrêa da Fonseca, professora da USP apelidada de "Priscila, a rainha do divórcio" pelos alunos de direito.
"O traído descobre a senha, muitas vezes contratando hackers, e depois diz que viu no computador compartilhado pela família", diz ela.
No Brasil, não há dados sobre as separações motivadas por contatos virtuais, uma vez que, desde 2002, os processos deixaram de conter o motivo do rompimento.

REDE SOCIAL
No Reino Unido, um levantamento com base em 5.000 petições de divórcio, feito por uma empresa, constatou que a palavra "Facebook" aparecia em 33% dos processos movidos em 2011 por "conduta inapropriada" do parceiro.
Para Fonseca, a internet inflacionou o número de traições e diversificou as modalidades: "Adultério antigamente dava o maior trabalho. Era só o telefone fixo no meio da sala de casa. Hoje tem celular e gente conversando com o amante no chat enquanto o parceiro oficial está bem ao lado".
Foi pelo celular que o engenheiro Felipe Brito, 32, descobriu que a mulher conversava com um colega de trabalho que ela dizia mal conhecer: "O telefone tinha senha, mas só bloqueava depois de cinco minutos sem uso. Eu estava desconfiado de tanto apego ao aparelho, aproveitei uma ida dela ao banheiro para confirmar o que já sabia". Apesar da mágoa, o divórcio foi consensual.
Para o advogado Celso Cintra Mori, a possibilidade de manter conversas privadas de forma discreta e o contato constante com pessoas do passado em redes sociais fez gente sem o "perfil do pulador de cerca" se aventurar.
"A internet ainda é um limbo confuso e as pessoas criam maneiras psicologicamente aceitáveis para justificar seus comportamentos na rede. Ao deitar no travesseiro, todo mundo sabe o que é uma traição e ela certamente inclui conversas dúbias por e-mail."

FALTA DE AMOR
Antes da lei do divórcio, de 1977, o caminho para quem estava insatisfeito era o desquite, que envolvia constrangimento social e impedia a formalização de outra união.
A situação atual permite oficializar divórcios consensuais no mesmo dia, é quase como casar em Las Vegas.
Por "falta de amor e respeito dentro de casa", a farmacêutica Eugênia Soares, 62, decidiu se separar, aos 22. "Quem se separava na época era tido como leproso. Precisei mudar de bairro para conseguir namorado e comigo foi leve, por não ter filhos."
Foi só em 1977 que ela conseguiu oficializar o segundo casamento, feito cinco anos depois do desquite: "Sou casada há 36 anos, mas diziam que éramos 'amigados'".

CRIAÇÃO DOS FILHOS
Dez entre dez advogados citam divergências sobre como educar os filhos entre as razões mais comuns para um casal se divorciar.
Esse motivo, por sinal, talvez explique o recém-anunciado fim da união entre Tom Cruise e Katie Holmes.Ela seria contra a iniciação da filha Suri, 6, na Cientologia, religião seguida pelo ator.
"A hora de escolher a primeira escola dos filhos é sempre um momento de provação para o casal. É quando muitos percebem incompatibilidade de expectativas", diz a psiquiatra Carmita Abdo.
Esse é o momento em que divergências aparentemente pequenas mostram seu verdadeiro tamanho: "Se um quer colocar a criança em uma escola liberal e o outro em uma escola religiosa, já dá para ver que esse casal terá um grande desafio para se entender em vários outros aspectos da criação".
O advogado Luiz Kignel dava uma palestra sobre direito de família quando um casal grávido de cinco meses perguntou se era cedo demais para discutir a educação da criança. "Vocês estão seis meses atrasados", respondeu ele. É que, em seu escritório, disputas envolvendo a criação dos filhos têm se tornado constantes.
"Casamento hoje não é para a vida toda, mas filho ainda é; as pessoas deixam para discutir essas coisas quando o problema já está instaurado", afirma ele.
Para Kignel, quem tem opiniões muito firmes sobre educação deve ser mais seletivo na escolha do parceiro. 

Traição, competição, chatice 

'Precisei mudar de nome três vezes e também jogar fora muita fotografia'
"Eu me casei bem umas cinco vezes -três no papel.
Meu primeiro casamento foi aos 27 anos. Separei-me aos 30 anos porque me apaixonei por um professor de inglês que trabalhava na mesma escola que eu. Ficamos juntos até meus 42 anos, quando o casamento esfriou e achamos melhor procurar o divórcio. Tive duas filhas com ele.
Aos 44 anos, casei de novo, com um primo de segundo grau. Depois de dois anos, ele me trocou por uma namorada da adolescência.
Então teve outro professor, dessa vez de espanhol. Ficamos juntos entre os meus 47 e 49 anos. Terminamos porque a convivência estava ruim, ele criticava meu trabalho, se achava dono da verdade. Um mês depois ele já estava com outra, não sei se fui traída.
Aos 50 anos, pensei em encerrar as atividades, mas casei de novo, com um advogado. Durou três anos, ele era racional demais, não tinha como dar certo.
Acho que casar tantas vezes me deixou mais pobre. Precisei mudar de nome três vezes e também jogar fora muita fotografia. Homem não aguenta a gente ter foto do ex enfiada no armário."
Maria Helena Dias, 55, professora de espanhol 


Casamento perdeu a 'carência'

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Desde julho de 2010, quando foi promulgada a nova lei do divórcio, a pessoa pode se casar num dia e se divorciar no outro. Antes, a separação só era permitida um ano depois do casamento.
A nova lei também acabou com a obrigatoriedade da separação judicial, processo que antecedia o divórcio e deixava tudo mais demorado.
A separação judicial acaba com os deveres de coabitação e fidelidade, mas não encerra o vínculo do casal. Antes de 2010, para se divorciar e poder se casar novamente, a pessoa precisava comprovar um ano de separação judicial ou dois anos de separação de fato.
Hoje, dá para pedir o divórcio de uma vez. Se for consensual e o casal estiver de acordo com a divisão de bens, não precisa nem de advogado, pode ser feito no cartório.
"O aumento recente do número de separações é fruto dessa legislação. Muitos casais estão apenas regularizando uma situação que já acontecia", diz o advogado Marco Antonio Barone Rabello.

CULPADO OU INOCENTE
Mais comuns antes da nova lei, os processos de separação judicial litigiosos, com disputa de guarda de filhos ou de bens, precisam tachar um dos cônjuges como o "culpado" da separação e descrever os motivos que levaram à dissolução da união.
Mas a questão é controversa: uma parte dos advogados e legisladores entende que a separação judicial não existe mais, portanto ninguém precisa apresentar motivos nem culpados para se divorciar. (NOELLY RUSSO)

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* Reportagem por  JULIANA CUNHA COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Fonte: Folha on line, 03/06/2012
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Uma defesa da hipocrisia

João Pereira Coutinho*
O fato de algo ser moralmente condenável não significa que deva ser legalmente proibido 

Ironias da vida: falamos com uma pessoa de tendências progressistas sobre a liberalização das drogas. Ela concorda: as políticas repressivas falharam. Só a liberalização diminui o tráfico.
E, além disso, cada um sabe de si na forma como usa e abusa da própria liberdade: quem sou eu para impor a terceiros os meus pontos de vista moralistas e repressivos?
Calma, camaradas. Tanta violência retórica não se justifica: já escrevi repetidas vezes que o meu "conservadorismo de costumes" só se aplica a matérias de vida ou morte.
A liberdade individual termina quando começa a liberdade dos outros? Deploro esse clichê.
Melhor dizer que a liberdade individual termina quando está em causa uma vida humana -a do próprio ou a de terceiros. Aborto, eutanásia, suicídio assistido, pena de morte- não contem comigo para a jornada.
Mas contem comigo para o resto. E o resto, lamento informar, inclui a prostituição também.
Sim, eu sei: idealmente, o amor não deveria estar à venda, embora seja sempre possível contar a piada de que a única diferença entre sexo pago e sexo grátis é que sexo grátis, normalmente, fica mais caro.
Aqui, o meu interlocutor progressista hesita. Se mudamos o gênero da palavra e escrevemos "interlocutora", o feminismo vem à tona e decide o assunto: a prostituição degrada as mulheres, alimenta o tráfico de seres humanos e deve ser reprimida pelas autoridades.
Um bom exemplo dessa atitude radical está na França. Leio nos jornais que o governo progressista de François Hollande tem um Ministério dos Direitos das Mulheres.
E a ministra, Najat Vallaud-Belkacem, quer acabar com a prostituição no país. A sra. Vallaud-Belkacem, manifestamente, nunca leu Maupassant ou Flaubert, escritores que construíram o melhor da literatura francesa no conforto dos bordéis.
Para a ministra, é preciso um plano de ação contra o negócio, desmantelando redes de tráfico e proxenetismo. Os clientes também serão duramente penalizados.
Perante essa deriva persecutória, só me resta dizer: "bonne chance, madame". Mas também acrescento que a ambição governamental será inútil e, além disso, abusiva.
Começa por ser abusiva porque o governo francês confunde tudo: tráfico de seres humanos com a decisão autônoma de alguém vender o corpo para fins sexuais.
As duas situações não habitam o mesmo plano moral. Traficar ou escravizar alguém é um crime contra a liberdade de terceiros. Vender o corpo para fins sexuais pode ser uma degradação da condição humana do sujeito -ou, para usar a linguagem kantiana, uma forma de sermos tratados como um meio, não como um fim.
Mas essa decisão, moralmente condenável, não constitui uma ameaça para ninguém. A minha vida e mesmo a minha liberdade não estão ameaçadas se a vizinha do lado gosta de receber cavalheiros ao serão.
Por outro lado, a ambição do governo francês será também inútil. A prostituição não é apenas a mais velha profissão do mundo. Como dizia Nelson Rodrigues, com sua insuperável sabedoria sobre a natureza humana, é também a mais velha vocação.
E nem todas as leis serão capazes de alterar a realidade: enquanto houver gente disposta a vender e a comprar sexo, haverá um mercado para o negócio.
A única diferença é que, em países que fizeram da proibição uma cruzada, esse mercado funciona na clandestinidade, desprotegendo ainda mais as mulheres que o Estado imagina proteger.
Nada disso significa, obviamente, que cabe ao Estado regular a atividade como se a prostituição fosse apenas mais um negócio entre vários. Ou, pior ainda, que o Estado pode legitimamente lucrar com ele, taxando os seus proventos. O Estado não deve ser um proxeneta coletivo.
Tolerar a prostituição significa apenas isso: tolerar. O fato de algo ser moralmente condenável não significa que deva ser legalmente proibido.
A hipocrisia, como dizia um francês ilustre, pode ser a homenagem que o vício presta à virtude. Mas, sem essa homenagem, as sociedades humanas seriam lugares inóspitos para habitar. 
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*Jornalista. Escritor, historiador e comentador e cientista político português. Professor da Universidade Católica Portuguesa
jpcoutinho@folha.com.br
Fonte: Folha on line, 03/06/2012
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Capacidades alheias

Jairo Marques*
 
Todos os dias, "peritos" barram pessoas usando suas próprias restrições na maneira de ver a vida 
Jamais imaginei que conseguisse pular naquele abismo. Tinha um medão, uma certa aflição do desconhecido. Era parado em uma barreira que botaram em mim de que seria impossível. Mas tomei um balde cheio de coragem e fui. Na real, fui empurrado rumo ao nada em uma espécie de cadeirinha acolchoada. A partir daquele momento, em um hotel-fazenda escondido no interior de São Paulo, em Socorro -nome providencial-, passei ao grupo dos "corajosos" e "capacitados" que saltam de tirolesa, no atrevimento de pensar que estão beliscando o manto divino.
Mesmo sendo eu um rapazinho todo quebrado do esqueleto, com auxílio de adaptação, com apoio e com disposição minha e dos outros, senti que "dava" para me aventurar -e deu!
Julgar a capacidade do outro de poder ou não poder fazer algo tinha de exigir faculdade de uns cinco anos para graduação. Seria focada em direitos humanos, em psicologia, em pitadas de física, de anatomia e de muita, muita, disposição para ouvir e entender que aquilo que um não consegue realizar pode ser feito tranquilamente, ou de forma adaptada e ajustada, por outro.
Já vi gente que dirige com os pés. Quero dizer, apenas com os pés, pois tinha as mãos e os braços ausentes; já presenciei mães sem nenhuma visão cuidarem dos filhos com olhos de leoa; já vi veterinário tocando vacas para o curral a bordo de uma cadeira de rodas motorizada; já li que um dos cientistas mais bambambãs do mundo não fala, não se mexe nem nada, apenas pensa de maneira extraordinária.
Por mais que se difunda que "não há limites" para a capacidade humana, a realidade é um tapa na cara desse conceito. Todos os dias, "peritos" barram pessoas em concursos, em testes de habilidades ou em vagas para o mercado de trabalho usando, em primeiro lugar, suas próprias restrições na maneira de ver a vida.
Entendo que sempre é preciso levantar o estandarte da segurança, do bom funcionamento da engrenagem do dia a dia, do direito de ver algo bem feito sendo produzido.
Mas o custo disso não pode ser o preconceito, a avaliação ligeira e o desprezo de habilidades que fogem ao comum.
Empurrar para os escombros da inutilidade gente que tem potencial é privar uma nação inteira de ter mais massa de pessoas úteis para a garantia do progresso, para a promoção do desenvolvimento. Apenas em casos muito isolados, realmente, é possível se configurar uma incapacidade. Quais, por exemplo? Não me arrisco a elencar.
Histórias de superação costumam motivar e inspirar as pessoas a tomarem novos rumos, a readequar seus próprios dramas, que viram caixas de fósforos diante dos tonéis de concreto que alguns carregam na lomba.
Mas apenas chorar e achar "lindo" o que os outros passam, sem dar crédito e oportunidades a seus potenciais, nada muda de fato e novos capítulos carregados de dramas vão ser escritos por aí. 
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*  Jornalista. É chefe de reportagem da Agência Folha, coordenando a produção da equipe de correspondentes nacionais do jornal e mais um grupo de repórteres na sede, em São Paulo, e colunista do caderno “Cotidiano”, onde escreve quinzenalmente, às terças-feiras.
Nasceu em Três Lagoas (MS). É cadeirante desde a infância.
Fonte: Folha on line, 03/07/2012
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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Conheça o livro que não pode esperar para ser lido


 Editora argentina lança livro impresso com tinta que desaparece após dois meses

Revista Superinteressante, 26 de junho de 2012

Para autores iniciantes, publicar o primeiro livro é um grande desafio. Mesmo sendo talentosos, precisam encontrar uma editora disposta a apoiar seu trabalho e caçar seu espaço entre os leitores. Pensando nisso, a editora independente argentina Eterna Cadencia lançou “O Livro Que Não Pode Esperar” (“The Book That Can’t Wait”).
Trata-se de uma antologia de novos autores latinos, impressa em um livro com tinta especial que, acredite, desaparece após dois meses de o livro ser aberto. Ou seja, depois que você teoricamente começa a ler a obra, tem cerca de 60 dias antes que o contato com a luz e o ar apague as letras.
A invenção é uma iniciativa bacana para motivar os compradores de livros a realmente os lerem, dando aos autores iniciantes a atenção que eles precisam para sobreviver no mercado. “Livros são objetos muito pacientes”, diz a propaganda do projeto. “Eles esperam por dias, meses, até anos para serem lidos. Isso esta ‘ok’ para eles, mas não para os novos autores. Se as pessoas não lerem seus primeiros livros, eles nunca poderão fazer um segundo”.
Dá para assisitr o vídeo de divulgação de “O Livro Que Não Pode Esperar”  (está em inglês): http://youtu.be/gHl8IqCqza8
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Fonte:  http://www.institutohypnos.org.br/?p=4319

O que é paradigma segundo Thomas Kuhn

Michel Aires de Souza*

Entender as ciências é conhecer sua prática, seu funcionamento e seus mecanismos. É compreender o comportamento do cientista, suas as atitudes e suas decisões. Foi a partir da compreensão da prática do cientista que Thomas Kuhn desvelou os mecanismos internos das ciências. Para ele as ciências evoluem através de paradigmas.  Paradigmas são modelos, representações e interpretações de mundo universalmente reconhecidas que fornecem problemas e soluções modelares para a comunidade científica. É por meio dos paradigmas que os cientistas buscam respostas para os problemas colocados pelas ciências. Os paradigmas são, portanto, os pressupostos das ciências. A prática científica ao fomentar leis, teorias, explicações e aplicações criam modelos que fomentam as tradições científicas. Nas palavras de Thomas Kuhn, os “paradigmas são as realizações cientificas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornece problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência" (Kuhn, 1991, p.13). A física de Aristóteles é um bom exemplo de paradigma, sua teoria  foi aceito por mais de mil anos. A astronomia Copernicana, a dinâmica Newtoniana, a química de Boyle, a teoria da relatividade de Einstein também são paradigmas.
        A idéia de paradigma surgiu das experiências de Kuhn como cientista. Ele percebeu que a prática cientifica é uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se dentro dos limites preestabelecidos e relativamente inflexíveis fornecido pelo paradigma. A ciência é para ele uma tentativa de forçar a natureza a esquemas conceituais fornecidos pela educação profissional. Na ausência de um paradigma, todos os fatos significativos são pertinentes ao desenvolvimento de determinada ciência. 
        O motor das ciências é a luta entre moldelos explicativos, entre teorias e concepções de mundo, "o desenvolvimentoda da maioria das ciências têm-se caracterizado pela contínua  competição  entre diversas concepções de natureza distintas". (Kuhn, 1991, p.22). É o que Kuhn denomina de ciência normal. A ciência normal são as pesquisas que estão baseadas em conquistas do passado feitas pelas ciências. Essas conquistas são reconhecidas pela comunidade científica de uma área particular e possuem duas características comuns. A primeira característica é que as realizações das ciências atraem um grande número de cientista em torno de uma atividade ou teoria cientifica. A segunda afirma que suas realizações estão abertas para a comunidade problematizar e resolver toda espécie de problemas.
         A ciência normal não se desenvolve por acumulação de descobertas e invenções individuais, mas por revoluções de paradigmas. Por exemplo, a teoria geocêntrica de Ptolomeu, que afirmava ser a terra o centro do universo, foi substituido por um novo modelo, a teoria heliocêntrica de Copérnico, que afirmava ser o sol o centro da nossa galaxia. Outro exemplo é a teoria da gravitação de Newton, que afirmava ser a gravidade  uma força fundamental existente em todos os corpos. Essa teoria foi completamente modificada por um novo modelo explicativo, a teoria da relatividade-geral de Einstein. Segundo esse novo modelo, a gravidade não seria uma característica dos corpos, mas das distorções do espaço-tempo local causado pelo peso das massas dos corpos. Segundo Kuhn essas transformações de paradigmas são revoluções científicas e “a transição sucessiva de um paradigma a outro, por meio de uma revolução, é o padrão usual de desenvolvimento da ciência amadurecida” (Kuhn, 1991, 32).
        Os cientistas que compartilham um mesmo paradigma estão comprometidos com as mesmas "regras" e "padrões" estabelecidos pela prática científica. "A ciência normal, atividade na qual a maioria dos cientistas emprega inevitavelmente quase todo seu tempo, é baseada no pressuposto de que a comunidade científica sabe como é o mundo. Grande parte do sucesso do empreendimento deriva da disposição da comunidade para defender esse pressuposto - com custos consideráveis se necessário". (Kuhn, 1991, p.24).      
       O paradigma se constitui como uma rede de compromissos ou adesões, conceituais, teóricas, metodológicas e instrumentais compartilhados. O paradigma é o que faz com que um cientista seja membro de uma determinada comunidade cientifica. Através da educação o jovem adquire os esquemas conceituais de sua atividade. É a educação profissional que lhe permitirá aprender e internalizar esses pressupostos. Uma vez aprendido o cientista vai compartilha-los em sua prática profissional.
         Outra característica importante do paradigma é que ele não depende de regras externas. Para Kuhn (1991, p.69), os problemas e técnicas da pesquisa que surgem numa tradição não estão necessariamente submetidos a um conjunto de regras. A falta de uma interpretação padronizada ou de regras não impede que um paradigma oriente a pesquisa. Na verdade, a existência de um paradigma nem mesmo precisa implicar a existência de qualquer conjunto completo de regras.
       Kuhn afirma ainda que ciência normal não é um empreendimento unificado e monolítico. As várias ciências e seus vários ramos são bastante instáveis, muitos dessas ciências não tem coerência entre suas partes. Há grandes revoluções como pequenas revoluçãos, algumas apenas afetam apenas uma parte de um campo de estudos, outras afetam grupos bastante amplos. Devido a esta estrutura instável das ciências é impossível uma total padronização dos paradigmas.  

Bibliografia
KUHN, Thomas. S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1991.
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* Professor
Fonte: http://filosofonet.wordpress.com/2012/07/02/o-que-e-paradigma-segundo-thomas-kuhn/

Insuficiências conceptuais da Rio+20


Leonardo Boff*
 
Não corresponde à realidade dizer que a Rio+20 foi um sucesso. Pois não se chegou a nenhuma medida vinculante nem se criaram fundos para a erradicação da pobreza nem mecanismos para o controle do aquecimento global. Não se tomaram decisões para a efetivação do propósito da Conferência que era criar as condições para o “futuro que queremos”. É da lógica dos governos não admitirem fracassos. Mas nem por isso deixam de sê-lo. Dada a degradação geral de todos os serviços ecossistêmicos, não progredir significa regredir.
No fundo, afirma-se: se a crise se encontra no crescimento, então a solução se dá com mais crescimento ainda. Isso concretamente significa: mais uso dos bens e serviços da natureza o que acelera sua exaustão e mais pressão sobre os ecossistemas, já nos seus limites. Dados dos próprios organismos da ONU dão conta que de desde a Rio 92 houve uma perda de 12% da biodiversidade, 3 milhões de metros quadrados de florestas foram desmatados, 40% mais gases de efeito estufa foram emitidos e cerca da metade das reservas de pesca mundiais foram exauridas.
O que espanta é que o documento final e o borrador não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por quê chegamos à atual situação, nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceptual deste e, em geral, de outros documentos oficiais da ONU. Elenquemos alguns pontos críticos.
Os que decidem continuam dentro do velho software cultural e social que coloca o ser humano numa posição adâmica: sobre a natureza como o seu dominador e explorador, razão fundamental da atual crise ecológica. Não entendem o ser humano como parte da natureza e responsável pelo destino comum. Não incorporaram a visão da nova cosmologia que vê a Terra como viva e o ser humano como a porção consciente e inteligente da própria Terra com a missão de cuidar dela e garantir-lhe sustentabilidade. Ela é vista tamsomente como um reservatório de recursos, sem inteligência e propósito.
Acolheram a “grande transformação”(Polanyi) ao anular a ética, marginalizar a política e instaurar como único eixo estruturador de toda a sociedade a economia; de uma economia de mercado passou-se a uma sociedade de mercado, descolando a economia real da economia financeira especulativa, esta comandando aquela.           Confundiram desenvolvimento com crescimento, aquele como o conjunto de valores e condições que permitem o desabrochar da existência humana e este como mera produção de bens a serem comercializados no mercado e consumidos. Entendem a sustentabilidade como a maneira de garantir a continuidade e a reprodução do mesmo,  das instituições, das empresas e de outras instâncias, sem mudar sua lógica interna e sem questionar os impactos que causam sobre todos os serviços ecossistêmicos. São reféns de uma concepção antropocêntrica, quer dizer: todos os demais seres somente ganham sentido na medida em que se ordenam ao ser humano, desconhecendo a comunidade de vida, também gerada, como nós, pela Mãe Terra. Entretém uma relação utilitarista com todos os seres, negando-lhes valor intrínseco e por isso como sujeitos de respeito e de direitos, especialmente o planeta Terra.
Por considerar tudo pela ótica do econômico que se rege pela competição e não pela cooperação, aboliram a ética e a dimensão espiritual na reflexão sobre o estilo de vida, de produção e de consumo das sociedades. Sem ética e espiritualidade, nos fizemos bárbaros, insensíveis à paixão de milhões de milhões de famintos e miseráveis. Por isso impera radical individualismo, cada país buscando o seu bem particular por em cima do bem comum global, o  que impede, nas Conferências da ONU, consensos e convergências na diversidade. E asssim, hilariantes e alienados, rumamos ao encontro de um abismo, cavado por nossa falta de razão sensível, de sabedoria e de sentido transcendente da existência.
Com estas insuficiências conceptuais, jamais sairemos bem das crises que nos assolam. Este era o clamor da Cúpula dos Povos que apresentava alternativas de esperança. Na pior das hipóteses, a Terra poderá continuar mas sem nós. Que Deus não o permita, porque é “o soberano amante da vida” como atestam as Escrituras judaico-cristãs.
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* Leonardo Boff é autor de O cuidado necessário, Vozes, Petrópolis 2012.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2012/07/01/insuficiencias-conceptuais-da-rio20/
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domingo, 1 de julho de 2012

Hector Babenco fala sobre as batalhas de sua nova produção

O diretor Hector Babenco - Aline Arruda/Divulgação

Aline Arruda/Divulgação
O diretor Hector Babenco

Diretor argentino-brasileiro está em Moscou para presidir o júri do Festival Internacional de Cinema

MOSCOU - "Uma estranha sensação de estar em um filme de ficção, uma coisa kafkaniana." É assim que o cineasta Hector Babenco, em entrevista exclusiva ao Estado, diz que se sente em Moscou, cidade na qual está para presidir, até sábado, o Festival Internacional de Cinema. No encontro, o diretor argentino-brasileiro de 66 anos também falou de projetos, como o polêmico Tiger Tiger, e de começar a rodar Cidade Maravilhosa no ano que vem, no Brasil.

Nesta 34.ª edição do festival, a produção latino-americana tem vez na mostra fora de competição Anima Latina, que traz Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, de Júlia Murat (produção Brasil/França/Argentina), Violeta Foi para o Céu, de Andrés Wood (Brasil/Chile/Argentina), além de filmes de Cuba e do México.

Como é a sua relação com festivais internacionais?

Esses eventos são a chance de ver filmes que não vão chegar ao mercado comercial no Brasil. Mas em Cannes não se consegue nem andar na rua quanto mais ir ao cinema. E também há muito burburinho, um clima de "somos todos parte de um grande grupo de pessoas escolhidas que se conhecem e se amam muito". É uma espécie de síndrome do tapete vermelho que se estende à alma das pessoas.

O que este festival trouxe de novidade?

É uma boa oportunidade de conhecer a produção do Leste Europeu. Jamais teria a chance de ver os filmes que estão aqui. Eles me ajudam a entender melhor como pensa um finlandês, ou como um lituano retrata sua realidade, ou ainda como os russos mantêm viva uma tradição épica à la Sergei Bondarchuk. Aqui já vi um filme totalmente Bondarchuk e outro totalmente sub-Tarkovski.

O que acha dos filmes russos.

Pelo pouco que vi, não há uma entrega sincera da alma dos personagens. Não há nada sobre o qual diga "compreendi neste filme a transformação que a Rússia está vivendo, mas sem ainda terem abandonado um modelo vigilante de comportamento na sociedade". Aqui, é tudo muito brutal. Ninguém vai roubar a sua carteira, mas há um outro tipo de agressividade no comportamento diário, principalmente dos homens. Nos primeiros dias, fiquei irritado com isso. Agora, sinto que estou dentro de um filme de ficção e tento me divertir.

Como se sente em relação à língua?

É uma coisa meio kafkiana. Não falar a língua local é algo que já tinha sentido quando adolescente na Holanda, perdido, sem dinheiro... Lembro de uma noite, num albergue, em que vi uma palavra que tinha 19 consoantes e comecei a chorar.

Um dos roteiros que você interrompeu para vir ao festival foi o do livro Tiger Tiger, autobiografia de uma garota que mantém, a partir dos 7 anos, um relacionamento com um homem de mais de 50. A polêmica na mídia o incentivou a tocar o projeto?

É uma história muito forte. Achei o livro num aeroporto, em Milão. Obviamente, não tenho simpatia nem perdoo quem machuca os outros, quanto mais criança. Eu mesmo tive experiências de abusos, sendo um menino judeu que cresceu em um bairro alemão.

Como vai ser transpor essa história para o cinema?

Cuidamos para não deturpar os fatos e reconstruir a narrativa com fidelidade ao livro. Fui até rever Pretty Baby - Menina Bonita, o filme do Louis Malle que lança a Brook Shields, em que ela faz uma menina que cresce num prostíbulo.

Em que fase está o filme?

Cada etapa é uma nova batalha. Comprar os direitos foi uma batalha, escrever o roteiro está sendo outra batalha, o casting também, como filmar ainda não sei... Mas fazer um filme não é como preparar um suco instantâneo, mistura com água e está pronto. Estou sempre na fronteira entre o que quero e a impossibilidade de consegui-lo.

Alguma previsão de quando Tiger Tiger vai ser lançado?

Gostaria de filmar no Brasil, em 2013, se conseguir os recursos. Tudo é demorado em cinema.

O outro filme é um roteiro original seu?

Cidade Maravilhosa é um roteiro original. É um filme que tenta lidar com os aspectos mais emblemáticos que tornaram o cinema brasileiro conhecido, como a miséria, a violência, essa coisa de terceiro mundo, mas de uma forma manipulada. Essa é mais ou menos a trama e que tem uma história de amor paralela.

Você se sente inspirado a fazer um filme aqui?

Faria um filme em qualquer lugar. Adoro ficar num lugar por algum tempo para trabalhar. Isso já aconteceu nos EUA, na Amazônia... 
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Reportagem por  MARINA DARMAROS - ESPECIAL PARA O 'ESTADO'
Fonte:  http://www.estadao.com.br/Acesso 01/07/2012

The Economist Homenageia a Mulher Brasileira

Paulo Yokota*

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Operárias brasileiras da construção civil, presidente Dilma Rousseff e Graça Foster 

Com o título expressivo de “Amazonas no trabalho”, a prestigiosa revista internacional The Economist informa num artigo que a mulher brasileira, que na década dos 1960 do século passado tinha uma modesta participação no mercado de trabalho formal, hoje apresenta uma presença impressionante. Cita a ONG Mão na Massa que prepara faveladas para trabalhos duros como as de encanadoras hidráulicas, pintoras de residências, pedreiras de construção civil desde 2007. Muitas desejam trabalhar nas indústrias, e seus ganhos reais vêm aumentando expressivamente nos anos recentes, ainda que na média sejam inferiores aos dos empregados masculinos. Encontram pequenas resistências dos homens, nas tarefas que eram tradicionalmente deles, diante do crescimento do emprego formal e baixo nível do atual desemprego na economia brasileira, segundo a revista.
O artigo mostra que as mulheres estão estudando mais tempo que os homens nas escolas, e dois terços dos atuais diplomados em curso superior são do sexo feminino. Com isto ,está sendo possível com que elas ingressem nos concursos do serviço público, pois na média são mais aplicadas nos estudos. Numa impressionante revelação, informa que a think tank de Nova Iorque, Centre for Talent Innovation, encontrou que entre as diplomadas universitárias brasileiras 59% são muito ambiciosas, cifra que nos Estados Unidos chega somente a 36%.
Tanto em empresas privadas como estatais, as mulheres estão conseguindo posições de destaque, citando o caso tanto da presidente Dilma Rousseff como da Graça Foster, presidente da poderosa Petrobras. Mostra que o prestígio da presidente da República vem se elevando, com sua política de efetuar uma “limpeza na administração pública”, como com o aumento do número de ministras que chega a mais de um quarto do total.
O artigo cita que a resistência vem de fora do emprego, como uma mãe que cita o caso da filha que, mesmo com 31 anos, ela ainda não se casou. As suas dificuldades é que muitas necessitam dobrar as suas jornadas de trabalho, pois encontram limitações para conseguir domésticas para as auxiliarem nas tarefas de casa, citando que muitos homens brasileiros não se dispõem a ajudá-las nestas necessidades.
Fazendo outras comparações com o que ocorre em outros países, The Economist não chega a citar que as mulheres estão substituindo os homens em tarefas duras como a direção de caminhões, motoristas de táxis, militares, policiais e outras que eram tradicionais dos homens. Pode-se afirmar que o desenvolvimento brasileiro não teria sido possível sem a elevada participação das mulheres nestes trabalhos.
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*  Paulo Yokota, economista brasileiro (dupla nacionalidade japonesa), ex-professor da USP, ex-diretor do Banco Central do Brasil, ex-presidente do INCRA.
Fonte:  http://www.asiacomentada.com.br/2012/07/

Ciência e inovação no Brasil

Marcelo Gleiser*
 

O país tem de realizar um enorme esforço para avançar na geração e na utilização do conhecimento 

RECENTEMENTE, ESTIVE em Brasília, a convite da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado. O objetivo foi participar do seminário "Caminhos para a Inovação", uma atividade da ENCTI (Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação), iniciada em 2011 pelo então Ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante.
Estavam também presentes o neurocientista Miguel Nicolelis e várias autoridades da área, como Glaucius Oliva, presidente do CNPq [agência federal de fomento à ciência]. Minha tarefa (e a do Nicolelis) era apontar possíveis mecanismos para que o Brasil deixe de ser potência agropecuária e de extração de minérios e crie uma economia movida pela inovação competitiva.
Comecei citando o relatório da ENCTI, de autoria do Mercadante:
1) A sociedade do futuro é a sociedade do conhecimento.
2) O Brasil tem de realizar um enorme esforço para avançar na geração e utilização do conhecimento científico, criando competências em áreas estratégicas.
3) O país precisa de uma revolução do seu sistema educacional.
Como fica bem claro, o ministro apontou bem o que deve ser feito. A questão é como.
Entre as 59 maiores economias do mundo, o Brasil ocupa a 54ª posição em infraestrutura tecnológica e educacional. Esses são dados do do Institute for Management Development, que examina as tendências econômicas dos países, mapeando sua viabilidade futura. O Brasil hoje ocupa a 47ª posição em performance econômica, caindo da 30ª em 2011. As coisas não vão tão bem quanto a maioria pensa.
Antes de mais nada, é necessária uma profunda revitalização da educação científica nacional: o Brasil precisa dobrar o número de engenheiros formados para poder suprir a demanda que já existe. Para isso, os jovens têm de ver a ciência como uma carreira viável, interessante e gratificante. A ciência precisa ser ensinada de outra forma, levando do encantamento à inovação.
As crianças precisam ver a ciência no seu cotidiano, no mundo que as cerca e no que as interessa; não pela memorização de fórmulas, mas olhando para o mundo de forma qualitativa, para então aprender as ferramentas quantitativas que cientistas usam para estudá-lo.
Estudantes de graduação e de pós devem visitar escolas públicas e privadas, para que crianças e jovens tenham contato com estudantes de ciências, desmistificando a carreira. Cientistas brasileiros também precisam participar de forma muito mais ativa na educação informal da população: palestras dirigidas ao público, observação astronômica em espaços abertos, feiras de ciência etc. A mídia nacional precisa dedicar mais espaço à ciência, especialmente na TV aberta e em horário nobre, nem que sejam alguns parcos minutos por semana.
É necessária uma lei de fomento à pesquisa, equivalente à Lei Rouanet da cultura. Com isso, o setor industrial e comercial terá incentivo para investir em ciência, algo que nos EUA e na Europa é essencial.
Falei sobre outras estratégias, mas essas foram as principais. O interessante é que o Nicolelis chegou depois e, sem me ouvir, apresentou quase os mesmos pontos. Basta que o Legislativo nos ouça também. 
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*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita".
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Fonte: Folha on line, 01/07/2012
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