quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Desmoronando

Luis Fernando Veríssimo*

O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo. O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos” etc. Levei algum tempo para me dar conta de que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação. Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “Desce aqui e salva a tua alma” ou “pensa no que poderia ter sido, pensa no que poderia ter sido...” As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava. Decidi me resignar. É uma das maneiras como a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto. Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente.

No fim do sonho, me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minhas costas. Em vez disso, ouvi a voz do Dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento”, arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto.
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* Escritor. Cronista da ZH
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3999407.xml&template=3916.dwt&edition=21114&section=70 - 03/01/2013.
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A elite dos universitários


 
À medida que aprofunda e diversifica suas coletas de dados, o IBGE faz constatações surpreendentes. Com base no último Censo Demográfico, por exemplo, o órgão apurou que, em 2010, quase 11% dos estudantes universitários do País já eram formados ou estavam fazendo um segundo curso de graduação. A maior parte desse grupo de estudantes está no Sudeste. Por ser a região mais desenvolvida do Brasil, é nela que é oferecida a maior quantidade de empregos na economia formal. 

O levantamento do IBGE também revela que 30,1% dos universitários que fazem uma segunda graduação estão na faixa etária de 40 anos - ou seja, são bem mais velhos do que a média de estudantes do ensino superior e a maioria já tem uma colocação no mercado de trabalho. O levantamento do IBGE mostra ainda que 13,2% dos estudantes que estão na segunda graduação fizeram - ou fazem - a primeira graduação numa instituição pública federal ou estadual. Portanto, esse é um contingente de estudantes qualificados, uma vez que as universidades públicas estão entre as melhores do País. 

O IBGE não indagou os motivos que levaram 11% dos universitários brasileiros a fazer um segundo curso de graduação. Os especialistas em pedagogia e em recursos humanos aventam três hipóteses para explicar essa decisão. A primeira seria o descontentamento com sua carreira profissional. Insatisfeitos com os baixos salários ou com a área do conhecimento de sua graduação, eles voltaram à faculdade buscando se reposicionar no mercado de trabalho. "A pessoa escolheu uma carreira e não se identificou com ela", diz Jacqueline Resch, especialista em recursos humanos. "Isso mostra a inadequação do sistema universitário brasileiro, em que o aluno tem de fazer escolhas prematuras sobre profissões eventualmente dissociadas do mercado de trabalho", afirma Antonio Freitas, professor da Fundação Getúlio Vargas, criticando o que chama de "profissionalização precoce". 

A segunda hipótese explica a decisão como decorrente do avanço da tecnologia e seu impacto na divisão do trabalho intelectual, rompendo a tradicional classificação dos currículos do ensino superior em três áreas básicas - ciências humanas, exatas e biomédicas. Com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, essas áreas se entrecruzaram. Com isso, a economia formal passou a exigir profissionais com formação interdisciplinar. "Muitos estudantes se conscientizaram da necessidade de complementar sua formação com disciplinas que não dominam. As empresas exigem cada vez mais dos funcionários e as pessoas cada vez mais trabalham em equipes interdisciplinares", afirma Jacqueline Resch. 

A terceira hipótese está associada à velocidade das mudanças científicas e tecnológicas - fenômeno que os economistas chamam de "processo de destruição criadora". Na dinâmica desse processo, o que hoje é novidade científica envelhece em curto período de tempo. Desse modo, o conhecimento tende a evoluir em ritmo cada vez mais rápido - e quem se formou num curso superior há cinco ou dez anos é obrigado a voltar a estudar, para se reciclar academicamente. Caso contrário, corre o risco de ser expulso do mercado de trabalho, por não dominar as novas técnicas de gestão e produção. Em outras palavras, voltar a estudar, como descobriram os estudantes que estão fazendo uma segunda graduação, é questão de sobrevivência profissional. 

O aumento da escolaridade de 11% da população de universitários é uma informação importante, que mostra a necessidade de reestruturar o ensino superior do País. A divisão dos cursos em três áreas básicas já está superada e os currículos universitários orientam-se por matrizes profissionais desconectadas com a realidade social e econômica do País. E como o mercado de trabalho exige dos profissionais uma formação cada vez mais abrangente, um diploma superior já não é mais uma garantia de ascensão profissional. 

A Universidade precisa ser repensada, para dar às novas gerações uma formação mais sólida e um conhecimento técnico mais próximo da realidade do mercado de trabalho.
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Fonte:  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-elite-dos-universitarios-,979687,0.htm 02/01/2012
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Feliz 2013

 Roberto Damatta*
 
Estamos no segundo dia de 2013, mas o ritual de transição - um ato teatral com seus abraços, suas imensas promessas e outros fogos de artifício sem os quais não teríamos consciência do tempo - ainda está na nossa memória. Esse 2012, que para alguns anunciava o fim do mundo, foi mais um testemunho da vitória do princípio da realidade. Pois o ano chegou ao fim, mas seguimos com um mundo que permanece. 

O tempo, entretanto continua passando, inexorável. As festas materializam calendários e, sem elas, jamais iríamos saber que passamos do 12 (no jogo do bicho, a dezena do elefante e do julgamento com outros escândalos em cascata...) para o 13, a dezena do galo. 

Os sinais e tendências que encontramos depois de viver 2012, provam o seu fim. Já o ano-novo é uma caixa de palpites. Como tudo que tem inicio, meio e fim, 2012 morre paquidérmico. Mas 2013, que apenas principia, traz a leveza imprevisível e nervosa do galo. Esse 13 que a ciência brasileira dos sonhos associa a desavenças. Sonhou com briga? Joga no galo! Esse galo de todas as brigas; um espetáculo que é legalmente proibido, mas culturalmente aprovado. 

* * * * *

Atacado de incertezas, fui nesta virada à missa de sétimo dia de um conhecido. Era um ateu, mas os amigos (todos descrentes) fizeram celebrar um missa e não o levaram ao túmulo sem a bênção final do caixão. Viveu como ateu e morreu como um bom católico, disse para mim mesmo. Viveu como quis, mas morreu como brasileiro. 

Porque tanto na vida quanto na morte, nós, brasileiros, vivemos uns para os outros. Mesmo quando ele dizia que era ateu, a família e, quem sabe, até mesmo os mais radicais do seu partido, ninguém acreditava. A maioria supunha que seu ateísmo fosse parte de um vasto arsenal de bravatas individualistas. A morte deixa ver como não pertencemos a nós mesmos, mas aos amigos. O Zé é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo! Quer coisa mais reveladora? 

Nosso ateísmo é tão formal quanto o nosso individualismo, ambos prontos para o desmanche na primeira demanda de um conhecido ou parente. A polícia reforça, a casa aumenta. Quem não quis deixar de ir à missa domingo e acabou desistindo porque um domingo sem missa não é domingo? 

Conheci uma senhora que, de dia, fazia parte da congregação do Sagrado Coração de Jesus; mas, à noite, realizava memoráveis sessões espíritas na sua sala de jantar. A nobre mesa de comer, transformando-se no altar em que os "irmãozinhos sofredores" encontravam alento. 

Visitando um amigo baiano com um doutoramento em filosofia pela Universidade de Paris e filiado ao candomblé, vi em sua casa um belo altar budista em que ele meditava depois de rezar o terço ao lado de um sacerdote filiado à Teologia da Libertação. Pelo que sei, ele continua tão católico quanto todos nós e, se tudo correr bem, iremos todos ter uma bela missa de sétimo dia. 

"Neste ano-novo, fomos à praia vestidos de branco dos pés à cabeça. As mulheres da família carregavam buquês de flores a serem ofertados para Iemanjá. Estávamos um tanto preocupados com o trânsito - prosseguiu Raimundo Vieira, traumatologista e médium da linha cruzada -, porque não queríamos perder a bela Missa do Galo, sempre realizada com enorme espiritualidade pelo padre Varela em bom e sonoro latim, seguindo as melhores tradições do medievo ocidental."

Ao ouvir essas palavras, lembrei-me de um velho ano-novo de 1960 quando, em companhia de amigos, fui à praia de Icaraí e vi uma das mais belas moças de nossa vizinhança - uma mulher que usava maiôs de fazer parar até mesmo as mais candentes discussões políticas, tão comuns daqueles tempos de "esquerda e direita" - possuída por um Preto Velho, fumando desbragadamente um enorme e fedorento charuto. No dia seguinte fomos encontrá-la na mesma praia, fagueira e lindíssima, com a sua costumeira medalhinha de Nossa Senhora das Graças no pescoço.

A cada ano essas múltiplas facetas surgem mais claramente. Um lado meu diz que o mundo fica cada vez mais cristalino e mais chato porque a tecnologia ocidental tem origem em Lutero e Calvino, que queriam colocar o céu na terra e idealizavam uma vida social absoluta e absurdamente transparente. Ainda não temos casas de vidro, como propôs o velho surrealista comunista André Breton, mas o nosso aparato eletrônico é a chave para essas moradas.

Se o ano do elefante, o 2012 que acaba de fechar, mostrou muita gente importante com muitas caras; o do galo - esse 2013 que apenas começa - promete muitas rinhas e movimentos surpreendentes. Feliz ano-novo!
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* Antropólogo.
Fonte: Estadão on line, 02/01/2013
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Nossa relação com o dinheiro, os pequenos hábitos e o ano novo

Eduardo Amuri*
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Quem busca uma relação melhor com o dinheiro muitas vezes dá de cara com ilusões e dificuldades comuns a diversas áreas e processos. A maioria delas surge logo nas primeiras movimentações: os primeiros resultados são rápidos e trazem um conforto perigoso.
É bem parecido com aquele amigo que, na primeira semana depois do feriado repleto de celebrações gastronômicas, conta sobre a primeira semana de academia, dizendo que não consegue entender porque não havia começado antes, que já sente algumas diferenças no corpo e que pretende continuar frequentando diariamente. Duas ou três semanas depois, misteriosamente, ele para. Mas não estava fazendo um bem enorme?
Atos impulsivos, imaturos e ocasionais dificilmente se sustentam. É como se estivéssemos embaixo d’água, sem conseguir respirar. Sabemos que, para que possamos sobreviver e agir com mais destreza, precisamos tirar nosso corpo todo dali.
Você já tentou correr dentro da piscina? Logo nos primeiros esforços, colocamos a cabeça para fora e nos sentimos felizes e tranquilos: agora conseguimos respirar. Não nos preocupamos em tirar o resto, em dar alicerce sólido para a mudança. Pouco a pouco vamos relaxando, tiramos o foco e, em instantes, estamos imersos novamente na piscina e na zona de conforto.
Trazendo para o mundo dos cifrões, essa nossa dificuldade fica ainda mais evidente. Está tudo muito acessível, mas, muitas vezes, não temos discernimento para interpretar o caminhão de informações que recebemos e nos contentamos com os primeiros avanços.
Por exemplo, é muito comum escutar da boca de quem está a algumas semanas ou meses lendo sobre finanças: “a poupança tem rentabilidade negativa”. Realmente, após as mudanças das regras, a poupança tem rendido menos do que a inflação, mas de maneira nenhuma isso justifica não poupar.
Mesmo que perca para a inflação, ainda existem vantagens muito significativas. A primeira delas é matemática: manter o dinheiro rendendo pouco (poupança) é infinitamente melhor do que manter o dinheiro parado (conta corrente). Se a inflação ganha da poupança, ela dá uma goleada na conta corrente.
Além disso, somos seres movidos por rituais. O ato de tirar o dinheiro da conta corrente e colocar em algum outro lugar é muito simbólico. É como se disséssemos para nosso cérebro, acostumado a procrastinar: “Eu sei que eu poderia dizer que vou deixar para separar esse dinheiro quando tivesse uma conta em uma grande corretora ou quando fosse um profundo conhecedor do mercado, mas resolvi começar agora”.
Traçando um paralelo com o exemplo que abordamos no início, ficaria assim: “Eu sei que eu poderia dizer que vou deixar para começar a correr no parque quando comprasse um tênis novo, mas resolvi começar agora”.
Optar por poupar é tão ou mais importante do que conhecer todas as modalidades de investimento oferecidas pelo mercado. Acompanho diversas pessoas que, aos poucos, estão mudando seus hábitos e tentando apontar seus esforços em direção a uma vida financeira mais saudável. Em todos os casos, a vantagem de começar de maneira simples e sustentável é muito notória.
Enquanto os investimentos não estão estruturados, sugiro que você aproveite o ímpeto de mudança que surge quando você está analisando seu extrato bancário e faça a transferência na hora. Flagre-se sugerindo dietas financeiras que começam no “mês que vem”.
Aos poucos, conforme conhecemos melhor o mercado, novas modalidades de investimento passam a fazer sentido. É muito mais fácil se dedicar à parte técnica das finanças depois que o hábito de poupar e respeitar o dinheiro pode ser considerado enraizado.
Vale a pena deixar que essas ações efetivas tomem um pouco do espaço que dedicamos às metas de ano novo. Comece pequeno, mas comece.
Que o ano de 2013 seja muito especial! Até a próxima!
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* Estuda a relação do homem com o dinheiro e dedica-se a entender de que maneira nosso potencial financeiro pode ser utilizado para transformar nossas vidas.
Fonte:  http://dinheirama.com/blog/2013/01/02/nossa-relacao-com-o-dinheiro-os-pequenos-habitos-e-o-ano-novo/

Pesquisadores apontam necessidade de políticas industrais em 2013

Leonardo Echeverria*

 
Economistas da UnB analisam desafios para o crescimento do PIB e dizem que medidas de incentivo devem beneficiar também os empresários

"Quero um pibão grandão", disse a presidente Dilma Rousseff quando perguntada qual o presente que gostaria de ganhar em 2013. Para alcançar tal resultado, depois de um baixo crescimento em 2012 (cerca de 1,5%), o governo anunciou medidas que buscam estimular a renda e o consumo, como o aumento do salário mínimo para R$ 678 e novas reduções nas taxas de juros. Para os professores do Departamento de Economia da UnB, essas ações são importantes, mas é preciso também dar mais atenção aos outros atores sociais, principalmente as empresas. 

"Essas medidas, embora sejam importantes para não deixar a economia parar, por si só não bastam. Nosso problema é estrutural. O que estamos percebendo é uma enorme desconfiança do empresariado em relação ao cenário que o Brasil e o mundo vão viver em 2013", afirma o professor José Matias-Pereira. Maria Lourdes Mollo, da Associação Keynesiana Brasileira, destaca que há muito tempo a indústria brasileira cresce de forma lenta. "A situação da indústria que ficou problemática ao longo dos últimos anos, seja na geração de emprego, produto e renda. Isso se relaciona com a perda de competitividade em relação ao câmbio, mas agora é preciso uma política industrial deliberada. Uma política de inovação tecnológica para que possa sair dessa letargia", diz a professora. 

"O que falta é um estímulo de base mais permanente", afirma José Carlos Oliveira. "O enfoque do governo é parcial. Para quem recebe, salário é renda, mas para quem paga, é custo. Precisamos investir em infraestrutura, ter energia confiável", afirma o especialista. "Essas medidas anunciadas foram feitas em 2012 e não deram resultados". 

FIM DE UM CICLO – O professor Flávio Basílio tem uma visão diferente. Para ele, antes de tudo é preciso esperar que as ações atuais mostrem resultados antes de se pensar em outras mudanças. "Desde 2008, a economia vem passando por profundas transformações. A taxa real de juros cai de 7% para 1,7% em 2012. A redução da taxa média de juros bancária para pessoas físicas caiu 25%. Além disso, a gente percebe desoneração da folha de pagamento em vários setores, como a construção civil. Isso acaba mudando a estrutura da economia brasileira. Essas medidas ainda não entraram totalmente em vigor", analisa. Ele acredita que é bastante possível que o Brasil chegue ao fim do ano com um crescimento em torno de 4%. "Acho que não é preciso fazer mais, é preciso dar tempo". 

Joaquim Pinto de Andrade, diretor do Departamento de Economia, vê o fim de um ciclo na economia brasileira. "Algumas medidas já estão fazendo a diferença. Estamos no final de um ciclo, os estoques das indústrias estão começando a cair, e isso pode significar aumento dos investimentos. Apesar da estagnação, o emprego não caiu, e isso não é ruim", afirma. Para ele, isso indica que os empresários terão mais motivos para investir na produção em 2013, o que é uma boa notícia. Ainda assim, ele adverte que é preciso fazer mais pelas empresas. "Reduzir a carga tributária pode estimular os empresários, mas está faltando uma política estruturante, conjuntural". 

José Matias-Pereira acredita que as reformas que o Brasil precisa são as profundas, começando inclusive por mudanças no Ministério da Fazenda. "A equipe econômica já deu sinais de cansaço, é fundamental alguém que possa mexer nessas estruturas. Tem que ser alguém com capacidade enorme de articulação para envolver todos os atores econômicos", afirma. "É preciso mudar o modelo econômico brasileiro. Adotar medidas macro e microeconômicas, que façam com que o país reencontre a trilha do crescimento. Os números dizem que esse caminho foi perdido".
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* Leonardo Echeverria - Da Secretaria de Comunicação da UnB
Fonte: http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=7480
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Alain Finkielkraut comenta “Transfiguração da Romênia”

Finkielkraut: «Para Cioran, esse livro era uma vergonha»

Dois livros de Cioran, «Transfiguration de la Roumanie» et «De la France» são traduzidos pela primeira vez. Alain Finkielkraut comenta esses textos de juventude.

Le Figaro (02/04/2009)
Já se sabia sobre o autor de «A Derrota do Pensamento» que ele é um leitor apaixonado da obra de Cioran. Alain Finkielkraut considera esse romeno tornado apátrida um dos maiores escritores de língua francesa do século XX. À ocasião do lançamento [na França] de “Transfiguração da Romênia”, livro sulfuroso publicado em Bucareste em 1936, e traduzido integralmente pela primeira vez em francês, Finkielkraut esclarece as grandezas e as contrariedades de uma obra em parte fundada sobre a revogação de uma fascinação inicial pelo totalitarismo.

LE FIGARO LITTÉRAIRE – Qual foi a sua reação à leitura de «Transfiguration de la Roumanie» ?
Alain FINKIELKRAUT – Eu já tinha lido alguns trechos, notadamente os mais duvidosos, no ensaio demasiado crítico que Alexandra Laignel-Lavastine consagrou a Cioran, Eliade e Ionesco. Descobrindo a tradução integral de Transfiguração da Romênia, compreendi melhor o papel desse livro no conjunto da obra de Cioran. Os “redentores do passado”, que são muitos hoje em dia, denunciam uma espécie de disfarce. Cioran teria dissimulado um pecado original. Ele teria ocultado esse pecado para vender a um Ocidente ingênuo uma imagem aceitável. Pessoalmente, penso que não se trata de um disfarce, mas de uma conversão. Para Cioran, esse livro de juventude – eu diria, mesmo, de adolescência – é uma vergonha. É assim que Transfiguração da Romênia o acabou levando a desconfiar de si mesmo. A epígrafe do Breviário de Decomposição, tirada de Richard III, de Shakespeare, é reveladora: “I’ll join with black despair against my soul, and to myself become an enemy”. Cioran expiou os seus entusiasmos, converteu-se à forma elegante contra a força elementar, converteu-se ao ceticismo, ao desespero, e escreveu em francês. Ele escolheu a França não como cidadania, mas como língua, para se liberar do instinto. Em Transfiguração, ele escreve: “Seria necessário suprimir todos aqueles que não são consumidos pela consciência de uma missão”. No Breviário de Decomposição, ele mostra como podem tornar-se sanguinários os homens possuídos por essa crença.

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LE FIGARO LITTÉRAIRE –Você fala de um pecado de juventude. Qual falta contra o espírito o teria levado a ceder à tentação fascista? O culto do irracional, o vitalismo niilista, o anti-humanismo, o historicismo? Ou talvez o desespero?
Alain FINKIELKRAUT – Para retomar o diagnóstico do próprio Cioran, eu diria que o seu pecado de juventude é a juventude como pecado. Em um texto do início dos anos 50, Cioran escreve: “Quando eu era jovem, toda a Europa acreditava na juventude. São os jovens que promovem as doutrinas de intolerância e colocam-nas em prática, são eles que têm necessidade de sangue, de choro, de tumulto e de barbárie.” A mim me parece que Cioran mete o dedo na grande infelicidade do século XX. Uma infelicidade profetizada por Dostoievski naquela conversa de Os Demônios em que Piotr Verkhovensky pergunta aos conspiradores o que eles preferem: caminhar por um pântano a uma velocidade de tartaruga, ou atravessá-lo a todo vapor. Um “colegial entusiasmado” responde: “Eu preferiria atravessá-lo a todo vapor”. Cioran era esse colegial entusiasmado. Ele cedeu igualmente ao historicismo. Ele comenta essa ilusão nos seus cadernos: “Não exija de mim que eu creia que a História possui uma finalidade e a Humanidade, um porvir. O homem passará de dificuldade em dificuldade, e será assim até que ele expire.” Por tudo isso, pode-se ver que toda a sua obra é uma meditação crítica sobre esse delírio inaugural.

LE FIGARO LITTÉRAIRE – Como você explica a aquiescência de Cioran ao preconceito anti-semita?
Alain FINKIELKRAUT – Na origem do seu anti-semitismo, eu vejo primeiramente a megalomania do cidadão de uma pequena nação, que diz a si mesmo: “Nós não somos nada e nós seremos tudo. Os outros falarão de nós custe o que custar.” Sem dúvida, a megalomania de uma pequena nação relegada às margens da história acaba nutrindo uma inveja em relação aos judeus, um pequeno povo situado em plena luz. É possível sentir essa inveja em ação. Assim, mesmo que Cioran tivesse simpatizado com essa organização monstruosa que foi a Guarda de Ferro, ele mantém uma divergência fundamental em relação aos legionários: ele não imputa o marasmo romeno aos judeus. Ele não cede à facilidade da paranóia. Eis um elemento muito importante para compreendê-lo. Alguns o acusam, entretanto, de não haver mudado após a guerra. Ele teria permanecido obcecado pelos judeus e se contentado em inverter os signos, passando-os do negativo ao positivo. Essa inversão mesma testemunharia a sobrevivência de sua hostilidade fundamental. Para mim, isso não é verdade. Eu penso que haveria nessa fascinação pelos judeus algo que poderia preparar Cioran a prestar homenagem aos judeus. É a persistência do nome judeu que nutria a sua fascinação. Ele disse: “Os judeus não são um povo, mas um destino”.

 "O anti-intelectualismo contemporâneo é diferente. 
Ele surge não da imediatidade do instinto,
 como no caso do jovem Cioran,
 mas da imediatidade da técnica. 
No universo midiático do tempo real, 
nenhuma meditação é necessária,
 nenhum esforço mais, nenhum saber,
 nenhuma biblioteca, 
nenhuma ascese. 
Tudo está aí, agora. 
Esta forma de anti-intelectualismo 
é particularmente perniciosa porque 
não é uma ideologia que no-la propõe, 
é uma tecnologia que no-la oferece."


LE FIGARO LITTÉRAIRE – Contrariamente aos acusadores de Cioran, você acredita na sua sincera e profunda conversão. Como explica esse movimento?
Alain FINKIELKRAUT – Cioran rompe com a tentação totalitária quando se torna um escritor de expressão francesa e se inscreve, em pleno século XX, na linhagem dos moralistas clássicos. Os moralistas não são construtores de moral, mas pessoas que divulgam uma verdade dolorosa. Cioran junta-se aos moralistas a partir de 1941, através do texto pivotal intitulado “Sur la France”, que se descobre agora junto com Transfiguração. Trata-se de um livro escrito em romeno, mas o estilo já é francês, como se nota na tradução maravilhosa de Alain Paruit. No fundo, a resposta dos moralistas é a resposta daqueles que não se enganam com Rousseau. De um lado, está a idéia de estabelecer um regime perfeito que encontre uma solução política ao problema humano. E do outro, está uma lucidez inquieta que nos vacina contra essa tentação. O desespero de Cioran não o conduz necessariamente, de resto, a uma visão obscura da natureza humana. Eu me recordei de uma passagem extraordinária dos seus cadernos: “Ódio e acontecimento são sinônimos. Lá onde há ódio, alguma coisa acontece. A bondade, por outro lado, é estática. Ela conserva, interrompe, carece de virtude histórica, freia todo dinamismo. A bondade não é cúmplice do tempo, enquanto que o ódio é a sua essência”. Não se imagina Cioran fazendo esse elogio da bondade. E, no entanto, mesmo se ele foge da idéia de estabelecer um regime sem mal, permanece aquilo que Vassili Grossman chama de la petite bonté, la bonté sans regime (“a pequena bondade, a bondade sem regime”).

LE FIGARO LITTÉRAIRE – Para esclarecer os delírios de « Transfiguração », você mencionou a sobrevalorização da juventude. Ela se enche de anti-intelectualismo quando Cioran escreve numa carta: “A salvação não está nas bibliotecas”. Em vez de der tempo com os “redentores do passado”, não faríamos melhor se nos inquietássemos ao ver esse anti-intelectualismo novamente em cena?
Alain FINKIELKRAUT – O anti-intelectualismo é o grande mistério do século XX. A apologia da ação e da força vital, a vida como expansão, eis o fascismo por excelência. Mas encontramos, por outro lado, a mesma forma de hostilidade ao intelecto, que apareceu pela primeira vez entre os populistas russos quando diziam: “um par de botas vale mais do que Shakespeare”. Esse anti-intelectualismo que não é feroz, mas em aparência generoso, consiste em pensar que a história não é feita pelos intelectuais, mas pela luta dos homens entre si. O anti-intelectualismo contemporâneo é diferente. Ele surge não da imediatidade do instinto, como no caso do jovem Cioran, mas da imediatidade da técnica. No universo midiático do tempo real, nenhuma meditação é necessária, nenhum esforço mais, nenhum saber, nenhuma biblioteca, nenhuma ascese. Tudo está aí, agora. Esta forma de anti-intelectualismo é particularmente perniciosa porque não é uma ideologia que no-la propõe, é uma tecnologia que no-la oferece.
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Fonte:  http://emcioranbr.wordpress.com/2013/01/02/alain-finkielkraut-comenta-transfiguracao-da-romenia/
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Cientistas debatem se vivemos nova época geológica*

 Há quem diga que seria o último 
ato da arrogância humana:
 tornar oficial nos registros geológicos 
que ações antropogênicas - 
aquelas que são induzidas ou alteradas 
pela presença e atividade do homem - 
já causaram, e ainda causarão, tamanho impacto nos 
ciclos naturais do planeta que são 
suficientes para marcar 
o surgimento de uma nova época na 
escala de tempo da Terra.

É exatamente o que está sendo discutido por um grupo de trabalho de cientistas na Comissão Internacional de Estatigrafia - a disciplina que analisa as marcas da passagem do tempo no planeta. Segundo dados oficiais, estamos há cerca de 12 mil anos em uma época chamada Holoceno, iniciada após o fim da última era do gelo e caracterizada por uma relativa estabilidade climática.

Mas o grupo analisa as evidências científicas para poder dizer se o impacto das ações humanas foi significativo o bastante para dar início a uma nova época, chamada Antropoceno. A ideia foi lançada no início deste século pelo químico Paul Crutzen, do Instituto Max Plank, que recebeu o Nobel de Química em 1995 por seus estudos sobre a camada de ozônio na atmosfera.

Desde então o termo conquistou popularidade e valor simbólico, sendo usado arbitrariamente para definir as transformações que o planeta vem experimentando por causa das ações humanas. A pergunta que os cientistas tentam responder é se essas transformações são tão relevantes e profundas quanto às promovidas pelas grandes forças da natureza.

"Classificar o Antropoceno como uma nova época geológica é uma caracterização que depende da observação de uma mudança nos registros geológicos, como, por exemplo, no padrão de sedimentação em escala global", explica o climatologista Carlos Nobre, único brasileiro - e um dos poucos não geólogos - que faz parte do grupo de trabalho.

É um processo muito lento, de anos, talvez décadas, admite Nobre. "Não muito diferente de quando os astrônomos começaram a discutir o caso de rebaixar Plutão da categoria de planeta."

"Com o aumento do nível do mar, haverá um outro padrão de depósito de sedimentos. Onde hoje é continente vai virar fundo do mar, então um dia alguém perfurando essas regiões vai ver areia. Ao datar, vai ver que é do ano 2000 e indo um pouco mais ao fundo encontrará uma rocha que tem milhões de anos. Isso é uma mudança do parâmetro geológico", exemplifica Nobre.

Por isso, é de se questionar se é possível identificar uma mudança de época bem quando ela está ocorrendo - todo o conhecimento sobre a história do planeta se deu nos últimos três séculos com base nos estudos de camadas de sedimentos das rochas e das geleiras acumulados ao longo de milhões de anos.

Sinais precursores. Segundo Nobre e outros pesquisadores da mesma linha, porém, sinais precursores já podem ser observados nos dias de hoje. É justamente a velocidade das ações humanas que talvez permita essa análise quase simultânea. A corrente mais forte entre os pesquisadores coloca como início do Antropoceno a Revolução Industrial (no final do século 18), que trouxe o uso dos combustíveis fósseis para mover máquinas e é o marco da aceleração das emissões de gases de efeito estufa.

Essa nova marcação no tempo, porém, não se restringiria ao aquecimento global, mas às mais diversas ações humanas impulsionadas pelo aumento populacional, como perda de habitats, mudança no uso do solo, sobre-exploração dos recursos naturais, causando, por exemplo, perda de biodiversidade, acidificação dos oceanos e perturbação dos ciclos naturais.

É nesse último ponto que assentam as evidências mais robustas do impacto humano. Diversos estudos nos últimos cinco anos apontam para uma mudança nos ciclos de carbono, nitrogênio e fósforo, além do hidrológico.

Uma das pesquisas mais citadas é a liderada pelo hidrólogo sueco Johan Rockström, que junto com uma equipe de 28 cientistas publicou em 2009, na revista Nature, que a humanidade já ultrapassou três de nove barreiras do planeta que mantêm o sistema funcionando como o conhecemos. O rompimento desses pontos pode modificar esse equilíbrio a um ponto sem mais chance de retorno.

O trabalho afirmava que já foram transpostos os limites da biodiversidade, da mudança climática e do ciclo de nitrogênio, por causa do uso excessivo de fertilizantes. Três anos depois se considera também como superado o limite do fósforo. O de carbono está próximo de ser atingido. Hoje as emissões anuais passam de 40 bilhões de toneladas de CO2.

"Esse sinal pode até aparecer pequeno quando comparado ao ciclo do gás. Todo ano há uma troca de CO2 entre os oceanos e a atmosfera, entre a vegetação e a atmosfera, na faixa de 170 bilhões de toneladas de carbono. Multiplicando isso pelo peso molecular do CO2, passa de 600 bilhões de toneladas. Só que o nosso sinal é cumulativo. Portanto, em menos de um século, vamos ter o dobro de CO2 na atmosfera. Estaremos com outra composição da atmosfera, com outro equilíbrio climático - que será o planeta muito mais quente", diz.
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A reportagem é de Giovana Girardi e publicada no jornal O Estado de São Paulo, 26-12-2012.
Fonte: IHU on line, 02/01/2013
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Igreja prioriza público jovem para tentar barrar perda de terreno

RICARDO MARIANO*
 
 
Alarmada e mobilizada pela tendência aparentemente irrefreável de um futuro cada vez menos católico, a hierarquia eclesiástica vem investindo mundos e fundos para tentar conquistar os jovens.

Algo crucial para assegurar sua reprodução institucional num contexto pluralista e de liberdade no qual a pertença religiosa tornou-se questão de livre escolha individual. Crucial ainda porque é entre os com menos de 40 anos que a Igreja Católica mais perde terreno no Brasil.

Esforços para reverter tal situação não faltam. A 49ª Assembleia Geral da CNBB criou a Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude. O tema da campanha da Fraternidade de 2013 será a juventude. E a 28ª Jornada Mundial da Juventude ocorrerá no Rio, não por acaso o Estado com o menor percentual de católicos (45,8%) e ponta de lança do movimento de pluralização religiosa e de aumento dos sem religião no país.

"Ide e fazei discípulos entre todas as nações!", eis o lema da Jornada, que não poderia ser mais explícito quanto à atitude que pretende estimular: a evangelização. Seu principal difusor é o papa.

O pontífice quer mais seguidores jovens militantes e doutrinária e moralmente virtuosos. Quer um séquito religiosamente qualificado e ainda mais numeroso. E quer robustecer a Igreja Católica frente aos desafios impostos pelo avanço do pluralismo religioso e cultural. Quereres reativos que tendem a levar ao recrudescimento do conservadorismo religioso e moral, à formação de uma subcultura religiosa sectária e à intensificação do ativismo político de motivação religiosa.

É fato que, ao mesmo tempo em que diluem as bases tradicionais de pertença religiosa, a liberdade religiosa, o pluralismo e a secularização abrem espaço para projetos religiosos de viés conservador e fundamentalista. A opção conservadora, porém, tem de enfrentar a crise de credibilidade da Igreja. Metido nessa sinuca, o papa parece visualizar só duas saídas: ou se mergulha de cabeça na opção conservadora e sectária ou se cai na irrelevância. 
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Um Brasil mais religioso

Paulo Ghiraldelli Jr. 

Estamos dando pouca atenção a isso, mas há no Brasil uma crescente intolerância ao Estado laico e à existência de uma cultura religiosa plural 

Caso 1. Há lugares (Rio de Janeiro à frente) que mantém aulas de religião na escola pública, inclusive exigindo que o professor seja antes um devoto que autenticamente um estudioso do assunto.

Caso 2. Após o início da novela "Salve Jorge", a Rede Globo já teve de vir oficialmente explicar para grupos evangélicos que a novela não faz a apologia de nenhum santo católico ou afro-brasileiro.

Sinal dos tempos. Estamos vivendo no Brasil, em matéria de religião, uma situação que não deveríamos viver de modo algum. A ampliação de novos grupos religiosos e o recrudescimento de velhos grupos abre o nosso país para questões até pouco tempo estranhas. Duas delas: a questão da religião diante do Estado (caso 1) e a da religião diante da cultura (caso 2).

Quanto à primeira questão, notamos os grupos que não entendem que o Brasil é uma sociedade plurirreligiosa e que o Estado é laico. O Estado é neutro quanto à religião exatamente para garantir que indivíduos e grupos adotem e expressem as crenças que escolherem.

Por isso mesmo caberia ao Estado, talvez, incentivar na escola pública a história das religiões, mas não a aula de religião (ainda que plural) ministrada por um militante de igreja. Há vários editais, inclusive no Estado do Rio, em que se pede do professor que irá ministrar aulas de religião uma carta de uma "autoridade competente" em religião. Ou seja, o professor tem de vir indicado por um pastor, padre ou coisa do tipo. Isso é inadmissível.
Quanto à segunda questão, vemos os grupos religiosos se indispondo contra várias práticas das quais os seus fiéis não deveriam ser privados.

O Estado laico, garantindo neutralidade, e uma cultura plural criam manifestações artísticas de várias ordens e, assim, criam elementos que permitem que todos nós possamos usufruir dessas manifestações apenas como arte, não necessariamente como religião.

A Bíblia ou o Corão podem ser lidos sem que com isso o leitor seja um devoto ou queira se tornar devoto. Ter curiosidade por religião e ler seus documentos é antes de tudo saber usufruir da cultura.

Assim, de modo similar, se a TV viesse a apresentar uma telenovela religiosa -como já fez várias vezes-, isso não deveria ser motivo para que qualquer grupo de religião distinta emergisse pedindo de seus fieis o boicote ao canal em questão.

Ou seja, aquele líder religioso que pede boicote não está infringindo a lei, mas está desrespeitando, certamente, a inteligência de seus fiéis.

Voltando ao primeiro caso e articulando-o ao segundo. Permitir que uma escola pública tenha aula de religião ministrada por um devoto, e não por um historiador das religiões (ou alguém com formação equivalente), é exatamente retirar da escola a capacidade ser o elemento que iria, em uma situação normal, ensinar aos estudantes esta verdade: não há cabimento em alguém implicar com uma novela de TV por motivos religiosos.

Nossas autoridades legais e a maior parte dos intelectuais estão fazendo vista grossa sobre essas duas questões. Tudo está indo bem no Brasil, uma vez que estamos podendo consumir. Caminhamos para lugares escuros em leis e em cultura, e estamos quietos porque também temos podido ir aos shoppings. 
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Tsunami como metáfora

Martha Medeiros* 


A palavra tsunami só entrou no meu repertório a partir da tragédia acontecida na Tailândia. Antes disso, se eu a vi escrita em algum lugar, devo tê-la confundido com alguma sobremesa, quem me garantiria que não era uma prima do tiramisu?

Pois tsunami, descobri, era outra coisa, possuía um significado trágico. Águas revoltas emborcando corpos, afogando vidas, eliminando gente num ataque surpresa. Você imagina que está no paraíso (à beira-mar, quem não está?) e de repente é arrastado para as profundezas com tal violência que, se conseguir escapar, não voltará o mesmo. Quem sobrevive, coleciona cicatrizes e traumas. Ou seja, tsunami passou a ser a metáfora ideal para todos aqueles momentos em que somos atingidos por uma força exterior capaz de deixar nosso mundo fora de lugar.

Seu marido saiu de casa, um tsunami. Demissão coletiva na empresa, um tsunami. Seu filho foi vítima de um assalto com arma, um tsunami. Todas as vezes em que você disse para si mesmo “não sei se vou segurar a onda”, era porque um tsunami estava passando por cima da vida satisfatória que você tinha antes.

Eu, que sempre fui fascinada por água, que sonho frequentemente com o mar e que costumo comparar a vida a um barco à deriva, passei a usar e abusar do termo tsunami para descrever abalos emocionais. Até que fui assistir ao filme O impossível, que reproduz o que aconteceu a uma família em férias naquele fatídico 26 de dezembro de 2004, e botei meus pés de pato de molho.

Amores terminam, pessoas adoecem, perde-se o emprego, e tudo isso modifica destinos, mas há que se levar em conta que esses são tsunamis razoavelmente previsíveis. É muito improvável que, durante toda uma vida, você não padecerá de algum infortúnio. Doerá, mas sabe-se que são através dessas dores que amadurecemos. Sofrer é péssimo, ninguém deseja nem merece, mas há que se reconhecer algum valor terapêutico nisso.

Já um tsunami de verdade faz sofrer de uma forma bem menos didática. O filme, principalmente no início, é de um realismo de embrulhar o estômago. Do meio para o fim, ele apela um pouco para o melodrama – a trilha sonora avisa a plateia: hora de chorar, pessoal! Mas é nas cenas iniciais, em que um inocente banho de piscina no hotel se transforma num terror absoluto, que a gente se dá conta de que quase nada do que vivemos em nosso cotidiano se compara a essa brutal agressão pela qual se é atingido de um segundo para o outro.

O que é pior: a dor física ou a dor emocional? Quando ambas acontecem ao mesmo tempo, a catástrofe é completa. Fiquei muito impressionada com o que assisti, porque não era apenas um filme, e sim um convite a entender o que sentem as vítimas de um drama que atinge o corpo por dentro e por fora. Tsunami como metáfora? A partir de agora, usarei com mais parcimônia. Chacinas em escolas são tsunamis. Assassinato de um filho é um tsunami. Já para as nossas dores de cotovelo, frustrações profissionais e tristezas congênitas, a analogia prescreveu. Temporais: é isso que cai sobre nós de vez em quando, amém.
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* Escritora. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 02/01/2013
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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Pequenos contos de Leonardo Sakamoto saem da internet e chegam as livrarias

 (Editora Expressão Popular/Reprodução)


Em tempos de blogs, Facebook, tuítes… os minicontos ganham espaço nas telas dos computadores — nada melhor para aplacar a ira dos que criticam a superficialidade das redes sociais. O jornalista Leonardo Sakamoto lançou em livro, outubro passado, uma coletânea de pequenos contos que publica no Facebook ou em e-mails, sempre dirigidos ao amigos (no melhor sentido da palavra). “Não tenho pretensões literárias para além do humilde registro do real com cara de ficção que abraço cotidianamente na profissão”, destaca ele na apresentação do pequeno livro de 124 páginas e leitura rápida como um flash.

Com a delicadeza e o peso de um haicaísta, Sakamoto constrói em poucas frases um universo delicado e, ao mesmo tempo, visceral. Leva o leitor a sentimentos variados e desconcertantes. Doutor em ciência política, o jornalista e blogueiro cobriu conflitos armados no Timor Leste, Angola e Paquistão; é coordenador da ONG Repórter Brasil e traz em seu livro a preocupação com a condição humana. Está bom… é hora de conhecê-lo:

Três pequenos contos

"Primeiro, foram os nomes dos netos. Depois, a literatura que amava. E ela foi se despindo na frente de todos. Foi estranho, mas o Alzheimer lhe concedeu o direito a uma só lembrança. O que é forte o suficiente para vencer o vazio? Para ela, o primeiro encontro com o homem de sua vida. Passava as tardes na janela, esperando. ‘Ele vem’, dizia a todos… Então o marido, companheiro de décadas, passou a lhe trazer margaridas para cortejá-la. Até que, numa noite, ela disse, colocando as mãos em seus ombros: ‘Não precisa mais. Já me conquisto’. E dormiu o sono longo. Vovô ainda leva flores. Todos os dias"

"Tinha apenas um vestido, de chita, que ganhara do padrinho. Pouco importava que seu corpo sumisse nele. Ao vesti-lo, sentia-se a mulher mais linda do mundo. E, por isso, a mais linda se tornava. O seu brilho ofuscou as outras meninas da vila, que, de tocaia, rasgaram-no e o lançaram às cabras logo na véspera do São José. Chorou tanto que o umbu floresceu. Sua vó, então, colheu as flores e as costurou pacientemente na forma de um belo vestido branco. À noite, a festa sem lua iluminou-se com ela — que dançou sob a bênção das estrelas, sorrindo até a última pétala cair."

"Quando ficava de cama, seu pai trazia um velho livro cujas últimas três páginas haviam sido arrancadas. Então, ela se aninhava nos seus braço para inventarem juntos o final. Na gripe, a princesa fugiu do castelo e foi ser repórter. Perna quebrada: deixou o príncipe em casa cozinhando e saiu com as amigas. Amídalas? Juntou-se a outras e mudaram o mundo. Ontem, já crescida, foi comprar o primeiro livro para a filha. Escolheu com carinho, arrancou as três últimas páginas e, sorrindo, pediu: ‘Pra presente’."

Três perguntas para - Leonardo Sakamoto

Você acha que a literatura está saindo do cotidiano das pessoas?
Peguemos como exemplo meus alunos de jornalismo na PUC-SP. Não creio que não consomem literatura, mas é claro que, perguntando a eles, foi muito mais fácil encontrar quem leu J.K. Rowling e E.L. James do que Guimarães Rosa e Mia Couto. Não porque as duas primeiras sejam melhores, mas talvez porque produzam para uma geração ávida por imagens e velocidade — mesmo que transmitidas em forma de texto. Se considerarmos que não há nada mais próximo do cotidiano das pessoas do que as dificuldades da adolescência ou a descoberta sexual, vemos que a literatura continua bem perto do dia a dia. Particularmente, contudo, tenho a impressão que esses best sellers da era digital não dão muito margem para o leitor construir seus próprios caminhos a partir do texto, mas já entregam boa parte dos pacotes prontos para serem consumidos. Tenho um certo receio que essa literatura preguiçosa, mais do que em qualquer outro tempo, dite regras de comportamento, pasteurizando o cotidiano dos leitores.

Certa vez, Umberto Eco disse que a internet precisa de um filtro, pois grande parte das informações contidas nela são superficiais. Você concorda?
A internet não é algo paralelo ao mundo e sim uma de suas plataformas de interação. Portanto, essa superficialidade está na rede porque também está do lado de cá. A diferença é que, com a popularização da internet, conseguimos ter acesso a uma grande quantidade de informação em um curto espaço de tempo, tornando o fato de que consumimos informação superficial, digamos, mais perceptível. Não acho que seja pela superficialidade que precisamos de filtro, mas pela quantidade gigante de informações em si. Isso significa que nossa profissão vai mudar radicalmente. Creio que, em breve, vamos nos atrelar a jornalistas que confiamos para que façam a curadoria por nós, separando e analisando o que precisamos saber. Tão importante quanto o lado repórter será o nosso lado “porteiro”, uma vez que o lugar de destaque do jornalista como produtor de notícia foi mortalmente ferido com as possibilidades trazidas pelas tecnologias da comunicação.

O que vem em primeiro lugar, o jornalista ou o contista?
Acho que eu teria dificuldade de responder essa. Pois, ao meu ver, uma coisa não está dissociada da outra. Como jornalistas, somos grandes narradores da contemporaneidade. Que, por vezes, utilizam a ficção e em outros momentos a não-ficção para contar o nosso tempo.
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Reportagem por José Carlos Vieira.José Carlos Vieira
Publicação: 31/12/2012 
Fonte:  http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2012/12/31/

A vida é um livro com páginas em branco e o lápis de cor de 2013 está em suas mãos

(*) Ucho Haddad

 

Deixo de lado o jornalismo para, em momento de reflexão e introspecção, desejar a todos o melhor no ano que está prestes a chegar por aqui. Com o tempo fui aprendendo que a vida é um livro, cujas páginas não podem ser arrancadas, por pior que seja o conteúdo de algumas delas. Mas esse livro permite que páginas sejam adicionadas, dependendo da vontade de quem escreve.

Se a vida passa e o desejo cresce, o livro torna-se uma enciclopédia, uma obra em fascículos. Cada um desses fascículos nos é entregue com todas as páginas em branco. A cada um cabe o dever de escrever o que bem quiser, procurando preservar a candura de cada uma dessas páginas. Nem sempre isso é possível, pois afinal a vida não é monocromaticamente rosa. Tanto é verdade, que teve gente que fez sucesso derramando sobre páginas em branco cinquenta tons de cinza. 

Assim como o título da obra literária que é a coqueluche do momento, o livro da minha vida tem várias páginas cinzas, possivelmente com mais de cinquenta tons, alguns mais acentuados do que gostaria. Como a dona do livro, a vida, não permite que páginas sejam arrancadas, como citei, fiz delas uma catapulta para acertos futuros, o avanço profissional, a evolução pessoal, a decantação da minha essência, o refinamento do amor. Em suma, fiz desses tons de cinza a aquarela que coloriu e ainda colore as outras tantas páginas dessa obra.

A vida passa e a cada ano que surge ela nos entrega um novo livro em branco para que escrevamos da melhor maneira. Não importa se a escrita será com caneta desta ou daquela cor, mas é essencial que você procure deixar em cada uma delas um conteúdo colorido, uma história que se pareça com a visão do olho que mira no fundo de um caleidoscópio. Colorido sempre, mutante sempre, impressionante sempre, simples sempre. Sempre!

A vida é um aprendizado contínuo, a cada dia surge uma receita nova, um fato inesperado, uma notícia indesejada, um amor sonhado, um amizade reveladora, um afago confortante, um abraço inesquecível, um beijo que anestesia, uma paixão que entorpece, uma alegria inexplicável, uma tristeza profunda, uma felicidade sem fim, a palavra de um filho, a saudade de um pai, a preocupação de uma filha, a dedicação ou a lembrança de uma mãe. Ainda não estou na fase dos netos, mas se tiver a oportunidade de com eles conviver, sei que serei feliz e as páginas da minha enciclopédia de vida serão mais coloridas.

Neste 1º de janeiro é preciso pegar o livro que a vida deixará a cada um e começar uma nova história, mesmo que seja para reinventar uma história passada. Mude um verbo, conjugue-o em outro tempo, troque um ponto por uma vírgula, evite hifenizar a existência, escreva cada parágrafo como se fosse o último. Capriche na letra, adote a primeira pessoa do plural, mude o pretérito, redesenhe o futuro, seja consoante, mostre o quão adjetiva é sua alma. 

Transforme lágrimas em letras apagadas, tristezas em “na outra linha, travessão”, rime o amor, soletre a paixão, escreva humanidade com letras maiúsculas, traceje a paz com intensidade. Seja intransitivo, não intransigente. Seja o objeto direto de pelo menos uma frase escrita no livro da vida de alguém. Ame sem parênteses, apaixone-se sem ponto e vírgula, doe-se como poesia, ouça a estrofe do próximo. 

Nesse novo livro da vida, em branco, escreva, reescreva, escreva-se, reescreva-se. Não apague o que escrever, não apague a sua história, não apague a si mesmo. A vida é uma redação sem fim, sempre com começo e meio. Mesmo que o seu fim um dia chegue, sua história, dependendo da forma como foi escrita, jamais terá fim. Escreva nas alvas páginas a felicidade do seu jeito, como o coração determinar. Sem medo de errar, querendo acertar. Esforce-se para ser suas próprias reticências.

Nunca deixe de escrever, porque a vida precisa seguir adiante. Nem que seja preciso escrever uma palavra duas vezes e em seguida. Isso faz perder o sentido da frase, mas explica o sentido da vida. Quem escreve sempre e repentinamente para, perde a mão da escrita. E a retomada da escrita é sempre difícil. Nessas páginas brancas, não vazias, também cabe a exatidão da aritmética da vida. Nelas, faça contas, some mais e subtraia menos. Lembre-se que a divisão é a mais eficaz de todas as multiplicações.

Agora, o que mais posso escrever depois de ter escrito tanto? Que as páginas do novo fascículo da enciclopédia da sua vida recebam o melhor de todos os textos, os textos da sua história. Sejam felizes sempre, coloridos a maior parte do tempo, assim como desejo que o Ano Novo seja!
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(*) Ucho Haddad, otimista confesso e lutador incansável, é jornalista político e investigativo, cronista esportivo, escritor e poeta. Como nem tudo é perfeito no mundo, torce para o campeão mundial Corinthians.
Fonte:  http://ucho.info/a-vida-e-um-livro-com-paginas-em-branco-e-o-lapis-de-cor-de-2013-esta-em-suas-maos

A arte de dizer não

MIRIAN GOLDENBERG*
 
A arte de dizer não
Não mendigar amor, não se cobrar, não se levar muito a sério; será que o segredo da felicidade é esse? 

Na minha pesquisa "A cultura da felicidade", 32% das mulheres dizem que não são felizes por serem perfeccionistas, insatisfeitas, críticas, ocupadas, preocupadas, estressadas, inseguras etc.

No entanto, 60% afirma que quer ser mais feliz, leve e divertida.

Elas deram inúmeras dicas para a conquista da felicidade, tais como:

não ser tão crítica com os outros e consigo mesma;

não se preocupar com a autoimagem;

não se cobrar tanto;

não aumentar pequenos problemas;

não se preocupar com a opinião e a aprovação dos outros;

não se levar tão a sério;

não querer ser perfeita;

não ter vergonha do próprio corpo;

não se comparar com mulheres mais jovens, magras e gostosas;

não se olhar muito no espelho;

não conviver com pessoas negativas, agressivas e invejosas;

não fingir orgasmos;

não desperdiçar o tempo com pessoas desagradáveis e fofoqueiras;

não ir a eventos sociais por obrigação;

não responder a todas as demandas de amigos, familiares ou colegas de trabalho;

não dividir o prato só para ser gentil;

não atender aqueles que só sabem pedir ou reclamar (e nunca dão nada em troca);

não emprestar dinheiro nem para o melhor amigo;

não pedir dinheiro emprestado nem se for para o melhor amigo;

não aceitar encomendas quando viajar;

não pedir nada para os que vão viajar;

não ser fiador de amigos ou parentes;

não mendigar amor, atenção e reconhecimento;

não se fazer de vítima;

não achar que é o centro do mundo;

não deixar para amanhã o que pode resolver hoje;

não ter medo de dizer não.

Uma professora de 65 anos disse que descobriu o segredo da felicidade. "Li que o lema da Hillary Clinton é 'foda-se'. Hoje, sou como ela. Não me interessa a opinião dos outros, se gostam ou não de mim e se fazem fofocas. Aprendi a ligar o botão do 'foda-se', passei a dizer não e minha vida ficou muito mais leve."

Ela citou uma frase da atriz Marília Pêra, de 70 anos, para exemplificar a importância de dizer não para ser mais feliz. "A Marília Pêra recusou um projeto importante e uma jovem atriz disse: 'Lógico que você pode dizer não, você é a Marília Pêra!'. Ela respondeu: 'É exatamente o contrário. Eu só sou a Marília Pêra porque aprendi a dizer não'."

Será que é tão simples assim o segredo da felicidade? 
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* MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de "Coroas: Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade" (ed. Record); www.miriangoldenberg.com.br
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/86493-a-arte-de-dizer-nao.shtml
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Monja por dez dias

Chegada à fazenda onde ocorre o retiro, em Miguel Pereira, área rural do Rio de Janeiro
Chegada à fazenda onde ocorre o retiro, em Miguel Pereira, área rural do Rio de Janeiro.

Silêncio absoluto, isolamento e disciplina monástica atraem 120 pessoas para curso de meditação; repórter conta sua experiência

Objetos de valor ficam na portaria. Quem imaginava um spa no estilo oriental leva o primeiro susto



Monja por 10 dias

Viver de esmola em absoluto silêncio, em total disciplina, meditando em posição de lótus durante 12 das 24 horas do dia, sem qualquer contato físico com outra pessoa, em respeito a todos os seres -inclusive baratas, escorpiões, cobras e sapos!-, lavando sua própria roupa, seus pratos, arrumando sua cama.

Sem poder ler, sem poder escrever, sem usar um tocador de mp3 ou CD, sem computador, iPad, e-mail, Facebook. Sem telefone.

A Folha participou do Curso de Meditação Vipassana, um retiro espiritual de dez dias. Baseado em tradição de 2.500 anos, o Vipassana, diz o site, deriva de ensinamentos deixados pelo próprio Buda, transmitidos de geração em geração até hoje.

Dez dias sem saber se o Corinthians sagrou-se campeão mundial de clubes, se o José Dirceu foi preso, se a mãe comprou seu presente de Natal, se o mundo acabou como previram os maias. Dez dias para viver como um monge ou uma monja, praticando os ensinamentos de Buda.

Atrás da promessa da "erradicação das impurezas mentais, da suprema felicidade e da erradicação essencial do sofrimento" (é pouco?), 60 homens e 60 mulheres aterrissaram no dia 12 de dezembro na fazenda Dhamma Santi, área rural de Miguel Pereira (120 km do Rio).

Foram todos logo orientados a deixar objetos de valor (dinheiro, documentos, celulares e câmeras) na portaria.

Quem imaginava um spa de extração orientalista para relaxar em meio a nuvens de incenso, relicários de Buda e bandeiras de oração coloridas ao vento, à moda tibetana, tomou o primeiro susto.

Zero incenso, zero imagem de Buda, zero bandeira colorida. E zero pagamento (os organizadores só aceitam doações, em qualquer valor, de quem passar dez dias lá).

As paredes de tijolo aparente não contêm um só adereço. Das lindas trilhas abertas nas montanhas recobertas de mata atlântica só podem ser percorridos menos de cem metros que separam os dormitórios do salão de meditação e do refeitório. O restante está interditado por placas que avisam: "Limite". Dali não se passa.

É claro que fumar não pode, como também não pode beber, usar calmantes "ou qualquer tipo de intoxicante". Então, fica-se assim: das 24 horas do dia, 12 horas serão dedicadas à meditação e 12 horas servirão para dormir, alimentar-se, descansar, cuidar da higiene.

"Não tem milagre ou mágica. Não adianta focalizar a mente em uma imagem, em uma cor, em um som" [refere-se àquele "ommmm" pronunciado com os olhos fechados], avisa o professor birmanês Satya Narayan Goenka, 88, principal mestre de Vipassana hoje em atividade.

A voz de Goenka gravada em CDs é a única que se ouve no curso. Ele canta, recita ensinamentos em páli (a língua falada no norte da Índia no tempo de Buda), explica em inglês (tudo com tradução).

A ideia da meditação Vipassana é transformar a mente em um scanner que percorre cada parte do corpo, localizando as sensações agradáveis, desagradáveis, fortes e tênues que se manifestam. Então, usando de "equanimidade" (sem avidez ou aversão), vê-se como elas, impermanentes, efêmeras e mutáveis ("Anicca", em páli), dissolvem-se por si mesmas.

Segundo Goenka, "o autoconhecimento baseado na observação resulta numa mente em equilíbrio, cheia de amor e compaixão".

Mas haja força de vontade. Nos dois primeiros dias, é o próprio Goenka quem avisa: "A coluna dói, a cabeça dói (muito), pensa-se em desistir". Tem mais: o tempo não passa, a claustrofobia pega, a chuvarada deixa o retiro às escuras durante dois dias, aparecem pelo menos três sapos, uma cobra coral (megavenenosa), duas baratas, um escorpião e um caramujo, fora os pernilongos.

Duas mulheres não aguentam e "fogem", depois de crises de choro (há testemunhas), dores nas costas (nem precisa) e talvez fome.

A reportagem da Folha emagreceu 3,5 kg nos dez dias de saborosa alimentação vegetariana. Ainda não sabe se está com a mente mais equilibrada, "cheia de amor e compaixão".


Ninguém se fala, ninguém se olha ou se toca

Limpava-se o banheiro compulsivamente; Os dias duram muito quando não se pode falar, assistir TV ou passear na internet 
DA ENVIADA A MIGUEL PEREIRA (RJ)
  A decretação do fim do "nobre silêncio", no último dia do Curso de Meditação Vipassana, encheu de blá-blá-blá, sorrisos e histórias as instalações sóbrias do retiro.

Logo se soube que o sapo do banheiro, um anfíbio safado que parecia se divertir assustando as moças que iam tomar uma ducha, foi removido de lá corajosamente pela meditadora Claudete Sarapu, professora de Santo André. Ela o pegou usando um pano de chão como luva.

Ou que a consultora de sustentabilidade Gabrielle Lopez, 26, uma experiente frequentadora de retiros (já fez em Bali e na Costa Rica), a partir do sétimo dia não conseguiu mais acompanhar as meditações, o pensamento vagando disperso. "E por que você ficou?", quis saber a reportagem. "Tinha esperança de que melhorasse", afirmou.

O "nobre silêncio" não se limita a um "cala a boca". Significa "abster-se totalmente da comunicação com outros, verbal ou física, mesmo que por intermédio de gestos ou olhares", em busca do "silêncio mental". Pesa.

Durante toda a vigência desse silêncio em sentido amplo, ninguém sorriu para ninguém. Acabou também a gentileza, que exige interação entre viventes.

Noite fechada, sem luz (a chuvarada havia derrubado a rede elétrica), quem tinha lanterna fez facilmente o percurso entre os dormitórios e a sala de meditação. A quem não tinha, restou torcer para não pisar em uma cobra. Ninguém ofereceu ou pediu carona no facho de luz.

A mesma coisa aconteceu com os portadores de guarda-chuvas. Quem tinha, tinha. Quem não tinha, tivesse. Muitos chegaram à meditação pingando.

Nada favorecia a interação. No refeitório, as pessoas sentavam-se como se fosse em bancos de igreja. Todos voltados para o mesmo lado, de modo que ninguém se encarasse.

Mas o "nobre silêncio" acabou também com a histeria coletiva. Incrivelmente, a aparição de baratas, escorpiões, sapos e cobras não ocasionou um tsunami de gritos.

Na verdade, nenhum grito se ouviu, nem mesmo quando uma barata cismou de voar sobre as meditadoras concentradíssimas. Seria esse o caminho da iluminação?

Em absoluto silêncio, uma jovem levantou-se calmamente e pegou o chamado "kit salva inseto", que consiste em uma vasilha de plástico transparente e uma cartolina.

A vasilha, emborcada, imobilizou a barata, impedindo-lhe a fuga. Então, a cartolina foi enfiada por baixo. E levou-se a barata aprisionada para um matinho, onde ela foi de novo libertada.

Fiel ao princípio budista de respeito a todos os seres, ali não se matam animais -nem os peçonhentos.

Entre as mulheres houve aquelas que, exasperadas pela disciplina rígida, levaram ao extremo o que era possível. Já que era possível lavar roupas, lavava-se roupas todos os minutos de descanso. Esfrega aqui, torce ali, pendura no varal. E de novo, de novo.

Também podia-se limpar o banheiro, então limpava-se o banheiro compulsivamente. Ou varria-se o quarto. E a varanda. Os dias duram muito -demais- quando não se pode falar, assistir à televisão ou passear na internet.

O professor Goenka prometeu em várias de suas palestras (sempre ministradas à noite) que o final do curso viria acompanhado por semblantes felizes, típicos de pessoas maravilhadas com as possibilidades abertas pelos ensinamentos recém-adquiridos.

De fato, no final, mesmo todos sendo obrigados a fazer uma última faxina nas instalações, os semblantes estavam exultantes. Havia felicidade no ar.
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Reportagem por  LAURA CAPRIGLIONE ENVIADA A MIGUEL PEREIRA (RJ)
Foto:  Marlene Bergamo/Folhapress
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/86489-monja-por-dez-dias.shtml

2013: coragem para se renovar

 
Há mais de quinze anos atrás publiquei no Jornal do Brasil um artigo sob o título “Rejuvenescer como águias”. Relendo aquelas reflexões me dei conta como de elas são ainda atuais nos tempos maus sob os quais vivemos e sofremos. Retomo-as para alimentar nossa esperança enfraquecida e ameaçada pelas ameaças que pesam sobre a Terra e a Humanidade. Se não nos agarrarmos a alguma esperança, perdemos o  horizonte de futuro e corremos o risco de nos entregarmos ao desamparo imobilizador ou à resignação estéril.

Neste contexto lembrei-me de um mito da antiga cultura mediterrânea sobre o rejuvenescimento das águias.

De tempos em tempos, reza o mito, a águia, como a fênix egípcia, se renova totalmente. Ela voa cada vez mais alto até chegar perto do sol. Então as penas se incendeiam e ela toda começa a arder. Quando chega a este ponto, ela se precipita do céu e se lança qual flecha nas águas frias do lago. E o fogo se apaga. Mas através desta experiência de fogo e de água, a velha águia rejuvenesce totalmente: volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude. Seguramente este mito constitui o substrato cultural do salmo 103 quando diz:”O Senhor faz com que minha juventude se renove como uma águia”.

E aqui precisamos ser um pouco psicólogos da linha de C.G. Jung que tanto se ocupou do sentido dos mitos. Segunda esta interpretação, fogo e água são opostos. Mas quando unidos, se fazem poderosos símbolos de transformação.

O fogo simboliza o céu, a consciência e as dimensões masculinas no homem e na mulher. A água, ao contrário, a terra, o inconsciente e as dimensões femininas no homem e na mulher.
Passar pelo fogo e pela água significa, portanto, integrar em si os opostos e crescer na identidade pessoal. Ninguém ao passar pelo fogo ou pela água permanece intocado. Ou sucumbe ou se transfigura, porque a água lava e o fogo purifica.

A água nos faz pensar também nas grandes enchentes como conhecemos em 2010 nas cidades serranas do Estado do Rio. Com sua força tudo carregam, especialmente o que não tem consistência e solidez. São os infortúnios da vida.

E o  fogo nos faz imaginar o cadinho ou as fornalhas que queimam e acrisolam tudo o que não é ganga e não é essencial. São as notórias crises existenciais. Ao fazermos esta travessia  pela “noite escura e medonha”, como dizem os mestres espirituais, deixamos aflorar nosso eu profundo sem a ilusões do ego. Então amadurecemos para aquilo que é autenticamente humano e verdadeiro. Quem recebe o batismo de fogo e de água rejuvenesce como a águia do mito antigo.

Mas abstraindo das metáforas, que significa concretamente rejuvenescer como águia? Significa entregar à morte todo o  velho que existe em nós para que o novo possa irromper e fazer o seu curso. O velho em nós são os hábitos e as atitudes que não nos engrandecem: a vontade de ter razão e vantagem em tudo, o descuido para com o lixo, o desperdício da água e o desrespeito para com a natureza, bem como a falta de solidariedade para com os necessitados, próximos e distantes. Tudo isso deve ser entregue à morte para podermos inaugurar uma forma de convivência com os outros que se mostre generosa e cuidadosa com a nossa Casa Comum e com o destino das pessoas. Numa palavra, significa morrer e ressuscitar.

Rejuvenescer como águia significa também desprender-se de coisas que um dia foram boas e de ideias que foram luminosas mas que lentamente, com o passar dos anos, se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar o caminho da vida. Temos que nos renovar na mente e no coração.

Rejunecer como águia significa ter coragem para recomeçar e estar sempre aberto a escutar, a aprender e a revisar. Não é isso que nos propomos a cada  novo ano?

Que o ano de 2013 que se inaugura, seja oportunidade de perguntar o quanto de galinha existe em nós que não quer outra coisa senão ciscar o chão  e o quanto de águia há ainda em nós, disposta a rejuvenescer ao confrontar-se valentemente com os tropeços e as crises da vida. Só então cresceremos e a vida valerá a pena.

E não podemos esquecer aquela Energia poderosa e amorosa que sempre nos acompanha e que move o inteiro universo. Ela nos habita, nos anima e confere permanente sentido de lutar e de viver.

Que o Spiritus Creator nunca nos falte!

Feliz Ano novo de 2013.
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* Teólogo. Escritor.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/31/2013-coragem-para-se-renovar/
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