terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mergulhar é preciso

DENISE FRAGA *
O que diria um pescador de Dorival Caymmi se soubesse que navegamos no mundo virtual? 

Uma coisa pra se fazer na vida antes de morrer: conhecer o fundo do mar. Estive uma vez em Fernando de Noronha e foi uma experiência transformadora. Entendi completamente o sentido da palavra mergulhar.

Não sei se pelo estado de alerta que você fica à espera das surpresas submarinas, pela incrível sensação de flutuar no abismo ou simplesmente pelo único som que lhe resta ser o esquecido compasso da sua respiração, você acaba entrando num estado de concentração único e inesquecível. Um verdadeiro mergulho.

Pouco tempo depois dessa experiência, li no jornal sobre o casal que sobreviveu ao tsunami por estar justamente mergulhando. Pensar que tudo aquilo lhes passou por cima e eles continuaram a ouvir o som de suas respirações. Se estivessem navegando, teriam sido trucidados. Estar mergulhando, o que parecia mais perigoso, os salvou.

Gosto desta história. Acho bonita e irônica. Salvar-se no profundo. Salvar-se por mergulhar. Além de inacreditáveis tartarugas gigantes, o mar também nos oferece muitas metáforas. Fernando Pessoa e Dorival Caymmi se fartaram nelas. Navegar é preciso, viver não é preciso.

Passando de novo os olhos pelos versos do poeta, não consigo deixar de pensar em outro mar. Quantos de nós têm deixado de viver pra navegar? Nosso mundo virtual também vive se utilizando de imagens marinhas, mas o que diria um pescador de Caymmi se soubesse que navegamos na rede?

Já acho curioso falarmos navegar. A janela azul aberta ao mundo virtual parecia coisa de ficção científica, uma tela que nos tragaria da cadeira para um mergulho em outros mundos. Mergulhar pareceria ser o verbo perfeito e até justificaria o efeito de ausência surda e muda que baixa sobre nós, seres de faces azuis, capturados.

Mas o verbo virtual é navegar. Pensando bem, é justo. É algo que anda na superfície. Você quer um site e lhe são oferecidos outros tantos. Janelas que abrem para janelas. A cada clique, outra centena de possibilidades.

Tudo se espalha numa ramificação eterna e quando você resolve mergulhar é inevitável a sensação de perda do que poderia estar escondido no imenso mar oferecido à sua navegação. Sinto que a rede nos força naturalmente à superfície em suas imensas possibilidades.

Volto ao casal mergulhador e penso nos meus mergulhos literários de três horas sem sentir o tempo, na sala escura do cinema, nas peças de teatro e em quantas coisas que nos salvam por serem estados de mergulho pleno. Mergulhar é preciso. 
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É proibido proibir?

João Pereira Coutinho*
 

Mas como responder aos direitos das "mães de aluguel"? Ou até dos "filhos comprados"? 


É um dos vícios do mundo moderno: a crença patética de que tudo é possível, tudo é permissível. Ou, como diziam os filhos do maio de 68, é proibido proibir.

Um caso ilustra esse vício com arrepiante precisão: as "barrigas de aluguel".

Li a excelente matéria de Patrícia Campos Mello publicada nesta Folha no domingo. E entendo a pergunta que anima o negócio: se um casal não pode ter filhos por infertilidade da mulher, por que não contratar os serviços de uma "mãe de aluguel", que terá o seu óvulo fecundado pelo espermatozoide do pai adotivo?

Na Índia, a pergunta virou turismo: só na cidade de Anand, conta a jornalista, nasce uma criança a cada três dias para "exportação". Os "clientes" costumam ser americanos, britânicos, japoneses, canadenses. Mas também há brasileiros na lista de espera. Que dizer do cortejo?

Começo pelas questões éticas básicas: será que um filho deve ser comprado (US$ 20 mil na Índia) como se compra uma mala Louis Vuitton ou um par de sapatos Manolo Blahnik?

E será legítimo, ó consciências progressistas, transformar as pobres do mundo em incubadoras dos filhos dos ricos? Não é preciso ter lido Kant para saber que os seres humanos devem ser tratados como um fim em si, não como um meio para.

Fato: o negócio é voluntário. Todas as partes participam dele com "autonomia", para usar ainda a linguagem kantiana. Mas o argumento da autonomia, mil perdões, não chega.

Se chegasse, nada impediria que um ser humano optasse autonomamente por ser escravo de outro. Vamos permitir o regresso da escravidão, mesmo que voluntária, desde que o escravo e o seu senhor exerçam os seus papéis autonomamente?

Não creio. Até porque falar em "autonomia" para gente em situação de pobreza extrema não passa de uma piada de mau gosto: a "mãe de aluguel" indiana e a mãe adotiva americana não habitam o mesmo planeta. A segunda escolhe comprar porque pode. A primeira praticamente é forçada a vender pela miséria da sua situação.

Na discussão das "barrigas de aluguel", parece que só os direitos das mães adotivas têm verdadeira força ética -o direito a serem felizes; o direito a terem filhos; o direito a comprá-los; e etc. etc.

Mas como responder aos direitos das "mães de aluguel"? Ou até dos "filhos comprados"? Será que essas duas entidades têm direitos, no sentido prosaico do termo?

Tempos atrás, quando em Portugal se debatia a "maternidade de substituição" (um processo semelhante às "barrigas de aluguel", mas sem dinheiro envolvido), lembro-me de formular algumas questões a respeito que se aplicam com maior força às "mães de aluguel" a aos "filhos comprados" de Anand.

Que direitos terá uma "mãe de aluguel" depois de entregar o filho biológico ao casal adotivo? Poderá visitar a criança? Será obrigada a afastar-se dela? Como? Por quê? Com que legitimidade?

E se, durante a gestação, a "mãe de aluguel" se recusar a entregar o filho porque desenvolveu uma ligação emocional com ele? Haverá forma de a coagir a cumprir o negócio? Em caso afirmativo, será isso tolerável? Será, no mínimo, decente?

Melhor ainda: o que acontece, para citar alguns casos que ficaram célebres nos Estados Unidos, quando o feto apresenta uma malformação uterina e a mãe adotiva pretender abortá-lo contra a vontade da "mãe de aluguel"? Pode? Não pode? Deve? Não deve?

Sem falar do próprio filho, aqui transformado em mero brinquedo sem rosto ou dignidade própria. Quais são as consequências para uma criança quando ela é separada precocemente da sua mãe biológica? Que impacto isso terá no seu desenvolvimento psicológico ou social? Alguém sabe? Alguém se interessa?

Aliás, como irá essa criança reagir quando, mais tarde, ela souber que foi o produto de uma "encomenda"? Será que deve saber? Será que não deve?

As perguntas não são apenas minhas. Elas encontram-se na vastíssima literatura ética sobre o assunto -e cada uma dessas perguntas foi motivada por um drama concreto, vivido por gente concreta, que entrou no negócio por acreditar que um filho é precisamente isso: um negócio.

Não é. Exceto para cabeças ocas que transformam qualquer desejo em "direito" -e qualquer "direito" em exploração dos mais pobres. 
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* Jornalista. Colunista da Folha
Fonte: Folha on line, 05/02/2013
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Negação e racionalização

Francisco Daudt*
 

Precisamos de mecanismos de defesa que nos protejam do excesso de realidade e da consciência da morte 

Um cliente me explicou que, quando Hitler começou sua ascensão ao poder, os judeus alemães se dividiram em três grupos: o primeiro, de baixo teor de negação, anteviu o desastre e se mandou; o segundo, em que a negação conversava com a racionalização ("Afinal, não pode ser tão ruim, ele está melhorando a Alemanha". "É, mas o discurso dele é autoritário, e você sabe como ele se sente em relação aos judeus". "Mas nós ainda somos uma democracia, podemos fazer alguma coisa"), escapou por um triz, na última hora.

O terceiro negou até o fim e acabou nos Auschwitz da morte.

Negação e racionalização fazem um par de mecanismos de defesa automáticos, necessários para nossa saúde mental, mas que se tornam doença quando passam do ponto.

Precisamos de mecanismos de defesa que nos protejam do excesso de realidade. Sem eles, a consciência da morte nos deixaria imobilizados, e ninguém entraria num avião (duas violências contra nossos instintos: confinamento e altura).

Veja a conversa dos dois: "Não vai acontecer nada", diz a negação. "O avião é a maneira mais segura de viajar, já pensou quantos voos partem e chegam ao destino, inteiros por dia?", diz a racionalização.
 
Há uma negociação permanente, uma avaliação de custos e benefícios que usa esses mecanismos: "Risco há, mas pequeno". "E, depois, eu chego a Paris". "Logo comigo vai acontecer alguma coisa?". É raro que tomemos consciência desse diálogo interno, mas ele se dá, praticamente, a cada ação humana.

Esses mecanismos nos defendem das ameaças que vêm de outro programa mental, o superego. Ele nasce conosco para nos dar medo de perigos ancestrais (escuro, altura, confinamento, cobras e insetos voadores, por exemplo). Não se tem medo de automóveis, é coisa muito nova para o superego ter absorvido.

Alimentado por nossa criação, ele pode ser um crítico exigente e severo, sempre a nos julgar mal e a nos ameaçar com a imaginação das piores coisas. Nessa hora, entram os mecanismos de defesa, para abafá-lo.

Vivemos um equilíbrio delicado: se o superego passa do ponto (como quando pensamos em problemas no escuro da noite insone ou em situações de estresse), somos capazes de adoecer de depressão, de vícios ou de loucura (mecanismos de defesa graves).

Se esses mecanismos passam do ponto, podemos desconsiderar perigos e acabar como os judeus de Auschwitz.

A presidente falando na TV me apavorou. Além de vender uma negação absurda (só pensam em racionamento os inimigos do Brasil), ela dividiu o país em dois grupos: "nós" (patriotas e apoiadores do governo/país) e "eles" (pessimistas, críticos do governo/país, que ela parece pensar como uma só coisa).

Uma espécie de "Brasil, ame-o ou deixe-o". Médici não faria melhor.

Sou um "deles". Em que grupo de judeus estarei eu? Acho que no segundo. "Ainda somos uma democracia". "Mas, e a Venezuela, que essa turma adora?". "Olha o Supremo!". "Olha o Congresso...". "Mas tem a oposição". "Que oposição?".

Está bem, vou ficando, fazendo o que posso, mas de olho! 
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* COLUNISTA DA FOLHA
www.franciscodaudt.com.br
FONTE:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/05/02/2013
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Carta a Santa Maria

EROS ROBERTO GRAU*
 

Tiradentes (MG), 1º de fevereiro de 2013

Amiga,
 
Estou lendo um livro, escrito por um físico norte-americano, sobre a possibilidade de um multiverso em lugar do universo. Um livro sério. Difícil de ler, sobretudo para quem – como eu – nada sabe de mecânica quântica e física. Mas o texto, ainda assim, me fascina. Para que tenhas uma leve ideia do quanto encanta, admitas a possibilidade de que existam incontáveis cópias minhas vivendo em incontáveis universos paralelos a este que pensamos conhecer, possivelmente começando a te escrever.

Se for assim, a realidade em cada um desses inumeráveis universos, onde se encontram inumeráveis Terras, pode ou não ser repetitiva.

Pois decido, agora, que não. Não se repete e, certamente, querida, certamente terei entrado, na madrugada do domingo, 28, em um tunelamento quântico, errando de universo. Não é verdade que te machucaram.

Não quero ver as imagens que chegam pela televisão. Mudo de canal, penso nesse livro que ando a ler, tento convencer-me de que essa tragédia aconteceu em outro universo. Fecho os olhos, penso em ti.

Penso no pai, meu primeiro amigo. Em uma canção que toda a nossa gente conhece, o César Passarinho pede o que mais desejo: que digam, quando eu passe, que saí igualzito ao pai. Caminhávamos pela primeira quadra, que desemboca na praça Saldanha Marinho, onde, em noites não tão frias, as moças passeavam em um sentido, os rapazes pelo lado oposto, como que compondo um carrossel.

Ali, na primeira quadra, em 1943 – penso que era 1943 – recebi uma lição exemplar. O pai encontrara três amigos, o Edmundo Cardoso, o Círio Simões Pires e o Cherubim Abelim. Em um instante, o guri que eu era – ainda não completara três anos – tomou nas mãos um livro que estava com o Círio e jogou no chão. O pai ralhou comigo de modo inesquecível: “Tu não tens senso de responsabilidade!”. O episódio ficou marcado na história da família que fomos nós três, a mãe, o pai e eu. No teu chão aprendi a não ter manhas de filho único.

Deixei-te bem gurizinho. Mas voltávamos sempre, tu sabes, embora nunca mais de uma vez por ano. Sempre que ia ao teu encontro eu me sentia voltando, retornando ao começo.

Certo dia, no início dos anos 50, caminhávamos pela “primeira quadra”. Meu pai encontrava velhos amigos e, apontando-me, dizia: “este é o Eros Roberto, meu filho”. Sorríamos, e o guri que eu era sentia-se firme no mundo.

Deixei-te tão cedo, querida. Por isso mesmo, com vontade de voltar. Vontade de recuperar imagens, vozes, gestos. Coisas da década dos 40. Meu avô de bombachas me descascando laranjas, fazendo-lhes, nos ventres aloirados, pocinhos bem marcados. Anos depois, aventuras e venturas de adolescente e de já moço, tantas! Tenho muito a contar, de ti e de mim, em conversas de galpão comigo mesmo.

O tempo passa e, nesse ir-se indo, leva pessoas, sopra memórias. Guardo-as cuidadosamente, de modo que, se hoje passeasse pela primeira quadra, lá as encontraria. Seria tão bom, como se em meu tempo de menino, caminhar agora por ali, encontrar amigos do pai, olhar as moças na praça.

De quando em quando falo por telefone com os primos, prometo de repente aparecer, botaremos a prosa em dia lá na Sociedade Concórdia Caça e Pesca, na Venâncio Aires. Vamos logo nos ver – garantimo-nos uns aos outros.

Assim fluía o tempo, a areia escorrendo docemente na ampulheta, até que meu sonho de menino foi bruscamente interrompido. De repente, foi como se aquela fumaça me envolvesse, acordasse sufocado e descobrisse que – mais do que frágil, passageira, inconsistente – a vida que surpreende para o belo repentinamente apunhala. Um punhal cravado em nosso peito.

Por isso, querida, agora te escrevo. Tenho falado em ti nesses últimos dias, tenho dito coisas que repito nesta carta. Não podendo estar neste momento ao teu lado, escrevo-te. Mas é como se eu te tomasse em meus braços. Tu, que embalaste tanto o guri que continua em mim. Tomo tuas mãos, carinhosamente. As lágrimas em meus olhos já não são como as que os alcançam quando enlaço ternuras que despertas em mim. Agora é como se eu te abraçasse, trazendo-te bem para perto de mim, e nos uníssemos ainda mais sob essa enorme tristeza.
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* Santa-mariense, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, membro da Academia Paulista de Letras.
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Fonte: ZH on line, 05/02/2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Internet pode inspirar novas formas de educação

Pesquisa questiona a visão da escola como único e centralizador polo de difusão de conhecimentos, e enxerga na cultura libertária da web a inspiração para mudanças estruturais na educação


Os usos das novas tecnologias pelos alunos da Educação para Jovens e Adultos (EJA) não começa nas escolas. Com sua grande e complexa estrutura, a instituição escolar não representa, para estas pessoas, um meio facilitador de interação com as mais recentes inovações tecnológicas. É o que aponta pesquisa da Faculdade de Educação (FE) da USP, que questiona a visão da escola como único e centralizador polo de difusão de conhecimentos, e enxerga na cultura libertária da internet a inspiração para mudanças estruturais na educação, como as "comunidades de aprendizagem".

A professora Bianca Santana é a autora da dissertação de mestrado Jovens e adultos em processo de escolarização e as tecnologias digitais: quem usa, a favor de quem e para quê? Além de um breve estudo sobre a região, a pesquisadora entrevistou 30 alunos entre os anos de 2011 e 2012, em salas da EJA, desde a alfabetização até o ensino médio, situadas em cinco escolas públicas nos bairros de Brasilândia e Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo, com o objetivo de compreender a relação entre utilização de novos adventos tecnológicos e a escola.

A aplicação dos questionários revelou que, entre os entrevistados, 75% já tinham computador em casa; mais de 50% já haviam concluído curso de informática; 26% tiveram o primeiro acesso à internet realizado em casa, 35% em "lan houses" e apenas 15% haviam acessado a grande rede de computadores nas escolas pela primeira vez. Os principais usos da internet apontados pelos entrevistados foram: realização de pesquisas gerais, utilização de redes sociais e emails, downloads de filmes e músicas, e recreação com jogos online.

Para Bianca, os resultados demonstram que a importância da escola como meio de introduzir novas tecnologias para jovens e adultos da EJA é praticamente nula: "Uma das perguntas feitas era sobre a quem os alunos recorriam quando tinham dúvida na utilização de computadores, e nenhum dos 30 entrevistados respondeu 'ao professor'. As pessoas que ajudavam a solucionar suas dúvidas eram os amigos, filhos, netos, monitores de lan houses."

Além de constatar a desarticulação entre usos de novas tecnologias e alunos da EJA, o estudo demonstra outros sintomas da dificuldade de escolarização de adultos: "Hoje o campo da EJA sofre uma dificuldade muito grande nas políticas públicas de educação. Existe pouca valorização da sociedade em geral acerca da EJA, e pouco incentivo para que adultos estejam nas escolas. A EJA é o primo pobre da educação", relata a professora.

Comunidades de Aprendizagem
Bianca afirma que, seu estudo demonstra como é difícil a implementação de políticas públicas que venham de "cima para baixo": "Nos escritórios e gabinetes podemos pensar e imaginar as mais diversas, criativas e inovadoras políticas para a educação. Entretanto, quem aplica essas políticas, os professores e os alunos, em última estância, é que de fato conhecem as demandas e as necessidades reais de mudança na educação, o que pode dar certo ou errado."

Como possível saída para o impasse,  Bianca propõe a reflexão acerca das "Comunidades de Aprendizagem", a articulação das escolas com outros equipamentos de seu entorno: "Se o Telecentro ou mesmo as Lan Houses são lugares onde as pessoas podem aprender sobre novas tecnologias, isso não precisa necessariamente acontecer na escola. As escolas podem ser, no caso da EJA, o local onde os adultos aprendem a ler e escrever, e até mesmo, conhecimentos básicos de informática, mas não podem ser a única fonte de conhecimento."

Segundo o estudo, mesmo a questão burocrática referente a emissão de certificados por parte da escola poderia ser resolvida. As comunidades de aprendizagem poderiam promover o encontro de profissionais de uma determinada área e interessados em conhecer sobre aquele campo de trabalho. Após o repasse de conhecimentos e saberes, a escola poderia emitir um certificado de formação para os 'alunos'. Desta maneira, os saberes seriam diversificados, e a responsabilidade única da escola no repasse de conhecimentos dignos de certificação, descentralizada.

Bianca acredita que, mais do que comprar aparelhos eletrônicos de última geração, se quisermos pensar a tecnologia na escola, e, mais especificamente na EJA, deveríamos nos basear em como se organiza a arquitetura da Internet atualmente: "É urgente repensarmos o direito humano a educação, e como o podemos viabilizar. O principio básico e mais interessante da internet é que todas as pontas, todos os computadores, têm igual 'poder' de emitir e receber informações. A internet é fantástica por conta de sua perspectiva igualitária e libertária. A escola não têm que necessariamente resolver tudo, e a educação popular no campo da EJA, a exemplo da internet, deveria ter currículos abertos, flexíveis e conectados a seus alunos, que já possuem muitos saberes e experiências de vida."

(Agência USP)
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FONTE: http://www.jornaldaciencia.org.br/04/02/2013
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A superfície do planeta é limitada

Oscar Daniel Corbella*
 
Os gregos antigos o sabiam, melhor que os gregos atuais: o Planeta tem uma superfície finita.

Mediram as sombras de estacas iguais em cidades diferentes, à mesma hora, e chegaram à conclusão de que a Terra era redonda; chegaram a calcular seu diâmetro com um valor vizinho ao que conhecemos atualmente. A Terra não era mais plana e de superfície infinita, como se acreditava até o momento.

Porém há pessoas que ainda hoje não se convenceram. Continuam a pensar que a superfície é infinita, assim como os recursos que se podem tirar dela. São os capitalistas ortodoxos.

Concebem o mundo como uma superfície em expansão da qual se podem extrair recursos em quantidades cada vez maiores. Não há limite da água a utilizar nem a poluir, a eletricidade vai continuar sua expansão, pois não tem limite o minério de cobre a extrair. Terminou o estanho na Bolívia? Não tem importância sempre haverá mais montanhas a derrubar em outras partes do mundo. Com o petróleo, mesma coisa, só aumentar o preço que aparece em outro lado. No ano passado foram despejadas 30.000.000 Toneladas de CO2 na atmosfera? Mas, o volume da atmosfera não tem limites! Não se pode parar o desenvolvimento, o consumo, o que é que vocês querem?! Vocês estão contra a filosofia da civilização ocidental!

E sim. Se soubermos que o planeta é finito, então se deve pensar em extrair o menos possível e reciclar, e usar a tecnologia para isso, para aumentar a qualidade de vida sem ferir a natureza; parar a competição consumista, ajudando a preservar a humanidade em nossa Terra.

A tarefa é pensar soluções. Assim vamos para a borda do abismo; tem que se parar e modificar o rumo.

Os meninos tem que crescer. Os adultos não; por definição: só é adulto quem não cresce mais. Deve se pensar na sociedade humana da mesma maneira. Uma parte ainda deve crescer, mas outra, que já é adulta não deve crescer ainda mais. Se não converte-se em um crescimento indesejado, como um câncer.

Neste momento a crise do sistema obrigará os europeus a mudar seus hábitos de consumo. Eles não querem; estão pressionados pela televisão, pela propaganda, pela cultura estabelecida pelo capitalismo, a consumir mais; e sofrem, em lugar de fazer alguma coisa para auxiliar os que realmente passam fome. Na Europa ou no “Terceiro Mundo”.

Alguém calculou que se todos os habitantes do Mundo tivessem o nível de vida da classe média europeia ou norte-americana, para 2050 a necessidade de insumos seria tão grande que a superfície para a extração deveria ser do tamanho de duas Terras.

Sete bilhões de pessoas que devem comer e defecar todos os dias, mais dois bilhões esperados até 2050, põem problemas irresolúveis para uma sociedade capitalista regida pelas leis do mercado, pela competitividade e pela falta de fraternidade.

O crescimento da população na Terra

Constata-se que há mais nascimentos que óbitos. Portanto a população da Terra cresce. Todos concordam em que o crescimento deve ter um limite, porque a superfície da Terra tem um limite. Porém, tem zonas com população demais e outras onde esta pode crescer muito sem acarretar problemas. A América do Sul tem uma densidade menor que 20 habitantes por quilômetro quadrado, ao passo que Inglaterra tem mais de 200. Logo há regiões que podem crescer e zonas onde isto não é muito conveniente.

Também devemos considerar que nas regiões onde a cultura é tal que os futuros pais acham que tem responsabilidades para com seus filhos (por exemplo, trabalhar mais para lhes dar de comer, ou conhecem algum método anticoncepcional) se produz um número menor de nascimentos. Será possível estabilizar o número de pessoas vivas em torno de um valor compatível com as necessidades da vida?

Voltando para o modelo da comparação da sociedade humana com o corpo vivo de um adulto. Este último vive numa estabilidade dinâmica: células morrem e outras nascem, partes se deterioram e são melhoradas pelos médicos, ou por curas psicológicas, ou pelas defesas naturais. Será possível atingir um estado similar para a sociedade humana? O limite será dado pela tecnologia dos alimentos, pela saúde da terra, e pela preservação da natureza.

Fraternidade

O primeiro problema a resolver é potencializar a fraternidade. No corpo humano as células sanguíneas levam oxigênio e alimentos para todas as partes que pertencem à unidade. E se não são atacadas, interferidas ou problematizadas, cumprem com sua função de manter o corpo vivo nas melhores condições, e dar indicações de perigos ou necessidades. Por exemplo, se não tiver água e alimentos sólidos suficientes, após um tempo as células vão-se desorganizar.

A necessidade de água e alimentos sólidos é primordial, e o corpo como um todo vai-se mobilizar para encontrá-los e, se necessário, colaborará com uma incipiente sociedade organizada para consegui-lo, na qual todos devem contribuir para isso.

Com a Terra se passa algo similar, mas com a diferença de que o alimento está assegurado. Em todo momento o Sol está enviando toda a energia necessária, e muito mais, para manter a vida sobre o Planeta. A Terra toma a que precisa, processa e emite o resto de que não necessita. Assim foi nos últimos 250 milhões de anos de presença humana sobre a Terra. Agora estamos atacando esse equilíbrio.

Tem-se que ajudar a mudar o paradigma criado pela televisão de que é possível uma “sociedade” de competidores. Uma sociedade precisa de sócios não de inimigos. A necessidade de se defender dos perigos cria bloqueios de comunicação, mas quais são os perigos se a sociedade for fraternal? Fraternal deriva de “frate” ou irmão, aquele que tem uma mãe em comum, e por extensão uma pátria comum, ou é um “sócio” que tem uma tarefa ou um conceito comum. A presença no inconsciente da educação sobre a existência de “Cain versus Abel” leva ao possívelintercambio de explosões atómicas entre Israel e os países árabes. Isso deve ser mudado.

Consequência: Limite físico para as cidades sustentáveis

Quando em 1998 escrevíamos que era necessário criar novas cidades sustentáveis e produtivas para sair da crise do capitalismo que nos estava arrastrando a todos, afirmávamos que essas cidades deviam ser limitadas fisicamente. Sem limites físicos não é possível pensar em sustentabilidade. A existência da contaminação atmosférica, de vergonhosas favelas e da violência são consequência direta da falta de limites físicos, e por que não, de toda falta de limites que organizem a sociedade em termos de fraternidade.

Uma rede de cidades sustentáveis, que cresçam como as células humanas, dividindo-se e criando outras na medida em que evoluam, poderia ser uma saída para esta crise provocada. As cidades deveriam produzir seus alimentos e energia, ter trabalho para seus cidadãos, ser democráticas (ou seja, que seus habitantes decidam seus destinos quotidianamente), ter todos os serviços alcançáveis a pé ou em bicicleta, respeitar a natureza, e utilizar a mais avançada tecnologia para melhorar a vida humana e obter mais tempo livre de obrigações laborais.

Os defensores do liberalismo, que têm por único fim, o lucro exacerbado, não concebem que a Terra é de superfície limitada. Se fosse possível eles ressuscitariam Galileu, Copérnico e Giordano Bruno, e os torturariam e mandariam para a fogueira junto com todos seus escritos por serem terroristas em luta contra o sistema liberal.

Sua concepção do Mundo, difundida pela sua televisão e referendada por todo tipo de instituições, está empurrando para o abismo a sociedade humana. Há que se opinar em contra e construir um mundo diferente.
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* Oscar Daniel Corbella é professor titular no PROURB/FAU/UFRJ. Pesquisador Categoria I-A do CNPq. Doutor em Física Nuclear na Argentina, pós-doutorado em Física Aplicada ao ambiente construído, na Europa. Pesquisador em Ciências Humanas Aplicadas e pensador sobre a interação entre a ciência, as artes, as cidades, a sociedade e a ética. Ministrou conferências sobre estes temas em mais de 30 países de América e da Europa. É autor de 15 livros, o mais difundido sobre arquitetura sustentável.
Fonte:http://mercadoetico.terra.com.br/04/02/2013

Exercitar a alegria

 Alessando Martins*

A alegria não vem de presente. É uma mistura de oportunidade e esforço. No começo, você precisa aproveitar as oportunidades para ficar alegre, porque não sabe bem como fazer para que isso aconteça e talvez até ache que é um presente do acaso, da sorte, da vida. Depois, se você ficou um pouco mais esperto com o tempo (e não o contrário, como costuma ser para a maioria das pessoas), aprende a criar essas oportunidades. E, para isso, para criar essas oportunidades, às vezes, precisa de esforço, porque quase sempre o MAIS FÁCIL é ficar triste e grande parte do mundo prefere o mais fácil. Assim, você tem de se esforçar na direção dela, a alegria. E, com o tempo, vai aprendendo o caminho até ela e vai ficando cada vez mais fácil chegar ali. Talvez não precise mais nem das oportunidades, porque a alegria é algo que está em você e basta acessá-la quando quiser. Independentemente da situação, você conseguirá ter alegria. Como nadar, andar de bicicleta, digitar ou jogar pingue-pongue, a alegria pode e deve ser exercitada para nos tornarmos cada vez melhores em sermos alegres.
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* Cronista.
Fonte:  http://alessandromartins.me/exercitar-a-alegria/
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Ditos

L. F. Veríssimo*
 

Dos ditos populares, o mais irônico– pra não dizer cínico – é “Pra baixo todo santo ajuda”. O dito não discute a existência de santos e sua influência em nossas vidas, mas os divide em duas categorias, os poucos que nos ajudam nos momentos difíceis, de grande esforço, como subir uma ladeira, e a maioria que só se apresenta na hora da descida, quando nem precisaríamos de ajuda. Seriam os santos oportunistas, atrás de uma glória que não merecem.

Outro dito sábio e irônico, que está sendo muito citado depois da tragédia em Santa Maria, é “Porta arrombada, tranca de ferro”. Este trata das reincidentes providências tomadas para que um fato não aconteça, depois do fato acontecido. Foi preciso que quase 250 pessoas morressem para que coisas como revestimento inflamável, alvarás vencidos, falta de saídas de emergência e sinalização interna, etc. passassem a fazer parte das nossas conversas cotidianas, numa súbita descoberta do mundo de riscos iminentes e desconhecidos habitado por boa parte da população, principalmente a população jovem.

O Ivan Lessa disse que de quinze em quinze anos o Brasil esquece a sua história. Ou mais ou menos isso. Lessa foi otimista. A memória brasileira é bem mais curta. Não faz quinze anos que o Renan Calheiros teve que renunciar ao seu mandato para não ser expulso do Congresso. Hoje é candidato à presidência do Senado (estou escrevendo antes da eleição, mas Calheiros era tido como barbada). Na época da sua renúncia houve grande indignação, mas a indignação brasileira – como a memória– dura pouco. É fácil indignar-se. Para nos indignarmos, não falta a ajuda de todos os santos. Para que a indignação dure e tenha consequência, precisamos de um empurrãozinho dos santos mais constantes. Que andam muito relapsos.

No caso dos crimes em Santa Maria, só nos resta esperar que a indignação dure o bastante para ter consequência. Que as providências que evitarão outra tragédia parecida sejam tomadas antes que a indignação seja engolida pela memória curta e desapareça.

E “quem esquece a história está condenado a repeti-la”. Disse não me lembro quem. 
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* Jornalista. Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 04/02/2013
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O legado da crise atual: rever e reinventar conceitos

Leonardo Boff*

        Nutro a convicção, partilhada por outros analistas, de que a crise sistêmica atual nos deixará como legado e desafio a urgência de repensar a nossa relação para com a Terra, para com os modos de produção e consumo, reinventar uma forma de governança global e uma convivência que inclua a todos na única e mesma Casa Comum. Para isso é forçoso rever conceitos-chaves, que como bússola nos possam apontar  um novo norte. Boa parte da crise atual se deriva de premissas falsas.

         O primeiro conceito a rever é o de desenvolvimento. Na prática ele se identifica com o crescimento material, expresso pelo PIB. Sua dinâmica é ser o maior possível, o que implica exploração desapiedada da natureza e a geração de grandes desigualdades nacionais e mundiais. Importa abandonar esta compreensão quantitativa e assumir a qualitativa, esta sim como desenvolvimento, bem definido por Amartya Sen (prêmio Nobel) como “o processo de expansão das liberdades substantivas”, vale dizer, a ampliação das oportunidades de modelar a própria vida e dar-lhe um sentido que valha a pena. O crescimento é imprescindível pois é da lógica de todo ser vivo, mas só é bom a partir  das interdependências das redes da vida que garantem a biodiversidade. Em vez de crescimento/desenvolvimento deveríamos pensar numa redistribuição do que já foi acumulado pela humanidade.

         O segundo é o manipulado conceito de sustentabilidade que, no sistema vigente, é inalcançável. Em seu lugar deveríamos introduzir a temática, já aprovada pela ONU, dos direitos da Terra e da natureza. Se os respeitássemos, teríamos garantida a sustentabilidade, fruto da nossa conformação à  lógica da vida.

         O terceiro é o de meio-ambiente. Este não existe. O que existe é o ambiente inteiro, no qual todos os seres convivem e se interconectam. Em vez de meio ambiente faríamos melhor usar a expressão da Carta da Terra: comunidade de vida. Todos os seres vivos possuem o mesmo  código genético de base, por isso todos são parentes entre si: uma real comunidade vital. Este olhar nos levaria a ter respeito por cada ser, pois tem valor em si mesmo para além do uso humano.

         O quarto conceito é o de Terra. Importa superar a visão pobre da modernidade que a vê apenas como realidade extensa e sem inteligência. A ciência contemporânea mostrou e isso já foi incorporado até nos manuais de ecologia, que a Terra não só tem vida sobre ela, mas é viva: um superorganismo, Gaia, que articula o físico, o químico e as energias terrenas e cósmicas para sempre produzir e reproduzir vida. Em 22 de abril de 2010 a ONU aprovou a denominação de Mãe Terra. Este novo olhar, nos levaria a redefinir nossa relação para com ela, não mais de exploração mas de uso racional e respeitoso. Nossa mãe a gente não vende nem compra; respeita e ama. O mesmo vale para com a Mãe Terra.

         O quinto conceito é o de ser humano. Este foi na modernidade pensado como desligado, fora e acima da natureza, fazendo-o “mestre e senhor”dela (Descartes). Hoje o ser humano está se inserindo na natureza, no Universo e como aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Essa perspectiva nos leva a assumir a responsabilidade pelo destino da Mãe Terra e de seus filhos e filhas, sentindo-nos cuidadores e guardiães desse belo, pequeno e ameaçado Planeta.

         O sexto conceito é o de espiritualidade. Esta foi acantonada nas religiões quando é a dimensão do profundo humano universal. Espiritualidade surge quando a consciência se apercebe como parte do Todo e intui cada ser e o inteiro Universo sustentados e penetrados por uma força poderosa e amorosa: aquele Abismo de energia, gerador de todo o ser. É possível captar o elo misterioso que liga e re-liga todas as coisas, constituindo um cosmos e não um caos. A espiritualidade nos confere sentimento de veneração pela grandeur do universo e nos enche de autoestima por podermos admirar, gozar e celebrar todas as coisas.

         Temos que mudar muito ainda para que tudo isso se torne um dado da consciência coletiva! Mas é o que deve ser. E o que deve ser tem força de realização.
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 *Leonardo Boff é autor de Opção-Terra:a solução para a Terra não cai do céu, Record 2010.
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2013/02/03/o-legado-da-crise-atual-rever-e-reinventar-conceitos/
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

A nova juventude

CARLOS ALBERTO DI FRANCO*

A Europa continua sob o fogo cerrado de uma crise sem precedentes. Os números do desemprego na Espanha, por exemplo, são assustadores. Dados divulgados recentemente apontam que 26% da população está sem trabalho, totalizando quase 6 milhões de pessoas. A Espanha vive uma fuga crescente de jovens talentos. Em um ano, a população entre 20 anos e 24 anos diminuiu em 100 mil pessoas. Entre 25 anos e 29 anos, a queda foi de 150 mil.

A juventude europeia não foi preparada para a adversidade. A frustração apresenta uma pesada fatura: violência, aborto, doenças sexualmente transmissíveis, aids e drogas. A ausência de cenários compõe a trágica equação que ameaça destruir o sonho juvenil e escancarar as portas para uma explosão de contestação.

O quadro brasileiro é bem diferente. Felizmente. Temos inúmeros problemas (violência, drogas, corrupção, desigualdade, baixa qualidade da educação), mas somos um país de gente alegre, com capacidade de sonhar. Expectativa de futuro define a vida das pessoas e o rumo das sociedades. “O Brasil”, dizia-me um conhecido jornalista espanhol, “tem muitas coisas que não funcionam”. Mas acrescentou: “Vocês têm problemas, mas têm alegria, fé, futuro. Nós, europeus, perdemos a esperança”.

O Brasil de hoje, independentemente das sombras que pairam no quadro financeiro mundial e que, queiramos ou não, toldarão o horizonte da economia real, é um emergente respeitável. O nosso grande capital, o nosso diferencial, apesar do notável emagrecimento do perfil demográfico brasileiro, é o vigor da juventude. Uma moçada batalhadora, com vontade de acontecer e, ao contrário do que imaginam os pessimistas crônicos, sedenta de valores éticos, familiares e profissionais.

O desinteresse pela política, evidente e medido em inúmeras pesquisas, é, na verdade, uma rejeição ao comportamento imoral de inúmeros políticos. E isso é bom. Trata-se, no fundo, de um sinal afirmativo. Os jovens estão em rota de colisão com a politicagem tradicional. Os políticos não se dão conta, mas o modelo está esgotado. Os partidos, se quiserem ter alguma interlocução com a juventude, vão ter que se reiventar.

A juventude atual, não a desenhada por certa indústria cultural que vive isolada numa bolha ideológica, manifesta uma procura de firmeza moral, de valores familiares e religiosos. Deus, família, fidelidade, trabalho, realidades tidas como anacrônicas nas últimas décadas, são valores claramente em alta. A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), encontro do papa com os jovens, em julho deste ano, no Rio de Janeiro, vai surpreender muita gente. Espera-se mais de 2 milhões de jovens de todos os continentes. É muito mais que a Copa do Mundo e as Olimpíadas juntas.

A família, não obstante sua crise evidente, é uma forte aspiração dos jovens. Ao contrário do que se pensa em certos ambientes politicamente corretos, os adolescentes atribuem importância decisiva ao ambiente familiar. Os jovens, em inúmeras pesquisas, apontam a família tradicional como a instituição de maior ascendência em suas decisões.

No campo da afetividade, antes marcado pelo relacionamento descartável, vai se impondo a cultura da fidelidade. O tema da sexualidade, puritanamente evitado pela geração que se formou na caricata moral dos tabus e das proibições, acabou explodindo, sem limites, na síndrome do relacionamento transitório. Agora, o rio está voltando ao seu leito. O frequente uso de alianças na mão direita, manifestação visível de compromisso afetivo, revela algo mais profundo. Os jovens estão apostando em relações duradouras.

Assiste-se, na universidade e no ambiente de trabalho, ao ocaso das ideologias e ao surgimento de um forte profissionalismo. Ao contrário das utopias do passado, os jovens acreditam “na excelência e no mérito como forma de se fazer revolução". O pensamento divergente é valorizado. As pessoas querem um discurso diverso, não um local onde se pregue apenas uma corrente de pensamento.

Quem não perceber, na mídia e fora dela, essa virada comportamental perderá conexão com um importante segmento do mercado de consumo editorial.
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* Jornalista. Prof. Universitário.
Fonte:  http://correio.rac.com.br/_conteudo/2013/02/01
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Oração à beira da sepultura

Rubem Alves*

Quando o Horror acontece, as autoridades, por obrigação do o ofício, se põem a multiplicar palavras, fazendo declarações, prometendo investigações rigorosas e punição dos responsáveis. Mas suas promessas são inúteis. Não é possível fazer os mortos voltar das sepulturas.

Relata o livro de Jó que os três amigos que o visitaram por ocasião da sua desgraça “sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites, e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande” ( Jó 2.13 ). Eles sabiam que, diante do trágico deve-se calar e chorar.

O Horror pede silêncio. Goethe disse que “poesia é a linguagem do que não pode ser dito”.

Assim, resta-nos não dar ouvidos ao falatório oco das autoridades, e rezar. Assim, rezemos...

“Ó tu, Senhor da eternidade, nós que estamos condenados a morrer 
elevamos nossas almas a ti à procura de forças, 
porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, 
e sabemos que em alguma curva do nosso caminho
ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar... 
 não sabemos para onde. 
Nós te louvamos porque para nós ela não é mais uma inimiga,
 e sim um grande anjo teu, o único a poder abrir, 
para alguns de nós, a prisão de dor e do sofrimento e 
nos levar para os espaços imensos de uma nova vida.
Mas nós somos como crianças, com medo do escuro e do desconhecido, 
e tememos deixar esta vida que é tão boa, 
e os nossos amados, que nos são tão queridos. 
Dá-nos um coração valente para que possamos caminhar 
por essa estrada com a cabeça levantada e um sorriso no rosto. 
Que possamos trabalhar alegremente até o fim, 
e amar os nossos queridos com ternura ainda maior, 
porque os dias do amor são curtos. 
Sobre ti lançamos a carga mais pesada que paralisa nossa alma: 
o medo que temos de deixar aqueles que amamos, 
os quais teremos de deixar desabrigados num mundo egoísta. 
Nós te agradecemos porque experimentamos o gosto bom da vida. 
Somos-te gratos por cada hora de nossas vidas, 
por tudo o que nos coube das alegrias e lutas dos nossos irmãos, 
pela sabedoria que ganhamos e será sempre nossa. 
Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. 
Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, 
teus braços eternos ainda estarão conosco. 
Tu és o Pai dos nossos espíritos. 
De ti viemos e para ti iremos. 
Regozijamo-nos porque, nas horas das nossas visões mais puras, 
quando o pulsar da tua eternidade é sentido forte dentro de nós, 
sabemos que nenhuma agonia da mortalidade 
poderá atingir nossa alma inconquistável e, para aqueles que em ti habitam, a morte é apenas a passagem para a vida eterna. 
Nas tuas mãos entregamos o nosso espírito” 
( Walter Rauschenbusch, Orações por um Mundo Melhor, Paulus).

O profeta e a morte

E pediram ao profeta: Fale-nos sobre a Morte. E ele disse:

 “A coruja, cujos olhos noturnos são cegos durante o dia, não pode revelar o mistério da luz. Se quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri bem o vosso coração para a vida. Pois a vida e a morte são um, assim como o rio e o mar são um. Nas profundezas das vossas esperanças e desejos está vosso conhecimento silencioso do além. E como sementes sonhando embaixo da neve, vosso coração sonha com a Primavera.

Confiai em vossos sonhos, pois neles estão escondidas as portas para a eternidade. Pois o que é o morrer além de estar nu ao vento e derreter-se ao sol? E o que é cessar de respirar, senão livrar a respiração de suas incansáveis marés, que se elevam e expandem e buscam a Deus sem obstáculos? Só cantareis de verdade quando beberdes do rio do silêncio. E quando chegardes ao topo da montanha, só então começareis a subir. E quando a terra pedir os vossos membros, só então dançareis
” (Khalil Gibran, O Profeta).
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* Educador. Escritor. Teólogo.
Fonte:  http://correio.rac.com.br/_conteudo/2013/02/colunistas/rubem_alves/arquivos/27859-oracao-a-beira-da-sepultura.html
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sábado, 2 de fevereiro de 2013

SANTA MARIA COM A BOCA NO MONTE

   Carlos Nejar*
 

Para o marco de uma semana da tragédia em Santa Maria, a Logo+ procurou o imortal gaúcho Carlos Nejar, poeta, pai de Fabrício Carpinejar (que escreveu o poema-símbolo da tragédia, publicado no dia seguinte no Globo), para também escrever sobre o que ocorreu na terra natal. Em menos de 24 horas Nejar compôs "Santa Maria com a boca no monte" (distrito da cidade, Boca do Monte é quase um segundo nome para a localidade). O cineasta e produtor Gustavo Gelmini foi convidado para ir à casa do acadêmico no Rio e filmá-lo lendo o texto e captando o ambiente do velho homem de letras do Sul e, também, a sua récita plena de emoção, aliada ao talento de declamador.

O texto do poema:

Santa Maria com a boca no monte

Carlos Nejar


A morte tem rostos, rostos,
os rostos de meu povo.
E qual o mais perfeito,
mais sofrido, ou de enegrecidos
olhos, ou de tamanha terra
que não cabe no movimento
da noite . Ou é tamanha noite
que a terra não suporta .
E não cabem na relva
que carregamos com os mortos,
junto ao peito. Porque a dor
nos desampara e não tem pátria,
ou vincos de fronteira. A dor
da mãe e do pai diante do desastre:
dor que não tem montanhas.
E o amor envelhece a morte,
o amor pesa na sobrancelha
das estrelas. Meu povo:
doemos juntos , doemos
de morrer na profundeza
de não haver mais fala.
Doemos com a fumaça
crescida, com a fumegante
sombra, com a boate engolida
de sangue, chama e fúria.
E a cambaleante, dura
gaiola da madrugada,
seca de luz , sem porta.
E a pouca saída na pedra .
E a porta do banheiro
sem saída.Os celulares
tocando, tocando a morte.
E sem saída, os corpos
amontoados como pedras,
cegas pedras. Inermes ,
mudas pedras. Queimadas
peles, pedras. E não há
futuro nas cicatrizes
da fumaça, ou das ruínas.
Nem qualquer nome
nesta dor que o pampa grita
em Santa Maria com
a boca no monte,
Santa Maria com
a pedra na boca,
Santa Maria da Nuvem
que entra no tempo,
por dentro.Meu povo:
doemos juntos neste
torvo, pétreo, branco,
definitivo fogo.
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* Poeta 
Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/logo-apresentasanta-maria-com-boca-no-monte-sobre-texto-inedito-de-carlos-nejar-7471164

Na balada do nada

Na Berghain a celebração rola das 23h59 de sábado para além das 21h de domingo: dança sem fim - Reprodução
Reprodução
Na Berghain a celebração rola das 23h59 de sábado para além das 21h de domingo: dança sem fim

Jovens festejam na noite o fato de não terem o que festejar, embalados numa felicidade compulsória

Numa usina elétrica desativada, cenário de máquinas, fiações e tubos da era do nazismo, uma boate vira a noite sem fechar. É a Berghain/Panorama Bar - vulgo Paranoia, para os brasileiros que habitam o circuito techno -, apontada por alguns como o melhor clube do mundo, ainda que seja para turista ver. Tales Ab’Sáber foi um que lá baixou, numa estada em Berlim. E de lá saiu com a certeza de que tinha material valioso para uma perícia sobre a grande noite da diversão industrial, traduzido em A Música do Tempo Infinito, livro lançado em outubro pela Cosac Naify.

"É uma festa intensa, que deseja não terminar jamais", diz o psicanalista sobre a balada alemã, que pulsa quase diariamente a partir das 23h59 e que, de sábado para domingo, entorpece o público com música eletrônica até a noite seguinte. Nessa perspectiva, o único sentido do dia é acionar o GPS para a próxima noitada, algo instantâneo de se fazer em Berlim, considerando a fábrica de entretenimento que é.

Depois da tragédia em Santa Maria, as blitze que se espalharam pelo País atrás de boates-ratoeiras escancarou uma noite brasileira também alucinada, que por nada festeja tudo. Antes do incêndio, somente na cidade gaúcha eram pelo menos cinco baladas por dia, de quinta-feira a sábado. Em São Paulo capital, 500 casas noturnas foram licenciadas no ano passado e cerca de 600 esperam na fila por um alvará, enquanto outros milhares se espalharam feito gripe pelo País.

"Trata-se de um dispositivo de época para a gestão do prazer", diz Tales. "A balada é mais bonita, mais livre e mais erótica que a vida, e no entanto está totalmente articulada, econômica e socialmente, à vida como ela é." Algo diferente dos shows de rock e dos inferninhos dos anos 1970? Em seu apartamento em Pinheiros, bairro que abriga mais de dez páginas de boates no Google, Tales tenta traduzir essa geração que, em suas palavras, vive uma experiência sensorial sem compartilhamento. Esse gaúcho, radicado desde o primeiro ano de vida em São Paulo, também faz uma crítica sobre a morte quase instantânea de mais de 230 guris num país que vendeu para si a imagem de moderno, mas que de modernidade só absorveu a excitação, o Facebook e a pirotecnia.

A operação pente-fino nas boates do País mostrou que nos municípios brasileiros as casas noturnas brotaram a rodo. Que tipo de lazer é esse, que atrai tantos jovens?
Ele tem raízes na oferta de experiências própria da grande metrópole moderna, como os cafés concertos da Paris de Haussmann, os cabarés berlinenses dos anos 1920 e as casas de dança e jazz da Nova York da mesma época. Muito cedo se observou nessa invenção para a noite uma espécie de nova ordem internacional da diversão, ligada à organização da vida das massas na sociedade liberal. No entanto, a partir dos anos 1950 e 1960, emergiu a ideia de que a noite dos jovens estaria ligada também a um vetor político, de crítica ao sistema, no qual aquilo que era ofertado pelo mercado era vivido como a negatividade da antiga bohème. Esse movimento sempre guardou a ambiguidade de ser regulador e ao mesmo tempo um espaço imaginário de desejos conflitantes com a vida social. A partir das décadas de 1980 e 1990, há um retorno à ordem da contracultura ocidental, que teve seu ápice público e político, em plena luz do dia, em 1968 e 1970. Ele foi retirado do cotidiano, reservado para a circulação de mercado, para ser guardado, e de certo modo privatizado, na emergência da boate de massa, o novo espaço da república pop. Essa passagem histórica foi marcada pela ultrapassagem do rock - e da canção - pela música eletrônica. No Brasil, ela se condensou na balada, que não existia na minha juventude nos anos 1980.

O que, em geral, caracteriza uma balada?
Certa vez um jovem paciente me falou: "A balada é um lugar em que tudo muda. Quando você entra numa balada tudo vira outra coisa, você, as pessoas, o mundo. Nada do que vale fora de lá continua valendo, é um mundo à parte e outro do próprio mundo". A balada é o espaço que sustenta esse desejo. Ela dá uma amostra, um sampler, do mundo do luxo e da luxúria para os que não o possuem, ou da experiência estética antiburguesa para os adaptados. Trata-se de um dispositivo de época para a gestão do prazer. A balada é mais bonita, mais livre e mais erótica do que a vida, e no entanto está totalmente articulada, econômica e socialmente, à vida como ela é. Ela mantém vivo esse potencial utópico, e ao mesmo tempo o reduz a um espaço socialmente aceito. É a sua forma de solução de compromisso, o seu sonho social.

A balada agrega todas as classes sociais. De que juventude estamos tratando?
Uma juventude desencantada, que teve os impulsos críticos de radicalização humanista, estética e democrática, próprios do movimento da juventude ocidental do século 20, reduzidos a práticas de consumo a partir da aceleração da cultura do dinheiro dos anos 1990 e 2000. Essa juventude tenta manter valores de vanguarda de eros e civilização, como dizia o filósofo Herbert Marcuse, comprometidos com seu destino de venda de um trabalho sem garantias, muitas vezes sem direitos efetivos, no mundo das corporações. Uma juventude atomizada, que caminha entre a baixa vida de mercado e o hedonismo de consumo do teatro excitado de sua noite.

O que costumam festejar?
É um paradoxo. Eles festejam suas vidas difíceis de mercado, e sua inserção por um fio na coisa toda. Mais ou menos do mesmo modo que a mercadoria, por meio da cultura da propaganda, festeja a si própria sem parar. A ordem do poder atual exige celebração contínua, ligada à afirmação do indivíduo de realização do próprio prazer, desde que ele seja de mercado, apolítico. E esses jovens, que por vezes fingem um cuidadoso punkismo construído em lojas caras da moda, celebram a mesma celebração geral de seu mundo. Ou, como escrevi em meu livro, eles festejam o fato de não haver nada a festejar. É a compulsão a ser feliz, que diz muito respeito à propaganda.

Por que há tantos megaeventos para uma geração tão voltada para si mesma?
Exatamente por isso. Nesse ponto foi o filósofo Theodor Adorno quem nos deu contribuições importantes. Quanto mais individualizado e rarefeito na vida social para defender o próprio prazer, menos exigente culturalmente é esse consumidor, e mais sua ilusão de individualidade deságua em uma administração cultural geral. Podemos dizer que o hiperindivíduo, que busca a singularidade do seu prazer nas ofertas de mercado, acaba pensando como todos os demais, em uma grande uniformidade cultural, e ele vai de fato alimentar o megafestival que legitima o presente. Estamos diante de um mundo que, na mesma medida em que afirma o indivíduo, o empobrece e o torna apenas idêntico a todos.

Vivemos uma segunda ‘idade da festa’, expressão cunhada pelo jornalista Gay Talese que você recupera no seu livro?
É realmente muito interessante a formulação de Talese, que percebeu de modo intuitivo e profundo a transformação iminente do grande movimento político da contracultura jovem em uma cultura erótica da festa administrada. Em uma imensa festa contracultural de Andy Warhol, embalada pelo Velvet Underground num ginásio de Nova York, no auge dos protestos públicos contra a Guerra do Vietnã, Talese percebeu o destino da coisa toda: a política seria em breve substituída pela imagem. Seu texto é o primeiro a falar da celebração de tudo e de nada, que passou a ser a cultura jovem no nosso tempo, em que há muita produção de imagem, excitação e gozo, mas, para lembramos os termos do escritor, "nada está acontecendo". Um lance de espírito de gênio. Por que a festa precisa sugar tudo para ela? Tudo tem que se expressar como excitação. É a mesma lógica da mercadoria quando ela aparece: excitar para circular. Todos precisam estar nesse estado porque, caso contrário, não correspondem ao mundo. Esse momento está ligado ao desligamento do vetor político da contracultura. Ele passa a ser encenado, não é mais o embate político real.

Onde estaria esse vetor político hoje?
É uma grande angústia ver esse hipermundo pacificado porque as pessoas foram convencidas de que a política se resolve nos partidos. Se a gente não acredita nas respostas que estão sendo dadas, a gente não acredita nessa política e ela não cumpre seu mandato, embora diga que cumpra. Adorno dizia isso: a ideologia não é mentirosa no seu conteúdo. O conteúdo da política é uma verdade racional humana. A ideologia é mentirosa porque ela disse que já deu o que prometeu, cortando o processo de demanda social. A política está congelada nessa estrutura do capital. Manter isso, que é extremamente instável e estável, implica uma energia incrível, inclusive de repressão. Em 2008, vimos como é difícil manter o equilíbrio de um negócio que tem que gerar cada vez mais lucro. A política está naquilo que essa própria estrutura aparentemente fechada não consegue sustentar mais. Essas são as crises reais, que a ideologia não consegue barrar. No plano simbólico da expressão cultural, é tudo política de imagem, de alimentar o todo.
Nesse texto, Talese também dizia que, para existir, a pessoa precisava ser vista. Hoje, para existir, ela necessita ser fotografada e postar-se no Facebook.
Era o tempo dos famosos 15 minutos de fama de Andy Warhol, o vínculo subjetivo com a sociedade do espetáculo do escritor francês Guy Debord. Nos anos 1960, começa a surgir essa percepção de que as pessoas estão encenando alguma coisa. Tão importante quanto ser alguém é produzir sua imagem. Essa foi a grande mensagem social da televisão. A internet é uma grande universalização dessa tendência, acompanhada de fragmentação e algum grau virtual de participação. Eles estão o tempo todo se comunicando, em grande parte querendo saber onde está a melhor festa. Essa prática cria, a cada noite, um mapa da vida e da cidade, um GPS das baladas. E esse mapa é mundial.

Isso também vigora com força no Oriente?
Repare: todo filme que trata de contradições políticas no Oriente traz uma baladinha. É uma espécie de enclave da cultura ocidental, que significa a inversão de todos os valores ao redor. Essa balada está sintonizada com a balada ocidental, a mesma música, a mesma moda, o folgazão do consumo de diversão internacional.
Ironicamente, todas as câmaras do circuito interno da boate Kiss desapareceram. Ninguém quer ficar com a imagem de responsável pela tragédia…
Esse episódio catastrófico revela uma situação de descompasso do Brasil. O País produziu para si mesmo o discurso edificante de que se modernizou rapidamente, o que não é verdade em muitos aspectos da vida. A Kiss é uma pequena boate, mas com características dessa cultura global da casa noturna cuja relação entre empresário, prefeitura e agentes públicos de segurança é toda degradada. Ninguém é culpado, e todo mundo é. São os déficits de técnica brasileiros, técnica pública, inclusive.

Durante manifestações pedindo justiça, familiares mostraram cartazes revelando sua indignação com ‘a ganância de gente corrupta’. Que elementos dessa tragédia mostram essa ganância? Os seguranças impedindo a saída dos jovens porque eles não haviam pago a consumação, por exemplo?
Esse incêndio é uma espécie de fato infinito. Ele congrega uma série de fatos do mundo - legais, políticos, simbólicos. Vamos pensar nos seguranças, por exemplo. Eles têm a mentalidade da polícia, se é que não são policiais. É a mentalidade autoritária em que a relação com o outro é sempre de predomínio pela força, de inabilidade para lidar com o público, com alguém que não seja "ordem e progresso". É esse autoritarismo que o patrão espera dele, aliás. Mas onde está a brigada de incêndio, que seria a outra consciência? Não tem! Morreu gente por causa disso, desse entrave à saída.

 "Agora, as pequenas bandas do interior do mundo querem soltar seus rojões e fogos de artifício. 
Está aumentando a espetacularização, 
o que significa que a música 
perdeu importância."

Também havia uma quantidade de pessoas muito além da capacidade do lugar…
Nos anos 1980, quando começaram a surgir as boates, elas não eram assim. O Madame Satã não era assim. E antes, nos anos 1950, 60, muito menos. O público era de adultos, os inferninhos eram micro, um tipo de boemia completamente outra, era o mundo do João Antônio, de Copacabana. Mudou a escala. Isso é próprio da geração, mas tem o elemento universal da catástrofe. Ela representa a humanidade, estamos todos diante dela e ela fala a todos. Em parte porque ocupam todas as revistas, todos os jornais. É a tautologia da indústria da comunicação. Em parte porque, de fato, algo diz que poderia ter sido com meu filho ou comigo. As pessoas se sentem comprometidas. Se elas fossem comprometidas assim com a política, seria fascinante. Mas não são.

Você reserva um longo capítulo para as drogas no seu livro. Que papel elas têm nessa grande noite da diversão industrial?
As drogas, no movimento contracultural da juventude ocidental modernista, eram uma experimentação erótica, faziam parte de um projeto no qual se poderia estabelecer outra ordem de existência na vida moderna. Elas também foram capturadas para dentro das casas noturnas, numa fusão com a música techno, especialmente com a explosão do ecstasy no final dos anos 1980 e começo dos 90. A droga é estrutural da própria experiência, não é mais uma possibilidade. Ela é necessária para que a coisa exista.

Estamos falando de drogas e álcool?
Sim, dos dois. Isso disparou uma realidade de excessos. A partir do surgimento da música da noite, aparece um novo tipo de cultura da droga, que é uma drogadição exibida, conspícua. O lugar por excelência disso é a boate. Mas a partir daí existe uma universalização das drogas como diversão, portanto como objeto de consumo de massa.

E a música? De onde veio a necessidade da pirotecnia para acompanhá-la?
Quando os Beatles tocavam nos estádios nos anos 1960, quando inauguraram essa era de espetáculo de massa e expressão pop, grandiosa e sedutora, eram quatro músicos em cima de um palco e só. E havia 60 mil pessoas vendo! Jimi Hendrix, quando botou fogo na guitarra, foi um xamanismo, uma espécie de autossacrifício, uma coisa dionisíaca de incendiar uma parte de si mesmo, ao mesmo tempo amando e atacando o que o representava. Mas foi um evento individual. Depois começa a surgir essa espetacularização visual do mundo da canção. Em 1968, 69, Pink Floyd começa a fazer projeções de imagens, uma produção mais barata. Então, num certo momento dos anos 1980, isso vira um espetáculo pirotécnico gigantesco, com explosões, bolas de fogo. Agora, as pequenas bandas do interior do mundo querem soltar seus rojões e fogos de artifício. Está aumentando a espetacularização, o que significa que a música perdeu importância.

Você chama o DJ da música techno de um ‘Sísifo de nosso tempo, pulsando imensamente ao mesmo tempo que anuncia o vazio’. Mas músicos de outros ritmos que alimentam as baladas também não param. É o tal corpo-coração, enquanto a alma alucina?
Sim, é o corpo-suor, em que tudo tem que ser traduzido em pulsação. No Brasil, isso nos chegou muito pelo axé, com as cantoras dançando o tempo todo. As coisas têm que ser levadas no limite da expressividade, do desgaste físico. A banda de Santa Maria se chama Gurizada Fandangueira. Fandango é o velho baile gauchesco de dar o pão, que era feito com sanfona, uma música popular, de fazenda. E o fandango da Gurizada virou isso, uma exibição com sinalizadores que deseja agradar a 1.500 pessoas. Grandes artistas, como Madonna e Lady Gaga, fazem espetáculos assim também. A arte vai sendo deslocada para essa coisa mais infantil. Às vezes a música é playback, mas não é ela que está em jogo. É este show. Um show de pura excitação. 
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Fonte:  http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,02/02/2013
Reportagem por Mônica Manir

A crise do capitalismo e o efeito-borboleta

Immanuel Wallerstein*

130201-borboletas vermelhas
Wallerstein aposta: agonia do sistema durará poucas décadas. Duas alternativas opostas emergirão. Desfecho será definido numa infinidade de nano-atos

Fazer previsões de curto prazo (o próximo ano ou o seguinte) é um jogo de tolos. Há muitas mudanças imprevisíveis e sobressaltos no mundo real político, econômico e cultural. Mas podemos tentar fazer afirmações para o médio prazo (uma década ou mais), baseadas numa estrutura teórica adequada, combinada com uma sólida análise empírica das tendências e obstáculos.

Que sabemos sobre o sistema-mundo em que vivemos? Primeiro, que é uma economia-mundo capitalista, cujo princípio básico é a acumulação incessante de capital. Além disso, sabemos que é um sistema histórico, que, como todos, (do Universo como um todo aos mais minúsculos nano-sistemas) tem uma vida. Nasce, vive sua existência “normal” de acordo com regras e estruturas que cria, e então, em um certo ponto, move-se muito além do equilíbrio e entra em uma crise estrutural. Em terceiro lugar, sabemos que nosso sistema-mundo atual é polarizante, produzindo um abismo crescente entre os Estados e o interior dos mesmos.

Estamos nesta crise estrutural exatamente agora, e há cerca de quarenta anos. Vamos continuar nela por mais vinte a quarenta anos. É a duração média das crises estruturais dos sistemas históricos. O que acontece nestes momentos é que o sistema bifurca-se. Significa, essencialmente, que emergem duas formas alternativas de encerrar a crise estrutural – por meio da “escolha” coletiva de uma das saídas.

A principal característica de uma crise estrutural é uma série de flutuações caóticas e selvagens de tudo – os mercados, as alianças geopolíticas, a estabilidade das fronteiras estatais, do emprego, dívidas, impostos. A incerteza, mesmo no curto prazo, torna-se crônica. E as incertezas tendem a congelar a tomada de decisões econômicas – o que, é claro, torna as coisas piores…

Eis algumas das coisas que podemos esperar no médio prazo. A maior parte dos Estados enfrenta, e continuará a enfrentar, uma pressão provocada por arrecadação em queda e gastos em alta. A maioria deles tem tentado reduzir os gastos de duas maneiras. Primeiro, cortar (ou mesmo eliminar) boa parte das redes de segurança que foram construídas no passado, para ajudar as pessoas comuns a enfrentar as contingências com que se deparam. Mas há uma segunda maneira. A maior parte dos Estados está cortando as transferências de recursos para entidades estatais subordinadas – unidades federadas (se o país é uma federação) e governos locais. Isso apenas transfere, para estas unidades federadas, a necessidade de elevar impostos. Se não são capazes, podem quebrar, o que elimina outras partes das redes de segurança (em especial, aposentadorias).

Isso provoca um impacto imediato sobre os Estados. De um lado, enfraquece-os, já que cada vez mais unidades federadas procuram separar-se, quando veem este passo como economicamente vantajoso. Mas por outro lado, os Estados são mais importantes que nunca, já que as populações buscam refúgio em políticas estatais protecionistas (“garanta meu emprego, não os deles”). As fronteiras estatais sempre mudaram. Mas é provável que mudem ainda mais frequentemente agora. Ao mesmo tempo, novas estruturas regionais, ligando Estados existentes (ou suas sub-unidades) – como a União Europeia (UE) e a União de Nações da América do Sul (Unasul) –, continuarão a florescer e jogar um papel geopolítico crescente.

Os malabarismos entre os múltiplos espaços [loci] de poder geopolítico irão tornar-se ainda mais instáveis, numa situação em que nenhum destes espaços estará em posição de ditar as regras inter-estatais. Os Estados Unidos são um poder geopolítico de outrora, com pés de barro, mas ainda suficientemente poderosos para se vingar de danos sofridos. A China parece ter o economia emergente mais poderosa, porém é menos forte que ela própria (e outros) pensam. O grau em que a Europa Ocidental e a Rússia irão se aproximar é ainda uma questão aberta, muito presente na agenda de ambas partes. Como a Índia usará suas cartas é algo sobre o que ela está muito indecisa. O que isso significa, no momento, para guerras civis como a da Síria, é que as intervenções externas anulam-se umas às outras e os conflitos internos tornam-se ainda mais organizados em torno de grupos identitários fratricidas.

Reitero uma posição que mantenho há muito. Ao final de uma década, veremos grandes realinhamentos. Um é a criação de uma estrutura confederada, ligando o Japão, a China reunificada e a Coreia reunificada. O segundo é uma aliança geopolítica entre esta estrutura confederada e os Estados Unidos. Um terceiro é uma aliança de facto entre a União Europeia e a Rússia. Um quarto é a proliferação nuclear em escala significativa. Um quinto é o protecionismo generalizado. O sexto é uma deflação mundial, que pode assumir duas formas – ou uma redução nominal dos preços, ou inflações descontroladas -, que teriam a mesma consequência.

Obviamente, não são perspectivas felizes para a maior parte das pessoas. O desemprego global vai crescer, em vez de cair. E as pessoas comuns sentirão muito severamente o aperto. Elas já demonstraram que estão prontas para lutar de diferentes maneiras – e esta resistência popular crescerá. Vamos caminhar para o meio de um vasta batalha política para determinar o futuro do planeta.

Os que detêm riqueza e privilégio não ficarão de braços cruzados. No entanto, ficará cada vez mais claro para eles que não podem garantir seu futuro por meio do sistema capitalista existente. Tentarão implementar um sistema baseado não mais no papel central do mercado – mas numa combinação de força bruta e dissuasão. Seu objetivo central será assegurar que o futuro sistema garanta a preservação de três aspectos centrais do atual – hierarquia, exploração e polarização.

Do outro lado, haverá forças populares que buscarão, em todo o mundo, criar uma nova forma de sistema histórico – que nunca existiu ainda. Uma forma baseada em relativa democracia e relativa igualdade. É quase impossível prever o que isso significa em termos das instituições que poderão ser criadas. Compreenderemos durante a construção deste sistema, nas próximas décadas.

Quem vencerá esta batalha? Ninguém pode prever. O resultado será determinado por uma infinidade de nano-ações, adotadas por uma infinidade de nano-atores, em uma infinidade de nano-momentos. Em algum ponto, a tensão entre as duas soluções alternativas vai pender definitivamente em favor de uma ou outra. É o que nos dá esperança. O que cada um de nós fizer a cada momento, sobre cada assunto imediato, importa. Algumas pessoas chamam a isso “efeito borboleta”. O bater de asas de uma borboleta afeta o clima do outro lado do mundo. Neste sentido, somos todos borboletas, hoje.
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*Sociólogo e professor universitário norte-americano.
 Tradução: Antonio Martins
Fonte:  http://www.outraspalavras.net/2013/02/01/a-crise-do-capitalismo-e-o-efeito-borboleta/