sábado, 2 de março de 2013

Calligaris, eu torturaria!

Paulo Ghiraldelli Jr.*

Calligaris 
 Contardo Calligaris
Seria completamente tolo quem dissesse que a tortura não funciona para arrancar informações. Funciona nos filmes e funciona fora deles. Aliás, deveríamos saber que funciona mais na realidade que nos filmes.  O psicanalista Contardo Calligaris sabe disso. Mas ele sabe mais que isso. Ele conhece bem a natureza humana e pregou uma peça em alguns com o seu artigo a respeito da tortura (Para que serve a tortura? Folha, 21/02)

Calligaris é um humanista. Quem leu o seu texto e dali tirou a conclusão de que ele defende a tortura ou que o texto, em algum momento, a justifica, deveria ler mais vezes. Aliás, fiquei pasmo ao ver que jornalistas veteranos acreditaram que ele estava defendendo a tortura. O que Calligaris fez foi um exercício muito válido de filosofia. Admitindo que a tortura funciona (e isso pode ser tomado em hipótese), Calligaris mostra a necessidade, para aqueles que são contra a tortura, de encontrar justificativas morais para proibi-la. Falando no meu jargão de filósofo, a ideia de Calligaris é a seguinte: uma ética utilitarista (1) – que, no caso, diz que para salvar muitos vale prejudicar uma pessoa – não poderia ser utilizada por quem é contra a tortura, e deveríamos, então, encontrar uma outra ética.

Ora, é claro que a primeira ideia de quem não pode endossar uma ética utilitarista, em nossos tempos, é se deslocar rapidamente para uma ética kantiana. Desse modo, quem não defende a tortura poderia dizer: é falta moral não considerar o homem um fim em si mesmo, portanto, a tortura é o supra sumo da degradação humana. No entanto, para que essa alternativa não salve de modo fácil aquele que é contra a tortura, Calligaris volta à carga e termina seu artigo com um exemplo célebre: uma criança é sequestrada e vai morrer por falta de ar, enquanto que você pegou o sequestrador. O que você faria, torturaria ou não o sequestrador a fim de obter o paradeiro da criança?

Calligaris não fala mais nada. Imagino que foi para o sofá olhar sua arapuca. Não demorou muito para caírem ali dois passarinhos, ou melhor, um marxista e um coelho. Safatle veio com tudo para a arapuca, e ficou preso pelo não entendimento. (Questão de método, Folha de São Paulo) Marcelo Coelho também caiu, mas não por falta de inteligência e, sim, por mais inteligência que o necessário. (O mundo de Jack Bauer, Folha de S. Paulo).

Safatle não cita Calligaris. Parece que isso já se tornou um estilo próprio dele. Deveria citar, no caso, porque acabou sendo ofensivo ao dizer que quem coloca a pergunta que Calligaris colocou tem intenções similares às daquela pessoa que coloca a pergunta sobre se negros são tão inteligentes quanto brancos. Essa agressão gratuita de Safatle a Calligaris deve ser deixada de lado. Sabe-se lá por qual razão ele fez isso. Agora, o que deve ser evocado é que ele diz que a pergunta de Calligaris não é válida, pois é pergunta “de laboratório”, e que “do ponto de vista da filosofia moral”, tal exercício seria “pueril”.  Não, não é pueril. Pueril mesmo é Safatle não compreender a pergunta e, pior ainda, não saber que a filosofia moral seria toda pueril caso ele estivesse certo. Isso porque a filosofia moral coloca, sim, questões desse tipo, com tal dramaticidade aparentemente descontextualizada. Não são poucos os filósofos que colocam as coisas nesses termos e a enfrentam. Qual a razão pela qual a filosofia moral coloca uma tal questão? A razão é simples: sendo ou não uma questão “de laboratório”, ela é válida para que possamos ver qual ética dá cobertura para os que se veem em situações dramáticas. Isso porque é em situações dramáticas que dilemas éticos aparecem. Sem situações críticas, a ética devolve o homem ao tédio. Ela se põe como ética quando o homem está na parede, premido diante da necessidade e urgência de decisões.

Safatle ridiculariza a questão porque ele não possui qualquer resposta para uma ética que questione o indivíduo humano. Como herdeiro da conversa marxista, ele se retira para o jargão da esquerda em que os homens não tomam decisões. Desse modo, ele faz um zigue zague no texto para entrar pela questão do Estado torturador, e assim se perde, sem conseguir entender o que é que Calligaris estava objetivando com sua pergunta.

O caso de Marcelo Coelho é diferente. Ele entende Calligaris, mas ele rejeita a hipótese de que a tortura funciona e, ao fazer assim, remete a uma outra dimensão. Claro, é uma saída inteligente. Marcelo Coelho mostra que a situação que Calligaris aponta pertence à ficção, aos filmes, e que se assim é o caso o melhor seria trocar de canal. Afinal, uma situação dramática como a posta por Calligaris não nos levaria a nada, ela jamais se colocaria para nós, em nossas vidas, e assim não nos ajudaria a nos posicionar realmente contra ou a favor da tortura de um modo interessante.

No meu entendimento, o excesso de inteligência de Marcelo Coelho o atrapalhou. Ele foi bem esperto ao dizer que “trocaria de canal”, mas, enfim, ele perdeu a chance de enfrentar a questão de Calligaris que, antes de tudo, vem do campo da psicanálise e da filosofia. Em suma: Calligaris estava convidando o leitor a investigar a natureza humana, digamos assim, mas Marcelo Coelho não quis aceitar o debate proposto.

Bem, vamos deixar Marcelo e Safatle de lado. Por que não aceitar a investigação de Calligaris? O que há para temer nela? Aceito-a, claro, principalmente porque ela é autenticamente filosófica.

Concordo plenamente com a premissa de Calligaris, ao menos no que se refere ao modo como ele a colocou no artigo: a tortura funciona e, se não funciona de todo, ao menos dá grande impressão para todos nós que funciona. Por isso mesmo, independentemente de sermos a favor – como somos – de todo ato contra a tortura, o que está em jogo não é a eticidade e a legalidade da tortura. O que está em jogo, para sermos respeitosos a Calligaris, é o que nós fazemos se somos pessoas com algum parentesco com a criança que está há minutos de morrer asfixiada. O que eu faria? Não sou Marcelo Coelho e Safatle. Não tenho razão para não enfrentar o que sou. Não tenho nenhuma dúvida que se fosse o Pitoko que estivesse preso, eu não mudaria uma vírgula de minha decisão de achar a tortura imoral e impossível de ser legalizada, e ao mesmo tempo eu pularia na garganta do sequestrador na minha frente. Eu o torturaria não só para obter informação do paradeiro do Pitoko, mas também para obter prazer. Aliás, depois de salvar o Pitoko, eu voltaria a ele, e o torturaria mais um pouco. Finalmente, caso eu tivesse garantias de que sairia ileso, eu o mataria vagarosamente, infringindo o máximo de dor possível a ele.

Estaria eu deixando de lado o filósofo, nesse caso, e agindo como um indivíduo voltado para seu próprio umbigo? Não! Eu faria tudo isso sabendo perfeitamente que, naquele momento, o filósofo que poderia ajudar a construir regras contra a tortura, estava quebrando tais regras.  Qual o problema? Não é assim? Afinal, pago meus impostos e então colaboro para que o parlamento faça um monte de regras que eu, mesmo concordando com elas, as quebro e as subverto no meu cotidiano. Não é assim mesmo nossa vida? Nesse caso, mais ainda. É meu direito ser um fora-da-lei. Não é meu direito, em hipótese alguma, eu não pagar o funcionamento do parlamento, se eu sou um democrata. Mas, mantendo-me cidadão e, no caso, filósofo, posso ao menos uma vez ser um fora-da-lei. Nesse caso, meu amor pelo Pitoko me faria torturador e não só isso, também um vingador cruel.

Temos de ter uma ética contra a censura, exatamente porque temos uma moral que a permite, uma vez que todos nós podemos achar razões boas para torturamos – e assim fazemos.

 (1) A ética utilitarista, de Bentham e Mill é a base comum da ética moderna, principalmente no mundo-anglo saxão. Em nosso mundo, apelaríamos mais para uma ética kantiana, mas apenas verbalmente. O utilitarismo está ligado a um hedonismo e, enfim, a uma nova busca de eudaimonia que faz sentido para nós todos.
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*  Filósofo, escritor e professor da UFRRJ
Fonte:  http://ghiraldelli.pro.br/2013/03/calligaris-eu-torturaria/

A renúncia do papa e o fim do celibato obrigatório dos padres

Jung Mo Sung*


 
Por que padre não pode casar? Geralmente, a pessoa que faz essa pergunta não sabe a diferença entre o clero religioso, que faz voto de castidade e assume a vida comunitária religiosa, e o clero diocesano ou secular, que não faz votos, mas é obrigado viver o celibato por uma questão de disciplina da igreja católica. Ademais, a pergunta não busca uma resposta objetiva das razões teológicas ou canônicas da obrigatoriedade do celibato. Por detrás dessa pergunta está escondida outra pergunta: pode um homem ou uma mulher vencer, por causa da sua vocação, o seu instinto sexual natural e a necessidade antropológica de sentir-se em uma família?

Talvez um grupo pequeno de pessoas realmente tenha forças para vencer de modo saudável os seus instintos e encontre na vida comunitária religiosa um meio para se sentir em família e assim vivam sua vocação religiosa de modo humanizante. Mas, haverá no mundo o número suficiente de homens para cobrir a necessidade de padres das paróquias e capelas do mundo que sejam capazes de viver sozinhos, ou na companhia de mais um ou dois padres, a vida celibatária? Tanta gente com força suficiente para vencer de modo saudável duas "necessidades” que fazem parte da condição humana?

A resposta tradicional, ou mais comum, é ou costumava ser: se Deus escolheu para o sacerdócio, ele dará forças espirituais para vencer a condição humana. De certa forma, o celibato é ou era a "comprovação” empírica da vocação, a prova de que Deus ainda chama pessoas no meio do seu povo para servi-lo, que ele é especial. Em um mundo em que se acredita cada vez menos no sagrado das religiões tradicionais, o celibato dos sacerdotes é, para muitos, a principal mostra da presença do sagrado na forma tradicional.

Diante de casos cada vez mais públicos de desvio de conduta sexual dos padres, a crítica costuma recair somente sobre pessoas –as que cometeram e as que encobertaram–, mas com pouca discussão sobre essa concepção de vocação em que Deus daria força espiritual para vencer a condição humana natural. As orações e a vida espiritual fariam o ser humano escolhido superar os limites e características da condição humana. A graça sobrenatural anularia as forças e condicionamento do natural.

É contra essa visão de vocação que os motivos dados pelo papa Bento XVI para sua renúncia entra em choque. Ele disse: "Após ter repetidamente examinado minha consciência perante Deus, eu tive certeza de que minhas forças, devido à avançada idade, não são mais apropriadas para o adequado exercício do ministério de Pedro”. Em outras palavras, nem ele, o papa, encontra um caminho "espiritual” para vencer completamente os limites da condição humana para um exercício adequado da sua vocação. Isso significa que a graça sobrenatural não anula os limites, as potencialidades e os condicionamentos da condição humana. A vocação deve ser vivida dentro das condições humanas!

Muitos críticos disseram que, se o papa não tem mais força para exercer e renuncia, o Espírito Santo teria escolhido pessoa errada ou não teria nada a ver com a escolha do papa. Eu não quero entrar em discussão aqui sobre o papel do Espírito Santo na escolha do papa ou na vocação sacerdotal, mas apontar para essa concepção de "chamado” sobrenatural que negaria a condição humana. É essa concepção que a renúncia do papa desconstrói.

A renúncia do papa não pode ser vista somente como um capítulo nas lutas internas no Vaticano ou na Igreja Católica, nem como uma mera "modernização” da administração da Igreja. Alguns da própria igreja chegaram a dizer que a o próximo papa deveria ser um tipo de CEO da Igreja, fazendo das corporações capitalistas o modelo de todas as instituições e da vida social. A renúncia tem implicações teológicas sérias e uma boa consequência poderia ser repensar a disciplina do celibato obrigatório e a exclusividade masculina do clero da Igreja Católica.
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 * Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo. Autor, com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”, Paulus. 
Twitter: @jungmosung.
Fonte: Adital

A renúncia e o drama da relação fé e história.

  Entrevista especial com Marco Vannini 

 

Nem a fé nem a Igreja foram abaladas pelo niilismo, 
responsável apenas por derrubar certezas ilusórias, 
pondera o estudioso de mística especulativa 
ao analisar a saída de Bento XVI

Para Marco Vannini, a decisão de Bento XVI em abdicar de seu cargo de papa precisa ser compreendida no contexto que o Sumo Pontífice viveu “de modo dramático o problema da relação entre fé e história”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador italiano ponderou a influência do niilismo e da secularização, características da modernidade sobre esse ato que já é considerado emblemático para a Igreja Católica. “Não acredito, de fato, que a Igreja e a fé tenham sido abaladas pelo niilismo. O niilismo derrubou certezas ilusórias, forçando, como diz Hegel na Fenomenologia do Espírito, a ‘olhar no rosto o negativo e a se deter junto a ele’, ou seja, a reconhecer honestamente a relatividade de tantas coisas que haviam sido dadas como absolutas, sem tentar escapatórias”. Vannini explica, ainda, a aproximação que teceu entre Bento XVI e o “último papa”, mencionado por Nietzsche em Assim falou Zaratustra: “O último papa e Zaratustra, de fato, têm em comum justamente isto: a negação de Deus como ente – que o é, escrevia Eckhart, apenas para os pecadores – e a afirmação do divino, ou seja, da verdade como espírito”.

Marco Vannini (1948) (foto: Settimanale diocesano de informazione del trentino), filósofo e teólogo, é um dos maiores estudiosos italianos da mística especulativa. Editou as obras de grandes místicos: Eckhart, Angelus Silesius, Sebastian Frank, Valentin Weigel, Marguerite Porete, Jean Gerson, François de Fénelon etc. Publicou inúmeros estudos, tais como: La morte dell’anima. Dalla mística alla psicologia (Ed. Le Lettere, 2004); Storia della mistica occidentale (Ed. Mondadori, 2005); Mistica e filosofia (Ed. Le Lettere, 2007); La mística delle grande religioni (Ed. Le Lettere, 2010); Prego Dio che mi liberi da Dio (Ed. Bompiani, 2010), dentre outras. Em português, foi traduzida a sua Introdução à mística (Edições Loyola, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que sentido o verdadeiro drama do Papa trata da fé que perdeu seus fundamentos históricos?

Marco Vannini
– Eu acredito que o Papa, que é acima de tudo um grande estudioso, se interrogou seriamente sobre o problema dos fundamentos históricos da fé e da religião cristã, que quer ser uma fé e uma religião fundamentadas sobre uma realidade histórica: primeiro, a da tradição bíblica vetero-testamentária; depois, e principalmente, a que concerne às vicissitudes de Jesus, de sua mãe Maria, da constituição da comunidade primitiva etc. Não por acaso ele dedicou os últimos anos do seu trabalho de pesquisa à escrita de uma Vida de Jesus, certamente defendendo aquela verdade histórica, mas também admitindo que as hipóteses racionalistas são fundadas e que, em última análise, o que conta é o Christus pro me, ou seja, o Cristo da fé. Eu não posso e não quero entrar na consciência do papa, mas eu acredito que ele deve ter vivido de modo dramático o problema da relação entre fé e história.

IHU On-Line – Como a Igreja pode dialogar com a modernidade, secularizada e marcada pelo niilismo?

Marco Vannini
Niilismo é uma palavra moderna, que remonta somente ao século XIX, mas a reflexão sobre o nada (nihil) e, de fato, o fato de olhar resolutamente no rosto do nada, sem que a imaginação intervenha para "tapar os buracos" dos quais a graça pode chegar – como dizia Simone Weil –, pertence à própria história do cristianismo e da Igreja. Sem incomodar mais uma vez o autor que eu mais admiro, Mestre Eckhart, basta pensar no Doutor místico por excelência, São João da Cruz, que não se cansa de ensinar que a fé não produz nenhum conhecimento, mas, ao contrário, tira do caminho todo conhecimento e leva à "noite", ou seja, ao "nada". Nada, nada, nada, repete o místico castelhano, porque é nesse nada, ou seja, nesse vazio que a inteligência faz de todo pretenso "saber", que se revela a luz de Deus. Eu acrescento que um estudioso francês, Georges Morel, em um estudo muito amplo sobre São João da Cruz, evidenciou as afinidades entre o carmelita e Hegel. Pois bem, eu acredito que, na tradição filosófico-teológica do mundo cristão, existem todos os recursos para enfrentar o chamado niilismo contemporâneo, do qual, no entanto, não se pode negar o caráter purificatório com relação a tantos pretensos, justamente, "saberes" do passado.

IHU On-Line – Nesse contexto, a fé e a instituição Igreja, assim como o Estado, foram abaladas pelo niilismo? Por quê?

Marco Vannini
– Como eu já disse, não acredito, de fato, que a Igreja e a fé tenham sido abaladas pelo niilismo. O niilismo derrubou certezas ilusórias, forçando, como diz Hegel na Fenomenologia do Espírito, a “olhar no rosto o negativo e a se deter junto a ele”, ou seja, a reconhecer honestamente a relatividade de tantas coisas que haviam sido dadas como absolutas, sem tentar escapatórias. Certamente, isso implica uma profunda revisão da própria fé, que, de crença, deve tornar-se o que ela realmente é, ou seja, conhecimento, conhecimento do espírito no espírito.

IHU On-Line – Em que aspectos Bento XVI é o “último papa”, para usar a expressão de Nietzsche em “Assim falou Zaratustra”?

Marco Vannini
– A renúncia do Papa Bento XVI me fez pensar nas páginas que Nietzsche, na última parte do sua obra Assim falou Zaratustra, dedica ao encontro entre Zaratustra e o último papa, já "fora de serviço", justamente pela razão que eu acabei de expor. O papa de Zaratustra é o representante de uma religião que ensinou que “Deus é Espírito” e com isso abriu o caminho para a incredulidade, porque é muito fácil que a negação de Deus como ente abra caminho para o ateísmo. Zaratustra sente uma certa familiaridade ou, melhor, simpatia por aquele velho último papa, já que, como eu disse antes, no fundo, ele também, o ateu Zaratustra, continua recebendo luz daquela antiga concepção platônica pela qual a verdade é Deus, Deus é a verdade: “É um Deus qualquer – paradoxalmente – que o converteu ao ateísmo”. O último papa e Zaratustra, de fato, têm em comum justamente isto: a negação de Deus como ente – que o é, escrevia Eckhart, apenas para os pecadores – e a afirmação do divino, ou seja, da verdade como espírito.

IHU On-Line – Que mudanças se mostram possíveis na Igreja a partir da renúncia do Sumo-Pontífice?

Marco Vannini
A renúncia do Papa me pareceu um gesto de grandíssima nobreza, humildade e dignidade ao mesmo tempo. Eu não sei o que ela vai mudar na vida da Igreja, mas indubitavelmente irá marcá-la de forma positiva, pela força que o exemplo tem em si.

IHU On-Line – Em que sentido essa renúncia traz uma oportunidade de reflexão e exame para a Igreja?

Marco Vannini
– Como disse acima, esse exemplo atingiu profundamente a todos, e não apenas os católicos. Na Itália, onde eu vivo, houve imediatamente um redespertar extraordinário de interesse pela Igreja, pela sua história, pelo seu futuro. Mesmo os chamados “laicos” foram atingidos nas suas tranquilas certezas, diante de um gesto tão imprevisto, que pode ser interpretado como um sinal de crise, mas também de vitalidade, de juventude, de liberdade do espírito. Obviamente, isso vale ainda mais para a Igreja, que, especificamente, deve se interrogar justamente sobre o significado do poder, lembrando que ministro, ministério vêm do latim, minus, que significa menos e remete, por isso, evangelicamente, à humildade do serviço, e não ao poder.

IHU On-Line – Sob quais aspectos a decisão de Bento XVI também pode ser lida como uma crítica à política vaticana e à sua forma de conduzir as questões da Igreja?

Marco Vannini
– Esse é o aspecto sobre o qual mais os jornais, a televisão etc., em suma, os chamados meios de comunicação se pronunciaram. Não há dúvida de que tiveram algum peso na decisão do Pontífice as questões internas da cúria romana, os recentes escândalos e o modo como foram tratados, principalmente pelo peso que colocaram sobre os ombros de um papa indubitavelmente muito idoso e cansado – além de alheio, por caráter e por estilo, a se ocupar de questões, digamos, tão políticas. Eu não acredito, porém, que Bento XVI renunciou precisamente por isso, ou seja, para criticar com o seu gesto o modo de tratar as questões eclesiais.

IHU On-Line – Há 40 anos, Ratzinger “previa” uma igreja que voltaria às suas origens. Como essa previsão pode ser compreendida hoje?

Marco Vannini
Essa pergunta nos remete, oportunamente, aos problemas realmente essenciais, que não são, a meu ver, os da atualidade, por mais grave e dolorosa que possa ser (a pedofilia, o escândalo do secretário-mordomo etc.). Retornar às origens da Igreja como retornar às origens e às razões profundas da fé. O Papa, estudioso de Santo Agostinho, conhece bem o antigo lema Ecclesia semper reformanda, a Igreja sempre precisa de reforma, ou seja, sempre precisa se “reconformar” com as suas raízes evangélicas, redescobrindo as razões da fé no profundo da própria consciência. O quarto Evangelho se conclui com as palavras que Jesus dirige a Tomé, que acredita só porque viu: “Bem-aventurados os que creem sem ter visto”, ou seja, acreditam pelo único testemunho que realmente propicia a bem-aventurança, o testemunho interior, testimonium spiritus sancti.
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(Por Márcia Junges) 
Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/01/03/2013

A fenomenologia como um instrumento de terapia psicológica

Entrevista com a psicóloga clínica Maria Izabel de Aviz
Em entrevista à ZENIT do dia 9 de novembro de 2012, a Mestre em psicologia, Maria Izabel de Aviz (CRP: 01/10262), também irmã do Cardeal Dom João Braz de Aviz, explicou o seu método terapeutico que usa a fenomenologia como um instrumento de terapia psicológica. Dado que naquele momento a entrevista foi publicada em três partes e resultou de difícil acesso para alguns leitores de língua portuguesa, por petição de vários leitores, republicamos hoje a entrevista na sua íntegra.

A psicóloga clínica Maria Izabel de Aviz mora em Brasília, onde também tem o seu consultório. É graduada em psicologia pela Pontifícia universidade católica do Paraná em 1978. Especializada em recursos humanos pela FAE/ Curitiba e Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Brasília em 2010.

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ZENIT: O que é a fenomenologia?
Maria Izabel: Vamos começar entendendo um pouquinho o que é fenomenologia. Fenomenologia é uma escola filosófica fundada por Edmund Husserl, que começou na Alemanha, no fim do século 19 e na primeira metade do século 20; portanto fenomenologia é uma filosofia.

A palavra fenomenologia tem origem grega e é formada de duas partes: “fenômeno” que significa “aquilo que se mostra”; não somente aquilo que aparece, mas aquilo que se manifesta, que se mostra; e “logia” que deriva da palavra “logos”, que para os gregos tinha muitos significados, mas neste caso da fenomenologia, vamos tomar a palavra “logos” comopensamento, como capacidade de refletir”. Então podemos entender fenomenologia como reflexão sobre um fenômeno ou sobre aquilo que se mostra.
Mas nos perguntamos: o que é que se mostra? E como se mostra? Esse é o nosso problema! Quando em fenomenologia dizemos que alguma coisa se mostra, estamos dizendo que essa coisa se mostra para nós, se mostra para o ser humano, se mostra para a pessoa humana;e isso faz toda a diferença e tem grande importância para nós hoje porque as coisas se mostram para nós; isto é, nós é que buscamos o significado, o sentido daquilo que se mostra para nós. Mais do que dizer que ”as coisas se mostram”, precisamos dizer que “percebemos, que estamos voltados para essas coisas” que se mostram para nós, principalmente para aquilo que aparece no nosso mundo físico.

Quando dizemos “coisas” não tratamos apenas do significado de coisas físicas, mas também das coisas abstratas e a um conjunto de situações, como por exemplo, o significado de coisa cultural, eventos, fatos, que não são de ordem estritamente física. Todas as coisas que se mostram para nós as tratamos como fenômenos que conseguimos compreender o sentido. O que mais interessa a nós pessoas humanas é compreender o sentido delas e não o fato delas se mostrarem. Aqui podemos perceber a grande contribuição de Husserl para ajudar a psicologia, (que é uma ciência particular e não uma filosofia) a compreender esse sentido que nem sempre é compreendido imediatamente. Precisamos fazer uma série de operações para podermos identificar o sentido de tudo àquilo que se manifesta a nós; e essas operações estão no campo de pesquisa da psicologia.

O grande desafio da filosofia hoje e também o seu problema é buscar o sentido das coisas, dos fenômenos, tanto de ordem física quanto de caráter cultural, religioso etc., que se mostram á pessoa humana, no seu viver cotidiano.

ZENIT: A fenomenologia pode ser um instrumento de terapia psicológica?
Maria Izabel: Essa foi a descoberta mais importante que fiz na minha vida profissional e para o meu agir psicológico. Quando percebi a riqueza, a segurança e a profundidade do método fenomenológico proposto por Husserl comecei a me entender como um profissional mais responsável e mais capaz de ajudar no sofrimento das pessoas que me procuravam para fazer a psicoterapia.

A fenomenologia não é psicologia, ela é uma filosofia que diz que o ser humano é um inteiro formado por partes, formado por vários âmbitos que não podem ser separados do inteiro. Para podermos ver o ser humano na sua inteireza precisamos alargar os nossos horizontes, caso contrário não compreenderemos o ser humano na sua totalidade e certamente cometeremos erros nos usos que fazemos dos nossos métodos terapêuticos.

ZENIT: Desde quando a senhora se enveredou por esse caminho? Qual é a sua formação psicológica?
Dra. Maria Izabel: Na minha graduação, a formação que me foi transmitida estava fundamentada em métodos interpretativos e em métodos de redução do comportamento humano ao comportamento animal. Isso me fez desacreditar da psicologia e abandoná-la por 18 anos. Comecei a conhecer a fenomenologia no ano de 1997, quando me submeti a uma psicoterapia de bases fenomenológicas, que aplicava ao sofrimento do paciente, uma parte do método fenomenológico proposto por Husserl. Essa psicoterapia e a relação terapêutica vivenciada em cada sessão da terapia com o meu terapeuta, me fez entender qual e como deveria ser o meu agir como um profissional psicólogo. Comecei então a buscar informações, orientações, cursos, livros, pessoas que me ensinassem a fazer a prática do método fenomenológico. Para mim não era mais uma questão só profissional, mas também pessoal. A tal ponto me envolvi com a fenomenologia, que hoje tenho dificuldades para aceitar que ela não seja ensinada e praticada nas escolas e na formação das pessoas; mesmo porque, Husserl propõe o método e a análise fenomenológica como um processo muito simples e natural para se poder perceber, conhecer e entender a pessoa humana na sua totalidade, unicidade e complexidade. Existem coisas que o ser humano não conhece, mas existem coisas que só o ser humano pode e é capaz de conhecer.

ZENIT: Quais são as referências mundiais na utilização dessa metodologia em terapias psicológicas?
Dra. Maria Izabel: Desde o seu começo a psicologia conhece a proposta filosófica da fenomenologia que é de “conhecer como é o ser humano e como o ser humano conhece”. Desde o inicio da psicologia a fenomenologia propõe o “saber como é o ser humano, quais as suas capacidades superiores, para depois poder dizer como o ser humano é feito”; no entanto, a forte influência do positivismo que impôs a jovem ciência da psicologia a demonstração dos estados psíquicos usando os esquemas das ciências físicas, suas medidas e representações, distanciou a fenomenologia da psicologia, e deu grande ênfase aos métodos interpretativos e reducionistas para demonstrar e/ou conhecer o ser humano. Hoje um grande número de profissionais da área de ciências humanas faz um grande esforço para demonstrar que “o ser humano compreende muita coisa, mas não se compreende dentro dessa posição positivista”.

Não existe uma psicologia pura como ciência positiva. A ciência positiva não é a única  base da psicologia, porque a psicologia não nasce só dos fatos. A psicologia precisa aproximar-se da filosofia para que esta lhe diga como é o ser humano. Isso está impulsionando a psicologia a buscar novamente estabelecer com a fenomenologia e a antropologia, uma relação que lhe dê acesso ao conhecimento puro do ser humano e a utilização de instrumentos próprios da fenomenologia para compreender a estrutura da pessoa humana. O agir psicológico hoje se tornou impossível sem a base da filosofia.

Vou citar aqui como minha referência, a filósofa contemporânea Angela Ales Bello que é professora emérita de História da Filosofia Contemporânea na Universidade Lateranense de Roma, e dirige o Centro Italiano de Pesquisas Fenomenológicas, associado ao The World Phenomenology Institute e faz parte do conselho de redação de várias revistas italianas e estrangeiras. As suas publicações são predominantemente voltadas à investigação da fenomenologia alemã do século 20, comparada a outras correntes do pensamento contemporâneo, com especial referência aos temas de Edmund Husserl e Edith Stein.

ZENIT: Quais dificuldades a pessoa pode superar com esse método?
Dra. Maria Izabel: A fenomenologia se preocupa em perceber o sentido do fato e a psicologia se preocupa em conhecer o processo que leva àquele fato. A compreensão dessa relação entre a filosofia fenomenológica que nos dá a estrutura da pessoa humana e o processo psicológico voltado para a subjetividade da pessoa que o vivencia e que só pode firmar-se dentro do si mesmo da pessoa, dá ao psicólogo a possibilidade da epoché (redução fenomenológica, que era o estilo próprio de Husserl fazer sua pesquisa). Entender a passagem de como as vivências que estão dentro de nós transcendem as coisas que estão fora de nós, nos faz compreender: a relação de mim comigo mesmo, de mim com o outro semelhante a mim, de mim com o outro diferente de mim e de mim com as coisas sem vida.
Com esse método todas as vivências humanas podem ser analisadas, sejam elas consideradas positivas ou negativas, boas ou ruins, dificuldades ou possibilidades, porque essa relação permeia os estados corpóreos, os psíquicos e os que transcendem o corpo e o psíquico da pessoa humana. Podemos escolher o que queremos, mas precisamos conhecer o que escolhemos.

ZENIT: Normalmente, qual é a sua proposta? Necessita-se de muito tempo para começar a dar-se conta da melhoria?
Dra. Maria Izabel: A psicoterapia que proponho no meu consultório é uma psicoterapia breve, onde procuro desenvolver da melhor forma que dou conta a epoché, ou redução fenomenológica proposta por Husserl, para conhecer junto com o meu paciente o sentido do seu sofrimento.

È uma psicoterapia de relação; é uma psicoterapia vivencial onde é evidenciada a capacidade da pessoa humana de se explicar e de se entender a si mesma através das suas vivências. Mas tudo isso é feito de um modo muito natural, nada complicado, tudo é muito simples e do jeito que a pessoa dá conta das suas vivências. A postura terapêutica é de aceitação e compreensão dos recursos que nascem da subjetividade do paciente, sem impor ou cobrar dele o que o terapeuta considera, conhece ou quer. Na sessão de terapia se vivencia e se busca juntos, do jeito que tanto o paciente quanto o terapeuta dão conta de chegar a vivência que deu origem ao sofrimento do paciente. O fio condutor é a análise da vivência.Só então o paciente é solicitado a se posicionar em relação àquela vivência.

ZENIT: Há muita procura, em Brasília, para essa terapia?
Dra. Maria Izabel: Há. E impulsionada pela responsabilidade da minha experiência com o sofrimento humano no meu consultório, pretendo aprofundar sempre mais o estudo e a pesquisa da fenomenologia para ajudar a psicologia e a psicoterapia a responderem de maneira mais eficaz e profunda os anseios da pessoa humana. 

Quero poder dar aos meus pacientes e as pessoas que me procuram para desvendar as causas psicológicas dos seus sofrimentos, condições de traçar um caminho próprio no conhecimento de si mesmos, possibilitando o confronto dos dizeres da fenomenologia com os seus empenhos pessoais. Acredito que é partindo das nossas vivências dentro de nós que percebemos e podemos conhecer como somos feitos e o que é verdadeiramente humano.
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Reportargem Por Lincon Soares de Siqueira
Fonte: Zenit.org. 01/03/2013
 Para maiores informações pode enviar um email para: mabelaviz@gmail.com

sexta-feira, 1 de março de 2013

Fora do expediente


Claudio Belli/Valor

 Eliane Gonçales: "Se você não está 
com o iPad, está com o iPhone. 
Quando estou num parque ou
 numa reunião de família, evito responder. 
Mas se é urgente, importante, atendo"
Netos de John Maynard Keynes estariam hoje na meia-idade, já perto da aposentadoria, e sem chance provável de ver concretizada a previsão feita pelo avô, em 1930, de que, cem anos depois, a jornada semanal de trabalho em países desenvolvidos teria caído para mínimas 15 horas. Teriam vivido, eles próprios, a experiência, comum nas últimas décadas, de trabalhar 30 e tantas horas, se não mais. Bisnetos poderiam, quem sabe, ler com interesse notícias a respeito da presença crescente de robôs na produção industrial e fazer algum tipo de conjectura favorável aos cálculos do avô - mas talvez fossem empregados no setor de serviços, e trabalhariam o triplo, hoje, sem imaginar coisa diferente para 2030.

Parece ser menor a cada dia a possibilidade de Keynes ter feito a conta certa quanto à jornada de trabalho. Mas é muito provável que daqui a 17 anos, como ele previu, a qualidade de vida nas economias avançadas possa ser medida em números até superiores a oito vezes os níveis de 1930 (por baixo, pensou, seriam quatro vezes). Um dos indicadores dessa mudança de padrão, o tempo livre, ele mesmo, e seu uso - quando cada um faz o que quer, em atividades de lazer, ou não faz nada, em ócio absoluto - passa agora a ser objeto de atenção do IBGE. Um sistema de pesquisa específico sobre uso do tempo, que começa a ser implantado, mostrará como o brasileiro se comporta quando não está cumprindo suas oito horas diárias de trabalho (se considerado o máximo admitido pela Constituição).

Faz sentido, essa decisão do IBGE. Somos apenas uma economia emergente, mas certas faixas da população já podem identificar-se, em sua realidade ou em perspectiva, com o personagem ao qual Keynes se refere no ensaio "Economic Possibilities for our Grandchildren", de 1931, aquele em que apareceram suas reflexões a respeito da jornada de trabalho (Keynes não teve netos. Sua mulher, a bailarina russa Lydia Lopokova, ficou grávida em 1927, mas abortou). Disse ele: "Pela primeira vez desde sua criação, o homem terá pela frente seu real e permanente problema" [não mais o de satisfação de necessidades básicas], ou seja, "como usar a libertação das preocupações econômicas, como ocupar o tempo livre ("leisure"), que a ciência e os juros compostos lhe terão proporcionado, para viver sabiamente e agradavelmente e bem".

Resultados de um teste do futuro sistema do IBGE, agora divulgados, indicam que o tempo gasto em atividades culturais, hobbies e esportes - típicas de tempo livre - não fica maior, entre pessoas com 25 anos ou mais, à medida que se sobe na escolaridade. Os entrevistados dessa faixa etária que tinham de 0 a 3 anos de estudo despendiam 2 horas e 26 minutos por dia àqueles fins; à escolaridade de 4 a 7 anos correspondiam 2 horas e 24 minutos; a 8 anos ou mais, 2 horas e 18 minutos. Ou seja, diferenças bastante pequenas. Também se verificou, no mesmo universo etário, que a variação ascendente de escolaridade corresponde a uma diminuição do intervalo reservado ao sono e aos cuidados pessoais, como comer, beber, descansar, zelar pela saúde.

O teste mostrou que os meios de comunicação de massa, como a televisão, preenchem parcela importante do tempo livre, em todos os grupos de escolaridade. Entrevistados com 0 a 3 anos de estudo relataram passar 3 horas e 34 minutos em frente à televisão, que se comparam a 3 horas e 29 para quem tem de 4 a 7 anos, e 3 horas e 22 minutos para os com 8 anos ou mais de estudo.

Esses resultados assemelham-se aos de pesquisa de uso do tempo realizada na França. Entre os franceses assalariados, assistir à TV representou 54% do que se considerava tempo de lazer - 1 hora e 52 minutos por dia de um total de 3 horas e 28 minutos. Outros 33 minutos eram despendidos com o uso da internet. Esportes e caminhada somavam mais 24 minutos e leitura, 9 minutos. Tal detalhamento deverá ser possível também no Brasil, quando o sistema do IBGE estiver implementado.

Em relação ao dormir - que não é considerado tempo livre -, o teste também revelou diferenças em relação a graus de escolaridade: de 8 horas e 32 minutos de sono para pessoas com 0 a 3 anos, o indicador cai para 8 horas e 9 minutos para os que tinham de 4 a 7 anos de escolaridade e para 7 horas e 58 minutos entre aqueles com 8 anos ou mais de estudo.

O tempo dedicado a cuidados pessoais, que inclui comer e fazer higiene pessoal, também é decrescente, de acordo com as faixas de escolaridade: 4 horas e 8 minutos, 3 horas e 45 minutos e 3 horas e 32 minutos, respectivamente.
Claudio Belli/Valor 
Vivian Perce: "Quanto mais se sobe de cargo, o tempo fica menor. 
Sair de cena, mesmo nos momentos de lazer, está fora de questão. 
Estou sempre conectada"
 
A soma de todas as atividades de tempo livre registrada para os pesquisados com 10 anos ou mais - ou seja, incluindo crianças -, foi de 4 horas e 49 minutos para os homens e 4 horas e 20 minutos para as mulheres.

As informações são preliminares. Segundo Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Renda do IBGE, o teste tem limitações, inclusive em relação ao aproveitamento da amostra. Embora tenham sido pesquisados 10.092 domicílios, apenas 53,1% dos diários de tempo - nos quais os entrevistados informam o que fizeram a cada 15 minutos do dia - foram considerados válidos. Quando implementada, a pesquisa terá âmbito nacional e será renovada a cada cinco anos.

Enquanto isso, Maurício Marquez, presidente da agência de comunicação carioca Fullpack, vai dando sua contribuição, todos os dias, para reduzir as 15 horas de Keynes à sua real dimensão de possibilidade. "Se não existissem essas tecnologias e eu precisasse fazer todas as coisas que faço hoje, o dia precisaria ter 48 horas. Com elas, consigo fazer tudo dentro de 24 horas. Inclusive, dormir. Fico ligado via iPad, telefone, quase 'full time'." Ali pelas 21h, quando vai para a cama, usa o botão "não perturbe" do iPhone para se desligar.

Uma possível explicação para o erro de Keynes na tentativa de configurar o que seria uma era de lazer expandido até níveis jamais imaginados estaria no fato de que, na verdade, as pessoas gostam de trabalhar. Podem até dizer o contrário, queixando-se de rotinas aborrecidas ou horários estendidos além do que prefeririam, mas o fato é que o lugar de trabalho também pode ser um ambiente prazeroso, de realizações próprias e convivência afetiva e criativa entre as pessoas. O livro "Revisiting Keynes", editado por Lorenzo Pecchi e Gustavo Piga (MIT Press, 2008), que reúne ensaios de vários economistas, passa por aí.

As mulheres são personagens - e, frequentemente, protagonistas, em funções antes reservadas aos homens - de presença marcante no universo de possibilidades de uso do tempo induzidas pelas novas tecnologias. Sônia Hess de Souza, presidente da Dudalina, indústria têxtil, e membro de várias entidades empresariais, inclusive do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, reserva sábados e domingos para a família. Em termos. "Raramente ligo para algum de meus executivos no fim de semana, mas não espiar o e-mail é quase como não rezar um Pai-Nosso antes de dormir. Estou evitando fazer isso e até sou bastante disciplinada. É mais no domingo à noite que começo a abrir a caixa postal para entrar no clima de segunda. É muito difícil no meu cargo ter tempo livre."

Feitas todas as contas, o tempo que Sônia dedica ao trabalho deve superar aquele captado como simples elemento estatístico. Em 2011, as mulheres tinham uma jornada semanal de 36,8 horas, praticamente a mesma carga de 2001, que chegava a 36,7 horas. Os homens passaram a trabalhar menos, dedicando à profissão 42,9 horas semanais em 2011, depois de terem chegado a 45,2 horas em 2001, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). É a carga mais baixa desde então. Nem por isso aumentou o tempo que destinam aos cuidados da casa e da família, terreno em que as mulheres permanecem com o peso maior, mesmo depois de uma redução de 28,9 para 26,3 horas. Os homens continuam satisfeitos, parece, com o que consideram a parte que lhes cabe na vida doméstica: eram 10,9 horas semanais em 2001, e nada mudou ao longo da década, até 2011.

Pessoas em cargos de direção, como Sônia, nas áreas privada e pública, são a categoria que declara ter as maiores jornadas, apesar da redução havida entre 2002, primeiro ano para o qual o dado está disponível, e 2011. Passaram de 50,4 horas para 47,3 entre os homens, e de 45,4 para 43,1 entre as mulheres - acima, portanto, das médias nacionais para cada sexo.

A redução da dupla jornada, tanto para homens quanto para mulheres, tem significado relativo na vida real de cada um, e não só como se espera de toda expressão estatística. Vai ganhando ritmo de tendência a sobreposição de uso profissional ao que antes era o tempo considerado efetivamente livre - ou seja, o antigo expediente, que antes se restringia ao escritório, passou a atravessar a porta de casa, ou de qualquer outro lugar em que se esteja, fora do ambiente de trabalho formal.

"Para boa parte da população economicamente ativa ocupada, o tempo de trabalho remunerado afeta o tempo livre de modo significativo, crescente e negativo", afirma André Gambier Campos, técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e doutor em sociologia pela USP, autor do estudo "Trabalho e Tempo Livre", publicado em setembro. Campos observa que essa interseção de usos do tempo foi declarada, pelos entrevistados em pesquisa realizada para fundamentação do estudo, mesmo tendo diminuído, nos anos 2000, as ocorrências de jornadas mais extensas que o limite legal de 44 horas semanais.

Pesquisadores do Sistema de Indicadores de Percepção Social (Sips) do Ipea ouviram 3.796 pessoas em todo o Brasil. Menos de um terço (29,7%) dos entrevistados disseram-se capazes de assumir outros compromissos regulares para além do trabalho remunerado. Parcela maior (37,7%) informou que o tempo livre vem diminuindo no período recente, por efeito direto das atividades profissionais. E quase metade (45,4%) disse ter dificuldade para se desligar totalmente do trabalho, mesmo após o fim do expediente.

Aline Massuca/Valor 
Mauricio Marquez (na bateria), em momento de uso livre do tempo na agência de que é presidente: 
"Se não existissem essas tecnologias, o dia precisaria ter 48 horas"
 
"Quanto mais avançado um contexto econômico, maior a valorização do trabalho e das credenciais a ele vinculadas. Por isso, os grupos ocupacionais mais escolarizados e que auferem maiores ganhos econômicos trabalham cada vez mais, porque deriva daí seu símbolo de status", diz Luiz Flávio Neubert, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que analisou em sua tese de doutorado o uso do tempo por diferentes posições ocupacionais. O acréscimo de horas trabalhadas é maior entre as mulheres. Segundo dados do IBGE, para as que tiveram 11 anos de estudo ou mais, a carga semanal é 6 horas maior do que a das com até 10 anos. Para os homens, nesse mesmo recorte, o aumento é de 1,2 hora.

"Meu tempo livre diminuiu muito. Priorizo a vida familiar e meu lado profissional. Tenho feito menos exercícios, vou menos à academia. Tempo livre, ocioso, a gente diminui. Na verdade, quase não tenho", diz Danielle Panissa, diretora de marketing da Procter & Gamble, casada e mãe de duas crianças. É assim, apesar de ela morar a sete minutos do trabalho. "Dá para bloquear a agenda e almoçar com a família" - os filhos também estudam nas redondezas.

A hora do almoço de Vivian Perce, gerente especialista em recursos humanos do grupo FBM, de consultoria empresarial, acaba servindo para, "de vez em quando, dar uma passada no supermercado". As refeições em família são o café da manhã, que ela prepara depois de levantar-se às 5h30, e o jantar - quando é possível, já que a jornada, de aproximadamente dez horas, continua em casa. São outras duas ou três horas no trânsito.

"Acho que, quanto mais se sobe de cargo, o tempo fica menor", diz Vivian, casada, mãe de uma menina de 9 anos. "É claro que, com um nível econômico melhor, consegue-se fazer coisas diferenciadas. Dá para ir a bons restaurantes, viajar quando há um feriado prolongado, para passar bons momentos juntos. Mas é complicado em relação ao nível de responsabilidade que você assume." Sair de cena, mesmo nos momentos de lazer, está fora de questão. "Não dá para parar, desligar a chave realmente. No dia a dia, e mesmo no fim de semana, estou sempre conectada. Recebo e-mails, atendo o telefone. Não há como não responder. Procuro ter um equilíbrio durante o fim de semana em relação às minhas atividades. Mas não deixo de responder, de atender a uma necessidade que seja urgente."

Para Neubert, da UFJF, são justamente as pessoas mais qualificadas que tendem a ampliar o tempo dedicado ao trabalho para além do período formal, levadas pelas facilidades das novas tecnologias de comunicação, como "tablets" e telefones móveis. "Para trabalhadores autônomos não qualificados, por exemplo, o uso do celular é uma importante fonte para conseguir demanda de trabalho." Para ocupações de gerência e administração, trata-se de dedicar mais tempo às tarefas do dia.

Os mais de 30 anos no mercado óptico ensinaram à diretora da divisão de luxo da Cartier Lunettes no Brasil, Eliane Gonçales, como identificar o que é importante, urgente - competência valiosa, sobretudo agora que o "smartphone" e o "tablet" lhe deram a companhia permanente dos e-mails. "Se você não está com o iPad, está com o iPhone. Querendo ou não, todas as mensagens batem no meu telefone. Então, mesmo que esteja fazendo o pé ou a mão, eu recebo. Quando estou num parque ou numa reunião de família, evito responder. Mas se é urgente, importante, atendo imediatamente."

A atenção aos excessos permitidos pela conectividade ilimitada não deve se restringir às preocupações do dirigente empresarial consigo mesmo. É recomendável que se estenda ao que ocorre com os subordinados, avalia Alvaro Mello, coordenador do Centro de Estudos de Teletrabalho e Alternativas de Trabalho Flexível (Cetel), da Business School São Paulo. O risco de empregados ampliarem a jornada além da conta, e partirem depois para demandas judiciais, é real até mesmo para companhias que não usam formalmente o trabalho a distância.

"O trabalhador passa o dia inteiro na empresa e, quando chega em casa, vai dar uma olhada no notebook", diz Mello. "Há empresas que não permitem o trabalho fora do escritório, mas também não dão tempo para que o funcionário, por exemplo, responda a todos os e-mails. Resultado: ele vai trabalhar mais duas, três horas horas em casa." Uma estratégia possível é barrar o acesso à rede corporativa a partir de determinado horário - como faz o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), que impõe a restrição a partir das 21 horas. Mas isso não significa que se esteja erguendo uma barreira por si só suficiente para conter o comportamento dos funcionários em limites estabelecidos pela empresa.

É o que se vê no caso de Thaïs Rodrigues Crespo Luz, funcionária da área de gestão de processos do Serpro. "De repente, você está com insônia e vai trabalhar de madrugada." Escrever um relatório, por exemplo, pode não depender de acesso à base de dados. A reabertura do sistema, no dia seguinte, encontrará Thaïs sem nenhuma preocupação com a hora de ir para o trabalho. Há quatro anos ela dá expediente em casa, em Santos, no litoral paulista, a 80 km de São Paulo, onde está a unidade do Serpro. Em suas contas, essa opção lhe permite economizar de 4 a 5 horas por dia, considerado o tempo de ida e volta da capital. "Antes, quando estava em São Paulo, mesmo que estivesse no meio de um projeto, de um processo, de uma linha de pensamento, tinha de largar às 17 horas. Hoje, não preciso nem interromper o trabalho por causa do horário. Posso me estender um pouco mais, se quiser." Habitualmente, porém, ela, que se diz "metódica e disciplinada", cumpre o horário formal.

Keynes errou na previsão de queda contínua 
da jornada de trabalho, mas vai acertando na 
conta de melhoria da 
qualidade de vida

A questão de trabalhar em casa - como alternativa permitida pela empresa ou por vontade própria - é anterior à disseminação das tecnologias de comunicação, diz Mello. Pessoas com propensão a trabalhar além da conta usual, argumenta, já existiam bem antes dos "tablets", celulares e da própria lei 12.551/2011, que regulamenta o trabalho a distância. As inovações apenas lhes deram mais condições para estender a atividade, em casa ou em qualquer outro lugar.

Autocontrolar-se é difícil, pois as possibilidades abertas pelos novos equipamentos acabam tomando a forma de obrigação. O poder vira um dever, avalia a psicanalista Maria Rita Kehl. "Conheço pessoas, aqui no meu consultório, não só pacientes, que têm a seguinte dificuldade: se não aceita fazer uma reunião on-line com o chefe e mais três funcionários às 22h, você sairá perdendo. A competitividade traz essa pressão. Afinal, se você pode, se você tem um celular, por que não? É quase irrecusável."

Maria Rita observa que as tecnologias, enquanto prometem agilidade para resolver demandas profissionais e, assim, proporcionaram mais tempo livre, acabam por transformá-lo em uma extensão do tempo de trabalho. A própria diversão já ganha características das atividades laborais. "O ritmo de uma rave é quase uma espécie de reprodução de um trabalho industrial pesado." Ela faz também um paralelo entre o incessante bater e postar fotos dos momentos de descontração e a lógica do trabalho. "Ele [o indivíduo] é produtivo o tempo todo."

A noção de que se está sempre acessível em qualquer lugar é uma das alterações que as tecnologias produzem no cotidiano e que contribuem para turvar a fronteira entre tempo livre e tempo de trabalho, diz Carla Rodrigues, doutora em filosofia e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). "Você trabalhou por 8, 9, 10 horas e já está fora do seu horário de trabalho, mas deve estar disponível para algum tipo de emergência ou algum tipo de demanda que a empresa possa apresentar. Provavelmente, não existe nenhum lugar do mundo onde você não pode ser encontrado."

É um lado negativo do progresso tecnológico que começa a provocar questionamentos sobre a qualidade do tempo livre, agora visto não apenas em suas quantidades, afirma Marco Mira d'Ercole, diretor de Estatísticas Domésticas e Mensuração de Progresso da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O tempo total dedicado ao lazer é um dos indicadores que d'Ercole considera fundamentais para se medir a qualidade de vida de uma população. Mas talvez já seja hora de contabilizar também quanto de lazer pode ser aproveitado de forma ininterrupta, para assim definir a qualidade do uso que se faz do tempo em que se está fora do trabalho. "Se você gasta duas horas vendo um filme, mas é interrompido seis vezes por causa do e-mail profissional que supostamente deve responder, pode argumentar que, mesmo se o seu tempo livre total não muda, a quantidade de prazer que você tira dele é menor", disse d'Ercole ao Valor.

Interrupções, de fato, afetam negativamente a qualidade do lazer, observa Jonathan Gershuny, diretor do Centro para Pesquisa de Uso do Tempo e professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Oxford. Seja qual for a relação entre tempo de trabalho e tempo livre, ainda é cedo para dizer que se esteja trabalhando mais, afirma Gershuny - e talvez as novas tecnologias apenas tenham substituído pastas e papéis. "Em pesquisas que faço desde os anos 1970 fica evidente o hábito de se levar trabalho para casa, principalmente em profissões que exigem grau elevado de conhecimento."

Otávio e Elisabeth Ventura decidiram expulsar o celular das mesas dos restaurantes. Há dois anos, começaram a deixar os aparelhos no carro, ou na bolsa. Evitam falar de trabalho fora da Your Office, empresa de aluguel de flats comerciais com sede em Barueri, na Grande São Paulo, que administram juntos. Mas a tecnologia frequentemente fala mais alto, como no ano passado, durante uma viagem a Visconde de Mauá, no Estado do Rio. "Pegamos a estrada na hora do almoço", conta Otávio. "E daqui até lá são algumas horas. Elisabeth foi o tempo todo no "tablet". Chegou uma hora em que disse: 'Espera aí. Saímos para viajar ou você trouxe o escritório para dentro do carro?'". E acrescenta: "Bem administrada, tecnologia é uma facilidade que você não fica mais sem. Computador e celular são como automóvel. Você consegue viver sem só enquanto eles não existem."

Carla Rodrigues também atribui a interseção entre tempo de trabalho e tempo livre a outras dinâmicas socioeconômicas. Uma delas é a flexibilização do mercado, que exige disponibilidade permanente dos que trabalham em regime precário, sem carteira assinada - nenhum telefonema, não importa em que horário, deixará de ser atendido, pois pode ser uma oportunidade de negócio, exemplifica.
 
Otávio e Elisabeth Ventura decidiram expulsar o celular das mesas dos restaurantes que frequentam. Há dois anos, começaram a deixar os aparelhos no carro, ou na bolsa
 
Segundo Neubert, trabalhadores informais e menos qualificados têm dificuldade maior de organizar a semana em termos de dias úteis e fins de semana. "Indivíduos mal colocados no mercado de trabalho, que trabalham em ocupações informais etc., não desfrutam de uma semana organizada da forma mais tradicional, mesmo trabalhando 'menos'".

Outra circunstância nova é o crescimento da economia criativa. Para quem trabalha nesse segmento de atividade, a separação entre tempo de trabalho e tempo livre não faz sentido, diz Carla, pois a criação depende do tempo livre para que se produza inspiração. Gershuny acredita que a divisão entre trabalho e lazer, historicamente, é na verdade uma exceção forjada durante a era [de domínio] industrial - e por isso é mais difícil, hoje, identificá-la.
"Acho que aquilo foi um período inusual em que essas temporalidades eram fortemente separadas e delineadas. Mas, historicamente, essa não foi a regra e talvez tenhamos voltado agora para uma situação mais parecida com a que existia antes do alto período industrial, em que trabalho e lazer, o lugar de trabalho e o lugar da família, produção e consumo estavam mais misturados", afirma Gershuny.

A flexibilização do uso do tempo pode dar-se no próprio lugar de trabalho. É assim na Fullpack. Em sua sede, no Rio, os terraços têm vista para o mar da Barra da Tijuca. Há os vestiários necessários para quem quer pegar uma onda na hora do almoço, um bar, jardim e um estúdio onde o presidente Maurício Marquez toca com a banda de que participa com outros membros da empresa - a Fullband. Ele é o baterista. Sessões de relaxamento também ajudam a aliviar o peso da rotina.

"Você consegue pessoas mais comprometidas, mais felizes, porque trabalham num ambiente relaxado. Fala-se na questão do ócio criativo, e é isso mesmo. A gente vê nos números. Tivemos um crescimento do faturamento bruto de 46% [em 2012]. Quem faz isso são as pessoas que estão trabalhando no dia a dia. Pessoas felizes, empresa feliz também. Isso tudo reflete na saúde delas, ficam menos doentes, têm menos estresse."

O ócio no trabalho é possível, pois é uma "vivência interior", que depende da vontade da pessoa e não do momento em que acontece", explica o pedagogo Manuel Cuenca Cabeza, fundador do Instituto de Estudos do Ócio da Universidade de Deusto, na Espanha, e autor de 23 livros sobre o tema. O mesmo vale para cozinhar ou cuidar dos filhos e netos, tarefas comuns do tempo livre das executivas ouvidas pelo Valor, mas que são registradas como trabalho doméstico nas pesquisas sobre trabalho e uso do tempo. Isso porque, diferentemente de ver um filme ou ir à academia, por exemplo, tais atividades podem ser delegadas.

A chave para diferenciar uma coisa da outra é, mais uma vez, o ritmo, diz Maria Rita Kehl. "Se você tem tempo para chegar em casa e fazer comida para seu filho, isso vai ser feito forçosamente em outro ritmo (que não o de trabalho). A não ser que você esteja fazendo comida correndo, para voltar logo para o emprego. Mas, mudando o ritmo, isso já é sentido como lazer na situação que se vive hoje."

Independentemente da forma como são executadas ou experimentadas, porém, atividades domésticas não remuneradas geram riqueza e, portanto, também podem - e, para alguns pesquisadores, como d'Ercole, devem - entrar nas contas nacionais. No Brasil, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Economia da UFF fez um exercício atribuindo ao tempo gasto no trabalho doméstico não remunerado um valor baseado no salário pago às empregadas domésticas. O cálculo aponta que, se os afazeres de casa que homens e mulheres realizam de graça fossem contabilizados monetariamente, significariam um acréscimo ao PIB, a cada ano, em média, de 11,3% (no período 2001/2011). "É uma subavaliação", ressalva Hildete Pereira, integrante do grupo e coordenadora geral dos programas de educação e cultura da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) da Presidência da República. As mulheres são responsáveis por 82% daquela contribuição para o PIB, em correspondência direta com o fato de assumirem mais a responsabilidade por atividades domésticas do que os homens.

Mesmo entre ocupantes de cargos de direção, a desigualdade é também significativa: enquanto os homens realizam 8,6 horas de afazeres domésticos por semana, a carga horária feminina é de 17,8 horas, segundo a PNAD, do IBGE. "Quando a população tem mais renda, contrata empregada doméstica. Ainda assim, as mulheres, mesmo as que trabalham fora, administram (a casa) e fazem alguns trabalhos domésticos", diz Neuma Aguiar, professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais e membro vitalício da Associação Internacional de Pesquisas de Uso do Tempo.

Neste ano, pela primeira vez, a conferência da entidade acontecerá no Brasil, indicação do interesse do país em implementar sua própria pesquisa de uso do tempo. Será em agosto, no Rio de Janeiro. A expectativa, segundo Cristina Monteiro, coordenadora do Comitê Técnico de Estudos de Gênero e Uso do Tempo (Cegut) da SPM, de que também participam IBGE e Ipea - é que uma decisão sobre o início do recolhimento de dados seja tomada ainda neste ano. "A divisão sexual do trabalho", diz Cristina, "nada mais é, para dizer de maneira simples, como os homens e as mulheres dividem seu tempo entre o trabalho remunerado e não remunerado."

Vivian, da FBM, afirma que ela e o marido, ambos executivos, conseguem chegar a uma boa divisão das tarefas domésticas. "Mas é claro que, se acontece algum problema na escola (da filha), se há alguma demanda, sou eu que vou conversar. A mulher ainda acaba abrindo muito a mão das coisas em relação ao homem. As atividades do trabalho e da casa, apesar de eu ter uma pessoa que ajuda bastante, acabam consumindo a maior parte do tempo. Na verdade, não tenho tempo livre."

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Reportagem por Por Vitor Sorano e Cyro Andrade | De São Paulo
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/01/03/2013

O livro leva ao ridículo a nossa burguesia arrivista

Confira o posfácio do crítico literário Alfredo Bosi ao livro "O Brasil", de Mino Carta 
 
Cotia, 23 de fevereiro de 2012

Caro Mino Carta,

[Captatio benevolentiae pela demora destas linhas. Passado infelizmente um tempo turvado por longo pós-operatório, dispus daquelas horas de leitura, intervalo feliz entre os cuidados de que é feito o cotidiano. Foi só então que pude ler os originais do seu livro.]

Balanço de uma vida, diz o bilhete com que me chegou este retrato agônico da vida pública brasileira. Nascido em 1936, fui contemporâneo dos sucessos narrados. Mas, lido este Brasil, vejo pessoas e acontecimentos à luz de outro olhar. Mais intenso, quase ofuscante, não raro cruel. No começo da leitura pareceu-me que a ferinidade vinha de uma visada mais aguda e ácida que a do comum dos mortais. Mas não, não era só isso. Era a própria realidade que se revelava na sua crueza. Crueza cruel, com o perdão do pleonasmo. Retratar o nosso homo politicus é lidar com o nauseante: que galeria de patifes talvez superada apenas pela dos jornalistas! Aqui o narrador pôs o dedo na ferida, mas, em vez de sangue fresco, o que jorrou foi pus. Lembra, de longe, a fauna satirizada por Lima Barreto nas Recordações do Escrivão Isaías Caminha, mas tão deteriorada que desafia qualquer hipótese progressista em relação à história da nossa espécie.

Sempre desconfiei dos colunistas de nossos jornalões. Agora vejo estampada em negrito a sua venalidade, a completa expressão da covardia e do oportunismo. A exceção luminosa de Cláudio Abramo brilha, de raro em raro, servindo apenas para que o leitor entreveja o negrume da malta. Que figura organicamente lastimável esse Abukir (pouco importa se figura à clef, ou não), que atravessa o livro de ponta a ponta e só teve um momento fugaz de autoconsciência nas páginas finais! Aí o autor acertou em cheio dando a palavra, entre cínica e confessional, a esse títere do sistema trabalhado em terceira pessoa ao longo do texto. No final, as personagens, quase sempre meros tipos sociais, tem a oportunidade de se converterem em pessoas. Não todas, é bem verdade, pois o tipo é inerente ao gênero satírico da escrita. E qual o desígnio do seu texto? Levar ao ridículo a nossa burguesia arrivista e puni-la metodicamente, mas sem nenhuma esperança de corrigi-la. Já não daria mais para crer no ridendo castigat mores? Parece que não. Tudo ficou opaco, tudo mercadoria subindo ao primeiro plano, tudo status dentro de cada carreira profissional.

A caricatura expõe traços obsessivos. O narrador nunca deixa de pontuar o cafonismo kitsch colado ao granfinismo paulista e figurado pelo ponto de vista de um anarco-sindicalista aristocrático e renascentista chamado Mino Carta. Afinal, “nel mondo non c’è che volgo”, palavra de Maquiavel ajustada à semicultura dos políticos e jornalistas que não cessam de nos infelicitar. Farpas lançadas contra as veleidades gastronômicas e as indumentárias dos figurantes valem como portraits de uma classe sem classe.

No entanto, há clareiras neste carrascal. Quem diria que o enigmático Golbery conseguisse passar quase incólume pela malha apertada de um juiz invariavelmente democrático e progressista, que é o nosso narrador? Pois passa; é o olhar humanizado por uma longa experiência da fragilidade humana que o valia, e é capaz de compensar a triste astúcia do maquiador de golpes com a melancolia do jogador derrotado em um momento digno do seu destino. (Terei entendido bem?)

E há a figura imponente do chevalier sans peur et sans reproche, Raymundo Faoro. Não conheci o privilégio de tê-lo como confrade, mas a honra de tê-lo como eleitor. Um voto que ainda me surpreende e comove. E há os que ajudam a matizar o quadro sinistro: Ulysses, Montoro, Severo Gomes, mas são tão poucos… E a imagem de Lula, que apesar dos pesares, resiste galhardamente.

No tecido que remata o livro, sinto em Paulo alguém que me dá vontade de abraçar fraternalmente.

Mas é já tempo de reconhecer, ao longo de cada página, uma voz amarga, ainda que animosa. É a voz que fundou o Jornal da República, e que se desenha, em corpo inteiro, na tocante autobiografia do jornalista intimorato, homem digno de outro jornalista, que o gerou e instruiu.

Obrigado e o abraço amigo do

Alfredo Bosi
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Fonte:  http://www.cartacapital.com.br/23/02/2013

Mal-estar na torre de marfim

Thomaz Wood Jr.*

 Foto: Istockphoto

O ambiente acadêmico é um palco onde atuam diferentes grupos de interesse e as forças e pressões resultantes nem sempre conduzem aos nobres ideais sociais. 

The Lancet é uma das mais tradicionais, conhecidas e respeitadas publicações científicas da área médica. A revista foi criada pelo cirurgião inglês Thomas Wakley no primeiro quartil do século XIX. É o The New York Times das revistas acadêmicas: se lá foi publicado, é porque é verdade e deve ser lido, quase sempre…

Além de publicar os mais relevantes estudos da medicina, a revista não se priva de assumir posições firmes e provocar polêmicas. Em 2003, um editorial propôs, sem meias-palavras, o banimento do tabaco no Reino Unido. Em 2009, a revista acusou o papa Bento XVI de distorcer evidências científicas para promover a doutrina católica sobre a castidade na prevenção da Aids. Um ano depois, um artigo da revista elegeu como alvo o álcool, acusando-o de causar problemas mais graves do que aqueles provocados por algumas drogas ilícitas.

Agora um editorial publicado no início de fevereiro atrai a atenção do leitor com o instigante título: qual é o propósito da pesquisa médica? Em pauta, a fragilidade do processo de construção de conhecimento na medicina.  Pode não ter sido a intenção do autor, mas as provocações contidas no texto ultrapassam as fronteiras da pesquisa médica e poderiam ser dirigidas a outros campos científicos.

Segundo o editorialista, a cada ano são investidos 160 bilhões de dólares em pesquisas na área médica. Entretanto, suspeita-se que o benefício social seja no mínimo duvidoso. Em 2009, Ian Chalmers e Paul Glasziou, em texto publicado na própria The Lancet, estimaram que 85% das pesquisas realizadas desperdiçam recursos ou são ineficientes. As deficiências abrangem quatro dimensões: a falta de relevância para médicos e pacientes, a inadequação do escopo e dos métodos, a dificuldade de acesso aos resultados, e restrições relacionadas à imparcialidade e à significância clínica. Em outras palavras, apenas 15% das pesquisas são confiáveis e relevantes.

Ainda segundo o editorialista, quando se pergunta qual o propósito da pesquisa médica, a maioria das pessoas responde sem vacilar: “Avançar o conhecimento para o bem da sociedade, para melhorar a saúde das pessoas em todo o mundo ou encontrar melhores maneiras para tratar e prevenir doenças”. A realidade, entretanto, é bem diferente. O ambiente acadêmico é um palco onde atuam diferentes grupos de interesse e as forças e pressões resultantes nem sempre conduzem aos nobres ideais citados no início do parágrafo.

O sistema de financiamento à pesquisa costuma adotar procedimentos burocráticos e enfatiza resultados de curto prazo nem sempre coerentes com as características da investigação proposta. A avaliação por pares e especialistas é repetidas vezes opaca e demorada. Empresas farmacêuticas amiúde patrocinam pesquisas em busca do máximo retorno para seu investimento. E as próprias instituições de pesquisa, de mentalidade empresarial, pensam cada vez mais em termos de desempenho, frequentemente utilizando o número de publicações científicas como indicador de sucesso.

O editorialista encerra seu texto com uma chamada para ação: chegou a hora de fazer uma reflexão crítica sobre o estado das coisas e repensar a forma como a pesquisa é conduzida: primeiro, os pesquisadores precisam se lembrar do propósito real da ciência; segundo, é necessário criar processos participativos capazes de definir que pesquisas são necessárias e o impacto esperado; terceiro, as instituições de pesquisa e as universidades devem avaliar pesquisados com base em resultados de longo prazo; e, quarto, os próprios pesquisadores devem se lembrar de por que escolheram suas carreiras. Afinal, é deles a responsabilidade de defender um ambiente propício à pesquisa.

A provocação da revista The Lancet não causa surpresa. Trata-se de mais um sinal do mal-estar resultante do estado das coisas na torre de marfim. Há tempos vêm surgindo, nas mais diversas áreas e latitudes, críticas e apelos a mudanças. As universidades modernas nutriram uma elite peculiar de pesquisadores, uma classe sofisticada, apartada do mundo ao redor e zelosa de seus pequenos privilégios. Onde ocorreu a tentativa de domesticá-la pela adoção de uma pletora de práticas de negócios parece ter gerado mais efeitos colaterais do que resultados positivos.

Reformar o sistema não é tarefa trivial. Sua missão foi desvirtuada, recursos estão sendo mal utilizados, mentes brilhantes estão sendo desperdiçadas e o impacto social fica aquém das mais justas expectativas. Nada disso, entretanto, parece ser suficiente para fazer frente a um modelo que soma pequenas inércias para criar um gigante imune e entorpecido deitado em berço esplêndido.
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* Thomaz Wood Jr. escreve sobre gestão e o mundo da administração. thomaz.wood@fgv.br
Fonte:  http://www.cartacapital.com.br/27/02/2013

É o fim de um mundo?

Mino Carta*

Santa Maria del Fiore. A cúpula mais bela, sem ostentação e jactância. Foto: Cosmo Condina /Tips /Photononstop /AFP

Santa Maria del Fiore. A cúpula mais bela, sem ostentação e jactância. Foto: Cosmo Condina /Tips /Photononstop /AFP

Quinhentos degraus, se não me engano, separam o chão de São Pedro do terraço circular que cerca a cúspide da cúpula de Michelangelo. Galguei-os aos 8 anos de idade conduzido por minha avó paterna, Adele, romana de Roma. Escalada audaciosa e jamais repetida, e lá do alto me pareceu contemplar o Universo.

À de São Pedro prefiro a cúpula de Santa Maria del Fiore, em Florença, obra de Filippo Brunelleschi, remonta aos começos do século XV e é a primeira erguida pelo homem. Esta me ficou na memória na mocidade, e minha emoção foi puramente estética. Já não cursava o primário no colégio das Marcelinas, as boas freiras com suas toucas graciosas a despeito dos acabamentos em renda negra.

Estudei no colégio das Marcelinas porque meu pai, anticlerical convicto, via ali um reduto antifascista. E era, clara e corajosamente. Não obrigavam os alunos a participar nas manhãs de -sábado dos desfiles organizados em praça pública, a reunirem uma patética garotada de uniforme não bélico, belicoso. E, em pleno vigor das leis raciais que mancomunaram Mussolini a Hitler, abrigavam meninos e meninas judeus em classes mistas, isentando-os das aulas de catecismo, quando iam ao jardim para brincar entre as árvores. Para minha inveja.

Não duvidava, então, a despeito da ojeriza irreversível ao catecismo, da condição do papa na qualidade de vigário do Altíssimo. Meu pai permitia-se insinuar brandas dúvidas, sem êxito. Eu mostrava talento para coroinha e voltava miradas luzidias na direção de uma coleguinha judia de olhos amendoados e sobrenome Avigdor.
A respeito do papa, como númeno e como fenômeno, tenho lido até a fartura nos últimos tempos e não nego que haja razões para tanto. Ocorre, porém, que Bento XVI não é, na minha visão, aquele que os analistas pretendem. Trata-se de um ancião alquebrado, envelhecido apressadamente no mister, e isso é inegável. Que a imponência dos problemas a enfrentar o tenha levado à renúncia é admissível, e até provável. Certo é que apareceu o homem comum, frágil e impotente, obviamente incapaz de representar o Criador, como supunha eu ao encarar o Universo do alto de São Pedro.

A renúncia de Ratzinger, empedernido, irredutível conservador, não é um sinal inesperado de modernidade, é a confissão da derrota, pessoal e da anacrônica monarquia por direito divino que se mantém impávida desde a oficialização do cristianismo como religião de Estado pelo imperador Constantino, pouco além do ano 300 d.C.

Cada vez mais entregue a Terra à prepotência das oligarquias do poder pelo poder, e de tudo que as favorece, não deixará de haver empenho  fervoroso em perpetuar o quanto  aí está -para ver como fica. Mais ou menos como se dá no enfrentamento da crise econômica que abala a humanidade em peso. Em vez de combater quem a provoca, as soluções postas em prática visam a lhe facilitar a vida. Em lugar de produzir bens, ou saber e conhecimento, multiplicam-se mentiras grosseiras e grana para poucos, empulhações vulgares (como a arte contemporânea, insisto neste ponto, como sinal da imbecilização do planeta) e os privilégios dos emires, autênticos ou recém-construídos.

Bento XVI desistiu de sua habitual arrogância, que o conduziu intocada até o papado, e entregou os pontos. Aplastado, deu as pancadas de praxe no tablado. Ganha um futuro em sossego, sem exclusão dos pés metidos em pantufas marrons. Prada, é o caso de apostar. Espero que o assaltem os pesadelos noites adentro, e mesmo ao longo do dia. No mais, não vou arregalar os olhos se o futuro papa for igual a Ratzinger na confirmação da insustentável medievalidade da Igreja Católica Apostólica Romana.
Reveste-se o momento da força avassaladora e imponderável dos símbolos, manifestada inclusive na capacidade de anexar situações aparentemente diversas, de aprisioná-las em um único contexto, atadas à circunstância, agrilhoadas sem perceber, vítimas do destino fatídico. Estaríamos diante de mais uma encruzilhada global? Não se trataria do fim do mundo, mas do fim de um mundo, e talvez seja aprazível figurar na assistência. Quem resiste, perderia. Ou ganharia, para ser ainda poder dentro dele, largo tempo de sombra espessa.
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Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br
Fonte:  http://www.cartacapital.com.br/internacional/e-o-fim-de-um-mundo/