domingo, 3 de março de 2013

O lirismo do artista quando jovem

Com a morte do pai, no fim dos anos 1970, Auster decidiu se dedicar à prosa - Effigie/Leemage

Effigie/Leemage
Com a morte do pai, no fim dos anos 1970, Auster decidiu se dedicar à prosa

Antes de se tornar um ficcionista de peso, o norte-americano Paul Auster traduziu e editou poetas franceses contemporâneos e publicou os próprios versos - que saem agora no País

A poesia do escritor norte-americano Paul Auster é pouco ou nada conhecida entre seus leitores brasileiros. Traduzida por Caetano W. Galindo, ela foi reunida em Todos os Poemas, que chegou às livrarias ontem. O livro, organizado de forma cronológica, cobre o período entre 1970 e 1979 - época em que o romancista integrava um grupo de estudos sobre poesia contemporânea francesa. Acompanhado de uma esclarecedora introdução do cientista político Norman Finkelstein, Todos os Poemas é, a exemplo de muitos dos livros de Auster, autobiográfico por natureza, evocando desde a infância do escritor em New Jersey até sua juventude em Paris, quando, aos 25 anos, ao acompanhar a eleição presidencial na embaixada americana, testemunhou a vitória de Nixon, em 1972, e escreveu um dos seus mais raivosos poemas.
Sobre o livro e as razões de ter trocado a poesia pela prosa, em 1982, Auster, de 66 anos, falou, por telefone, de Nova York, com o Sabático, comentando ainda o volume Here and Now, que reúne sua correspondência com o Nobel sul-africano J.M. Coetzee (o livro chega ao mercado americano na quinta) e outro título seu, Report From the Interior, (que sai no dia 19 de novembro nos EUA).

Sua produção literária vai da poesia à prosa, passando por uma experiência como dramaturgo, da qual você não gosta muito de lembrar (ele é autor da peça em um ato, Hide and Seek, de 1976, duelo verbal entre um homem e uma mulher). O que o fez largar a poesia e se decidir pela prosa?
Essa é uma questão complicada. Quando jovem, escrevia centenas de páginas de prosa, mas nunca ficava satisfeito. Minha ambição era escrever romances, não poesia, projetos ambiciosos, complexos, muito além da minha capacidade. Ficava frustrado com essa minha inabilidade e, aos 22 anos, resolvi me concentrar na poesia, a tal ponto que ela virou obsessão. Veio um momento difícil e, repentinamente, parei de escrever. Quando retomei, já estava escrevendo prosa. Foi uma evolução lenta, natural.

Então, você não escreveu mais poesia?
Não. Tudo o que escrevi no gênero está no livro. Às vezes faço um ou outro poema para homenagear amigos aniversariantes, mas só isso.

Como um admirador da filosofia de Wittgenstein, sua poesia explora os limites da linguagem com curtos, mas densos, poemas, num crescendo que chega a Espaços em Branco (como White Spaces é traduzido no livro), concluído em 1979, quando seu pai morreu. Você se via como um poeta experimental, na época?
Não sei. O lado experimental nunca me disse muito. Tentei, sim, explorar os limites da linguagem, mas não como meta puramente formal. Meus poemas não falam de aviões ou de televisão, ou seja, não estão inseridos no mundo moderno. Eles têm mais a ver com a poesia feita no passado: Emily Dickinson, por exemplo. Tentei cavar e cavei fundo para chegar lá, mas concluí que destruía mais do que conservava. White Spaces representou uma nova possibilidade. Foi o primeiro texto de minha nova vida, a de prosador, que começa com a morte de meu pai (choque que o deixou com a sensação de um relacionamento inacabado, sentimento explorado mais tarde no autobiográfico ‘A Invenção da Solidão’).

Sua estreia em prosa, A Invenção da Solidão, publicado em 1982, fala justamente da morte de seu pai, mas, curiosamente, há um poema em Todos os Poemas, Desaparecimentos (Disappearences, 1975), que soa premonitório, ao tratar da ausência de alguém que respira pela última vez, metaforizando pedras que se juntam para erguer um muro, como se fosse uma sepultura. Você vê ligação entre Desaparecimentos e White Spaces?
Não propriamente. Desaparecimentos era uma maneira de falar do sentimento de solidão do indivíduo no meio urbano, sobre a comunicação numa língua de pedra que abre caminho para outras pedras, erguendo um muro que, no fim, é um amontoado de pedras monstruosas. A primeira parte de A Invenção da Solidão foi escrita após a morte de meu pai, sob forte impacto emocional. Ele morreu subitamente. Era uma pessoa saudável e isso me deixou com várias perguntas sem respostas. Quando comecei a escrever, me dei conta do quanto era difícil falar de uma pessoa ausente e, especialmente, questionei se seria possível traduzir esse sentimento. Durante três anos, de 2008 em diante, troquei cartas com Coetzee (o escritor sul-africano ganhador do Nobel de 2003), que foram reunidas num livro, Here and Now (Aqui e Agora), a ser lançado dia 7 nos EUA. Ao comentar esse sentimento com Coetzee, ele me disse: "Às vezes também me sinto como alguém que deixa a mala no meio do caminho e continua a andar, pois não há a mínima possibilidade de volta a partir desse ponto".

Voltando à poesia, poderia lembrar outros nomes que lhe parecem caros, como Hölderlin, Leopardi e, claro, Paul Célan, mas aí entramos em território europeu. Poetas norte-americanos contemporâneos, como W. S. Merwin ou William Carlos Williams, não eram referências para você no começo de sua carreira como poeta?
Gosto demais dos poetas que você mencionou e, claro, tanto Merwin como Williams foram importantes para mim, assim como Höelderlin, Leopardi ou Célan, mas gostaria ainda de citar um poeta de quem hoje pouco se fala, George Oppen (que trocou a poesia pelo ativismo político durante os anos da Depressão americana, ganhou o Pulitzer em 1969 e morreu com o mal de Alzheimer, em 1984). Oppen não é um dos "deuses" da poesia contemporânea, mesmo nos EUA, mas é um dos melhores poetas americanos - para mim o melhor -, cuja linguagem teve um efeito extraordinário quando comecei a escrever. No meu livro Invisível, não sei se você lembra, o estudante de letras Adam Walker escreve sobre ele na mesa de um café parisiense.

Ezra Pound sugeriu que, antes de escrever poesia, os poetas deveriam traduzir o máximo de livros para internalizar os "grandes". Você traduziu um bocado de poesia nos anos 1980. Quais eram os poetas que tentava internalizar nessa época?
Estudei tradução quando era muito jovem, exatamente aos 20 anos, em 1967. Participava de um pequeno grupo de estudos de literatura contemporânea francesa e passava muito tempo traduzindo autores que depois publicaria (ele foi editor de ‘The Randon House Book of Twentieth-Century French Poetry’). Entre eles estão André du Bouchet e Jacques Dupin (o primeiro, morto em 2001 e Dupin, em outubro do ano passado). Por uma trágica coincidência, estou viajando amanhã para Paris (a entrevista foi concedida na quinta-feira) para uma homenagem póstuma a Dupin, esse poeta extraordinário, que foi meu amigo por 45 anos (Dupin, além de poeta, era sócio da histórica Galeria Maeght, em Paris, que representa Miró e Giacometti). Mas, voltando a Pound, ele estava certo ao fazer essa recomendação. Traduzir me ajudou muito a fazer poesia.

Há alguns elementos da natureza que aparecem com frequência em seus poemas, como pedras e folhas, temas recorrentes que, para alguns críticos, revelam uma certa repetição em seus poemas iniciais. Essas pedras eram metáforas ou simplesmente pedras?
Eram pedras mesmo, mas o leitor pode refletir sobre elas do modo que desejar. Para mim, elas têm uma presença real, física. Quando era criança, morava perto de uma pedreira em New Jersey e todos os dias, exatamente às três da tarde, costumava chegar perto para ver o espetáculo da explosão. Nos fins de semana, quando não havia ninguém trabalhando, caminhava com meus pés nus sobre as pedras quebradas - e essa sensação me inspiraria mais tarde a escrever poemas como Quarry (reproduzido nas páginas 278 e 279 de ‘Todos os Poemas’, ‘Pedreira’ fala do desmoronamento da terra sob os pés do poeta, comparando-o à música silenciosa produzida pelo andar sobre as pedras, sem nada ouvir além dos próprios passos).

Identidade, percepção e ausência parecem ser os três temas principais tanto de sua poesia como da prosa, mas, na poesia, o caminho aponta para a tradição moderna, enquanto sua prosa indica outra direção. A pós-modernidade dos anos 1980 teve alguma ressonância nessa sua mudança de registro?
É difícil para mim inserir meu trabalho numa categoria, pois nunca participei de movimentos literários. No entanto, é impossível desconsiderar a atração exercida pela literatura pós-moderna de Thomas Pynchon, Robert Coover ou John Barth (os três nascidos nos anos 1930, uma geração antes daquela a que pertence Auster). No entanto, nunca me senti ligado a eles. Sempre tive mais interesse em contar histórias, o que me obrigou a retomar um certo tipo de literatura do passado, especialmente contos populares. Claro, sempre estive interessado na forma e investiguei novos modos de contar histórias, que é basicamente o que faço em meus livros de prosa- e já são 16, todos eles muito diferentes entre si. Mas não, não tenho um programa ideológico nem posição definida. Penso apenas se essas histórias funcionam ou não.
 
Há um belo poema em seu livro, Northern Lights (‘Luzes do Norte’, página 246), em que você fala de "palavras que não sobrevivem ao mundo". Dizê-las, para você, é sumir, o que lembra o credo teatral de Beckett. Que papel ele teve em sua vida?
Beckett é uma referência enorme. Suas questões ainda ressoam em minha literatura, como a dos limites da linguagem. Entre todos, ele é o meu herói. Mas devo ainda mencionar Martin Buber (filósofo judeu de origem austríaca, morto em 1965), cuja filosofia da inter-relação que leva ao diálogo é evocada em referência direta nos meus livros.

Como você recebeu a notícia da decisão de Philip Roth parar de escrever?
Costumamos jantar, às vezes. Gosto muito dele. Acho que Roth só precisa de uma pausa. Não creio que possa parar de escrever.

Qual o tema de seu próximo livro?
Ele é uma sequência de meu livro mais recente, Winter Journal. Chama-se Report from the Interior e sai em novembro. Winter Journal é basicamente sobre o envelhecimento e a questão do corpo. Este é sobre o espírito, o desenvolvimento moral e intelectual de um jovem.

TODOS OS POEMASAutor: Paul Auster
Tradução: Caetano W. Galindo
Editora: Companhia das Letras
(352 págs., R$ 49,50)

Poesias de Paul Auster (do livro Todos os Poemas)

Raios (1970)
1.
Raízes agonizam entre vermes - o crivo
Da hora convive no peito de um pardal.
Entre ramo e espira - a palavra
Apequena seu ninho, e a semente, ninada
Por lindes mais simples, não vai confessar.
Apenas o ovo gravita.
2.
Em água - minha ausência em aridez. Uma flor.
Uma flor que define o ar.
No poço mais fundo, teu corpo é estopim.
3.
A casca não basta. Engasta
Lascas redundantes e troca
Pedra por seiva, sangue por eclusa em fuga,
Enquanto a folha se fura, se malha
De ar, e tanto mais, sulcada
Ou envolta, entre lobo e cão,
Por quanto mais há de estacar
A vã vantagem do machado?
4.
Nada rega o caule, a pedra nada perde.
Falar não calçaria a lama,
Logo danças por um calar mais claro.
Cliva a luz a vaga, naufraga, camufla -
O vento discursa, é travado.
Teu nome será deserto.
5.
Picaretas pontuam a pedreira - marcas gastas
Que não alcançaram cifrar a mensagem.
A disputa açulou suas letras,
E as pedras, cingidas de abuso,
Memorizaram a derrota. 
 
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Poética moldada pelo olhar

O fotógrafo e o cineasta convivem no escritor; as imagens são como enigmas que ele imobiliz

Dirce Waltrick do Amarante* 

Certa vez Paul Auster afirmou que "poesia é como tirar fotografias, enquanto prosa é como rodar um filme". O fotógrafo e o cineasta convivem na obra desse escritor, mais conhecido pelos seus livros de ficção, como os bem-sucedidos O Livro das Ilusões e A Música do Acaso, do que pela sua poesia. Nos poemas de Auster, as imagens são verdadeiros enigmas que ele "imobiliza" diante de nossos olhos. Seus versos fotográficos não "ilustram" o texto, mas cada um é, como disse Roland Barthes ao se referir à poesia japonesa, a origem de uma espécie de vacilação visual, análoga, talvez, à perda de sentido. Lemos em Raios, de 1970, que: "Entre o pardal e o pássaro sem nome:/ sua presa./ Pelo intervalo escapa a luz".

André Breton, uma de suas influências: o objeto é iluminado por quem o vê - Reprodução
Reprodução
André Breton, uma de suas influências: o objeto é iluminado por quem o vê
 
Nesse e em outros poemas dos anos de 1970, Auster não "comenta" nada. Ele se vale muitas vezes de uma linguagem descritiva que, pela sua concisão, talvez esteja próxima do haicai: "Raízes agonizam entre vermes - o crivo/ Da hora convive no peito de um pardal./ Entre ramo e espira - a palavra/ Apequena seu ninho, e a semente, ninada/ Por lindes mais simples, não vai confessar./ Apenas o ovo gravita". Auster parece passear pelo mundo, como afirmaria Barthes, com um caderninho na mão, anotando aqui e ali algumas "impressões" cuja brevidade garantiria a perfeição, cuja simplicidade atestaria a profundidade.

As "fotografias" de Auster se convertem em aparição frágil de um momento insustentável que logo vai se transformar em fala. O poeta chama a atenção do leitor para o fato: "Ver é mais essa tortura, redimida/ Na dor de ser visto: o dito,/ O visto, contido na recusa/ De falar, e a semente de um só som,/ Inumada numa pedra à toa./ Minhas mentiras jamais me pertenceram". Não seria esse o cerne do poema de Auster? Estar sempre à procura de um corpo "sem-eu" e de um eu que quer ser reconhecido como seu "escrevente", como já sugeriu em outro contexto a escritora portuguesa Maria Gabriela Lhansol.

Além de escritor, roteirista e poeta, Auster se dedicou também à tradução de alguns escritores franceses que admirava, entre eles, Maurice Blanchot, autor de uma ficção enigmática que parece mais fotografia do que filme. É possível identificar certa influência da prosa abstrata de Blanchot na sua poesia. Em muitos de seus poemas, Auster investiga a linguagem e, ao fazê-lo, parece também prestar um tributo às ideias do escritor francês, que é muito mais apreciado como pensador do que ficcionista. Talvez este seja um dos seus poemas mais blanchotianos: "Picaretas pontuam a pedreira - marcas gastas/ Que não alcançaram cifrar a mensagem./ A disputa açulou suas letras,/ E as pedras, cingidas de abuso,/ Memorizaram a derrota".

Auster fala da derrota da escrita, de sua impossibilidade, do vazio das palavras. Maurice Blanchot afirma que a derrota está relacionada à impossibilidade de narrar um fato, de "comentá-lo": "O escritor parece senhor de sua caneta, pode tornar-se capaz de um grande domínio sobre as palavras, sobre o que deseja fazê-las exprimir. Mas o domínio consegue apenas colocá-lo e mantê-lo em contato com a profunda passividade em que a palavra, não sendo mais do que sua aparência e a sombra de uma palavra, nunca pode ser dominada nem mesmo apreendida, mantém-se inapreensível, o momento indeciso da fascinação".

Em Espaços em Branco, de 1979, Auster, dando prosseguimento à sua reflexão de cunho blanchotiano, escreve: "Vem de minha voz. Mas isso não significa que essas palavras jamais virão a ser o que acontece. Vem e vai. Se por acaso estou falando neste momento, é só porque espero achar uma forma de ir junto, de correr em paralelo a tudo mais que está indo junto, e assim começar a achar uma forma de preencher o silêncio sem parti-lo". Já em Anotações de Um Caderno de Rascunhos, 1967, ele afirma que "O mundo não tem existência objetiva. Ele existe apenas na medida em que somos capazes de percebê-lo. E nossas percepções são necessariamente limitadas. O que quer dizer que o mundo tem um limite, que ele para em algum ponto. Mas o ponto em que para para mim não é necessariamente o ponto em que para para você".

Vê-se aí uma afinidade do seu pensamento com o de André Breton, de quem é grande admirador. Os surrealistas, como disse Octavio Paz, sabiam que nunca é possível ver o objeto em si, já que ele é sempre "iluminado" pelo olho de quem o vê e acaba "moldado pela mão que o acaricia, o oprime ou o empunha". De fato, nas fotografias poéticas de Auster "o mundo é minha ideia. Eu sou o mundo. O mundo é sua ideia. Você é o mundo. Meu mundo e seu mundo não são o mesmo".

* DIRCE WALTRICK DO AMARANTE, TRADUTORA, É PROFESSORA DO CURSO DE ARTES CÊNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
 
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Reportagem por  Antonio Gonçalves Filho
Fonte:  http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-lirismo-do-artista-quando-jovem, 01/03/2013

Falta de sacerdotes na Europa leva Igreja a importar padres do Terceiro Mundo

Países e regiões colonizadas no passado - como Índia, África, América do Sul e Leste Europeu - são hoje maiores fornecedores; número de padres estrangeiros em solo europeu multiplicou por seis nos últimos 5 anos

No interior de um vale da Suíça, no vilarejo de Disentis, a tradicional população alpina que vai à missa aos domingos se deparou há poucos meses com uma novidade: um padre indiano. Deficitária de religiosos, a Europa passou a "importar" padres para suas paróquias, num dos sinais mais claros da queda da influência da Igreja no Velho Continente. 

Dados obtidos pelo Estado no Vaticano revelam a situação dramática do catolicismo na Europa. Entre 1985 e 2005, houve uma redução de 11% no número de padres no continente e, não por acaso, o próprio cardeal Joseph Ratzinger, ao ser eleito papa em 2005, disse que retomar o cristianismo na Europa era prioridade.

Se há 400 anos o Velho Continente era o epicentro de missões religiosas para os quatro cantos do mundo, a tendência hoje é exatamente a contrária. Nas cidades suíças de Chur e Basileia, metade das igrejas já é comandada por estrangeiros, principalmente da Índia, África, América do Sul e do Leste Europeu.

Na lista dos sacerdotes estrangeiros preferidos, os brasileiros estão no topo - resultado do perfil flexível, acolhedor e diplomático. "Numa Europa secular, um padre acolhedor e que saiba ouvir ajuda muito a conter a evasão de fiéis e até a atrair aqueles que tinham deixado a fé", explica o padre Ney de Souza, doutor em História Eclesiástica pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

Souza morou por seis anos na Itália e explica que, nos últimos anos, viu crescer o número de brasileiros por lá. "Antes, os padres missionários iam para a África. Agora, têm ido para a Europa."

A transferência de um padre para outro país depende de um acordo entre bispos. "O bispo europeu é que pede ao brasileiro que envie ajuda daqui", explica o padre José Arnaldo Juliano, capelão do Mosteiro da Luz de São Paulo. "O Brasil também não tem sacerdote sobrando, mas sempre se dá um jeitinho."

Juliano morou por seis anos na Itália. "E, sempre quando volto, o bispo me pergunta se não quero voltar a viver lá", brinca.

Os números da carência de sacerdotes impressionam. Na Itália, o contingente de padres caiu de 41 mil há 25 anos para 33 mil hoje. Em Portugal, os sacerdotes estrangeiros também já são realidade. Para o responsável do patriarcado de Lisboa, Delmar Barreiros, "qualquer diocese na Europa tem necessidade de clero, porque a falta de vocações tem sido grande".

Foco. Na Espanha, um dos centros do catolicismo, já são mais de 500 padres estrangeiros comandando paróquias em todo o país. Só em Madri seriam cerca de cem. Segundo a Conferencia Episcopal Espanhola (CEE), a taxa de estrangeiros em algumas dioceses já chega a 20% do efetivo clerical. A conta do Vaticano é relativamente simples: a Espanha tem 22,6 mil paróquias. Mas apenas 18 mil sacerdotes. Na prática, 4 mil igrejas no país não tem um padre próprio.

O que mais preocupa é que apenas 200 religiosos são registrados como padres a cada ano, o que não seria suficiente para substituir uma geração que está prestes a se aposentar. Hoje, na Espanha, a idade média de um sacerdote é de 64 anos. Em uma década, o número de seminaristas caiu em 40%.

Na França, a situação não é diferente. São 1,3 mil padres estrangeiros espalhados pelo país, 12% do total de sacerdotes franceses. Em locais rurais da França, não é raro ver um padre negro da República Democrática do Congo.

Hoje, apenas 10% da população que se diz católica na França vai, de fato, à missa. Num país de 60 milhões de pessoas, 40% negam qualquer religião.

Portanto, se a população da França aumentou em um terço desde 1945, o número absoluto de padres católicos caiu em dois terços nesse período. Por ano, menos de 130 novos padres são ordenados. Não por acaso, os números do Vaticano mostram que o número de estrangeiros aumentou em seis vezes nos últimos cinco anos.

Em 2012, a República Tcheca fez um apelo a dioceses de todo o mundo, convidando padres para se mudarem para o país e ajudar a manter as igrejas locais, muitas delas vazias.

Se hoje muitos no Vaticano admitem que a importação de padres tem ajudado, essa nem sempre foi a avaliação da Igreja. Em 2001, um informe preparado pelo cardeal esloveno Jozef Tomko alertou que a transferência de padres do Hemisfério Sul para a Europa teria uma séria consequência para o avanço do catolicismo nos países em desenvolvimento.
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Reportagem por  Jamil Chade / CIDADE DO VATICANO e Ocimara Balmant - O Estado de S. Paulo
Fonte:  http://www.estadao.com.br/noticias/02/03/2013
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A falsa bênção de Mario Quintana

Como um apanhado de juras de amor equivocadamente atribuído ao poeta se transformou numa espécie de mantra em casórios moderninhos 
"Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você..." Esse trecho do texto "Promessas Matrimoniais" vem causando burburinho e suspiros em casamentos.

É claro que nada disso acontece sob a tutela da igreja. Tratado como um poema, "Promessas" tornou-se uma espécie de mantra moderninho em oposição aos clássicos sermões dos padres.

Caiu nas graças daquela turma que não é chegada às celebrações tradicionais, geralmente casais jovens, de perfil, digamos, "descolado".

Nesses eventos, assim como em redes sociais, sites e blogs sobre casamentos, "Promessas Matrimoniais" costuma ser atribuído ao poeta Mario Quintana (1906-1994), mas não é dele.
Foi criado em maio de 1998 pela escritora e colunista gaúcha Martha Medeiros, 52. O texto faz parte do livro de crônicas "Montanha-Russa".

O casamento de Juliana Paes com o empresário Carlos Eduardo Baptista, no Rio, em setembro de 2008, ajudou a "bombar" "Promessas Matrimoniais" na web. Só que a autoria estava equivocada.

Erro dos sites de celebridades, de quem realizou o casamento ou dos pombinhos?

Pastor queridinho dos famosos, Luiz Longuini, que celebrou a união da atriz, conta que sempre soube que o texto "era do Mario Quintana". Ele diz que Juliana Paes não sabia quem era o autor. "Depois do casamento descobri, pelo sucesso na mídia, que é da Martha Medeiros."

Hoje, Juliana Paes jura que sempre soube que o texto era de Martha. "Gosto desse texto faz muitos anos. Muito antes de pensar em me casar."

Para a fotógrafa carioca Fabricia Soares, 36, o poema é "lindo". "Há uma grande discussão na internet sobre a autoria. Uns dizem que é do Quintana, outros dizem que é da Martha Medeiros", diz.

Durante a cerimônia de sua união com o fotógrafo Alexandre Marques, 42, a juíza bolou um texto que emocionou a todos, um "pot-pourri" de trechos que falavam dos noivos, suas manias e amores, e, de quebra, enxertava partes de "Promessas".

O ambiente era a tradicional confeitaria Colombo, no centro do Rio, em uma área reservada para um almoço com 12 convidados, entre amigos e parentes.

Fabricia não conhecia o texto, tampouco o autor.

A juíza de paz Lilah Wildhagen, 56, não incluiu no discurso a parte que trata de sexo. "Evito porque o Conselho de Ética pode vir em cima da gente", justifica. "Apesar de o sexo ser inerente ao casamento, não é mesmo?"

Às vésperas de celebrar 2.000 casamentos, Lilah conta que sempre usa trechos do texto nas cerimônias. "É uma forma de personalizar."

A juíza pinça partes do texto com base em respostas de um questionário com 32 perguntas aplicado aos noivos antes da cerimônia.

A autoria? Ela ignora. "É de um autor desconhecido. Na internet, dizem que é de Mario Quintana. Não é. Nem dele, nem da Martha Medeiros, nem de Carlos Drummond de Andrade. Apesar de a Martha ser genial", diz ela. 

EFEITO COLATERAL

Segundo a professora Lucia Rebello, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em toda a obra de Quintana "não existe nada sobre casamento, promessas matrimoniais e sermões". "Mesmo o estilo do texto não tem nada a ver com a poesia de Quintana."

Martha, a verdadeira autora, lembra que talvez a ideia de escrever a crônica tenha surgido quando ela foi a um casamento de uma amiga.

Antes de entrar com os tópicos iniciados com a palavra "promete", ela faz uma introdução na qual explica que "achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos", mas que o sermão do padre lhe desagradava.

"Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe? [sic]' Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões."

Segundo a escritora, há uma série de textos creditados a ela incorretamente e textos seus atribuídos a outras pessoas. "É uma chatice com a qual a gente tem que aprender a conviver", diz.

Martha considera "impressionante" o volume de créditos errados veiculados na internet. Cita nomes como Carlos Drummond de Andrade, Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, que também costumam ser "vítimas" desse "troca-troca autoral".

"Confesso que não gosto, mas não dá para fazer disso uma cruzada. É um efeito colateral da internet", diz ela.

A escritora avisa que não gostaria de parecer "antipática", mas que preferiria ser lida só em seus livros e nos jornais. "Além de autoria trocada, colocam enxertos, dão outros finais às histórias, criam finais melosos."

Seja do poeta, seja da cronista, o que importa para esses casais é tentar cumprir as promessas. E ser feliz!


Promessas Matrimoniais

 MARTHA MEDEIROS

Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim
respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não
pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade? 

Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando
devem entrar em cena uma e outra, sem que isso a transforme numa
pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica? 

Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar? 

Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz
ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você
e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
Promete se deixar conhecer? 

Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada,
que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor? 

Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por
vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para
serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda? 

Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para
arrancar risadas dos outros? 

Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que
sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo
sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina? 

Promete que será tão você mesmo quanto era minutos
antes de entrar na igreja? 

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros. 

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Reportagem por  ROBERTO DE OLIVEIRADE SÃO PAULO
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano 03/03/2013
Imagem da Internet

A Bíblia, o humor e o nosso presente histórico

 

Em uma conversa no restaurante Gambrinus, no Mercado Público de Porto Alegre, Flávio Aguiar fala de seu novo livro "A Bíblia segundo Beliel" ("um livro cômico para ser levado a sério", segundo o autor), da origem de seu interesse pelos textos bíblicos, da presença do humor nestes textos, da importância de voltar a rir de coisas sobre as quais não se riem mais e das perspectivas de fim de mundo que pairam sobre o nosso presente histórico, em especial sobre o Vaticano.

Porto Alegre - Flávio Aguiar passou muitos anos lendo e estudando a Bíblia – ou as Bíblias, como prefere dizer – como pesquisador e professor de teoria literária. Mais da metade das literaturas e das artes que estudamos, assinala, são incompreensíveis sem um conhecimento mínimo das diversas Bíblias. A relação de Flávio Aguiar com os textos bíblicos começou, na verdade, desde a infância, quando ele compreendeu que “a verdadeira Bíblia era sexo, ação e violência o tempo inteiro”. “Era melhor que um faroeste”, brinca. Mais tarde, no Canadá, descobriu com o professor Northrop Frye que as Bíblias também foram escritas com humor. “De repente tudo isso se materializou numa reescritura do que eu lera e me inspirara na minha vida de professor e crítico literário”, conta. Foi assim que nasceu A Bíblia segundo Beliel (Boitempo), que trouxe Flávio Aguiar ao Brasil para dois lançamentos, em Porto Alegre (1º) e em São Paulo (12), neste mês de março.

Em uma conversa no restaurante Gambrinus, no Mercado Público de Porto Alegre, Flávio Aguiar fala da origem de seu interesse pelos textos bíblicos, da presença do humor nestes textos, da importância de voltar a rir de coisas sobre as quais não se riem mais e da perspectiva de fim de mundo presente nos dias de hoje. “É um livro cômico para ser levado a sério. Ele trata de coisas sérias”, resume.

O acaso sorriu para essa intenção do autor. A Bíblia segundo Beliel e suas histórias profundamente humanas surgem no momento em que a Igreja Católica está mergulhada em uma profunda crise moral e mesmo programática. Os pecados que habitam o Vaticano e que agora vem a público embalados sob a forma de escândalos não são inéditos. A história do homem e das igrejas dos homens está repleta deles. Lembrando uma passagem de Isaías, um dos livros bíblicos preferidos de Flávio Aguiar:

“Toda a cabeça está enferma, e todo o coração abatido. Desde a planta do pé até ao alto da cabeça, não há nele nada são; tudo é uma ferida, uma contusão, uma chaga entumecida, que não está ligada, nem se lhe aplicou remédio para sua cura, nem foi suavizada com óleo. Vossa terra está deserta, vossas cidades abrasadas pelo fogo...” (Isaías, 1,5)

Como é que começou esse seu interesse pela Bíblia?

Começou quando eu era criança. Eu lia a Bíblia não só porque estudava em um colégio jesuíta (o Anchieta, o velho Anchieta da rua Duque de Caxias, em Porto Alegre). Mesmo sendo criança e com um lado um pouco carola, devo dizer, eu logo compreendi que a Bíblia - a verdadeira Bíblia, não as adaptações que se faziam – era sexo, ação e violência o tempo inteiro. Era melhor que faroeste, melhor que revista pornográfica, o que não depõe em nada contra a Bíblia. Ela é um livro profundamente humano sobre coisas humanas, mas infelizmente a maioria das pessoas se convenceu de que ela é algo intocável, que é uma redoma que não pode ser tocada e que só pessoas iluminadas podem interpretá-la devidamente. Não. As bíblias – e vou falar dela no plural mesmo – foram escritas para serem lidas por todos. Ela tem uma mensagem aberta para crianças, adolescentes, pessoas maduras, pessoas idosas, para todas as crenças e todas as raças. Eu consegui, por alguma alquimia, me imbuir desse espírito.

Agora, houve um momento chave na vida, que foi quando eu fui aluno de Northrop Frye, um professor extraordinário de teoria literária na Universidade de Toronto, no Canadá. Além de ser um professor extraordinário e especialista em temas bíblicos, ele me convenceu que a Bíblia tinha sido escrita com humor também. Tudo isso se materializou na ideia de escrever uma história baseada nos relatos bíblicos para que nós hoje, no século 21, pudéssemos rir de coisas sobre as quais não se riem mais. E eu penso que isso é algo muito salutar.

Que coisas, por exemplo?

Vou dar um exemplo da Bíblia clássica. Quando Jesus está no templo e os sacerdotes que se consideravam guardiões das escrituras começam a apertá-lo, ele responde: Vocês estão vendo esse templo? Eu posso destruí-lo e reconstruí-lo em três dias. Os doutos sacerdotes respondem: mas que louco, que idiota, em outras palavras é claro, mas dizem isso. Na verdade, Jesus está tirando sarro da cara deles. Está dizendo: vocês não estão entendendo nada do que está acontecendo. O que está acontecendo aqui é outra coisa. Há outro momento, belíssimo, em que ele está na casa desses doutores e eles resolvem tratá-lo mal. Neste momento entra casa adentro uma prostituta, que dizem ser Maria Madalena – há controvérsia a respeito -, põe uma bacia com água aos pés de Jesus, derrama lágrimas nesta bacia, lava os pés dele e os enxuga com o próprio cabelo. É uma cena de um erotismo extraordinário, além de deixar aqueles doutores todos com a cara no chão.

Outro exemplo pode ser encontrado em Jeová, o criador do Gênesis, que tem um lado meio neurótico. Ele criou algo sobre o qual está completamente inseguro. Então ele fica tentando refazer tudo: é dilúvio pra cá, é fogo pra lá, e destrói Sodoma e Gomorra, e promete pra Jó e faz o contrário, e chama Lúcifer para tentar Jó...Ou seja, Jeová deveria estar em um divã psicanalítico, de preferência com o doutor Freud, que é da tribo.

Então, o livro, apesar de ter um viés satírico, pretende também falar de coisas sérias, digamos. É um livro sério, na verdade...

É um livro cômico para ser levado a sério. Ele trata de coisas sérias. O último capítulo, por exemplo, é o fim do mundo. Eu não vou falar sobre isso porque como o livro foi recém-lançado ainda existem muitas pessoas que ainda não conhecem o seu final. Eu não vou falar sobre isso, mas é o fim do mundo. Hoje, nós nos deparamos com uma perspectiva de fim de mundo, seja do ponto de vista supersticioso, religioso – como a teoria maia do fim do mundo -, seja do ponto de vista científico – é a crise climática, o fim da atmosfera.

O fim do mundo foi, em primeiro lugar, um tema da minha geração que cresceu sob a ameaça da terceira guerra mundial, da guerra fria, que iria acabar com o mundo. Hoje, a ameaça da guerra fria está à sombra, mas existe a ameaça de uma guerra nuclear, por exemplo, no Oriente Médio, seja de que ponto de vista se queira encarar. O fim do mundo se tornou hoje uma visão palpável. Como disse um grande amigo meu, Saul Leblon, que escreve na Carta Maior, nós, mais velhos, não veremos este momento, mas nós já estamos olhando nos olhos daquelas crianças que se defrontarão com o momento em que o mundo tomará um rumo, o rumo da continuidade ou o da destruição e da calamidade, em função das grandes ameaças que pairam sobre nós, pelos problemas ambientais, por questões sociais não resolvidas.

Eu diria, então, que o livro trata de temas bíblicos, mas é um livro realista, que trata de questões sobre o nosso presente histórico e nossa vida cotidiana.

E parece haver também um fim do mundo pairando sobre a própria igreja...

Eu diria que as trombetas do apocalipse soaram para, pelo menos, uma certa igreja, que é herdeira do imenso trabalho conservador e reacionário de João Paulo II para reverter a tendência progressista anterior. Eu diria que esta igreja está fadada a desaparecer ou a fazer a própria igreja desaparecer. Esse é o desafio para o próximo conclave: ou continuar mantendo essa cúpula fechada do Vaticano sobre a qual pesam gravíssimas acusações de corrupção em todos os sentidos, inclusive no sentido cristão. Essas acusações vão desde a pedofilia até a corrupção envolvendo dinheiro. Não vamos esquecer as palavras de Cristo: ai daquele que escandalizar um destes pequenos, melhor que amarrasse uma pedra no pescoço e se jogasse no mar. 
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Reportagem por  Marco Aurélio Weissheimer
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/02/03/2013

Como meditar

Senta-te. Senta-te, tranquilo e direito. 
Fecha levemente os teus olhos. 
Senta-te, descontraído mas atento. 
Começa silenciosamente, intimamente, a dizer uma única palavra. 
Recomendamos a frase-oração «Maranatha».
 Recita-a com quatro sílabas de igual extensão. 
Escuta-a à medida que a dizes, gentilmente, mas de forma contínua. 
Não penses ou imagines coisa alguma - espiritual ou de outra natureza. 
Se acorrerem pensamentos e imagens, são distrações no tempo de meditação; 
persiste, pois, em dizer de novo apenas a palavra. 
Medita, todas as manhãs e todas as noites, 
cerca de vinte a trinta minutos. (...)
...
Aprender a meditar não é justamente uma questão de dominar uma técnica. É antes aprender a apreciar e a responder diretamente às profundezas da tua própria natureza, não da natureza humana em geral, mas da tua em particular. Idealmente, deverias encontrar um mestre que ajudasse-a orientar-te na tua peregrinação.
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Fonte:  John Main, A Palavra que leva ao silêncio, Pedra Angular, 2011, pp. 19-25
Seleção de Teresa Messias, professora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa 
Site:  http://www.snpcultura.org/quaresma_2013.html

“Deixe a Cúria, Pedro” de D. Pedro Casaldaliga

Leonardo Boff*

Deixa a cúria, Pedro!


Poema de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Félix do Araguaia para reflexão pós-renúncia do papa. Ele é um pastor, um profeta e um poeta que vive ameaçado de morte por defender indígenas e camponeses. Sempre pleiteou por uma Igreja pobre, testemunhal, longe dos hábitos palacianos e principescos dos Papas, cardeais e bispos que estão a quilômetros luz do exemplo do Nazareno, carpinteiro, campones mediterrâneo, pobre e Filho de Deus encarnado em nossa miséria. Enquanto a instituição-Igreja não se espelhar nesse pobre de Nazaré andará sempre às voltas com escândalos derivados do poder que ela assumiu como eixo estruturador de toda sua organização.Vale recordar a frase do católico Lord Ancton, professor de história em Cambridge ao comentar o poder absoluto das Papas renascentistas:”Todo poder corrempe e o absoluto poder corrompe absolutamente”. É o que temos, tristemente, testemunhado no ocaso do pontificado de Bento XVI. 

LBoff

Deixa a Cúria, Pedro,
Desmonta o sinédrio e as muralhas,
Ordene que todos os pergaminhos impecáveis sejam alterados
pelas palavras de vida e amor.

Vamos ao jardim das plantações de banana,
revestidos e de noite, a qualquer risco,
que ali o Mestre sua o sangue dos pobres.

A túnica/roupa é essa humilde carne desfigurada,
tantos gritos de crianças sem resposta,
e memória bordada dos mortos anônimos.

Legião de mercenários assediam a fronteira da aurora nascente
e César os abençoa a partir da sua arrogância.
Na bacia arrumada, Pilatos se lava, legalista e covarde.

O povo é apenas um “resto”,
um resto de esperança.
Não O deixe só entre os guardas e príncipes.
É hora de suar com a Sua agonia,
É hora de beber o cálice dos pobres
e erguer a Cruz, nua de certezas,
e quebrar a construção – lei e selo – do túmulo romano,
e amanhecer
a Páscoa.

Diga-lhes, diga-nos a todos
que segue em vigor inabalável,
a gruta de Belém,
as bem-aventuranças
e o julgamento do amor em alimento.

Não te conturbes mais!

Como você O ama,
ame a nós,
simplesmente,
de igual a igual, irmão.

Dá-nos, com seus sorrisos, suas novas lágrimas,
o peixe da alegria,
o pão da palavra,
as rosas das brasas…
… a clareza do horizonte livre,
o mar da Galileia,
ecumenicamente, aberto para o mundo.

Pedro Casaldáliga, Bispo.
Fonte: Revista Missões.
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* Teólogo. Escritor.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2013/03/02/1664/

sábado, 2 de março de 2013

Clarice e suas cobaias

Silviano Santiago*
 
Se iluminarmos quem pergunta, a reunião das entrevistas concedidas a Clarice Lispector por notáveis figuras da cultura brasileira apresentam um traço pessoal e instigante da personalidade da romancista. Clarice quer saber dos artistas populares quais são as benesses e as sequelas causadas pela "fama". Ao ler os diálogos travados, descobre-se que o traço vira hipótese de trabalho, que ela testa em cobaias humanas, no laboratório da Vida.

Para escrever o novo romance, Jorge Amado deixa Salvador e se refugia no sítio do tapeceiro Genaro de Carvalho. A chácara alheia fica entre a vida social intensa na capital, motivada pela popularidade, e o esconderijo propício à escrita artística. Diz ele a Clarice: "Vem muita gente à minha casa, o que é, ao mesmo tempo, simpático e maçante às vezes. Em certas ocasiões, é demais". A solidão do casal se faz indispensável à criação literária. Não se publica qualquer coisa em livro. Em seguida, o escritor político explicita a razão para a popularidade: seus livros "estão ao lado do povo e transmitem esperança e não desesperança".

Já Clarice, solitária, vive no clima ideal para a escrita literária que traz louvores. Deduz-se: sorte (ou mágoa) de Clarice que (ainda) não tem a fama de Amado.

Erico Verissimo é outro acalentado pelo sucesso em literatura escrita por funcionários públicos, para lembrar crônica de Carlos Drummond. À semelhança do baiano, o gaúcho vive da vendagem dos livros. Já na primeira pergunta Clarice explicita o que camuflou ao conversar com Amado. Autorretrata-se e testa a hipótese: "Sua fama é enorme, Erico. Se eu fosse famosa assim, teria minha vida particular invadida, e não poderia mais escrever. Como é que você se dá com a fama?".

Erico assinala primeiro o lado positivo do sucesso: "A gente se comunica com os outros, passa a existir para milhares de leitores". Esclarece: "Não decepciono os que me querem conhecer em carne e osso. Minha casa vive de portas abertas. Há noites em que temos de 10 a 20 visitantes inesperados". Não só cultiva os estranhos como também - acrescenta - a virtude da paciência. À diferença do baiano, o gaúcho não precisa de sítio alheio para ter a solidão indispensável à qualidade da criação.

Por outro lado, Erico sabe que o sucesso de venda não é bem recebido pelos críticos, e se autoprotege. Confessa a Clarice: sou um "contador de histórias". Explica-se: "Não me considero um escritor importante. Não sou um inovador. Nem mesmo um homem inteligente". Além do mais, ele mastiga o osso duro de roer da vida literária, povoada por grupos que se afirmam pela intolerância ideológica. Erico é um outsider. E, pelo que reproduzo adiante, corajoso.

Faço a glosa. Diz a Clarice que os esquerdistas o acham "acomodado". Os direitistas, "comunista". Os moralistas e reacionários o acusam de "imoral e subversivo". Há ainda a "história cretina de norte contra sul". Pede a Clarice que some os fatores que alteram a fama e acrescente ao produto a "natural má vontade que cerca todo o escritor que vende livro, a ideia de que best-seller tem de ser necessariamente um livro inferior". Indireta para Clarice?
Vinicius de Moraes é figura de transição entre a velha e a nova geração. Traz a MPB e a televisão para a vida literária. Hoje centenário, o poetinha não recebe os leitores em casa. Visita-os. Invade a casa alheia. Vaidoso, repete para Clarice as palavras da moça que é sua fã: "Você, Vinicius, vive nas estantes de nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa". Clarice não perde a deixa. Faz pergunta desconcertante ao que se diz amado: "Será que agora que apareceu o Chico (Buarque), as mocinhas trocaram de ídolo?". Os acontecimentos de maio de 1968 e a passeata dos cem mil contra a ditadura levam o poeta afetuoso a enfiar a carapuça: "Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e tem uma experiência a transmitir. Chico, não, é ídolo mesmo...".

"Aniquilado pela fama", segundo Clarice, Chico Buarque traz às entrevistas paradigma diferente ao do sítio de Genaro: o bom convívio com o barulho. Retomo o título de belo e recente filme pernambucano e refaço a pergunta de Clarice: Como criar com "o som ao redor"? Chico se lembra de conversa de Tom Jobim com Villa-Lobos em dia de grande balbúrdia em casa. Chico narra: "Tom perguntou: como é, maestro, o barulho não atrapalha? Villa respondeu: o ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro". A atitude de mestre Villa é modelo para o jovem Chico. Não se resguarda ao sair à rua: ao caminhar, se deixa cercar para os autógrafos.

Clarice não se faz de rogada. Vira entrevistada: "Eu não tenho, Chico, nem de longe, o sucesso que você tem, mas mesmo o pequeno que tenho às vezes me perturba o ouvido interno".

O paradigma se enriquece. "É verdade, Chico, que você é crédulo ou está de olhos abertos para os charlatões?" A tangente é de praxe na resposta do compositor: "Não é que eu seja crédulo, sou é muito preguiçoso". Há que entender a preguiça: "Tenho cara de bobo, porque minhas reações são muito lentas, mas sou um vivo". De maneira advertida, a preguiça é também tijolo na construção da fama na MPB. Confessa: "Tenho, por exemplo, uma pessoa que me explica o contrato e não consigo prestar atenção a certas coisas". E se justifica: "O sucesso faz parte dessas coisas exteriores que não contribuem nada para mim". Chico escapa da vaidade e da alegria pela tangente da dor: "A gente tem a vaidade da gente, a gente se alegra, mas isso não é importante. Importante é aquele sofrimento com que a gente procura buscar e achar".

O piano - face oculta de Tom Jobim - o levou, contra sua vontade, aos holofotes do Carnegie Hall. "Sempre fugi do sucesso, Clarice, como o diabo foge da cruz. Sempre quis ser aquele que não vai ao palco." Alma irmã. 
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* Poeta. Ensaista. Escritor. Colunista do Estadão.
Fonte: Estadão on line, 02/03/2013
Imagem da Internet

O show precisa parar...

Corinthians joga com portões fechados no Pacaembu - Jonne Roriz/Estadão
Jonne Roriz/Estadão
Corinthians joga com portões fechados no Pacaembu
 

Para antropólogo, a tragédia de Oruro obriga clubes, torcedores e o governo a repensar o comportamento brasileiro dentro e fora dos estádios: ‘Estamos carentes da discussão de limite’

Antes mesmo que o ex-presidente e corintiano emérito Luiz Inácio Lula da Silva opinasse sobre a punição da Conmebol ao Corinthians, a morte de Kevin Douglas Beltrán Espada já era assunto de interesse nacional. O menino boliviano de 14 anos, torcedor do San José, que teve o olho direito trespassado por um sinalizador lançado por um membro da Gaviões da Fiel, provocou uma comoção que extrapolou os limites do campo. E trouxe à tona a discussão sobre a violência dentro e fora dos estádios de futebol.
 
O antropólogo Roberto DaMatta, torcedor do Fluminense e observador de toque refinado da cultura brasileira, considera mais do que legítima a responsabilização da torcida. "Não foi um grupo de turistas passeando na Bolívia que se envolveu no crime. Foi uma coletividade organizada, a Gaviões da Fiel, que viaja atrás do time, com ônibus e hotel definidos", pontua.
Colunista do Estado e autor de Carnavais, Malandros e Heróis (Rocco), obra clássica das ciências sociais no entendimento do caráter nacional, DaMatta identifica no episódio em questão não apenas a marca violenta do passado brasileiro, mas também o presente decisivo que encaramos na modernização incompleta do País. "Há um sentimento perigoso no ar, de que agora que temos liberdade, vivemos numa democracia, eu posso fazer tudo que quero."
No bate-bola a seguir, Roberto DaMatta discorre sobre a centralidade do futebol em nossa cultura - tese defendida com categoria no livro A Bola Corre Mais que os Homens (Rocco) -, explica por que o esporte proporciona à sociedade brasileira "uma experiência de igualdade e de justiça social" e chama a atenção para a importância da tragédia de Oruro no debate político nacional e na sinalização que o País vai dar ao mundo às vésperas da Copa de 2014. 

A morte do menino em Oruro mergulhou o País em um debate sobre se o time, a coletividade, deveria pagar por um crime cometido por um indivíduo. Qual é sua opinião?
Primeiro, é preciso definir bem. Não foi uma coletividade qualquer, um grupo de turistas que estava na Bolívia passeando, que se envolveu no crime. Foi uma coletividade organizada, a Gaviões da Fiel, que viaja atrás do time, com ônibus e hotel definidos. Então, a responsabilização da torcida é mais que legítima. A chave do que estamos discutindo aqui é o limite: o que significa torcer. Eu posso fazer o que quiser na rua ou não? Se sou apaixonado, morro pelo Corinthians, tenho o direito de pegar um rojão e não manipulá-lo direito ou deliberadamente usá-lo para agredir o torcedor do outro time? São eventos que nos obrigam a um diálogo com determinados parâmetros sociais do passado. 

Parâmetros que se perderam?
Na minha juventude, quando eu ia ao Maracanã ou ao estádio da Rua Álvaro Chaves para torcer pelo Fluminense, ninguém levava rojões. O amor pelo time, essa paixão desabrida que tem levado a arrebentar alambrados, machucar e até matar é o que a gente tem que discutir. Qual é o limite do torcedor? É evidente que isso é a expressão e o sintoma de algo que acontece mais amplamente na sociedade brasileira. Nós estamos carentes da discussão de limite. Algo que já aparecia, por exemplo, no primeiro governo Lula, quando um grupo de manifestantes entrou no Senado Federal e arrebentou tudo. Há um sentimento perigoso no ar, que é o seguinte: "Agora que nós temos liberdade, vivemos numa democracia, eu posso fazer tudo o que quero".

A sociedade brasileira é violenta?
Toda sociedade tem um lado violento. A questão é discutir suas manifestações. No Brasil me parece clara a violência do Estado contra a sociedade que ele controla com mão de ferro por meio de alvarás, leis, licenças e aprovações. Na sociedade, a violência surge do rico contra o pobre e do poderoso contra o fraco. Na casa, do marido contra a esposa e os filhos. Na rua, da autoridade contra o acusado ou apontado como autor de um delito. No esporte, quando um time ganha por muito ou perde de modo injusto. Há formas e tipos de violência mais tolerados em certas sociedades do que em outras. Em nosso país, o escravo de um juiz era mais bem tratado do que o de um comerciante. Bater em criança ainda é válido. Dizem que a mulher gosta de apanhar, etc. E hoje sofremos a violência de um governo de viés despótico e personalista contra um sistema que demanda mais tecnologia, mais modernidade e meritocracia. 

Fala-se em ‘nova classe média’ e em inclusão social pelo consumo no Brasil. Como tais fenômenos se relacionam com a incivilidade que se vê dentro e fora dos estádios?
A inclusão pelo consumo implica o controle da incivilidade e o saber usar o que se compra. O caso dos futebolistas com relógios de ouro e brinquinhos de brilhante é um bom exemplo. Se um cidadão compra um carro, ele tem que saber os perigos e as responsabilidades implicadas no ato de dirigir. Um governo eleito pelo voto também não pode planificar uma compra de votos para controlar o Congresso Nacional. Ser consumidor é um papel social que demanda limites e éticas. Como o papel de torcedor. Não é por acaso que quando reunimos num estádio um punhado de gente que dirige como alucinados tenhamos a barbárie. 

O Corinthians contesta a punição da Conmebol por considerá-la ‘injusta na medida em que prejudica diretamente o direito de inocentes’. É um argumento válido?
O clube pode alegar o que quiser nos limites do direito esportivo. Há quem considere, talvez com razão, a punição dura demais. Mas e o menino que morreu? E se amanhã, numa nova briga de torcedores, morrerem mais três ou quatro? Como faz? Que o caso seja levado a uma corte desportiva que discuta o tamanho da punição. A gente sabe que o futebol é um esporte de massa, que mobiliza paixões e funciona como uma espécie de metáfora da guerra. A única vez que eu tive a motivação de brigar fisicamente com alguém na vida foi aos 17 anos, em Niterói, por causa de um Fla-Flu. Tudo isso a gente entende. Mas, se o Corinthians faz parte de uma confederação e de uma comunidade esportiva internacional, não pode ignorar o fato de que o que aconteceu em Oruro foi uma tragédia. 

O sr. já escreveu que o futebol é um símbolo nacional quase tão forte quanto a Bandeira ou o Hino. Até que ponto o comportamento das torcidas no Brasil espelha o estágio em que se encontra nossa sociedade?
O agenciamento psicológico, emocional e social que o futebol proporciona é muito forte. Sobretudo, dentro de certas camadas sociais que têm reclamações, frustrações, que vivem o drama da desigualdade - e, ao mesmo tempo da igualdade, que o futebol proporciona a eles. É algo que identifico muito claramente nos trabalhos que fiz sobre o futebol: ele proporciona essa experiência de justiça, de igualdade e de revanche. E também, como fica bem claro nesse episódio, uma experiência de agressividade que não passa por agressividade. Feita sob o manto do coletivo. 

Essa expectativa de impunidade continua sendo uma marca da cultura brasileira?
Não tenho dúvida. É algo que estamos pagando para ver. O Brasil está em suspenso aguardando o desfecho da condenação de um ex-chefe da Casa Civil e outros envolvidos em um escândalo de corrupção. Toda semana surge um caso qualquer em que as regras são ultrapassadas - casos que aparecem, por outro lado, porque vivemos na era da internet e contamos com meios de comunicação diversificados. Então, há um elemento educacional que não pode ser desconsiderado. Um clube tem de dizer a sua torcida quais são os limites do espetáculo. 

O Corinthians recebe R$ 170 milhões ao ano por direitos de transmissão na TV - o maior contrato, junto com o do Flamengo. De que maneira os interesses financeiros inviabilizam uma responsabilização mais ampla?
É uma pergunta difícil de responder. Quanto mais se mobilizam recursos financeiros, mais problemático fica tomar decisões que durante certo período inviabilizem esses ganhos. Por outro lado, a proibição da participação das torcidas é uma espécie de censura. Uma situação delicada, nova. E eu, se fosse dirigente do Corinthians ou de qualquer outro clube capaz de ter essa capacidade maravilhosa de aglutinar pessoas, estaria pensando em como educar essa torcida. Da maneira mais rigorosa possível. 

E como começaria esse trabalho pedagógico com os torcedores?
A imagem de um time de futebol deve ser a de um grupo vigoroso, viril, que responde aos desafios, mas não a da violência, da morte, da estupidez. É preciso difundir a ideia de que só existe disputa esportiva a partir de regras. De que os grandes jogadores de futebol foram aqueles que até catimbaram, mas não romperam as regras de maneira visível, clara. De que a jogada limpa, de talento, é a que interessa - não adianta ser campeão com um gol de mão. Essas regras que estão funcionando no campo também têm que funcionar para as torcidas. Trazer para o debate público não só qual é o bom jogador que o torcedor quer ver no campo, mas também o bom torcedor que o jogador quer ver nas arquibancadas. 

É difícil dar o exemplo quando temos um Estatuto do Torcedor que não é cumprido rigorosamente em parte alguma do País...
A oportunidade que estamos tendo com este debate é enorme. Para que a gente passe a levar a sério as regras. Esse evento mostra que os torcedores precisam internalizar a noção de limite, de que determinados tipos de comportamento obviamente não são compatíveis com a norma civilizada. Que agredir a torcida adversária com paus e pedras ou agredir no bar o atleta que não jogou bem é inadmissível. Torcer para um time de futebol é entrar num papel social, como no teatro. E que esse papel tem limites, não se pode matar uma pessoa de verdade no palco. A chance é essa. 

Um ensaio de sua autoria sustenta que ‘o futebol institui abertamente a malandragem como arte de sobrevivência e o jogo de cintura como estilo nacional’. Ainda há lugar no mundo para esse tipo de jogo?
O Brasil é um centro mundial de produção e reprodução do futebol. Se você tirar o País do mapa, o futebol perde boa parte de sua graça. Nós estabelecemos um padrão de jogo que mudou a face desse esporte, com técnicas de corpo que são metáforas do jogo de cintura e da malandragem nacionais - aquilo que Gilberto Freyre chamava de "futebol dionisíaco", que hoje está presente na forma como se joga em todo o mundo. Foi aprendido lá fora, assim como nós também aprendemos a jogar de maneira mais física. Daí, inclusive, as dificuldades que enfrentamos atualmente dentro de campo. Mas o estilo é a maneira de ser, a identidade, uma espécie de estigma do qual você não se livra. É por isso que o futebol para nós não é apenas um esporte; tem uma importância cultural enorme. Porque quando um menino lá do sul da Itália ouve falar num cara chamado Neymar, vai querer saber de onde ele vem. Então vai descobrir na internet que ele nasceu em Santos e, de repente, aprender que no Brasil se fala português, que somos um país que teve imperadores ou que saímos da escravidão sem uma guerra civil como nos EUA. 

O sr. diz que o futebol no Brasil proporciona à sociedade uma experiência de igualdade e justiça social. O desfecho do episódio em Oruro pode ser um divisor de águas na construção dessa experiência ou na sinalização que o País dará ao mundo às vésperas da Copa?
O evento em Oruro é grave porque quando um clube vai jogar fora do Brasil ele representa o País, quer queira, quer não. E a torcida tem que entender que ela representa também o clube, o time que ama e traz para ela essa experiência do pertencimento a um grupo e da liberdade de torcer. Esse é o ponto que temos de trabalhar. Não é um jogo de repressão, nem de punição, mas de disciplina. Aquela disciplina que está no campo tem que passar também para o estádio. O melhor partido que se pode tirar desse episódio é, primeiro, tomar as medidas para que ele jamais aconteça novamente; depois, fazer com que as torcidas metam na cabeça que torcer não é ganhar o estatuto do ilimitado, pelo contrário. É ter a disciplina suficiente para controlar suas paixões.
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Reportagem por  Ivan Marsiglia
Fonte: Estadão on line, 03/03/2013

O poder da palavra

Fernando Luis Schüler*

Kwame Anthony Appiah in his New York apartment, 2002.

Kwame Anthony Appiah in his New York apartment, 2002. (AP Photo / Jerry McCrea)
Kwame Appiah é um escritor de origem ganesa, nascido em Londres, hoje professor de filosofia em Princeton. Recentemente publicou, no Brasil, o seu O Código de Honra: como ocorrem as revoluções morais. Ele mostra como os padrões éticos e a noção do que é direito tem evoluído ao longo do tempo. Até meados do século 19, os duelos eram prática comum. Uma completa irracionalidade que em certo momento foi superada. O mesmo ocorreu com o costume chinês de amarrar os pés das mulheres. O maior exemplo foi a superação da escravidão. Eram práticas que compunham o código moral da sua época e foram vencidas pelo uso da palavra e pela ação de pessoas que se anteciparam no tempo.

Refletia sobre isto observando a reverberação do périplo de Yoani Sánchez pelo país, em meio a nosso tórrido verão. Yoani é uma cronista do cotidiano, com um texto intimista, autorreflexivo, que de algum modo me lembra excelentes cronistas brasileiros, como Martha Medeiros e Zuenir Ventura. Não me refiro a eventuais opiniões políticas, questão sem relevância aqui. Ela torna-se uma escritora política uma vez que é impossível, em um regime totalitário, separar o cotidiano da política.

Appiah escreve sobre os “códigos de garantia do acesso ao respeito”. Em Cuba, o acesso ao respeito é dado pela adesão do indivíduo ao partido e ao Estado. As autocracias são todas diferentes e iguais ao mesmo tempo, e também foi assim, em boa medida, nos regimes militares do Cone Sul. Cada época produz seus próprios códigos. À época da escravidão, o acesso ao respeito era dado pela raça. O grande líder abolicionista afro-americano Frederick Douglass dizia que a escravidão seria derrotada quando deixasse de ser respeitável, dentro e fora dos Estados Unidos. Ele foi à Inglaterra, como um dissidente, palavra que não se usava na época. Não tinha um blog, mas um jornal. Nos termos de Appiah, ele ajudou a criar um novo código “não hierárquico” de respeito, fundado na igualdade. E por isso liderou uma revolução moral, no seu tempo, essencial para que o presidente Lincoln fizesse a sua parte.

Intuo que a repercussão internacional não só de Yoani, mas também de Berta Soler e das Damas de Blanco, seja o sintoma de uma revolução moral do nosso tempo. Não me refiro apenas ao processo de democratização de Cuba, mas à silenciosa mutação ética que fará qualquer regime ditatorial cada vez menos digno de respeito, independentemente de sua coloração ideológica. No momento em que escrevo este artigo, o jornalista Calixto Martínez encontra-se preso em Havana, depois de cumprir uma greve de fome de 33 dias. Ele está longe de ser o único. Torço para que seu destino não seja o de Guillermo Fariñas, ou do operário negro Orlando Zapata, cuja greve de fome durou 83 dias, morto em 2010. Vejo essas pessoas como quem decide, a um dado momento, dizer “não”. Fazem isto com o recurso do autoflagelo, ou simplesmente à frente de um velho computador, escrevendo. Elas recusam a “igualdade na obediência”, sinalizam a mudança do código. Hoje são como fantasmas, dos quais todos fogem, mas suspeito que um dia serão lembradas por isso.

A flexibilização da lei migratória cubana, caso prossiga, irá acelerar o fim do regime. O processo da liberdade é como uma ladeira escorregadia. Depois de uma temporada na França ou no Brasil, os cidadãos dificilmente aceitarão voltar a seu país e não ter o direito de acessar a internet. Se o fizerem, desejarão opinar sobre os mais variados assuntos, inclusive assuntos políticos. Em seguida, desejarão formar associações e partidos para defender suas ideias. Por fim, desejarão votar. O mesmo que Douglass exigia para os escravos americanos libertos em 1865. O mesmo sentimento que varreu o Brasil no início dos anos 80, e logo varreria a Europa do Leste no final da década. A história vai varrendo seus barbarismos.

O fato é que a revolução tecnológica tem tornado cada vez mais difícil a vida dos agressores “em série” de direitos. Há um big brother global observando-os cada vez mais de perto. Esses insuportáveis dissidentes serão o seu pesadelo, cada vez mais os expondo a um conhecido castigo: a vergonha. Vergonha que se estende aos que observam de longe, fazendo de conta que nada percebem.
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*Doutor em Filosofia pela UFRGS
Fonte: ZH on line, 03/03/2013
Imagem da Internet

Entreouvidos por aí

 Martha Medeiros*
 

“De todas as pessoas que eu conhecia, ela era a candidata menos provável de eu vir a ter uma história. Extremamente carola, cheia de nove horas, o oposto do meu estilo. Sou um cara moderno, livre, desimpedido em todos os sentidos. Sempre gostei de mulheres bem resolvidas, e ela me parecia uma menininha à espera de um anjo salvador. No entanto, quando dei por mim, ela estava sob as minhas asas. Não era o que eu buscava na vida, não era mesmo. Não sei como chamar isso”.

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“Se cruzassem nossos perfis em qualquer rede social, daria um curto-circuito. Ele não gosta de nada do que eu gosto, e eu tenho aversão ao jeito que ele se comporta. Mas, desavisados, numa festa trocamos um beijo que fez alguma coisa acender, e desde então é briga atrás de briga. Ambos se perguntam: o que justifica essa nossa insistência?”

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“O Caetano tem uma música que diz: mexe qualquer coisa dentro doida. É bem assim que me sinto. É do departamento das loucuras inexplicáveis. Sou bonita, inteligente, bem educada. Sei que agrado, não ficaria sozinha jamais, a não ser que quisesse. No entanto, estou há dois anos namorando um colega de faculdade que me esnoba, mas não me deixa, e eu vou arrastando esse relacionamento na esperança de que ele amadureça. Tem nome um troço desses? Carência, doença, masoquismo?”

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“Namoro uma mulher bem mais velha que eu. Minha mãe torce o nariz. Meus amigos me chamam para a balada a fim de que eu conheça umas garotas da minha idade. Ela própria acredita estar empatando a minha vida. Meu terapeuta acha que está tudo bem do jeito que está, e eu também acho, mas ninguém a minha volta parece compreender. Às vezes nem eu compreendo”.

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“Meu casamento durou apenas quatro anos. Não conseguíamos viver bem, era um desgaste emocional que fazia ambos sofrerem. Decidimos terminar de comum acordo e nós dois estamos agora respirando melhor, com a vida mais destravada. Até já estou saindo com outro cara, mas quando toca o celular, fico torcendo para que seja meu ex. Queria entender o que se passa comigo”.

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“Já fui casado e sei bem o que é uma relação saudável, bacana, estruturada. Estaria com ela até hoje se não tivesse enviuvado. Achei que nunca iria me recuperar do baque, mas anos depois comecei outra relação séria, só que era o oposto do primeiro casamento: um tumulto, parecia que falávamos idiomas diferentes, ninguém se entendia, mas a atração era incontrolável e estamos juntos até hoje, nem eu nem ela temos coragem de sair fora, mesmo sem entender o que nos faz ficar”.

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“Sabe relação ioiô? Vai e volta, vai e volta? Nenhum dos dois têm mais paciência pra isso, é ridículo. Se não conseguimos nos acertar até aqui, qual a esperança de um milagre acontecer? Teimosia, é o nome disso. Se não é teimosia, não sei o que é”.

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Quando a gente não sabe o que é, é amor.
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* Escritora. Colunista da ZH
Fonte: ZH online, 03/03/2013

Afinal, quem é o papa?

José Lisboa Moreira de Oliveira*

O anúncio da renúncia de Bento XVI colheu o mundo de surpresa. Afinal de contas há séculos não se via coisa igual. A mídia sensacionalista deitou e rolou, falando de bobagens e aludindo a futricas palacianas vaticanas. A mídia católica, meio abobalhada, não sabia muito que dizer. Chamou alguns "embatinados” para falarem, mas estes senhores de clergyman pouco acrescentaram ao debate sério.

Neste multiplicar-se de palavras desnecessárias, faltam algumas perguntas básicas: "Quem é o papa? O que ele faz ou deveria fazer?”. Tais perguntas não podem faltar, pois haveria o risco de concentramos nossas falas num personagem fictício chamado "papa” e não na missão que ele deve exercer com humildade e responsabilidade, seguindo as pegadas do Mestre Jesus.

Antes de tudo é preciso dizer que o papa é o bispo de Roma. Ele é papa porque é bispo de Roma. Portanto, antes de qualquer outra coisa o papa deve ser o bispo de uma porção do povo de Deus, da ekklesía que se reúne em Roma por convocação da Trindade. Os cardeais, juridicamente considerados membros do clero romano, escolhem o bispo da diocese de Roma. Neste sentido, a preocupação primeira deveria ser a de escolher alguém em condições de ser sacramento de Cristo Pastor (Jo 10,11; Mt 9,36) na Igreja local de Roma. Não poderia ser papa alguém que não servisse para ser bispo de Roma.

Feito isso, é preciso cuidar do segundo aspecto. Por uma tradição que foi se firmando desde o final do primeiro século da era cristã, a ekklesía, ou seja, a comunidade formada pelos "santos e diletos de Deus que estão em Roma” (Rm 1,7) foi sendo consultada para ajudar a dirimir questões que surgiam nas outras Igrejas locais ou entre outras Igrejas locais. Tal tradição se forma a partir da convicção de que a Igreja que está em Roma detém a "martyria apostolorum”, ou seja, o testemunho do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo. Como sempre se acreditou que Pedro e Paulo foram martirizados em Roma, as demais Igrejas locais passaram a acreditar que a Igreja de Roma, como testemunha da firmeza e da coragem destas "colunas da Igreja”, podia ajudá-las a resolver questões que elas mesmas não conseguiam resolver sozinhas. Nasce, assim, o costume de consultar a Igreja romana e de acreditar que a palavra da ekklesíade Roma seria a palavra final sobre o assunto.

Note-se bem que a consulta não era feita ao papa, que naquela época ainda não existia como figura hierárquica, mas à Igreja de Roma, a qual, depois de ouvir a sua assembleia convocada (ekklesía), encarregava o seu bispo (epíscopo) de comunicar às Igrejas locais interessadas a decisão final sobre o assunto. A partir do IV século, quando o cristianismo passa a ser religião de Estado e, aos poucos, se instaura uma forte hierarquização no interior da Igreja, a consulta vai deixando de ser à ekklesía de Roma e se concentrando na pessoa do seu bispo. A comunidade de Roma não é mais ouvida. A consulta é dirigida diretamente ao seu bispo. Na Idade Média se caminha para o absolutismo eclesiástico e a figura do bispo de Roma vai adquirindo contornos cada vez mais autoritários. Em certo momento da história, este absolutismo chega a seu auge e o bispo de Roma se torna "papa” (pai) de todos e, pouco depois, chefe absoluto da Igreja, a ponto de tornar-se um superbispo, acima de todos os outros bispos, com poderes absolutos sobre tudo e sobre todos na Igreja. 

De repente o bispo de Roma, de mero mensageiro das decisões tomadas no âmbito da assembléia reunida da Igreja romana, passa a ser o único juiz, legislador, executor e detentor absoluto de poderes, não podendo ser questionado e nem interpelado por ninguém. Chega-se assim, especialmente por obra de Gregório VII, à monarquia papal. Mais tarde o papa Bonifácio VIII, por meio da bula Unam Sancta (1303) define a supremacia do papal, o qual está acima de todos os outros poderes, acima de tudo e de todos.

É preciso, pois, voltar às origens e recuperar a identidade original do papa como bispo de Roma e como representante legítimo da primazia da Igreja romana sobre as demais Igrejas, no sentido que foi explicado antes. Para tanto é indispensável e urgente purificar a figura papal de todos os excessos e impurezas que foram se acumulando ao longo dos séculos, especialmente durante a Idade Média. É preciso, repito, antes de tudo pensar no bispo da Igreja de Roma e, a partir disso, no serviço que ele deve exercer para toda a Igreja. Para tanto é urgentíssimo um processo de descentralização do poder na Igreja, dando mais espaço para as Igrejas locais e para as Conferências Episcopais, voltando assim a mais genuína tradição. Teologicamente falando, e considerando as exigências do mundo atual, não tem mais sentido que o papa e sua cúria detenham a palavra final sobre tudo e sobre todas as coisas na Igreja. No princípio não foi assim. Isso significa que é preciso rever com urgência a atual estrutura burocrática e paquidermiana da Cúria Romana. O estado do Vaticano, sua pesada Secretaria de Estado, suas luxuosas e custosas Nunciaturas Apostólicas precisam desaparecer por completo ou serem reduzidos drasticamente. E a quem acha que a Igreja não pode evangelizar sem tal estrutura deve-se lembrar com clareza e determinação o dito de Jesus, segundo o qual a organização na comunidade cristã não pode ser mera imitação dos poderes e dos tiranos deste mundo (Mc 10,42-44).

João Paulo II, na encíclica Ut unum sint, de 25 de maio de 1995, afirmava que a missão do bispo de Roma de presidir na caridade toda a Igreja "deve realizar-se sempre na comunhão com o conjunto dos bispos e não isolado dele” (nº 95). Por essa razão, afirmava ainda ser preciso "encontrar uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova”. E concluía sua reflexão, pedido ao Espírito de Deus que iluminasse pastores e teólogos para que pudessem, juntos, encontrar formas novas para a realização da missão do papa.

A eleição do próximo papa, após a renúncia de Bento XVI, se apresenta como uma oportunidade para que os cardeais conversem seriamente sobre o que é mesmo essencialna missão do bispo de Roma. Uma volta às origens, a mais genuína tradição eclesial, é o melhor caminho para se encontrar a solução para o pedido de João Paulo II. Voltar às origens significa aproximar-se mais do Evangelho e encontrar caminhos para simplificar profundamente a máquina burocrática vaticana que emperra tudo e impede a Igreja de cumprir fielmente a sua missão no mundo de hoje. Vale também para os senhores cardeais, neste momento significativo da história da Igreja, a exortação de Jesus: "Sede astutos como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16). Precisamos devolver à Igreja a sua vocação de comunidade chamada à comunhão e participação (koinonía), descentralizando o poder e concedendo mais espaço às cristãs e aos cristãos batizados, às Igrejas locais, aos seus bispos e presbíteros, ao Povo de Deus, verdadeiro e único sujeito da evangelização. Afinal de contas formamos uma comunidade, na qual todos somos irmãos, onde ninguém é pai, doutor e mestre de ninguém, onde somente Deus é o Pai, Jesus o único Mestre e o Cristo o único doutor (Mt 23,8-10).
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*  Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília. [Autor de Antropologia da Formação Inicial do Presbítero por Edições Loyola]. 
Fonte:  http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&lang=PT&cod=73865

O maior patrimôno do Brasil: o seu povo

Leonardo Boff*
Nossa história pátria vem marcada por uma herança de exclusão que estruturou nossas matrizes sociais.  Criou-se aqui, um software social caracterizado pelo mais reecente analista de nossa formação histórica, Luiz Gonzaga de Souza Lima, como um Estado Econômico Internacionalizado, numa palavra, a Grande Empresa Brasil, produtora de bens para as grandes potências coloniais e hoje globais (A Refundação do Brasil, 2011). Tal fato tem onerado poderosamente a invenção de uma nação soberana. Reparando bem, fomos vítimas de quatro invasões sucessivas que inviabilizaram, até recentemente, um projeto nacional autônomo, aberto às dimensões do mundo.

A primeira invasão, fundacional, ocorreu no século XVI com a colonização portuguesa. Indios foram subjugados ou eliminados, milhões de escravos foram trazidos de Africa como carvão para a máquina produtiva.

A segunda invasão se deu no século XIX. Milhares de emigrantes europeus para cá, aliviando a pressão revolucionária que pesava sobre as classes industriais. Foram vistos pelos que aqui já estavam  como os novos invasores. Seus descendentes, logo incorporados ao projeto das classes senhoriais, criaram zonas prósperas, especialmente no Sul.

A terceira invasão ocorreu nos anos trinta do século passado e foi consolidada nos anos sessenta com a ditadura militar. Introduziu-se uma modernização conservadora mediante a industrialização de substituição. Ela se deu em estreita associação com capital transnacional e com as tecnologias importadas. Por ela se firmou a lógica de nosso desenvolvimento dependente, voltado para fora, produzindo aquilo que os outros queriam e não  o que o povo precisava. Mas crirou-se um Estado nacional forte que hegemonizou esse processo.

Em tensão dialética com este esforço, elaborou-se também um outro projeto representado pelas massas emergentes da cidade e do campo.Visavam outro tipo de democracia que devia tornar possível o desenvolvimento com inclusão e justiça social.  Para derrotar esta proposta, as classes proprietárias deram  em 1964 um golpe de classe, utilizando o braço militar. Como consequência, o Brasil mergulhou decisivamente na lógica excludente do capitalismo transnacionalizado.

A quarta invasão se deu com a globalização econômica e com o neoliberalismo político a partir  da inovação tecnológica dos anos 70 do século XX e da implosão do socialismo com a consequente homogeneização do espaço político-econômico, ocupado pelo neoliberalismo. Fomos invadidos pela racionalidade da globalização econômica e  pela política neoliberal do Estado mínimo e das privatizações.

As teses neoliberais, no entanto, foram refutadas pela devastadora crise economico-financeira de 2008, atingindo o coração do sistema mundial e pondo todas as economias nacionais em grandes dificuldades. Nós, graças às reformas, algumas feitas antes mas consolidadas pelo Governo Lul/Dilma Rousseff, temos podido resistir. Estamos conseguindo um fato inédito: manter o nivel de emprego e garantir um crescimento sustentado embora pequeno.

Entretanto, na nova distribuição internacional de poder, o Brasil e, de resto, a América Latina estão sendo neocolonizados. Reservam-nos o lugar de exportadores de matéria prima e de commodities para o mercado mundial, criando obstáculos à inovação tecnológica que confere valor agregado aos nossos produtos. Obrigam-nos a ser a mesa posta para as fomes do mundo inteiro e a permanecer “deitado eternamente em berço esplêndido”.

 "...viver neste mundo não significa 
ser prisioneiros  das necessidades,
 mas ser filhos e filhas da alegria."

A nova consciência social, no entanto, a partir dos meados do século passado, conseguiu criar uma vasta rede de movimentos sociais. Ela se afunilou numa força política com a criação do PT e de outros partidos com raízes populares. Com a vitória de Lula e depois de Dilma Rousseff se instaurou um outro sujeito  de poder e propiciando o maior evento de inclusão social dos destituidos de nossa história.

Este fato cria a oportunidade para relançar a idéia de uma reinvenção do Brasil sobre outras bases que não são das elites proprietáries. No centro está o povo.

Apesar de ter sido considerado, tantas vezes, jeca-tatu, carvão para nosso processo produtivo, joão-ninguém, o povo brasileiro nunca perdeu sua auto- estima e o encantamento do mundo.  Talvez seja esta visão encantada do mundo uma das maiores contribuições que nós brasileiros podemos dar à cultura mundial emergente, tão pouco mágica  e tão pouco sensível ao jogo, ao humor e à convivência dos contrários.

O antropólogo Roberto da Matta enfatizou o fato de o povo brasileiro ter criado um patrimônio realmente invejável: “toda essa nossa capacidade de sintetizar, relacionar, reconciliar, criando com isso zonas e valores ligados à  alegria, ao futuro e à esperança” (Porque o brasil é Brasil, 1986,121)

Alimentamos sempre um horizonte utópico promissor: viver neste mundo não significa ser prisioneiros  das necessidades, mas ser filhos e filhas da alegria.
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* Teólogo. Escritor. Leonardo Boff escreveu: Depois de 500 anos:que Brasil queremos?(Vozes 2000)
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2013/03/01/o-maior-patrimono-do-brasil-o-seu-povo/