sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A verdade sobre a vida no escritório

 
Quando comecei a trabalhar em um escritório, no início da década de 1980, fumávamos em nossas mesas, martelávamos nossos textos em duras máquinas de escrever e na hora do almoço escapávamos até a cantina do escritório para comer uma torta de carne moída. Tudo o que venho escrevendo a partir de então sobre os escritórios modernos - os lugares sem fios, sem fumaça e silenciosos onde agora trabalhamos - é tingido por minhas lembranças de como eram as coisas no passado.

No entanto, agora penso que meu senso de história era totalmente distorcido. Acabei de realizar uma série para a BBC Radio Four sobre os últimos 250 anos da vida em escritórios e descobri que metade das coisas que considerava novos modismos revelaram-se não ser, de forma alguma, novidades, ao passo que muitas coisas que considerava fatos eternos da vida em escritórios são realmente bastante recentes. Existem, porém, algumas constantes - como a paquera e o tédio -, assim como algumas coisas que desapareceram para sempre. A "tia da copa" que trazia o chá jamais retornará.

As listas a seguir pretendem restabelecer a verdade.

Seis modismos que não são novos

1- Trabalhar no Starbucks
Esta tendência recente tem 350 anos de existência. O primeiro café londrino foi inaugurado em 1652, e foi um sucesso instantâneo entre os homens cuja ativide era vender seguros de navios ou que negociavam com açúcar ou com cabelo humano. Após 50 anos, havia 3 mil deles - uma taxa de expansão que faz a invasão da Starbucks na capital do Reino Unido parecer uma tartaruga. Há duas diferenças entre aquelas cafeterias e a versão moderna. O foco, à época, era frequentar para encontrar gente - hoje é para ficar sozinho com seu laptop. E a bebida predileta não era um frappuccino de caramelo com canela extra, mas uma bebida quente que, dizem, mais parecia um "xarope de fuligem com essência de sapatos velhos".

2- Trabalhar em casa
As pessoas costumavam trabalhar em casa - não por causa da internet ou para poupar gasolina, mas porque não havia escritórios. Em 1762, quando o Barings estabeleceu sua sede na Mincing Lane, a atividade bancária acontecia no térreo, enquanto no andar de cima a senhora Baring criava dez de seus 12 filhos. Foi um tempo de funcionários polivalentes que também moravam no local, dos quais esperava-se que fossem igualmente habilidosos com os números quanto em desincumbir-se de tarefas cotidianas e distribuir o pão redondo com manteiga na hora do chá.

3- Pagar para ser estagiário
Dos estagiários modernos espera-se não apenas que trabalhem sem remuneração, como também, por vezes, que tenham de pagar pelo privilégio. Mas 200 anos atrás esse tipo de coisa era rotineira. Quando um Charles Lamb adolescente conseguiu um disputado emprego no departamento de contabilidade da Companhia das Índias Orientais, teve de pagar uma fiança de 500 libras esterlinas como garantia de bom comportamento e encontrar dois patrocinadores que fizessem o mesmo, e então trabalhou durante dois anos sem receber nenhum salário. Isso lhe custou o equivalente a 140 mil libras, fazendo com que o estágio de uma semana na "Vogue" - arrematado por 42,5 mil libras em um leilão beneficente, no ano passado - pareça bastante razoável.

4- Café da manhã à mesa de trabalho
Um jovem colega gosta de começar o dia com uma tigela de Fruit'n Fibre equilibrada sobre seu teclado. John Stuart Mill fez o equivalente 170 anos antes. Todos os dias, ele caminhava de casa, em Kensington, até seu escritório na Leadenhall Street, onde consumia um ovo cozido e uma xícara de chá à sua escrivaninha. A diferença era que o café da manhã de Mill era trazido por uma criada. Meu colega tem de encher ele próprio sua tigela de Fruit'n Fibre.

Até o século XX quase não existiam gerentes. 
O Reino Unido atravessou a Revolução Industrial 
sem quase nenhum administrador

5- Twitter
O site de microblogging não inventou a comunicação sucinta. Isso foi inventado em 24 de maio 1844, quando Samuel Morse digitou o primeiro telegrama: "O que Deus fez!". O que Ele fez acabou revelando-se algo de fato bem grandioso, abrindo o caminho para a internet e levando Jack Dorsey a digitar, em 21 de março de 2006 o primeiro tweet: "Só estou compondo meu primeiro twttr". Não é de surpreender que, como exemplo de prosa, a mensagem de Morse tenha sido enormemente superior: os primeiros telegramas custavam o equivalente a US$ 25 por mensagem; ou seja, as pessoas não escreviam qualquer coisa velha.

6- E-mails destruindo a paz de espírito
Nossos temores de que as mensagens de e-mail nos deixem estressados são precisamente os mesmos que tínhamos cem anos atrás, com o surgimento do telefone. Um artigo publicado na revista "Telephony" em 1913 informou que algumas pessoas ficavam histérica por terem de ficar permanentemente à disposição para atender chamadas telefônicas que chegavam com uma frequência inferior a uma por dia. E foram os telefones, e não o BlackBerry, que destruíram férias. Um anúncio de 1914 advertia homens de negócios para o fato de que um telefone os permitiria, enquanto pescassem trutas durante suas férias, manterem-se em contato com o que estava acontecendo no escritório.

Seis coisas que são novas

1- Gestores
Até o século XX quase não existiam gerentes. O Reino Unido atravessou a Revolução Industrial sem quase nenhum administrador. Em vez disso, havia proprietários, capatazes e supervisores. A palavra "gerente" somente foi usada em seu sentido moderno a partir de cem anos atrás. Mas agora há 5 milhões deles no Reino Unido - dez vezes mais do que em 1911. Sem gerentes, a vida em escritório, como a conhecemos, simplesmente não existia: quase não havia reuniões, memorandos e não havia necessidade de "alavancar" ou "fornecer soluções".

2- Gostar de seu trabalho
A noção de que as pessoas gostavam de seu trabalho era inaudita. Mill, que tinha um emprego confortável na East India Company, evidenciava uma atitude mais positiva do que a maioria das pessoas, mas até mesmo ele considerava o trabalho como "efetivamente um descanso das outras ocupações mentais que exerço simultaneamente". Na época vitoriana, funcionários em escritórios parecem ter sido permanentemente infelizes. Um deles, em 1907, refere-se a colegas como "miseráveis movedorezinhos de canetas em casacas negras com os dedos manchados de tinta e fundilhos reluzentes". Eles sentavam-se em banquetas desconfortáveis, trabalhavam em lugares úmidos e eram propensos a pegar tuberculose - ou ficar com dor nas costas.

3- Mulheres
Mulheres em escritórios foram uma inovação do século XIX, introduzidas como uma experiência para lidar com a crescente carga de trabalho, mas tornaram-se um enorme sucesso. Elas eram baratas, e não precisavam ser promovidas, porque, tão logo casavam-se, deixavam o trabalho e eram substituídas por alternativas mais baratas. Até a Primeira Guerra Mundial, "funcionárias do sexo femininio" tinham entradas, escadas e salões de refeições separados. Trabalhavam muitas vezes atrás de biombos e, em alguns casos, em gaiolas, para assegurar que sua moral permanecesse imaculada. No Barclays, elas eram autorizados a subir à cobertura na hora do almoço, onde caminhavam e entoavam a canção da empresa. Havia apenas um privilégio desfrutado pelas funcionárias hoje não disponíveis: elas eram autorizados a tricotar em períodos de ociosidade.

4- Competência
Ser adequado ao seu trabalho é uma invenção relativamente nova, pelo menos no setor público. Em meados do século XIX, a administração pública era recheada de idiotas irrecuperáveis, lá colocados por parentes. Uma avaliação parlamentar de 1855 faz referência "aos mais débeis filhos de algumas famílias, afortunados por uma nomeação, sim, e outros também, mentalmente ou fisicamente incapacitados, são admitidos ao funcionalismo público". Mas vieram as reformas da década de 1870 - e a ideia revolucionária de que, para conseguir um emprego, o candidato precisava não apenas não babar na gravata, como também dominar um pouco de matemática e, igualmente, latim.

5- Jargão
Quando o estilo de gestão era do tipo comando e controle, não havia necessidade de jargão. Para dispensar pessoal, não se dizia "descontinuar", como fez o HSBC, recentemente. William Lever, fundador da empresa de sabonetes Lever Bros, escreveu sem rodeios sobre como, na década de 1920, ele livrou-se de "homens ineficientes, e homens muito bem pagos, homens idosos já incapazes de desempenhar suas incumbências. Estou confiante em que isso produziu um estado de medo nas mentes dos remanescentes por sugerir que, se não forem eficientes, a vez deles também chegará".

6- Roupas casuais
A equipe que trouxe o Macintosh, da Apple, ao mercado em 1984 não se limitou a surpreender o público com seu produto, mas também com suas roupas: estavam todos vestidos com capuzes cinza. Até então, todo mundo vestia-se para trabalhar. Em "As Aventuras do Sr. Pickwick", Charles Dickens descreve: "Primeiro, despe o paletó preto que dura o ano todo, e enverga outro, que já cumpriu seu dever no ano anterior, e que ele mantém à sua mesa para poupar o outro". Na década de 1970, a virtude do traje elegante foi comprovada cientificamente: de acordo com o best-seller "Dress for Success" (como vestir-se para ser bem-sucedido): as secretárias de homens que usavam camisas de manga curta atrasavam-se para o trabalho 12% mais do que as dos homens em mangas compridas.

Seis coisas que são eternas

1- Luxúria
Isso é bem anterior à invenção de funcionários do sexo feminino. Como Samuel Pepys escreveu em seu diário em 30 de junho 1662: "Acordei cedo e fui para o escritório, onde encontrei a garota de Griffen limpando-o, mas, Deus me perdoe! Como a desejava, mas não me envolvi com ela". Quando as mulheres chegaram aos escritórios, muita coisa começou a acontecer, e muitas vezes terminou muito mal mesmo. Em 1958, Connie Nichols, secretária na Eli Lilly, manteve um longo caso com seu chefe, mas quando descobriu que tinha sido substituída por uma modelo mais jovem, deu um tiro nele.

2. Falar mal de colegas
Ridicularizar colegas de trabalho parece ser uma necessidade básica das pessoas que trabalham em escritórios. Lamb compôs um dístico sobre um colega particularmente obtuso chamado Ward: "O que Ward sabe, só Deus sabe; mas sabe lá Deus o que Ward sabe!". Embora a necessidade seja constante, o modo de execução mudou - ditos espirituosos foram, desde então, substituídos por brincadeiras de mau gosto em redes sociais.

Eu mantenho minha previsão de que 
o escritório sem papel 
só será realidade depois 
dos banheiros sem papel

3- Prêmio de beleza
Ser alto, falar baixo e agradável aos olhos sempre foi uma vantagem. Verificou-se que os executivos-chefe contemporâneos nos Estados Unidos são 2,5 polegadas mais altos do que o homem médio, e inúmeros estudos têm mostrado que os mais bem- apessoados têm maior taxa de sucesso. Cem anos atrás, a menção do "fator beleza" era explícito: no Bank of Scotland, no fim do século XIX, funcionários eram "removidos da vista", em virtude da "baixa estatura", ter uma "voz meio esquisita" ou por "suas orelhas de abano e cabelo ruivo".

4- Políticas mesquinhas
Em minha vida profissional, algumas das mudanças mais impopulares focaram mordomias insignificantes, como biscoitos grátis. Na Companhia das Índias Orientais, em 1817, houve uma gritaria geral quando a festa de Natal - a "festa anual da tartaruga" - foi suprimida. Ainda pior foi uma nova iniciativa que exigia uma assinatura a cada 15 minutos durante o dia inteiro. Uma política que faz parecer laisser-faire a insistência de Marissa Mayer em que o pessoal do Yahoo compareça ao trabalho.

5- Slogans motivacionais
Na moderna sede do Facebook em San Francisco, as paredes são cobertas de avisos dizendo: "O que você faria se não estivesse com medo?". No edifício Larkin Soap, em Buffalo, também bastante modernoso à época de sua inauguração, em 1907, o arquiteto Frank Lloyd Wright mandou esculpir nas paredes: "Pensamento, sentimento, ação". Esses slogans não se revelaram excepcionalmente bem-sucedidos: a Larkin Soap faliu.

6- Papel
É famosa a previsão da "Businessweek", em 1975, segundo a qual os escritórios iriam funcionar sem papel, mas nos 25 anos seguintes o volume de papel usado nos escritórios continuou crescendo. Embora estejamos agora abandonando um pouco o hábito, o trabalhador médio ainda gera 1 quilo de papel por dia. Eu mantenho minha previsão de que o escritório sem papel só será realidade depois dos banheiros sem papel.

Seis coisas que nunca voltarão

1- Livros registro
O fim dos livros de registro foi, possivelmente, a melhor notícia que os escritórios já receberam. O sistema baseado no registro de informações em ordem cronológica significava que nenhuma informação podia ser recuperada. A invenção do arquivo para pastas suspensas, em 1868 - permitindo que as coisas fossem arquivadas em ordem alfabética - foi, provavelmente, um passo maior para a economia baseada em conhecimento do que o computador.

2- Um cemitério de equipamentos
Coisas como canetas de pena, papel mata-borrão, máquinas de escrever, máquinas de somar, computadores de grande porte, editores de texto e máquinas de fax já se foram todos, ou estão indo.

3- Ruído
O fim do som de metal batendo das máquinas de somar, de máquinas de escrever e dos estridentes telefones de baquelite significou o fim do ruído. Agora, há apenas a leve batida nos teclados e a educada vibração dos celulares. Texto substituiu falação. A ironia é que, contra todo o silêncio perturbador, o que começamos a fazer? Usar fones de ouvido.

4- Cigarros
Essa era a droga perfeita nos escritórios e um lubrificante social. Nos tempo de Dickens, em vez de cigarros, era a vez do rapé: "O funcionário sorriu quando enquanto fez o comentário e inalou uma pitada de rapé com um entusiasmo que parecia ser intensificado pela mescla de paixão pelo rapé e antecipação do prazer de cobrar uma taxa". Nas burocracias, o prazer da cobrança de taxas sobreviveu ao apego ao cigarro, que foi expulso dos ambientes de trabalho, consumido apenas por uma minoria obstinada na calçada à frente do prédio.

5- Privacidade
Trabalhadores subalternos sempre trabalharam em salões sem divisórias, enquanto os gerentes tinham suas própria salas - até a década de 1960 e um movimento alemão denominado Bürolandschaft removeu as paredes e colocou vasos de plantas em seu lugar. A partir de então, o avanço dos "planos abertos" continuou, e, apesar de os executivos conseguirem manter suas próprias salas, as paredes agora são feitas de vidro. Assim, quem quiser um encontro reservado é obrigado (a) a sair do aquário e ir à escada.

6- A "tia da copa"
Em 1666, a mulher do responsável pela casa da East India Company começou a fazer chá para os diretores e assim nasceu o papel da "tia do chá". Nos 300 anos seguintes, ela foi uma figura "cult" na maioria das empresas, com seu grito de boas-vindas: carrinho. Em 2003, Isa Allan, uma "senhora da copa" na Scottish Enterprise, recebeu uma condecoração da rainha por ser o "coração e alma" do lugar. Porém, até mesmo a rainha não foi capaz de deter o avanço da mecanização, da terceirização e dos cortes de custos: a "tia" do chá foi substituída pela máquina de café, pelo bebedouro e pela rede de fast-food Pret a Manger - e nenhuma das alternativas é tão competente. (Tradução de Sergio Blum)
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Reportagem  Por Lucy Kellaway | Do Financial Times
Fonte: Valor Econômico on line, 02/08/2013

Fazer, em vez de só consumir

 Bloomberg / Bloomberg
 Qualquer pessoa capaz de operar um computador pessoal consegue produzir praticamente qualquer coisa logo 
depois de tirar a impressora da caixa
Sua caneca de escritório quebrou e você não tem um copo descartável para o café. Por que não imprimir uma nova? Basta escolher um modelo na internet, baixar o arquivo com o desenho em três dimensões e clicar em "print". E não precisa mexer o açúcar sacudindo a caneca. Imprimir uma colherzinha é ainda mais rápido e barato. Pode parecer coisa da família Jetsons, mas já faz alguns anos que criar objetos com uma impressora em casa não tem nada de ficção científica. Na verdade, a tecnologia não apenas já existe como é bastante acessível, a ponto de muita gente estar fazendo isso por pura diversão. Mas a brincadeira é coisa séria: essas impressoras têm sido consideradas o início de uma nova revolução industrial, capaz de mudar para sempre o modo como se criam e se consomem manufaturas. Antes disso, porém, podemos esperar que sejam protagonistas de grandes disputas na Justiça.

Provavelmente, você se lembra de uma outra revolução, que começou com a popularização da música e dos vídeos digitais e do compartilhamento desse conteúdo em sites. O conteúdo se tornou mais acessível para o público, que aproveitou a onda, apesar da ilegalidade. Produzir e distribuir esse tipo de conteúdo também se tornou mais fácil, dando força a artistas independentes. Para a indústria, tudo isso era uma ameaça. Tanto a pirataria quanto os artistas que corriam por fora do "mainstream" eram uma ameaça a um velho modelo de negócio, baseado na produção e distribuição de conteúdo em bens físicos - na época, os CDs. A indústria apelou para a Justiça, mas logo viu que a única saída era rever seus conceitos. O setor agora se recupera após uma boa dose de inovação - com salas de cinema 3D e Imax, lojas virtuais e serviços de música e vídeo em "streaming", sob demanda. É exatamente esse ciclo de crise e reforma que as impressoras 3D podem representar para a indústria de manufaturas - um colosso que fatura trilhões de dólares por ano. A brincadeira é séria mesmo.

"No modelo fordista, produzimos um milhão de objetos a partir de um molde. Com a impressão 3D podemos produzir objetos sob medida, como óculos para seu próprio rosto ou sapatos para a forma exata de seus pés", diz Tomás Díez, diretor do Fab Lab de Barcelona, centro de inovação dedicado à pesquisa e ao livre compartilhamento de informações para explorar a nova tecnologia em todos os seus limites. Ou seja, mais do que fazer uma caneca em casa, essa tecnologia permite fazer peças personalizadas, no tamanho ou formato que você precisar, com seu nome ou mesmo seu próprio rosto impresso em relevo. "Estamos mudando da época da produção em série e padronizada para a produção personalizada, para aplicações específicas." Enquanto a linha de produção concluiu o conjunto de invenções que viabilizou a chamada Segunda Revolução Industrial, a chegada dessas impressoras tem sido considerada o pontapé inicial de uma terceira, em que o valor está mais na singularidade e personalização de cada manufatura do que no ganho de escala.

Apesar de seu enorme potencial de inovação, as impressoras 3D são adaptações de uma velha conhecida: a de jato de tinta. Uma diferença é que o bico de "tinta" se movimenta em três direções em relação ao impresso (na verdade, é o suporte que se move na maioria dos modelos). Além de andar de um lado para o outro, ele sobe, para aplicar sucessivas camadas de tinta, uma sobre a outra. É o que se chama de "manufatura aditiva", em oposição à técnica tradicional, que consiste em retirar partes de um material bruto até esculpir a forma desejada.

A outra diferença dessas impressoras para as de jato de tinta está na "tinta", é claro. Em vez de preto, amarelo, cian e magenta, as impressoras 3D usam uma infinidade de materiais. Os mais populares são tipos de plástico. O ABS, polímero de petróleo, ainda é o mais comum, mas rapidamente perde terreno para o PLA. Feito de milho, matéria-prima renovável, é biodegradável e mais barato, além de não ter cheiro de queimado quando aquecido. Nos dois casos, o "cartucho" da impressora é um carretel de fio de plástico, de aproximadamente 2 mm de diâmetro, que a máquina derrete para injetar conforme a "receita" do arquivo 3D. Ao ser aplicado, ele esfria e se solidifica de volta. As impressoras mais sofisticadas são capazes de usar uma infinidade de outros materiais, incluindo vidro, metal e até tecidos biológicos. Mudando a "tinta", abre-se um mundo de possibilidades. Hoje, as impressoras 3D são usadas experimentalmente para replicar até órgãos e vasos sanguíneos, usando células vivas como matéria-prima.

Impressoras 3D são usadas, em fase experimental, 
para replicar órgãos e vasos sanguíneos, 
usando células vivas como matéria-prima

Na indústria, essas impressoras já passaram da fase experimental. São usadas em cada vez mais fábricas, na produção de protótipos, de modo muito mais rápido e barato. "A prototipagem era muito cara, feita em institutos especiais de tecnologia. Com essa tecnologia, as empresas podem fazer isso in loco, nas suas próprias dependências", explica Ana Arroio, gerente de inovação da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Muitas vezes, o custo de produção de uma única peça com as tecnologias tradicionais é maior do que o de uma impressora 3D, que pode fazer centenas ou milhares de peças. Para o produto final, a qualidade e o custo da nova técnica geralmente não se aplicam. Para testes, no entanto, a impressão 3D é perfeita. "Por aqui, o uso ainda é incipiente, mas os brasileiros são rápidos na adesão a novas tecnologias", diz Ana. Ela conta que as indústrias automobilística e aeroespacial foram as primeiras a adotar a novidade no país, mas que em breve a tecnologia vai pegar em outros setores, a exemplo do que já acontece lá fora. No caso de próteses ortopédicas e odontológicas, já se imprime até mesmo o produto final.

O lado mais surpreendente dessa nova revolução industrial, no entanto, deve ser o que acontece longe das fábricas, dentro da casa de gente comum que decide fabricar muito mais do que canecas e colherzinhas. As primeiras impressoras desse tipo, criadas ainda nos anos 1980, eram caras e sua operação exigia muito conhecimento técnico. Na década passada, isso mudou. O preço despencou e os modelos mais baratos já saem por R$ 1.100 nos Estados Unidos e R$ 5.000 no Brasil. E uma variedade de softwares permite que leigos criem e manipulem objetos tridimensionais. O resultado foi um "boom" no mercado de impressoras 3D para uso pessoal, abrindo portas para uma onda de manufaturas caseiras.

"Qualquer pessoa capaz de operar um PC consegue começar a imprimir logo depois de tirá-la da caixa e instalar os 'drivers'. A operação é basicamente a mesma de uma impressora normal, a não ser pelo fato de haver mais opções de configuração de impressão, como a resolução e o preenchimento do objeto, que pode ser oco ou sólido", diz Sam Cervantes, CEO da americana Solidoodle, que vendeu 5 mil impressoras 3D de baixo custo no ano passado.

Esses novos manufatureiros compartilham suas criações on-line em sites como o Thingiverse, espécie de Napster (programa de compartilhamento de arquivos de músicas pela internet) dos arquivos 3D. A maioria dos conteúdos não tem restrições de direitos autorais, o que permite que qualquer um baixe o tal arquivo da caneca, para personalizá-lo (ou não) como quiser e imprimir. O site já tem mais de 90 mil arquivos disponíveis, com a média de 1 milhão de downloads por mês.

"Assim como o surgimento de outras ferramentas no passado permitiu que qualquer um fizesse música e vídeos, hoje qualquer um pode criar objetos em casa", diz o advogado americano Michael Weinberg, especialista em inovação tecnológica na Public Knowledge, empresa especializada em direito autoral digital. Alexandre Lopes, brasileiro de São Bernardo (SP), é um exemplo. Com uma impressora Solidoodle, imprimiu um conjunto de suporte e braçadeira para fixar seu celular ao guidão da bicicleta nos passeios de fim de semana. Dono de uma pequena empresa de comércio exterior, Lopes não tem nenhum conhecimento de design. "Foi bem fácil. Imprimi também um suporte para minha câmera, miniaturas de Kombi e canecas. A caneca, eu alterei para ficar mais fina e ela acabou vazando." Acidentes acontecem.
Bloomberg / Bloomberg 
 O faturamento total dos fabricantes de impressoras 3D subiu 29% em 2012; 
os modelos caseiros, voltados para o público amador, 
deu um salto de 46%
 
A fatia do mercado dominada por equipamentos de uso pessoal, que custam até US$ 5 mil, ainda é pequena, se comparada com a dos de uso industrial. Mas é a que mais cresce. O faturamento total das impressoras 3D, no mundo, subiu 29% em 2012. O dos modelos caseiros, voltados para o público amador, deu um salto de 46% no mesmo período, segundo o relatório mais recente da consultoria especializada Wohlers Associates. A MakerBot, líder nesse segmento, faturou no primeiro trimestre deste ano 70% de tudo que vendeu em 2012 em vários países. Desde 2009, suas vendas passaram das 22 mil impressoras - mais de 300 para o Brasil.

O hobby da manufatura caseira também deve se popularizar por aqui. A gaúcha Cliever, única empresa brasileira que fabrica e vende impressoras 3D prontas para uso, entregou a primeira há um ano. Com cerca de 100 unidades vendidas, planeja aumentar a produção de 10 para 300 unidades por mês. "A principal demanda vem de pequenas e médias empresas, mas há outros mercados cada vez mais interessados, como escolas e profissionais de arquitetura e engenharia", diz Rodrigo Krug, que fundou e dirige a empresa, enquanto estuda para concluir a graduação em engenharia.

Em seu relatório do ano passado, a Wohlers Associates publicou a previsão de que, se a venda de impressoras de baixo custo continuar crescendo no ritmo atual, o mercado rapidamente se tornará interessante para investidores neste negócio que já faturou U$ 2,2 bilhões em 2012. Para Díez, do Fab Lab de Barcelona, essa popularização será rápida. "Em menos de três anos, teremos impressoras 3D como tínhamos as de papel no fim dos anos 1990, começo dos 2000." Para que essa revolução atinja todo seu potencial, no entanto, empresas tradicionais de manufaturas e novos fabricantes caseiros vão precisar se entender sobre uma questão que já rendeu brigas épicas à indústria de entretenimento: a dos direitos autorais.

Em dezembro, o designer americano Fernando Sosa dedicou horas e horas de seu tempo livre bolando um suporte para seu iPhone 5. Não era um suporte qualquer, mas um no formato do trono da série "Guerra dos Tronos". Ele o expôs em seu blog e o produto fez sucesso imediatamente, com dezenas de comentários positivos de internautas. Sosa então colocou sua criação à venda num site. Quem quisesse, poderia pagar para receber um impresso em 3D para entrega pelo correio - a manufatura caseira em ação. Três meses depois, a rede HBO, detentora dos direitos autorais da série, mandou uma cartinha para o designer. Avisava que o trono tinha dono e solicitava, gentilmente, que o autor desistisse de vendê-lo e retirasse todas as imagens e arquivos relacionados ao produto da internet. O rapaz devolveu o dinheiro a quem já tinha feito sua encomenda. E fim da história.

Em outro caso, do ano passado, o designer britânico Thomas Valenty criou novos personagens para o "Warhammer Fantasy", um "roler player game" (em que os jogadores assumem papéis de personagens num ambiente ficcional). Ele os imprimiu em sua MakerBot e colocou os arquivos de graça no Thingiverse. A Games Workshop, fabricante do brinquedo, pediu que os arquivos fossem tirados do ar. O autor do design poderia contestar o pedido na Justiça, mas preferiu acatar o pedido. Neste caso, a infração de direitos autorais era um pouco menos objetiva, porque o jogo é inspirado em elfos e duendes do folclore e da mitologia medieval europeia. "É um caso mais complicado, porque o criador dos novos personagens poderia alegar que sua inspiração veio de elementos universais da cultura, diretamente", diz Weinberg.

Na indústria, impressoras 3D produzem protótipos, 
na própria empresa, de modo muito mais rápido 
e com menores custos

É comum empresas da música e do cinema recorrerem aos tribunais para resolver esse tipo de disputa. E os primeiros exemplos mostram que essa deve ser a mesma atitude da poderosa indústria manufatureira, que não deve poupar esforços para proteger o que é seu. "Inicialmente, deve haver repressão, com a mesma estratégia de intimidação usada pela indústria de entretenimento", acredita Matthew Simon, da Pace School of Law, autor do artigo "When Copyright Can Kill". Empresas não fazem isso por capricho, mas porque têm o direito de fazê-lo.

Se você pegar um bonequinho do Mickey que comprou na Disney, colocá-lo em um scanner 3D e imprimir alguns clones, já está violando a lei, mesmo que não venda o bonequinho nem distribua o arquivo on-line. "Você está violando pelo menos três direitos autorais. O da Disney, o da empresa que licenciou o design do boneco para fabricá-lo e vendê-lo, além do direito de marca do Mickey, que é uma marca registrada", diz Ronaldo Lemos, fundador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV-Rio e especialista em propriedade intelectual. Na verdade, é preciso autorização até para gerar o arquivo 3D. "Especialmente no Brasil, que tem uma das leis de direito autoral mais restritivas do mundo, sem exceção para qualquer tipo de uso não comercial."

Fãs puderam remixar músicas de seus ídolos e até hoje pipocam no Youtube versões com letras e melodias modificadas, quase sempre sem autorização. A cultura do remix também se aplica à cultura da impressão 3D. Mas, então, e se você pegar aquele Mickey Mouse clássico e mudar seus sapatos, o tamanho característico de suas orelhas, vesti-lo com outra roupa e mudar a cor? "Também é uma violação de direito autoral, neste caso de produto derivado", explica Lemos.

Não é só. Enquanto os direitos autorais protegem objetos originais do ponto de vista artístico, geralmente por até 70 anos após a morte de seu criador, as leis de patentes costumam proteger produtos industriais por até 20 anos após sua criação. Se um engenheiro desenvolve uma máquina, peça ou processo inovador que demonstre alguma utilidade, ele pode requerer uma patente e exigir o pagamento de royalties de quem deseja aproveitar sua invenção.

Isso protege outra gama de produtos que poderiam ser impressos em casa. Imagine que o retrovisor de seu carro é atropelado por um motoqueiro. Você o recupera e vê que apenas uma pequena peça do mecanismo de encaixe se quebrou. Ligando para a loja autorizada da montadora, fica sabendo que ela só vende o retrovisor inteiro, ao preço de algumas centenas de reais. Então, você vai à internet e descobre que outro motorista passou pela mesma situação. Só que, sendo designer, ele tratou de refazer a tal peça e a tornou disponível para download. Por algumas dezenas de centavos, você a imprime em casa ou na loja de cópias da esquina e conserta seu retrovisor.

Getty Images / Getty Images 
Armas também podem ser feitas com impressoras 3D. Recentemente, 
ma empresa americana criou a primeira pistola funcional totalmente impressa
 
Se no mercado existem retrovisores "genéricos", que se encaixam no seu carro, provavelmente a peça não está protegida por uma patente. A mesma coisa que permite a um fabricante chinês fabricar milhões delas e distribui-las pelo mundo permite que você faça a sua em casa, customizada ou não. "Mas, às vezes, uma rosca ou parafuso faz o negócio prender melhor no carro. Pode ser que uma rebimboca dessas seja protegida por patente", explica Lemos. Se for o caso, a montadora que é dona da patente pode processar todo mundo: quem criou o arquivo 3D, as pessoas que o baixaram e até o site que permitiu o compartilhamento. Exatamente como a indústria de entretenimento fez - e ainda faz - para inibir piratas e consumidores de pirataria.

Quando Lemos aponta cada restrição legal ao uso da impressão 3D, não está querendo estragar a festa. Ao contrário, ele se mostra preocupado com o perigo que o excesso de proteções pode representar para a própria indústria. "A tecnologia de impressão 3D coloca na mão do usuário a oportunidade de aperfeiçoar produtos, o que representa uma força de inovação gigantesca. Se não temos um sistema legal que permita aos usuários experimentar obras e designs alternativos, perde-se uma grande oportunidade", explica. "Às vezes, o engenheiro não sacou alguma coisa na fábrica, mas o usuário, na prática do dia a dia, percebe que pode fazer algo para melhorar, implementa isso e pode beneficiar toda a sociedade. Então, é preciso criar um sistema de exceções, que permita o uso de objetos 3D legítimos, autorizados por lei."

 "Estamos, sem dúvida, numa transição 
entre a sociedade de consumo 
para uma de produção. 
Voltar a ter o poder de produzir coisas 
vai mudar mentalidades 
e atitudes", 
diz Tomás Díez, do Fab Lab de Barcelona.

Os primeiros movimentos de empresas que se sentem prejudicadas indicam que vai se repetir a estratégia de intimidação adotada pelo setor de entretenimento. Mas Ana Arroio, da Firjan, prefere acreditar que a indústria está mais madura, e aprendeu com o passado recente. "Hoje, grandes conglomerados têm portais de inovação aberta e creio que haveria mais boa-vontade de receber a pessoa que inventou algo e negociar." O advogado Michael Weinberg também percebe bons sinais, mesmo neste momento inicial de aplicação das impressoras 3D. "Há um mix de reações. No geral, o que temos visto é o de sempre. No caso do trono, a HBO não disse 'venda isso e nos dê 15%'", lembra. "Mas também há casos positivos."

A Nokia, por exemplo, disponibilizou arquivos para impressão da capa traseira de um de seus modelos mais modernos. O dono do telefone pode baixá-los, para imprimir a capa e customizar seu aparelho. Uma fábrica de sintetizadores no Reino Unido colocou todas as peças de plástico de seus produtos disponíveis para download em seu site. Continua fazendo reposição por correio, para quem precisar, mas também dá aos seus clientes a opção de imprimir as peças diretamente. "Eles não ganhavam dinheiro com isso, é claro, mas saía caro administrar os pedidos, embrulhar e postar cada peça", diz Weinberg.

Como isso se aplica no caso do retrovisor? O que a indústria de autopeças pode fazer para não ser prejudicada pela pirataria? "O que essas empresas podem fazer de melhor é construir uma fantástica loja on-line, muito fácil de usar. E se você tiver uma impressora 3D, vai pagar para baixar e imprimir o retrovisor deles na sua casa", sugere o advogado.
Getty Images/AP/Reuters / Getty Images/AP/Reuters 
A customização é uma das vantagens da impressora 3D na produção de óculos, 
por exemplo, entre muitos outros objetos que se podem fazer em casa
 
Qualquer semelhança com a iTunes Store não é mera coincidência. Depois de passar anos em disputas judiciais - e tendo prejuízos com a pirataria -, a indústria de entretenimento só começou a se recuperar quando passou a investir na criação de novas plataformas para distribuir e vender música, licenciada e protegida por direito autoral. Ou seja, em vez de lutar com os piratas, as empresas toparam o desafio de ser melhor do que eles. Hoje, cada vez menos pessoas usam sites como Pirate Bay e Bit Torrent, porque é possível comprar músicas on-line com um clique, a preços acessíveis, tendo compatibilidade total com seus equipamentos. Se você prefere consumir vídeos em "streaming", faz uma assinatura mensal e tem uma série de serviços à disposição, configura legendas e recebe indicações de filmes afins. "Na verdade, eles seguiram esse caminho porque perceberam que era impossível conter a internet. No caso da impressão em 3D, vai ser a mesma coisa. Companhias muito grandes e lentas terão dificuldade para trilhar novos caminhos, mas no fim as mais rápidas e criativas vão nos oferecer um mundo de novas possibilidades", prevê Matt Simon.

Nos próximos anos, os modos de produzir vão mudar tanto que as questões de direito autoral serão apenas uma pequena parte da história, acreditam especialistas em direito. Imagine que, no lugar de um retrovisor, você imprima uma peça de bicicleta ou a engrenagem de um velho carro fora de linha. Se ela quebrar e isso causar um acidente grave, quem será responsável? Você, o designer da peça, o fabricante da impressora ou o do material usado na impressão? Ou todos? Hoje, não existe nenhuma legislação, no mundo, preparada para lidar com esse tipo de situação, mas coisas assim já podem acontecer a qualquer momento.

Uma questão ainda mais crítica é a das pistolas que podem ser feitas com impressoras 3D. Em maio, a Defense Distributed, empresa americana que defende a universalização do uso de armas de fogo para defesa pessoal, criou a primeira pistola funcional totalmente impressa. No mesmo mês, foi obrigada pelo Departamento de Defesa a retirar todos os arquivos para impressão da arma da internet. Simultaneamente, um deputado propôs uma lei para proibir a impressão de armas com impressoras 3D. Quando essas medidas foram tomadas, os arquivos da pistola já haviam sido baixados mais de cem mil vezes. Como muitos dos provedores que os abrigam estão fora dos Estados Unidos, os arquivos provavelmente continuarão disponíveis para sempre, em algum lugar da internet.

"Estamos, sem dúvida, numa transição entre a sociedade de consumo para uma de produção. Voltar a ter o poder de produzir coisas vai mudar mentalidades e atitudes", diz Tomás Díez, do Fab Lab de Barcelona. "E a indústria deverá se renovar, para entrar num novo ecossistema, no qual não é mais o agente principal, e sim uma parte de muitos outros meios de produção."
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Reportagem Por Tarso Araújo | Para o Valor, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico on line, 02/08/2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Compensações

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO*

Perguntaram ao escritor sulista americano William Faulkner como ele explicava o florescimento literário havido no Sul dos Estados Unidos depois da Guerra Civil e sua resposta foi sucinta: "Nós perdemos". A humilhação da derrota e o fim de um tipo de vida explicavam a literatura, que misturava nostalgia, decadência, romantismo sombrio e um certo preciosismo "faisandé". O estilo perdurou até autores modernos como Truman Capote, Carson McCullers, Flannery O'Connor, Tennessee Williams e o próprio Faulkner, e ganhou um nome: "gótico sulista". O Sul perdeu a guerra, mas criou um gênero.

Quando o Homero disse (se é que disse mesmo, nada que se sabe de Homero é cem por cento certo, nem a sua existência) que as guerras aconteciam para serem cantadas pelos poetas, não queria dizer que a arte compensava tudo. Ou queria? Contam que um grupo de oficiais nazistas foi visitar o atelier do Picasso durante a ocupação de Paris e, vendo uma reprodução do seu quadro Guernica, a dramática recriação da destruição daquela pequena cidade pelos alemães na Guerra Civil espanhola, um deles comentou: "Ah, foi você que fez isso, não foi?". Ao que Picasso teria respondido: "Não, foram VOCÊS que fizeram isso". Por um tortuoso raciocínio homérico se poderia concluir que os alemães foram coautores da pintura. Pelo mesmo raciocínio, louve-se a perseguição fascista na Europa pelo exílio de tantas mentes superiores e tanto talento na América, louve-se a escravatura pela nossa rica cultura negra e louve-se as agruras do nosso agreste pelos bons escritores e artistas nordestinos.

Tudo isso foi sintetizado naquela célebre fala que deram para o Orson Welles (há quem diga que a fala foi escrita pelo próprio Welles) no filme O Terceiro Homem, adaptado de um romance do Graham Greene. Para justificar seu mau caráter, Welles compara a conturbada história da Itália antes da unificação com a milenar placidez da Suíça. Enquanto a Itália, junto com conspiradores, corruptos e canalhas tinha produzido alguns dos maiores gênios da humanidade, a bem-comportada Suíça só produzira - o relógio cuco. 

Mas a ideia de que a arte compensa qualquer barbaridade é perigosa. Melhor dizer que os eventuais benefícios de crimes históricos não os absolvem. São efeitos acidentais, como certos queijos que descendem do leite estragado. E você, prefere a paz que só produz o relógio cuco ou a confusão que produz dois, três, muitos leonardos da vinci? 
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* Jornalista. Escritor
Fonte: Estadão on line, 01/08/2013
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Hedonistas?

Contardo Calligaris*
De onde vem a ideia dominante, de que a renúncia ao prazer sempre ganha pontos? 

O papa Francisco, quando era o cardeal Jorge Bergoglio, de Buenos Aires, conversava de religião com o amigo rabino Abraham Skorka. Os diálogos estão agora num livro, que, no Brasil, acaba de sair, "Sobre o Céu e a Terra" (editora Paralela). 

Os dois religiosos tratam de matérias escabrosas --as quais não são apenas contracepção, células-tronco, divórcio, aborto e casamento gay, mas também as questões que desafiam a fé de qualquer um: por que a presença do mal no mundo? Deus é apenas uma resposta fantasiosa a nosso mal-estar psíquico? A religião foi inventada para servir de ópio dos povos? 

Como ambos são decididos a parecerem simpáticos e razoáveis, o texto é agradável e um pouco previsível. Não que eu esperasse grandes viradas teológicas: de qualquer forma, um livro para o grande público não seria o lugar para isso. Mas esperava mais ousadia no pensamento. 

Alguém dirá que ousadia não é coisa para papa --citação de Francisco na orelha do próprio livro: "A verdade religiosa não muda, mas se desenvolve e vai crescendo". 

Sinto muito, a igreja tem uma história (muitas vezes sangrenta) de mudanças. Só para dar uma ideia, nos 2.000 anos desde que os apóstolos se reuniram em Jerusalém: 

-- Faz só 1.700 anos que acreditamos que o Pai e o Filho teriam a mesma natureza; 

-- Faz menos de 1.600 que acreditamos na maternidade divina de Maria, e por volta de 1.400 que acreditamos na perpétua virgindade da mesma; 

-- Faz apenas um pouco mais de 800 anos que o celibato se tornou obrigatório para o clero, e menos ainda que confissão e comunhão se tornaram obrigatórias uma vez por ano, na Páscoa; 

-- Faz por volta de 600 anos que a gente inventou o Purgatório; 

-- E é só desde 1870 que o papa é dogmaticamente infalível. 

À vista dessa história de reviravoltas, em que cada um pode se tornar herético (o que, hoje, no máximo, vale uma excomunhão sem grande interesse, mas, no passado, acarretou consequências fatais para muitos), ninguém sabe as surpresas que nos reserva a igreja de amanhã. 

Quanto a mim, espero há tempos a reabilitação dos cátaros, que são minha seita preferida (exterminada no século 12). Eles tinham a melhor solução teológica ao problema do mal na Terra e da estupidez dos homens: basta pensar que o mundo seja criação do diabo, e não de Deus. 

Enfim, entre os muitos assuntos ao redor dos quais papa Francisco e o rabino Skorka concordam, um capturou minha atenção. Francisco diz "nesta civilização consumista, hedonista, narcisista...", e o rabino Skorka, "...em uma concepção hedonista da vida, egocêntrica, ególatra". 

Embora o papa e o rabino não desprezem todos os prazeres terrenos (isso significaria desprezar a criação --pecado gravíssimo), ambos parecem convergir com um clichê dos críticos culturais contemporâneos, considerando que "hedonismo" é palavrão: a procura do prazer como bem único ou supremo parece ser o que eles menos gostam na nossa época. No Rio, aliás, Francisco mencionou o prazer entre os "ídolos" que nossa época colocaria no lugar de Deus. Algumas notas. 

1) A correlação entre hedonismo e egoísmo é, no mínimo, problemática. Exemplo. Quem é mais egoísta? Alguém que se priva de toucinho na sexta-feira para ganhar o Paraíso? Ou alguém que transa quanto mais puder, sempre achando que o que ele mais gosta é ver sua parceira ou seu parceiro gozar? 

2) Uma cultura que, de maneira quase unânime, não para de lamentar seu "hedonismo", só pode ser radicalmente anti-hedonista, ou seja, oposta ao prazer como bem. É fácil constatar que inclusive os que acreditam na existência de uma alma imortal sentem a finitude da vida; agora, é espantoso que, mesmo assim, o prazer continue tendo, para nós, uma conotação moral negativa. E a renúncia ao prazer (seja ela para satisfazer a Deus ou ao médico higienista), uma conotação moral positiva. 

3) Nos três grandes monoteísmos, o prazer é facilmente culpado ("não se cansem de pedir perdão", encorajou papa Francisco). Alguém dirá que isso acontece sobretudo no cristianismo porque Deus se manifestou pelo sofrimento e não pelo prazer de seu filho. Essa é uma visão teológica à qual não sei contribuir. Mas a questão cultural correspondente é: o que fez o sucesso de uma religião que se fundou na ideia da paixão necessária do filho de Deus e, por consequência, na ideia de que o sofrimento e a renúncia ao prazer, de alguma forma, ganham pontos? 

4) Só para lembrar: não era assim entre os pagãos, nem entre os libertinos dos séculos 16, 17 e 18. 
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* Psicanalista italiano radicado no Brasil. Escritor. Colunista da Folha.
Fonte: Folha on line, 01/08/2013
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@ccalligaris

Quem nos rouba o tempo?

José Tolentino Mendonça*
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O filósofo Blaise Pascal dizia que toda a infelicidade humana provém de uma única coisa: não sabermos estar quietos num lugar. Mas não foi apenas a quietude a tornar-se hoje em dia uma virtude fora de moda. Nós próprios nos tornámos uma espécie de “doentes de tempo”. Parece que temos de viver sete vidas num dia só, ofegantes, ansiosos, desencontrados e meio insones. Um desenvolvimento sereno do tempo não nos basta. Desde os horários dilatados de trabalho às solicitações para uma comunicação praticamente ininterrupta, entramos num ciclo sôfrego de atenção, atividade e consumo. «Despacha-te, despacha-te» é o comando de uma voz que nos aprisiona e cujo rosto não vemos. «Despacha-te para quê?». Talvez, se tivéssemos de explicar as razões profundas dos nossos tráficos em vertigem, nem saberíamos dizer. E também disso, desse vazio de respostas, preferimos fugir. 

Quem nos rouba o tempo? Um investigador social americano, Alec Mackenzie, divertiu-se a construir uma lista de “ladrões de tempo” e chegou à conclusão que os mais perigosos são aqueles interiores, os que nós próprios incorporamos. É claro que há uma quantidade impressionante de “ladrões exteriores”: o modo leviano como nos interrompemos uns aos outros com trivialidades; os telefonemas que chovem e se prolongam por coisa nenhuma; os compromissos e obrigações sociais de mero artificialismo; as reuniões sem uma agenda preparada em vista de objetivos… Mas os “ladrões” mais devastadores são os que atuam por dentro quando, por exemplo, as nossas próprias prioridades aparecem confusas e flutuantes; quando somos incapazes de traçar um plano diário ou mensal e ser fiel a ele; quando as responsabilidades estão mal repartidas e se resiste a delegar; quando não conseguimos dizer um não, com simplicidade; quando nos deixamos envolver numa avalanche de ativismo e desordem ou nos acomete o problema contrário: um perfecionismo idealizado que nos deixa paralisados.

A conquista de um ritmo humano para a vida não acontece de repente, nem avança com receitas de quatro tostões. Também aqui estamos perante um caminho de transformação que cada um tem de fazer e nos pede verdade, aprendizagem e renúncia. A primeira renúncia é àquela da obsessão pela omnipotência. Temos de ter a coragem de perceber e aceitar os limites, pedir ajuda mais vezes, e dizer “basta por hoje” sem o sentimento de culpa a martelar. A insegurança provocada pela velocidade a que tudo se dá, leva-nos a ter medo de apagar a luz ou de arrumar os papéis para continuar amanhã. Precisamos, por outro lado, aprender a planificar com sabedoria o dia a dia, hierarquizando as atividades, e concentrando melhor a nossa entrega. Precisamos aprender a racionalizar e a simplificar, sobretudo as tarefas que se podem prever ou se repetem. E ganhar assim tempo para redescobrir aqueles prazeres simples que só a lentidão nos faz aceder. São tão belos certos instantes de recolhimento e de pausa em que o nosso olhar ou o nosso passo se deslocam sem ser por nada, numa gratuidade que apenas cintila, reacendida.
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* Teólogo. Escritor. Poeta.
In Diário de Notícias (Madeira)

Site de Portugal: 26.07.11

Salvar a beleza do mundo

Ermes Ronchi*
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A feliz expressão de Fédor Dostoievski, «a beleza salvará o mundo», faz com que cada um chegue à perceção de que o mundo pode ser resgatado com a beleza, a beleza do gesto, da inocência, do sacrifício, do ideal, da gratuitidade. 

Hoje, porém, num mundo que relegou a beleza para o campo do fútil ou do ornamental, é legítimo interrogar-se: quem salvará a beleza do risco de se tornar vazia? Na nossa modernidade, a beleza rebaixa-se, permanece uma palavra que todos pronunciam, de que não conseguem privar-se, mas está confinada a um ângulo banal e sem valor: o efémero. 

Foi reduzida a pouca coisa, frente às questões económicas, financeiras e científicas que agitam a nossa sociedade. Foi-lhe reservado um lugar entre as mil coisas inúteis da vida, ficou confinada ao decorativo, àquilo que é máscara da realidade. Marginalizada também pela teologia. 

É necessário salvar a beleza do mundo (Stefano Zecchí). Ela encontra-se, hoje, perante uma encruzilhada: entre a beleza-cosmética, autorreferencial, para a qual não tem sentido a busca do bem e do verdadeiro, porque não existe verdade, e a beleza-símbolo, porta que abre para o conhecimento e para o futuro, em que o homem aperfeiçoa a sua pessoa, intensifica a pesquisa, leva a cabo contínuas aproximações ao ser. 

«O bem, separado da verdade e da beleza, é apenas um sentimento indefinido, um impulso privado de força. A beleza sem bem e verdade não passa de um ídolo. A verdade é o bem; a beleza é esse mesmo bem e essa mesma verdade encarnados numa forma viva e concreta» (Vladimir Solov'êv). 

A beleza, em sentido próprio, é aquela que nos faz continuar a interrogar-nos com obstinado amor sobre o que vemos. Ela traz uma memória e uma profecia: evoca o reflexo de uma justiça ou de uma harmonia originária da criação, prefigura, com a força do seu fascínio, a restituição da criação ao seu sentido. 

Ao invés, desviada da sua profecia, distraída da sua memória, a beleza autorreferencial encoraja também uma extinção voraz do desejo, uma posse destrutiva, como para Narciso. Exilada do seu nómos primeiro, que é o amor, pode introduzir uma trágica anestesia diante da dor do mundo, uma indiferença aos aviltamentos da Terra. A beleza separa-se, então, da esperança do homem. 

Cabe a cada um, com as suas escolhas individuais, salvar esta beleza do mundo. Preservar a beleza que conserva em nós a capacidade de êxtase e de comunhão, a possibilidade do prazer de viver e de crer. Preservar o deslumbramento matinal do mundo. 

A beleza confere, então, à existência, o sentido de uma aventura inédita que, com a arte e a realidade, com as coisas e com o espírito, com os afetos e com o absoluto, se mede por uma incessante maravilha (Salvatore Natali) e com obstinado amor.
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* Escritor.
In Tu és beleza, ed. Paulinas
Site de Portugal: 31.07.13

Franz Kafka: a biografia de um escritor excepcional

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'A Metamorfose', junto aos romances 'O Processo' e 'O Castelo', garantiram o lugar de Kafka no panteão dos escritores mais importantes do século XX

“Kafka: The Years of Insight” é o segundo volume da magistral biografia de Reiner Stach sobre o autor. A primeira trata do período que vai de 1910 a 1915, quando Kafka era um jovem que varava as noites escrevendo, além de trabalhar 50 horas semanais como funcionário público. O segundo volume registra a sua crescente fama até sua morte em um sanatório austríaco aos 40, após sofrer durante anos com uma tuberculose. (Um terceiro volume, investigando os seus anos de juventude, está sendo escrito.)
Nesses anos finais, de 1916 a 1924, Kafka recebe cartas de gerentes de banco intrigados pedindo explicações a respeito de seus contos. Ele tem quatro casos, em sua maioria através de cartas, e passa boa parte de seu tempo em seu escritório apertado no Instituto de Seguros de Acidentes dos Trabalhadores. Esses anos são repletos de inspirações, mas também de doenças e depressão.
 
Apesar da melancolia , o livro é de leitura fácil. Stach, um acadêmico alemão, apresenta as dificuldades de Kafka com sua obra e saúde contra o pano de fundo da Primeira Guerra Mundial, o nascimento da Tchecoslováquia e a hiperinflação dos anos 20. Atento aos limites da biografia, Stach baseia tudo em documentos históricos e, quando possível, na própria visão de Kafka sobre os acontecimentos.
De acordo com Stach, Kafka foi “um indivíduo neurótico, hipocondríaco e enfadonho que era complexo e sensível em todos os aspectos, que sempre andava em círculos em torno de si mesmo e que problematizava absolutamente tudo”.

Alvo frequente de comentários antissemitas, Kafka retratou o mundo que via, cheio de indivíduos solitários e perseguidos, embora houvesse esperança nesse mundo.
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 http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/franz-kafka-a-biografia-de-um-escritor-excepcional/
 

Felicidade e Economia

Mª Dolores Albiac Murillo*

"A Europa não é feliz, duvida de si mesma", disse o circunspecto Presidente francês, François Hollande, perante os dirigentes da Espanha, da Itália e da Alemanha, durante um encontro em que se falou sobre formas de estimular o emprego. "A Europa precisa de mais fantasia", acrescentou o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz. Apesar do seu isolamento insular e do seu clima gélido, a Islândia era o país mais feliz do mundo até rebentar a crise em Wall Street. Em boa medida, era também esse o caso da Europa, exemplo de bonança em matéria de equidade, de estabilidade e de equilíbrio, em matéria de liberdade e justiça.

Será que a crise nos tornou infelizes, de repente? Em parte, sim, porque despertámos bruscamente do sonho da prosperidade ilimitada [...]. 45 milhões de desempregados no mundo industrializado, dos quais 14 milhões depois da crise, quantifica a OCDE. E, apesar disso, países que ainda não atingiram os padrões de desenvolvimento da Europa têm um nível de satisfação maior. E, a despeito da fratura e da dolorosa e lenta recuperação, a própria Islândia conserva a alegria de viver.

Falar da ligação entre desesperança e crise não é uma ideia original do Presidente francês. Também a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) – horas antes de, na última semana de julho, anunciar os piores prognósticos para os 34 países industrializados que agrupa: Global economy is advancing but pace of recovery varies – apresentou o seu próprio "índice de felicidade", O teu Índice para uma Vida Melhor. Será uma brincadeira? Se não, porquê o empenho em misturar a crise com sentimentos tão pouco quantificáveis e subjetivos como a alegria e a tristeza? [...] O facto de o Produto Interno Bruto (PIB), ou o valor monetário dos bens e serviços produzidos por um país num dado período, ter começado a ser calculado também em função da população (PIB per capita) já tinha constituído um grande passo. [...]

Além disso, os principais dados macroeconómicos, ainda mais diretamente relacionados com a área social, como o emprego, não dão ideia da forma como é distribuído o rendimento, nem do modo como a maior ou menor generalização e qualidade da saúde ou da educação afetam o nível de riqueza, ou da medida em que a economia é afetada pela maior ou menor estabilidade política e pela abertura ao exterior. Para já não falar de outros, mais tangíveis, que também determinam o desenvolvimento, como o papel da mulher, o grau de introdução de tecnologias, o nível de liberdade e democracia ou a gestão ambiental.

Por isso, partindo de premissa de que "A verdadeira riqueza das nações são as pessoas", as Nações Unidas começaram, nos anos 1990, a elaborar o Índice de Desenvolvimento Humano (Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 2013 –PNUD). Ao princípio não foi fácil. Usando como argumento a precariedade dos dados, vários países ocultavam as suas vergonhas ou falseavam a medição das receitas ou dos serviços, para não ficarem muito mal vistos.

No entanto, este tornou-se o retrato mais aproximado da realidade do crescimento comparado com o bem-estar, ou seja, do desenvolvimento. Ao fim de um quarto de século de estudos e relatórios anuais, o índice evoluiu e passou a incluir variáveis como a desigualdade, por vezes mais decisivas do que o rácio pobreza/riqueza. [...] A verdade é que este índice da OCDE é um instrumento interativo divertido, com o qual cada um pode elaborar a sua própria lista do "bem viver", ordenando segundo a sua preferência os 11 aspetos –da habitação ou da saúde, à relação trabalho/ócio, passando por fatores tão cruciais como "o sentido de comunidade". Cada um tem a sua cor, em forma de pétalas de uma flor maior ou menor consoante o país […, medida segundo, no fim de um qualquer dia da vida de um cidadão comum, predomina o que é negativo ou o que é positivo.

As comparações são sem dúvida muito interessantes: países com padrões de bem-estar inferiores aos da Europa ou dos Estados Unidos, como o Brasil e o México, são mais felizes do que a média dos ricos e, entre estes, é significativo o descontentamento na Grécia, na Eslovénia e em Itália. Contudo, o mais surpreendente é a desigualdade crescente na outrora igualitária Europa: a desproporção entre os 20% de mais ricos e mais pobres é agora de 6 vezes, no Reino Unido, de 5, na Grécia, e de 4, na Alemanha.
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 *Publicado por en Economía, Internacional
Fonte:  http://www.presseurop.eu/pt/content/blog/4022271-felicidade-e-economia

Papa Francisco e os peregrinos alados: um pequeno ensaio de avaliação

Fernando Altemeyer Junior*
 
O papa Francisco bateu na porta de nosso coração e entrou de mansinho. Sereno e sempre de janelas abertas, se fez peregrino. E o povo carioca o amou de paixão! E Francisco lhes retribuiu com o sorriso que nasce no coração do Cristo Redentor. Quais os frutos a colher? A esperança em oito facetas evangélicas, nascida no amor de Deus, e transmitida de forma visceral por este querido argentino.
O futuro exigirá reabilitar a política, a fé e a esperança! Daí o pedido e o imperativo categórico do papa aos jovens na missa final em Copacabana: “Queridos jovens, regressando às suas casas, não tenham medo de ser generosos com Cristo, de testemunhar o seu Evangelho”.

As felicidades de Francisco são as mesmas bem-aventuranças de Jesus e promovem a cultura do encontro e do diálogo.

A primeira felicidade vital do papa: “Felizes os pobres de espírito:  deles é o Reino dos céus (Mt 5,3)”. Os pobres da comunidade de Varginha foram os interlocutores do encontro de Francisco com o povo brasileiro. Entrou em uma casa, abraçou e foi beijado, orou com os evangélicos, tocou e foi tocado. Ganhou a bandeira da pastoral de juventude e o anel de tucum. Faltou elogiar as CEBs e a Teologia da América Latina.O povo ficou encantado com o jeito de Jorge Mario Bergoglio, pois viu nele um compadre fiel de lutas e utopias. Não era mais estrangeiro, mas o amigo do peito, companheiro. Ele se fez um “papa cireneu”, que ajuda na peleja do viver a enfrentar as cruzes da injustiça.

A segunda felicidade do sucessor de Pedro: “Felizes os mansos: receberão a terra em herança (Mt 5,4)”.
Os mansos são aqueles que o  são não tanto por temperamento, mas pela dura necessidade da sua condição social e política. O afago, o abraço de muitas crianças pelas ruas cariocas, chegou ao clímax naquele menino de doze anos, que aos  prantos o abraça repleto de felicidade cordial. Os mansos se exercitam na mansidão e se reconhecem. Mansos repletos da candura das crianças. E este pode ser o caminho de uma nova política: “ouvir o povo, dialogar com todos, respeitar as diferenças”, com serenidade e mansidão, dando prioridade às crianças, aos anciãos e aos jovens.

A terceira felicidade de Jorge Mario Bergoglio: “Felizes os que choram: eles serão consolados (Mt 5,5).”
Aquele que sofre e é  injustiçado, que perde a esperança. Ao ouvir o papa na Via-crúcis na praia de Copacabana, parecia-nos ouvir a ária “Una furtiva lacrima”, último ato da ópera O elixir do amor, de Gaetano Donizetti, quando canta: “Uma lágrima furtiva irrompe de seus olhos. Jovens festivos parecem invejá-la. O que mais devo eu buscar” Me ama: eu o vejo! Um só  instante e o palpitar de seu coração posso sentir. Seus suspiros se confundem com os meus. Ó Céus, posso morrer! Mais eu não peço!” O papa disse haver uma conexão misteriosa entre a cruz de Jesus e a cruz dos jovens. Jesus em sua cruz carrega todos os nossos medos mais profundos e o nosso choro mais doído!

A quarta felicidade de Francisco: “Felizes os que têm fome e sede de justiça: eles serão saciados (Mt 5,6)”.
Ter fome de justiça é a atitude de quem é um eleito de Deus. Ter fome de justiça é parte fundamental da fé bíblica. O papa não veio para adormecer com discursos melosos e suaves.  Veio incomodar as elites e os grupos que oprimem o povo. Veio propor que os jovens caminhem alegres e rebeldes na estrada da justiça. Que façam barulho e mexam com as estruturas obsoletas da sociedade e das Igrejas. Afinal, o sentido ético é um desafio sem precedentes, diz Francisco. O papa foi valente e quer cristãos valentes e sem arrogância. Lutadores e profetas, com memória história, pé no chão e projetos de transformação. Organizados, pois “Quando enfrentamos juntos os desafios, então somos fortes, descobrimos recursos que não sabíamos que tínhamos”.

A quinta felicidade do bispo de Roma: “Felizes os misericordiosos: eles alcançarão misericórdia (Mt 5,7)”.
Esta é a felicidade central da vida e do programa de bispo de Francisco, pois ele sabe que quem possui compaixão assume o outro como irmão de verdade. A misericórdia é filha de Deus. E o amor misericordioso não é raquítico nem efêmero.  É amor abundante, generoso, forte, feliz, pleno e transbordante. Deus dá Deus. Como diz a bela melodia de padre Zezinho: “Por um pedaço de pão e um pouquinho de vinho, Deus se tornou refeição e se fez o caminho”. Francisco pediu, exigiu, conclamou bispos e padres a saírem das sacristias, a irem para as periferias, para serem impregnados do cheiro das ovelhas e do povo de Deus.

A sexta felicidade do papa argentino: “Felizes os corações puros: eles verão a Deus (Mt 5, 8)”.
A limpeza e pureza de coração é o coração sincero. Francisco falou para a presidente da Republica, aos indígenas, ao prefeito do Rio, para a elite e para os milhões nas ruas. Aos 500 mil jovens da Jornada e aos 1500 clérigos e religiosas na Catedral. Não foi jogo de marketing, nem teologia da prosperidade. Não propôs proselitismo e muito menos confronto com os irmãos evangélicos. Apresentou o Evangelho de Cristo, como testemunho pessoal e qualitativo de um cristão e pastor engajado pela fé e na fé. Francisco quis estar na verdade mais do que afirmar-se dono ou possuidor exclusivo dos tesouros da revelação.

A sétima felicidade do filho de imigrantes: “Felizes os que agem em prol da paz: eles serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9)”.
O papa Francisco não proclamou a paz covarde ou uma ausência de conflitos. Não rezou por uma paz de cemitério ou pela covarde e resignada religião de subserviência ou de preces fundamentalistas. Propôs uma  paz inquieta, rebelde, criativa, sonhadora. Paz onde a pessoa humana é o método, a chave e a meta. A dignidade humana como critério divino: a glória de Deus é que o pobre tenha vida! Gritou a cada momento nesta semana no Brasil, contra a corrupção das elites e das instituições e clamou por uma justa distribuição das riquezas no mundo. E disse ao clero brasileiro: tenham a coragem de ir contra a corrente que transforma pessoas em objetos descartáveis. A idolatria é fruto da  injustiça social e um maldito sinal que nega vida ao povo negro, aos  moradores das periferias e aos camponeses, mulheres, idosos e às crianças.

A oitava felicidade do devoto de Maria: “Felizes os perseguidos por causa da justiça: deles é o Reino dos Céus (Mt 5, 10)”.
Na sua primeira visita internacional nos lembrou do vigor profético de dom Helder Camara e do amor preferencial de Luciano Mendes de Almeida.Hoje o papa Francisco fortalece a fé de quem ficou ao lado dos  empobrecidos, ao lado do Cristo crucificado pelo regime ditatorial. Falou da teimosia evangélica. Celebrou a vida dos que deram a vida: vidas pela vida. Faltou recordar a entrega de tantos mártires de nossa Igreja latino-americana como dom Oscar Arnulfo Romero y Gadamez, Frei Tito Alencar Lima, padre Henrique Pereira Neto, irmã Dorothy Stang, Santo Dias da Silva e o jovem torturado Alexandre Vannucchi Leme, entre centenas que entregaram a vida pelos pobres. Será preciso viver obedientes no amor e na fidelidade sem olvidar as testemunhas. Amor verdadeiro é memória celebrada do sangue derramado, como Cristo na cruz.

Santa Teresinha de Lisieux escrevia para sua irmã Léonie: “A única felicidade na terra é aplicar-se em achar deliciosa a parte que Jesus nos dá (12.08.1897)”. O papa Francisco abriu o nosso imenso apetite para degustar os deliciosos quitutes de Deus. Ao tocar nossa carne, nossa pele, nossa vida, nossa praia ele mexeu com o nosso coração. Ao andar pelas ruas no meio de inverno glacial esquentou a nossa esperança. Nunca mais o Brasil será o mesmo. Os cristãos puderam degustar um gostoso aperitivo da fé. Façamos agora a nossa feijoada. Os ingredientes já temos. Basta botar fogo na panela e água no feijão, para que ninguém fique excluído! Ninguém mais fora da vida pública! Ninguém fora da mesa da cidadania. Cada qual tornando a fé livre e libertadora, com jeitinho franciscano e sotaque carioca.

Ouvimos um convite quente: seguir a Jesus. De forma convicta e apaixonada! O coração da mensagem do papa: sair do centro para a margem, rompendo casulos, para alçar vôo de peregrino destemido, envolto no mistério de Deus. Como cantava o poema musical de Ednardo:

“Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse teu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha pra contar...”. 

Vai com Deus papa Francisco, te cuida! Volta logo, pois sentiremos muitas saudades de Tu, “mermão Chico”! Tu és sangue-bom! Por enquanto, até Cracóvia, em 2016.
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* Reflexão do Professor do  depto. Ciência da Religião PUC-SP
Fonte: Zenit.org. 01/08/2013
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As sete lições da primeira viagem do Papa Francisco

Jean-Marie Guénois*
 
Dado o carisma desse argentino, não havia muitas dúvidas sobre o sucesso da primeira viagem do Papa Bergoglio, para a Jornada Mundial da Juventude, mas, aos 76 anos, esse "jovem" papa – cinco meses de pontificado no dia 13 de agosto – 
superou com sucesso essa prova.

1) O "nascimento" e a decolagem de um pontificado

Para o Vaticano, a primeira viagem ao exterior do Papa Francisco foi um sucesso para além de toda expectativa. Dado o carisma desse argentino, não havia muitas dúvidas sobre o sucesso, mas, aos 76 anos, esse "jovem" papa – cinco meses de pontificado no dia 13 de agosto – superou com sucesso essa prova, resultado nada evidente para um neófito, como foi o caso do tímido Bento XVI durante a Jornada Mundial da Juventude de Colônia.

Foi para ele, além disso, um duplo exercício: uma primeira viagem ao seu continente de origem e uma Jornada Mundial da Juventude bastante turbulenta, durante a qual o papa teve que demonstrar a sua habilidade com jovens que poderiam ser seus netos. Esse sucesso projeta o pontificado de uma certa maneira em uma órbita internacional, que anteriormente havia sido alcançada virtualmente, através das mídias, mas que ainda não tinha sido testado pelo fogo da ação.

Aqueles que, dentro da Cúria Romana, não admitem os modos às vezes rigorosos, muitas vezes obstinados, desse papa latino-americano, terão que se curvar diante do verdadeira decolagem desse pontificado. Uma espécie de nascimento que teve origem não tanto no dia 13 de março de 2013, da urna da Capela Sistina que continha os 115 votos cardinalícios, mas sim, simbolicamente, desse semana ultralatina.

A cada hora ele vibrava como se fosse uma segunda eleição: os católicos da América do Sul são 40% dos católicos de todo o mundo. E todos eles apoiam verdadeiramente o "seu" papa.

2) Um programa e uma visão finalmente claros para a Igreja Católica

Pode até ser um truque de jesuíta, mas é preciso admitir que o Papa Francisco conseguiu, até agora, trazer entusiasmo até mesmo fora da Igreja, tranquilizando a ala progressista – hoje em extinção e presente apenas na faixa etária entre os 60 e os 70 anos – e jogando na inquietação os católicos mais metódicos, clássicos, que haviam se sentido tão confortáveis com Bento XVI, não apreciando minimamente as provocações de Francisco acerca dos "cristãos engomados".

Agora as coisas foram esclarecidas, durante dois grandes discursos proferidos um no sábado, junto à Igreja brasileira, e outro no domingo, junto à Igreja latina.

Esses textos fundadores valem uma encíclica. Aqueles que tomarem o tempo de lê-los, encontrarão exposta, finalmente, de maneira totalmente articulada, a "política" eclesiástica do Papa Francisco que, com efeito, nunca antes havia sido "legível".

A sua visão parecia confusa por causa da avalanche das frases de efeito, muitas vezes ácidas, sobre o estado da Igreja e dos cristãos, tiradas das suas homilias da manhã e dos seus discursos no Vaticano.
Os dois discursos proferidos no Rio, portanto, são fundadores.

Com cerca de uma dezena de páginas cada um, redigidos de próprio punho, eles mostram como, por exemplo, a vontade da "sinodalidade" do papa – termo eclesiástico que descreve um governo da Igreja menos centralizado, baseado em um concílio de bispos ou cardeais em torno do papa – não é a expressão de um progressismo galopante, mas sim de um reequilíbrio de um excesso de poder clericalizante da Cúria Romana durante esses últimos dez anos.

Os católicos escrupulosos, na dúvida, poderão ficar tranquilos com a plena catolicidade desse religioso ao ler essas suas palavras. Ele é um jesuíta de destacada sensibilidade social, mas que ainda vem da velha escola.

3) Confirmação da influência do papa e do carisma de Francisco

Uma coisa é pregar entre os braços reconfortantes do mundo fechado na Praça de São Pedro; outra é, ao invés, tomar o microfone ao vivo do prefeito da cidade para falar diante de três milhões de pessoas no Rio, segundo a estimativa do domingo, para a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude. E, sobretudo, conseguir verdadeiramente fazer passar a mensagem.

Embora seja novo para essas coisas, o Papa Francisco não demonstrou nenhum tipo de insegurança ou hesitação particulares. Mostrou-se sempre à vontade e feliz com esse contato direto com a multidão.

Aonde quer que tenha se dirigido, fosse encontro oficial, favela, igreja ou diante dos milhares de jovens, pôde-se constatar o efeito do carisma muito particular desse papa. A sua simplicidade e a sua vontade de buscar absolutamente o contato com todos conquista os corações: homem ou mulher na rua, ou, como no sábado de manhã na Catedral do Rio, bispos comovidos até as lágrimas...

Nele o Vaticano, que no início deste 2013, buscava "gerir" os seus problemas de comunicação, encontrou um poderoso vetor midiático. Esse carisma totalmente genuíno, objetivamente confirmado por essa viagem, é acompanhado por uma influência cada vez maior. A empresa Burson Marsteller acaba de publicar um estudo realizado sobre a conta do Twitter de 505 chefes de Estado, de governo e de outros ministros de 153 países. O presidente Obama continua sendo o líder mundial mais seguido no Twitter, com mais de 33 milhões de seguidores. Mas Papa Francisco, com mais de 7 milhões de seguidores, ainda tem uma grande influência.

As mensagens de Francisco são, de fato, quatro vezes mais "retuitados", ou seja, difundidos, do que os de Obama.

4) Nenhum ataque contra a sexualidade, mas sim a vontade de construir uma Igreja que "reaquece o coração"

Essa viagem, com o seu público variado, mostrou o grande senso pastoral desse arcebispo que se tornou papa, mas que sempre quis continuar estando o mais próximo possível das paróquias.
São muitos os exemplos que podem ser citados para as suas intervenções. Ele fala muitas vezes como um simples sacerdote, discute os fundamentos de um catolicismo do povo, reza o Ângelus, confessa, celebra a adoração eucarística, dá esmolas...

Não só em nível teórico, mas sim como meio concreto para alimentar uma vida espiritual.

Ao contrário de Bento XVI, que era um verdadeiro mestre da teologia, uma espécie de instituto politécnico da mensagem católica, imbatível nas respostas e um verdadeiro ponto de referência para muitos intelectuais católicos, Francisco é um engenheiro químico que passou pelo severo crivo da formação jesuíta. É muito mais concreto. Ele quer continuar no centro da atividade.

Ele tem o ânimo do engenheiro desenvolvedor, com uma competência inata para o "marketing". Sempre busca, influenciado pela sua cultura muito americana, a melhor maneira de apresentar a Igreja e Cristo; sem concessões sobre os dogmas, mas sem nunca colocar a carroça na frente dos bois. Ele está ansioso para ir para as margens, para as periferias. Não para "recolher pessoas", mas porque esse homem de Deus está convencido de que a missão da Igreja – como afirmou com extrema força no sábado e no domingo – é principalmente junto daqueles que abandonaram a Igreja ou que nunca entraram nela. Assim se explica a prioridade dada no sábado, com os bispos brasileiros, ao discurso de uma Igreja que saiba "reaquecer" o coração do ser humano.

A questão moral da sexualidade, tantas vezes criticada, não foi levantada, ao invés, nem sequer uma vez pelo Papa Francisco durante esta Jornada Mundial da Juventude. Não que ela seja secundária na sua mente, mas não é, segundo ele, uma prioridade, pois impediria que se compreendesse a verdadeira essência da mensagem cristã.

Essa é uma reflexão realmente profunda.

5) Essa viagem e a difícil gestão da mudança na Igreja

Essa primeira viagem ao exterior do Papa Francisco se desenvolveu em um momento de grande tensão no Vaticano. Antes da partida, houve o escândalo envolvendo o monsenhor Battista Ricca, um dos homens de confiança do papa, escolhido para pilotar a reforma do banco do Vaticano. Foi dado a conhecer o seu passado homossexual. Estranhamente, as informações relacionadas a esse bispo nunca haviam sido levadas à atenção do papa.

À espera da verificação, essas informações, no entanto, chegaram à imprensa. E não por acaso. Quis-se deliberadamente visar a enfraquecer o impulso da reforma do banco do Vaticano desejada pelo papa, mas também a reforma desejada da Cúria Romana e programada para este ano, que parece que será muito drástica.

Atmosfera... há fortes resistências internas no Vaticano, que se opõem de forma passiva às ações do bispo de Roma. Mas Papa Francisco está trabalhando incansavelmente nesse caso. No Rio, ele consagrou parte do seu dia de terça-feira, teoricamente dedicado ao seu repouso, a essa questão, na companhia do cardeal Maradiaga, de Honduras, encarregado de coordenar a comissão dos oito cardeais de quatro partes diferentes do mundo que estão trabalhando nessa minirrevolução.

Todos os líderes de empresa sabem que liderar uma mudança é certamente uma das ações mais delicadas exigidas pelo marketing. Com mais razão em uma instituição como o Vaticano, onde o protocolo e os hábitos estão cimentados em uma cultura quase "irreformável".

Francisco se encontra enfrentando esse problema, mas os reticentes do Vaticano terão que fazer as contas com o sucesso desse movimento, que vai reforçar ainda mais a sua autoridade depois de ter superado essas provas.

6) A fórmula JMJ está confirmada, mas, para a Igreja, o desafio com os jovens ainda não está concluído

Houve dúvidas, no início do pontificado de Bento XVI, sobre a continuidade da JMJ, que havia sido criada sob medida por e para João Paulo II. Bento XVI, o místico, tinha acrescentado alguns toques pessoais seus, tornando, por exemplo, a noite do sábado à noite muito mais espiritual, insistindo na adoração eucarística.

Alguns se perguntavam, porém, que futuro poderia ter a longo prazo esses imensos encontros internacionais, dos quais o Rio é a 28ª edição. Depois dessa edição de 2013 e da evidente adequação do Papa Francisco para esse tipo de encontros, a próxima JMJ será realizada em 2016, na Cracóvia, Polônia. E haverá outras a seguir.

As JMJs não resolvem definitivamente, porém, o problema que diz respeito à maior parte dos jovens e a Igreja Católica. O exemplo mais evidente é o Brasil, onde os fiéis da Igreja Católica envelhecem, enquanto os da Igreja Evangélica estão cada vez mais jovens, como demonstra a "Marcha para Jesus", que é organizada por eles todos os anos no Rio de Janeiro.

Por outro lado, os testemunhos absolutamente comoventes dos jovens brasileiros durante a vigília do sábado à noite mostram como é considerável o potencial da Igreja Católica quando um papa – como fez João Paulo II, de forma espetacular – consegue conquistar o entusiasmo dos jovens.

Dito isto, o campo para se trabalhar é vasto. O ex-cardeal Bergoglio sabe disso muito bem, melhor do que qualquer um dos seus antecessores; ele conhece a realidade concreta em que trabalha uma Igreja local às presas com o mundo atual.

É justamente a partir dessa sua compreensão que brota a energia que ele emprega para tocar os corações.

7) Uma energia pessoal incrível e o desprezo pela sua segurança

Durante toda a viagem, com os seus 76 anos, o Papa Francisco provou possuir uma energia fora do comum.
Sempre intelectualmente muito presente, muito móvel fisicamente, de humor excelente, sério quando necessário, mas brincalhão todas as vezes em que a oportunidade se apresentava, ele surpreendeu a sua comitiva pela sua força e pela sua "inexaurível energia".

Todo o mundo agora se pergunta se ele será capaz de manter este ritmo...

Ele anunciou que não se concederá férias, para passar o verão trabalhando no Vaticano. Nenhum dos seus predecessores jamais tinha feito isso.

No Santuário de Aparecida, marcou um encontro com os fiéis em 2017, quando completará 80 anos.

Alguns se perguntam se Francisco, assim como Bento XVI, também decidirá renunciar ao seu cargo, quando não tiver mais as forças necessárias para levá-lo adiante. Esse homem, eleito pelos seus pares cardeais para, é preciso admitir, fazer o "trabalho sujo" da reforma da Cúria, realmente não tem nada a perder e nada a provar.

Assim, ele não poupa as suas energias, levando-se em conta a sua idade, e sabe que o seu tempo é limitado.

Pudemos verificar essa sua atitude de dom total de si mesmo, sem medida nem precaução, durante a viagem, com relação à questão da sua segurança pessoal. Na segunda-feira à noite, na sua chegada, um erro no percurso em uma rua muito movimentada do Rio ameaçou acabar muito mal para ele. Especialmente porque ele se movia com um papamóvel leve ou com um pequeno Fiat Idea de série, fabricado no Brasil.

O Vaticano não quis constranger o governo brasileiro, responsável por essa inédita e incrível gafe, mas a questão da segurança passiva do papa foi levantada, visto que esse carro tão modesto e baixo não assegurava nenhuma segurança. Durante todo o resto da semana, o papa rejeitou a utilização de uma viatura de segurança.

Na segunda-feira, no momento auge do ataque da multidão, Francisco ordenou que os vidros permanecessem abaixados, para poder melhor cumprimentar as pessoas...
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*A análise é do vaticanista Jean-Marie Guénois, do jornal Le Figaro, em artigo publicado no sítio Vatican Insider, 29-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU on line, 01/08/2013
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