sábado, 2 de novembro de 2013

O tabu a respeito do morrer. "Morremos para viver". Entrevista especial com Leomar Antônio Brustolin

"Rezar pelos mortos significa o gesto de maior amor por quem já não está mais conosco", diz o teólogo. Ele constata:"Na minha experiência pastoral, exercendo há 20 anos ministério presbiteral na cidade de Caxias do Sul, percebo algumas mudanças de comportamento no culto aos mortos".

"Falar do morrer significa tratar do viver. É nesse sentido que pretendemos refletir sobre o tema da vida e da morte. Não separados, mas integrados. Se pensássemos apenas no morrer, poderíamos cair numa abordagem reducionista que colocaria o sentido de tudo somente no final da existência", afirma Leomar Antônio Brustolin à IHU On-Line, ao abordar o assunto na data de hoje, dia em que pessoas do mundo todo rezam por seus mortos. 
 
Brustolin explica que, na compreensão filosófica e religiosa, a morte está vinculada a um "ciclo vital que compreende o nascer e o morrer. Por isso muitos filósofos falarão da morte como limite da existência, porque explicita de forma escancarada a finitude da vida". Os cristãos, por sua vez, definem a morte como passagem. "Não passagem de uma realidade para outra totalmente diferente, mas de uma situação limitada para outra, continuada, mas descontínua. Um paradoxo? Não! Trata-se de plenificar e consumar o que agora temos apenas como imagem. Vivemos na e na esperança aquilo que um dia veremos plenamente. Neste sentido, o morrer é um adormecer para este mundo limitado pelo tempo e pelo espaço e acordar nas potências infinitas do Criador. Trata-se do encontro que dá significado a toda experiência humana", menciona.

Tradicionalmente, desde o século XII, o dia 2 de novembro é dedicado aos mortos. Apesar da exteriorização da saudade através de visitas aos túmulos, Brustolin enfatiza que "somente a oração dirigida a Deus é que estabelece total comunhão. Deus é o mesmo, tanto dos vivos, quanto dos mortos. Rezar é manter-se unido ao Pai que reúne em seu coração, ao mesmo tempo, os mortos e os vivos. Em Deus, somente Nele, a humanidade de todos os tempos sente-se irmanada".

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o teólogo também comenta as "mudanças de comportamento" no culto aos mortos, as quais têm percebido ao longo dos últimos 20 anos de experiência pastoral. Segundo ele, os velórios são "abreviados", e o cemitério deixou de ser "referência para os enlutados. "Se o feriado permite um período mais prolongado de folga, muitos preferem ocupar o dia na praia ou passeando. Sem fazer maiores análises, pode-se dizer que a falta de afeto com as pessoas em vida, especialmente idosos e doentes, reflete-se na ausência de jovens nos cemitérios. A crise da alteridade, a pressa do cotidiano e a ânsia de aproveitar ao máximo a vida podem camuflar uma reflexão mais profunda sobre a morte e o morrer. É a eternização do presente que prescinde do passado e não projeta o futuro. Talvez isso possa ser uma fase de nosso tempo", lamenta.

Leomar Antônio Brustolin é pároco da Catedral Diocesana de Caxias do Sul. Possui graduação em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, mestrado em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e doutorado em Teologia, pela Pontifícia Università San Tommaso, em Roma, Itália.

Atualmente, é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde é coordenador do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Teologia. De sua autoria, destacamos: Quando Cristo vem... a Parusia na Escatologia Cristã (2. ed. São Paulo: Paulus, 2001), Maria, símbolo do cuidado de Deus (São Paulo:, 2004), Antonio Francisco. Caminho de fé. Livro do catequizando (São Paulo: Paulinas, 2006) e A fé cristã para catequistas (São Paulo: Paulinas, 2008).
Confira a entrevista.
Foto: http://bit.ly/1iAaqNg  

IHU On-Line - Qual é o significado da morte para os cristãos?
Leomar Antônio Brustolin - Do ponto de vista natural, a morte é a cessação definitiva dos processos vitais de um ser vivo. No sentido filosófico e religioso, o morrer está vinculado a um ciclo vital que compreende o nascer e o morrer. Por isso muitos filósofos falarão da morte como limite da existência, porque explicita de forma escancarada a finitude da vida. Os teólogos a definirão como nova oportunidade dada ao ser mortal. As religiões nasceram, cresceram e até desapareceram na tentativa de explicar o que existe depois desta vida que passa.

Os cristãos definem a morte como passagem. Não passagem de uma realidade para outra totalmente diferente, mas de uma situação limitada para outra, continuada, mas descontínua. Um paradoxo? Não! Trata-se de plenificar e consumar o que agora temos apenas como imagem. Vivemos na fé e na esperança aquilo que um dia veremos plenamente. Neste sentido, o morrer é um adormecer para este mundo limitado pelo tempo e pelo espaço e acordar nas potências infinitas do Criador. Trata-se do encontro que dá significado a toda experiência humana.

IHU On-Line - Como a morte, no cristianismo, se relaciona com o Juízo Final e a Parusia?
Leomar Antônio Brustolin - No cristianismo, o juízo foi transformado no dia da ira de Deus. Muitas pinturas nas igrejas faziam uma catequese do medo, apavorando as pessoas sem criarem alegre expectativa. A imagem de Cristo Juiz do mundo não estimulou a esperança, pelo contrário, na medida em que se falava do juízo final, obscurecia-se o sentido do julgamento que reside unicamente na vitória da justiça de Deus que há de tornar-se a base da nova criação. Daí a necessidade de exorcizar o pânico e o medo do julgamento, para que renasça o desejo de uma feliz realização da obra de Cristo. O motivo dessa esperança é o próprio Jesus Cristo que a si mesmo se entregou pelos pecadores e sofreu as dores e as enfermidades humanas. Ele é esperado como juiz. O Crucificado julgará mediante o Evangelho da justiça de Deus, e não segundo uma lei estranha. O amor de Deus que Jesus proclamou e personificou é incondicional. Ele atinge sua forma mais perfeita no amor ao inimigo. Seria impossível pensar que o Cristo Juiz agirá em contradição com o Jesus dos Evangelhos. Caso contrário, apareceria como outro juiz universal, desconhecido dos cristãos.

A expectativa pelo juízo derradeiro deve estar integrada na expectativa de Cristo, e não inversamente. O juízo deve ser esperado e rezado a partir de seu caráter provisório, porque é premissa para a vinda do Reino eterno. O julgamento de Deus no juízo final não será a última palavra de Cristo. Seu pronunciamento final será: “Eis que eu renovo todas as coisas”. O juízo final, por isso, é passageiro. Definitiva é a nova criação, que será inaugurada com o julgamento. Por isso toda esperança no juízo deve suscitar alegria da libertação, porque a justiça triunfará.

IHU On-Line - Qual é o sentido desta vida dentro da perspectiva da ressurreição?
Leomar Antônio Brustolin - Ensina o cristianismo que, em Jesus Cristo, apesar de vivermos na contingência do tempo, já somos eternos, porque somos filhos da Luz. É por isso que os cristãos já sabem ser ressuscitados e a morte não pode lhes separar de Cristo, como escreve São Paulo.

Aqui está uma verdade a se redescobrir na experiência cristã: a ressurreição não tem efeito somente após a morte, mas é uma experiência que qualifica a vida, de quem já se sente e percebe inundado pela luz da vida eterna. É a mesma experiência que fez Jesus antes da cruz, na medida em que perdoou os inimigos, contemplou a beleza dos lírios do campo, amou sem limites, viveu mergulhado no Pai. A maior dor desse mundo não pode apagar a força da ressurreição que habita o coração cristão. Que o digam os mártires tragicamente assassinados e totalmente consolados pela certeza do Cristo que Vive.

IHU On-Line - Qual é o sentido do Dia de Finados para os cristãos? Teologicamente, como se explica o culto e a reza em memória dos mortos?
Leomar Antônio Brustolin - Diariamente as nossas igrejas celebram missas em memória de pessoas que morreram. São os sétimos e trigésimos dias, motivo de grande afluência de fiéis na celebração eucarística das comunidades. O ser humano sente essa necessidade: rezar ou manter elos com aqueles que já passaram para a outra vida. Apesar desta evidência, não raras vezes, há quem se pergunte: qual o sentido de rezar pelos falecidos? Há um benefício, relação ou comunicação dos vivos para com os mortos, através dessas orações? As respostas geralmente são fruto mais de opiniões particulares ou crenças que não correspondem ao que ensina o cristianismo, especificamente a Igreja Católica.

Toda pessoa que morre é parte deste mundo visível. A história, as experiências, as alegrias e os sofrimentos marcam definitivamente cada um de nós. O que mais determina nosso ser, entretanto, são as relações. Durante a vida conhecemos uma família, crescemos entre amigos, temos colegas de trabalho, escolhemos pessoas mais íntimas, formamos nova família e experimentamos a amizade, o amor e a comunhão. Dificilmente alguém é feliz na solidão e no isolamento. Somos seres, essencialmente, relacionáveis. Tudo isso carregamos conosco para a outra vida, num mundo invisível para nós aqui na Terra. Permanecemos, portanto, unidos em profunda comunhão entre vivos e mortos. Isto, porém, não significa que podemos nos comunicar, como evocar espíritos para falar com os falecidos. A Igreja nunca ensinou que há fantasmas, comunicação com almas do outro mundo, nem encostos ou possessão de espírito de mortos em pessoas vivas. Tudo isso é resultado de uma religião que se misturou com elementos não bíblicos, muita fantasia e descaracterizou totalmente o ensino de Jesus e dos apóstolos sobre a vida e a morte.

Ora, se há uma comunhão entre céu e terra, rezar pelos mortos significa o gesto de maior amor por quem já não está mais conosco. Exteriormente podemos queimar velas, colocar flores nas tumbas, mas realmente somente a oração dirigida a Deus é que estabelece total comunhão. Deus é o mesmo, tanto dos vivos, quanto dos mortos. Rezar é manter-se unido ao Pai que reúne em seu coração, ao mesmo tempo, os mortos e os vivos. Em Deus, somente Nele, a humanidade de todos os tempos sente-se irmanada.

O dia 2 de novembro, dedicado aos mortos, foi definido no século XIII para recordar que, depois do dia 1º de novembro, quando a Igreja celebra todos os santos, deve-se rezar por todos que finaram. O dia de Todos os Santos celebra os que morreram em estado de graça, canonizados ou não pela Igreja. O dia de Todos os Defuntos celebra a multidão dos que morreram e não são lembrados na oração.

Biblicamente é possível sustentar o valor da oração pelos mortos através do texto de 2 Macabeus 12,38-45. No livro de Macabeus, alguns judeus morrem numa batalha. Quando recolhem seus corpos, descobrem-se objetos de idolatria e devoção desses mortos, contrária a fé judaica. Então, seus companheiros rezam para que Deus perdoe o pecado dos mortos. Mais, fazem uma coleta em moedas e enviam ao templo de Jerusalém para que seja feito um sacrifício em sufrágio das almas dos falecidos a fim de que obtenham o perdão de suas faltas. Os vivos, porque acreditam na recompensa da ressurreição, mandam celebrar louvores e súplicas a Deus em benefício de seus companheiros, para que recebam a recompensa de quem é fiel, apesar das faltas. Os vivos acreditavam no valor dos combatentes mortos, mas sabiam que a idolatria é reprovada aos olhos de Deus, por isso recomendam a alma dos mortos, suplicando o perdão. Rezar pelos mortos, além de ser uma obra de caridade, é um gesto de profunda solidariedade.

IHU On-Line - Por que, no cristianismo, o corpo é tão importante quanto a alma e o espírito?
Leomar Antônio Brustolin - O ser humano interage neste mundo através de seu corpo. O corpo é a estrutura fundamental da pessoa, o físico lhe dá suporte. Os atentados contra a vida geralmente ocorrem no corpo. A vida corporal não pode, portanto, ter apenas um significado instrumental. Por isso é preciso superar a visão dicotômica originária dos gregos, para quem a alma era boa e a carne má. Não é plausível, também, a influência cartesiana que intensificou o paralelismo entre corpo e alma na tentativa de explicar melhor as partes e estabelecendo até oposição entre ambos. O corpo é a parte do universo que nós animamos, informamos, conscientizamos e personalizamos. Ele forma unidade com a alma. Assumimos o conceito de alma como a dimensão espiritual e transcendente do ser humano. Muitos preferem o termo espírito e denominam alma a dimensão psicológica (psyché).
O ser humano é terrenal, mas não se limita às fronteiras do visível, transcende-o, porque quem ordenou a matéria e criou tudo do nada soprou no humano o espírito, a dimensão invisível. A separação da alma e do corpo é um grande equívoco na concepção do humano. Para a percepção cristã, a ação divina cria o ser humano completo: corpo e alma, num único sujeito. Por isso o corpo humano, mesmo morto, não pode ser desprezado, nem reduzido o seu valor. Ele deve ser cuidado como lugar das experiências de vida e ressurreição que foram registradas em nossa carne durante o nosso tempo na terra.

IHU On-Line – Quais suas reflexões acerca da dimensão da existência humana a partir da compreensão de morte do cristianismo?
Leomar Antônio Brustolin - Viver e morrer estão intimamente conectados. Presente e futuro nos fascinam tanto porque queremos vislumbrar as conquistas e realizações, quanto nos atemoriza a frustração, o limite e o fim. Em nossos dias, muitos tabus, preconceitos e mitos foram vencidos. Infelizmente, porém, cresceu o tabu a respeito do morrer. Esse assunto é indesejado e até camuflado nas conversas diárias.

Falar do morrer significa tratar do viver. É nesse sentido que pretendemos refletir sobre o tema da vida e da morte. Não separados, mas integrados. Se pensássemos apenas no morrer, poderíamos cair numa abordagem reducionista que colocaria o sentido de tudo somente no final da existência. Muitas pessoas tenderam para essa posição e caíram numa situação deslocada da vida, desprezando o viver e perdendo o sabor dos dias na terra. A tentação maior de nossos dias, contudo, é a abordagem contrária, pensar somente no agora, no material, na vida saudável, jovem e bela que se tem. Mas... isso é provisório demais e pode gerar um desespero quando começam a aparecer os limites.

Uma sociedade altamente consumista e imediatista tem poucas oportunidades de filosofar sobre a vida que tende a um término. Prefere-se “compensar” essas reflexões com soluções pouco sábias que protelam o enfrentamento com a realidade existencial de todo ser humano.

IHU On-Line - Como o Dia de Finados vem sendo celebrado no Brasil? Esta ainda é uma data relevante entre os católicos?
Leomar Antônio Brustolin - O povo brasileiro tem fortes influências indígenas e africanas, culturas que valorizam muito o culto aos ancestrais. Mesmo as colonizações europeias e orientais que aqui se instalaram não descuidam da memória dos finados. Liturgicamente a festa mais importante é a de 1º de novembro, dia de todos os santos, isto é, de todos os mortos que alcançaram a bem-aventurança prometida por Cristo. O dia 2 de novembro foi criado para recordar todos os defuntos, até mesmo os que se acredita não estarem plenamente no céu (porque estariam no purgatório — daí a necessidade de rezar por eles). Contudo, no Brasil, o feriado mais importante é o dia dois, diferente de alguns países europeus de maioria cristã, quando o feriado é celebrado no dia primeiro. Essa questão do calendário merece destaque. O brasileiro estabelece algum vínculo com seus ancestrais. Missas de sétimo dia ainda são ocasiões das pessoas procurarem a igreja, mesmo quem se declara sem religião.
Na minha experiência pastoral, contudo, exercendo há 20 anos ministério presbiteral na cidade de Caxias do Sul, percebo algumas mudanças de comportamento no culto aos mortos. Os velórios são abreviados, a cremação torna-se uma opção mais recorrente e o cemitério deixa de ser referência para muitos enlutados. Especialmente as novas gerações encontram outras formas de expressar seus sentimentos. Se o feriado permite um período mais prolongado de folga, muitos preferem ocupar o dia na praia ou passeando. Sem fazer maiores análises, pode-se dizer que a falta de afeto com as pessoas em vida, especialmente idosos e doentes, reflete-se na ausência de jovens nos cemitérios. A crise da alteridade, a pressa do cotidiano e a ânsia de aproveitar ao máximo a vida podem camuflar uma reflexão mais profunda sobre a morte e o morrer. É a eternização do presente que prescinde do passado e não projeta o futuro. Talvez isso possa ser uma fase de nosso tempo.

IHU On-Line - Como vê os cristãos que recorrem ao Espiritismo na busca de outra resposta para o sentido da morte e da vida? É fato que no Brasil grande parte das pessoas que se autodeclaram cristãs também aderem ao Espiritismo ou mesmo com religiões afro-brasileiras. Isso se deve a uma insatisfação com a abordagem da morte pela teologia cristã?
Leomar Antônio Brustolin - Muitas religiões, em diferentes épocas, ensinam que o ser humano pode voltar a este mundo em outras existências. Hoje, há muitos cristãos que acolhem essa crença e continuam dizendo serem católicos. Acreditam que vão retornar a esse mundo depois da morte, através da reencarnação. Desconhecem que a fé dos cristãos difere dessa concepção. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que devemos respeitar as diferentes formas de cada ser humano buscar a verdade e o mistério. O direito à liberdade religiosa é fundamental. A doutrina da reencarnação é uma das mais antigas respostas dadas sobre a questão da vida e da morte.
Conforme a reencarnação, há um retorno da alma para esta vida, através de um novo corpo, há um renascimento das pessoas, uma volta a este mundo. Esta doutrina é encontrada nas mais diversas religiões em variadas formas. É uma teoria presente entre os egípcios antigos, os gregos, os celtas, os maniqueus... Mas foi na Índia que a teoria reencarnacionista tornou-se uma ideia a dominar muitos ambientes e influenciar muitas religiões. A fé na reencarnação não pode ser provada pela ciência. A partir do século XIX, a Europa e a América viram desenvolver-se as doutrinas teosóficas, ocultistas e espíritas. Especial atenção se dá no Brasil ao espiritismo kardecista. Segundo Alan Kardec (1804-1869), a reencarnação sempre acontece num corpo humano. Diferentemente de algumas doutrinas reencarnacionistas, como a hindu, onde um espírito pode encarnar também num animal. A fé na ressurreição também não pode ser provada pela ciência. Trata-se de uma doutrina ensinada por judeus e cristãos: católicos, ortodoxos e protestantes. Ela afirma que, após a morte, a pessoa terá o mesmo destino de Jesus Cristo: morrer e ressuscitar. A Igreja, baseada na Bíblia, ensina que “a morte é o fim da peregrinação terrestre do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir o seu destino último” (Catecismo n. 1030).

Embora muitos que acreditam na teoria da reencarnação se digam cristãos, eles não o são de fato. Vejamos as razões:
1. A Bíblia não admite a repetição e o retorno do tempo histórico. Cada momento é único e decisivo para a salvação. A cada pessoa é dado um único período de tempo (Sl 90,12; Hb 9,27s);

2. A pessoa é um todo formado de alma e corpo, somos uma unidade. As concepções reencarnacionistas revelam um dualismo: o que importa é a alma, pois ela pode migrar para outros corpos. O cristão sabe que nosso corpo é templo de Deus e que Jesus ressuscitou com um corpo glorioso;

3. A salvação da pessoa não pode ser alcançada só pelos méritos próprios. A salvação é Graça de Deus, dom de Deus. Nossa salvação depende dele, porque “tudo é graça”.

Os antigos Padres da Igreja entraram em polêmicas, às vezes bastante violentas, contra a doutrina da reencarnação, por considerarem-na ridícula e absurda. A ideia de uma conversão após a morte, mediante um novo nascimento neste mundo, não condiz com o ensinamento de Jesus Cristo, portanto, afirmaram que se alguém acreditasse nessa teoria deveria renunciar o título de cristão.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
Leomar Antônio Brustolin - Desde o homo sapiens até hoje não há prova empírica, unânime e válida que comprove a teoria de que há vida após a morte. Igualmente, não há nenhuma prova de que não haja vida após a morte. Neste caso tudo depende da fé. Acreditar que existe vida além do túmulo ou duvidar dessa possibilidade depende da postura individual, ideológica ou religiosa que se assume. Neste caso até o ateu acredita. Ele crê que não existe nada, certeza, ele não tem.

A concepção da morte se desprende da experiência que fazemos durante a vida. Oxalá, todos pudessem perceber, além das crenças e religiões, esse elemento comum a todo ser humano: há algo em nós que não morre. Quem consegue fazer essa experiência durante a vida, percebe a morte de outra forma. O melhor sinalizador de tudo isso é que homens e mulheres, há milhares de anos, edificaram crenças e religiões que afirmaram essa realidade profunda: fomos criados no tempo para sermos eternos. Afinal, morremos para viver!
(Patricia Fachin)
Fonte: IHU on line, 02/11/2013 

O homem deprimido

 Sérgio Augusto*
 
Albert Camus, cujo centenário se comemora na próxima quinta-feira, é um fantasma em nossas vidas. Com frequência, o encontramos citado ou evocado, às vezes em obras e circunstâncias inesperadas. Não consigo ver Os Pássaros, de Hitchcock, sem me lembrar de A Peste. Na cena em que Suzanne Pleshette depara-se com uma gaivota morta na porta de sua casa, Bodega Bay transfigura-se em Oran, com pássaros no lugar dos ratos. A sequência de Deus e o Diabo na Terra do Sol em Monte Santo, com o vaqueiro Manuel carregando uma pedra na cabeça, sempre me lembrou a passagem do cozinheiro que paga similar promessa em A Pedra que Cresce, a derradeira narrativa de O Exílio e o Reino, por sinal inspirada num ritual místico presenciado por Camus em Iguape, no interior de São Paulo, na companhia de Oswald de Andrade e um motorista que era a cara de Augusto Comte.

Franceses vez por outra especulam sobre o que Camus estaria pensando a respeito de alguma controvérsia do momento. Poderíamos fazer o mesmo com relação aos black blocs, por exemplo. Desconfio que Camus reprovaria a violência dos black blocs, e Sartre talvez a aprovasse, como fez com a agitação dos maoistas em Paris. 

Uns dez dias depois de ver um romeiro carregando uma pedra na cabeça em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape, Camus pegou as sobras de uma manifestação de estudantes e populares contra o aumento das passagens de ônibus, em Santiago do Chile, violentamente reprimida pela polícia. Comparou-a, em seu diário de viagem, a um terremoto. Sua sumária descrição do quebra-quebra, com ônibus virados e incendiados, me lembrou vocês sabem o quê:

"Quando saio de lá, as lojas baixaram suas portas, e a tropa armada e de capacete ocupa literalmente a cidade. Às vezes, atira a esmo. É o estado de sítio. Ouço disparos isolados na noite".
Não ficou mais de cinco dias no Chile, a seu ver, "um país admirável". Tirante a Argentina, onde passou voando por conflitos com a ditadura peronista, que recém proibira a encenação de uma peça de sua autoria e exigiu ler antes o texto de sua única palestra programada para Buenos Aires (Camus disse não e seguiu viagem), sentiu-se bem melhor nos países de língua espanhola, com a qual tinha alguma intimidade. Adorou Santiago e, com mais intensidade, Montevidéu, "cidade encantadora", cuja descontração lhe deu a impressão de que ali, ao contrário das outras cidades visitadas, conseguiria morar.

Pela vontade de Victoria Ocampo, que o convidara a visitar a Argentina em 1946, quando se encontraram em Nova York, Buenos Aires teria sido o ponto alto da viagem de Camus à América do Sul. Mas, entre o convite e o tour cultural patrocinado pelo governo francês três anos depois, Perón assumiu a Casa Rosada e o "ateísmo existencialista" do escritor passou a ser visto com desconfiança pelos mandarins da cultura argentina. Em Buenos Aires, que achou "de uma feiura rara", Camus só encontrou paz e prazer no casarão de Ocampo. Lá conheceu alguns admiradores e outros nem tanto, como o comunista Rafael Alberti. Não há menção, no diário, ao camusiano Ernesto Sábato, cujo romance de estreia, O Túnel, Camus recomendara para o catálogo de traduções da Gallimard, um ano antes. 

O Brasil foi seu ponto de chegada e partida. Está tudo contado no Diário de Viagem, editado postumamente na França, em 1978, e aqui publicado pela Record. A bordo de um navio francês, desembarcou no Rio em 15 de julho de 1949. Entre nós tinha mais fama de "filósofo existencialista" que de dramaturgo ou romancista. Salvo engano, nem O Estrangeiro nem A Peste ainda haviam sido traduzidos para o português. 

Sua primeira impressão da cidade, ao adentrar a baía de Guanabara, foi bem mais lisonjeira que a de seu patrício Claude Lévi-Strauss na década anterior. Implicou de cara com o "imenso e lamentável Cristo iluminado", admirou o desenho das montanhas, mas acabaria simpatizando mais com a baía de Todos os Santos, sem a espetaculosidade da de Guanabara. Viajou embodiado; por duas vezes, em alto mar, pensou em suicídio, que, como se sabe, considerava "a única questão filosófica séria"; e nesse estado continuou até embarcar de volta a Marselha, 47 dias depois.

O Correio da Manhã cobriu a chegada e o séjour carioca de Camus melhor que os concorrentes. À primeira das três conferências do escritor, dedicou um editorial de primeira página, não assinado, com elogios ao brilho de sua mente e reservas a algumas de suas "ideias difusas" e "frases confusas". Ainda no cais, o futuro autor de O Homem Revoltado fizera questão de esclarecer aos jornalistas presentes que não era existencialista, tinha uma formação mais grega do que nórdica e se considerava mais discípulo de Platão que de Hegel.

Muito solicitado e paparicado, a agenda lotada de compromissos culturais, mundanos e folclóricos (levaram-no até a uma sessão de macumba no subúrbio carioca de Caxias, a um bumba meu boi no Recife, a um candomblé em Salvador), andou de lancha, bonde, lotação e trem da Central, sucumbindo ao enfado e ao cansaço, agravados por uma gripe que virou bronquite e já era uma recidiva da tuberculose. Tudo isso contribuiu para a imagem de uma pessoa triste, deprimida e mal-humorada que nestas bandas deixou.

Assim também o guardou na memória Otto Lara Resende, que em duas oportunidades trocou ideias com ele, uma delas na companhia de Murilo Mendes. Este e Manuel Bandeira, ambos também tuberculosos, foram dos poucos intelectuais brasileiros por quem o visitante demonstrou simpatia e admiração. Outras exceções: Aníbal Machado e Oswald de Andrade, seu bufônico anfitrião paulistano. Se não estivesse passando uma temporada em Paris, Paulo Mendes Campos também teria caído nas graças de Camus, de quem sempre me pareceu um sósia espiritual. 

Para Augusto Frederico Schmidt, Camus reservou sua munição mais pesada. Descreveu o poeta como um paquiderme, de olhos empapuçados e boca caída, assaz grosseiro à mesa. Jantar ao seu lado, revelou-se "uma provação", talvez a mais constrangedora de toda a viagem, que, a certa altura, transtornado por outras provações, comparou a um "calvário". O Brasil o inspirou, mas não lhe fez bem.
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* Jornalista. Escritor.
Fonte: Estadão on line, 02/11/2013
Imagem da Internet: Camus.

O planeta dos homens

 Cláudia Laitano*
 
 
O Planeta dos Macacos, o livro de Pierre Boulle, completa 50 anos em 2013. O Planeta dos Macacos, o filme original, 45. A distopia sobre um mundo dominado por seres peludos em figurinos de época propunha uma espécie de paródia social da humanidade, refletindo e problematizando algumas das principais questões dos anos 60 – embora boa parte dos espectadores que assistiram ao filme comendo pipoca ou tomando Nescau no sofá da sala provavelmente não tenha se dado conta.

Para começar, os macacos eram separados socialmente conforme a raça. Gorilas eram soldados e tiravam partido da força física para impor respeito, orangotangos pertenciam à elite que queria deixar tudo como está, enquanto chimpanzés eram curiosos, inquietos e defensores da ciência e das mudanças.

Como acontecia com os humanos de forma especialmente intensa no começo dos anos 60, a convivência com a diferença não era pacífica entre as raças, e havia preconceitos de todos os lados. O tratamento dispensado aos homens, presos em jaulas e usados como cobaias pelos cientistas símios, porém, não parecia descabido nem mesmo para os avançados chimpanzés.

O medo de que a guerra fria e a cabeça quente da humanidade acabassem dando cabo do planeta é destacado no final apoteótico do filme: Charlton Heston avistando sobre as areias de uma praia deserta um pedaço da Estátua da Liberdade – e chegando à dolorosa conclusão de que a Terra que ele havia conhecido não existia mais. Já no livro de Pierre Boulle o destino trágico da raça humana aparece associado a uma questão que antecipava uma angústia contemporânea. O autor sugere que a derrocada da humanidade não foi causada pelas armas nucleares ou pelas disputas geopolíticas, mas por algo bem mais prosaico e aparentemente inofensivo: a preguiça. “O que está acontecendo poderia ter sido previsto. A preguiça mental tomou conta de nós. Acabaram-se os livros. Até mesmo histórias de detetive parecem exigir esforço demais de nós.”

À luz da sensibilidade contemporânea, a forma como os humanos eram tratados pelos macacos no livro e no filme pode ser entendida como uma crítica aos experimentos com animais, embora o tema só tenha ganhado uma dimensão de discussão filosófica em 1975, com a publicação de Libertação Animal, de Peter Singer. De qualquer forma, já aparecia ali a semente do questionamento ético: temos ou não o direito de nos colocarmos acima das outras espécies? Em que circunstâncias? Sob que argumentos?

Na segunda década do século 21, a questão ainda está longe de parecer resolvida. Nos últimos 50 anos, o que consideramos aceitável em termos de sofrimento humano – e também em relação ao que temos o direito ou não de impingir a outras espécies – mudou bastante. A filosofia, que nos faz pensar em julgamentos morais e nas consequências dos nossos atos, e a ciência, que nos propõe avanços que podem ser úteis para toda a humanidade, nem sempre caminham de mãos dadas – e o caso das pesquisas com animais é um exemplo em que as escolhas, ou os “trade offs”, nem sempre são simples ou evidentes a um olhar apressado ou apaixonado demais.

Virar cobaia de chimpanzés vestidos de doutor pode não ser um risco muito sério para a humanidade, mas os poderes destruidores da preguiça mental, como lembra Pierre Boulle, nunca podem ser subestimados.
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* Escritora.
Fonte: ZH on line, 02/11/2013
Imagem da Internet

A APARÊNCIA QUE TEMOS

 J. J. Camargo*
 
O entendimento de que a autoestima faz parte obrigatória do conceito global de saúde é relativamente recente. Até o final dos anos 1980 era frequente que pessoas jovens, portadoras, por exemplo, de defeitos congênitos da parede torácica fossem vasculhadas em busca de eventuais disfunções cardíacas ou pulmonares e, não as encontrando, como ocorria na maioria dos casos, esses jovens eram no máximo encaminhados para algum tipo de exercício físico que pudesse, supostamente, ajudá-los. Era de se ver o desespero com que recebiam a notícia de que eram “sadios” e que não havia com que se preocupar. Incrível que se pudesse ignorar o quanto estavam doentes estes jovens que faziam de tudo para evitar qualquer tipo de exposição física, odiavam a ideia de ir à praia, tinham aversão a tardes na piscina e que, frequentemente, protelavam a iniciação sexual.

O entendimento de que qualquer peculiaridade física que fizesse o portador se sentir diminuído aos olhos dos seus pares devia ser tratada como doença significou uma grande virada conceitual e passou a reger os procedimentos, cirúrgicos ou não, que pudessem restabelecer o equilíbrio emocional que depende, criticamente, não apenas de como somos, mas de como nos sentimos ser.

Convivi com os extremos onde transitavam jovens com defeitos leves que atribuíam toda a infelicidade a deformidades quase imperceptíveis e outros, com malformações grotescas, que se serviam delas para diversão, como um jovem que confessou que sabia que tinha agradado quando a namorada colocava champanha na depressão do esterno, para comemorar, depois de uma gincana sexual.

A avaliação psicológica desses pacientes é indispensável para entender o real significado da condição e, principalmente, identificar aqueles que nutrem, em relação ao resultado estético, fantasias inalcançáveis.

Um dos erros médicos mais frequentes é tentar convencer um jovem que venceu a barreira da marcação da consulta e assumiu, perante sua família, o seu nível de sofrimento de que a correção não vale a pena, ou que a relação benefício/custo não compensa. Esse descompasso grosseiro entre o que o paciente sente e o que o médico tenta racionalizar implode a relação e, com certeza, outro profissional será procurado.

No início dos anos 1980, os cirurgiões torácicos operavam doenças, não aparências anatômicas insatisfatórias. O Julio Cesar tinha 17 anos na época e foi uma das vítimas deste conceito retrógrado. Depois de receber a notícia de que todos os exames de função pulmonar e cardíaca eram normais e que, portanto, nenhuma cirurgia se justificava, desceu as escadas e, pendurado num orelhão, aos prantos, contou para a mãe que nós não queríamos tratá-lo e que não sabia o que seria da vida dele.

De passagem, ouvi este trecho da conversa, tomei-o pelo braço e voltamos. Naquele dia aprendi, e definitivamente, que o prefixo de infelicidade pode ser uma boa indicação cirúrgica.
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* Médico
Fonte: ZH on line, 02/11/2013
Imagem da Internet

A transfiguração na morte

 Leonardo Boff*
O dia dos mortos, dois de novembro, é sempre  ocasião para pensarmos na morte. Trata-se de um tema existencial. Não se pode falar da morte de uma maneira exterior a nós mesmos, porque todos nós somos acompanhados por esta realidade que, segundo Freud, é a  mais difícil de ser digerida pelo aparelho psíquico humano. Especialmente nossa cultura procura afastá-la, o mais possível, do horizonte pois ela nega todo seu projeto assentado sobre a vida material e seu desfrute etsi mors non daretur, como se ela não existisse.

No entando, o sentido que damos à morte é o sentido que nós damos à vida. Se decidimos que a vida se resume entre o nascimento e a morte e esta detém a última palavra, então a morte ganha um sentido, diria, trágico, porque com ela tudo termina no pó cósmico. Mas se interpretarmos a morte como uma invenção da vida, como parte da vida, então não a morte mas a vida constitui a grande interrogação.

Em termos evolutivos, sabemos que, atingido certo grau elevado de complexidade, ela irrompe como um imperativo cósmico, no dizer do prêmio Nobel de biologia Christian de Duve que escreveu uma das mais brilhantes biografias da vida sob o título Poeira Vital  (1984). Mas ele mesmo assevera: podemos descrever as condições de seu surgimento, mas não podemos definir o que ela seja.

Na minha percepção, a vida não é nem temporal, nem material, nem espiritual. A vida é simplesmente eterna. Ela se aninha em nós e, passado certo  lapso temporal, ela segue seu curso pela eternidade afora. Nós não acabamos na morte. Transformamo-nos pela morte, pois ela representa a porta de ingresso ao mundo que não conhece a morte, onde não há o tempo mas só a eternidade.

Consintam-me testemunhar duas experiências pessoais de morte, bem diversas da visão dramática que a nossa cultura nos legou. Venho da cultura espiritual franciscana. Nos meus quase 30 anos de frade, pude vivenciar a morte como São Francisco a vivenciou.

A primeira experiência era aquela que, como frades, fazíamos toda sexta feira, às 19:30 da noite: “o exercício da boa morte”.  Deitava-se na cama com hábito e tudo.  Cada um se colocava diante de Deus e fazia um balanço de toda a sua vida, regredindo até onde a memória pudsse alcançar. Colocávamos tudo, à luz de Deus e aí, tranqüilamente, refletíamos sobre o porquê da vida e o porquê dos zigue-sagues deste mundo. No final, alguém recitava em voz alta no corredor o famoso salmo 50 do Miserere no qual o rei Davi suplicava o perdão a Deus de seus pecados. E também se proclamavam as consoladoras palavras da epístola de São João:“Se o teu coração te acusa,  saiba que Deus é maior do que o teu coração”.

Éramos, assim, educados para uma entrega total, um encontro face a face com a morte diante de Deus. Era um entregar-se confiante, como quem se sabe na palma da mão de Deus. Depois, íamos alegremente para a recreação, tomar algum refresco, jogar xadres ou simplesmente conversar. Esse exercício  tinha como efeito um sentimento de grande libertação. A morte era vista como a irmã que nos abria a porta para a Casa do Pai.

A outra experiência diz respeito ao dia da morte e do sepultamento de algum confrade. Quando morria alguém, fazia-se festa no convento, com recreação à noite com comes e bebes. O mesmo ocorria depois de seu sepultamento. Todos se reuniam e celebravam a passagem, a páscoa e o natal, o vere dies natalis (o verdadeiro dia do nascimento) do falecido. Pensava-se: ele na vida foi, aos poucos, nascendo e nascendo até acabar de nascer em Deus. Por isso havia festa no céu e na terra. Esse rito é sagrado  e celebrado  em todos os conventos franciscanos.

O frade que deixou esse mundo, entrava na comunhão dos santos, está vivo, não é um ausente, apenas um invisível. Há celebração  mais digna da morte do que esta inventada por São Francisco de Assis que chamava a todos os seres de irmãos e irmãs e também a morte de irmã?

A percepção da morte é outra. As pessoas são induzidas a conviver com a morte, não como uma bruxa que vem e arrebata a vida, mas como a irmã que vem abrir a porta para um nível mais alto de vida em Deus.

Cada cultura tem a sua interpretação da morte. Estive há tempos entre os Mapuches, no sul da Patagônia argentina, falando com os lomkos, os sábios da tribo. Eles têm bem outra compreensão da morte. A morte significa passar para o outro lado, para o lado onde estão os anciãos. Não é abandonar a vida, é deixar seu lado visível para entrar no lado invisível e conviver com os anciãos. De lá acompanham as famílias, os entes queridos e outros próximos, iluminando-os. A morte não tem nenhuma dramaticidade. Ela pertence à vida, é o seu outro lado.

Poderíamos passar por várias outras culturas para conhecer-lhes o sentido da vida e da morte. Mas fiquemos no nosso tempo moderno. Há um filósofo que trabalhou positivamente o tema da  morte: Martin Heidegger. Em sua analítica existencial afirma que a condição humana, em grau zero, é a de que somos um ser no mundo, este não como lugar geográfico, mas como o conjunto das relações que nos permitem produzir e reproduzir a vida.

A condition humaine é estar no mundo com os outros, cheios de cuidados e abertos para a morte. A morte é vista não como uma tragédia e sim como a derradeira expressão da liberdade humana, enquanto o último ato de entrega. Essa entrega sem resto abre a possibilidade para um   mergulho total na realidade e no Ser. É uma espécie de volta ao seio de onde viemos como entes mas que buscam o Ser. E finalmente, ao morrer, somos acolhidos pelo Ser. E aí já não falamos porque não precisamos mais de palavras. É o puro viver pela alegria de viver e de ser no Ser.

Para o homem religioso, este Ser não é outro senão o Supremo Ser, o Deus vivo que nós dá a plenitude da vida.
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* Leonardo Boff, teólogo, filósofo e  escreveu Vida para além da morte, Vozes 2012.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2013/11/01/a-transfiguracao-na-morte/

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A moda da calça baixa



A calça baixa é uma moda predominantemente masculina, surgida nos Estados Unidos durante a década de 1990, que consiste em usar a calça em posição mais baixa, deixando à mostra uma parte da cueca. A cueca, em geral no estilo samba-canção, é o que impede que o "cofrinho" fique à mostra. Quanto ao cinto, é deixado propositalmente frouxo ou, na maioria das vezes, não é usado.

A origem mais provável desta moda se deu nas penitenciárias norte-americanas em que os presidiários têm tamanho único de roupas e não podem usar cintos devido ao perigo de enforcamentos. Após cumprirem suas penas, eles continuavam a usar a calça baixa fora dos presídios.

O uso de calças cada vez mais largas e folgadas, acumuladas sobre os pés e com os fundos à altura dos joelhos, ou logo abaixo deles, foi com o tempo abrindo espaço na moda das ruas. Por meio da cultura rapper e do hip-hop (que incluiu os shorts de basquete largos e folgados na moda), o estilo espalhou-se entre os jovens, no início dos anos 2000. E passou também a ser muito popular entre os skatistas. Estes alegam usá-la porque são mais práticas para o esporte, permitindo uma maior abertura das pernas e porque o suor (que escorre do torso e fica retido na barra da cueca) não molha a calça ou a bermuda.

Leis norte-americanas têm tentado tornar ilegal este tipo de moda por considerá-la indecente.
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Fonte: Wikipédia

Nas ‘linhas’ do crack

Antropóloga mergulha no universo de usuários da droga, em Campinas e São Paulo, para fundamentar tese de doutorado premiada pela Capes

Ao longo da pesquisa, muito do sentimento de vergonha demonstrado por mim e pelos usuários, expresso no silêncio rápido, mas constrangedor, no desviar de olhos, num certo embaraço, estava ligado ao fato de eu estar limpa. Não poucas vezes, quando estendia a mão para cumprimentá-los, ouvia de volta o pedido de desculpas, quase de recusa, por estarem sujas, seguido de uma mão que se juntava à minha de forma bastante tímida. Um tanto inconscientemente, comecei a ir a campo com roupas desgastadas e calçando tênis velhos, passei a não lavar os cabelos nos dias de pesquisa, não soltá-los, não utilizar adereços (como brincos ou colares) e não passar perfume. Achei que assim a minha limpeza não os afrontava tanto e não precisava gerar tanto desconforto. Em Campinas, como sempre fazíamos atividades no período da tarde, era comum eu almoçar em casa antes de seguir para o PRD. Uma vez, fiz macarrão com molho de tomate e alguns pingos grandes do molho sujaram minha camiseta. Nem passou pela minha cabeça trocá-la. Senti-me muito à vontade de transitar com ela pela linha férrea, ainda que tenha sido observada com certo estranhamento pelas pessoas que estavam no ônibus que me levou até lá. Nesse mesmo dia ainda, me vendo chegar suja para a atividade de campo, um dos redutores brincou: “é, já tá pegando o espírito da linha, hein?”.

Taniele Rui, autora do texto acima, precisou despojar-se de seus temores e constrangimentos para reunir fôlego e mergulhar de alma e corpo – literalmente – em um universo muito particular dos usuários de crack: aqueles que, em sua maioria, por uma série de circunstâncias sociais e individuais, largaram tudo o que possuíam (família, trabalho, casa, bens) e desenvolveram com a substância uma relação extrema e radical, chamados frequentemente “nóias”.

A profunda imersão diluiu até mesmo a sua identidade acadêmica, em um progressivo fenômeno de mimetização do ambiente em que se inseriu. Ela transmutou-se em agente de saúde, educadora social, redutora de danos e psicóloga, materializando personagens com os quais os usuários estavam acostumados a conviver. Ao voltar à tona, escreveu “Corpos abjetos: etnografia em cenários de uso e comércio de crack”, tese de seu doutorado em Antropologia Social no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.

Orientado por Heloisa André Pontes, docente do IFCH, e coorientado por Simone Miziara Frangella, professora do Instituto das Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o estudo conquistou o Prêmio Capes de Tese 2013 na categoria Antropologia/Arqueologia. Produzido ao longo de quatro anos, com financiamento da Fapesp, o trabalho é um denso e pungente relato autoral de mais de 300 páginas acerca do consumo abusivo do crack a partir de uma perspectiva sociocultural. Lê-se o texto da pesquisa como o inebriante diário de uma longa e dramática viagem a cenários variados de uso e comércio da droga nas cidades de Campinas e São Paulo, nos quais, em diferentes oportunidades, a autora experimentou emoções contraditórias.

“Não poucas vezes durante a pesquisa tive a sensação de que um conflito iminente poderia acontecer; não poucas vezes deixei de temer inclusive pela minha própria vida, voltando para casa com uma estranha sensação de agradecimento por estar bem. Não poucas vezes também me senti tão à vontade em espaços à primeira vista bastante hostis”, confidencia.

A construção da narrativa tem como fonte primária os três cadernos de anotações acumulados por Taniele nos dois anos e meio dedicados ao trabalho de campo, entre agosto de 2008 e dezembro de 2010. Neles registrou metodicamente todos os detalhes de seu cotidiano: descobertas, situações testemunhadas, conversas, angústias, dúvidas. Para compor a etnografia ela valeu-se ainda de extenso material publicado pela imprensa sobre o assunto. Teorias acadêmicas de diferentes autores ajudaram a iluminar seus achados e contribuíram para as reflexões sobre a sua relação com os usuários e suas histórias apresentadas nas páginas da tese, que tem ainda o mérito de, ao tratar do crack, abordar questões bastante caras às Ciências Sociais, como violência e marginalidade urbanas, desigualdade social, políticas sociais e de saúde, entre outras.

Notoriedade inesperada

A temática das drogas permeia a atuação acadêmica de Taniele desde 2005, quando, para a dissertação de mestrado, escolheu abordar discursos sobre o uso de substâncias psicoativas entre pacientes de uma instituição para tratamento de dependentes químicos, entre meninos e meninas de rua e entre estudantes universitários. No doutorado, pretendia dar prosseguimento à pesquisa anterior, porém focando a experiência dos usuários nos locais de consumo em Campinas. Buscou a mediação do Programa de Redução de Danos (PRD) mantido pela Secretaria Municipal de Saúde para realizar o trabalho de campo. Somente quando começou a constatar a importância do crack na problemática do consumo de drogas é que o tema ganhou prioridade em seu estudo.

“O consumo de crack acabou se impondo durante o trabalho não só porque tive mais contato com usuários dessa substância, mas, sobretudo, porque durante a pesquisa o crack acabou ganhando uma notoriedade inesperada. Nos jornais impressos, na televisão, nas políticas urbanas e de saúde, entre os traficantes, onde eu olhasse parecia só ver falar do crack”, justifica a pesquisadora, que a partir de então se viu compelida a olhar também para o universo da região que ficou conhecida como “cracolândia” em São Paulo como de suma relevância para o melhor entendimento do tema.

Nesse processo, a figura do “nóia” tomou uma dimensão não prevista e ganhou centralidade na investigação, concentrando o seu enfoque. Ao mesmo tempo em que está completamente excluído da vida social, é esse usuário, de maneira paradoxal, que justifica – com seu estado corporal considerado de degradação extrema e alvo de rejeição – todo o aparato repressivo, assistencial, religioso, midiático e sanitário mobilizado em sua órbita. O “nóia”, observa Taniele, fez o Ministério da Saúde reestruturar suas políticas para o problema das drogas no país, a exemplo de outras medidas adotadas pelo poder público para lidar diretamente com a questão do crack.

Cenário desolador

A Redução de Danos é um conjunto de políticas e práticas com o propósito de reduzir os danos associados ao uso de drogas psicoativas em pessoas que não podem ou não querem parar de usar drogas. Por definição, foca na prevenção aos danos, ao invés da prevenção do uso de drogas, por meio de orientações, distribuição de seringas descartáveis, preservativos e vacinação contra doenças infectocontagiosas. Com a ajuda desses serviços em Campinas e em São Paulo, Taniele esteve em contato com usuários de crack, com seus modos de obtenção da substância, participou de suas conversas, presenciou a preparação e o consumo da droga nos próprios contextos de uso.

Em Campinas, percorreu muitos mocós, becos, casas abandonadas, linhas de trem (a “linha” mencionada na introdução deste texto) e galpões desocupados que garantem aos usuários de crack alguma privacidade, situados nos bairros Paranapanema e São Fernando, na região sudeste da cidade. Incursões foram também realizadas ao esqueleto de um edifício em obras abandonado na Vila Industrial e utilizado como refúgio de consumidores. Nas muitas das visitas que fez em Campinas, ela e os redutores (os profissionais dos PRDs) levavam cerca de quarenta minutos a uma hora e meia de ônibus ou a pé para chegar aos locais de consumo.
 

Em São Paulo, concentrou seu roteiro no espaço conhecido como “cracolândia”, por agrupar grande quantidade de pessoas consumindo crack publicamente e que se tornou alvo dileto das políticas de segurança, de saúde, assistenciais e urbanísticas.

Nesses redutos encontrou quase sempre o mesmo cenário de desolação: escombros de imóveis, muitos papéis que embrulham o crack, cartões telefônicos usados para a separação das porções do produto, palitos de fósforo, isqueiros, restos de alimentos e de roupas, cobertores, excreções humanas, chapas de alumínio que servem de apoio para preparar e separar a droga, latas de refrigerante e embalagens de iogurte usadas como cachimbo.

Taniele evitou uma postura meramente contemplativa no trabalho de campo e deixou claro que para os propósitos da pesquisa era fundamental interagir o máximo possível tanto com os profissionais de redução de danos quanto com os atores sociais por eles acessados. Essa opção fez com que precisasse assumir um papel atuante nos grupos de redução para poder se aproximar e ganhar a confiança dos usuários: cumpriu religiosamente rotinas de visita, vestiu seus uniformes de identificação, organizou mochilas de trabalho, auxiliou em vacinações, elaborou relatórios... Em suma, incorporou-se ao “espírito da linha”.

“Essa trajetória explicita o fato de que meu objetivo inicial não foi estudar o programa ou a política de redução de danos em si, tal como fizeram outros autores, nem o uso do crack especificamente. Para mim, estar com os redutores em campo significava a possibilidade de uma situação de pesquisa bastante privilegiada que me permitiria responder questões deixadas pelo meu estudo anterior”, argumenta Taniele, agora às voltas com a transformação de sua tese em livro.

Recém-completando duas décadas de ingresso no Brasil, notadamente no Estado de São Paulo, o crack chega à maioridade desafiando as políticas de saúde, de segurança pública, urbanísticas e assistenciais, ressalta o estudo. A despeito do caráter novidadeiro e atual do crack, que se reflete na escassa bibliografia específica dedicada ao assunto, a autora acredita, com seu original estudo, ter contribuído de alguma maneira, empírica e metodologicamente, para atenuar o que percebeu ser uma lacuna na literatura nacional em Ciências Sociais dedicada ao tema. Ou ao menos – em uma comparação tão modesta quanto a observação de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) sobre o mérito de um estudo em Antropologia na abertura do clássico O Cru e o Cozido – conseguiu deixar um problema difícil numa situação menos ruim do que aquela em que foi encontrado.

A voz do Usuário

“Eu acordo e já fico louco, arrumo cinco reais e já venho comprar uma pedra e uso uma, duas horas, depende de quantas pessoas estão aqui pra dividir. Aí tenho que sair para a rua pra arrumar mais dinheiro, limpo as calçadas das pessoas que moram aqui perto, tiro a grama que cresce no cimento (nesse momento mostra suas mãos sujas, calejadas e ásperas) e elas me ajudam, dão um, dois reais e eu vou juntando. E quando eu volto pra cá eu não paro mais. Fico aqui até meu corpo não aguentar. Dois, três dias diretos. Sem comer, sem beber, sem dormir. Daí paro, dou um tempo, volto para a minha laje, durmo dois dias seguidos, como e depois venho para cá de novo.”

Fala de um usuário, colhida na linha do Paranapanema. A laje de um supermercado é a sua referência de morada.

No cachimbo com nome, a vontade de ‘ser gente’

Taniele abre espaço na tese para uma reflexão acerca da relação sentimental estabelecida entre os usuários de crack e os objetos mediadores do consumo da droga: os cachimbos. Nas cenas de uso, esses utensílios perdem sua função meramente instrumental; ganham a esfera da intimidade e nomes próprios: Bóris, Catarina e outros capazes de revelar uma afeição entre usuário e o artefato que lhe permite inalar a entorpecente fumaça.
Com folha de alumínio, isqueiro cortado ao meio, cano de PVC, porcas de parafuso, sacolas plásticas, pedaços de bambus, de antenas de rádio ou de guarda-chuvas, é possível fazer um recipiente que, ao receber uma base, em muitos casos protegida por um papel alumínio picotado com algum material cortante, está pronta para que o pó de crack, ou a pedra inteira, se misture às cinzas de cigarro. O uso de latas de refrigerante ou embalagens de iogurte também é comumente observado, relata a antropóloga.

Ao comparar os locais de consumo pesquisados, ela vê ainda uma estreita relação entre esses espaços e a confecção dos diferentes tipos de cachimbos encontrados, pois a tarefa requer disponibilidade de tempo e condições adequadas, justifica.

“A territorialidade de uso importa aqui porque, quando o cenário não possibilita a feitura desses objetos, o cachimbo se torna mercadoria. Na região mais pública da “cracolândia”, cachimbos são fabricados e vendidos por alguns comerciantes do local, por comerciantes de drogas que fazem a venda casada da pedra com o cachimbo e por outros usuários. Dependendo do material utilizado, o valor pode chegar até dezessete reais”, descreve Taniele em seu estudo.

Assim como os usuários, os cachimbos são alvo de políticas de saúde pública e da repressão policial. Na “cracolândia” frequentemente são recolhidos pela polícia. Na falta do cachimbo e do dinheiro para comprá-lo, consumidores tornam-se propensos a compartilhar entre si o aparato, o que suscita orientações específicas dos programas de redução de danos com o intuito de evitar a transmissão de doenças como hepatites B e C e herpes.

Os redutores oferecem piteiras de silicone para serem anexadas ao cachimbo e manteigas de cacau para a cicatrização e hidratação de feridas bucais. Desestimula-se também o uso de latas para a inalação de crack, porque elas ampliam a superfície de contato ao redor da boca – aumentando as queimaduras labiais e o risco de contaminação por doenças – e podem transmitir infecções quando se desconhece a sua origem.

Para Taniele, as diferentes vivências dos usuários com o instrumento mostram também que o cachimbo marca hierarquias e diferenciações internas entre os próprios consumidores. E mais: levando em conta a precariedade que marca as vidas dessas pessoas, ela identifica no uso de crack no cachimbo a fronteira última de humanidade e dignidade de que podem dar prova esses usuários. Em outras palavras, ter o próprio cachimbo pode revelar a vontade de ser gente.

NE concentra maior parte dos consumidores


Os usuários regulares de crack e/ou de formas similares de cocaína fumada somam 370 mil pessoas nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. O contingente responde por 35% do total de consumidores de drogas ilícitas (com exceção da maconha), estimado nesses municípios em 1 milhão de brasileiros. Os dados integram estudo encomendado pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad) à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e divulgado em setembro deste ano.

Contrariando o senso comum, segundo o qual o consumo é maior no Sudeste, o Nordeste concentra a maior parte dos consumidores: aproximadamente 150 mil usuários de crack, cerca de 40% do total de pessoas que fazem uso regular da droga em todas as capitais do país.

O levantamento mostra ainda que, entre os 370 mil usuários, 14% são menores de idade. Isso indica que cerca de 50 mil crianças e adolescentes usam regularmente a substância nas regiões pesquisadas. A maior parte deles (56%) também está concentrada nas capitais do Nordeste, com 28 mil menores nesta situação.

Mistura barata de cocaína com bicarbonato de sódio, água e uma série de outras substâncias, cujo aquecimento resulta em pequenos grãos, o crack não é uma droga nova, mas um novo jeito de administração da cocaína: fumada em vez de cheirada ou injetada – o que o faz ser considerado mais capaz de causar consumo compulsivo devido à facilidade de uso e à rápida absorção.

De acordo com o documento Usuários de Substâncias Psicoativas: abordagem, diagnóstico e tratamento (2003) da Associação Médica Brasileira, Conselho Federal e Conselhos Estaduais de Medicina, a cocaína cheirada leva cerca de 2 a 3 minutos para iniciar a ação e os efeitos duram por volta de 30 a 45 minutos; na injetada a ação se inicia em cerca de 30 a 45 segundos e os efeitos duram de 10 a 20 minutos; na forma fumada a ação tem início depois de 8 a 10 segundos e os efeitos duram de 5 a 10 minutos. Segundo o documento, “quanto mais rápido o início da ação, maior a sua intensidade; quanto menor a sua duração, maior será a chance de o indivíduo evoluir para situações de uso nocivo e dependência”.

Muito popular nos EUA desde meados da década de 1980, a droga teria surgido na cidade de São Paulo entre os anos de 1987 e 1990, segundo o livro Crack – O Caminho Das Pedras, do jornalista Marcos Uchoa (morto em 2005). Em Campinas, a data supostamente inaugural é maio de 1992, de acordo com a reportagem “Campinas registra primeiro caso de crack” publicada pela Folha de S.Paulo em 15 de maio de 1992, conforme pesquisou Taniele.

Ainda segundo seu estudo, o crack, antes vendido sob a forma de pedra, agora é comercializado também em forma de farelo, com a pedra já bastante macerada. Esse segundo modo permite a venda da droga também em pequenas porções. O preço da pedra é 5 ou 10 reais, dependendo o tamanho, e um farelo pode ser comprado por um valor que varia entre 50 centavos e dois reais.

Publicação
Tese: “Corpos abjetos: etnografia em cenários de uso e comércio de crack”
Autora: Taniele RuiOrientadora: Heloisa André PontesCoorientadora: Simone Miziara FrangellaUnidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)Financiamento: Fapesp
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Edição de Imagens: Diana Melo
Fonte:  http://www.unicamp.br/unicamp/ju/582/nas-linhas-do-crack - 01 a 10/nov/2013

AS LEITURAS DO ESCRITOR

Miguel Sanches Neto*
 
Uma das perguntas mais recorrentes em encontros literários é sobre as leituras dos escritores: o que leram e o que estão lendo. Essa curiosidade guarda um lado formativo, pois quem admira aquele autor vai tentar ler algumas de suas referências. Mas tem também um lado bisbilhoteiro, revelando um desejo de entrar na intimidade de alguém com uma mínima notoriedade. Como tudo nessa era de contaminações, não dá para delimitar as fronteiras entre esses sentimentos.

É fato que leitores querem orientações num campo literário confuso, mas talvez desejem antes confirmar preferências já calcificadas. E resta a quem escreve, e se expõe em encontros e entrevistas, desfiar um rosário de obras e autores.

Um escritor para quem a literatura é o centro - há muitos oriundos de outras áreas de interesse - será sempre um leitor. Então, mais importante do que revelar o catálogo de sua biblioteca afetiva talvez seja entender a natureza de suas leituras, que podem ser divididas em quatro grupos.

Caixa de ferramentas

Um escritor lê alguns livros não porque aprecie o autor ou a obra em particular. E sim para aprender a escrever, para internalizar estruturas, para adquirir um conhecimento técnico sobre algum aspecto. Num período em que prevalece a ditadura do entretenimento, o autor sério não pode deixar de se apropriar de ferramentas que permitam um trânsito mais contemporâneo. Ao escrever meu romance "A Primeira Mulher" (Record, 2008), eu queria incorporar um ritmo veloz à narrativa, impondo a um enredo policial os móveis da literatura propriamente dita. Nunca me interessei por romances policiais, nem pelos clássicos do gênero, mas fiz um regime de leituras nessa linha para conquistar alguma intimidade com eles. Passado esse período de laboratório, nunca mais voltei a essa forma de narrativa, o que mostra que era algo absolutamente não essencial para mim.

Um escritor se dedica a obras que servem mais como meros exercícios. Foi assim que li as ficções de Lydia Davis ("Tipos de Perturbação", trad.: Branca Vianna, Companhia das Letras, 2012), um verdadeiro mostruário de possibilidades construtivas, do conto brevíssimo ao uso de um discurso próprio de tese para contar uma história. Seus relatos não me tocaram, mas serviram para eu refletir sobre o fazer literário em uma época em que há tantos gêneros textuais em circulação social.

Embora com verdadeiro valor literário, o romance "A Passagem Cruel do Tempo" (trad.: Fernanda Abreu, Intrínseca, 2011), de Jennifer Egan, teve também uma função expositiva quanto a uma estrutura romanesca atual, com uma simultaneidade de vozes e trajetórias que oscilam no tempo e no espaço. O ápice da experimentação é um capítulo narrado por uma criança em linguagem de PowerPoint, numa alegoria à rudimentaridade de expressão nas novas gerações que tem como consequência uma falência ética generalizada.

A literatura não reside nesses recursos, mas verificar de que forma se pode fazer uso deles para obter um melhor resultado plástico para a experiência emocional (centro de toda arte) é uma necessidade de qualquer criador consciente de seu trabalho.

O colecionador

O segundo tipo de leitura é o de natureza informativa. Dentro do processo realista de produção e recepção, preponderante na modernidade, é necessário trabalhar com documentos, para dotar a escrita criativa de sinais de verossimilhança, mesmo que seja para negar o real. Qualquer um que tenha escrito uma ficção histórica sabe que é preciso consultar documentos, livros, jornais, teses de doutorado etc. para situar a história em outros tempos. Mesmo livros sobre a vida contemporânea exigem leituras específicas sobre lugares, hábitos, objetos...

Assim, parte do tempo do escritor é dedicada a esse material vazado em uma linguagem endurecida, sem a menor preocupação literária ou com um estilo literariamente caricaturesco. Nesse terreno, é preciso ficar atento para não incorporar vícios narrativos, principalmente quando o escritor se dedica a outras épocas. Interessam-lhe apenas os dados contidos nesses materiais, a linguagem será toda dele na hora de construir o seu livro.

Leitura para viagens

O escritor, cada vez mais, não vive isolado em seu escritório, com uma parede forrada de obras clássicas que o protege dos ruídos incômodos do mundo. É um oficial no meio de outros oficiais. Participa de feiras, convive com colegas de trabalho, entra em debates com os produtores contemporâneos. Esse seu relacionamento com os pares gera uma obrigação de diálogo literário. Acumulam-se, assim, os livros de produtores contemporâneos que o escritor recebe, mesmo quando ele não faz resenha, mas muitos fazem esse tipo de trabalho.

A maioria desses títulos não guarda o menor interesse para o escritor. Ele poderia passar muito bem sem eles, usando seu tempo para outros saques no inesgotável estoque da grande literatura universal. Mas é preciso dispor de um tempo para acompanhar, minimamente, o que é produzido pelos companheiros de viagem. Você terá que comentar ao menos um conto do autor na próxima conversa com ele. Dalton Trevisan relatou que, ao visitar Guimarães Rosa, este havia lido um de seus contos e centrou todos os comentários em torno daquele fragmento. Não se trata apenas de cálculo diplomático, mas de um respeito mínimo aos profissionais com quem se convive. E essa prática tem uma função importante, pois mostra ao escritor para onde está indo (ou de onde está voltando) a produção da agoridade.

Ler para ler-se

Por fim, um escritor precisa criar largos espaços para se dedicar aos livros que realmente importam, aqueles que foram produzidos pelos seus irmãos de alma, pelos seus iguais em alguma preferência profunda. Nesses autores reside o DNA do escritor, e tais leituras promovem, ao mesmo tempo, o conhecimento de um outro (que poderia ser quem somos, e o é pelo mecanismo de imaginação) e de nós mesmos. Só é densa uma leitura quando há esse embaralhamento de identidades.

Esses não são autores para ser lidos, mas para ser meditados. Sabemos quais leituras nos marcaram assim tão fundo quando, folheando o livro lido, encontramos os muitos grifos, as anotações. Esses parágrafos destacados são, geralmente, o ponto de contato entre o eu/leitor e o eu/escritor. Embora nascidos de um outro, eles nos pertencem e podem ser acrescentados às nossas opiniões mais particulares sobre as pessoas, as coisas e a arte. Há uma autoria de natureza vertical nessas linhas destacadas. Grifar é uma maneira de tomar posse de áreas dentro de um território coletivo. Aqui é meu domínio, dizem os traços sob as palavras.

Esses são os únicos livros que deveríamos ler, aqueles que nos leem, para usar a fórmula de Murilo Mendes, em um de seus aforismos de "O Discípulo de Emaús", o de número 463: "A leitura deve nos ler, tanto quanto ser lida". Desses títulos nossa sensibilidade sai queimada, porque, enquanto as outras modalidades de leitura são sempre frias, algumas até gélidas, essas acontecem em uma temperatura elevada.
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* Miguel Sanches Neto é ficcionista, autor, entre outros, dos romances históricos "Um Amor Anarquista" (Record, 2005) e "A Máquina de Madeira" (Companhia das Letras, 2012)
Fonte: Valor Econômico on line, 01/11/2013

UM FILÓSOFO ATENTO A TEMAS ESSENCIAIS

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 Comte-Sponville: "É preciso conquistar os meios de transformar a sociedade"
Baudelaire, Freud e Godard foram alguns dos pensadores que serviram de apoio às ideias do então jovem André Comte-Sponville (tinha 26 anos) em "Do Corpo". Primeiro livro do filósofo francês que hoje, aos 61 anos, enche auditórios e vende best-sellers em 20 idiomas, estava inédito no Brasil, mas acaba de sair pela Martins Fontes. Trata-se de uma espécie de coletânea de aforismos sobre temas visitados em sua carreira, como amor, sexualidade, religião e morte. "Sou como Montaigne: gosto de citações", diz ao Valor.

Desde então, algumas opiniões amadureceram, outras estão intactas, como a descrença na religião. Defensor da espiritualidade laica, encontra a definição de suas crenças na alcunha de "ateu fiel": "Vejo nas religiões apenas um conjunto de ilusões às quais não posso aderir. Falta inventar, ou reinventar, uma espiritualidade sem deus, e transmitir às crianças o que há de moralmente precioso nas grandes religiões. Defino-me como ateu porque não acredito em nenhum deus e fiel porque me mantenho apegado aos valores humanos veiculados há séculos pelas religiões".

Tal como os soldados do filme "Glória Feita de Sangue", de Stanley Kubrick, que dizem ter "mais medo da dor do que da morte", ele afirma em "Do Corpo" que a morte só é triste para os vivos, não sendo mais que a passagem de um estado a outro, em que nada se perde. "Morremos, e isso é alguma coisa. Filosofar não é aprender a morrer, ao contrário do que dizia Platão, mas aprender a viver. Isso supõe, todavia, que se aprenda a aceitar a inevitabilidade da morte, o trágico da nossa condição".

Essa não é a primeira vez que o francês se opõe ao pupilo de Sócrates. Em "O Amor" (2011), Comte-Sponville expõe a descrição do amor por Platão como algo que nos falta, impossível de reter, para em seguida contrapô-la ao afirmar a possibilidade de "haver casais felizes, adeptos do amor-ação: aquele que fazemos, que construímos e mantemos".

Comte-Sponville lamenta a relutância da comunidade acadêmica em dar a devida atenção a amor e sexo. "Eles não falam no assunto com muita frequência, mas pareceu-me útil definir a questão, o que fiz em 'Le Sexe ni la Mort' (sem tradução aqui), cujo título se refere à máxima de La Rochefoucauld: "Nem o sol nem a morte podem ser encarados fixamente". "Parece-me que há algo em comum entre o sol e o sexo: ambos nos fazem viver, aquecem, ofuscam. É o que eu quis tentar compreender."

Em relação às mudanças na experiência sexual da juventude atual, causadas pelo fácil acesso a conteúdo adulto na internet, defende um meio-termo entre pudor e pornografia: "Não tenho nenhuma nostalgia da pudicícia do século XIX, mas me aflige que um jovem descubra a sexualidade em filmes pornô, quase sempre cheios de vulgaridade, violência e misoginia. Entre o pudor e a pornografia parece-me haver lugar para imagens verdadeiras, doces, respeitosas".

Ele chama a atenção também (há 35 anos) para a baixa qualidade da arte contemporânea. "Uma vez que atinge a maturidade, a arte não avança mais. [...] A noção de vanguarda artística é vazia de sentido. O que é a vanguarda de um exército que não avança?", escreve em "Do Corpo", crítica que mantém. "Você conhece um músico atualmente que se iguale a Bach ou Beethoven; um pintor que se iguale a Vermeer ou Ticiano? Eu não conheço. Acredite que lamento!"

O filósofo critica também as celebridades do meio artístico - segundo ele, superestimadas ou desprezíveis: "Para ser moderno será preciso considerar Jeff Koons ou [Daniel] Buren gênios? Prefiro passar por medíocre a fazer de conta que admiro o que a mídia e a burguesia incensam", protesta. "Não devemos nos resignar à decadência, mas vislumbrar a aurora, preparar um renascimento. Sim, hoje precisamos de um Giotto, um Shakespeare, um Bach: eu os aguardo e tento preparar o terreno para eles."

A política também parece precisar de terraplenagem a seus olhos. Enquanto vê com entusiasmo os jovens se preocuparem com o tema, é cético em relação a mudanças palpáveis. "Não podemos nos ater a simples protestos, é preciso também conquistar os meios de transformar a sociedade. O entusiasmo da juventude é uma grande força, mas não pode substituir a lucidez", diz, tomando Maio de 68 como exemplo: "Muito entusiasmo, decerto, mas também muitas ilusões, utopia, ingenuidade... A esquerda precisa conciliar sonho e lucidez, entusiasmo e eficácia, generosidade e realismo. Não é fácil, mas é mais uma razão para lhe dedicar nossos esforços".

Comte-Sponville afirma querer a política a serviço dos mais pobres, tendo a justiça social como prioridade, e vê na criação de riqueza a única maneira de fazer recuar a miséria. "O liberalismo econômico consegue isso melhor do que uma economia estatizada. Mas o mercado só é legítimo para as mercadorias. Ora, a justiça não é uma mercadoria, nem a liberdade ou a dignidade... Portanto, vamos confiar ao mercado tudo o que é para vender, e solicitar ao Estado que se ocupe de tudo o que não é para vender. Não há que escolher entre um e outro; precisamos do mercado para criar riqueza e do Estado para proteger a liberdade e criar justiça".

Além disso, para ele, moral e política não se confundem. "A política não se reduz à moral: quem governa não são os mais virtuosos, mas os que ganharam as eleições. Os homens políticos devem, então, ter uma moral como qualquer um, mas ela não pode substituir um programa ou a eficácia. A moral diz respeito aos fins e se julga pelas intenções; a política, aos meios, e se julga pelos resultados. Não contemos com os bons sentimentos para substituir a eficácia."

Quanto aos próximos projetos, ele destaca um livro sobre a diferença entre o relativismo, que assume, e o niilismo, que recusa. E avisa, pedindo desculpa pela imodéstia: "Tenho a sensação de ter alcançado mais ou menos o que tinha como objetivo: propor uma filosofia - materialista, racionalista, humanista - para nosso tempo. Quanto ao mais, a vida é mais preciosa que os livros. Publiquei cerca de 20, que somam mais de 5 mil páginas. Tudo indica que o essencial de minha obra esteja atrás de mim".

"Do Corpo".

André Comte-Sponville. 

Trad.: Eduardo Brandão. 248 págs.

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Reportagem por  Marília Kodic | Para o Valor, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico on line, 01/11/2013

Minha ideia, minha obra

 Luciano Pires*
 
Em meio à polêmica das biografias e o choque de ver alguns de nossos ídolos defendendo posições muito próximas da censura, vale reler um dos textos que publiquei em 2009 em meu livro Nóis...Qui Invertemo As Coisa.

Almocei num restaurante que passava nas telas de plasma o show “Kaia na gandaia” de Gilberto Gil. O show é uma homenagem ao reggae de Bob Marley. Gil canta e encanta, dança e ilumina. Uma delícia. Mas... Tinha gente com cara feia na mesa.

- Odeio o Gil.

Gil era ministro aliado ao governo do PT, portanto tudo que fizesse devia ser execrado. Não interessa sua história como artista, seu valor como poeta, sua capacidade como músico e intérprete. Até quem não gosta dele reconhece sua importância na história da Musica Popular Brasileira.

Mas Gil estava contaminado. Por uma “ideologia”. E uso a palavra “ideologia” entre aspas, pois não sei se o circo político brasileiro tem algo que se possa chamar de ideologia.

Interessante essa dificuldade que a gente tem de separar a pessoa da obra da pessoa, não é? Basta que o poeta abra a boca para uma declaração política e pronto! Contamina-se.

Essa separação “ideológica” em grupos, tribos, castas, raças, pode ser um indicador da qualidade da inspiração, da obra, da arte das pessoas? Quando fala de saudades o comunista fala melhor que o capitalista? O amor do católico é melhor que o amor do muçulmano? A arquitetura de Oscar Niemayer é ruim por ele ser comunista? Um músico negro toca pior que um branco? Um verso como "Ai, como essa moça é distraída / Sabe lá se está vestida / Ou se dorme em transparente", de Chico Buarque, ficou ruim depois que ele disse que adora Cuba ou que votou em Lula? Para mim, não. Apesar de discordar do Chico político, continuo tiete do poeta, que é o que realmente me interessa.

Lembro-me da carreira de Wilson Simonal, destruída quando ele foi injustamente apontado como “dedo duro” pelas patrulhas que lutavam contra o governo militar. Repentinamente o carisma, o balanço e a simpatia do ídolo que arrastava multidões passou a não valer nada. Um rótulo ideológico destruiu o artista.

Tempos atrás tomei minha decisão. Quando o assunto é arte, só tenho reservas quanto a uma “ideologia”: o consumismo. Leia bem: con-su-mis-mo. Quando a arte é absorvida pelo comércio, deixa de ser arte. Morre.

A arte está acima da política, mas precisa da política. No entanto, não consegue contaminar a política. É a política que contamina a arte. E então as pessoas passam a odiar o artista, transformado em objeto político. O coração pede pra amar, mas a consciência manda odiar. Louco isso, não é?

- Ah, mas artistas são personalidades públicas. Têm responsabilidades como formadores de opinião!

Também acho. Mas aí o papo é sobre política, não é mais sobre arte.

Arte é para ser apreciada com os olhos da alma. Poesia vem do coração, da alma, de lugares onde a política não se mete. E quando se mete, é para usar a arte, não raro, soando falsa. Populista. Você consegue reconhecer isso no riso amarelo do político com a criança miserável no colo, no horário eleitoral?

A política – ao menos essa que está aí - reduz a complexidade de nossas vidas e o valor de nossos sentimentos a meros instrumentos de troca.

Mas eu me vacinei. Aprendi a apreciar o que quero e não o que alguém quer. Rótulos, quem dá sou eu. E na música, só ouço o que gosto. E o que gosto, para mim, é música boa, com eleição ou sem eleição, com partido ou sem partido, com ideologia ou sem ideologia.

Na hora de lidar com a arte, minha ideologia é meu coração.
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* Escritor.
Fonte: http://www.portalcafebrasil.com.br/artigos/minha-ideia-minha-obra

PS: Mas que bola fora essa do Chico, Caetano, Gil, Milton, Roberto, Djavan e outros, hein? Suas obras continuam emocionantes, os artistas são admiráveis, mas parece que os homens envelheceram mal.