segunda-feira, 3 de março de 2014

Eu odeio! Sobre a guerra na Ucrânia

 Blindados e camiões com tropas russas cercando uma base ucraniana junto a Simferopol (capital da Crimeia)
 - Foto do twitter de Carlos Franganillo
 
Escrever numa posição crítica não é muito apreciado em tempos de tumulto. Por Volodymyr Ishchenko*
 
Para alguns idiotas histéricos eu sucumbi aos fascistas, para outros, traí a Pátria. O tempo é agora precioso e deve ser utilizado de forma eficiente. É por isso que eu respondo a tudo num único post.

Odeio os Euroidiotas que começaram tudo isto por causa dos seus pequenos tiques e do chauvinismo cultural.

Odeio os corruptos que se agarraram ao poder, apesar de dezenas de mortes e que agora querem voltar ao país em tanques externos.

Odeio os da antiga oposição, que se tornaram as autoridade de hoje, e que não encontraram nada melhor para "salvar a língua ucraniana" [restringindo o russo] do que preencher o governo com os fascistas e prometer medidas sociais impopulares.

Odeio as autoridades da Crimeia, que estão com tanto medo a defender os seus lugares que ficarão felizes em servir de capacho de uma administração de ocupação.

Odeio o tirano do Kremlin, que precisa de uma pequena guerra vitoriosa para fortalecer o rublo e o seu próprio poder quase ilimitado.

Odeio todos os burocratas da UE e dos EUA "profundamente preocupados", que introduzem sanções apenas quando o governo está quase a cair e dão ajuda em condições que se assemelham a um roubo à luz do dia.

Odeio fascistas ucranianos e russos, que não conseguem habituar-se à realidade de um país multicultural e multilinguístico, e estão prontos a destruí-lo.

Odeio os "liberais", que estiveram prontos para dar cobertura aos fascistas presentes na Maidan1 e nunca se distanciaram deles para dar uma hipótese ao movimento verdadeiramente democrático de todos os ucranianos, em vez de empurrarem o país para uma guerra civil.

Odeio-me a mim próprio e a outros esquerdistas por passarmos a maior parte do nosso tempo em recriminações mútuas, em vez de construirmos uma poderosa organização política. Divididos, pouco podíamos influenciar o Maidan ou o anti-Maidan. Parte da culpa recai sobre nós.

Sou pela paz mundial. Envio estas flores da Valónia. Flocos de neve sobre o fundo das folhas verdes do ano passado. Espero que esta não seja a última vez que as vejamos. Acabei de voltar para o meu país dividido e desejo que tudo termine com uma Segunda Crimeia em vez de uma Terceira Guerra Mundial. Porque esta guerra não se vai transformar numa revolução mundial (as hipóteses disso são muito menores do que há 100 anos atrás), mas num holocausto nuclear.

Camaradas russos, vão para as praças centrais das vossas cidades, para que possam parar a intervenção na Ucrânia.

Camaradas ucranianos, vamos pensar o que poderemos fazer. É claro que inscrever-se no Right Sector2 [que fez um apelo à mobilização] não é uma opção.

* Artigo de Volodymyr Ishchenko, sociólogo e diretor adjunto do Centro de Investigação Social de Kiev, publicado em LeftEast. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

1 Referência à concentração na praça principal de Kiev.
2 Movimento de extrema-direita.
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Fonte:  http://www.esquerda.net/02/03/2014

7 hábitos de pessoas incrivelmente felizes

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O que faz você feliz? As respostas são absolutamente infinitas e individuais para ambas as perguntas. Mas, como bem observou Gregory Ciotti – autor do livro “Sparring Mind”, que fala sobre o comportamento humano, produtividade, hábitos e trabalho criativo -, é uma grande besteira acharmos que não podemos aprender nada observando a alegria de pessoas incrivelmente felizes.

Em nosso dia a dia, é comum passar batido por algumas coisas simples e corriqueiras que podem alterar o nosso nível de felicidade. Mas, felizmente, nós não precisamos ficar só no “achismo”. Alguns estudos foram além nesta questão, observando o comportamento de pessoas que se consideram absolutamente felizes e procurando as “chaves” para esse sentimento tão almejado.

E  o resultado foi uma série de conselhos que, se aplicados, podem mudar radicalmente sua vida.

1. Seja ocupado, mas não apressado

Pesquisas mostram que estar sempre com pressa faz com que as pessoas alcancem rapidamente um estado de tristeza. Por outro lado, muitos outros estudos sugerem que não ter nada para fazer também pode arrastar uma pessoa para o buraco. Ou seja: a chave para progredir e encontrar a tão sonhada felicidade é ter uma vida produtiva. Em outras palavras: você deve trabalhar para expandir sua zona de conforto sempre, mas não tanto a ponto de deixar sua rotina sobrecarregada.

O que significa dizer “sim” apenas para as coisas que realmente deixam você muito animado, e “não” para todas que são “hum, ok” para baixo. É um filtro e tanto, não?

2. Tenha 5 relacionamentos bem próximos

Ter relacionamentos realmente próximos com pessoas com as quais você realmente se importa e pode ter discussões profundas não só nos mantém felizes como também nos ajuda a viver mais. Amizade verdadeira vale ouro, e mais anos de vida.

Mas por que cinco?

Para alguns estudos, esse parece ser um número aceitável e, principalmente, administrável. Mas o número não é o principal aspecto aqui. O importante é o esforço que você coloca em uma relacionamento que vale a pena. Estudos mostram que até mesmo as relações mais próximas tendem a se dissolver com o tempo. Afinal, a proximidade com uma pessoa é algo que você tem que merecer constantemente, nunca tratando como algo que apenas lhe foi dado. Assim, todas as vezes em que você se conecta com as pessoas que ama, os laços ficam ainda mais estreitos e você ganha de brinde uma dose de felicidade. Segundo as pesquisas, 2 encontros semanais, toda semana, são a medida certa para amigos próximos.

3. Não amarre sua felicidade a eventos externos

Neste contexto que estamos tratando hoje, a autoestima pode ser traiçoeira. Com certeza faz bem para confiança, mas várias pesquisas já mostraram que pessoas que amarram seu grau de autoestima a eventos externos podem ser bastante inconstantes. Por exemplo: um estudante que atrela seu grau de autoestima à sua experiência escolar experimenta doses de felicidade ao receber um diploma ou é aprovado em um exame. Mas quando é reprovado, ou atinge um resultado longe do esperado, e a autopunição costuma ser um tanto dura.

E tem outra: amarrar sua felicidade a eventos externos também pode levar a um comportamento que evita o fracasso como uma medida defensiva. Sabe todas aquelas vezes que você disse a si mesmo “não importa que eu não consegui, eu nem estava tentando mesmo”? A chave pode ser, então, pensar menos em você e evitar a armadilha de amarrar sua felicidade ao que acontece ao seu redor.

4. Exercite-se!

Pode guardar a cara feia, porque no fundo, no fundo – ou não tão no fundo assim -, você sabe que não importa o quanto você não goste de se exercitar e suar um pouco. A verdade absoluta é que, qualquer que seja a atividade física, vai fazer com que você se sinta melhor.
Simples assim.

5. Seja bom em alguma coisa

Pessoas felizes geralmente têm uma assinatura, que remete a alguma coisa na qual elas se tornaram muito boas – mesmo que o processo de aprendizado tenha sido tortuoso. Afinal, não precisamos fazer muitas pesquisas para descobrir que se tornar realmente bom em alguma coisa pode ser mais estressante do que se imagina.

Mas é justamente aí que está o pulo do gato.

Porque quando você atravessa um processo escaldante e consegue atingir seu objetivo, a felicidade aparece quando você olha para trás e vê tudo o que superou para chegar ao momento da conquista. Ser ruim em alguma coisa é o primeiro passo para ser bom em alguma coisa – e nada é mais verdade que isso.

O esforço é sinônimo de progresso.

6. Gaste mais dinheiro com experiências

Pessoas felizes tendem a investir mais em experiências do que em bens materiais, pois o benefício adquirido com uma experiência é mais marcante e, consequentemente, mais duradouro do que o advindo de um objeto. Por exemplo, vá viajar em vez de comprar algo. Afinal, uma experiência dura para sempre, enquanto um bem, se não for descartável, tem grande chance de se tornar mais um item camuflado na paisagem corriqueira de nosso dia a dia.

7. Não ignore seus comichões

Esse conselho talvez seja mais poético do que científico, mas não por isso perde seu valor.

Quando o jornal inglês The Guardian perguntou a enfermeira de um hospício quais eram os 5 principais arrependimentos dos pacientes terminais, uma das respostas mais comuns era que eles se arrependiam por não terem sido verdadeiros a seus sonhos.

Quando as pessoas percebem que a vida delas está chegando ao fim, elas olham para trás e veem quantos sonhos foram embora sem serem realizados. A maioria lamenta não ter honrado nem metade de seus sonhos e teve de morrer sabendo que isso aconteceu por conta das escolhas que fizeram, ou deixaram de fazer. 

Quem sabe, no final das contas, a felicidade não seja um destino, mas sim uma maneira – talvez a melhor delas – de percorrer seu caminho. [99u]
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Fonte: http://hypescience.com/02/03/2014

Dizer a fé aos não crentes: Razão e emoção, como no enamoramento

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O livro "Lo scandalo dell'amore" ("O escândalo do amor - Diálogo sobre fé e razão"), em que o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho da Cultura, e o filósofo francês Luc Ferry dialogam sobre fé e razão, vida e morte, verdade e mentira, vai ser lançado esta terça-feira nas livrarias italianas.

Do volume da editora Mondadori apresentamos um excerto do diálogo final, publicado este domingo no jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano".

Luc Ferry

"Credo ut intelligam" [Creio, por isso compreendo], diz Santo Agostinho. Gostaria de regressar a esta ideia paradoxal, segundo a qual se deve primeiro encontrar e depois procurar. Para a expressar em termos mais comuns, seria necessário começar com a fé, e só num segundo tempo mobilizar a razão.
Várias vezes o senhor diz que a verdadeira teologia caminha sobre uma aresta, entre dois abismos, dois vales, nos quais não se deve cair: de um lado, a aproximação unicamente histórica, factual, racional, filosófica; do outro, um misticismo irracional, um "entusiasmo místico", uma Schwärmerei, para usar um termo do romantismo alemão. É preciso por isso manter-se sobre a crista, o que implica conjuntamente quer a razão e a história factual, quer uma aproximação transcendente. 

Só desta forma se pode estar em harmonia com o objeto principal da teologia, Jesus, que é ao mesmo tempo um ser histórico, mas também alguém de quem não se pode compreender a mensagem se não se possui já a fé. Somente nesta condição haverá harmonia entre o método teológico e o objeto da teologia.

Porque é que escolheu esta aproximação, tendo em conta que se está a dirigir a não crentes, no quadro do Átrio dos Gentios? O que é que se espera que se compreenda de preciso, dado que se requer em primeiro lugar a fé para compreender, e que, por definição, nós, os não crentes, não a temos?

Gianfranco Ravasi

O amar precede o compreender. Esta questão pode ser o início para explicitar o meu pensamento sobre a reflexão teológica, que se baseia num esquema que parte de Pascal, o qual dizia que se compreendem as coisas que se amam. Este conceito pode ser ampliado até chegar aos confins da antropologia, ou seja, da experiência comum a cada pessoa humana. 

Com efeito, a consciência primária da pessoa é simbólica, está marcada por um movimento de adesão afetiva a um universo que se abre diante do olhar. A criança, por exemplo, tem como primeiro conhecimento a visão de conjunto, em seguida aprenderá a distinguir segundo as regras da análise. Do mesmo modo procede o poeta, que não analisa os sentimentos, os rostos, os olhares, as paixões, as situações, mas representa-os em termos sintéticos, por vezes fulminantes, como o clarão de um relâmpago que encandeia. 

O itinerário de fé autêntico é, em certos aspetos, paralelo ao percurso estético; por isso o ponto de partida é crer/amar, com um começo de tipo simbólico representativo. Neste horizonte, para usar o binómio ao qual o senhor se referiu, podemos afirmar: crer, e depois começar a compreender. 

Neste ponto passa-se ao segundo momento, isto é, à análise em sentido estrito. Esta procura, no entanto, não pode ser conduzida através de um único canal, uma única via de conhecimento. Com efeito, o estatuto epistemológico próprio da teologia necessita pelo menos de dois percursos paralelos.

O primeiro compreende a documentação histórica e a análise racional. A figura de Jesus, por exemplo, deve ser estudada tomando em consideração a verificação histórico-crítica, mas também a dimensão psicológica, com o contributo da psicanálise, com os seus critérios de indagação, ou da antropologia cultural, e não apenas com a necessária análise racional entendida segundo cânones filosóficos ou históricos rígidos.

Definirei o segundo nível, ainda que com algumas precisões, como místico, teológico em sentido estrito. Trata-se de um cânone mais específico, que tem em conta a dimensão metaracional, que não significa simplesmente afirmar princípios ou ideias vagas, inconsistentes, mas reconhecer que existe outra ordem cognoscitiva com o seu estatuto metodológico e a sua coerência intrínseca. Este modelo de conhecimento, por exemplo, considera a Bíblia também como palavra transcendente, superando os rigorosos princípios de uma linguagem literária, histórico-crítica.

Pode ajudar-nos a entrar nesta segunda dimensão o livro de Job, que de um lado vê os três amigos Zofar, Bildad e Elifaz, aos quais se junta Elihu, que mantêm o seu diálogo sobre uma trama de racionalidade pura, sem se abrirem à transcendência. Num primeiro momento, Job polemiza com os amigos sobre o próprio terreno do raciocínio, mas no fim abre outro horizonte cognoscitivo, que lhe permite afirmar, no que diz respeito a Deus: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti [é a via racional], mas agora veem-te os meus próprios olhos» (Job 42, 5).

Com esta afirmação, ele introduz o parâmetro da visão, o conhecimento de tipo teológico em sentido estrito, que não é vagamente sentimental, mas que possui um estatuto e método.

À luz desta perspetiva podemos recordar Tomás de Aquino, Anselmo, Pascal, Kierkegaard e outros autores, que procuram individuar não só a gramática da razão, mas também a da "metarazão". Sobre esta esteira podemos recordar também alguns grandes místicos, como João da Cruz e Teresa de Ávila. João da Cruz, por exemplo, descreve a ascensão até Deus por graus, passando também através da noite do espírito. Tudo isto não é pura emoção, mas manifesta um rigor expositivo articulado sobre uma sintaxe teológica. Neste sentido, podemos dizer que a esperança do crente e, subordinadamente, o trabalho do teólogo, nascem de um percurso que em certos aspetos é comparável ao envolvimento total requerido no enamoramento.

De facto, a experiência do amor tem certamente uma dimensão racional - os dois conhecem-se, discutem, sonham, projetam -, mas a componente fundamental está sintonizada num comprimento de onda diferente. O rosto da mulher que se ama manifesta-se como belíssimo, único, enquanto que para os outros não é mais do que um dos muitos rostos que passam pelo "vídeo" do quotidiano. 

Seria errado pensar que o enamoramento é apenas uma experiência emotiva; ele, com efeito, contempla também o aspeto racional que, por vezes, pode colocar em crise o plano afetivo. O enamorado faz uma "experiência de fé" que não tem Deus como interlocutor, mas a beleza, que é, em todo o caso, uma realidade transcendente. Isto deve-nos oferecer a possibilidade de apresentar a fé não como um conjunto de normas, mas como uma experiência "outra", que envolve toda a pessoa, mente e coração.
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In Lo scandolo dell'amore, ed. Mondadori
Trad.: SNPC/rjm
Fonte: © SNPC | 03.03.14

domingo, 2 de março de 2014

O que pensam os católicos sobre a Igreja?

2
por ANSELMO BORGES 
 
1- A Bendixen & Amandi realizou, entre Dezembro de 2013 e Janeiro de 2014, com 12 038 fiéis adultos de 12 países maioritariamente católicos dos cinco continentes, para a Univisión, a principal televisão em espanhol dos Estados Unidos,uma sondagem sobre temas importantes na e para a Igreja. Fiabilidade: 95%.
 
Alguns resultados, com dissonâncias entre a doutrina e a opinião e vivência dos fiéis.
  • a) Anticonceptivos: 78% a favor; 19% contra; 3% não responderam.
  • b) Ordenação sacerdotal das mulheres: 45% a favor; 51% contra; 4% não responderam.
  • c) Casamento dos padres: 50% sim; 47% não; 3% não responderam.
  • d) Aborto: 8% deve permitir-se sempre; 65% nalguns casos; 33% nunca; 2% não responderam.
  • e) Quanto ao casamento homossexual, há acordo com a doutrina: 66% contra; 30% a favor; não responderam 4%.
  • f) Como avalia o trabalho do Papa Francisco? 41% excelente; 46% bom; 5% medíocre; 1% mau; 7% não responderam.
 2- “Agora, o Papa Francisco, no confronto com os reaccionários da Cúria, pode apelar para as respostas da maioria dos fiéis sobre temas tão importantes.
O Papa emérito Bento XVI escreveu-me há pouco, a mim eterno rebelde, uma carta afectuosa na qual mostra empenho em apoiar Francisco, esperando que ele tenha todo o êxito – “a minha única e última tarefa é apoiar Francisco”, escreve.”
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Quem isto revelou foi Hans Küng, o famoso teólogo crítico, condenado por João Paulo II e um dos poucos peritos do Vaticano II vivos, numa entrevista ao La Reppublica, no dia 10 deste mês, sobre a sondagem, na qual é manifesta a distância entre a Igreja oficial e os fiéis.

Para ele, o mais importante nela é a maioria esmagadora de vozes favoráveis a Francisco, que também já lhe escreveu pessoalmente:87% dos católicos interrogados em todo o mundo e 99% dos italianos estão de acordo com ele. É “um pequeno milagre” Francisco ter conseguido, em menos de um ano, inverter a tendência dos fiéis e não só quanto à crise de confiança na Igreja.
 
Interrogado sobre o significado dos resultados da sondagem para a hierarquia,Küng dá uma resposta sensata: “Para os bispos preparados para reformas, e eles existem em todo o mundo, eles significam um grande encorajamento. Quanto aos conservadores, que têm as suas reservas: deveriam reflectir sobre as suas reservas e escutar os argumentos dos renovadores. Os bispos reaccionários, presentes não só no Vaticano mas em todo o mundo, deveriam abandonar a sua resistência obstinada e optar pela razoabilidade.”
 
E o Papa Francisco? “Se me é permito dar-lhe um humilde conselho, deveria avançar com coragem no caminho iniciado e não ter medo das consequências.” Em concreto, “espero que use a arte do “Distinguo” que aprendemos na Universidade Gregoriana:onde, na sondagem, há consenso na Comunidade eclesial, deveria propor uma solução positiva ao Sínodo.

Onde há dissentimento, deveria permitir e suscitar um debate livre na Igreja. Onde ele próprio tem uma opinião diferente da da maioria dos católicos, como quanto à ordenação das mulheres, deveria nomear uma task force de teólogos e outros peritos, homens e mulheres, para enfrentar o tema.”
Está contente? “Não me considero vencedor, não travei batalhas para mim, mas para a Igreja. Tenho a alegria de ver, ainda vivo, o êxito das ideias de reformas da Igreja pelas quais tanto combati.”
Francisco critica não-batismo de mães solteiras
  3- A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global. Assim, um problema maior será o da convivência com a variedade de posições.
Exemplos, a partir desta sondagem global, após a apresentação dos dados totais.
  • Os divorciados recasados não podem comungar: na Europa, não concordam com esta proibição 75%, mas a não concordância é de 46% nas Filipinas.
  • Ordenação das mulheres: na Europa estão a favor 64%, mas, nas Filipinas, 76% são contra.
  • Casamento homossexual: em Espanha, 64% são favoráveis, mas na África 99% opõem-se-lhe.
  • Na Europa, 50% pronunciam-se a favor do casamento dos padres, mas na África só 28%.
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Fonte: in DN 22 fevereiro 2014
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

A festa da imaginação

Marcelo Gleiser*
 

Acabei virando cientista porque queria ter uma vida em que a imaginação não é aprisionada pelo bom senso
 
Quando era garoto, costumava passar as férias de verão na casa dos meus avós, em Teresópolis, uma cidade na serra dos Órgãos, perto do Rio. Eram 80 km de viagem, os últimos 25 km atravessando montanhas, uma sequência espetacular de picos de granito. 

O Fusca do meu pai subia com muito esforço. Mas pouco me importava, e torcia mesmo para que o carro avançasse bem devagar. Assim, tinha mais tempo de olhar pela janela, acompanhando a incrível transformação do cenário, do caos urbano de Copacabana às montanhas sublimes, recortadas por centenas de milhões de anos de erosão, revestidas aqui e ali pela inigualável mata atlântica. 

Costumávamos parar na serra para comer e olhar as preguiças nas árvores vivendo em câmera lenta. Volta e meia, um bando de tucanos passava fazendo a maior algazarra. 

Para meus olhos de criança, a transformação da cidade em montanhas, dos prédios no majestoso Dedo de Deus, dos vasos de planta na explosão de orquídeas e bromélias, era algo de mágico. 

Talvez percebesse isso intuitivamente, mas sabia que para vivermos na cidade tínhamos de abrir mão da natureza; ou, o pouco que tínhamos dela era aprisionado: passarinhos na gaiola, árvores estranguladas pelo cimento das calçadas. Meu porteiro dizia que passarinho cego cantava melhor. Pode ser, mas é um canto sofrido, entoado pela melancolia. 

O Carnaval era sempre lá, na casa das montanhas. Minha família escapava do calor e do buchicho, e íamos nos bailes da tarde, as matinês, vestidos de pirata e de cowboy, pulando e marchando aos som da banda ao vivo. Era uma grande festa da imaginação, cada um sendo o que queria ser mas não podia. 

Crescer é perder a capacidade de imaginar que o imaginado é o real; é erguer cada vez mais a muralha entre a realidade e a imaginação, ficar sensato, esquecer de manter a mente aberta para contemplar o impossível. 

Nessas horas de nostalgia entendo por que acabei virando cientista. Queria ter uma vida em que a imaginação não é aprisionada pelo bom senso. É bem verdade que nenhuma criança pede para se fantasiar de Einstein ou de Santos Dumont. (Se bem que já saí com a Unidos da Tijuca vestido como o dito cujo.) Mas poderiam. Pois se um reinventou o que é o espaço e o tempo, o outro inventou como podemos voar. 

 "Crescer é perder a capacidade de imaginar 
que o imaginado é o real; é erguer cada vez mais a muralha entre a realidade e a imaginação, ficar sensato, 
esquecer de manter a mente aberta 
para contemplar o impossível."

São exemplos de pessoas que cresceram se recusando a crescer, ao menos sem erguer uma muralha intransponível entre realidade e imaginação. Pelo contrário, mostraram que é possível transformar a realidade em algo aparentemente mágico usando justamente a imaginação. 

É esse o aspecto mais cativante da ciência, recriar o mundo. Imagino a cara do meu avô se me visse falando num iPhone, ele no Rio e eu em Teresópolis; ou se usasse o seu GPS para evitar o trânsito na avenida Brasil; ou se olhasse para o céu noturno e vislumbrasse satélites cruzando a escuridão; ou se visse imagens de mundos distantes, trazidas por telescópios espaciais. 

Que mundo mágico esse em que vivemos, hein, vô? E que pena que pouco ligamos para essa mágica toda ou paramos para refletir que ela vem justamente dessas pessoas que têm um compromisso aberto com a imaginação. 
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Os bastidores de uma discussão ética

 Marta Gleich*
 

Carta da Editora
 
No início da semana passada, meus colegas Nilson Vargas, editor-chefe do jornal, e Carlos Etchichury, editor de Polícia, debateram entre eles e comigo, por e-mail, uma questão ética. Achei interessante revelar o diálogo aos leitores. A conversa começou num questionamento feito na segunda-feira por Nilson: “A matéria do menino Maurício (Maurício Luan Maciel de Oliveira, que ficou tetraplégico em 2011 após levar um tiro numa discussão de trânsito) comoveu e mobilizou. Ele está recebendo ajuda. Pessoas ligam para ajudar. Pessoas choraram ao ler a história dele. Mas por que contamos a história dele e não a história de outros tantos injustiçados, pessoas com sequelas, abandonados pela sorte por aí afora? O que fez desta uma história a merecer tanto espaço? Havia uma razão ou desequilibramos a balança ao contar esta, sabendo que não conseguiremos contar tantas outras?”.

Etchichury, o editor responsável pela reportagem, respondeu: “Decidimos publicar esta matéria porque o repórter José Luís Costa teve acesso a uma história comovente, de um menino que ia conhecer um parque de diversões e, em função de uma discussão banal de trânsito, acabou baleado na coluna. Então, aos 11 anos, o garoto, que sonhava em ser goleiro do Grêmio, foi condenado a passar o resto da vida numa cama, na extrema pobreza. Para piorar, o autor do disparo continua em liberdade, sem ter sido julgado. Precisa mais? Temos de pensar diferente. Histórias assim oxigenam o jornal, humanizam, saem da curva numa editoria como a Polícia. Olha a energia que geramos, o impacto social desta matéria, pautamos o debate, mobilizamos o Grêmio, que levou quatro atletas para visitar o menino. Eu acho que acertamos a mão”.

Veio a tréplica do Nilson Vargas: “Bom que ajudamos. Mas é um enredo conhecido. Uma matéria sobre alguém com dificuldades, uma onda de solidariedade, uma segunda matéria mostrando a onda de solidariedade. Quantas podemos fazer dessas? Centenas. E de certa forma somos até injustos em fazer com um ou dois e não fazer com milhares. Todos terão um detalhe, uma sutileza para defender que sua história vire matéria e gere onda de solidariedade. Precisamos refletir sobre isso e sobre o nosso papel”.

O debate expõe o tipo de decisão ética que jornalistas tomam todo dia numa Redação. É justo, é correto, escolher este caso (e não tantos outros) para contar? Que consequências estão por trás de cada escolha de um entrevistado, de uma pauta, de uma edição maior ou menor? Na minha opinião, a reportagem pode ter beneficiado o menino Maurício – que bom! –, mas ela também pode ter servido para despertar no leitor gestos nobres, como ser solidário, comportar-se de forma pacífica no trânsito, olhar para o lado para ver quem está precisando de ajuda perto de nós. Pode ter feito o leitor refletir sobre justiça, miséria, sistema de saúde, sonhos interrompidos, a doação de uma mãe, a violência que ceifa a vida de adolescentes. Se isso aconteceu – e jamais saberemos em que grau pode ter ocorrido –, cumprimos nosso papel.
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* Diretora de Redação na Zero Hora - Grupo RBS
Fonte: ZH online, 02/03/2014
Imagem da Internet

Águas passadas não movem casamentos

 Fabrício Carpinejar*
 
Todo casamento é a soma de experiências únicas e intransferíveis.

O casal são sempre três pessoas: o que ele é, o que ela é, o que um é com o outro.

Ele pode ser algo fora dali, ela pode ser algo fora dali, e os dois podem se mostrar totalmente diferentes do que são quando combinados.

A intimidade não muda as pessoas, a intimidade é o resultado da química entre as duas pessoas.

A intimidade é o entrosamento secreto do casal, o que não é acessado por nenhum fofoqueiro ou paparazzi.

A intimidade é como um filho espiritual, uma personalidade distinta formada a partir da união de dois temperamentos.

Assim o legado de um relacionamento não tem como ser usado - eis a complicação amorosa, o xeque-mate do destino.

Ninguém aprende com os erros de um casamento. O casamento é uma caixa-preta, que só serve para resolver um único e solitário desastre.

Quando alguém diz que agora não vai mais errar e sabe o que falhou na convivência passada está se enganando.

As relações não são estáticas e repetíveis.

Você pode não ter tido paciência com uma mulher e ter o dobro de atenção com quem agora vive e não surtir nenhum efeito. Você pode não mais ser ansioso e apressado em seu romance atual, pois foram os sintomas mais criticados em sua história anterior, e não surtir nenhum efeito. Você pode não trair e ser leal como um escoteiro, suas maiores falhas no histórico afetivo, e não surtir nenhum efeito.

Arcará com consequências inéditas de uma intimidade também inédita. Consertar uma esposa com a seguinte é criar um Frankenstein. Ela não tem nada a ver com o que aconteceu anteriormente.

Nem você é o mesmo, não se deixa levar pela miragem de que não saiu influenciado e alterado por tudo o que viveu. As transformações são silenciosas e sutis dentro dos hábitos, e não pensa igual e da mesma forma. A dor e o luto entraram em seu sangue e já determinam suas decisões futuras. Sua cabeça não é igual como no início de um conflito pregresso, muito menos seu coração.

Os erros de um casamento apenas podem ajudar na reconciliação, é uma errata de um livro já escrito. Jamais poderá corrigir um livro antigo com o próximo, com novos personagens e novos enredos.
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* Poeta. Escritor. Colunista da ZH
Fonte: ZH online, 02/03/2014

SELO DIVINO

 Célia Farjalatt*
Para Machado de Assis, o tolo possuía um dom, espécie de selo divino, e a toleima era penhor seguro de triunfo. Era mesmo paradoxal o autor de ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’!
Quando se poderia esperar dele a louvação do talento, da lucidez e da perspicácia, o mestre da ironia faz justamente o contrário e elogia os tolos, com segundas intenções, já se vê.

Aliás, não foi o único. Erasmo de Rotterdam escreveu o ‘Elogio da Loucura’, obra que se tornou clássica e que levou o autor a sofrer na carne os resultados de suas sátiras. O nosso Machado, em sua curiosa e pouco divulgada ‘Queda que as mulheres tem para os tolos’, enalteceu as vantagens da toleima, exaltando os tolos e criticando sutilmente os homens dotados de espírito, para quem todas as coisas são difíceis.

A primeira vantagem do homem tolo, segundo Machado de Assis, é a de ser preferido pelas mulheres. O criador de Quincas Borba achava que, desde a primeira escolha de um companheiro de brincadeiras na infância até a de um marido, prevalecia o signo da toleima. E exemplificando : Sócrates, Alcebíades e Platão tinham sido sacrificados aos presumidos de seu povo. E Turenne, La Rochefoucauld e Moliére não haviam sido traídos em favor de notoriedades medíocres ?

O axioma machadiano baseava-se em algo curioso: a toleima era penhor seguro de triunfo, portanto, um dom precioso, um selo divino. Aprofundando a análise, distinguia a toleima inata da adquirida, apontando como aquela se fortificava pelo uso, embora ficasse estacionária no pobre diabo, impossibilitado de aplicá-la com freqüência.

A combinação de ambas resultava na mais terrível espécie de tolos, aqueles chamados por Troublet de “”tolos completos, tolos integrais, tolos no apogeu da toleima.”

A análise dos tolos, para que possam ser imitados, traz resultados compensadores. Foi assim no tempo de Platão, como no de Machado de Assis, e nos tormentosos dias de hoje. Mesmo porque quantos indivíduos, tidos como geniais, em especial nos círculos políticos, são justamente o oposto disso e, além de promoções, mordomias, vantagens mil, ganham comissões extras, férias milionárias e muita grana no bolso.

Mais ainda: analisando-se aspectos da política de ontem e de hoje, chega-se à conclusão de que muitos altos cargos são ocupados por indivíduos escolhidos entre os menos dotados intelectualmente, os de menor tino administrativo. Eis um enigma intrigante em todos os tempos.
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* É jornalista e atualmente cronista do Correio Popular.
e-mail: correiopontocom@rac.com.br
Fonte: Correio do Povo online, acesso 02/03/2014
Imagem da Internet

O FUTEBOL E A POESIA

 Rubem Alves*
As razões pelas quais se torce por um time de futebol continuam a ser um mistério para mim. Por que esse time e não aquele? Por que o Flamengo? Por que o Palmeiras? Por que o Corínthians? Minha busca foi infrutífera. Não consegui descobrir as razões que levam uma pessoa a se apaixonar por um time. Parafraseando o místico Ângelo Silésius eu escrevo: “O torcedor não tem porquês. Ele torce porque torce...”
 
Torcedores são seres apaixonados. Por sua paixão eles gritam, choram, brigam, matam, morrem do coração. Ao ponto de as torcidas com frequência se tornarem hordas assassinas.
 
Ao se torcer por um time o que é que se está amando? Os jogadores do time? Não. Jogadores não são torcedores. Os torcedores são apaixonados puros que jamais trocam de time, ainda que seu time esteja em último lugar na classificação.
 
Os jogadores, ao contrário, trocam de time pela vil razão do dinheiro. Se um outro time lhes oferecer um salário maior eles trocarão o time pobre pelo time rico. O que prova que eles não jogavam por amor ao time em que jogavam. Apenas vendiam as suas habilidades pelo salário que recebiam. Um torcedor mudaria de time por dinheiro? A psicologia do torcedor nada tem a ver com a psicologia do jogador. A psicologia do torcedor é o oposto da psicologia do jogador.
 
O torcedor é um amante fiel. Jamais trai. O jogador, ao contrário, é um traidor em potencial. Está sempre de olho num outro “caso amoroso”. Então, ao se torcer por um time não é pelos seus jogadores que se está torcendo. Eles não são seres confiáveis. Será que o objeto da paixão do torcedor são os cartolas, os donos do time? Mas é claro que não. Frequentemente a paixão por um time vai lado a lado com uma raiva pelos seus cartolas.
 
Torce-se, então, por quais razões? A única razão que resta é o nome. Torce-se pelo nome do time. Da mesma forma como se vicia com cocaína, vicia-se com um nome. O nome é o gatilho que dispara o êxtase. A torcida grita o nome, o nome entra na veia, a adrenalina circula no sangue, o coração dispara, os pulmões gritam, e no céu estouram os fogos de artifício.
 
Mas esse nome tão poderoso é como um bolso vazio. As coisas que estão dentro do bolso, jogadores, cartolas, o técnico, podem ser trocadas à vontade. Esses entes nada têm a ver com a paixão do torcedor. O torcedor torce por um simples nome...
 
Você não acredita. Refuga. Recusa-se a acreditar que torce apenas por um nome. Um nome, ora... Vou lhe contar um estória verdadeira, acontecida com meu sogro, alemão recém chegado ao Brasil como imigrante. Era filho de um pastor adventista. Como você deve saber os adventistas são gente que leva a Bíblia a sério e por causa disso abstém-se de comer os alimentos que as Sagradas Escrituras proíbem. Pois o meu sogro, além de obedecer a todos os tabus alimentares da sua religião, tinha um tabu particular: não comia miolo, detestava miolo, embora nunca tivesse comido miolo. Pois um dia ele foi convidado a jantar numa casa de cerimônia.
 
O prato mais delicioso do jantar foi couve-flor empanada, que estava deliciosa. Comeu e repetiu com prazer. Ao final, barriga cheia, ele dirigiu um elogio à anfitriã: “Essa couve-flor empanada estava divina!” A anfitriã o corrigiu: “Não é couve-flor empanada... É miolo empanado...”.
 
Muito embora boca e estômago tivessem aprovado a “coisa” com o nome de “couve-flor”, ao ouvir a palavra “miolo” boca e estômago reagiram imediatamente: ele teve de correr para o banheiro e vomitou tudo...
 
O que é que ele vomitou? O que o fez vomitar não foi a “coisa”, foi a palavra... Ele vomitou palavras. Bem disse Jesus que não nos alimentamos apenas com comida; nós nos alimentamos com palavras...
 
Isso vale para tudo. Vale também por amor. Milan Kundera, no seu livro 'A insustentável leveza do ser' diz que o amor começa quando ligamos uma metáfora poética ao nome de uma mulher. Então, não é a mulher que amamos; amamos a metáfora poética que ela carrega.
 
Isso que escrevi tem a ver com poesia... Você nunca pensou nisso, que ao gritar o nome do seu time você estivesse gritando uma metáfora poética. É por isso que você ri, é por isso que você chora ao ouvir esse nome... Sem saber você torce pela poesia...
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* Teólogo. Filósofo. Escritor.
Fonte: Correio Popular online, acesso 02/03/2014
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Andrés Ortiz-Osés: "La religión tiene más sentido; la ciencia más razón"

 
 Andrés Ortiz Osés, antropólogo, filósofo y teólogo, profesor emérito de la Universidad de Deusto aborda, en esta entrevista de Chema R. Morais en el Heraldo de Aragón, los problemas esenciales del vivir. Asegura que "el hombre es medio ángel y medio diablo", sostiene que "la religión tiene más sentido, pero la ciencia más razón" y proclama uno de sus aforismos: "
Si quieres ser tú mismo estás aviado, 
y si no quieres estás averiado"
Entrevista con Andrés Ortiz-Osés,

por Chema R. Morais (Heraldo de Aragón)

¿En qué piensa un filósofo cuando no está filosofando?
En que este mundo tiene remedios parciales, pero no remedio total; tiene remedos o remiendos, pero no remedio. Y es que la vida no tiene remedio, porque acaba en la muerte: pero mientras tanto caben muchos remedios humanos, incluso remedios para humanizar la muerte radicalmente.

¿De qué pecamos más hoy: de pensamiento, palabra, obra u omisión?
De omisión. Pensar pensamos poco, hablar mucho, obrar regular y omitir todo. Por supuesto no nos omitimos nunca a nosotros mismos, pero omitimos al otro y a los demás en nombre de nuestro ego inflado o infatuado. El de arriba –el arribista- desdeña al de abajo, abajado o rebajado. Nuestra sociedad sigue siendo faraónica y piramidal, a pesar de cierta democracia.
¿Es buen momento para repensar el mundo?
Es buen momento para cambiar de pensamiento y pensarse dos veces venir a este mundo. Pero una vez que nos han traído aquí, se trataría de replantear otros valores interiores, frente a esta cultura de exteriores y exterioridades, de poder y dominio, de rapiña y ambición loca o alocada, de engreimiento humano. Pues todo hombre es un pobre hombre, pero algunos además son hombres pobres.
Dice en su nuevo libro que existir duele. ¿Qué medicamento recomienda?
Reconvertir el dolor de ser hombre en el duelo de existir, abrir la existencia a la coexistencia, y finalmente asumir la solución o disolución final: requies aeterna (descanso eterno). En realidad no hay vida sin muerte, día sin noche, gozo sin dolor, positividad sin negatividad: se trata de evitar lo evitable y de asumir críticamente lo inevitable.
También hace años editó un ‘Diccionario de la existencia’. ¿Para cuántas páginas da nuestro caminar por el mundo?
Todas las páginas dicen lo mismo: felicidad e infelicidad, amor y guerra, vida y muerte. Se trataría de hacer el bien y evitar el mal en lo posible, porque realmente no podemos superar el mal radical heroicamente a lo Supermán, sino solo “supurarlo” y remediarlo humanizándolo.
Leo uno de sus aforismos: «Si quieres ser tú mismo estás aviado, y si no quieres estás averiado». O sea, que hagamos lo que hagamos, estamos apañados…
Apañados o remedados, pero no totalmente remediados. Lo mejor es ser uno mismo abierto al otro: el otro nos salva de nosotros mismos.

En su opinión, el origen de la crisis es el optimismo. ¿Saldremos de ella con pesimismo?
El pesimismo es la base (realista), el optimismo es la altura (sobrerealista). Hemos edificado la altura sin la base, pero necesitamos la base y la altura. Pienso que es mejor partir de abajo arriba, del pesimismo a su apertura, que al revés, de arriba abajo, del optimismo a su deflación o desilusión.

Es usted el ponente de la nueva edición del ciclo Religión y Ciencia. ¿Pero esas dos palabras no son enemigas acérrimas?
La una delimita a la otra, así se evita el fundamentalismo tanto religioso como científico. La religión sin ciencia es altura sin base, la ciencia sin religión es base sin altura.

Y en un duelo entre las dos, ¿cuál ganaría?
La religión tiene más sentido, la ciencia tiene más razón. Necesitamos sentido y razón. Y no tiene que ganar la religión ni la ciencia, sino el hombre y su humanidad.

Es usted catedrático de antropología. ¿Qué ha descubierto del ser humano en tantos años de estudio?
Que el hombre no es el homo sapiens que se nos predica arrogantemente, sino el hombre incipiente e insapiente. Pues el hombre ha llegado a ser hombre por el proceso de hominización, pero aún no ha llegado a ser humano por el proceso de humanización.

¿Ha tenido más sorpresas positivas o negativas?
Muy positivas y muy negativas. El hombre es un animal de contrastes, medio ángel, medio diablo. Por supuesto hay unos más angélicos y otros más diablescos: lo malo es que nos suelen dirigir no aquellos sino estos.

¿Ha encontrado ya, como pone en su perfil de Twitter, su máxima mínima?
Sí, la clave de la existencia es la apertura existencial. Todos los problemas provienen de la cerrazón, todas las soluciones provienen de la apertura, llámese diálogo de contrarios, mediación de opuestos o remediación de conflictos. 
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Fonte:http://www.periodistadigital.com/religion/espana/2014/03/01

Igreja devia revelar mais de Deus e falar menos de estruturas, poder e conceitos

 Anselm Grün*
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Deus pode responder aos anseios dos homens. Assim, o homem transforma-se inteiramente em homem quando se abre na procura de Deus, quando ele próprio sobe até Deus. Procurar Deus é algo diferente de acreditar naquilo que a Igreja transmite. Procurar Deus é uma vivência. A palavra alemã «procurar» (suchen) vem do jargão dos caçadores. Eu procuro o vestígio que sinto. Eu sigo o rasto, a pista, o cheiro que sinto no nariz. E ponho-me a caminho. Saio de mim e do meu conforto. Lanço-me ao caminho através de matagais, de paisagens montanhosas intransitáveis, através do deserto, através da floresta. Não me desvio, porque a ideia de Deus me mantém no caminho.

Hoje reparo que há um desejo enorme de Deus. Muitos cristãos têm pena de ter, sempre e só, de falar de problemas que têm a ver com a estrutura e o poder da Igreja. Eles querem aquele que lhes preenche o desejo mais profundo. S. Bento põe bem alto o primado de Deus. Para ele trata-se de Deus acima de tudo. Monge é aquele que procura Deus verdadeiramente. Os muitos hóspedes que vêm ao nosso mosteiro querem participar na procura de Deus. Não é suficiente para ele ouvir uma teologia saudável. Eles querem experimentar Deus. Anseiam por misticismo na experiência de Deus. Não seríamos justos com as pessoas se só as brindássemos com teologia moderna. Elas não querem ouvir doutrinas e opiniões, mas sentir experiências. Querem participar na experiência divina de outros.

A Igreja perdeu competência espiritual. Ela já não é para muitos o local onde se procura Deus, onde se pode experimentar Deus. Há outros problemas, postos em primeiro plano, que dirigem para ela toda a atenção: a questão do aborto, da estrutura da Igreja, do celibato, do pontificado, do sacerdócio, entre outros. Mas não devíamos defraudar as pessoas com Deus. Deus é o seu desejo mais profundo. 

(...)

Quem é este Deus para mim? Como posso experimentar este Deus? Quando persigo estas perguntas, logo a seguir encontro outra: quem sou eu? A questão do Homem depende da questão de Deus. A identidade do Homem tornou-se hoje tão questionável como o segredo de Deus. O que quer dizer vida humana? Como lido com isso? Está ao meu alcance? Posso terminá-la como eu quiser e quando eu quiser? Estas questões não podem ser respondidas de forma teórica, tal como a questão de Deus. Trata-se da experiência das pessoas. Como é que eu entro em contracto comigo e com o meu próprio mistério? Como é que eu entro em contacto com Deus?

Só quem se percebe, pode perceber Deus. Apenas quem se encontra, poderá encontrar Deus. Quando eu encontro Deus e, nele, a mim próprio, é que então sei o que é a vida humana. Então não me envolverei em mais discussões teóricas, sobre o que posso e o que não posso fazer, sobre o que é ou não é permitido. Então viverei como Homem. E num tempo como o de hoje, em que todas as medidas são postas em causa, isso é para nós profundamente necessário. As medidas são questionadas, porque as pessoas já não estão em contacto consigo mesmas. Aqueles que perderam o contacto consigo, põem tudo em questão.

Manter a questão de Deus em aberto não significa dar respostas prontas sobre a essência de Deus e do Homem. Trata-se muito mais de se pôr ao caminho e de reconhecer onde está o segredo da vida humana. Quando penso nas pessoas cabalmente, encontro Deus. Hoje é frequente ver que quem mantém em aberto a questão de Deus não são as Igrejas mas a psicoterapia e a arte. As jornadas de psicoterapia de 2001, em Basileia, tinham como título "Psicoterapia e Religião - Dois caminhos possíveis para a busca do sentido?". Os psicoterapeutas descobriram que as pessoas vão para a terapia com questões religiosas. A questão de Deus perturba muitos daqueles que procuram o significado da vida. Eles percebem que tem de haver uma outra dimensão na sua vida que não a cura de feridas antigas. A psicologia transpessoal reconheceu que o desejo religioso pertence de forma tão essencial à Humanidade como a sexualidade. E só quando a psicologia se preocupa também com a dimensão espiritual do Homem é que pode tocar a alma.

Muitos poetas colocam a questão da transcendência. Eles não falam diretamente de Deus. Mas descrevem as pessoas de tal forma que, sem Deus, elas não seriam percebidas. Escultores e pintores retratam o homem que se dirige a Deus. Os realizadores de cinema inspiram-se recorrentemente em motivos religiosos. Eles não querem dar uma resposta final à questão de Deus. Mas, nas suas imagens, remetem para o invisível aquilo que é visível. Eles revoltam-se contra a superficialidade demasiado trivial. Os realizadores de cinema mais sensíveis deixam um espaço aberto, que não é ocupado por afirmações inequívocas, para o Deus invisível e enigmático. Deus paira sobre tudo sem se tornar visível, sem que a sua face mostre contornos claros. E é impossível ver alguns filmes sem nos sentirmos tocados pelo mistério.

A teologia devia aprender a falar de Deus com a arte e a psicologia, para que as pessoas desejassem a experiência de Deus, para que fossem tocadas no seu coração. A questão de Deus é uma questão central para o Homem de hoje. Pois aí reside a questão de o Homem ser saudável e puro. Deus - como diz C.C. Jung - é o arquétipo mais forte. Se este arquétipo for silenciado, o Homem não consegue encontrar a sua própria essência. Sem Deus, a vida humana não resulta. Muitas vezes o discurso da Igreja é banal, julga saber tudo melhor que os outros, sem indícios do mistério, do indizível. S. Bento convida-nos não só a falar de Deus, mas a dar a entender que a nossa vida sem Deus se torna incompreensível. Convida-nos a fazer com que a nossa vida mostre aos outros a existência de Deus.
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* É monge beneditino alemão, doutor em Teologia e administra a abadia beneditina de Münsterschwarzach. 
Fonte: http://www.snpcultura.org/igreja_devia_revelar_mais_Deus.html 01.03.14

sábado, 1 de março de 2014

Parabéns pra você!

 Alberto Villas*
 Villas
 Não sei por que, desde pequenininho, nunca gostei 
do dia do meu aniversário.
Na verdade, sempre odiei o dia do meu aniversário. Nem vou dizer aqui que dia é. O problema é que minha mãe adorava. Uma semana antes, ela começava os preparativos para a festa. Encomendava os salgadinhos lá na Dona Elvira, comprava os refrigerantes, os enfeites, mas os docinhos ela mesmo fazia. Cajuzinho, canudinho, olho-de-sogra,  brigadeiro e aquele delicioso bombom recheado com uva verde. A bala de coco ela encomendava lá na Dona Olívia.

Quando ia chegando a data - repito, não vou dizer aqui -  ela fazia uma faxina geral na casa, daquelas com palha de aço, cera Parquetina e enceradeira. Depois  passava horas no telefone convidando todos os vizinhos, parentes e amigos. Quando chegava o dia, quando os convidados começavam a tocar a campainha, eu tinha vontade de fugir, de sumir do mapa. Algumas vezes cheguei a me esconder debaixo da cama mas fui descoberto, claro.

Eu até que gostava de receber presentes. Ganhava Forte Apache, João Bobo, Kit Xerife, O Pequeno Cientista, O Pequeno Arquiteto, bola de couro, os presentes eram bons, mas eu ter de agradecer a cada um era a morte pra mim. Morria de vergonha. Confesso que não gostava de receber roupas ou sabonetes. Ficava meio desapontado mas mesmo assim ouvia da minha mãe:

- Agradeça a Dona Geny a caixa de sabonetes!

E eu agradecia.

E na hora do parabéns? Que horror! Quando o meu pai apagava a luz, eu já ficava gelado. Quando acendia as velinhas eu ficava roxo de vergonha vendo todas aquelas carinhas e caronas cantando parabéns, sorrindo, batendo palmas e olhando pra mim. A mesa era a coisa mais linda do mundo. Toalha branca bordada e um bolo de coco em cima. O Guaraná Champagne Antartica era servido em taças e o bolo em pratinhos de porcelana. Ainda não havia o descartável nesse mundo.

Quando cresci um pouquinho, implorava à minha mãe para não ir na escola no dia do meu aniversário. Não aparecer no Colégio Marista naquele 3 de agosto (ops, falei!) para mim era tudo. Tinha pavor da minha professora se lembrar e chamar a turma para um “parabéns pra você”. Com que cara eu ficaria vendo os meus colegas cantando e batendo palmas pra mim?

Até hoje fico com um pé atrás quando vai chegando o dia do meu aniversário. Não que eu ainda tenha vergonha do parabéns, do bolo com velinhas ou tristeza de ficar mais velho, nada disso. Já passei por 63 aniversários, me acostumei, mas confesso que vivi alguns 3 de agosto traumáticos e inesquecíveis. Este ano, minhas filhas estão pensando em fazer uma festa temática pra mim, aproveitando a música dos Beatles, “When I’m Sixty-Four”. Pode até ser divertido mas, por enquanto, não quero pensar muito nessa história não.

Na verdade, o meu sonho sempre foi ser como o chargista Jaguar, o cantor argelino Cheb Khaled, o rapper norte-americano Ja Rule ou a atriz inglesa Emma Barton, que nasceram no dia 29 de fevereiro e só fazem aniversário de quatro em quatro anos. Isso é que é felicidade.
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* Jornalista, é autor dos livros “O mundo acabou!” e “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta”
Fonte: Carta Capital online, acesso 01/03/2014

You’re the top

Pedro Bidarra*

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Como é que se aprende a amar? Dirão os técnicos de saúde mental, e os pedagogos em geral, que se aprende em casa. Que é em casa que se recebe o exemplo, que se aprende a dar e a receber o amor. O psicólogo que sou, por (de)formação, dirá o mesmo se perguntado. Mas a verdade é que eu aprendi mais em filmes, canções e livros do que em casa. Se sou omisso nos gestos, volátil no afectos ou excessivo na paixão, culpo, não os meus pais, mas a ficção. Cole Porter foi um dos meus professores.

Aprendi a ler música em pequeno e a tocá-la no piano – ainda que de forma trapalhona. O "Cole Porter Song Book" é um livro de partituras que me acompanha desde os tempos da universidade. Na época, por detrás de uma aparência punk e pós-moderna, havia um clássico, um dandy. Era dos tempos. Uma pessoa era capaz de estar uma noite inteira aos pontapés, ao som dos Clash, e, na noite seguinte, ficar em casa, chorosa, a ver o Brideshead Revisited ou, ao piano, a tocar Gershwin e Cole Porter de cigarro ao canto da boca. Abençoado pós-modernismo que tudo permitiu naquele tempos felizes. Até hoje, não há semana que não me sente ao piano a dedilhar uma canção de Cole Porter.

Birds do it, bees do it
Even educated flees do it,
Let´s do it, let's fall in love.

Cole Porter escreveu das melhores canções da música popular. Escrevia para o teatro e para o cinema mas as canções mais populares acabavam tocadas na rádio e nos clubes. Enquanto escrevia grandes canções para os palcos, reescrevia também a história da música popular americana. Não foi só ele; Irving Berlin, George e Ira Gershwin, Rogers & Hart, Jerome Kern e Harold Arlen foram também grandes escritores, os Founding Fathers da canção popular americana. E digo escritores, e não autores ou compositores, porque as canções deles são texto, são escrita, são oratória. Não são só música. Nelas a música é (o que já não é pouco) a comunicação não verbal, o pathos da oratória, digamos. É esse o papel da música nestas canções, um papel que atinge proporções sublimes no caso de Cole Porter que era, a par de Gershwin, um dotadíssimo músico e compositor. Ainda assim as canções de Cole Porter são mais conhecidas pelo texto e por isso as trago aqui.

Textos  quase sempre sobre amor, como seria de esperar, mas, ao contrário do que era norma, textos sofisticados, com sentido de humor, com malícia, innuendo, e muitíssimo urbanos. O amor de que Cole Porter fala nas suas canções é urbano e é de todo o tipo.

Love for Sale

Verse:

When the only sound in the empty street
Is the heavy tread of the heavy feet
That belong to a lonesome cop, I open shop.
When the moon so long has been gazing down
On the wayward ways of this wayward town
That her smile becomes a smirk, I go to work.

Refrain:
Love for sale, appetizing young love for sale.
Love that's fresh and still unspoiled,
Love that's only slightly soiled,
Love for sale.

Who will buy? Who would like to sample my supply?
Who's prepared to pay the price,
For a trip to paradise?
Love for sale.
Let the poets pipe of love
In their childish way,
I know every type of love
Better far than they.
If you want the thrill of love,
I've been through the mill of love;
Old love, new love,
Every love but true love.
Love for sale, appetizing young love for sale.
If you want to buy my wares,
Follow me and climb the stairs
Love for sale. Love for sale.

"Love for sale" foi escrita para o musical "The New Yorkers" que tinha outra grande canção: "My heart belongs to Daddy". As duas tiveram problemas com o politicamente correcto da época. A primeira nunca passou na rádio enquanto que para a segunda, Porter teve de escrever novas palavras. Esta é a versão original:

Verse:
I used to fall in love with all those boys who maul the young cuties.
But now I find I’m more inclined to keep my mind on my duties.
For since I came to care for such a sweet millionaire...

Refrain:
While tearing off a game of golf
I may make a play for the caddy;
But when I do, I don’t follow through
‘Cause my heart belongs to Daddy.
If I invite a boy some night
To dine on my fine finnan haddie
I just adore his asking for more
But my heart belongs to Daddy
Yes my heart belongs to Daddy,
So I simply couldn’t be bad.
Yes, my heart belongs to Daddy,
Da-da-da, da-da-da, da-dad.
So I want to warn you, laddie,
Though I know you’re perfectly swell,
That my heart belongs to Daddy
‘Cause my Daddy he treats it so well.

Embora seja de letras de que se fala quando se fala de Cole Porter, a sua música – a melodia, o ritmo e as harmonias – é tão boa como as palavras. É um casamento perfeito de música e letra onde a primeira, garças às sofisticadas, e por vezes complexas harmonias, cria o perfeito enquadramento e comentário não verbal ao texto.

É difícil escrever sobre música. Não é impossível, mas é difícil porque é uma linguagem a escrever sobre outra. É sobretudo difícil descrever música. Apesar de tudo vale a pena tentar dando dois exemplos.

O primeiro é o verso do Night and Day (o verso é aquela primeira parte que dá o contexto da canção, como o recitativo na ópera), uma das mais famosas canções de Cole Porter, escrita para a peça "Gay Divorce" (o sentido é divórcio alegre embora hoje se abra todo um mundo de novas possibilidades para este musical). Toda a harmonia do verso, dada pelo baixo, é dissonante com a linha melódica que é de uma nota só. Um recitativo monótono sobre uma cacofonia harmónica que lembra a cidade onde a solidão dada pela ausência do outro, é grande. Vale a pena ouvir. Para já leia-se:

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Verse:
Like the beat, beat, beat of the tom tom
When the jungle shadows fall,
Like the tick,tick, tock of the stately clock,
As it stands against the wall,
Like the drip, drip drip of the rain drops,
When the summer shower's through;
So a voice within me keeps repeating
You, you, you.

Refrain:
Night and day you are the one...

O outro exemplo é da canção "All of You", da peça "Silk Stokings", um exemplo de como melodia e letra são uma só. É no fim da primeira quadra, quando a melodia que acompanha os pontos cardeais desce, abruptamente, quando se fala do "sul de ti".

I love the looks of you, the lure of you,
I'd love to make a tour of you,
The eyes, the arms, the mouth of you,
The east, west, north and the south of you.
Screen Shot 2014-02-27 at 15.15.57


I'd love to gain complete control of you
And handle even the heart and soul of you.
So love, at least, a small percent of me, do.
For I love all of you.

O amor é como as canções. Tem letra e música, é verbal e não verbal, e só uma dá sentido à outra. As cartas de amor são ridículas, a maior parte das vezes, porque quem as escreve não é capaz de passar além das palavras, de escrever o tom, o sentimento, de dar música. Nunca uma expressão fez tanto sentido quando se fala de amor: dar música.

Amor e a música são ainda parecidos a outro nível. Todos somos capazes de ouvir uma música, de a entender, ainda que não saibamos escrevê-la, lê-la ou mesmo cantá-la. Ou seja, entendemos mas não produzimos. É uma velha lei do desenvolvimento cognitivo: a produção vem depois da compreensão. As crianças primeiro entendem o que lhes dizem ainda antes de conseguirem falar. É assim com a música e, acredito eu, o mesmo se passa com o amor. Todos, de uma maneira ou outra, o entendem mas produzi-lo...

Como os melómanos, que saltam de concerto em concerto, que ouvem disco atrás de disco, também os amantes do amor saltam de amor em amor só para o ouvir, só para o apreciar, sem nunca o conseguir produzir. Talvez nunca o tenham apreendido quando eram pequenos, como se aprende a falar e a cantar, como se aprendem as letras e as música. Talvez não tenham talento, como tanta gente não tem voz ou jeito para a bola. Já um músico profissional, como o verdadeiro amante, dedica tempo à "sua" música: a compô-la, a interpretá-la a estudá-la. Não quer dizer que não oiça outras, para se distrair, mas dedica tempo, muito mais tempo, à que está a produzir. Em qualquer caso, aprendendo ou não em casa a amar e a ser amado, mais cedo ou mais tarde chega o curso superior. Para mim foi a ficção em forma de filme, livro e, sobretudo, canção.

Verse:
At words poetic, I'm so pathetic that I always have found it best,
Instead of getting 'em off my chest, to let'em rest unexpressed.
I hate parading my serenading as I'll probably miss a bar,
But if this ditty is not so pretty at least it'll tell you how great you are.

Refrain:
You're the top!
You're the Coliseum,
You're the top!
You're the Louvre Museum.
You're a melody from a symphony by Strauss
You're a Bendel bonnet,
A Shakespeare's sonnet,
You're Mickey Mouse.
You're the Nile,
You're the Tower of Pisa,
You're the smile on the Mona Lisa;
I'm a worthless check, a total wreck, a flop,
But if, baby, I'm the bottom you're the top!

Verse 2:
Your words poetic are not pathetic. On the other hand, babe, you shine,
And I can feel after every line a thrill divine, down my spine.
Now, gifted humans like Vincent Youmans might think that your song is bad,
But I got a notion, I'll second the motion and this is what I'm going to add:

Refrain:
You're the top!
You're Mahatma Gandhi.
You're the top!
You're Napoleon Brandy.
You're the purple light of a summer night in Spain,
You're the National Gallery,
You're Garbo's salary,
You're cellophane.
You're sublime,
You're a turkey dinner,
You're the time of the Derby winner.
I'm a toy balloon that is fated soon to pop
But if, baby, I'm the bottom,
You're the top!
You're the top!
You're a Ritz hot toddy.
You're the top!
You're a Brewster body.
You're the boats that glide on the sleepy Zuider Zee.
You're a Nathan panning,
You're Bishop Manning,
You're broccoli!
You're a prize,
You're a night at Coney,
You're the eyes of Irene Bordoni.
I'm a broken doll, a fol-de-rol, a blop,
But if, Baby, I'm the bottom, you're the top!
You're the top!
You're an arrow collar.
You're the top!
You're a Coolidge dollar.
You're the nimble tread
Of the feet of Fred Astaire,
You're an O'Neill drama,
You're Whistler's mama,
You're Camembert.
You're a rose,
You're Inferno's Dante.
You're the nose
On the great Durante.
I'm just in the way, as the French would say, "de trop."
But if, baby, I'm the bottom,
You're the top!
You're the top!
You're a Waldorf salad.
You're the top!
You're a Berlin ballad.
You're a baby grand of a lady and a gent.
You're an old Dutch master,
You're Mrs. Astor,
You're Pepsodent!
You're romance,
You're the steppes of Russia,
You're the pants
On a Roxy usher.
I'm a lazy lout that's just about to stop
But if, baby, I'm the bottom,
You're the top!
You're the top!
You're a dance in Bali.
You're the top!
You're a hot tamale.
You're an angel, you, simply too, too, too diveen,
You're a Boticcelli,
You're Keats,
You're Shelley,
You're Ovaltine.
You're a boon,
You're the dam at Boulder.
You're the moon,
Over Mae West's shoulder.
I'm the nominee of the G.O.P. or GOP!
But if, baby, I'm the bottom,
You're the top!
You're the top!
You're the Towel of Babel,
You're the top!
You're the Whitney stable.
By the river Rhine you're a sturdy stein of beer.
You're a dress from Saks's,
You're next year's taxes,
You're stratosphere!
You're my thoist,
You're a drumstick lipstick.
You're da foist
In da Irish svipstick.
I'm a frightened frog that can find no log to hop,
But if baby I'm the bottom
You're the top!

Nota do Blog: Para traduzir as músicas busque o site:  http://www.vagalume.com.br/cole-porter/love-for-sale-traducao.html
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* Arquiteto-sociólogo português.
Fonte:  http://www.escreveretriste.com/author/bidarra/