quinta-feira, 6 de março de 2014

Onde está a direita no Brasil?

Fernando Filgueiras*
Ao longo dos anos 1990, a ideia de que as ideologias políticas de direita e de esquerda estariam em crise foi motivo de um forte consenso e o caminho traçado pela globalização seria o de uma terceira via. Àquela altura, soava como esquizofrenia ou anacronismo defender qualquer posição ideológica no plano político. A globalização, então, aplainou o conflito ideológico entre direita e esquerda, atribuindo à terceira via a solução para os problemas sociais e econômicos dos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

No caso do Brasil, especificamente, a sensação que a geração formada nos anos 1990 carrega nos ombros é a de que as ideologias não fazem muito sentido, porque direita e esquerda dissolveram-se em um discurso político cantado em uníssono. De fato, promover enquadramentos ideológicos é uma das tarefas mais difíceis da análise política. A chance de erro em função das idiossincrasias do analista é gigantesca. Porém, ela faz sentido se concebida não como um juízo estético, mas como um juízo de valor. O que a confrontação entre direita e esquerda revela é uma diferença de valores fundamentais, os quais organizam a forma como indivíduos ou grupos políticos interpretam e constroem a realidade. Os juízos de valor importam porque eles permitem formatar de maneiras diversas problemas políticos e soluções. E estes juízos são constituídos publicamente, tendo em vista os instrumentos de comunicação social.

Entretanto, o que a diferença entre os discursos de direita e de esquerda tem revelado é uma disputa sincera por juízos estéticos na política. Vamos desde a direita no armário à esquerda caviar. Expressões estas que são difundidas nas redes sociais e que tomo emprestado de analistas políticos da mídia para tratar de uma pobreza recente do debate político. Os juízos estéticos na política fazem com que tanto a esquerda como a direita fiquem submersas num campo em que a avaliação movida pelo que é belo ou feio conta mais do que a avaliação movida pelos valores. Curiosamente, a comunicação pública tem contribuído pouco para entender a importância das ideologias políticas. Mas, no plano da sociedade, as diferenças ideológicas têm ganhado novos contornos e categorias.

Protestos reabriram disputa ideológica 
por dividendos eleitorais

A movimentação no plano da sociedade tem feito frutificar um novo debate político movido por ideologias, que tem pegado políticos profissionais e burocratas de calças curtas. O ponto de mudança foi as manifestações de junho e julho passados. As manifestações abriram o conflito ideológico, tendo em vista a disputa, ainda em curso, pelos significados dos atos políticos daquele momento. A crítica à ação dos governos por meio da deficiência de suas políticas públicas e a denúncia de um quadro de injustiças sociais colocaram em xeque os políticos profissionais e acionaram os enquadramentos ideológicos. Comum a esses enquadramentos é a denúncia da corrupção crescente. À esquerda, a denúncia do fascismo praticado pelo Estado e seus agentes contra as massas de oprimidos, mantendo o status quo das desigualdades. À direita, a denúncia do vandalismo contra o patrimônio e o perigo da ação das massas, que corrompem a ordem e os bons costumes. Ambas as posições querendo vencer a disputa pelos significados das manifestações, que podem render ótimos dividendos de poder e dividendos eleitorais.

Mas onde está a direita no Brasil? Ela não está em articulistas de mídia, que reforçam um debate estético e estéril sobre a política. Ela está envolvida em uma profunda capilaridade social, estando presente no plano da sociedade brasileira. Em estudo coordenado pelo professor Adriano Codato, da Universidade Federal do Paraná, demonstra-se que a direita no Brasil não é a figura do coronel caricato, conservador do sistema escravocrata e senhor de tudo no plano local. A direita brasileira tem sido recrutada majoritariamente entre empresários, no espaço urbano, tendo em vista uma ação modernizadora. A agenda de direita movida pela crítica à interferência do Estado na economia, na irracionalidade do gasto público, na exasperação dos impostos, na ineficiência da assistência social e na irracionalidade das massas na democracia está presente mais no plano social do que propriamente institucional. E tem ganhado tons de forte conservadorismo. Por esta razão há um sentimento de incompatibilidade entre uma sociedade conservadora, por um lado, com um sistema político democrático e mais inclusivo, por outro lado.

A ressonância recente de um pensamento de direita no Brasil chama a atenção porque desde a redemocratização não havia quem se identificasse com tal ideologia. Sobretudo pela questão estética de pertencimento ao regime autoritário inaugurado em 1964. Do ponto de vista político, não há problema nenhum com as ideologias de direita, mesmo que junto venham carregadas do tom de conservadorismo que isso implica. Na democracia, o pluralismo é fundamental. Só será um problema se com essa nova direita vier um antigo tom antissistema, que denuncia a política como inerentemente corrompida, as massas como ignaras e que coloque a democracia em risco. No caso do Brasil, só é possível ser conservador se for para conservar a enorme iniquidade social que reina nessas terras desde Tomé de Souza. Aí reside o problema e o fulcro das contradições dos valores políticos.
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* Fernando Filgueiras é professor de Ciência Política da UFMG, coordenador do Centro de Referência do Interesse Público e colunista convidado do "Valor". Cristian Klein volta a escrever em abril
E-mail: fernandofilgueiras@hotmail.com
Fonte: Valor Econômico online, 06/03/2014
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As características do sábio (Garrigou-Lagrange)


Reginald Garrigou-Lagrange, OP, foi um dos maiores filósofos e teólogos do século XX.
Lecionou no Angélico, em Roma, e foi autor de numerosas e belíssimas obras.

AS CARACTERÍSTICAS DO SÁBIO

Garrigou-Lagrange, OP

- Trecho de O Sentido do Mistério e o Claro-Escuro Intelectual: Natural e Sobrenatural, páginas 30 e 31 do Capítulo I: A Sabedoria Metafísica -

"[O sábio é aquele:]

1º, que sabe melhor que os demais tudo o que é acessível à nossa inteligência e vale a pena ser conhecido;

2º, que sabe até as coisas mais difíceis;

3º, que as conhece com maior certeza que o comum dos mortais, e que por isso não admite discussões com qualquer um que pretenda contradizê-lo;

4º, que pode apontar as causas ou razões de ser dos feitos e das coisas e, por conseguinte, ensiná-las;

5º, que ama o conhecimento da verdade por ela mesma, e não pela utilidade material ou honra que isso possa lhe trazer; que é magnânimo, desinteressado, e que, com frequência, morre pobre;

6º, que pode ordenar/organizar/sistematizar as coisas como melhor convenha, tanto na ordem teórica quanto na prática. Por isso as ciências são subordinadas à Sabedoria, mas esta não é subordinada à nenhuma ciência.

Tudo isso é a definição descritiva, que indica já o objeto da Sabedoria (todas as coisas, ainda as mais difíceis), seu fim (o conhecimento da verdade por ela mesma), seus efeitos (ordenar as outras ciências e os atos humanos).

Poderia se objetar que a enumeração destas seis notas da Sabedoria é incompleta. Mas não é preciso que seja completa. Basta notar indutivamente seus caracteres mais notáveis; tal como para se definir o círculo é suficiente a longitude do raio que o engendra mediante sua revolução ao redor de um de seus extremos."
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(GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Padre Reginald. O Sentido do Mistério e o Claro-Escuro Intelectual: Natural e Sobrenatural. Ediciones Desclée, Buenos Aires: 1945. Capítulo I: A Sabedoria Metafísica. Páginas 30 e 31. Tradução nossa.) 
Fonte: http://luzecalor.blogspot.fr/2014/03/

Fraternidade e Tráfico Humano

Marcelo Barros*
Parece inacreditável que, no Brasil, em fevereiro de 2014, ainda se possa ver a seguinte manchete no jornal: "Bolivianos postos à venda em feira”. Quem quisesse podia ler: "A polícia militar de São Paulo resgatou no último fim de semana dois bolivianos que foram colocados à venda na região central da capital. O caso ocorreu domingo em uma feira tradicional da comunidade boliviana, no bairro do Brás. (...) Na feira, quem quisesse levá-los, bastaria pagar mil reais por cada um” (Cf. Jornal do Commercio, 15/ 02/ 2014, p. 9).Esse caso acabou bem porque a polícia descobriu, o vendedor de escravos fugiu e as vítimas foram libertadas. Infelizmente, segundo a ONU, no mundo atual, de 600 a 800 mil pessoas estão sendo submetidas a regimes de escravidão. Lavradores continuam a trabalhar como escravos em fazendas que são verdadeiros campos de concentração. Mulheres são obrigadas a se prostituir no mercado de sexo. Crianças são roubadas de suas casas para servir como doadoras de órgãos ou para outros fins de escravidão. Isso ocorre em todos os continentes. Infelizmente, o Brasil é ponto de partida e de chegada desse perverso tráfico humano. Esse problema é tão grave que a conferência dos bispos católicos do Brasil (CNBB) tomou-o como tema da Campanha da Fraternidade desse ano de 2014. O objetivo é "identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas e denunciá-lo como violação da dignidade e da liberdade humana, mobilizando cristãos e a sociedade brasileira para erradicar esse mal, com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus” (Cf. Texto-base da CF 2014, p. 8). 

Na Europa, uma associação de voluntários criou pela internet uma pesquisa. Perguntava às pessoas, principalmente aos jovens – por que na sociedade atual ainda existe o tráfico de pessoas. A que se deve tal situação? Muitas respostas afirmavam: "A nossa sociedade é organizada a partir da busca do lucro, custe o que custar. Por isso, é quase natural que o próprio ser humano seja visto como uma mercadoria igual a outra qualquer”. Alguns chegaram a responder: " Vale a pena denunciar as formas atuais de escravidão humana e promover ações de resgate da cidadania das pessoas em situação de tráfico. No entanto, enquanto não se mudar a cultura econômica a partir da qual a sociedade se organiza, não se conseguirá prevenir adequadamente essas situações. Nessa sociedade que produz desemprego em massa e na qual há preço para tudo, sempre haverá pessoas fragilizadas pela sua situação social e econômica que são potencialmente vítimas dessa realidade terrível. Atualmente, embora nem sempre compreendido, o papa Francisco tem advertido contra a cultura do individualismo e da indiferença em relação aos outros. Lampedusa é a ilha italiana onde tentam chegar milhares de migrantes africanos clandestinos. Muitos deles são proibidos de desembarcar e acabam afogados no Mar Mediterrâneo. Em julho de 2013, o papa Francisco foi lá e orou em um resto de barco que tinha naufragado com migrantes. E ali, ele declarou: "Peçamos a Deus a graça de chorar pela crueldade que há no mundo e em nós, incluindo aqueles que tomam decisões socioeconômicas que abrem a estrada a dramas como esse”. 

As Igrejas cristãs têm como missão testemunhar o projeto divino de paz e justiça no mundo para vencer todas as estruturas iníquas existentes na sociedade. Para os cristãos, a Páscoa de Jesus se atualiza nos sinais de libertação e de vida nova para todos. A celebração pascal será profunda e eficaz se pudermos afirmar e testemunhar, como escreveu São Paulo: "Foi para que sejamos livres que o Cristo nos libertou” (Gl 5, 1). 
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*Monge beneditino, escritor e teólogo brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de Dom Hélder para assuntos ecumênicos. É um dos três latino-americanos membros da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte. Pernambuco, Brasil
Fonte: Adital 05/03/2014
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quarta-feira, 5 de março de 2014

O meu primeiro ano como papa. Entrevista com o Papa Francisco

Um ano se passou desde aquele simples "boa noite" que comoveu o mundo. O arco de 12 meses, assim entendidos – não só para a vida da Igreja – custa para conter a grande quantidade de novidades e os muitos sinais profundos da inovação pastoral de Francisco. Estamos em uma salinha de Santa Marta. Uma única janela dá para um pequeno pátio interno que descerra um minúsculo canto de céu azul. O dia está belíssimo, primaveril, quente. O papa sai de repente, quase de súbito, de uma porta, e tem um rosto relaxado, sorridente. Olha divertido para os muitos gravadores que a ansiedade senil de um jornalista colocou sobre uma mesa. "Funcionam? Sim? Bom".

A reportagem é de Ferruccio De Bortoli, publicada no jornal Corriere della Sera, 05-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O balanço de um ano?
Não, os balanços não lhe agradam. "Eu os faço apenas a cada 15 dias, com o meu confessor."

O senhor, Santo Padre, de vez em quando, telefona para quem lhe pede ajuda. E às vezes não acreditam no senhor.
Sim, isso aconteceu. Quando alguém telefona, é porque tem vontade de falar, uma pergunta a fazer, um conselho a pedir. Como padre em Buenos Aires, era mais simples. E para mim continua sendo um hábito. Um serviço. Eu sinto isso dentro de mim. Certamente, agora não é tão fácil fazer isso, dada a quantidade de pessoas que me escrevem.

E há um contato, um encontro que recorda com afeto particular?
Uma senhora viúva, de 80 anos, que havia perdido o filho. Ela me escreveu. E agora eu lhe dou uma telefonadinha a cada mês. Ela está feliz. Eu sou padre. Eu gosto.

As relações com o seu antecessor. Nunca pediu algum conselho a Bento XVI?
Sim. O Papa Emérito não é uma estátua em um museu. É uma instituição. Não estávamos acostumados. Sessenta ou setenta anos, o bispo emérito não existia. Veio depois do Concílio. Hoje, é uma instituição. A mesma coisa deve acontecer para o Papa Emérito. Bento XVI é o primeiro, e talvez haverá outros. Não sabemos. Ele é discreto, humilde, não quer perturbar. Falamos a respeito e decidimos juntos que seria melhor que ele visse pessoas, saísse e participasse da vida da Igreja. Uma vez, ele veio aqui para a bênção da estátua de São Miguel Arcanjo, depois ao almoço em Santa Marta, e, depois do Natal, eu lhe dirigi o convite de participar do Consistório, e ele aceitou. A sua sabedoria é um dom de Deus. Alguns gostariam que ele se retirasse para uma abadia beneditina longe do Vaticano. Eu pensei nos avós que, com a sua sabedoria, os seus conselhos, dão força à família e não merecem acabar em uma casa de repouso.

O seu modo de governar a Igreja pareceu-nos isto: o senhor ouve todos e decide sozinho. Um pouco como o geral dos jesuítas. O papa é um homem sozinho?
Sim e não. Eu entendo o que você quer me dizer. O papa não está sozinho no seu trabalho, porque está acompanhado e é aconselhado por muitos. E seria um homem sozinho se decidisse sem ouvir ou fingindo ouvir. Mas há um momento, quando se trata de decidir, de colocar uma assinatura, em que ele está sozinho apenas o seu senso de responsabilidade.

O senhor inovou, criticou algumas atitudes do clero, sacudiu o Curia. Com alguma resistência, alguma oposição. A Igreja já mudou como o senhor gostaria há um ano?
Em março passado, eu não tinha nenhum projeto de mudança da Igreja. Eu não esperava essa transferência de diocese, digamos assim. Comecei a governar tentando colocar em prática o que havia surgido no debate entre cardeais nas várias Congregações. No meu modo de agir, espero que o Senhor me dê a inspiração. Dou-lhe um exemplo. Falou-se do cuidado espiritual das pessoas que trabalham na Cúria, e começaram-se a fazer retiros espirituais. Devia-se dar mais importância aos Exercícios Espirituais anuais: todos têm o direito de passar cinco dias em silêncio e meditação, enquanto antes, na Cúria, ouviam-se três pregações por dia, e depois alguns continuavam trabalhando.

A ternura e a misericórdia são a essência da sua mensagem pastoral...
E do Evangelho. É o centro do Evangelho. Caso contrário, não se entende Jesus Cristo, a ternura do Pai que o envia para nos ouvir, para nos curar, para nos salvar.

Mas essa mensagem foi compreendida? O senhor disse que a franciscomania não vai durar muito tempo. Há algo na sua imagem pública que não lhe agrada?
Eu gosto de estar entre as pessoas, junto com quem sofre, ir às paróquias. Não me agradam as interpretações ideológicas, uma certa mitologia do Papa Francisco. Quando se diz, por exemplo, que ele sai de noite do Vaticano para ir dar de comer aos sem-teto na Via Ottaviano. Isso nunca me veio à mente. Sigmund Freud dizia, se não me engano, que em toda idealização há uma agressão. Retratar o papa como uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo. O papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos, como todos. Uma pessoa normal.

Nostalgia pela sua Argentina?
A verdade é que eu não tenho nostalgia. Gostaria de ir encontrar a minha irmã, que está doente, a último de nós cinco. Gostaria de vê-la, mas isso não justifica uma viagem à Argentina: eu a chamo pelo telefone, e isso basta. Não penso em ir antes de 2016, porque na América Latina eu já fui ao Rio. Agora tenho que ir para a Terra Santa, para Ásia e depois para a África.

O senhor recém-renovou o passaporte argentino. O senhor, contudo, ainda é um chefe de Estado.
Eu o renovei porque venceu.

Desagradaram-lhe aquelas acusações de marxismo, especialmente norte-americanas, depois da publicação da Evangelii gaudium?
Nem um pouco. Nunca compartilhei a ideologia marxista, porque não é verdadeira, mas conheci muitas pessoas boas que professavam o marxismo.

Os escândalos que perturbaram a vida da Igreja, felizmente, ficaram para trás. Foi-lhe dirigido, sobre o delicado tema dos abusos de menores, um apelo publicado pelo jornal Il Foglio e assinado, dentre outros, pelos filósofos Besançon e Scruton, para que o senhor faça ouvir a sua voz contra os fanatismos e a má consciência do mundo secularizado que respeita pouco a infância.
Quero dizer duas coisas. Os casos de abuso são terríveis, porque deixam feridas muito profundas. Bento XVI foi muito corajoso e abriu um caminho. A Igreja, nesse caminho, fez muito. Talvez mais do que todos. As estatísticas sobre o fenômeno da violência contra as crianças são impressionantes, mas também mostram com clareza que a grande maioria dos abusos ocorre no ambiente familiar e na vizinhança. A Igreja Católica talvez seja a única instituição pública que se moveu com transparência e responsabilidade. Ninguém mais fez mais. No entanto, a Igreja é a única a ser atacada.

Santo Padre, o senhor diz "os pobres nos evangelizam". A atenção à pobreza, a marca mais forte da sua mensagem pastoral, é confundida por alguns observadores como uma profissão de pauperismo. O Evangelho não condena o bem-estar. E Zaqueu era rico e caridoso.
O Evangelho condena o culto ao bem-estar.O pauperismo é uma das interpretações críticas. Na Idade Média, havia muitas correntes pauperistas. São Francisco teve a genialidade de colocar o tema da pobreza no caminho evangélico. Jesus diz que não se pode servir a dois senhores, Deus e a Riqueza. E, quando formos julgados no juízo final (Mateus 25), vai importar a nossa proximidade com a pobreza. A pobreza afasta da idolatria, abre as portas para a Providência. Zaqueu devolve metade da sua riqueza aos pobres. E a quem têm os celeiros cheios do próprio egoísmo, o Senhor, no fim, apresenta a conta. O que eu penso da pobreza eu bem expressei na Evangelii gaudium.

O senhor indicou na globalização, sobretudo financeira, alguns dos males que agridem a humanidade. Mas a globalização arrancou milhões de pessoas da pobreza. Deu esperança, um sentimento raro que não deve ser confundido com o otimismo.
É verdade, a globalização salvou muitas pessoas da pobreza, mas condenou muitas outras a morrer de fome, porque, com esse sistema econômico, ela se torna seletiva. A globalização na qual a Igreja pensa não se assemelha a uma esfera, em que cada ponto é equidistante do centro e em que, portanto, se perde a peculiaridade dos povos, mas sim a um poliedro, com as suas diversas faces, pelas quais cada povo conserva a sua própria cultura, língua, religião, identidade. A atual globalização "esférica" econômica, e sobretudo financeira, produz um pensamento único, um pensamento fraco. No centro, não há mais a pessoa humana, somente o dinheiro.

O tema da família é central na atividade do Conselho dos oito cardeais. Desde a exortação Familiaris consortio, de João Paulo II, muitas coisas mudaram. Dois sínodos estão sendo programados. Esperam-se grandes novidades. O senhor disse sobre os divorciados: não devem ser condenados, devem ser ajudados.
É um longo caminho que a Igreja deve fazer. Um processo desejado pelo Senhor. Três meses depois da minha eleição, foram submetidos a mim os temas para o Sínodo. Propõe-se a discutir sobre qual era a contribuição de Jesus ao homem contemporâneo. Mas, no fim, com passagens graduais – que para mim foram sinais da vontade de Deus – escolheu-se discutir a família que atravessa uma crise muito séria. É difícil formá-la. Os jovens se casam pouco. Há muitas famílias separadas, nas quais o projeto de vida comum fracassou. Os filhos sofrem muito. Devemos dar uma resposta. Mas, para isso, é preciso refletir muito profundamente. É o que o Consistório e o Sínodo estão fazendo. É preciso evitar ficar na superfície. A tentação de resolver todos os problemas com a casuística é um erro, uma simplificação de coisas profundas, como faziam os fariseus, uma teologia muito superficial. É à luz da reflexão profunda que poderão ser enfrentadas seriamente as situações particulares, mesmo a dos divorciados, com profundidade pastoral.

Por que a conferência do cardeal Walter Kasper (foto) no último Consistório (um abismo entre doutrina sobre o matrimônio e a família, e a vida real de muitos cristãos) dividiu tanto os cardeais? Como o senhor acha que a Igreja pode percorrer esses dois anos de árduo caminho chegando a um amplo e sereno consenso? Se a doutrina é sólida, por que é necessário debate?
O cardeal Kasper fez uma belíssima e profunda apresentação, que em breve será publicada em alemão, e abordou cinco pontos; o quinto era o dos segundos matrimônios. Eu me preocuparia se, no Consistório, não houvesse uma discussão intensa, não serviria para nada. Os cardeais sabiam que podiam dizer o que queriam e apresentaram muitos pontos de vista diferentes, que enriquecem. Os debates fraternos e abertos fazem crescer o pensamento teológico e pastoral. Disso, eu não tenho medo, ao contrário, o busco.

No passado recente, era habitual o apelo aos chamados "valores inegociáveis", sobretudo em bioética e na moral sexual. O senhor não retomou essa fórmula. Os princípios doutrinais e morais não mudaram. Essa escolha significa, talvez, indicar um estilo menos prescritivo e mais respeitoso à consciência pessoal?
Eu nunca compreendi a expressão "valores inegociáveis". Os valores são valores, e basta, não posso dizer que entre os dedos de uma mão haja um menos útil do que os outros.Por isso, não entendo em que sentido possa haver valores inegociáveis. O que eu tinha a dizer sobre o tema da vida, eu escrevi na exortação Evangelii gaudium.

Muitos países regulam as uniões civis. É um caminho que a Igreja pode compreender? Mas até que ponto?
O matrimônio é entre um homem e uma mulher. Os Estados laicos querem justificar as uniões civis para regular diversas situações de convivência, impulsionados pela exigência de regular aspectos econômicos entre as pessoas, como por exemplo assegurar a assistência de saúde. Trata-se de pactos de convivência de várias naturezas, dos quais eu não saberia elencar as diversas formas. É preciso ver os diversos casos e avaliá-los na sua variedade.

Como será promovido o papel das mulheres na Igreja?
Aqui também a casuística não ajuda. É verdade que a mulher pode e deve estar mais presente nos lugares de decisão da Igreja. Mas eu chamaria isso de uma promoção de tipo funcional. Só assim não se faz um longo caminho. Ao contrário, é preciso pensar que a Igreja tem o artigo feminino "a": é feminina desde as suas origens. O grande teólogo Urs von Balthasar trabalhou muito sobre esse tema: o princípio mariano guia a Igreja ao lado do petrino. A Virgem Maria é mais importante do que qualquer bispo e de que qualquer apóstolo. O aprofundamento teologal está em andamento. O cardeal Rylko, com o Conselho dos Leigos, está trabalhando nessa direção com muitas mulheres especialistas em várias matérias.

A meio século da Humanae vitae, de Paulo VI, a Igreja pode retomar o tema do controle de natalidade? O cardeal Martini, seu coirmão, considerava que já havia chegado o momento.
Tudo depende de como é interpretada a Humanae vitae. O próprio Paulo VI, no fim, recomendava muito misericórdia aos confessores, atenção às situações concretas. Mas a sua genialidade foi profética, ele teve a coragem de se inclinar contra a maioria, de defender a disciplina moral, de exercer um freio cultural, de se opor ao neomalthusianismo presente e futuro. A questão não é a de mudar a doutrina, mas sim de ir fundo e fazer com que a pastoral leve em conta as situações e o que é possível fazer para as pessoas. Também sobre isso se falará no caminho do Sínodo.

A ciência evolui e redesenha os limites da vida. Faz sentido prolongar artificialmente a vida em estado vegetativo? O testamento biológico pode ser uma solução?
Eu não sou um especialista nos assuntos bioéticos. E temo que cada frase minha possa ser equivocada. A doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém é obrigado a usar meios extraordinários quando se sabe que está em uma fase terminal. Na minha pastoral, nesses casos, eu sempre aconselhei cuidados paliativos. Em casos mais específicos, é bom recorrer, se necessário, ao conselho dos especialistas.

A próxima viagem à Terra Santa levará a um acordo de intercomunhão com os ortodoxos que Paulo VI, há 50 anos, quase tinha chegado a firmar com Atenágoras?
Estamos todos impacientes para obter resultados "fechados". Mas o caminho da unidade com os ortodoxos significa, acima de tudo, caminhar e trabalhar juntos. Em Buenos Aires, nos cursos de catequese, vinham diversos ortodoxos. Eu passava o Natal e o dia 6 de janeiro junto com os seus bispos, que às vezes pediam também conselho aos nossos escritórios diocesanos. Eu não sei se é verdade o episódio que se conta sobre Atenágoras, que teria proposto a Paulo VI que caminhassem juntos e mandassem todos os teólogos a uma ilha para discutir entre si. É uma piada, mas o importante é que caminhemos juntos. A teologia ortodoxa é muito rica. E eu acredito que eles têm grandes teólogos neste momento. A sua visão da Igreja e da sinodalidade é maravilhosa.

Em alguns anos, a maior potência mundial será a China, com a qual o Vaticano não tem relações. Matteo Ricci era jesuíta como o senhor.
Somos próximos da China. Eu enviei uma carta ao presidente Xi Jinping, quando ele foi eleito, três dias depois de mim. E ele me respondeu. Há relações. É um povo grande ao qual eu quero bem.

Por que, Santo Padre, o senhor nunca fala da Europa? O que não o convence do projeto europeu?
Você se lembra do dia em que eu falei da Ásia? O que eu disse? (Aqui o cronista se aventura em algumas explicações, recolhendo memórias vagas, para depois perceber que havia caído em uma simpática armadilha). Eu não falei nem na Ásia, nem da África, nem da Europa. Só na América Latina, quando estive no Brasil e quando tive que receber a Comissão para a América Latina. Ainda não houve a ocasião para falar da Europa. Ela virá.

Que livro o senhor está lendo nestes dias?
Pietro e Maddalena, de Damiano Marzotto, sobre a dimensão feminina da Igreja. Um belíssimo livro.

E o senhor não consegue ver alguns belos filmes, outra de suas paixões? A grande beleza ganhou o Oscar. O senhor vai vê-lo?
Não sei. O último filme que eu vi foi A vida é bela, de Benigni. E antes tinha revisto A estrada da vida, de Fellini. Uma obra-prima. Eu também gostava de Wajda...

São Francisco teve uma juventude despreocupada. Eu lhe pergunto: o senhor nunca se apaixonou?
No livro O jesuíta, eu conto sobre quando eu tinha uma namoradinha aos 17 anos. E eu também faço referência a isso em Sobre o céu e a terra (Companhias das Letras, 2013), o livro que eu escrevi com Abraham Skorka. No seminário, uma moça me fez virar a cabeça por uma semana.

E como isso acabou, sem querer ser indiscreto?
Eram coisas de jovens. Falei a respeito com o meu confessor (um grande sorriso).

Obrigado, Padre Santo.
Obrigado a você.
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Fonte: IHU online, 05/03/2014

Quaresma, tempo para renascer

P. José Tolentino Mendonça*
 Planta
Ao falar de uma espiritualidade inscrita no quotidiano, o frei Carlos Maria Antunes, no livro "Só o pobre se faz pão", diz que uma das nossas dificuldades é a dispersão. O nosso coração está disperso, dividido por muitas coisas. Somos objeto de múltiplos apelos e necessidades. Um rebuliço sem fim atravessa o nosso interior. E com ele também um cansaço e uma angústia que vamos tentando compensar de várias formas.

O cansaço e a angústia são um terreno fértil para a multiplicação das falsas necessidades e falsos desejos. A dispersão provoca mais dispersão.

Neste quadro, a nossa unidade e vigilância interior, que são fundamentais no nosso interior, tornam-se frágeis. Vamo-nos tornando mais vulneráveis, e acabamos, muitas vezes, num movimento de defesa, por endurecer o nosso coração, fazendo de conta que não vejo, que não oiço. Mas esta atitude também não nos dá a verdadeira unidade de coração.

Precisamos de aprender uma arte do acolhimento da nossa própria vida. Acolhermo-nos, acolher aquilo que somos, acolher o que nos chega como uma oportunidade, mas partindo de um centro, de um núcleo vital que em nós está desperto.

O padre Carlos cita o trecho de um poeta persa, Rumi, que diz o seguinte: «O ser humano é uma casa de hóspedes; cada manhã, um novo recém-chegado, uma alegria, uma tristeza, uma maldade, que vem como um visitante inesperado. Diz-lhes que são bem-vindos, e recebe-os a todos, ainda se são um coro de penúrias que esvaziam a tua casa violentamente. Trata cada hóspede com todas as honras; ele pode estar a criar-te um espaço para uma nova delícia. O pensamento obscuro, a vergonha, a malícia, recebe-os à porta sorrindo e convida-os a entrar. Agradece a quem quer que venha, porque cada um foi enviado como um guia do Além».

Esta arte do acolhimento da vida, de saber abraçar tudo a partir de uma unidade interior, pede de nós a pobreza espiritual, a pobreza de coração.

Aquando da eleição do papa Jorge Mario Bergoglio - todos nós já tivemos a oportunidade de ouvir esta história -, o cardeal Claudio Hummes, arcebispo de S. Paulo, que estava ao lado dele, abraçou-o e disse-lhe: «Não te esqueças dos pobres». Estas palavras ficaram a fazer-lhe caminho no coração, e quando se tratou de escolher o nome, ele optou por Francisco, lembrando-se de Francisco de Assis e da sua espiritualidade universal.

Falando aos jornalistas nos primeiros dias, o papa deixou os papéis e teve um suspiro, a expressão de um desejo, e disse: Quem me dera que a Igreja se tornasse pobre e fosse uma Igreja para os pobres. Uma Igreja que se torna pobre e faz do acolhimento dos pobres a sua razão de ser, a sua missão.
A pobreza espiritual aparece-nos como um conselho evangélico, isto é, como modo de vida, como uma opção que cada cristão é chamado a fazer para se configurar a Cristo, para se tornar mais próximo de Cristo. Há mais dois conselhos evangélicos: a obediência, ou seja, a capacidade de escutar e permanecer fiel à palavra que se recebe; o outro é a pureza de coração, e aí a castidade é muito mais do que uma privação, tornando-se um modo positivo de estar na vida.

Cada um destes conselhos é vivido na Igreja por todos os batizados, embora de modos diferentes. Todos somos chamados à configuração com Cristo, que é pobre, puro de coração e obediente ao Pai.
Como é que podemos concretizar a opção por uma vida pobre, por uma pobreza espiritual? A vida espiritual não é uma técnica, não é uma habilidade, não é um conjunto de ritos. A vida espiritual é um modo de ser. E quando se fala de adotar uma atitude espiritual de pobreza no coração - S. Francisco chamava-lhe a Irmã Pobreza, ou Santa Pobreza -, temos, antes de tudo, de exercitar o nosso ser.

«Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos. Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam, e, quando eu um momento espantada me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio horror das voltas do caminho» (Sophia de Mello Breyner).

Há um momento da nossa vida em que deixamos de saber de nós próprios. Parece que já não há um fundo de ser a marcar aquilo que somos e que nos estrutura, uma decisão fundamental, mas, pelo contrário, somos a dispersão. 

A nossa vida não é só um conjunto de inevitabilidades: ela tem de ser uma opção fundamental, isto é, tem de ser algo que eu decido, que eu quero, um caminho que escolho, em diálogo com o Espírito. A minha vida tem de ter fundamento, para não ser uma deriva, um fragmento flutuante no oceano convulso. Precisamos de um centro.

E para ter um centro, precisamos de momentos de recentramento para ouvirmos a nossa voz interior, para nos escutarmos mais profundamente, para perguntarmos: «O que é que eu vivo? O que me enlaça? O que procuro? O que sou?». Estes momentos de recentramento são revitalizadores.

A Quaresma não são 40 dias para tentarmos fazer rituais mais ou menos arcaicos. A Quaresma é um tempo de revitalização, um tempo para nos colocarmos as perguntas-chave que vão favorecer o renascimento do que somos. E Deus sabe como cada um de nós precisa de renascer. Por isso este é o tempo de voltar a si.
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*P. José Tolentino Mendonça . Teólogo. Escritor português.
Fonte: Redação: SNPC/rjm
In Capela do Rato
04.03.14

terça-feira, 4 de março de 2014

Vamos de novo

 

 Chesterton escreveu um trecho belíssimo no livro Ortodoxia (1908)

“O sol se levanta todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs; mas a variação se deve não à minha atividade, mas à minha inação. Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade que o sol se levanta regularmente por nunca se cansar de levantar-se. Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante. 

O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia. 

Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. E possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós.”
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Fonte:  http://sociedadechestertonbrasil.org/a-sociedade/noticias/ 
 -acesso: 04/03/2014
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Título do blog.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Hábito de homens se fantasiarem de mulher no carnaval é ritual de inversão

 
O carnaval de 2014 expõe novamente um hábito bastante comum entre os homens, durante bailes e desfiles que festejam a data: usar fantasias de mulher. Na avaliação da socióloga Silvia Ramos, coordenadora  do Centro de Estudo de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, o costume poderia surpreender nos anos de 1940, no Rio de Janeiro, mas atualmente “já se tornou quase um lugar comum”.

Ela explicou hoje (2) que a preferência dos rapazes por usar roupas femininas no carnaval revela uma vontade de transgredir. “Esse atravessamento de gênero, justamente de homens fortes vestidos com roupas de mulher, com salto alto, se tornou uma marca do carnaval, que acentua, na cultura brasileira, esse momento de transgredir com uma série de coisas”.

Segundo a socióloga, a transgressão de gênero é a mais simples de ser produzida com uma fantasia. “Por outro lado, é a mais surpreendente. Virou uma marca, realmente, do carnaval carioca”.

O antropólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto DaMatta, disse que o costume de homens se fantasiarem de mulher sempre existiu. “É permanente em todos os carnavais. E digo mais, até em carnavais na Rússia de Catarina II, em 1700”.

Para DaMatta, como para os demais antropólogos, o ritual carnavalesco ocorre  na maioria das sociedades do mundo, “senão em todas”. Trata-se do ritual da inversão. “É o ritual da licença, onde os opostos da sociedade rotineiros se invertem. As mulheres podem se comportar como homens, caso dos destaques das escolas de samba. São as supermulheres que os homens têm medo de chegar perto. Elas são castradoras de tão bonitas e agressivamente eróticas”. Essas mulheres se transformam nos 'dom Juan' (conquistador) de outrora, comparou. DaMatta argumenta que nos próprios blocos de rua, as mulheres apresentam agora um comportamento sexual mais agressivo.

Em relação aos homens, de forma específica, indicou que é muito comum, sobretudo em cidades de menor porte, no interior brasileiro, a juventude de classe média e alta se vestir com as roupas de suas mães e irmãs e saírem às ruas, “fazendo sátira de comportamento feminino, porque é carnaval”. Outra interpretação que pode ser feita é que esse costume poderia traduzir uma vontade oculta de esses homens serem mulheres, admitiu.

De modo geral, DaMatta avaliou que quando os homens brasileiros se vestem de mulheres, isso revela "o poder que as mulheres têm na vida rotineira brasileira, que não é, obviamente, discutido e reconhecido nem mesmo pelas mulheres”.

A antropóloga Yvonne Maggie, também da UFRJ, concorda integralmente com Roberto DaMatta. Na sua opinião, a inversão de comportamento é uma característica estrutural do carnaval. “É uma estrutura de festa na qual as pessoas invertem sua posição no cotidiano”. Não se trata de uma forma de transgressão, observou, porque, “no dia a dia, na vida comum, os homens são machistas, homofóbicos. E só durante os dias de carnaval, as pessoas se permitem inverter a sua posição. É um ritual de inversão”, reiterou.

O que chama a atenção, acrescentou, é que ao contrário dos anos de 1940, quando os blocos eram mais restritos, hoje são milhares de pessoas pelas ruas durante o carnaval. Destacou que não se deve interpretar o uso de fantasias femininas por homens como uma postura rebelde em relação à visão de gênero. “É o reforço do cotidiano, porque você só pode fazer isso no carnaval. Ou seja, durante 362 dias da vida, as pessoas têm que agir como homem e como mulher. E no carnaval, elas são liberadas”, disse.
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Fonte: Jornal do Brasil online, 02/03/2014
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Doze anos de escravidão é o melhor filme

Juremir Machado da Silva*

Doze anos de escravidão é filme. Os outros são entretenimento. Levou o Oscar que merecia. Trapaça não enganou os jurados. Ficou de mãos vazias. Abaixo o texto que publiquei, na volta do Caderno de Sábado, no Correio do Povo, sobre a obra mais necessária, retumbante e emocionante das últimas décadas. O filme que falta ao Brasil.

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Tomografia da escravidão

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir já falavam de amores contingentes e necessários. Por que não se falar em filmes contingentes e necessários? Foi o que fez Raul Juste Lores, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, ao classificar “12 anos de escravidão”, do britânico Steve McQueen, como “o melhor e mais necessário filme em muitos anos”. A principal característica da indústria cinematográfica, especialmente a que leva a marca indelével de Hollywood, é produzir o contingente como se fosse necessário, o eterno com duração e degustação de, no máximo, duas horas e um grande pacote de pipocas.

A escravidão é uma das mais hediondas invenções da humanidade. Tão chocante e ignominiosa quanto o holocausto dos judeus pelo nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. Um holocausto praticado contra os negros ao longo de vários séculos na América Latina. O Brasil, por exemplo, teve a desonra de ser o último, já no crepúsculo do século XIX, a fechar a câmara massacrante de exploração, tortura e assassinato de africanos e de seus descendentes. Milhões de negros viveram a experiência horrenda do chicote, do tronco, da violação, da espoliação e da redução à condição de mercadoria. No Rio Grande do Sul, não foi diferente. A diferença é que não temos filmes como “12 anos de escravidão”, a história do negro livre Solomon Northup, contada por ele em livro publicado em 1853, sequestrado e vendido como escravo.

É a história do arbítrio, da violência e das contradições dos Estados Unidos: um negro livre em Nova York, convidado para tocar violino em Washington, enganado, raptado e escravizado. Cada cena estraçalha um mito. Nenhum senhor de escravos foi bom, pois ser proprietário de seres humanos é essencialmente o oposto do bem, da bondade e da dignidade. Nenhum senhor de escravo, mesmo o mais genial, pode ser realmente admirado. A escravidão é uma chaga que não pode ser justificada com o relativismo simplório da expressão cínica “eram os valores da época”. Havia quem rejeitasse esses valores. Os escravos sabiam da ilegitimidade moral do que viviam. O resto é ideologia, racismo e horror.

Por que não temos um filme como “12 anos de escravidão” sobre a mais infame noite da história do Rio Grande do Sul, 14 de novembro de 1844, quando negros lanceiros e infantes dos farrapos foram massacrados, depois que David Canabarro mandou tirar o cartuchame da infantaria, consumando-se a traição de Porongos? Por que só fazemos filmes contingentes? Por que não aprendemos a fazer filmes necessários? O desempenho de Chiwetel Ejiofor, como Salomon, é emocionante. Um negro é presidente dos Estados Unidos. Nenhum até hoje ganhou o Oscar de melhor diretor. McQueen poderá ser o primeiro. Como não pensar na escravidão brasileira? Como não insistir na situação do Rio Grande do Sul? Como não pensar nos viajantes estrangeiros descrevendo os maus tratos aos escravos no Rio Grande do século XIX? Arsène Isabelle revelando a tortura praticada em nossa campanha: pimenta colocada em incisões feitas no corpo dos negros. Apenas um pálido exemplo dessa história brasileira da tortura. Americanos reverenciam alguns pais da pátria escravocratas. Há sempre, contudo, alguém para abordar o lado sujo das suas biografias. George Washington, ao morrer, deixou, em testamento, a liberdade para seus escravos. Pragmático americano, usou-os enquanto viveu. Bento Gonçalves transmitiu os seus aos herdeiros. Pragmatismo brasileiro: não se desperdiça o patrimônio.
Depois de anos vendo filmes contingentes, enfim uma obra para encher os olhos, inclusive de lágrimas. Um filme que arranca a máscara, atira a verdade na cara, fulmina qualquer tentativa sórdida de relativismo e obriga o espectador a pensar em toda a sujeira escondida sob o tapete da sala da sua própria casa. Tivemos a coragem de inventar o mito da democracia racial e de dizer, que no Rio Grande do Sul, a escravidão foi mais branda. “Doze anos de escravidão” não é entretenimento. É arte. Entretenimento é “Trapaça”. Tudo esclarecido.
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* Jornalista. Prof. Universitário. Escritor. Colunista do Correio do Povo
Fonte: Correio do Povo online, 03/03/2014
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A morte sem metáforas

Lee Siegel*

Intimidade: Há 7 anos, Lisa Adams descreve num blog sua luta contra o câncer - Divulgação
Divulgação
Intimidade: Há 7 anos, Lisa Adams descreve num blog sua luta contra o câncer

Popularizados na imprensa americana, relatos pessoais sobre doenças terminais e velhice mostram a crua realidade do fim da vida

Li recentemente na coluna Private Lives, do New York Times, que costuma tratar dos dramas e dificuldades das pessoas comuns, um texto a respeito da morte de um cônjuge. Era impossível definir com precisão a idade da autora, embora referências a filhos crescidos implicassem que ela estaria entre o final da meia-idade e a idade avançada. Depois de descrever uma depressão insuportável, e tendo se retirado para um "bunker de luto", ela concluía o ensaio com as seguintes palavras: "Falando em perdas, não perdi apenas meu marido e minha vida, mas também o cabelo. Tanto meu majestoso penteado quanto minhas sobrancelhas - acredite se puder - caíram aos tufos alguns meses após a morte de meu marido ... Recentemente, fui abordada por um policial por estar parada no meio da rua. O tráfego estava sendo desviado, mas eu tinha congelado no lugar e uma longa fila tinha se formado atrás de mim. Estendi as mãos, esperando ser algemada, dizendo não haver mais nada que ele pudesse fazer comigo que fosse pior que aquilo que eu já estava enfrentando. Ele disse, ‘O que houve, senhora?’ Respondi: ‘Não tenho marido, nem amigos, nem cabelo’". 

Na verdade, seria equívoco chamar aquele tipo de texto de "ensaio". Era um grito de dor sem solução nem filtro, que punha o leitor num horripilante transe, com pena da autora, constrangido por estar lendo o texto, grudado às palavras até o amargo fim.
Há dez, ou mesmo cinco anos, jamais encontraríamos algo do tipo numa revista ou jornal, muito menos no New York Times. Hoje, isso faz parte de um tipo de texto cuja popularidade aumenta rapidamente, envolvendo temas como doença, final da vida e morte. Relatos do tipo estão por toda parte.

Nós os encontramos em incontáveis artigos do Times, desde homens na faixa dos 50 escrevendo sobre seus derrames até doutores que descrevem seu estado físico enquanto documentam o final da própria vida. É claro que isso não se limita às páginas do Times. Está também no Wall Street Journal, onde uma mulher de meia-idade ofereceu um relato da morte da mãe, ou na New York Magazine, onde um escritor profissional publicou um longuíssimo relato da morte da mãe dele. Numa edição recente da New Yorker, o famoso autor Roger Angell descreveu como é a vida aos 93 anos, enfrentando a perda e a desintegração física - ter de lidar com aquilo que ele descreveu com a imortal expressão "mundo insistentemente decadente e grosseiro".

Alguns desses depoimentos são de uma beleza arrebatadora, como o de Angell, que alcança profundezas shakespearianas, e outros, como o relato que citei no começo, são grandes pedaços de vida e sofrimento, sem refinamento e inconscientes de si enquanto textos. Mas são todos comoventes e, ouso dizer, sem precedentes na cultura. Nunca antes foi tão grande o número de pessoas a chegar aos 90anos, ou até mais. Pela primeira vez, temos relatos em primeira mão do verdadeiro significado de envelhecer.

 "Mas, se os romanos antigos aceitavam a morte, 
os americanos contemporâneos vão continuar
 a combatê-la como se fosse uma nova 
forma de injustiça social."

E viver até uma idade cada vez mais avançada significa que a morte não é mais algo a que nos resignamos e diante do que nos calamos. Henry James, que chegou aos 72 anos, e Tolstoi, que chegou aos 80, nunca pensaram em escrever a respeito da velhice porque a morte estava por toda parte ao redor deles. Agora, com os avanços da tecnologia médica, somos cada vez mais capazes de adiar a morte. Portanto, o luto dos sobreviventes não é apenas um grito de dor. É também, num certo sentido, uma maneira de protestar contra a injustiça.

Há uma dimensão ética controvertida nesse novo gênero de texto - e não se trata apenas da escrita; há também programas de reality TV a respeito de pessoas moribundas - conforme a reticente cultura da privacidade, mais antiga, colide com nossa nova era digital de transparência e expressão da intimidade. Não faz muito tempo, Bill Keller, ex-editor do New York Times e hoje colunista do jornal - um homem de dignidade e inteligência extraordinárias - expressou sua reprovação a uma mulher chamada Lisa Bonchek Adams, que publicou no Twitter e em seu blog textos a respeito de sua luta contra o câncer, sem poupar detalhes, durante os últimos sete anos. A opinião de Keller diante da exposição dela foi refletida na citação de um médico com a qual ele encerrava seu artigo: "Mérito idêntico", dizia o médico, depois de admirar o depoimento de Lisa, "cabe àqueles que aceitam um destino inevitável com graça e coragem". Embora muitos leitores tenham concordado silenciosamente com Keller, a resposta negativa foi de furiosa indignação. Tanto para os admiradores da atitude de Lisa quanto para aqueles que a repudiam, não se pode negar que ela seja uma espécie de Fernão de Magalhães no fim da vida. Ela está mapeando o território inexplorado ao qual todos chegaremos, mais cedo ou mais tarde.

Assim como ocorre no final de Édipo Rei, de Sófocles, quando Édipo percebe que aceitar o enigma de ser humano é a única resposta para a charada de ser humano, a cultura americana está sendo reduzida aos elementos básicos da vida - ou refinada por eles. Há aqui uma tendência recente envolvendo algo chamado "jantar de morte", no qual, à maneira talvez dos antigos filósofos romanos como os estoicos e os epicuristas, as pessoas se reúnem para falar das questões suscitadas pelo morrer, como os testamentos em vida e a decisão de ter o suporte de vida desligado. Mas, se os romanos antigos aceitavam a morte, os americanos contemporâneos vão continuar a combatê-la como se fosse uma nova forma de injustiça social. Os americanos encaram a vida como uma série de problemas a serem resolvidos, afinal, e os rápidos avanços na ciência e na medicina fazem a morte parecer menos uma condição permanente e mais um obstáculo particularmente difícil no caminho. 
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/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
* LEE SIEGEL É ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL AMERICANO. ESCREVE PARA O JORNAL THE NEW YORK TIMES E AS REVISTAS HARPERS, THE NEW YORKER E THE NATION (COMPANHIA DAS LETRAS) 
Fonte: Estadão online, 01/03/2014

O mito da juventude: “O problema de envelhecer é dos velhos”. Entrevista especial com Ted Polhemus

 Foto: Lulu
“Se há um problema que me preocupa sobre a juventude de hoje é que muitos dos jovens parecem viver sob a sombra da minha geração”, afirma o antropólogo.

“A ideia de que nós, os Boomers, criávamos, inventávamos e éramos definidos por nossa ‘juventude’ era tão pervasiva, que nos tornamos a primeira geração que nunca lidou bem com o envelhecimento.” A declaração é do antropólogo Ted Polhemus, em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail, e faz parte de sua análise em compreender o mito da juventude presente na sociedade. Segundo ele, diante da “inabilidade de crescer e envelhecer, os Boomers tentaram colar em si mesmos uma etiqueta de ‘Jovens para sempre’ que, em certo sentido, nega a juventude àqueles que realmente são jovens”.

Autor do livro BOOM! A Baby Boom Memoir, Polhemus evidencia um processo de “juvenilização”, ou seja, “a transferência da cultura da juventude do domínio estrito dos jovens para a penetração em todos os grupos etários e na cultura em seu sentido mais amplo”.

E explica: “não é que simplesmente um novo mercado foi criado dentro da indústria da moda para lidar com aqueles que eram jovens, mas que jovens modelos e criações apropriadas apenas para corpos jovens empurraram tudo o mais para a indústria da moda”.

O resultado desse processo, adverte, são “adultos-infantis, que vão envelhecendo e que tentam desesperadamente ‘enturmar-se com as crianças’. Minha esperança é de que assim que a minha geração for — finalmente — para aquele grande Festival de Rock no céu, o mundo possa voltar a ter uma percepção mais normal e sensível de que a criatividade e os valores não estão limitados a nenhuma faixa etária”. E dispara: “Hoje — diferentemente dos anos 1950 e 1960 — apenas os velhos estão presos no modelo de juvenilização”.

Ted Polhemus é antropólogo com formação pela Temple University, Filadélfia.
Foto: Urban Fieldnotes
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Por que há um mito em torno da juventude?
Ted Polhemus - A partir das décadas de 1950 e 1960, surgiu o mito de que é na juventude que tudo acontece — que todos os avanços criativos vêm dos jovens. Isso derrubou o (também absurdo) mito de que a juventude nada tem a contribuir. O verdadeiro mito (e perigo) é a presunção de que a criatividade é definida pela idade. No fundo, somos mais importantes que nossa idade.

IHU On-Line - Que entendimento os Boomers tinham da juventude? Em que medida a cultura que os envolvia contribuiu para sua compreensão de juventude?
Ted Polhemus – Nós, Baby Boomers, crescemos em um mundo (logo após a Segunda Guerra Mundial) no qual nos diziam constantemente que éramos a "juventude" e, como tal, éramos especiais. A coisa realmente interessante é que toda a criatividade associada ao rock n’roll, ao Swinging London Fashion (expressão comumente utilizada para descrever a efervescência cultural dos anos 1960 na Inglaterra), veio de uma geração ligeiramente mais velha, que havia nascido durante ou mesmo antes da Segunda Guerra. Os primeiros Baby Boomers, como eu (nascido em 1947), não tinham se tornado adolescentes até 1960, enquanto o rock n’roll, os primeiros estilos de rua, o jazz moderno, os poetas beats, haviam todos sido criados por adultos jovens que já não eram mais adolescentes há tempos. Mas a ideia de que nós, os Boomers, criávamos, inventávamos e éramos definidos por nossa "juventude" era tão pervasiva, que nos tornamos a primeira geração que nunca lidou bem com o envelhecimento.

IHU On-Line - O senhor diz que essa geração afetou “como um tsunami” as outras gerações, “distorcendo e metamorfoseando toda a cultura ocidental”. Como e em que medida isso aconteceu? Quais são os reflexos nas gerações futuras?
Ted Polhemus - Uma vez firmada a ideia de que a juventude, e apenas a juventude, tinha a chave mágica para onde tudo acontece, todas as gerações mais velhas passaram a ser vistas como "quadrados", velhos, sem esperança e que não compreendiam nada, e todas as gerações subsequentes (ou, ainda mais importante, os homens e mulheres da publicidade, que desejavam atingi-los) aceitaram sem questionar a presunção de que a vida termina quando sua juventude acaba. Veja a moda, por exemplo: estilistas como Dior, cujo "new look" tomou o mundo de assalto em 1947, criava para mulheres, não garotas (que tradicionalmente seguiriam as tendências estabelecidas por suas mães). De fato, a moda sempre focou nas mulheres e não nas garotas, nos homens e não nos meninos. Mas os estilistas dos anos 1960 (que, ironicamente, não eram eles mesmos adolescentes), como Mary Quant, criaram moda focando nas garotas adolescentes. Hoje existem grandes debates sobre modelos tamanho zero e assim por diante, mas a essência dessa preocupação não são as medidas corporais — é a idade. "Tamanho zero" denota garotas, não mulheres. Pessoalmente, penso que é hora de dissociar a moda e o estilo dessa restrição centrada na idade.

“Tenho 67 anos e não faço a menor ideia sobre os jovens de hoje”

IHU On-Line - A geração atual de jovens ainda sofre os efeitos da geração Boomers? Em que aspectos?
Ted Polhemus - Em sua inabilidade de crescer e envelhecer, os Boomers tentaram colar em si mesmos uma etiqueta de "Jovens para sempre" que, em certo sentido, nega a juventude àqueles que realmente são jovens. Quando isso aconteceu, nos anos 1970 — todos aqueles velhos hippies controlando a indústria da música —, o triunfo final da juventude e da geração que era realmente jovem foi o punk. Mas o problema, hoje, é mais insidioso na medida em que iguala "onde as coisas acontecem" com "juventude" e procura aprisionar aqueles que são jovens numa categoria que é dominada puramente pela idade. De fato, a partir do que eu vejo, a juventude de hoje tem tido a sensibilidade de se apartar desse modelo etário — nos processos de escolhas de estilo, música, ideologia, padrões de consumo, etc., estão os indicadores de identidade realmente significativos, e estes cruzam a passos largos as fronteiras de idade.

IHU On-Line - Existe um processo generalizado de conflito de gerações na sociedade ocidental? Se sim, em que termos?
Ted Polhemus - Havia nos anos 1970, quando os jovens rebeldes do punk miravam os "velhos chatos". O que me impressiona é como o conflito geracional parece ser tão pequeno hoje. E é preciso ser mais do que jovem para responsabilizar a nós, os velhos, por estragar o mundo. Apontou-se estatisticamente que a geração Boomer teve seu próprio modo de fazer as coisas: iam sorrindo aos bancos e destruíam o planeta como ninguém antes deles havia feito.

De fato, se me é permitido dizer, penso que esse tipo de argumento (como tem sido exposto em um grande número de livros campeões de vendas recentemente) recai na mesma absurdidade de centrar-se na idade.

Havia Boomers que dirigiam ônibus e ganhavam salários muito baixos, enquanto outros — como Mark Zuckerberg — que não são Boomers, mas têm feito dinheiro suficiente para manter uma pequena nação funcionando. É absolutamente verdade que foi durante o tempo de vida dos Boomers que a destruição de nosso planeta conheceu uma aceleração. Mas, novamente, não acho que seja justo colar este juízo em cada um dos Baby Boomers. Contudo, a despeito dessas retratações, eu consigo entender facilmente que as gerações mais jovens ressintam o fato de que tantos Boomers estão gozando de rendas confortáveis (para não dizer que estão usufruindo de todas as vantagens da medicina), enquanto muitos de sua geração não conseguem nem arrumar emprego.

IHU On-Line - Em que consiste esse processo de “juvenilização” de que o senhor fala?
Ted Polhemus - Por "juvenilização" eu entendo a transferência da cultura da juventude do domínio estrito dos jovens para a penetração em todos os grupos etários e na cultura em seu sentido mais amplo. Por exemplo, como mencionei antes, não é que simplesmente um novo mercado foi criado dentro da indústria da moda para lidar com aqueles que eram jovens, mas que jovens modelos e criações apropriadas apenas para corpos jovens empurraram tudo o mais para a indústria da moda; veja a música pop.

Nós esquecemos que este não é um fenômeno natural: durante 99,9% da sua história, nossos ancestrais humanos reverenciaram o antigo por sua sabedoria. Hoje, o resultado final são os "adultos-infantis", que vão envelhecendo e que tentam desesperadamente "enturmar-se com as crianças". Minha esperança é que assim que a minha geração for — finalmente — para aquele grande Festival de Rock no céu, o mundo possa voltar a ter uma percepção mais normal e sensível de que a criatividade e os valores não estão limitados a nenhuma faixa etária.

IHU On-Line - É possível romper com esse processo de juvenilização inaugurado com os Boomers? Qual seria o mito social subsequente?
Ted Polhemus - É só parar, como eu digo, de pensar que quem nós somos é definido pela nossa idade. O principal personagem e narrador do romance do final dos anos 1950, Absolute Beginners, teme que ao fazer 19 anos ele ultrapassaria o seu prazo de validade. Que tamanha bobagem — não o romance, que é ótimo, mas a noção de que a certa idade você está passado.

“Nunca antes na história humana o Homo Sapiens teve tal possibilidade de se inventar a si mesmo”

IHU On-Line - Como se dá o processo identitário de jovens hoje em dia, e como este processo se difere do conceito de "juventude" originado a partir dos Boomers?
Ted Polhemus - Isso é exatamente o que alguém tem que começar a perguntar aos jovens. Eu tenho 67 anos e não faço a menor ideia sobre os jovens de hoje. É isso que quero que alguém faça: algum tipo de pesquisa que peça aos jovens para listarem o significado de vários fatores (idade, nacionalidade, classes, marcas, música, estilo, religião, raça, valores, etc.), do mais importante para o menos importante. Aqui vai uma observação que fiz por mim mesmo: na cidade de Hastings, no Reino Unido, onde eu vivo, quando o tempo melhora (se é que melhora), há um monte de crianças, predominantemente novas, andando de patins e skates no calçadão à beira da praia. Eu digo crianças predominantemente novas — e aqui está o meu ponto —, mas noto que, quando chega alguma pessoa mais velha que é boa nos patins ou no skate, ela é bem-vinda e respeitada, ao passo que algumas crianças que não têm habilidade são ignoradas. Compare com a minha geração que dizia "Nunca".

IHU On-Line - Essa autocompreensão de “juvenilização” faz com que os jovens não desenvolvam características próprias da idade adulta? Quais, por exemplo? Como a “juvenilização” afeta a vida adulta?
Ted Polhemus - Eu penso que o outro lado dessa moeda seja mais significativo: como aqueles que não são jovens se esforçam para viver suas vidas como se fossem jovens, quando na verdade não o são. Meu palpite seria de que hoje — diferentemente dos anos 1950 e 1960 — apenas os velhos estão presos no modelo de juvenilização.

Novamente, penso que a juventude de hoje lida bem, enquanto o problema de envelhecer é dos velhos. Se há um problema que me preocupa sobre a juventude de hoje é que muitos desses jovens parecem viver sob a sombra da minha geração. Estudantes dizem para mim: "deve ter sido tão legal viver nos anos 1960". Bem, sim e não. A história tem uma mania de ignorar todas as coisas chatas e repetir em um "loop" infinito aquele clipe de Woodstock no qual a mágica acontecia. Nos anos 1950 quando, na minha visão, as reais revoluções aconteceram, tratava-se ainda mais da questão de uma pequena minoria estatisticamente inundada por uma corrente extremamente tediosa. E não nos esqueçamos de que Jack Kerouack e Neal Cassidy, de On the road, desperdiçaram muito de suas vidas — e estragaram a vida de muitos outros ao seu redor, especialmente das mulheres que passaram por suas vidas. O que é tão significativo e excitante é que o que era a preocupação de uma maioria, hoje tornou-se a preocupação da massa. Muitas pessoas hoje — de todas as idades — se esforçam para criar uma identidade única para si e expressam essa identidade em seus estilos ou palavras, música, ou seja lá o que for. E isso é global.

Lembre-se que lá atrás, nos anos 1950 e 1960, a maioria se conformava muito mais do que se expressava a si mesma, e mesmo os Beats, Hippies, Bikers eram conformes às demandas de suas subculturas. A moda dizia às pessoas o que era in ou out. Nunca antes na história humana o Homo Sapiens teve tal possibilidade de se inventar a si mesmo.
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Fonte: IHU online, 03/03/2014