terça-feira, 10 de junho de 2014

Ver é um ato de humildade

Inspirar-se na experiência de bilhões anos da natureza para criar produtos tem sido uma vertente bem conhecida da Biomimética. Mas, e quando a natureza inspira processos, sistemas e, mais que isso, um modelo mental? Whole (inteiro) e Economics (Economia) deram origem a Holonomics, pensamento que os consultores Simon e Maria Robinson têm desenvolvido. Enquanto a Economia ainda separa pessoas da natureza, colocando o ser humano em uma posição hierárquica, o pensamento holonômico enxerga uma rede, formada por uma multiplicidade de visões, e busca os significados desse sistema complexo– aplicáveis nas organizações. “Ver é um ato de humildade”, diz Simon. As ideias do casal estão reunidas no recém-lançado Holonomics: Business Where People and Planet Matter.

Página 22 - Como vocês definem o pensamento holonômico (holonomic thinking)?
Simon Robinson - Como um novo modelo mental. É um nível de consciência que muda o jeito de ver e entender sistemas complexos. Vivemos hoje problemas complexos, para os quais não é possível encontrar a solução com um jeito de pensar mecanicista.

Maria Robinson - É uma nova forma de apreender os sistemas complexos, por isso é derivado da Biologia, porque a natureza é complexa. E não só a natureza, mas também as organizações – estas são sistemas vivos, e não estáticos.

P22 - Em que o conceito do pensamento holonômico difere do pensamento complexo? E no que a sua aplicação difere do Balanced Scorecard?
SR - Em inglês, a expressão “pensamento complexo” não existe, e sim a ciência da complexidade e a Teoria do Caos. A ciência da complexidade começou nos anos 1960 e foi surpreendente, porque mudou o jeito como entendíamos o mundo. Passamos o foco dos objetos e suas propriedades para a qualidade do relacionamento entre as coisas. Descobrimos que, com isso, mudava-se todo o entendimento. Mas um dos problemas é que às vezes pessoas tentam entender o sistema complexo com o velho jeito linear de pensar.

Simon Robinson é consultor e cofundador da Holonomics Educação e Consultoria e foi um dos fundadores da Genie Internet. É coautor do livro Holonomics: Business Where People and Planet Matter e editor do blog transitionconsciousness.org
 
P22 - Como se dá isso?
SR - Muitas pessoas usam o pensamento mecanicista para entender o sistema complexo. Isso significa que ainda tentam classificar e quebrar em partes para, em seguida, tentar entender as relações entre elas. Em resumo: o pensamento mecanicista entende as partes e suas propriedades; o complexo, as relações; e o pensamento holonômico, o significado do sistema complexo.

MR - Todo sistema vivo é um sistema complexo. O pensamento holonômico é essa forma de enxergar os sistemas complexos, traduzi-los e fazer que as organizações possam se preparar para lidar com eles. Uma das bases do pensamento holonômico são cinco valores humanos: paz, amor, retidão (ou ação correta), verdade e não violência (não causar dano a nenhuma parte). São valores universais que, se presentes em um sistema, os torna resiliente e muito mais sustentável. Se você tem relações verdadeiras, transparentes, com ação correta em toda a cadeia de valor, com fornecedores, clientes, acionistas, funcionários, está construindo uma organização muito mais resiliente. Mas, para fazer essa mudança, precisa mudar o modelo mental, por isso damos esse passo para trás.

P22 - O pensamento mecanicista veio basicamente com Descartes (filósofo do século XVII) ou classificar e separar as coisas seria uma característica humana?
MR - Isso é construção do pensamento ocidental, e a partir de Descartes. Alguns “inovadores”, vamos dizer assim, como Leonardo Da Vinci e muitos daquela época, eram muito mais holísticos. Não havia, por exemplo, separação entre arte e ciência. Tudo era muito misturado. O pensamento cartesiano classifica e, para a época, teve um significado muito importante. Mas já não é adequado para responder às demandas que estão sendo colocadas. E, exatamente por esse pensamento fragmentar as coisas, separou o homem da natureza. A Economia, por exemplo, é muito baseada no pensamento cartesiano: natureza é recurso, ser humano é recurso, se eu preciso trocar, eu troco, se eu preciso de mais eu vou buscar, e a tecnologia vai suprir a falta. Mas hoje percebemos que nada é separado de nada. Com isso, o Ocidente, especialmente, está com um grande dilema: o que eu faço? A visão de rede é o que se precisa ter.

P22 - Nesta edição falamos sobre a visão antropocêntrica e utilitarista que existe na própria ideia de sustentabilidade, ou seja, eu busco o equilíbrio com o ambiente porque isso trará benefícios para as pessoas e tornará as empresas mais resilientes. O quanto o pensamento holonômico contribui para mudar essa visão antropocêntrica?
MR - A visão antropocêntrica é uma visão de separação. E de um contra o outro, como se a natureza estivesse se rebelando contra o homem. Veja os filmes-catástrofe – o inimigo, antes, era um outro país, agora é a natureza. Um autor de quem a gente fala muito, o Joseph Campbell (autor de O Poder do Mito), fala isso: que o homem ocidental criou essa divisão, acha que tem as respostas e vai resolver tudo com a tecnologia. O pensamento holonômico é de sistema, de relações. Nós dependemos da natureza e ela de nós, então não é uma visão hierárquica. A hierarquia é também uma característica dos nossos tempos. Principalmente depois da Revolução Industrial, a Economia se desenvolveu com o homem no topo, como se estivesse acima dos outros sistemas, animais, plantas, terra. Então, a relação com os animais precisa ser de integração com o todo e baseada nesses cinco valores.

Maria Moraes Robinson é economista e consultora em estratégia, Balanced Scorecard e gestão de mudança. É coautora de Holonomics: Business Where People and Planet Matter (Floris Books, 2014), Gestão da Estratégia: Experiências e Lições de Empresas Brasileiras (Campus, 2005) e O Ativista da Estratégia (Campus, 2011).
 
P22 - Vocês escolheram esses cinco valores com base em quê?
MR - Eles estão nos escritos antigos na Índia, Gandhi já falava deles. O educador indiano Sathya Sai Baba criou nos anos 1960 um programa de educação baseado em valores humanos. Aliás, é extremamente revolucionário, e é o que falta na educação no mundo ocidental. Ele falava o seguinte: a educação tem duas asas: uma é o que vou aprender para trabalhar, ter meu sustento, me desenvolver, e a outra é espiritual– não de religião, mas dos cinco valores –, que me dará discernimento para fazer minhas escolhas.

P22 - Quando vocês falam isso para as empresas aqui no Brasil, qual é a receptividade? As empresas acham que isso não pertence ao mundo delas?
MR - As empresas estão lidando com muitos problemas. Seja a geração Y convivendo com a geração mais velha, seja os ambientes altamente hierarquizados, diferente do que acontece no universo fora das empresas, como as redes sociais.

P22 - Até entre pais e filhos a relação mudou, não é?
MR - Exatamente. Tudo mudou, mas a maioria das organizações ainda não. A gente tem exemplos no livro mostrando empresas que fizeram mudanças e estão sendo muito mais bem-sucedidas. Muitas organizações estão perdendo talentos, e não basta aumentar salário e fazer pesquisa de clima. Há pouco tempo eu estava falando com o presidente de uma empresa, e ele comentou: “A gente aqui tem tudo quanto é metodologia, Seis Sigma, Balanced Scorecard, mas isso não está dando conta. Acho que a gente está precisando trabalhar o ego e o desapego”. Ele disse que as pessoas querem dar a sua resposta, mas não querem ouvir, então não conseguem chegar a decisões compartilhadas, que seriam as mais adequadas para os problemas complexos. Como lido com meu papel enquanto organização na comunidade, na sociedade, no ambiente, diante das pessoas? Até pouco tempo atrás, não tinha esses dilemas. Então, as organizações estão mais abertas a ouvir, pois o caminho tradicional não está dando conta. Por outro lado, o modelo mental é o linear. Nosso foco é trabalhar a liderança. Enquanto estiverem muito hierarquizadas, é a liderança que promoverá a mudança.

SR - (Simon mostra um diagrama, de sua autoria, com uma escala de evolução que vai da base ao topo: “eu vejo nada”, “eu não sei o que vejo”, “eu sei o que vejo”, “eu acho que sei o que vejo”, “o que outros veem?”,“nós vemos”) Muita gente acha que “eu sei o que vejo” deveria estar no topo, mas está aqui embaixo. Pessoas, de fato, acreditam que a forma como veem uma situação é a forma certa. E muitas vezes não entendem que existem outras maneiras de experimentar uma situação. Exemplo: esta livraria (local onde a entrevista foi realizada). Nós viemos de mundos e níveis, vamos dizer assim, parecidos, então nossa visão do que é uma livraria é muito similar. Mas, se você pega pessoas com experiências diferentes, como de uma favela, a visão é muito diferente.

MR - Em situações mais complexas, eu preciso de mais perspectivas, de pessoas com diferentes experiências para enxergar a situação de modo a estar mais próximo possível da realidade. Poucas cabeças olhando ou muitas com a mesma forma de pensamento talvez nem cheguem à solução, pois cada um tem uma visão recortada da realidade. O que é algo complexo? Algo que tem muitas variáveis atuando. Então você não consegue dar uma resposta direta e simples. Podem perguntar: “O mundo sempre foi assim, por que só agora estamos falando sobre isso?”. Porque antes as variáveis eram mais controláveis. Você tinha economia fechada, conhecia seu ambiente até atuava sobre ele. A economia criava demanda, lembra? As empresas definiam o produto que o mercado ia querer. O grande primeiro fenômeno que deu início a essa mudança foi a globalização, a abertura dos mercados.

P22 - Quando o líder começa a duvidar do que pensa, já é um sinal de evolução?
SR - Quando ele fala: “Talvez as outras pessoas tenham importantes contribuições”, isso é uma evolução. Diálogo não é competição, não tem vencedor.

MR - Foi o que comentei daquele presidente de empresa, que disse: “Eu tenho todas as metodologias, tudo o que é mais avançado. Mas o que vejo quando sento com um grupo de diretores é que temos uma guerra para decidir sobre alguma coisa”. Tudo mundo quer ganhar, então já se entra com uma opinião formada, querendo convencer os demais. Ele falou assim comigo: “Eu preciso trabalhar a redução do ego porque preciso das pessoas não querendo vencer, mas contribuindo”. E desapego porque, às vezes, nenhuma sugestão será escolhida, vai emergir uma terceira solução que ninguém antes tinha pensado.

P22 - É muito mais difícil conduzir uma organização com esse grau de diálogo e toda essa contribuição coletiva, certo? E quando as decisões precisam ser rápidas? Não precisa de hierarquia?
MR - Sem dúvida. Por isso, o que você tem de trabalhar é a base, o propósito da organização. E o propósito tem de estar muito claro para todo mundo. A gente dá o exemplo da empresa americana Gore Associates (voltada para a descoberta e inovação de produtos).

SR - Pelo fato de ter valores, a Gore não precisa de muitas regras, isso é o mais surpreendente. Eles não precisam de burocracia, porque têm valores.

MR - Quando surge, por exemplo, uma questão com um cliente, as pessoas têm condição, em qualquer nível da organização, de tomar uma decisão baseada em valores que não vá ferir a organização e nem depender de subir lá no topo para o chefe dizer: “Faça isso”. Claro que, se for uma decisão que requeira um nível de liderança superior, você leva essa decisão para cima. Mas não é hierarquia exatamente, e sim a liderança convivendo com a colaboração. É uma organização mais híbrida nesse sentido.

P22 - No Brasil há organizações com essa característica híbrida?
SR - A Chaordic é um exemplo. O fundador da Visa, o Dee Hock, cunhou esse termo “chaordic”, que significa a intersecção de caos e ordem. Um sistema com muita ordem fica engessado, burocratizado, você busca o controle total. Uma hora, esse sistema vai parar. Por outro lado, um sistema totalmente caótico perde as bases e se desintegra. Então ele disse que precisa haver um espaço no meio.

P22 - Fazendo um paralelo com o que disseram antes, é o espaço entre a liderança e a colaboração?
MR - Exatamente. É preciso dar espaço para ideias surgirem, sem prejulgamento. Por isso que o trabalho de Holonomics é nas pessoas, a gente fala que é um trabalho no sistema operacional mental. Não adianta melhorar os softwares, se não mexer no sistema operacional. É o caso do Balanced Scorecard, que provém de um pensamento sistêmico. Quando ele coloca todas as relações entre perspectivas do mapa estratégico, eu tenho de olhar para as relações. E muitas organizações implementam a metodologia com a visão antiga, como um sistema de indicadores. O resultado é que vou ter mais indicadores para controlar. Pego uma metodologia com grande potencial, e terei resultados bem reduzidos. O Simon fala que ver é um ato de humildade. Tenho de estar desprovido dos meus juízos de valor, não vou julgar se você começa a falar alguma coisa que está em desacordo com meu modelo mental, mas vou procurar saber por que você está falando assim, o que o levou a isso, quais os seus fundamentos. Mas isso é uma postura, eu tenho de estar aberto a isso. No Chaordic, eu tenho controle para gerenciar e espaço para ouvir o que está surgindo, para ver se tenho espaço para melhorar. Por isso esse espaço é conhecido como o da criatividade e da inovação.

SR - Empresas brasileiras têm muito a aprender com isso porque, em geral, têm uma burocracia rudimentar. A burocracia e as regras têm limitado o potencial de inovação. Se você olha para a natureza, ela é sempre criativa, nela você encontra ordem e caos.

P22 - Pode dar um exemplo?
SR - Pense no coração, há uma pequena diferença entre cada batida, elas não são todas iguais, o padrão é caótico. Mas, no conjunto, na curva de flutuação das batidas, a média apresenta uma regularidade. O coração é um sistema muito complexo e precisa dessa flexibilidade. Às vezes, o organismo precisa de mais sangue, outras vezes, conta com menos oxigênio, outra vezes, sofre alterações emocionais. Por isso precisa ser aberto às oscilações. Se fosse rígido, fixo, não teria espaço para essas alterações e pifaria. A natureza funciona assim, isso é resiliência.

MR - Quando um órgão do corpo está mal, os outros compensam. Já as organizações, quando uma área está com problema, eu vou resolver a área, eu mudo o diretor, ou o gerente. Mas, de repente, essa área pode estar recebendo demandas erradas de outra. Sem uma visão do sistema, tendo a corrigir os problemas de forma separada e não consigo identificar onde está a causa.

P22 - Voltando à Chaordic, o que ela faz?
SR - É uma empresa de e-commerce, que tem como clientes a Saraiva e a Casas Bahia. Eles não têm job description da mesma forma que as empresas em geral, e isso permite a ela criar equipes, novos serviços, responder de forma muito rápida ao que o cliente pede. Como não se prendem à descrição de cargos, conseguem reagir de forma muito ágil. E podem ser muito criativos no que fazem. Em uma base muito sólida de valores. Antes de criar a companhia, eles leram muito sobre suas empresas favoritas, como Amazon, Google, Netflix, sobre como essas empresas se organizam e se deram conta de que a missão é criar a melhor companhia para trabalhar, com pessoas felizes, produtivas. Eles se basearam muito na visão da Visa. Seu fundador, o Dee Hock, criou a Visa com base em dois conceitos: colaboração e competição.

P22 - Que é bem como funciona a natureza.
MR - Exatamente. Ele era um profundo estudioso de Biologia, então fez essa biomimética para o sistema de cartão de crédito: os bancos competem entre si, mas ao mesmo tempo colaboram, porque é um cartão único. É um sistema muito resiliente, que consegue passar por crises financeiras. Os fundadores da Chaordic basearam-se nessa ideia: a organização vai competir no mercado porque a competição é uma forma de evolução, mas sem rivalidade. No mercado, quando não se tem os valores humanos presentes, há mais rivalidade do que competição. Falamos de um mercado como “muito competitivo”, mas rivalidade é querer que o outro desapareça para eu poder dominar – isso é guerra, é dominação. Já a competição é buscar fazer melhor aquilo que já fazia e, sendo baseado em valores humanos, vou buscar fazer melhor para todo mundo, não só para mim. A colaboração é como todo mundo pode estar envolvido nisso ajudando a melhorar esse sistema.

Essa é a base da Chaordic. Hoje tem quase 100 funcionários, seus fundadores trabalham com a delegação de poderes, feita pela clareza dos propósitos da organização e pela liderança que emerge. Diante de uma questão a ser resolvida, como não existe rigidez no job description, junta-se um grupo para achar a solução para um problema específico. A pessoa que junta esse grupo é naturalmente um líder. Eu vou buscar quem é mais apropriado para achar um caminho para aquele problema, muitas vezes fora do departamento em questão.

P22 - Falamos do sistema caórdico. E quanto às estruturas em rede e ameba, que vocês citam no livro? Como isso se aplica às empresas?
SR - Quando começamos a estudar a natureza, vimos que ela não se organiza em uma hierarquia top-down. A natureza se auto-organiza, de um jeito muito próprio. A natureza é muito resiliente e resiliência, para nós, é fortemente associada à sustentabilidade. Quando estudamos os sistemas naturais, descobrimos que um ecossistema sustentável é o que equilibra eficiência com resiliência. Um ecossistema extremamente eficiente se torna frágil, como um vidro que não sobrevive a choques. Ecossistemas resilientes têm um nível de redundância e, se alguma parte fica danificada, outra parte tenta compensar. A natureza consegue encontrar um equilíbrio entre resiliência e eficiência.

MR - A natureza é eficiente no sentido de que tudo é usado – por exemplo, não há lixo –, mas, se em algum momento ela precisa usar mais recursos para resolver situações críticas, como seca extrema, falta de alimentos etc., ela usa. Não é como nas empresas que, em período de crise, corta custos transversalmente sem pensar de forma seletiva. No auge da crise de 2008, algumas organizações que atuam na indústria siderúrgica, por exemplo, cortaram 20% de seus custos de forma transversal. Com isso, cortou-se parte fundamental da empresa, e, quando o auge da crise passou, e a China voltou a consumir, essas organizações no Brasil estavam despreparadas, tinham perdido quadros importantes para os concorrentes. E não se pode formar pessoas do dia para a noite. Ou seja, na crise, o corte foi de forma padronizada, de uma maneira não cuidada. E na natureza não é assim – em uma crise, eu vou buscar mais energia em outro lugar. Esse é o sentido de eficiência a que o Simon está se referindo, e não o sentido econômico de eficiência que geralmente usamos.

SR - (Simon mostra uma foto) Esta é uma ameba. Quando há um monte de alimento, a ameba divide-se em vários indivíduos. Mas o que acontece em uma crise? Em um lugar com pouco alimento, os indivíduos se juntam, formando um só organismo, é como se cada uma virasse a célula de um órgão. Existe uma inteligência ali. Assim, consomem menos energia do que cada uma sozinha, isolada, consumiria. Este é o sistema de administração da Kyocera (empresa japonesa que atua com componentes elétricos, telecomunicações), eles são um exemplo de sistema ameba.

P22 - Quais são os maiores desafios para implantar essas visões e sistemas diferentes do convencional?
MR - Estamos em momento de forte mudança. Comparo com as transições da Idade Antiga para a Média, da Média para a Moderna. A diferença que identifico é que, nessas passagens, muitas gerações se sucederam. Já esta que estamos vivendo está acontecendo em uma geração. E é da nossa essência animal a necessidade de segurança, até para evoluir, então tendemos a nos apegar ao conhecido. O desafio é mostrar que essa nova forma de conduzir uma organização traz resultado. O que a gente faz, geralmente, é trabalhar dentro de um grupo ou área da organização, mostra os resultados desta nova forma de gerir, e com esses resultados, consegue reverberar e transmitir para a organização como um todo que esse pode ser um modelo diferenciado de gestão. Não é fazer o salto. A palavra-chave deste momento é transição.
(Página 22)
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Reportagem por  Amália Safatle, da Página 22

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Hobbes de bike

Luiz Felipe Pondé 
 
Outro dia, em visita profissional a uma das principais capitais do país (aliás, uma das minhas preferidas), vi uma cena muito significativa do Brasil atual. De primeira não acreditei, levando em conta o tipo de pessoa envolvida, mas, depois, fui obrigado a aceitar a realidade dos fatos. O que eu vi? Já conto. Antes alguns reparos. 

Já disse nesta coluna que estou mais pra Hobbes do que Rousseau em termos de rompimento do contrato social e da ordem pública, porque inclusive muito dos movimentos ditos sociais superestimam sua representatividade. Quando multidões se formam, em poucos minutos podem virar um grande instrumento de violência de massa. Ninguém é "bonzinho" quando se sente parte de uma massa de "iguais". 

Hobbes é o cara que viveu uma vida honesta e responsável e dizia que sem ordem degeneramos em violência porque a vida é precária, perigosa, breve e dolorosa. Rousseau é o carinha que mandou os filhos pro asilo, enlouqueceu sua mulher, mas dizia que somos anjinhos e que a propriedade privada e a ganância é que fazem sermos maus e que em multidões revolucionárias "curamos" o mundo. 

Voltemos ao Brasil. Por exemplo, com relação à Copa, essa coisa de "não vai ter Copa" é uma tentativa de estragar a alegria da maioria que nunca mais terá a chance de ver uma Copa no país. Isso não significa que não tenha havido abusos e absurdos na condução da logística e infraestrutura, mas nada disso justifica querer tornar a vida das pessoas um inferno com manifestações um tanto totalitárias. Os demais movimentos são naturalmente oportunistas no sentido que a medicina dá a certos processos infecciosos. 

E mais: duvido fortemente da suposta evidência de que sem movimentos de rua a sociedade deixe de se modernizar. A Revolução Francesa é um fetiche de professores que erotizam a política da violência "criadora". A França, como a Inglaterra, teria se modernizado sem a maldita revolução. A maioria dos movimentos políticos marcados por uma metafísica revolucionária (jacobinos, Rússia, Cuba, China, Vietnã, Leste Europeu até a queda do muro de Berlim e outros) não serviu para nada a não ser para matar seus inimigos com desculpas metafísicas ou enriquecer seus líderes corruptos com o passar do tempo. 

É fato surpreendente que o mesmo tipo de gente que se diz contra guerras goza com a ideia de revoluções. Acho que muita dessa gente goza mais gritando frases de efeito na rua do que transando. Mas muito psicanalista (e similares) por aí acha mesmo que a "verdadeira" clínica é a política. Toda teoria política com metafísica é totalitária em algum momento. 

Mas e a cena que eu vi? Conto pra você agora. Estávamos nós saindo de um restaurante à noite quando o farol em nossa frente fechou. Um grupo grande de ciclistas passou. Mas, quando o farol fechou pra eles, em vez de pararem de passar, como seria o correto, três deles barraram a passagem dos carros que tinham o direito legal de passar, como fazem os policiais militares em situações excepcionais. Ou seja, foram autoritários. 

Até aí, apenas mais um exemplo de que mesmo grupos que se julgam "do bem" (salvam o planeta pedalando, socializam durante as noites passeando, têm grana porque pobre anda de bicicleta durante o dia e rico anda de bike durante a noite) degeneram em violência quando em bando. 

Aí um quarto ciclista se aproximou das filas de carro barradas por eles, desceu da bike, levantou a "magrela" no ar com as duas mãos, como se fosse uma Uzi ou alguma metralhadora similar, e a sacudiu gritando algo incompreensível. 

Já vi aqui em São Paulo ciclistas fecharem carros, furarem o farol xingando o motorista (que também nem sempre é educado, diga-se de passagem), correndo riscos de vida. Na Dinamarca, capital das bikes chiques, vi comportamentos agressivos semelhantes. 

Fosse eu uma dessas pessoas que "postam fotos", o ciclista estaria famoso a esta altura. A pergunta é: com quem estaria ele se identificando? Eu tenho algumas hipóteses. Entre elas, o líder do Boko Haram da Nigéria e suas meninas raptadas.
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* Filósofo. Prof. Universitário. Escritor. Colunista da Folha.
Fonte: Folha online, 09/06/2014
Imagem da Internet

Nós estamos conectados

 
Você tem outro livro já publicado no Brasil, Quem é Você, Alasca?. A impressão é de que um ponto comum entre esse livro e A Culpa é das Estrelas é que ambos são histórias sobre como a vida de uma pessoa pode impactar e mexer com outras vidas. Faz sentido?

John Green*. Sim. Sou muito interessado na forma como as histórias nos conectam e em outras formas de nos conectarmos uns aos outros. Nós estamos conectados não só às nossas famílias e amigos, mas àqueles que vivem longe, aos mortos e aos que ainda nem nasceram. Nós, que estamos vivos, temos uma imensa responsabilidade sobre os outros. E mais, somos tolos se pensamos que nossas ações importam apenas para nós ou para os mais próximos. Toda vida afeta outra vida.
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*John Green é escritor americano que conhece bem o universo dos adolescentes.
Fonte:  http://www.saraivaconteudo.com.br/Materias/Post/47175

O CÉREBRO

 L. F. Veríssimo*
 
Lembra quando se dizia que determinado jogador era o cérebro do time? Foi uma das expressões que desapareceram do glossário do futebol, como “cabeça de área”. Era uma denominação imprecisa. Não significava que o jogador monopolizava a inteligência do time. Nem deveria ser tomada literalmente, como uma descrição anatômica (assim outro jogador seria o pulmão do time, outro o coração, outro o fígado...). O cérebro do time era geralmente um centromédio – outro termo que desapareceu – que “pensava o jogo” e distribuía a bola com sabedoria. Orientava os companheiros, municiava o ataque com passes certeiros e só não jogava fumando um cachimbo metafórico, para completar sua imagem professoral, porque o juiz não deixaria.

O futebol mudou e o meio do campo não é mais um lugar seguro para intelectuais. É onde o domínio do jogo é disputado com rudeza, a machadadas, e não há tempo nem espaço para a sabedoria. Hoje você olha o meio-campo da Seleção Brasileira com uma nostalgia difícil de definir – até se dar conta de que está procurando o “cérebro”. Você está com saudade do antigo “cérebro”. E não vê nada sequer parecido no time do Brasil.

Eu já tinha me resignado a nunca mais ver um “cérebro” em campo, convencido de que a espécie simplesmente se extinguira, como os dinossauros. Olhava em volta e não via nem um simulacro. Via Xavi, grande jogador, mas não exatamente o que procurava. Via Pirlo e via Schweinsteiger, também grandes jogadores, mas não cérebros. E então, assistindo pela televisão o amistoso entres os Estados Unidos e a Nigéria, me apareceu um “cérebro” clássico. Eles ainda existem! Ou pelo menos existe um: o Michael Bradley, aquele careca com o numero 4 dos Estados Unidos. Não sei se Bradley foi uma aparição ou se confirmará na Copa as suas qualidades de meia-armador à antiga. O que nos interessa não é o americano, mas o fato de que não há ninguém como ele no nosso time.

Nosso meio-campo é bom. Luiz Gustavo é pegador. Paulinho, Ramires, Hernanes etc., todos ótimos. Mas não há um Bradley entre eles.
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* Luis Fernando Veríssimo. Jornalista. Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH online, 09/06/2014

domingo, 8 de junho de 2014

Niilismo da beleza em Agamben

Rossano Pecoraro*
HU On-Line – Em que consistira o niilismo da beleza, ao qual se refere Agamben em Nudità? Rossano Pecoraro –Devemos nos entender a respeito desse livro recém-lançado na Itália.  Nudi-tà ( Nudez) é uma coletânea, bastante diversifica-da do ponto de vista temático, de ensaios e textos  curtos, alguns dos quais já publicados no passado e que se concentram em argumentos como o sujeito e o impessoal, a calúnia na obra de Kafka, a fotografia, a dança, a práxis da arte... E principalmente em dois temas de grande importância, decisiva contribuição talvez ainda porvir de Agamben à discussão contemporânea, vale dizer, a “inoperosidade” e a “estética da existência”. 

Quanto à expressão “niilismo da beleza”, ela é usada quase de passagem e em um sentido bastante amplo, em um dos escritos, intitulado justamente Nudità, que compõem o livro. Niilismo, aqui, designa a redução da beleza a pura aparência. Trata-se de uma atitude, escreve Agamben, “comum a muitas belas mulheres”, que, mediante essa “redução”, esse “desencanto da beleza”, essa forma “especial de niilismo”, transfiguram a sua beleza em pura aparência, em mero “valor de exposição”, cuja exibição dissolve toda ideia de que ela (a beleza) “possa significar algo que não ela mesma”.

 Este niilismo, porém, denuncia também a presença de um fascínio singular, um abismo de conteúdos no invólucro da aparência, os segredos que se revelam na nudez quando ela ao mostrar-se declara com desdém e impudência: “Olhe então essa absoluta, imperdoável ausência de segredo!”. A nudez, pois, que “como uma voz branca”, sem máculas, inocente, “não significa nada e, exatamente por isso, traspassa-nos”. E que, sobretudo, “desativa o dispositivo teológico” que afirma a distinção entre a graça e a corrupção, deixando entrever destarte “o simples, inaparente corpo humano”.

IHU On-Line – Nosso mundo é obcecado pela beleza? Que evidências demonstram isso? 
Rossano Pecoraro – Não sei se há evidências dessa obsessão. Há sim uma série de sinais que atravessam a atualidade: as capas de jornais e revistas, as tendências da moda e da propaganda, a influência da “personalidade” e dos “ideais” dos vários BBBs confinados nas casas espalhadas pelo mundo, a Ge-stell (termo heideggeriano de grande interesse, que traduzo, de acordo com Gianni Vattimo, como “im-posição”) de padrões baseados na aparência, na busca pela perfeição, na recusa do envelhecimento etc. Todavia, o culto à beleza e ao corpo possui raízes, e razões, antiguíssimas; e os sinais do nosso tempo que nisso insistem devem ser interpretados de uma forma menos preconcebida, mais crítica e rigorosa. É o que Agamben faz.

HU On-Line – A supremacia expressiva do rosto não está sendo suplantada por uma obsessão do corpo pela forma perfeita, por um padrão físico momentâneo? 
Rossano Pecoraro – Na minha opinião, não se trata exatamente disso. Para Agamben, no ensaio que estamos examinando, a nudez de um corpo parece colocar em questão a supremacia do rosto; na verdade, porém, o corpo nu se põe “ele mesmo como rosto” e por sua vez o rosto carrega, desvela e exibe a nudez do corpo. Como disse em precedência, o que está em jogo é a tentativa de não pensar mais em termos de lógica binária, de oposições, dicotomias e substituições.

HU On-Line – É possível conectar as de Nudità com o conceito de vida nua? Por quê? 
Rossano Pecoraro – Não sei. Não temos muitas pistas para acompanhar essa reflexão ensaística (isto é: prova, experiência de pensamento, tentativa) sobre a nudez. De qualquer maneira, um primeiro passo para possíveis conexões deveria ser estudar as relações entre uma das categorias fundamentais no “sistema” agambeniano, justamente a “vida nua”, a biopolítica e o anseio pela possibilidade de uma “nova política”, o método arqueológico e as ideias mais recentes que busquei sintetizar na resposta à sua terceira pergunta.
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* Filósofo.
Fonte: IHU:  http://www.ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/formacao/45_cadernosihuemformacao.pdf-  
Trechos da entrevista.
 Imagem da Internet

Vladimir Safatle: "O Brasil sofre de transtorno bipolar"

 Vladimir Safatle: "O Brasil sofre de transtorno bipolar" Fernando Donasci/Divulgação,Folhapress
 Para professor da USP, o melhor para pensar o Brasil é escapar da dicotomia otimismo x pessimismo

Para o filósofo Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP e autor de livros como A Esquerda que Não Teme Dizer seu Nome Grande Hotel Abismo: Por uma Reconstrução da Teoria do Reconhecimento, o primeiro passo para pensar melhor o Brasil é superar a “mania-depressão” em que os brasileiros oscilam, ora achando que são os melhores, ora os piores do mundo.

Em entrevista por telefone, o professor da USP analisa o legado das manifestações de junho. Ao mesmo tempo em que comemora uma “latência do possível”, identifica um vazio.
– A gente está num momento de vazio político que o Brasil nunca conheceu. Desde 1930 você tem ciclos políticos no Brasil em gestação. Agora temos um ciclo que se esgotou e não tem nenhum outro no lugar – observa.

Na época das manifestações de junho do ano passado, o senhor afirmou que uma sociedade que passa por tamanhas mobilizações populares fica para sempre marcada. Qual é a marca mais visível neste primeiro ano das manifestações?
Vladimir Safatle –
Ficou a abertura de um campo de instabilidade e de indeterminação na política brasileira. Em maio de 2013, se alguém chegasse e dissesse: daqui a um mês nós vamos ver 1 milhão de pessoas na rua, essa pessoa seria vista como uma caricatura. Hoje ninguém tem coragem de dizer que não é possível. Então abre uma latência do possível. Há muito mais coisas possíveis do que antes. E acho que isso é um dado muito importante, porque através da abertura dessa latência novas experiências políticas podem ser paulatinamente formadas. A gente tem uma ideia meio instantaneísta das ações, de achar que uma ação produz o seu efeito no instante em que ela aparece. E nem sempre é assim. Às vezes ela demora muito tempo para produzir de fato seus efeitos. 

Em coluna recente na Folha, o senhor cita Deleuze dizendo que o novo nunca aparece de uma vez. Que o novo, para poder sobreviver, precisa revestir-se por um tempo da capa do já visto. Esse elemento está aparecendo agora?
Safatle – 
Eu acredito muito nisso. O que há de mais novo nisso é a formação de novos sujeitos políticos. Não são aqueles atores vinculados às instituições tradicionais, vinculados a sindicatos, partidos. São atores que aos poucos vão aparecendo em cena, inclusive trazendo tópicos que antes poderiam parecer totalmente despropositais, como transporte público gratuito, a restrição do valor dos aluguéis, o problema do déficit habitacional. Essas questões vem aparecendo com cada vez mais força, porque são a exposição mais sistemática da irracionalidade do modelo político e econômico ao qual o Brasil está submetido há muito tempo.  

Quais as principais diferenças entre os protestos de 2013 e os de agora?
Safatle –
Os de agora ainda não têm muita cara, porque estão no início. A gente não sabe de fato quais são os protestos de agora. A gente viu alguma coisa aqui em São Paulo, em algumas outras cidades, algo muito pontual. Falar qualquer coisa neste momento seria muito temerário. Mas uma coisa é certa: a gente está numa situação em que tudo pode acontecer, inclusive nada. Mas pode acontecer qualquer coisa, haja viso o aparato militar que o governo montou, com medo de aconteça.

E pensando no futuro: para onde estamos indo? Tem como prever alguma direção?
Safatle –
Com certeza a gente está indo para uma situação melhor do que antes. Faz parte da política brasileira que ela se decida em grande medida nas ruas. Esse é um dado da história do Brasil. A gente teve um momento nos últimos 20 anos de estabilidade, graças aos governos Lula e Fernando Henrique, em que houve menos manifestações de rua. Mas nos anos 80 tinham greves gerais no Brasil, tudo parava. Nos anos 60, o Brasil era um país de alta mobilização, tanto à esquerda quanto à direita. Então eu diria que nós estamos simplesmente voltando para esse padrão de atuação política brasileira, que eu diria muito melhor, porque não é o padrão dos lobbies, dos acordos partidários escondidos, dos conchavos eleitorais. Mas é o padrão do conflito de expectativas no interior da sociedade. Acho que você tem os verdadeiros atores aí. O problema do outro modelo é que a política se transforma num grande acordo florentino, dos acertos entre partidos, que isso é o que faz com que a população tenha uma descrença em relação à política.

No livro A Esquerda que Não Teme Dizer seu Nome o senhor afirma que a esquerda abriu mão dos fundamentos de sua política, acuada por críticas e experiências feitas enquanto estava no governo e seduzida pelos "confortos do poder". E defende que a esquerda recoloque no debate político tudo aquilo que seria "inegociável": a defesa radical do igualitarismo, da soberania popular e do direito à resistência. Como o senhor vê hoje os rumos da esquerda no Brasil?
Safatle –
 Estamos numa situação bastante complicada. Existe uma demanda por uma política de esquerda mais clara. Durante muito tempo se fez pesquisa sobre direita e esquerda no Brasil e se chegava à conclusão de que a maioria da população era conservadora. Até porque boa parte das pesquisas eram baseadas em questões de costume: "você é contra ou a favor do aborto? O que pensa do casamento homossexual?" Quando se colocaram questões econômicas: "você é contra ou a favor da intervenção do Estado?", o número de pessoas de esquerda aumentou exponencialmente, o que demonstra, muito claramente, uma consciência tácita da população brasileira de que há uma política, principalmente do campo econômico à esquerda, que é mais adequada ao Brasil. Mas ela desapareceu do debate, pura e simplesmente. Não há política de esquerda sem pelo menos três questões fundamentais: primeiro, uma defesa radical do igualitarismo. A gente vive num país onde mesmo essas questões que são pautas reformistas sociais democráticas clássicas, como imposto sobre grandes fortunas, estão ausentes do debate político brasileiro. Que são pautas que poderiam indicar onde o Estado poderia conseguir se financiar para oferecer serviços públicos de qualidade para seus cidadãos. O segundo ponto é a defesa radical da democracia direta. Existe uma tradição ruim na esquerda, que é uma tradição dirigista, centralizadora. Há uma exigência de mostrar que nós podemos avançar muito no modelo de democracia que não só apenas os processos decisórios, mas de gestão, sejam pensados em democracia direta. E o outro, que é fundamental para a esquerda, é o direito humano, que é o direito de resistência. Falar em direitos humanos é falar em resistência. O que está longe de ser o caso do Brasil, onde se criminaliza qualquer tipo de revolta, o mais rápido possível. 

Depois de seu nome ter sido substituído na candidatura do governo de São Paulo sem aviso prévio, o senhor fez críticas contundentes à direção do PSOL e defendeu a necessidade de "uma esquerda não dirigista". O que fica dessa experiência pessoal?
Safatle –
Primeiro, o PSOL é um partido de muitas tendências, muito diferentes uma das outras. Isso pode parecer um problema, mas também pode aparecer como uma força. Existe uma militância muito ligada à juventude no PSOL que tem uma consciência muito clara da necessidade de inventar um novo tipo de organização, que não seja simplesmente a repetição de velhos vícios de organizações de esquerda, que são um elemento deslegitimador. Acredito que boa parte da desconfiança de parte da população em relação à esquerda se dá por isso: para você ter legitimidade do que você fala, você tem que mostrar que é capaz de fazer dentro da sua casa o que se propõe a fazer fora de casa. E isso falta, em larga medida. Você não pode propor uma prática profundamente democrática se você enquanto organização está longe de ter democracia interna. 

Qual é o maior desafio de um filósofo na política partidária?
Safatle –
É entender que a filosofia não produz acontecimentos, os acontecimentos são produzidos fora, e nós simplesmente procuramos ir onde o acontecimento está. Por que eu aceitei uma coisa dessas? Porque sempre houve dois tipos de intelectual, ou pelo menos hoje é assim. Aqueles que são ligados a suas especialidades, e falam a partir de suas especialidades, e aqueles que se transformam em intelectuais orgânicos, totalmente vinculados às pautas de partidos. Então um muito longe, um muito perto do processo. E eu acreditava que era possível fazer alguma coisa no meio do caminho. Você entra em um dado momento, para você conseguir pensar mais perto das coisas, e depois você sai, para que você possa saber o que você realmente possa fazer. Eu ainda acredito que isso seja possível, necessário. 

Na Europa estamos assistindo a uma elevação da extrema direita, em parte associada a uma desilusão com as políticas de esquerda. Esse movimento o preocupa?
Safatle –
Eu acho que é um dos movimentos mais sérios e graves da história nos últimos 40 anos. Essa extrema direita não veio para ir embora. Isso não é um ponto fora da curva. É um processo que está em crescimento contínuo há pelo menos 10 anos. Eles vieram para ficar, porque é uma direita popular. Não é uma direita clássica, ligada a certos setores, sistema financeiro. É uma direita inclusive capaz de mobilizar algumas políticas de esquerda para continuar com sua lógica de exclusão, de ódio racial, de paranoia identitária, de xenofobia. É  realmente fascista. Mais uma vez a Europa demonstra que em situações de crise ela não tem outra resposta a não ser realimentar as suas paranoias identitárias, como um sistema defensivo, ao invés de reinventar sua política socioeconômica. É uma crise que nunca foi produzida por imigração, ao contrário. Tem um estudo da OCDE que saiu no ano passado que demonstrava que a Europa precisava era de mais 35 mil imigrantes se quisesse continuar o nível de produção com o acúmulo que se encontra hoje. Então nunca foi um problema de imigração, e sim um problema ligado à maneira como a comunidade europeia se descapitalizou rapidamente ao entregar um trilhão de euros ao sistema financeiro internacional, e agora isso é visto como um problema cultural-imigratório. Você transforma um problema econômico num problema cultural. Isso eles conseguiram fazer de maneira perfeita. Você pega a política do partido (socialista) francês hoje, do ponto de vista de debate cultural e de imigração, não se diferencia nem uma vírgula da política pregada pela Frente Nacional (de extrema-direita). E você teve casos do ministro do interior de então, hoje o primeiro ministro Manuel Valls, que fazia caça contra ciganos. E estamos em 2014. Fazendo discurso que eles não tem os mesmos valores que nós temos, que implica em direito de Imigração. Chega uma hora em que as pessoas olham e falam: eu prefiro o original à cópia.

Parte dessa ocupação pela extrema direita seria uma omissão da política socialista?
Safatle –
Você pode colocar isso na conta da política socialdemocrata com certeza. Se os sociais-democratas que estavam governando a Europa nos anos 90 tivessem sido mais duros em relação à política de direitos humanos mais efetiva e menos discriminatória, com integração política dos imigrantes... Você pega a Assembleia Nacional francesa, vê quantos descendentes de árabes têm? Não deve ter três, numa Assembleia de mais de 500 lugares. Isso em uma população onde se tem mais de 10% de árabes. Que integração é essa, em que você não partilha poder? Não existe isso.

Em seu livro O Cinismo e a Falência da Crítica, o senhor aponta um esgotamento da crítica tradicional do capitalismo e propõe o cinismo como uma categoria para análise das dinâmicas da racionalização em operação no capitalismo contemporâneo, com a chamada racionalidade cínica cunhada por Sloterdjik. Quais são as manifestações mais evidentes desse cinismo na sociedade brasileira atual?
Safatle –
 O cinismo não deve ser compreendido como um julgamento moral. Tem uma peculiaridade nessa discussão sobre o cinismo que são esses momentos em que o discurso é capaz de se estabilizar mesmo com falta de legitimidade. Mesmo em situações de crise de legitimidade, você continua agindo como se nada tivesse acontecendo. Você não precisa mais estar convicto do que você faz para agir. Você age mesmo sem convicção. Esse é um dos piores sintomas da vida social contemporânea. Posso dar uma imagem para isso. Freud descrevia um sonho que ele teve, em que estava numa mesa, com a família, e o pai conversava com todo o mundo de maneira normal, mas Freud começa a chorar, dizendo: meu pai não sabia que estava morto. Ele agia como se estivesse vivo, mas estava morto. Nossa vida contemporânea tende a funcionar quase dessa maneira: você age como se nada estivesse acontecendo, como se tudo estivesse garantido, do ponto de vista de legitimidade, mas ninguém mais acredita nos próprios papéis. Mesmo a socialização de nossa criança: elas consomem hoje desenhos animados em que os próprios personagens criticam os papéis que representam. Esse modelo é um dos piores, porque não se trata mais de criticar tentando desvelar alguma coisa que a pessoa não saberia. Você é obrigado a ver a impotência da sua crítica diante de um sistema em que ninguém mais acredita nas figuras de poder, e é exatamente porque ninguém acredita que elas permanecem. Porque se você pedisse crença para as pessoas, elas diriam: agir já é difícil, agir com convicção é um pouco demais.  

Qual a sua opinião sobre o livro Capital no Século 21, do economista francês Thomas Piketty, que vem causando polêmica ao apontar um aumento no crescimento da desigualdade de renda no mundo nas últimas décadas?
Safatle –
É impressionante a polêmica, porque o livro é simplesmente óbvio. Ele simplesmente demonstra: veja, nosso capitalismo, é um capitalismo patrimonial, no qual um conjunto limitado de famílias continua detentora do capital durante décadas. Durante todo o século 20, não teve grandes modificações. Essas famílias vão criando um sistema rentista, se alimentando das fortunas acumuladas, e vão conseguindo influenciar os governos,  e os governos vão criando situações cada vez mais favoráveis para o rentismo. Ou seja: não para produzir, mas simplesmente aproveitar sua riqueza e investir num sistema financeiro que é cada vez mais autossuficiente, mais autônomo. Essa é uma das razões para explicar porque a nossa desigualdade regrediu ao nível do século 19. A única coisa fantástica no livro é que ele  simplesmente mostrou isso. Os dados são de uma obviedade absoluta. E a gente ficou durante 20 anos dentro desse mantra neoliberal de que a gente estava numa sociedade de produção de riquezas, uma sociedade de ascensão ligada a sua capacidade de empreendedorismo, sua força de inovação, e blabla. E ele mostrou que isso era falso. A quantidade de pessoas que tem mobilidade social é mínima. Isso que é triste. Essa era a discussão que a gente devia estar tendo hoje. Ninguém está falando da estatização total dos meios de produção, da sociedade socialista, do comunismo cubano. São questões muito concretas, que as pessoas sentem isso na pele.

O Brasil tem vivido um espírito de ame-o ou deixe, com uma parcela da população  muito otimista, e outros muito pessimistas. Onde o senhor se alinha?
Safatle –
O Brasil sofre de um transtorno bipolar, a gente vive da mania-depressão. Tem momentos em que se acha que o Brasil é a nova Roma, como dizia o Darcy Ribeiro, que vai mostrar ao mundo o caminho da transformação. E tem momentos em que você acha que o Brasil é a catástrofe mundial, que é o pior país do mundo, o país onde tudo dá errado. Esse tipo de bipolaridade, que também afeta os intelectuais, deveria ser superada de uma vez por todas. O Brasil é um país cuja população tem uma força incrivelmente resistente contra uma série de desmandos, tem uma história de resistência inacreditável, e tem também várias oportunidades perdidas, como todo grande país. O que você não pode no Brasil é viver é entre a mania e a depressão. Se você conseguir escapar desse tipo de acepção, talvez você consiga pensar melhor o Brasil.
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Reportagem por leticia.duarte@zerohora.com.br
Foto: Fernando Donasci / Divulgação,Folhapress
Fonte: ZH online, 08/06/2014

sábado, 7 de junho de 2014

Obra de Nicanor Parra ecoa na poesia brasileira, mesmo sem livros seus traduzidos no país

 Carlito Azevedo*

O poeta chileno Nicanor Parra, que completa 100 anos em setembro
Foto: El Mercurio 

Antipoesia pode ser encontrada em João Cabral, nos marginais e até na bossa nova

Querido Parra, era preciso que um poeta brasileiro, menino prodígio dos matagais, não dos maiores, mas dos que saúdam as carroças e derramam lágrimas pelo aviador extraviado no nevoeiro, anjo boxeador vencido pela própria sombra, viesse dizer que desde sempre estivemos preparados para recebê-lo com sua poesia por aqui. Nós, que limitamos ao norte com o inferno de Wall Street, de Sousândrade, nossa cordilheira, e por toda a parte pela poesia pau-Brasil de Oswald de Andrade (“Amor/humor”), tendo ao centro a pedra no meio do caminho de Drummond, estivemos sempre esperando que você chegasse. A antilira de João Cabral já prenunciava a chegada dos antipoemas, do antipoeta. As vanguardas beberam em Pound, sim, mas também se nutriam, felizmente, de folhas de parra. A poesia marginal dos anos 70 era, sem saber, cria sua, e quando um jovem Nicolas Behr gritava, ainda à sombra dos generais sem flor: “Quem teve a mão decepada/ levanta o dedo”, não estava longe do seu luminoso “Aparecer apareceu/ só que numa lista de desaparecidos”. A mesma ditadura nos cortava os fluxos vitais, de Chile e Brasil, o mesmo riso nos dignificava.
 
O que era preciso então dizer é que mesmo sem uma edição decente de sua poesia circulando no país sempre fomos parrianos. E como a poesia é muito caprichosa, e disso sabem os bailarinos à beira do abismo que com ela vão flertar, nunca fomos nerudianos. Cada novo modo de tratar a linguagem, já se disse, acarreta uma nova forma de estar no mundo. Sempre quisemos fazer como você, estar no mundo de um modo novo, não retórico.

E agora que você chega aos 100 anos e continua a dançar sua dança, e continua a se perguntar o que é mais real, a água da fonte ou a garota que nela se contempla, e continua a pedir que se faça de barro a sua estátua, para que dure o menos possível e porque a mais feia pedra é superior sempre à mais bela estátua, o melhor que posso pedir é que sigamos parriando.

O que quer dizer também: oferecer a outra face, se nos beijam ou esbofeteiam, mas não dispensar a possibilidade de um direto no queixo do antagonista. Fazer uma ou outra menção às andorinhas e a cada nove versos escrever um que seja tremendamente obscuro, que ninguém entenda, nem nós. Seguir pedindo ao Cordeiro de Deus um pouco de lã para costurar um suéter nos dias frios, e que não se imiscua em assuntos sagrados.

Por falar em sagrado, segundo você o amor destrói os homens e as mulheres. E não há seres humanos que nos toquem mais do que estes: os destruídos, quebrados, os homens e mulheres imaginários, fugindo de Santiago ou Rio de Janeiro para Puerto Montt ou São Paulo num trem que está parado, instantâneo como um sonho, e onde se atropelam com malas e bagagens e tropeçam e se conhecem e se reconhecem no abismo da viagem, no torvelinho. Só esses têm alguma coisa a dizer sobre a vida: as marias, pedros, simones, natashas, palomas, carlos, as de dois metros de mármore de Carrara e as que devemos iluminar à noite, no escuro, com um fósforo (aquela sim foi uma noite de Walpurgis), e nos revelam o enigma do tempo e as arbitrariedades do espaço, mesmo se falta café ao despertar. A literatura é feita, toda, por tais ressuscitados Lázaros que, cenho franzido, voltam sempre do inferno de Dante para tornar a encenar a mesma comédia do amor que destrói o homem e outras estrelas. Aqui estamos, até aqui chegamos.

O caso é que seus antipoemas me parecem presentes até no desafinado da bossa nova, seus poemas de emergência, seus artefatos, pareciam, ao jovem de vinte anos que os descobria, conter tudo o que poderia desejar aquele que não teme descer montanha-russa abaixo pela própria espinha e sentimentos. Suas canções russas sempre me lembraram Ossip Mandelstan indo para a Sibéria e sussurrando ao ouvido de sua corajosa Nadejda: “Quem lhe meteu na cabeça que você deveria ser feliz?” Quem nos meteu isso na cabeça, Nicanor? “O mundo é o que é e não o que um filho da puta chamado Einstein diz que é”, ou Freud, ou Marx, ou o Cristo de Elqui, como gritaram, não sei se em desespero ou se em amor, as tantas vozes com que você dinamitou seu próprio edifício antipoético quando lhe pareceu que corria o risco do museu, do unívoco. Mas cuidado, Parra, que esquerda e direita unidas jamais serão vencidas, e olha que te expulsam de Cuba por comer um hot dog na Casa Branca, dos EUA por assistir a uma missa no Kremlin, olha que te agarra a bocarra da Perspectiva Nevski.

Vivemos, desde Adão e Eva (para não ir muito longe), uns tempos calamitosos e como disse Stéphane Mallarmé: os contemporâneos não sabem ler poesia, e tudo é poesia (menos, é lógico, a poesia). Ainda bem que aí está você, que aí sempre esteve você, como quando os que ontem exigiam a cabeça dos ditadores passaram a se conformar com o fato de eles agora estarem mais bem penteados pelo salão de beleza da democracia televisionada, para indagar e nos ajudar a indagar: “E agora, quem nos libertará de nossos libertadores?”

Este é só um desejo de feliz aniversário, feliz centenário, querido Parra. Quis o destino que você chegasse aos 100 anos quando começamos, por aqui, a descobrir se somos um país ou paisagem só.
Um abraço fraterno.

P.S.: Começa a cair um pouco mais de chuva e é sempre sob um pouco mais de chuva que nos chega um amigo bem informado, semideus egípcio com cabeça de pássaro, dizendo que a poesia terminou conosco. A poesia terminou comigo, e neste post-scriptum também me retrato de tudo o que não disse.
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*Carlito Azevedo é poeta e tradutor, autor de “Monodrama”

DO QUE VOCÊ PRECISA PARA SER FELIZ?

 J.J. Camargo*
 
A busca de uma resposta aparentemente simples ao que pergunta o título da coluna de hoje mudou a minha vida.

Com a possibilidade de continuar na famosa Clínica Mayo, retornei a Porto Alegre para encontrar a minha amada Santa Casa agonizante, e trouxe na mala de garupa um prazo para a decisão de voltar, que atormentou todas as minhas madrugadas naquele inverno.

Angustiado, e querendo a opinião de pessoas mais experientes, ouvi do Bruno Palombini aquela pergunta, completada com a sabedoria de sua cabeça luminosa: “Quando a gente responde essa questão, todas as outras decisões brotam espontaneamente!”.

Retrospectivamente, a opção por rejeitar um futuro que estava pronto e voltar para construir um novo, contra todos os desafios, ainda hoje pode ser questionada, mas naquele dia eu soube que até podia nunca realizar meus sonhos, mas os instrumentos estavam aqui. Claro que essas escolhas dependem também da nossa condição de aborígenes e de como valorizamos as nossas raízes, e do quê e quanto sentimos saudades. E isso é de cada um, e sem manual de instruções.

Mesmo com essas ressalvas, me espantou a história de um recente companheiro de viagem que, depois de visitar a família no Brasil, estava voltando para os EUA, onde vive há 13 anos, e já trabalhou numa variedade enorme e díspar de atividades. Segundo ele, estava enfim construindo o seu pé de meia para voltar para casa daqui a alguns anos, e se aposentar. Não resisti perguntar: “Mas o quê você mais gosta de fazer?” .

A resposta foi enfática: “Ganhar dinheiro é a única coisa que faz com que eu me sinta poderoso!” Não lembro de mais nada depois dessa frase, exceto de um sono repentino que me derrubou.

Na despedida, um cartão e um convite para visitar sua nova conquista, uma fantástica empresa de reforma de residências, em Michigan. Assegurei que tinha enorme interesse no assunto e nos dissemos adeus. Para sempre.

Que o dinheiro traz segurança, autonomia, confiança, independência e liberdade, todo mundo sabe. Mas o alto índice de drogadição, alcoolismo e suicídio entre grandes empresários sugere que ele não se basta.

E tudo por conta de uma verdade reconhecida em todos os níveis sociais: existem ingredientes imprescindíveis para a construção da autoestima que o dinheiro se insinua, ronrona, massageia, ameaça, pressiona, avaliza, mas não compra.

Também é sabido que uns nascem para ser grandes, outros se contentam em ser pequenos mas, se, em algum momento da vida se cruzarem, neste instante, eles terão exatamente o mesmo tamanho.

O poeta José Maria Rilke, acompanhado da secretária, costumava passear todas as tardes em torno do quarteirão onde vivia, em Viena. Sistematicamente, jogava uma moeda para uma velha que mendigava na esquina. Um dia, não dispondo de moedas e, tendo ganho uma flor, por impulso ofertou a rosa à pobre mulher.

Ela, aparentemente assustada com o presente inesperado, recolheu seus trapos numa sacola velha de pano sujo e desapareceu. Passados três dias, lá estava ela, outra vez instalada na esquina.

Aliviada ao revê-la, a secretária perguntou: “Do que será que ela viveu nesses três dias?” . Ao que o poeta, sabiamente, respondeu: “Do significado da rosa!”.

As escolhas dependem também de como valorizamos as nossas raízes e do quê e quanto sentimos saudades, e isso é de cada um, e sem manual de instruções.
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* Médico
Fonte: ZH online, 07/06/2014
 


O BRASIL É UMA GRANDE POTÊNCIA

 David Paul Morris/Bloomberg / David Paul Morris/Bloomberg

Aos 77 anos, Madeleine Albright mostra-se surpreendentemente desarmada para quem foi uma das mulheres mais poderosas do mundo, como secretária de Estado no governo de Bill Clinton. Nos corredores do Copacabana Palace, ela caminhava e falava tranquilamente com lideranças empresariais na área de infraestrutura, que participaram de um encontro organizado pela consultoria McKinsey na semana passada.

Nascida em Praga, filha de um diplomata tcheco que fugiu duas vezes de sua terra natal - primeiro da ocupação nazista e depois do regime soviético -, a garota batizada Marie Jana fez sua vida nos Estados Unidos. No livro "Inverno de Praga - Uma História Pessoal de Recordação e Guerra, 1937-1948", recém-lançado no Brasil pela editora Objetiva, ela relembra esse refúgio e sua trajetória até cruzar o Atlântico, onde chegou ao centro das decisões mundiais na virada do século. Nesta entrevista, concedida em uma brecha entre inúmeros encontros com empresários no Rio de Janeiro, Madeleine fez uma análise das eleições legislativas que tiveram partidos de extrema-direita como destaque, falou sobre a crise na Venezuela e enfatizou a necessidade de reconhecer o Brasil como uma "grande potência". Ela acabava de voltar de Kiev, onde acompanhou as eleições presidenciais na Ucrânia, e fez questão de destacar que punições unilaterais, como as adotadas por Washington contra a Rússia, têm hoje efeito limitado. "A globalização deixou as nossas economias interconectadas de tal forma, em termos de negócios, que as sanções precisam ser multilaterais para funcionar de verdade", disse a ex-secretária ao Valor.

Valor: O ano de 2014 está cheio de efemérides, como os cem anos de início da Primeira Guerra Mundial e os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. À luz desses aniversários, o resultado das eleições legislativas na União Europeia parece ganhar ainda mais simbolismo. Como a senhora avalia essas eleições e o renascimento do nacionalismo que beira a xenofobia?
Madeleine Albright: O século XX foi o mais sangrento da história em termos de pessoas matando umas às outras simplesmente por suas origens. Sempre é fácil fazer analogias históricas. Há um renascimento de sentimentos nacionalistas, o que certamente levou à Segunda Guerra, mas desta vez é importante notar as megatendências em curso e suas contradições. Uma dessas megatendências é a globalização. Da mesma forma que deixa as pessoas mais próximas, ela faz com que também fiquemos meio perdidos. Nesse processo, as pessoas tentam se identificar cada vez mais com seus próprios grupos. Quando há dificuldades econômicas, isso acontece ainda mais. As estruturas de governança da União Europeia foram criadas sem que se tivesse consultado muito seus cidadãos. Houve a crise global e era preciso culpar alguém pelo que tem acontecido. Normalmente, coloca-se a culpa nos outros. E isso faz renascer o nacionalismo, refletido nas eleições, que mostram a insatisfação das pessoas com programas de austeridade e o tipo de vida que estão lhe impondo.

"A globalização deixou as (...) economias interconectadas de tal forma (...) que sanções precisam ser multilaterais 
para funcionar de verdade"

Valor: Qual deve ser a resposta dos líderes europeus diante do recado das urnas?
Madeleine: Foram eleições legislativas e o Parlamento Europeu, embora tenha mais poder do que tinha antes, não é um órgão verdadeiramente decisivo dentro do sistema. Mas o resumo é que os cidadãos europeus consideram não ter voz suficiente e querem ver seus grupos reconhecidos. Parte do problema é que pouca gente na UE tem ideia, por exemplo, do que é o Tratado de Lisboa. Talvez seja preciso mais democracia e mais empenho das autoridades para mostrar os prós e contras da integração.

Valor: A senhora esteve na Ucrânia, no domingo retrasado, para acompanhar pessoalmente as eleições presidenciais. Como a comunidade internacional pode contornar a crescente tensão entre a Rússia e a Ucrânia?
Madeleine: A Ucrânia é um país fascinante, mas complicado. Não tenho dúvidas de que a maioria dos ucranianos quer fazer parte da Europa. Você falava de efemérides, e também há aniversários sendo celebrados na Polônia: 25 anos de queda do muro de Berlim e dez anos de entrada na União Europeia. Muitos ucranianos olham para o outro lado da fronteira e se perguntam por que não podem seguir a trajetória da Polônia. Há um longo caminho a percorrer. Sua economia não está nada bem e eles realmente precisam de ajuda da comunidade internacional, não só em termos de empréstimos financeiros, mas também com assistência técnica para tirar melhor proveito do financiamento. O grande desafio é ter uma perspectiva de olharem para si mesmos como parte da Europa e, ao mesmo tempo, ter uma relação funcional com a Rússia. Não tem que ser um jogo de soma zero. Essa é a estratégia de [Vladimir] Putin, mas não devemos permitir que isso aconteça.
 
Ucranianos em abrigo subterrâneo antibombas, durante ataque aéreo a insurgentes pró-Rússia: 
'Não tenho dúvidas de que a maioria dos ucranianos quer fazer parte da Europa'
 
Valor: Sanções contra a Rússia e também contra a Venezuela são a melhor forma de a comunidade internacional agir?
Madeleine: Os dois casos são obviamente bem diferentes. Mas, se queremos que a comunidade internacional funcione, é preciso deixar claro quando não aprovamos certas condutas. As ferramentas de qualquer país, mesmo o mais poderoso do mundo, são limitadas. Temos ferramentas diplomáticas, ferramentas econômicas e o uso da força - ou a ameaça de uso da força. Acredito que as ferramentas econômicas estão se mostrando cada vez mais produtivas, mas temos sempre essas discussões envolvendo sanções multilaterais ou unilaterais. Isso nos leva à discussão anterior que você colocou. A globalização deixou as nossas economias interconectadas de tal forma, em termos de negócios, que as sanções precisam ser multilaterais para funcionar de verdade.

Valor: Que perspectivas a senhora enxerga para a crise na Venezuela?
Madeleine: Não sou uma especialista em Venezuela, mas posso entender como Hugo Chávez foi eleito. O país tinha governos que não entregavam os benefícios da democracia à população local. Só que Chávez também não foi capaz de fazer isso. A distribuição [da riqueza], pelo menos para quem vê a situação de fora, tem sido acompanhada de medidas autoritárias. Quais são os elementos realmente importantes de uma democracia? Eleições são necessárias, mas não suficientes. A existência de um partido forte de oposição é certamente um desses elementos. Isso dá às pessoas não só uma alternativa de poder, mas oferece mecanismos de controle do governo. Na Venezuela, a oposição tem enfrentado dificuldades para continuar existindo, com cerco à liberdade de imprensa e à liberdade de expressão. Também não existe democracia sem um Estado de direito, sem previsibilidade nas regras, e isso tem sido igualmente difícil de encontrar na Venezuela. É uma situação trágica.

Valor: A economia brasileira não anda tão brilhante como estava em meados da década passada e a presidente Dilma Rousseff tem menos interesse por assuntos internacionais do que seu antecessor. O papel do Brasil na política global encolheu?
Madeleine: O Brasil tem potencial para desempenhar um enorme papel na arena internacional. Você pode escolher qualquer critério para ilustrar a importância do país: sua economia, seu tamanho, o dinamismo de sua população. Merece e precisa ser respeitado como uma grande potência. É normal que países tenham altos e baixos, mas o potencial do Brasil é imenso.

"Não existe democracia sem um Estado de direito (...), 
e isso tem sido (...) difícil de encontrar na Venezuela. 
É uma situação trágica"

Valor: Há um dado curioso na relação entre os governos brasileiros, seja de qual partido forem, e os democratas que assumem a Casa Branca. No Brasil, sempre espera-se muito dessa relação, mas as coisas acabam fluindo melhor quando há um republicano como presidente em Washington. Por que essa frustração constante?
Madeleine: Bem... (ela hesita um pouco) Francamente, eu não sei. No geral, tanto para democratas quanto para republicanos, a nossa relação com a América Latina é sempre complicada. Quando damos mais atenção à região, vários países dizem: "Deixem-nos em paz". Quando os deixamos em paz, há quem diga: "Deem-nos atenção". No momento, deve-se acentuar que temos uma série de problemas domésticos nos Estados Unidos, devido à crise financeira internacional. Talvez os democratas estejam mais atentos a isso. Mas tenho certeza de que há um desejo de relações robustas com países como o Brasil. Desculpem-nos que seja assim.

"Inverno de Praga - Uma História Pessoal de Recordação e Guerra, 1937-1948"
Madeleine Albright (com Bill Woodward). 
Trad.: Ivo Korytowski. 
Objetiva. 480 págs., R$ 59,90.
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Reportagem por Daniel Rittner
Fonte: Valor Econômico online, 07/06/2014

O MESTRE DO ABSURDO

 Rodrigo Suzuki Cintra*
 Jakob Lemke/Deutsche Presse-Agentur/Newscom / Jakob Lemke/Deutsche Presse-Agentur/Newscom
 Museu Franz Kafka, em Praga, República Checa: morto há 90 anos, escritor foi fundamental para a literatura do século XX e virou adjetivo que reflete agruras contemporâneas

"Uma gaiola saiu à procura de um pássaro." A frase, de autoria de Franz Kafka (1883- 1924), propõe uma imagem inusitada. Não é próprio das gaiolas se moverem, são objetos inanimados e, menos ainda, saírem a procurar justamente o que vão oprimir. De certo modo, se os pássaros podem simbolizar a liberdade, uma vez que podem voar, as gaiolas representariam as estruturas que prendem, que cerceiam, que impedem voos maiores. E, nesse caso, tudo se dá como se os pássaros fossem os seres que não podem se mover e as gaiolas, que normalmente são inertes, é que pudessem empreender o movimento. E saindo de uma inércia potencial, essa estranha gaiola, uma quase prisão, parece sair atrás de seu prisioneiro. Não é, propriamente, o ato de voar que faz com que o pássaro mereça a sua gaiola.

Nessa imagem desconcertante, a infelicidade de estar preso, sendo pássaro, fica até diminuída frente à desfaçatez da gaiola. É a própria estrutura, a cerca, a prisão que vem até o pássaro. Há algo de invertido nessa história contada em uma única linha, em um aforismo, mas, por outro lado, seria o caso de perguntar: não é assim mesmo que funcionam as nossas estruturas de dominação? É evidente que em um caso como esse, ao contrário do que se poderia imaginar, toda a impostura é a do pássaro. Ele não podia voar livremente desde o começo. Talvez a gaiola já estivesse destinada a ele por princípio. Mas, quanto a isso, é claro que não podemos ter certeza. A única coisa que parece ser correta é que não são os pássaros que tornam necessárias as gaiolas para aprisioná-los, mas o contrário, a existência das gaiolas é que viabiliza a liberdade dos pássaros. Reverso de mundo, em Kafka, a opressão é anterior à liberdade.

Não foram poucos os pensadores que se debruçaram sobre a obra de Franz Kafka. Há, sem dúvida, algo de alta voltagem em seus escritos. Muitos críticos literários, como Harold Bloom, por exemplo, colocam Kafka ao lado de autores fundamentais para o século XX, como James Joyce e Marcel Proust. Diferentemente desses autores, no entanto, Kafka não faz peripécias de linguagem ou de narrativa. Seu fascínio reside em outros atributos. Se, por um lado, Kafka não é um escritor desses tipos de artimanhas literárias, por outro, sua escrita é, certamente, essencial em outros níveis. Não podemos dizer, propriamente, que o século XX foi "joyceano", ou mesmo, "proustiano", mas, não há dúvida que foi "kafkiano".

A expressão "kafkiano" foi, inclusive, assimilada na maioria dos dicionários ocidentais. Significa alguma coisa labiríntica, complicada, estranha e absurda. Poucos autores têm o privilegio de virar verbete de dicionário. E, mais ainda, fazer de seu universo particular uma palavra que dê conta do mundo da vida do homem moderno. Uma situação "kafkiana" é, certamente, incômoda e esbarra sempre na questão de uma falta de sentido, uma irracionalidade que nos envolve e proclama regramentos que, apesar de oficiais, por vezes não os conhecemos e nos tornam culpados de crimes que não sabíamos que éramos responsáveis, desde o início.

Mesmo a letra "K", símbolo dos personagens dos romances kafkianos que sempre ostentam essa letra (Joseph K, em "O Processo"; o agrimensor K., em "O Castelo"; Karl Rossmann em "Amérika"), foi plenamente cooptada para todo o sempre por Kafka. Na literatura, basta falar essa letra para adentrarmos em um universo de estranhamentos, circunstâncias insustentáveis, confrontos com o poder e situações absurdas. A letra "K", variante genérica do próprio nome do autor, certamente enquadra Kafka como um autor que escrevia, de uma forma ou de outra, sobre si mesmo.

Kafka escreveu romances (todos inacabados), novelas, contos, cartas e diários. Pouco antes de morrer, pediu a um amigo, Max Brod, que destruísse todos os seus escritos. Não foi, obviamente, atendido. Seus textos, até hoje, são alvo de disputas interpretativas. Temos desde quem sustente que sua obra é um gigantesco acerto de contas com seu pai, o dominador Hermann Kafka, até quem encontre em suas linhas, em um caráter premonitório, o horror à ascensão do sistema nazifascista.

A verdade é que os filósofos encontraram diversas formas de entrada na obra de Kafka. Autores como Theodor Adorno, Walter Benjamin, Hannah Arendt, Albert Camus, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Giorgio Agamben e Slavoj Zizek, entre outros, leram e escreveram sobre Kafka. É notável como um autor cuja escrita é direta ao ponto, objetiva, por vezes protocolar, tenha suscitado tantas interpretações diferentes sobre o conteúdo de seus textos. Porém, se os filósofos parecem discordar sobre os sentidos dos textos de Kafka, não discutem sobre a importância do autor para a literatura do século XX.

Autores como W. H. Auden, por exemplo, o idolatravam a ponto de classificá-lo como o "Dante do século XX". Mesmo escritores consagrados do realismo fantástico, como Gabriel García Márquez, admitiam sua dívida para com os escritos do autor tcheco. García Márquez chegou mesmo a dizer que "A Metamorfose" teria lhe mostrado que era possível escrever de outra maneira.

Podemos dizer que Kafka sofreu a influência de quatro fatores determinantes para a constituição de sua obra: a origem judaica, a familiaridade com a cultura tcheca, a formação pela língua alemã e a graduação em uma faculdade de direito. Todos esses fatores, certamente, auxiliaram no estilo e nos temas abordados pelo autor nos seus textos.

É perceptível nos textos kafkianos uma obsessão pelo tema da irracionalidade da burocracia, o sentimento de estranheza e absurdo frente ao mundo, as leis e as penas arbitrárias e a luta contra a opressão nas suas mais variadas formas.

Por meio de imagens altamente impactantes, o autor tcheco elaborou todo um universo do estranho. Um homem que acorda e se vê transformado em um monstruoso inseto ("A Metamorfose"), uma máquina de tortura eficaz que escreve a pena do condenado através de agulhas que perfuram o corpo até a morte ("Na Colônia Penal"), um macaco que se transforma em homem ("Um Relatório para a Academia"), um ser absolutamente improvável, quase impossível de ser descrito, que desafia o bem-estar de um homem bem estabelecido ("Tribulações de um Pai de Família"). Kafka, que publicou pouquíssimos textos em vida, apesar de declarar que tudo que não fosse literatura o aborrecia, foi capaz de inventar um estilo literário inconfundível ao mesmo tempo em que tecia os contornos de um mundo imaginário todo próprio em que o absurdo podia muito bem ser a regra.

Então, qual seria o método mais eficaz para a leitura dessa obra singular que nos coloca frente ao desafio de interpretar imagens completamente desconcertantes?

Talvez uma metáfora nos auxilie a compreender como devemos ler Kafka. Não há outra maneira de adentrar no universo kafkiano que não seja por meio de um labirinto. Assim, o leitor de Kafka deve estar disposto a caminhar por passagens que são verdadeiros becos sem saída, voltar, muitas vezes, aos mesmos túneis principais, se sentir perdido ao meio das opções de trajeto e ter a impressão de que o labirinto, em verdade, não tinha saída desde o princípio...
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* Rodrigo Suzuki Cintra, filósofo e doutor em direito pela USP, leciona na Universidade Mackenzie
Fonte: Valor Econômico online, 07/06/2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

«O meu amado é meu e eu sou sua»: O livro em que Deus fala a língua dos enamorado

Card. Gianfranco Ravasi*
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«Nada há de mais belo do que o Cântico dos Cânticos»: estas palavras são pronunciadas por um dos personagens de "O homem sem qualidades", a obra-prima de Robert Musil, o escritor austríaco que morreu em 1942, grande testemunha da crise europeia do século XX. Elas exprimem a admiração incondicional de que gozou este livrinho bíblico de apenas 1250 palavras hebraicas. Um pequeno poema que mereceu, com efeito, o título de "Shir hasshirim", Cântico dos Cânticos, um modo semita para exprimir o superlativo: o "cântico" por excelência, o "canto sublime" do amor e da vida. 

O maior teólogo protestante do século XX, Karl Barth, não hesitou em definir este escrito como «a magna carta da humanidade». No entanto, esta «carta» do nosso ser homens capazes de amar, de desfrutar mas também de sofrer, não foi sempre lida de maneira uniforme, porque as suas facetas são múltiplas e variegadas, como as de uma pedra preciosa. Parecia ter razão um antigo rabino, Saadia ben Joseph (882-942), que comparava o Cântico a uma fechadura de que se tinha perdido a chave: para a abrir, deveriam multiplicar-se as tentativas.

A chave indispensável para abrir este tesouro é, contudo, como acontece frequentemente, a mais imediata. Para compreender o sentido fundamental deste livro em que Deus fala a linguagem dos enamorados, é preciso usar a chave das suas palavras poéticas, isto é, o que em tempos se costumava definir o sentido literal. De facto, a obra recolhe o jubiloso diálogo de duas pessoas que se amam, que se chamam por 31 vezes "dodî", «amado meu», um nome carinhoso muito parecido com o apodo que os enamorados cunhavam secretamente para se chamarem mutuamente.

No Cântico a mulher e o homem encontram toda a frescura e intensidade de uma relação que eles próprios vivem e experimentam através do eterno milagre do amor. É uma relação íntima e pessoal, construída sobre pronomes pessoais e possessivos na primeira e segunda pessoa: «meu/teu», «eu/tu». A sigla espiritual e "musical" do Cântico está naquela fulgurante exclamação da mulher: "dodî lî wa’anî lô", «o meu amado é meu e eu sou sua» (2, 16). Exclamação reiterada e modificada em 6, 3: "’anî ledodî wedodî lî", «eu sou do meu amado e o meu amado é meu». É a fórmula da pura reciprocidade, da pertença mútua, da doação recíproca e sem reservas.

Esta intimidade perfeita passa através de três graus. Conhece a bipolaridade sexual que é vista como "imagem" de Deus e realidade «muito boa/bela», segundo o Génesis (1, 27 e 31), ou seja, representação viva do Criador mediante a capacidade geradora e de amor do casal. Mas a sexualidade isolada é meramente física. O homem pode passar para um grau superior ao intuir no sexo o "eros", isto é, o fascínio da beleza, a estética do corpo, a harmonia da criatura, a ternura dos sentimentos. Com o "eros", porém", os dois seres permanecem ainda algo "objetos", externos um ao outro.

É só com a terceira etapa, a do amor, que começa a comunhão humana plena que ilumina e transfigura sexualidade e "eros". E são apenas a mulher e o homem entre todos os seres vivos que podem percorrer todas estas etapas chegando à perfeição da intimidade, do diálogo, da doação de amor total.

O primeiro plano de leitura que devemos adotar para percorrer esta fascinante partitura poética é, portanto, o nupcial, naturalmente com todas as cores e símbolos do Oriente. Em 1873, o cônsul da Prússia em Damasco, Johann Gottfried Wetzstein, tinha tentado comparar as cerimónias nupciais dos beduínos e dos camponeses sírios com os que são citados no Cântico: festas de sete dias, coroação do esposo e da esposa com o título de rei e rainha (no Cântico o amado é às vezes identificado com o rei Salomão); a mesa nupcial dita "trono", a dança dos «dois campos» (ver 7, 1), hinos descritivos da beleza física da esposa e do poder do esposo.

No Cântico entra assim em cena o amor terno, "primaveril", presente não só no belo casal de dois jovens enamorados, mas, poderemos dizer, também na imutável ternura de um casal idoso ainda enamorado. Um primado é consignado sobretudo à feminilidade, porque no Cântico a mulher é mais protagonista do que o homem, não obstante o sedimentado machismo do Oriente, de onde a obra provém.

Significativa para o nosso tema é a atenção reservada ao rosto dos dois enamorados. É verdade que todo o corpo - entendido como sinal de comunicação - é envolvido no poema: os braços, a mão e os dedos, o coração, o seio, o ventre, os quadris, o umbigo, as pernas, os pés, as carícias, a pele escura. Mas o foco está no rosto, descrito em todos os seus traços: da cabeça ao pescoço, das bochechas aos olhos, da boca aos lábios, do palato aos dentes, dos cabelos finos aos caracóis. É o rosto o sinal mais vivo e autêntico do diálogo, do encontro, da comunhão de vida, pensamento e sentimento.

O Cântico é, pois, um hino contínuo à alegria de viver: quando o céu se extingue pelas nuvens, escrevia Paul Claudel, a superfície de um lago é plana e metálica; quando brilha o sol, transforma-se num admirável espelho das cores do céu e da terra. Assim, com efeito, é a vida do homem quando se acende o amor: a paisagem é sempre a mesma, o trabalho é sempre monótono e alienante, a cidade anónima e fria, os dias iguais uns aos outros; e no entanto o amor tudo transfigura e então ama-se e tudo se vê com olhos diferentes porque o homem sabe que à noite encontrará a sua mulher.

O amor humano, porém, também conhece a crise, a ausência, o medo, o silêncio, a solidão. Há no Cântico duas cenas noturnas (3, 1-5 e 5, 2 - 6, 3) plenas de tensão, em que o homem e a sua mulher estão afastados e procuram-se desesperadamente sem se encontrar. O ápice do poema bíblico está em 8, 6, onde se coloca em tensão dialética amor e morte: «Poderoso como a morte é o amor,/ inexorável como os infernos a paixão:/ as suas centelhas são centelhas ardentes,/ uma chama do Senhor» (curiosamente é o único verso do Cântico em que ressoa o dome divino Jah/Jhwh). Naquele duelo extremo, o poeta sagrado está certo de que o amor deve prevalecer, como Deus é vencedor da morte e do mal. O Cântico é, por isso, acima de tudo a celebração do amor humano e do matrimónio. Todavia, neste amor o poeta bíblico entrevê quase um gérmen do amor eterno e perfeito com que Deus ama a sua criatura. Não esqueçamos, com efeito, que já o profeta Oseias, no século VIII antes da era cristã, tinha usado a sua dramática experiência matrimonial e familiar, transformando-a numa parábola do amor Deus pelo seu povo Israel (Oseias, 1-3). Esta transmutação temática e simbólica aparece implicitamente também no Cântico.

No seio do amor humano - e não prescindindo dele, como se fez na denominada leitura "alegórica", que reduziu o Cântico a uma dimensão espiritualizante  - devemos colher um sinal posterior, o do amor transcendente de Deus pela sua criatura. É o segundo nível interpretativo através do qual o Cântico se tornou igualmente o texto da mística cristã: citemos apenas os "Pensamentos sobre o amor de Deus", de Santa Teresa de Ávila, e a obra-prima literária e mística que é o "Cântico espiritual" de S. João da Cruz, que se alimentam do Cântico dos Cânticos.

A representação plástica mais famosa deste entrançamento espiritual poderá ser o "Êxtase de Santa Teresa", de Bernini, na igreja romana de Santa Maria da Vitória: um anjo lança a flecha do amor divino na direção da santa, que está imersa num êxtase físico e interior de altíssima intensidade, espiritual e sensual. A virgem amante abandona-se a Deus através de um amor incandescente que toma todo o ser, incluindo físico.

Além dos já citados capítulos 1-3 do profeta Oseias, liga-se o capítulo 16 do profeta Ezequiel, algumas páginas muito ternas páginas de Isaías (54, 1-8 e 61, 10 - 62, 5), e também o apelo que Paulo dirige aos efésios: «Assim devem também os maridos amar as suas mulheres, como o seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. De facto, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo; pelo contrário, alimenta-o e cuida dele, como Cristo faz à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo. Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne. Grande é este mistério; mas eu interpreto-o em relação a Cristo e à Igreja» (5, 28-32).

Mas na Bíblia o texto que mais faz resplandecer a maravilha do amor humano e o seu valor de sinal teológico é precisamente o Cântico. Deus, com efeito, como ensina a primeira carta de S. João, «é amor». Um antigo texto judaico comentava assim a viagem de Israel no deserto do Sinai: «O Senhor vem do Sinai para acolher Israel como um noivo vai ao encontro da sua noiva, como um esposo abraça a sua esposa».

O Cântico, por isso, deve acompanhar os enamorados nas fases escuras e serenas, no riso e nas lágrimas desse extraordinário acontecimento que é o seu amor. Mas o Cântico é, na sua meta terminal, a figura suprema do amor entre Deus e a sua criatura, pelo qual se torna um texto capital sobretudo para todos os crentes. Por isso, tinha razão o grande escritor cristão do século III Orígenes de Alexandria, quando escrevia: «Feliz quem compreende e canta os cânticos da Sagrada Escritura! Mas bem mais feliz é quem canta e compreende o Cântico dos Cânticos!».
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* Presidente do Pontifício Conselho da Cultura
In L'Osservatore Romano, 2.6.2014
Trad.: SNPC/rjm
02.06.14
Imagem:  O Cântico dos Cânticos Salvador Dali, 1971

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Poesia de Adélia Prado

                                         
 HISTÓRIA DE JÓ
 
Adélia Prado

                                          Por que fazes
                                          e calcas aos pés tua pobre criatura,
                                          teu sofrimento é enorme, deus,
                                          a dor de tua consciência ingovernada.

                                          Difícil me acreditares,
                                          pois tenho um céu na boca.

                                          Tem piedade de nós,
                                          dá um sinal de que não foi um erro,
                                          ilusão de medrosos,
                                          fantasia gerada na penúria,
                                          a crença de que sois bom.

                                          O medo regride à sua estação primeva,
                                          à sua luz branca.
                                          E quero a vida nos álbuns:
                                          assim eram as avós e suas criadas negras:
 
                                          Não posso ir o teatro,
                                          convocada que sou pra esta vigília
                                          de segurar seu braço pusilânime,
                                          eu criatura digo-Vos, coragem.

                                          Perdoa-me, contudo, perdoa-me.

                                           (“História de Jó”, Oráculos de Maio, p. 53)

domingo, 1 de junho de 2014

A Mulher Exigente

Fabio Hernandez*

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”Um homem só é feliz ao lado de uma mulher se é dele o controle remoto.” Foi o que me disse outro dia meu amigo Guillermo. Guillermo foi vítima da Mulher Exigente. Alessandra, sua namorada, transformou-o num escravo. Ela escolhia os filmes no cinema, os DVDs, as peças de teatro. Ela escolhia os restaurantes, as viagens, os hotéis. Ela escolhia as posições sexuais e as preliminares. Aliás, demoradas e extenuantes mesmo para uma pessoa atlética como Guillermo.

E a morte: ela não lhe dava a menor chance de pegar o controle remoto.

A Mulher Exigente não é uma espécie exatamente nova. Na Bíblia, você encontra muitas delas, como Betsabá, que mandava no rei Davi, que mandava em todos. (Para tê-la, Davi enviou o marido de Betsabá à frente de uma guerra. O objetivo era que ele morresse, o que logo aconteceu.) A Mulher Exigente, repito, não é novidade. Mas o fato é que, nos tempos recentes, com o avanço feminino em todas as áreas, do escritório ao futebol, ela se multiplicou espantosamente.

A Mulher Exigente parece se vingar, em cada homem, da dominação masculina secular. O homem não é um parceiro, um cúmplice, a metade de um todo. O homem é o concorrente a ser batido. Como uma gladiadora sem direito a férias nem fins de semana, a Mulher Exigente está em combate o tempo todo. Ela quer espaço, mas não em pedaços. Ela quer todo o espaço.

A Mulher Exigente despreza o avental e a cozinha. Despreza sua mãe, sua avó e todas as antepassadas que se curvaram ao pérfido domínio masculino. Despreza o homem. No fundo, a Mulher Exigente prefere um vibrador a um macho, porque é mais fácil de manejar. A frase masculina que mais a excita sexualmente, dita num timbre tímido e amedrontado, é: “Posso?”
Ela não fala, grita. Ela não pede, manda. Ela não cede, impõe.

E ela, paradoxalmente, é nossa cria. Nós inventamos nosso inimigo. Nós a demos à luz. Nós e nossa covardia culpada. Porque nós nos sentimos culpados por ser homens e mandar, desde sempre. Nós caçávamos os javalis enquanto elas ficavam no conforto aquecido da caverna, nós nos expúnhamos ao frio e aos dentes da fera e, mesmo assim, carregamos um sentimento de culpa que se refinou ao correr dos longos dias e foi dar na proliferação da Mulher Exigente.

Somos vítimas não da Mulher Exigente, mas de nós mesmos.

Viramos subalternos, ganhamos a docilidade pétrea de recrutas perante generais. Nos transformamos em pó. Somos chicoteados e agradecemos ao chicote e à mão que o empunha pela deferência em nos escolher como alvo.

A queda da Bastilha selou a Revolução Francesa. Entendi, pela expressão aterrorizada de meu amigo Guillermo, que a Bastilha de nós, homens, é o controle remoto. Ao perdê-lo, perdemos tudo. É o último reduto do homem que não se rende, a sua Excalibur. A derradeira esperança, a tocha trêmula numa escuridão espessa.

A Mulher Exigente vai mandar você deletar este texto.

E você vai deletar.
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* O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um "escritor barato".
Fonte: Diário do Centro do Mundo