sábado, 14 de junho de 2014

O REENCONTRO

 J.J. Camargo*
 
Defendi desde sempre a teoria de que devemos evitar os reencontros com pessoas que não vemos, sei lá, há mais de 20 anos. A justificativa racional é que este tipo pode ter sido um grande parceiro, gentil, carinhoso, solícito, disponível, e tudo de bom, mas a longa abstinência sem morte trouxe uma verdade irrefutável: ele não era indispensável.

Partindo desse princípio, é muito provável que o reencontro, programado ou acidental, se revele desastroso. Certamente teremos duas pessoas que a distância se encarregou de tornar tão diferentes que, agora sim, parecem mesmo dois estranhos absolutos. E não por culpa de ninguém, a vida faz isso com naturalidade, e nós nem percebemos o quanto mudamos porque fomos juntos com a mudança, mas quando nos confrontamos com um ex-companheiro de outra era e lugar, não nos reconhecemos nele e, mais do que isso, nos assustamos com a descoberta que, de repente, nos sentimos desconfortáveis em tentar reerguer rapidamente uma afinidade que o tempo se ocupou de dilapidar, lenta e completamente.

Surpreendidos pelo impacto do encontro não planejado, a primeira tendência é a de recuperar as histórias que, à época, consideramos muito engraçadas só para descobrir que agora já não são mais, e com grande probabilidade de parecerem apenas ridículas. E nada a ver com pretensão ou arrogância, mas tudo por culpa do inevitável refinamento do nosso senso de humor. Ou alguém discorda que na juventude nós rimos, rigorosamente, de qualquer coisa?

Com todos esses ingredientes, o reencontro pode ser ainda mais traumático quando ocorre no Exterior e, então, distante dos pagos, qualquer gesto menos carinhoso será interpretado, com justiça, como deserção afetiva. E a pecha de mascarado não orgulharia ninguém depois de um encontro marcado pela iniciativa aleatória do destino.
 
SURPREENDIDOS PELO IMPACTO 
De um reENCONTRO, A TENDÊNCIA É a 
DE RECUPERAR AS HISTÓRIAS QUE 
ANTES FORAM ENGRAÇADAS, 
SÓ PARA DESCOBRIR QUE AGORA 
JÁ NÃO SÃO MAIS

Numa noite de terça-feira, sem atividade no congresso americano de cirurgia torácica, decidi ir ao cinema para passar o tempo. Na saída, a surpresa de encontrar ali um colega missioneiro que não via desde os tempos da faculdade.

O esforço pela descontração foi bilateral e simétrico, mas depois de cinco minutos estávamos exaustos e já havíamos repetido três vezes o clichê: “Mas que mundinho pequeno!” , tínhamos relembrado de passagem alguns episódios do centro acadêmico e revisado o obituário com algumas mortes, extemporâneas, naturalmente.

Esgotado o repertório das lembranças e das condolências, só restava atualizar a conversa, na tentativa desesperada de controlar a vontade cada vez maior de sair correndo. Ele me contou que tinha vindo à Flórida para visitar o irmão que vivia ali há muitos anos e que, como eu (veja a coincidência!), não tendo o que fazer, decidira ir ao cinema.

Não havia nenhuma garantia de estabilidade naquela conversa, mas a volta ao presente soava mais confortável e, com a intenção de mantê-la assim, perguntei o que me pareceu uma continuidade previsível: “E então, gostaste do filme?”.

E ele, com a mesma supersinceridade que o tempo não maculara, confessou com uma naturalidade comovente: “Mas tchê, gostar até gostei, mas que falta me fez as legendas!”.

Na volta ao hotel, mais de uma vez, o motorista do táxi virou para trás para tentar entender por que aquele tipo ria sozinho.

Depois que passou a graça da confissão espontânea, dormi gratificado pela generosidade do acaso que colocou no meu caminho aquele modelo de criatura capaz de envelhecer sem a hipocrisia do convívio social e, despreocupado de aparentar, gastou a vida na simplicidade de ser. Uma pena as décadas perdidas até reencontrá-lo!

Na noite seguinte, fui ao cinema outra vez. Podia ser que ele continuasse desocupado.
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* Médico. Colunista da ZH.
Fonte; ZH online, 14/06/2014


É A EMOÇÃO, ESTÚPIDO

Getty Images / Getty Images

Quando as pessoas tomam decisões, principalmente se envolvem risco, usam partes diferentes do cérebro. O julgamento está ligado ao córtex pré-frontal, região da parte da frente do cérebro. Emoções negativas, como o medo, desencadeiam reações na amígdala cerebelosa. Situações de conflito ativam outra parte, o córtex cingulado. Em resposta, a respiração e os batimentos cardíacos também aceleram. Todo o processo dura apenas meio segundo, tempo que o cérebro leva para captar uma informação, processá-la e reagir.

É em um ambiente parecido com um hospital que laboratórios de neurociência transformam esse processo físico em informação política. Testes com ressonância magnética, eletroencefalograma e eletrocardiograma, entre outros, podem ajudar marqueteiros a entender as emoções dos eleitores. O uso desses recursos é uma novidade nas eleições presidenciais deste ano. Fontes próximas à candidatura de Eduardo Campos dizem que deverão ser usadas análises emocionais, além dos tradicionais grupos de pesquisa, para saber as opiniões dos eleitores e definir peças de propaganda na campanha do candidato do PSB.

"Nossas emoções influenciam nossos julgamentos", diz o cientista político Antonio Lavareda, especialista em comportamento eleitoral e campanhas políticas. "Razão e emoção caminham juntas numa eleição, estruturando sentimentos, que são 'emoções conscientes', mais sedimentadas." Lavareda é membro do conselho científico do NeuroLab Brasil, laboratório de neurociência aplicada ao marketing, e preside o conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas. Em parceria com a neurologista Silvia Laurentino, do Neurolab, conduziu estudo sobre as eleições presidenciais de 2010.

O comportamento do eleitor, afirmam neurocientistas, é fruto de sentimentos que se formam e se consolidam ao longo da campanha. Derivada das descobertas sobre o funcionamento do cérebro nas últimas duas décadas, a denominada neuropolítica, ou neurociência da política, é voltada para a compreensão dessas motivações emocionais. Seu uso, já comum em campanhas políticas nos Estados Unidos e no Reino Unido, firma-se como uma nova ferramenta para escrutinar o humor do eleitorado, mas no Brasil ainda é pouco difundido.

"Há momentos em que prevalece a razão e outros em que o engajamento e uma eventual polarização ideológica 
tomam conta do processo"

Com os participantes dos testes submetidos à propaganda dos candidatos ou outras informações, um aparelho do eletroencefalograma capta a atividade elétrica no cérebro e a ressonância magnética registra as alterações do fluxo sanguíneo em determinadas áreas, revelando a atividade cerebral. O "skin conductance", monitor conectado por uma presilha a um dedo, mede a condutividade da pele para indicar o nível de excitação do organismo. Também é comum o uso da eletrocardiografia, com um medidor de frequência cardíaca, para avaliar a atividade elétrica do coração, e do "eye tracker", que monitora a direção do olhar e o envolvimento com uma informação. Um software mapeia os músculos faciais e verifica respostas às emoções.

As respostas, na comparação com as pesquisas tradicionais, em que os eleitores declaram sua opinião sobre um candidato, um produto ou algum outro tema, em tese são consideradas mais verdadeiras. Enquanto perguntas em formulários e pesquisas em grupo podem ser afetadas, por exemplo, pelo constrangimento de dizer algo incorreto diante de estranhos, testes nos laboratórios garantiriam respostas biológicas "mais autênticas", vindas do subconsciente. Marqueteiros políticos usam esse conhecimento para definir mensagens mais efetivas, escrever comerciais e verificar como funcionam antes da exibição para o público.

"Continuamos a usar as declarações como matéria-prima", afirma Marcos Antunes, sócio da AJF Inteligência, consultoria paulista de neuromarketing. "Mas a neurociência permite verificar o que chama atenção antes que a própria pessoa saiba."

Na campanha para a reeleição ao governo de Pernambuco, em 2010, os estrategistas de Eduardo Campos já haviam usado estudos de neurociência. Na ocasião, a equipe de Lavareda e do Neurolab analisou as reações dos eleitores às propagandas de TV do governador e do oposicionista Jarbas Vasconcelos (PMDB). Uma das descobertas foi que rejeitavam os ataques de Vasconcelos ao adversário, identificando-o com as próprias críticas, o que levou Campos a ignorar os ataques e fazer uma campanha propositiva. Acabou reeleito, com 82,6% dos votos. Vasconcelos teve 14,05%.

"Estudos mostram que os eleitores, embora reajam às críticas conscientemente, registram sete vezes mais as informações negativas que circulam acerca de um candidato do que as positivas", diz Lavareda. "Ou seja, críticas costumam ter impacto, sim, nas campanhas eleitorais."

 
Drew Westen (à direita), que estuda a natureza emocional dos preconceitos ideológicos: 
"O que motiva eleitores são seus desejos, medos e valores; 
as emoções têm sempre um papel"
 
O método também foi usado em um dos primeiros estudos brasileiros sobre neurociência e política. Lavareda e a neurologista Silvia Laurentino realizaram testes com 18 voluntários, nas eleições de 2010, e constataram que os eleitores tinham emoções positivas quando viam juntos, de braços erguidos, a candidata Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já o então candidato tucano José Serra não causava as mesmas emoções, mesmo em comparação com a candidatura de Marina Silva, na época no Partido Verde. Dilma, apesar de disputar sua primeira campanha, derrotou o veterano Serra no segundo turno.

Eleitores podem reagir mal à ideia de uma campanha desenhada para atender a seus instintos, mais do que à razão. Mas a política apenas segue práticas usadas há duas décadas pelo neuromarketing, a aplicação da neurociência para desvendar o comportamento dos consumidores. "Ninguém está lendo ou manipulando a mente, que são coisas impossíveis de se fazer. O que se faz é uma leitura", diz Pedro Calabrez Furtado, da consultoria Neurovox, também de São Paulo. Grandes empresas, como Coca-Cola, McDonald's, Natura e Procter & Gamble, usam testes com neurociência em suas campanhas publicitárias e produtos.

O uso da neurociência em marketing é a aplicação prática de vários estudos recentes que comprovaram: nossas opções políticas são quase sempre emocionais. "As pessoas são orgulhosas de suas crenças políticas", diz o cientista político John Hibbing, da Universidade de Nebraska-Lincoln. "Tendemos a pensar que são o resultado de alguma escolha racional." Contra a visão clássica da ciência política, que costuma ignorar o papel do cérebro, defendendo que nossas decisões são lógicas, a combinação de alguma predisposição genética e experiências passadas pode definir a maneira como votamos e vemos o mundo.

Saber o que sentimos, como sentimos e por que sentimos são perguntas que primeiro a filosofia e depois a ciência buscam há milhares de anos. O filósofo Platão, no século IV a.C., chamava as emoções de "cavalos selvagens". O inglês David Hume argumentava, no século XVIII, que a razão devia ser escrava da paixão. O austríaco Sigmund Freud, um século atrás, afirmava que cada ato físico começa inconsciente e pode permanecer assim ou continuar se desenvolvendo e tornar-se consciente.

As mais antigas tentativas de entender como esse processo funciona foram do suíço Hans Barger, inventor do eletroencefalograma no início do século XX. Nos anos 1940, testes realizados por psicólogos do Exército dos Estados Unidos para aumentar a eficiência da propaganda dos Aliados durante a Segunda Guerra levaram aos primeiros grandes estudos sobre como a mente humana reage a mensagens - grande parte do trabalho foi aproveitada pelo marketing político e para uso de grupos de pesquisa qualitativas, surgido nos anos 1950. Mas o grande marco foi um trabalho, de 2004, do neurocientista americano Read Montague, hoje diretor do Laboratório de Neuroimagem Humana e da Unidade de Psiquiatria Computacional da Virgínia, nos Estados Unidos.

Fatores biológicos, incluindo genes, seriam responsáveis, pelo menos em parte, por opinões e atitudes em 
questões de natureza política

Então professor da Faculdade Baylor de Medicina, em Houston, Texas, Montague refez o teste de 1975 em que pessoas provaram copos de Pepsi-Cola e da Coca-Cola sem saber de qual dos refrigerantes se tratava. Mais da metade disse que o melhor sabor era da Pepsi. Mas por que a Coca vende mais? Montague monitorou os cérebros de 67 voluntários. Quando não sabia qual refrigerante bebiam, o resultado foi o mesmo de 28 anos antes. Mas quando foram informados sobre o que bebiam 75% escolheram a Coca-Cola. A memória positiva da Coca-Cola, concluiu o neurocientista, prevalece no julgamento dos consumidores, não importa o que a razão diga.

Estudos, principalmente de psicólogos americanos e ingleses, revelam que a lógica do marketing vale para a política. Eleitores, como qualquer pessoa, tomam decisões mais baseadas nos sentimentos do que na razão. "O cérebro político é um cérebro emocional", afirma o psicólogo americano Drew Westen, da Universidade de Emory, autor do livro "O Cérebro Político", estudo sobre como os preconceitos ideológicos são emocionais. O que motiva eleitores, segundo ele, são seus desejos, medos e valores; as emoções têm sempre um papel.

Dez anos atrás, Westen selecionou 30 eleitores americanos, 15 democratas e 15 republicanos, e exibiu a cada um imagens de seus candidatos favoritos, George W. Bush, que buscava a reeleição, ou o atual secretário de Estado americano, John Kerry, então o desafiante democrata, contradizendo um ao outro. Os voluntários se mostraram capazes de apontar as contradições do candidato rival, mas não reconheceram quando seu candidato mentia ou manipulava os fatos. Exames de ressonância magnética mostraram que seus cérebros entravam numa espécie de curto-circuito.

Partes do cérebro mais associadas à razão, na face dorsolateral do córtex pré-frontal, ficaram quietas, mas o córtex orbital frontal, envolvido no processo das emoções, ficou agitado. Também havia confusão no cingulado anterior, associado com a resolução de conflitos, e no cingulado posterior, preocupado com os julgamentos morais. Uma vez que as contradições eram ignoradas, foi ativado o estriato ventral, a região relacionada com recompensa e prazer, uma indicação de que cada participante, a despeito dos fatos, só ficou satisfeito com uma conclusão confortável.

Em um dos primeiros estudos brasileiros sobre neurociência e política, Lavareda e a neurologista Silvia Laurentino realizaram testes com 18 voluntários nas eleições de 2010. Os equipamentos constataram que os eleitores tinham emoções positivas quando viam juntos, de braços erguidos, a candidata Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O então candidato tucano José Serra não causava emoções de igual tipo, mesmo em comparação com Marina Silva. Dilma, apesar de disputar sua primeira campanha, derrotou o veterano Serra no segundo turno.
Folhapress / Folhapress 
Antonio Lavareda: "Nossas emoções influenciam julgamentos. 
Razão e emoção caminham juntas numa eleição, estruturando sentimentos, 
que são 'emoções conscientes', mais sedimentadas"
 
Outro trabalho, de Darren Schreiber, da Universidade inglesa de Exeter, e Read Montague sugere que a visão política está ligada à maneira como o cérebro percebe o mundo. Analisando a ideologia de voluntários e seus exames de ressonância magnética, observaram que algumas áreas ficaram mais ativas entre os voluntários que se declaravam liberais e outras nos conservadores, embora as atitudes dos dois grupos nem sempre fossem diferentes. "Perspectivas políticas", concluem os dois cientistas, "refletem diferenças na maneira como percebemos o mundo."

Crescente número de estudos sugere também que fatores genéticos podem exercer influência significante no eleitorado. Fatores biológicos, incluindo genes, níveis de hormônios e sistemas neurotransmissores seriam responsáveis, pelo menos parcialmente, por opiniões e atitudes em questões como gastos do Estado, imigração e casamento gay.

Pioneiro nesse tipo de estudo, o geneticista australiano Nicholas G. Martin sugeriu, em 1986, que posições políticas podem estar ligadas aos genes. Em testes com gêmeos, Martin, hoje pesquisador do Instituto de Pesquisa Médica Queensland, em Brisbane, Austrália, descobriu que os idênticos têm posições políticas mais parecidas do que os não idênticos, mesmo se do mesmo sexo. Como todos foram criados com a mesma educação e na mesma família, a genética seria a explicação para suas opiniões. O estudo foi ignorado na época, mas na década passada foi recuperado por pesquisadores e reaplicado em estudos nos Estados Unidos, Austrália, Suécia e Dinamarca, servindo de base para novas interpretações.

Há uma razão para a cautela quando se fala de genética e política. No fim do século XIX, as ideias do italiano Cesare Lombroso geraram uma onda de preconceito contra homens altos, pessoas tatuadas e mulheres com voz grossa, todas, entre outras, apontadas como características do "criminoso nato". O movimento eugenista e as teorias nazistas no início do século XX tornaram os cientistas profundamente céticos quanto a ligações entre biologia e comportamento político. Também há razões práticas. No caso de gêmeos, nenhuma pesquisa conseguiu definir o peso do ambiente nas posições pessoais deles e os estudos até hoje se afirma que falta consistência aos estudos.

No entanto, estudos mais recentes, sobre relações entre genes e esquizofrenia, depressão e orientação sexual, abriram caminho para pesquisas que mostram que a biologia pode ter um papel em nossa visão do mundo. Características genéticas estariam, por exemplo, por trás das posições mais conservadoras de pessoas a partir dos 30 anos. Embora nem todos os jovens sejam liberais e nem todas as pessoas mais velhas se tornem conservadoras, esse é um fato conhecido dos analistas e marqueteiros políticos.

"Eleitores registram sete vezes mais as informações negativas acerca de um candidato do que as positivas", 
diz Antonio Lavareda

Um estudo realizado pelo psicólogo canadense Robert Altemeyer testou essa mudança aplicando os mesmos testes de ideologia a jovens ao longo de anos, experimento com o qual chegou à conclusão polêmica de que conservadores são autoritários. Aos 22 anos, as respostas de 5,4% os definiam como conservadores. Depois dos 30, o número subiu para 30%.

Para o americano Avi Tuschman, autor de "Our Political Nature: The Evolutionary Origins of What Divides Us" (nossa natureza política: as origens evolucionárias do que nos divide), a razão está no desenvolvimento humano. O cérebro torna as pessoas mais abertas a novas ideias a partir da adolescência, quando começa a vida sexual, mas a partir dos 30 anos, com a paternidade e relacionamentos estáveis, posições políticas moderadas seriam reflexos de uma cautela geral com a vida. "Altos índices de abertura encorajam os jovens a vagar pelo mundo e encontrar um parceiro. A consciência (associada ao conservadorismo) é crucial quando se forma uma família."

A ideologia também pode estar ligada a características físicas do cérebro, segundo um estudo, de 2011, do neurocientista cognitivo Ryota Kanai, da Universidade de Sussex, na Inglaterra. Ao comparar exames de ressonância magnética com as respostas de 90 voluntários, ele notou que nos liberais (usando o conceito americano de liberalismo de costumes, não econômico) era maior o volume da massa cinzenta no córtex cingulado anterior, região em forma de colar no cérebro, que avalia custos e benefícios das decisões e é ligada ao controle dos impulsos e à empatia. Os conservadores tinham um aumento na amígdala cerebelosa, o grupo de neurônios no lobo temporal do cérebro em que ocorre o desenvolvimento e o armazenamento das memórias emocionais.
 
John Hibbing: "As pessoas se orgulham de suas crenças políticas. 
Tendemos a pensar que são o resultado de alguma escolha racional"
 
Um dos problemas para generalizar as conclusões dos estudos é definir posições políticas. Entre americanos, as noções de conservador e liberal quase sempre dizem respeito a questões morais, como aborto e casamento gay, mas não variam muito sobre economia. No Leste europeu, um conservador é um ex-comunista ou defensor do socialismo, mesma posição de um progressista no Brasil, onde o liberalismo é mais alinhado com o americano. No Oriente Médio e na Ásia, as posições também variam.

As conclusões também não são unanimidade. Um dos limites é o ambiente em que ocorrem os testes. Quão naturais podem ser consideradas respostas obtidas com uma touca de eletrodos na cabeça ou dentro de um aparelho de ressonância magnética? Também não faltam críticas ao mapa de reações cerebrais criado para analisar as reações.

"Você põe alguém numa máquina de ressonância magnética e vê que a amígdala ou o lobo da ínsula acende durante certas atividades. Mas a amígdala acende durante medo, felicidade, novidade ou raiva. Ou excitação sexual (pelo menos entre as mulheres)", argumentam a psiquiatra Sally Satel, professora de Medicina na Universidade de Yale, e o psicólogo Scott O. Lilienfeld, da Universidade de Emory, em "Brainwashed: The Seductive Appeal of Mindless Neuroscience" (Lavagem cerebral: o apelo sedutor da neurociência vazia). "O lobo da ínsula tem um papel na confiança, empatia, aversão e descrença. Então, para o que você está olhando?"

Por fim, testes e estudos levantam uma pergunta. Se somos dominados pela emoção. onde entra a razão? "Depende do eleitor e do momento histórico", diz o neurocientista Álvaro Machado Dias. A razão tende a sobrepujar a emoção nas pessoas menos engajadas em questões ideológicas e com uma visão mais prática e utilitarista da política. Mesmo os estudos que apontam causas biológicas em posições políticas evitam o determinismo. "Há momentos em que prevalece a razão e há momentos em que o engajamento e uma eventual polarização ideológica tomam conta do processo."
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REPORTAGEM POR  Alexandre Rodrigues | Para o Valor, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, acesso 14/06/2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Constituinte versus desordem

 Claudio Belli/Valor / Claudio Belli/Valor

 Cardoso de Mello: "Os códigos de processo não são atualizados. 
O lobby dos advogados não deixa passar. 
Porque quanto mais demora o processo, 
mais eles ganham"
É extremamente duro o diagnóstico sobre o Brasil do economista João Manuel Cardoso de Mello, que ganhou proeminência nacional ao participar, na década de 1980, da elaboração do Plano Cruzado, a primeira de uma série de tentativas de derrubar a inflação. Para ele, o país vive uma fase de desordem político-institucional e a única saída para resolver a situação é a convocação de uma Constituinte com critérios muito rígidos - ninguém que ocupa um cargo público poderia, por exemplo, ser eleito. Além disso, já se partiria do princípio de acabar com a possibilidade de releição para o Executivo. E vereadores, deputados e senadores só poderiam tentar ser reeleitos uma única vez.

Professor da presidente Dilma Rousseff quando ela iniciou sua pós-graduação em economia na Unicamp, João Manuel - ninguém o trata pelo sobrenome - não culpou, em uma rara entrevista à imprensa, o atual governo pela situação de desordem. Disse que, depois de décadas em que os principais problemas do Brasil não foram atacados seriamente, acabou se criando um clima de insatisfação, de mau humor com o Brasil que pode ser até uma ameaça à democracia, na medida em que abre espaço tanto para políticos "salvadores da pátria" quanto para os saudosistas dos tempos da ditadura. "As pessoas estão enojadas. Você conversa aqui com meus funcionários [da Facamp], desde o jardineiro até o professor, eles têm nojo", especificou.

João Manuel apresentou ao Valor, no seu escritório na Facamp, a universidade que criou há 15 anos, uma lista detalhada de indícios da desordem institucional - e de consequências dessas circunstâncias. Ele fumou dez cigarros ao longo da conversa e de um almoço, que contou também com a presença do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, amigo desde os 10 anos e sócio de João Manuel na Facamp, hoje reconhecida como uma das melhores instituições de ensino superior privada do país.

De certa forma, sua fonte de inspiração para o lançamento da proposta da Constituinte são as palavras ditas por Ulysses Guimarães, ex-presidente da Câmara dos Deputados e da Assembleia Constituinte de 1988. Segundo João Manuel, antes de iniciar a campanha das Diretas Já, de 1984, que tentaria pressionar o governo militar a permitir a escolha dos governantes pela escolha das urnas, o "dr. Ulysses" fez uma consulta a um grupo de amigos, reunidos na casa dele. Pelo que João Manuel se lembra, apenas ele apoiou a proposta do amigo. Os outros disseram que não haveria apoio popular. "Dr. Ulysses" ouviu todas as opiniões, mas depois afirmou: "Eu não quero saber se vai dar certo ou errado. O meu dever é fazer" a campanha, que acabou mobilizando centenas de milhares de brasileiros em manifestações nas grandes cidades.

Além de Ulysses Guimarães, que morreu em 1992, João Manuel foi próximo de outras figuras marcantes da vida nacional, como Zeferino Vaz, que esteve à frente da criação e da organização da Unicamp - sendo depois o seu primeiro reitor - e de Dilson Funaro, o ministro da Fazenda do governo Sarney que abriu caminho para um grupo de economistas que formulou o Plano Cruzado.

Muito discreto sobre seu relacionamento com a presidente, ele disse que "ela é minha amiga, foi minha aluna e eu gosto dela". Na sua avaliação sobre a situação da educação no Brasil, foi muito crítico sobre as universidades de forma geral e particularmente ácido sobre as instituições de ensino privadas. A seguir, os principais trechos da sua entrevista:

Valor: Viemos aqui fazer uma entrevista sobre economia...
João Manuel Cardoso de Mello: Não vou falar de economia. Não quero falar de economia propriamente dita e nem de eleição.

Valor: Vamos falar sobre a Copa?
João Manuel: Também não. Quero falar que o debate atual no país é uma vergonha. De péssimo nível. E que o grande problema brasileiro, ao contrário do que as pessoas pensam, é uma desordem político-institucional.

Valor: Em que sentido?
João Manuel: No sentido de que isso aqui é uma desordem. Uma desordem. Desordem político-institucional. Nosso sistema tem 30 partidos. A política se transformou num negócio. O partido da presidente tem 20% do Legislativo, logo a presidente é refém de partidos de aluguel. Esse é o problema. São 39 ministérios necessários para acomodar os anões, para não dizer os ladrões. Uma campanha para presidente da República custa R$ 700 milhões. Portanto, se estabelecem aqui relações espúrias e incestuosas entre os financiadores da campanha e o Executivo. E aí vem o problema do financiamento público das campanhas.

Valor: Qual outro sintoma dessa desordem?
João Manuel: O Supremo Tribunal legisla. E não pode! Sei disso porque nasci numa família de professores de direito. Meu pai, meu avô, meu bisavô. Isso é uma verdadeira barbaridade! E o Tribunal de Contas... Meu pai foi presidente do Tribunal de Contas.

Valor: De qual?
João Manuel: Do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Meu pai [João de Deus Cardoso de Mello], quando era moço, deu trombada numa árvore e ficou míope, tinha medo de guiar. Não gostava muito de motorista e nem nós tínhamos muito dinheiro. Ele tomava o ônibus no Jardim Paulistano, descia na praça da República, atravessava o viaduto do Chá e ia até a rua do Ouvidor, onde era o Tribunal de Contas. Tudo a pé. O presidente do Tribunal de Contas não tinha carro. Mas hoje o Tribunal de Contas interrompe obra. Para quê? Pode funcionar isso? Eles interromperam várias obras do governo federal. Não estou dizendo que o governo federal funciona, que é uma maravilha. Longe disso. Mas não pode. Isso aqui está tudo errado. O próprio Ministério Público tem poderes exorbitantes. Como é que um país pode funcionar assim? Além disso, os códigos de processo não são atualizados.

Valor: Por que não?
João Manuel: Porque o lobby dos advogados não deixa passar. Porque quanto mais demora o processo, mais eles ganham. Então, o Código do Processo Civil e o do Processo Penal especialmente são absurdos, são muito velhos. A lei de execuções penais é um absurdo, certo? Então, como é que o país vai funcionar? E ainda anotei na minha lista que a Receita Federal quer estabelecer a política fiscal no Brasil. A Receita Federal tem poder... Alguém manda na Polícia Federal? Não manda nada. Então, você tem setores autônomos. Isso é o que estou chamando de desordem completa.

"O debate atual no país é uma vergonha. 
De péssimo nível. O grande problema brasileiro
 é uma desordem político-institucional"

Valor: O senhor anotou outra questões?
João Manuel: Existem 19 mil cargos de confiança no governo. Isso é um absurdo completo porque, para funcionar, um Estado tem que ter uma burocracia no sentido weberiano, com gente que ganha bem, que tem prestígio, guiada pela honra, pelo interesse público, com boa formação, a meritocracia. Tem 19 mil cargos para botar quem? O parente, o amigo, o "zebedeu".

Valor: São problemas do atual governo?
João Manuel: Estamos falando de problemas estruturais que vêm se arrastando desde o governo Collor. Não tem a ver com Lula, com Dilma ou com FHC. Eu estou propondo aqui uma Constituinte, para reformar a coisa político-institucional.

Valor: Uma Constituinte em que bases?
João Manuel: Com os seguintes critérios: acabar com a reeleição [nos cargos executivos], deixar deputados com mandatos de cinco anos, uma reeleição só e acabou.

Valor: Cargos executivos sem reeleição?
João Manuel: É claro. [José] Sarney está aqui há 30 anos! Não é possível!

Valor: E uma boa parte do Parlamento está lá há muito tempo...
João Manuel: É isso, claro, e eles não vão mudar nada. Porque vivem disso. Você acha que tem cabimento? Eu me lembro que estava na casa do dr. Ulysses [Guimarães] quando apareceu a história dos anões do orçamento. Ele estava acabrunhado. Baixava a cabeça. E eu perguntava: "Você está aborrecido?" "João Manuel, [imita a voz de Ulysses] aconteceu uma coisa horrível. "O que foi?" "A corrupção chegou ao Legislativo." Ele não me contou mais nada.

Valor: Quais as consequências dessa desordem no dia a dia do país?
João Manuel: Você acha que o Estado é capaz de organizar estratégias de longo prazo? Com essa desordem político-institucional, não é possível fazer nada. Neste clima que a gente está vivendo, em que aumentaram as manifestações.... As pessoas estão enojadas. Você conversa aqui com meus funcionários, desde o jardineiro até o professor, eles têm nojo. O mal-estar que existe no país é imenso. Porque as pessoas estão cheias desse negócio. Essa é que é a verdade.

Valor: O senhor acha que uma proposta de Constituinte teria apoio da sociedade?
João Manuel: Eu acho que isso é o pré-requisito de qualquer discussão. Você quer fazer política econômica num país desses? Quer ter uma estratégia de longo prazo? Como se faz? E fica essa discussão 'gué-gué-gué-gué-gué-gué'. Uma discussão completamente idiota.

Valor: Falta um projeto para o país?
João Manuel: Qualquer país tem. Qualquer país que se preze tem um projeto. Agora, para isso, é preciso a centralidade da política. Se o país não tem um mínimo de organização política, a coisa não vai. Você vê a Dilma - ela é minha amiga, foi minha aluna e eu gosto dela -, tem todos os defeitos que todo mundo sabe, certo? Muito bem. Mas fica de mãos amarradas. Cercada. Inclusive pelo PT. As pessoas estão enojadas e isso a longo prazo é um perigo para as instituições democráticas. Porque aparece um aventureiro aí...

Valor: E há pessoas que falam que no tempo da ditadura era melhor porque roubavam, mas roubavam pouco.
João Manuel: O que é verdade. Pior é isso.

Valor: Essa situação é um risco?
João Manuel: É, porque ninguém vai imaginar que a democracia está enraizada na alma brasileira. Não está.

Valor: O que os seus estudantes falam sobre essa situação?
João Manuel: Alunos e professores. Tem um bom professor que me falou nesta mesma sala: "Professor, eu não quero falar de política porque fico com vontade de vomitar".

Valor: Mas esse sentimento de mal-estar abre um potencial para a mudança, não abre?
João Manuel: Sim, desde que haja coisas articuladas e que alguém faça alguma coisa.

Valor: Mas como se articularão essas mudanças que o senhor propõe? Via partidos políticos?
João Manuel: Não, fora dos partidos.

Valor: Pelos movimentos sociais?
João Manuel: Não sei como é que faz. Ninguém sabe. Agora, temos que colocar pelo menos o problema. Porque as pessoas começam a falar loucuras.

Valor: Quais loucuras?
João Manuel: As pessoas dizem banalidades: o problema é a produtividade... Mas quem defende a improdutividade? Ninguém. Ah, o problema é a saúde. Ninguém vai defender a doença. O problema do Brasil é a educação...

Valor: Algumas pessoas dizem que o problema nosso é a falta de política industrial.
João Manuel: Essas coisas são de uma complexidade enorme. Vou dar dois exemplos, mas podia dar dez. Como é que você não usa o pré-sal para alavancar a indústria metal-mecânica, o serviço técnico especializado nesse setor? Estão fazendo isso?

Valor: Não.
João Manuel: Não, você tem uma agricultura pujante, não tem? Uma agroindústria que vai crescer barbaramente. Tem problemas de produtividade, especialmente a pecuária. Mas que são resolvíveis com algum investimento vagabundo. Os chineses passaram a comer carne. Bom, isso é uma fronteira de expansão enorme. Você tem que colar a agricultura com a indústria de equipamentos e implementos agrícolas. Foi feito? Não. Você montou uma indústria farmacêutica brasileira que bem ou mal está aí. É óbvio que você tem que montar institutos de pesquisas. Os chineses hoje têm os maiores institutos de pesquisa do mundo. A China já é o segundo país onde mais se gasta em pesquisa e desenvolvimento. Os chineses formam 600 mil engenheiros por ano. O que é isso? É um país organizado! Nós somos incapazes, não fazemos nada. Na verdade, o país está paralisado. Esse mal-estar é isso.

Valor: Isso é uma fase do processo democrático? Faz parte do amadurecimento?
João Manuel: Isso é amadurecimento? Isso é uma degeneração.

"A política se transformou num negócio.
 O partido da presidente tem 20% do Legislativo, 
logo a presidente é refém de 
partidos de aluguel"

Valor: O país não precisaria passar por isso?
João Manuel: As pessoas perguntam por que eu não entrei em política. Eu tive vários convites para ser ministro, nunca aceitei. Porque não tenho estômago. Quando eu voltei do Ministério [Fazenda] e fui fazer uma palestra no Instituto de Economia [na Unicamp] e aí levantou um menino e disse: "Professor, vou fazer uma pergunta desagradável. O senhor parece que não roubou. Explique por quê". Não roubei, é fato. E ainda tive que vender uma Belina verde para pagar as dívidas porque o que eu ganhava não pagava. Eu não roubei porque meu pai falou que não era para roubar. A explicação é simples.

Valor: Haveria um momento - político, econômico e social - mais apropriado para propor as mudanças?
João Manuel: Eu não sei. Eu resolvi propor.

Valor: Perdeu-se a oportunidade de uma proposta dessas em algum momento?
João Manuel: Não creio. Mas daqui a pouco passa o momento. A situação vai se agravando, se agravando... O único sujeito, a bem da verdade - eu nunca fui do PT, muito menos desse PSDB -, a única pessoa que falou disso foi o Lula. Ligeiramente. O que acontece é que alguém precisa falar alguma coisa.

Valor: Além disso, os países desenvolvidos continuam em crise, com crescimento baixo.
João Manuel: Temos o mundo central em crise... Crise terrível. E nós não podemos colar nosso destino em um sujeito que está capenga. Isso a presidente está fazendo direito, aliás contra a corrente do Itamaraty.

Valor: Uma crise nos países centrais não é oportunidade para avanços do Brasil?
João Manuel: Nosso caminho na verdade é dos Brics, é fazer um acerto com a China, que é economia dinâmica.

Valor: E a proposta de integração latino-americana?
João Manuel: Vai fazer integração com quem?

Valor: A melhora da economia do país passaria por uma solução via indústria mais forte?
João Manuel: Claro. Política industrial é uma coisa de altíssima complexidade. Alguém que nunca entrou numa empresa, numa fábrica, não pode ser ministro da indústria, não sabe nem como é que produz um parafuso. Você vê: fecharam 120 empresas têxteis. Como é que você deixa fechar 120 empresas grandes?

Valor: Esse processo não está associado a um movimento de financeirização das empresas?
João Manuel: Mas aí você aceita isso? E então deixa quebrar o setor têxtil?

Valor: Tem que ser feito um contramovimento interno a essa tendência global?
João Manuel: Claro, você precisa articular o país. Esse é o problema. Bom, não podemos fazer tudo, mas então vamos fazer isso, fazer aquilo, vamos entrar nas cadeias de valor globais assim. Certo? Mas ninguém toma nenhuma providência.

Valor: Mas o BNDES tentou fazer uma articulação de cadeias, de grandes grupos, minimamente...
João Manuel: Não tentou porque não é da natureza do BNDES fazer isso.

Valor: E os financiamentos para os frigoríficos?
João Manuel: Há uma alguma lógica, porque nós somos o maior exportador de carnes do mundo.

Valor: A inserção internacional promoveria grandes grupos no Brasil, ajudaria a indústria?
João Manuel: Não é um problema de grandes grupos, você tem que escolher o que financiar.

Valor: Tem que escolher setores na política industrial?
João Manuel: Claro, tem que escolher. Isso tudo é muito complicado.

Valor: Tem que escolher grupos campeões?
João Manuel: Esse negócio de campeão... isso não é o problema central. O problema central é o que nós vamos fazer. Agricultura, na verdade, não cria emprego. Desde que o [Raul] Prebisch fez a crítica do modelo primário exportador era isso. Você vai lá em Sinop (MT) e você vê o quê? Soja, um sujeito no trator e favela na cidade. Agricultura não cria emprego, não cria arrecadação fiscal. O Brasil não pode abrir mão da indústria.

Valor: Mas o país já não abriu mão da indústria?
João Manuel: Não, ainda temos uma indústria importante.

Valor: Como criar uma política industrial se não mexe na política econômica?
João Manuel: Câmbio e juros. Com esse câmbio aí não vai. Você valorizou o câmbio por quanto tempo? Vinte anos? São 20 anos de valorização. Ninguém aguenta. E foram todos: o seu Gustavo Franco, o seu Fernando Henrique, seu Lula, que surfou no câmbio.

Valor: Crescer agora passa por uma desvalorização cambial?
João Manuel: E com cuidado, porque haveria impacto sobre a inflação. Parte da economia está indexada. Mensalidades escolares estão indexadas, há falsos dissídios porque o sindicato não representa ninguém, o sindicato patronal muito menos. E o juiz pega e dá uma canetada. Salários de professores sobem 7%. E eu tenho que subir a mensalidade 7%, certo? Se eu não fizer isso, eu quebro. Na minha lista incluí também a questão de como se justifica a existência da Justiça do Trabalho. Essa pergunta tem que ser feita. Quando Getúlio Vargas fez a Justiça do Trabalho, na década de 30, por que ele fez? As justiças estaduais eram todas manejadas pelas oligarquias, inclusive em São Paulo. Mas hoje a Justiça do Trabalho se justifica? O Brasil é o único país que tem Justiça do Trabalho.

"O STF legisla. E não pode! Isso é uma 
 verdadeira barbaridade! (...) O Tribunal de Contas 
interrompe obra. (...) Está tudo errado"

Valor: A melhora da indústria passa por um governo desenvolvimentista?
João Manuel: Não há mais desenvolvimentismo. Nós nunca fomos desenvolvimentistas no Instituto de Economia [da Unicamp]. Isso aí é um equívoco. Isso aí é saudosismo. Hoje, você tem liberais idiotas e saudosistas. Nós não somos nem uma coisa nem outra. Você tem que lidar com os problemas que o mundo está pondo para você, que não são os de 50 anos atrás. Falta planejamento. Há um livro que se chama "China em Uma Hora", que mostra uma cidade na China que foi feita inteirinha sem ninguém, planejada para 10 milhões de habitantes. Primeiro fizeram a cidade e depois chegaram os 10 milhões de habitantes. Isso é outra coisa que nós não fizemos. Você acha que é possível uma cidade ter 20 milhões de habitantes? Tem água, lixo, tudo que está escondido e você não vê... É imanejável.

Valor: O centro do debate econômico deveria ser como se planeja o futuro do país?
João Manuel: O debate é o seguinte: como é que nós vamos organizar o país? Como se organiza a indústria, como organizar a agricultura, como é que se faz o entrosamento entre o setor público e o setor privado. Não se faz isso há 30 anos. Vamos olhar para a China, que tinha uma renda per capita em 1980 de US$ 160. Sabe quantas pessoas saíram do campo para cidade em 30 anos? 460 milhões... Veja o planejamento do espaço que eles fizeram. Isso é outra coisa que nós perdemos. Nós perdemos a coisa do planejamento regional.

Valor: E na sua área, a educação?
João Manuel: Bom, vamos primeiro, então, aos fatos, depois à teoria e à reflexão. São Paulo tem 365 mil professores. O salário médio é de R$ 2,4 mil. A jornada média de trabalho é 46 horas semanais. Um professor, para dar uma boa aula, pode no máximo dar 20 horas por semana. Para dar tempo de ele preparar a aula, corrigir prova. Ou seja, sem aumentar o salário, seria preciso contratar tanta gente que dobraria o gasto com professores. O que se pode fazer então? Tem que se começar a resolver o problema por etapas. Criar uma carreira paralela, ir montando devagar, criando escolas de tempo integral, pagando melhor. Isso leva 20 anos, mas alguém precisa começar. Se não, daqui a 20 anos nós estamos aqui falando a mesma coisa. Alguém faz? O grande problema está no ensino médio e fundamental. Não nos enganemos: é preciso professores competentes com uma carga horária razoável e escolas em tempo integral. É tarefa para uma geração. Para isso, precisamos enfrentar o corporativismo dos professores, o gigantismo das máquinas educacionais e fazer um grande esforço fiscal.

Valor: A regulamentação do ensino também precisa ser mudada, não?
João Manuel: Você vai ler na Constituição que as competências da educação são concorrentes, há municípios com universidade. Mas o que é isso? O currículo das escolas brasileiras é absurdo. Não tem nenhum país do mundo que tem física, química e biologia no ensino fundamental. Tem ciências. Foi para tirar os pobres da universidade que foi feito um currículo desses. Você faz um currículo desse tamanho, tem que saber quais são os 53 elementos químicos... Na Alemanha, você abre o livro, tem coisas elementares: por que eu aperto aquele botão e acende a luz, por que eu ligo carro e o carro anda, por que o avião voa. E assim por diante.

Valor: A escola privada é melhor?
João Manuel: O problema não é só no ensino público.

Valor: E as universidades brasileiras?
João Manuel: Hoje, a universidade pública brasileira está completamente obsoleta. Porque o modelo de universidade está obsoleto, não existe mais isso. Universidade com 90 mil alunos não é possível, não há como administrar isso. Na época da criação da Unicamp, O Zeferino Vaz me mandou calcular os custos. Eu sou um dos poucos sujeitos no Brasil que entendem de custos universitários. Ele dizia: "Você vai estudar custos aqui, ninguém sabe nada desse negócio". Eu não sabia nada também. A Unicamp foi projetada para ter 5 mil alunos de graduação e 5 mil de pós-graduação. Fiz todas as contas. Inclusive, depois de 10 mil alunos é mais barato fazer outra universidade. Em termos de economias de escala... para não dizer os custos pedagógicos. Eles quebraram as universidades. E fomos nós que inventamos esse negócio.

Valor: O que poderia ser feito?
João Manuel: As universidades públicas brasileiras são uma piada. Precisava haver uma reforma universitária. Hoje, existem dois modelos de universidade sendo discutidos. É uma discussão enorme no mundo e evidentemente não chegou aqui, por supuesto. No modelo francês, há a Sorbonne, que é uma universidade de massas. Da última vez em que estive lá com amigos, tinha um galpão. E perguntei que galpão era esse? "Aqui são as aulas de geografia." Quantos alunos têm? "Trinta mil." Aí tem as grandes écoles. Esse é um modelo. O outro é o americano, no qual dentro das universidades você tem ilhas de excelência, o resto é ensino de massa. Teve uma grande discussão na década de 30 nos Estados Unidos sobre isso. Foi quando eles massificaram a universidade. Faculdade de direito nos Estados Unidos não é graduação, é pós-graduação. Então, faculdade de direito de Harvard... [faz com a mão, mostrando que ela está lá em cima]. Agora, se você vai para outra faculdade... [faz com a mão, mostrando lá para baixo]. Aí tem 200 alunos na classe, um cara com microfone. Então, é uma catástrofe.

Valor: E as universidades privadas?
João Manuel: Instalou-se um segmento privado no país de compra e venda de diplomas!
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Reportagem Por Célia de Gouvêa Franco e Vanessa Jurgenfeld | De Campinas
FONTE: Valor Econômico online, 13/06/2014

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Estamos “comendo” a FIFA

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 Brasil é pior país para trabalhar a sério na organização do Mundial, afirmou entidade. Para nação antropofágica, não poderia haver elogio mais gratificante…

“O Brasil não é para principiantes”. Essa frase, atribuída a Antonio Carlos Jobim, corresponde a uma advertência para quem coloca em questão o Brasil de hoje e de ontem e de sempre. Em tempos de Copa do Mundo, nosso país está mais do que nunca sintonizado com sua verdadeira vocação antropofágica, tão bem descrita no manifesto oswaldiano: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”1. Temos aversão a todo tipo de ordenação, de disciplina, de racionalização que caracterizam o pensamento burocrático impessoal e as economias de todo o tipo. Somos atrapalhados e nos metemos em grandes confusões. Na verdade, essa é a nossa maior riqueza. É que não somos afeitos à domesticação. Nem a FIFA, nem o mercado, nem o Estado e nem ninguém conseguem amansar esse povo complexo e controverso. A FIFA já constatou: o Brasil é o pior país para se trabalhar a sério na organização do Mundial. Não há elogio mais gratificante do que esse. Estamos com as obras atrasadas. Pois que atrasem! Somos originais. Vangloriamo-nos da dor de cabeça que causamos ao inimigo externo. Sairão daqui com o desejo de nunca mais retornar. Mas os traremos de volta, daqui uns anos mais, para causar-lhes uma dor de cabeça renovada.

Aqui no Brasil, nós devoramos o inimigo pela adesão a ele. Uma adesão relativa, é certo, e avessa aos compromissos de filiação. Aceitamos a Copa para mostrar ao mundo quem somos e o que desejamos ou não desejamos. Para mostrar que o país do futuro se constrói na incerteza do presente. Na aceitação do presente como um devir. Aceitamos a Copa para combatê-la através do que ela nos proporciona de melhor: o futebol. Ah, o futebol… O combate acontece na forma de entrega nada maniqueísta. Vai ter Copa e não vai ter. Vai ter jogo e protesto, farras e vaias, sangue e gols e punhos cerrados. O corpo inteiro como experiência coletiva. Abrimos as portas de casa para o mercado financeiro, para a especulação imobiliária, para a violência internacional, violência policial. Dormimos abraçados com o inimigo. E acordamos em festa. No entanto, mal sabem os analistas principiantes que, durante a noite, nós é que “comemos” o inimigo. Assimilamos seus valores e os transformamos de acordo com uma lógica interna, própria do espírito carnavalesco. Tal como nas palavras de Haroldo de Campos sobre o sentido do Brasil canibal: “assimilar sob espécie brasileira a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com qualidades locais iniludíveis que dariam ao produto resultante um caráter autônomo e lhe confeririam, em princípio, a possibilidade de passar a funcionar por sua vez, num confronto internacional, como produto de exportação2.”

Esse é o alicerce da nossa nacionalidade. A verdade subtropical do pensamento selvagem, o pensamento da fundação da nova civilização planetária. Homo Novus Brasilensis. Eis a virtude do jeitinho brasileiro e do “homem cordial” como produto de exportação. Porque essa é nossa herança mais profunda, nossa ontologia cultural brasileira. Boicotamos o Estado antes que ele boicote nossa espontaneidade. Driblamos os governos e o mercado e apresentamos ao mundo uma nova Copa do Mundo, onde a bola dividirá o campo com os protestos. Usamos a Copa para revelar ao mundo as mazelas do mundo. Nossa luta é contra as instâncias referendadas pelo Estado e pelo mercado, que tentam controlar as efervescências e organizá-las de acordo com a lógica normativa do poder. O poder que vem de cima e que é avesso ao húmus, aos que vivem no chão. Nossa filosofia é chã, como a do Manoel de Barros. Nossa tática é irracional, é anti-tática. O fim da política como estratégia de guerra. A refundação da política como experiência interna, regada à festa. A ordem primitiva. A vitória de Dionísio sobre Apolo. A derrota da ciência pela astúcia do mito. A superioridade da magia frente à desencantada religião. Não seria isso o verdadeiro “ateísmo com Deus” do manifesto antropofágico?

De fato, não há compatibilidade entre o nosso turbante de bananas e a gravata engomada dos executivos da Copa. Aqui a periferia (aqueles do chão) impera antes, durante e depois do carnaval. É ela quem civiliza. Essa é a nossa virtude. Por isso, a tradicional fórmula “colonizadores versus colonizados”, com a superioridade dos primeiros, não se encaixa no nosso perfil. Nossa fórmula é tupi: a anti-fórmula. Somos potência econômica. Mas o que temos com isso? Não partilhamos a riqueza. Dominamos pelo imaginário, esse sim bem distribuído e cada vez mais real e potente.

Não basta a FIFA ter o poder do capital para financiar o espetáculo artificialmente midiatizado e ordenar a cidade de acordo com interesses financeiros. Aqui nos trópicos, capital não é suficiente. Tem que ter jogo de cintura, saber sambar e rebolar na boquinha da garrafa. Caso contrário, damos de 10 a 0 com direito a drible à la Garrincha, balãozinho e bola por entre as canelas. Não basta ter poder, tem que ter espírito. Isso nós temos de sobra. Com o espírito do Exu tranca-copa, o espírito do povo das ruas, dos bêbados e equilibristas, dos palhaços de circo, dos bufões de esquina, dos mascarados, dos craques da várzea… nós vamos, aos poucos, “comendo” a FIFA.

Estamos na véspera da Copa que não vai acontecer. Cabe aqui uma última advertência a todos o que pensam poder colocar o Brasil em xeque. A advertência já foi dada por Hélio Oiticica, o herói marginal, mas poderia ter saído de qualquer outro anti-herói Macunaíma, ou seja, de qualquer um de nós: “quem ousará enfrentar o surrealismo brasileiro?”3

1ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropófago. In: A Utopia Antropofágica. Obras Completas de Oswald de Andrade. São Paulo: Globo 1990. 
 
2Citado por VELOSO, Caetano. Antropofagia. São Paulo: Penguin Classics / Companhia das Letras, 2012, p. 54. 
 
3OITICICA, Hélio. Brasil Diarréia (1973). In: In DERCON, Chris et all (org). Hélio Oiticica (catálogo). Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica, 1998. 
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Texto: Por Lisandro Moura | Imagem: Túlio TavaresAntropofagia
Fonte:  http://outraspalavras.net/brasil/estamos-comendo-a-fifa/

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O fascínio chamado amor

 Martha Medeiros*
O jogo do amor, nesta véspera de Dia dos Namorados, está sofrendo uma concorrência indecorosa. Só se fala em futebol. A pipoca promete desbancar os bombons, a cerveja promete vencer os cálices de vinho, e beijo, alguém falou em beijo? Só se for para comemorar vitórias em campo. Não é hora de romantismo, e sim de patriotismo.

Suspiro. Nesse clima (ainda que insosso) de torcida organizada, de nação reunida, de milhões em ação, fica difícil dedicar o tema da coluna apenas para dois: um par.

Mas é o que me propus, desde que li, dia desses (acho que no livro Doralina, de Luiz Horácio), uma frase que me fez pensar: “Amar é encontrar aquilo que não se procura”. E subitamente lembrei daqueles que se produzem no sábado à noite para sair em busca de paquera, de quem se vale do aplicativo Tinder na esperança de achar sua cara-metade, de quem se matricula em todos os cursos prevendo que dali será pinçado um candidato a marido ou a esposa, de quem pede aos amigos para que lhe apresentem solteiros e solteiras à disposição, lembrei de todas as artimanhas justas e válidas para que a pessoa se recoloque no mercado amoroso, numa ânsia também justa e válida de preencher seu vazio emocional – só que o justo e o válido não são mágicos.

Aquilo que vem por encomenda, atendendo a pedidos, pode, claro, satisfazer plenamente seu desejo. Quer casa, comida e roupa lavada? Tem quem ofereça. Quer companhia para o cinema? Aos montes. Quer sexo e nada mais? Comece a distribuir senha. Se você está consciente do que procura, encontrará alguém que se encaixe no seu ideal de relacionamento. Funciona mais ou menos como uma entrevista de emprego.

Justo e válido.

Porém, amar é encontrar aquilo que não se procura. Aquilo que surge sem explicação, que não tem lógica, e contra o que não adianta lutar: nenhuma resistência é suficiente. Amar é puro fascínio. Você cruza com uma pessoa que talvez nem equalize com seus sonhos, mas é com ela que se deu o click, o curto-circuito, que algo foi despertado. A mágica está no que não veio por encomenda, nem atendendo a pedidos, nem no momento certo, nem mesmo pegou você de banho tomado – é um flechaço do Cupido, que às vezes é ruim de mira, mas ao menos tem boa intenção. Ou, se não for a hora de falar em Cupido, mas em Neymar, Fred, Hulk e Jô, pode-se dizer que a mágica é um potente chute de fora da área no qual ninguém acreditou, mas a bola entrou assim mesmo. Gol.

Aos namorados de amanhã, grudem-se. Façam essa mágica durar.

Aos solitários de amanhã, torçam – mas pela Seleção, não por si mesmos. Esqueçam um pouco de si mesmos. Permitam-se parar de querer, de procurar, de se preocupar. Sem planos e sem ânsia, aguardem calmamente a chegada do que nunca pediram.
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* Escritora. Cronista da ZH
Fonte: ZH online, 11/06/2014
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terça-feira, 10 de junho de 2014

Como funciona a oração do papa

Daniel Martins de Barros*
 

Um padre e um rabino foram assistir a uma luta de boxe. Ao entrar no ringue um dos lutadores faz o sinal da cruz, ao que o rabino perguntou para o padre: “O que significa aquele sinal?”. “Nada”, disse o ele, “se o sujeito não souber lutar”. Famosa depois de fazer parte do filme O [...]



Um padre e um rabino foram assistir a uma luta de boxe. Ao entrar no ringue um dos lutadores faz o sinal da cruz, ao que o rabino perguntou para o padre: “O que significa aquele sinal?”. “Nada”, disse o ele, “se o sujeito não souber lutar”.

Famosa depois de fazer parte do filme O Vôo da Fenix, de 2004, lembro dessa piada diante da louvável iniciativa do papa Francisco de reunir, no Vaticano, os líderes israelense Shimon Peres e palestino Mahmoud Abbas, para conversar e orar pela paz. Vale a pena pensar se e como essa oração pode funcionar.-

Vários estudos já foram feitos para tentar verificar o poder real da intercessão espiritual – na área da saúde, por exemplo, pesquisas realizadas procuraram descobrir se pacientes que recebem oração melhoram mais do que os outros. Mas os resultados são controversos, por várias razões. Em primeiro lugar, a metodologia é complicada: o padrão das pesquisas médicas é sempre comparar uma intervenção que se imagina eficaz com outras ineficazes, o chamado placebo. E como seria possível fazer uma oração placebo: pedir para Deus, mas sem fé? Nesse caso não seria uma oração legítima. E se compararmos pacientes que receberam oração com os que não receberam, podemos não estar fazendo as medidas corretas – as diferenças que porventura existissem poderiam não ser decorrentes da ação divina, mas da mentalização ou outras variáveis de confusão. Mas a maior dificuldade é compatibilizar o discurso religioso e o científico. A religião é um sistema fechado: por ser dogmática, não está aberta ser questionada e “provada falsa” – a cada resultado negativo, haverá uma explicação do tipo “não foi da vontade de Deus”. A ciência, por seu turno, tem o foco na negação das hipóteses, não em sua comprovação – e a cada resultado positivo haverá também uma explicação, seja sobre artefatos estatísticos ou tamanho pequeno da amostra. Como disse Dostoiévski, “O verdadeiro realista, caso não creia, sempre encontrará em si força e capacidade para não acreditar no milagre, e se o milagre se apresenta diante dele como um fato irrefutável, é mais fácil ele descrer de seus sentidos que admitir o fato. E se o admite, admite-o como fato natural, que apenas lhe fora até então desconhecido”.

Mas a oração do papa pode muito bem funcionar por outros meios.

Primeiro, porque orar implica em abrir espaço mental para determinado assunto, tanto racional como emocionalmente, trazendo o tema para o foco de nossa atenção, o que pode canalizar mais da nossa energia para buscar soluções. A expectativa de um resultado positivo, sabe-se bem, pode influenciar no resultado de diversos processos, aumentando a chance de realmente tal resultado ocorrer. Ao colocar a paz no Oriente médio como objeto de oração, o papa Francisco injeta mais força no assunto e de alguma forma aumenta as expectativas sobre ela. Além disso há o componente do compromisso público que é assumido com essa atitude. Ao unir em oração líderes católicos, judeus e muçulmanos, o Papa não só mostra que as religiões podem conversar – mais do que apenas conviver. Faz também com que as autoridades assumam publicamente a postura de pedir para que seu Deus os ajude a encontrar a paz, tornando mais constrangedor para eles futuramente trabalharem contra essa mesma paz que diante de todos pediram a Deus para promover.

Como o sinal da cruz do pugilista, só orar pela paz não vai valer muita coisa se os atores políticos não souberem como buscá-la efetivamente. Mas mesmo que não leve a guerra a nocaute, esse foi um golpe bonito de se ver.
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* Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.
Fonte: Estadão online, 10/06/2014
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A dádiva do tempo

José Castello*

         Uma pequena joia se guarda no fecho de "Travessia marítima com Dom Quixote/ Ensaios sobre homens e artistas", livro do escritor alemão Thomas Mann (Zahar, tradução de Kristina Michahelles e Samuel Tristan). Além de romancista genial, Mann (1875-1955) foi, também, um complexo pensador. O ensaio sobre a travessia do Atlântico, que se inicia com um elogio da lentidão, ou do ritmo “andante”, e depois se embrenha pelo livro de Miguel de Cervantes, é comovente. “O que é bom pede tempo”, escreve Mann. “O mesmo vale para o que é grande ou, para dizê-lo com outras palavras: o espaço pede tempo”. Ele vê alguma coisa de sacrílego “na tentativa de roubar ao espaço uma de suas dimensões, de privá-lo do tempo naturalmente vinculado a ele”. Para Thomas Mann, a lentidão é matéria fundamental da criação.

         Motivos para uma densa e difícil reflexão surgem em “O artista e o literato”, ensaio no qual Mann faz uma defesa do homem literário em sua “pureza abstrata”, descartando assim _ penso _ um dos elementos cruciais da criação: a imperfeição, não como um defeito, mas como um atributo fundamental do humano. De qualquer forma, é ainda hoje muito útil a distinção que Mann faz entre o literato e o artista. Enquanto o artista seria “o homem do efeito e do sucesso” _ correspondendo a um lamentável padrão contemporâneo do êxito rápido _, o literato veria o sucesso “como quase nada além de ornamento da injustiça” _ o que não deixa de ser também, é verdade, uma visão parcial e temerária. A contraposição entre artista e literato, contudo, nos ajuda a pensar um dos mais graves problemas da cultura de hoje: a leviandade.

        Perigosas são algumas das teses de Thomas Mann a respeito do homoerotismo, expostas em “O casamento em transição”, em que faz uma áspera condenação da homossexualidade, associando-a, necessariamente, à “libertinagem, ao nomadismo e a inconstância”. Chega a dizer: “De fato, não existe amor menos fiel, menos comprometido, escapando tanto para todos os lados, se não me engano”. Em resumo: muitas restrições a eles podem ser contrapostas; ainda assim, os ensaios de Mann _ em uma época avessa à lentidão do pensamento _ nos ajudam a pensar. O mais importante, me parece, é a absoluta franqueza e a emocionante fidelidade às ideias como artefato mais precioso do homem. Pensar pede lentidão, pede desprezo pelo sucesso imediato, pede a celebração do tempo. Seja qual for a posição que tomemos em relação a suas teses, não podemos lhes negar a grandeza e a coragem.

        Mas eu dizia que há uma joia guardada no fecho do livro. Refiro-me ao brevíssimo ensaio “Elogio da transitoriedade” (tradução de Samuel Tristan), escondido entre as páginas 158 e 161. Um ensaio absolutamente atual para um tempo em que se valorizam, acima de tudo, a rapidez e a performance, e ainda _ imitando o destino dos vampiros _ a juventude eterna. “Os senhores ficarão surpresos ao ouvir minha resposta à sua pergunta sobre aquilo em que acredito ou o que estimo estar acima de tudo: é a transitoriedade”, inicia Mann, com o vigor que lhe é característico. Não só na época de Thomas Mann, mas ainda hoje, na era das cirurgias plásticas, das vitaminas mágicas e da “moda jovem”, a transitoriedade é vista com grande desolação. “Não, replico eu, ela é a alma do ser”, afirma Mann. A transitoriedade produz o tempo, “e o tempo é, ao menos potencialmente, a maior e a mais útil das dádivas”.

        Sem as noções de começo e fim, sem o desenrolar de uma linha que conduza do passado ao futuro acariciando o presente, não há tempo. “A atemporalidade é o nada estático”, ele nos alerta. Lembra Mann que os biólogos estimam a vida orgânica sobre a Terra em cerca de 550 milhões de anos. Não podemos dizer se a vida prosseguirá por outros 550 milhões de anos, ele recorda. Ela pode perecer muito antes disso. A vida é apenas um acidente cósmico na vida de um planeta. Perde por isso seu valor? Responde Mann: “Ao contrário, penso eu, a vida ganha enormemente em valor e alma e interesse, torna-se propriamente cativante”. Entre as características que distinguem o homem do resto da natureza está _ provavelmente a mais preciosa _ o que Thomas Mann chama de “dádiva do tempo”. Algumas pessoas podem não dar a menor importância a sua passagem, como se fosse algo absolutamente banal. A maioria a abomina, como uma grave ameaça. Contudo, só o uso criativo do tempo possibilita a existência da arte, lembra-nos Mann. Por isso, é comum artistas ouvirem a perplexa pergunta: “Mas quando você faz tudo isso?” A arte parece não caber no tempo e, no entanto, não existe sem ele.

        Um mundo atemporal seria um mundo sem fertilidade e sem transformação, pois seria um mundo paralisado. Nada mudaria, nada aconteceria _ estaríamos enclausurados no inferno da repetição. Só a transitoriedade _ só a existência do tempo _ traz a possibilidade de criação e de transformação. “Ao ser humano é dado santificar o tempo, ver nele um campo fértil que clama por cultivo constante”. É o tempo, mais que tudo, que confere dignidade à existência. Ele é a matéria que o artista tem para moldar sua obra. Ele é o elemento que se oferece à criação e à construção. Sem o tempo, nada somos.

Talvez o tempo não passe de uma noção humana, e por isso restrita e frágil demais. “A astronomia ensinou-nos a considerar a Terra como uma estrela insignificante no gigantesco turbilhão do cosmos, uma estrelazinha secundária a vagar na periferia da própria Via Láctea”. 

        Admite Mann que olhar a Terra e seu Sol como pequenos vultos periféricos é, na perspectiva da ciência, absolutamente correto. Apesar disso, ele afirma crer no fundo da alma que “cabe à Terra uma significação central na ordem do universo”. 

A fé de Thomas Mann na humanidade não tem limites. Ele vê a nós, homens, como pequenos, mas bravos agentes do ser, a trafegar pelos canais do tempo. Não tem receio algum de dizer: “Um fracasso pelas mãos do homem equivaleria ao fracasso, a revogação de toda a criação.” Admite o quanto há de onipotente em seu diagnóstico, mas apesar disso nos faz um pedido que não devemos descartar: “Sendo ou não assim _ seria bom que o homem se portasse como se assim fosse”.
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* Crítico literário
Fonte: Jornal o Globo online, 07/06/2014
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Violências conjugais

 João Pereira Coutinho*
1. Confesse, leitor: sempre que a seleção joga, você sente a adrenalina a correr mais forte. O álcool é bebido com outra intensidade. E quando o jogo termina, surge a velha e shakespeariana pergunta: bater ou não bater, eis a questão. 

Resumindo, aqui está um estudo recente do Reino Unido, divulgado pelo "Guardian", que traz avisos sérios para a Copa do Mundo: sempre que a Inglaterra joga, a violência doméstica aumenta. E aumenta em qualquer dos cenários: se a Inglaterra perde, alguém apanha; se a Inglaterra ganha, alguém apanha também. 

Claro que existem diferenças: nas derrotas, há um crescimento de 38% na violência entre o casal; em caso de vitória, o crescimento é de 26%. Mas a conclusão é unívoca: futebol traz violência dentro de casa. E nem sequer discrimina sexualmente: eles batem nelas, sim; mas elas também batem neles.
E, para que as minorias não sejam esquecidas, a orientação sexual não altera o pugilato: eles batem neles; elas batem nelas. 

Por isso as autoridade nativas estão atentas: o primeiro jogo da Inglaterra na Copa será contra a Itália. O que significa que as autoridades policiais já identificaram várias famílias nas quais esse tipo de violência tem histórico e pode irromper de forma selvática. 

Não sei, honestamente, que tipo de intervenção está prevista para o dia da partida. Boicotar a transmissão do jogo —via rádio ou TV— para residências problemáticas? Separar preventivamente o casal em jaulas eletrificadas? Arrombar a porta ao mínimo sinal de discussão e louça quebrada?
Esperemos para ver. Mas o futuro promete: se o estudo ganha dimensão internacional, não será de excluir que apareça algures um comitê politicamente correto, de preferência sob o alto patrocínio das Nações Unidas, propondo seriamente a criminalização do futebol por suas influências nocivas na harmonia do lar. 

Depois da Lei da Palmada infantil, só falta uma Lei da Porrada conjugal. 

2. Provocou comoção a atitude do papa Francisco de rezar pela paz com os presidentes israelense e palestino. Pena que, no encontro histórico do Vaticano, não tenha havido a mais vaga menção aos obstáculos reais (e tradicionais) que definem o conflito. E que, hoje, em 2014, ainda não têm qualquer solução à vista. 

Ninguém sabe o que fazer com Jerusalém, cidade reivindicada pelos dois povos para futura capital dos dois Estados. 

Ninguém sabe o que fazer com os 4 milhões de refugiados palestinos (estimativa conservadora) que a Autoridade Palestina exige que regressem a Israel (e que Israel, logicamente, recusa, por ver nesse regresso o seu suicídio demográfico como "Estado judaico"). 

Ninguém sabe como convencer Israel a retirar da Cisjordânia depois da experiência traumática da Faixa de Gaza, quando Ariel Sharon retirou do território e o Hamas passou a usá-lo como rampa de lançamento de foguetes para o interior de Israel. 

E, por falar em Hamas, ainda ninguém sabe se, no novo governo de unidade palestino, o Hamas está disposto a renunciar totalmente ao terrorismo e a reconhecer, pela primeira vez na sua história, a existência da "entidade sionista" com a qual terá de dividir o território. 

Uma oração pela paz talvez seja uma forma de pedir um milagre para o conflito israelense-palestino. O papa Francisco, com a sua habitual sabedoria, sabe bem que só um milagre pode ressuscitar um "processo de paz" sepultado. 

3. Leitores vários não gostaram das comparações abusivas que fiz nesta Folha entre as campanhas antifumo de hoje e as utopias sanitárias do fascismo e do nacional-socialismo ("Fascismo light", 3/6/2014). 

Entendo o desconforto: também eu abomino a ligeireza das analogias históricas, sobretudo quando abusivas e ofensivas. 

Acontece que, desta vez, não há ligeireza alguma. E aos leitores indignados só posso aconselhar, pela milésima vez, a leitura de "The Nazi War on Cancer" (a guerra nazista contra o câncer), o estudo magistral de Robert N. Proctor sobre a primazia do Terceiro Reich na luta contra o fumo. 

A propaganda que hoje domina essa luta, no estilo e no tom (o fumante como ser infecto; o culto do físico perfeito; etc.) foi uma moda iniciada pela Alemanha nazista, 80 anos atrás.
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* Colunista da Folha
Fonte: Folha online, 10/06/2014
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