domingo, 6 de julho de 2014

PLATÃO, NOSSO CONTEMPORÂNEO

Entrevista
FILOSOFIA

Alain Badiou revisita "A República" 
RESUMO Filósofo francês revisita "A República", de Platão, em livro agora publicado no Brasil, no qual coloca o pensamento do grego em diálogo com questões atuais. Nesta entrevista, Badiou comenta, além do recente trabalho, temas como a ascensão da direita na França e a sua visão da ecologia como um novo "ópio do povo". 
 
RESPONSÁVEL POR uma obra baseada na centralidade do conceito de "acontecimento" e em uma tentativa original de recuperação da ontologia a partir de sua aproximação com as matemáticas, Alain Badiou é um dos filósofos mais relevantes do cenário atual. 

Professor emérito da Escola Normal Superior, o francês nascido no Marrocos em 1937 sempre aliou seu interesse filosófico a um sólido engajamento político, seja no interior das discussões sobre o destino mundial da esquerda, através de debates sobre a recuperação possível do comunismo, seja na luta contra políticas de discriminação de imigrantes, entre tantos outros temas com os quais ele se envolveu nas últimas décadas. 

Entre as bases que sustentam tanto sua experiência filosófica quanto sua atitude militante está o pensamento de Platão. Agora, sai no Brasil sua "tradução" de "A República". Há que se colocar "tradução" entre aspas porque se trata, na verdade, de uma reescrita na qual problemas contemporâneos aparecem repostos no interior das estratégias textuais de um escritor milenar. Como diz o título, é "A República de Platão Recontada por Alain Badiou" [trad. André Telles, Zahar, R$ 59,90, 384 págs.; R$ 39,90, e-book]. 

"Platão é nosso contemporâneo", dirá Badiou. Assim, pelas suas mãos, o grego aparece, por exemplo, como um defensor de um comunismo por vir que muito teria ainda a dizer a respeito de nossa situação atual. 

Hoje, porém, boa parte do pensamento vê em Platão seu antípoda. Badiou procura inverter esta operação, transformando o filósofo grego naquele capaz de pensar o que nosso tempo teima em não querer pensar. Nesta entrevista, ele explica suas razões. 

                                                                                  -
 
Folha - Sua versão de "A República" é o resultado do seminário "Para hoje: Platão!", que o sr. apresentou por quatro anos (2006-10) na Escola Normal Superior. Qual é, para o sr., a importância do seminário como formato e de sua atividade no ensino, de forma geral?
Alan Badiou - Particularmente, esse seminário sobre Platão teve uma grande importância para mim. Mas, em geral, cada seminário é algo da ordem de um laboratório, no qual testo publicamente teses e lanço hipóteses. Faço isso há muito. Trata-se, a partir do público e das pessoas presentes, de se interrogar sobre as condições de um ensino, a saber, sobre a transmissibilidade das verdades. O seminário, como todo ensino, é o lugar da transmissão de verdades. 

Entrando diretamente em seu projeto de reconstruir "A República", por que recuperar Platão no momento atual? Qual a função dessa operação filosófica?
O século 20 foi radicalmente antiplatonista. A desqualificação de Platão esteve tanto na recuperação heideggeriana do ser quanto no neopositivismo anglo-saxão ou em um certo marxismo, que definia Platão como "ideólogo de proprietários de escravos".

Nesse sentido, a razão positiva de minha empreitada consiste em mostrar como Platão nos permite combater aqueles que sempre foram os inimigos da filosofia, a saber, o sofismo, o ceticismo que não acredita na existência de verdades e que hoje está tão presente.

Platão nos permite compreender como é possível expor o pensamento à sua potência universal, como é possível para todo e qualquer um entrar no movimento das verdades. Mesmo se as verdades apareçam em um contexto ligado a um acontecimento, elas permanecem e têm um caráter universal. 

Como o seu platonismo trata, por exemplo, a afirmação de Gilles Deleuze, para quem as ideias platônicas estariam submetidas a uma lógica da fundamentação profundamente normativa, ligada à noção de representação e avessa à produção de diferença?
Creio que, no final das contas, Deleuze tem um leitura bastante clássica de Platão; suas críticas são as que sempre foram feitas. Não me parece que haja alguma inovação em, por exemplo, contrapor o caráter eterno da ideia à fluidez do movimento da vida, que podemos também encontrar em Bergson e mesmo em Nietzsche. Note que Deleuze foi, como Heidegger, uma espécie de pré-socrático, no sentido em que os gregos se referiam a eles, como físicos, como pensadores de uma totalidade que se desdobra na fluidez da vida. Neste sentido, Platão permitiu à filosofia referir-se a si, independente de toda contemplação acabada do universo. 

De que modo o sr. compreende interpretações como as dadas por Pierre Hadot, que definem a filosofia grega como uma questão de exercício e de ascese espiritual?
Creio que a concepção da filosofia como exercício espiritual continua profundamente ligada a uma figura religiosa do ato filosófico. A partir dessa orientação, trata-se de uma prática cotidiana que se aparenta, de certa forma, à oração.

Eu insistiria, ao contrário, que a filosofia tem a ver diretamente com certo tipo de saber que reestrutura a experiência de todos e possui uma dimensão universal. Foucault retomou a orientação que você menciona, sublinhando como a filosofia era uma prática ligada ao cuidado de si.

De minha parte, estou de acordo quanto ao fato de que a filosofia possa ter isso como efeito, mas, por outro lado, é verdade que, em filosofia, trata-se inicialmente de verdade, em sua dimensão universal e não limitada à configuração atual dos sujeitos humanos. 

O sr. atualiza a dimensão comunista do pensamento de Platão. Por outro lado, no final de "A Hipótese Comunista" (Boitempo, 2012), o sr. defende a recuperação do comunismo como ideia reguladora para o direcionamento das lutas políticas atuais, mesmo admitindo que a ideia do comunismo foi aplicada, no século 20, de "forma imprudente e dogmática demais". Quais são, a seu ver, as razões do fracasso dessa primeira vitória da ideia no século 20? O que ela teria de dogmático e imprudente?
O comunismo do século 20 se deixou pautar completamente pelo problema do poder de Estado. Ele não foi sensível ao poder que se desenvolve fora da fusão produzida pelo Estado e fora da forma partido. Por isto, precisamos de uma fidelidade à hipótese comunista que seja capaz de se subtrair à forma partido e que esteja em excesso em relação ao Estado. Por isso, diria que, atualmente, a ideia do comunismo pressupõe a existência de novas formas políticas a serem experimentadas, que se referem a uma política sem partido. 

Em "Le Réveil de l'Histoire" (o despertar da história, Lignes, 2011), o sr. afirma que as revoltas recentes no mundo não são ainda a revivescência da ideia, no sentido platônico do termo. Mais à frente em seu livro, lemos que "a organização é o mesmo processo que o acontecimento". A duas afirmações juntas dão a impressão de que a função principal da ideia é fornecer um quadro capaz de normalizar a multiplicidade. O sr. não teme que essa maneira de pensar a ideia possa dar espaço ao retorno de formas dirigistas de política revolucionária?
Isso é não compreender o que entendo por ideia. A ideia é o que permite às singularidades se organizarem como poder coletivo. Por isso, ela é o que dá o sentido à noção de engajamento. Uma política sem ideia é uma política sem transcendência, por isso incapaz de colocar para si o problema da revolução. Nesse sentido, ela será sempre incapaz de transformar nossa compreensão do mundo. A ideia é o que nos permite ser um pouco mais capazes de verdades. 

Os resultados das eleições europeias na França foram catastróficos para a esquerda, com a surpreendente vitória da Frente Nacional. Retomando o título de um de seus livros, do seu ponto de vista "a que dá nome Marine Le Pen?".
Não se trata de saber ao que Marine Le Pen dá nome, mas do que ela é efeito. Não estou de acordo com a maneira habitual de tratar tal resultado eleitoral. Para mim, não há nada de surpreendente em tais resultados. Se quisermos entendê-los, será necessário tomá-lo a partir de um quadro mais amplo.

As políticas propostas pela direita nacionalista tanto em relação à situação nacional quanto em relação à política de imigração não estão em desacordo com o que foi feito pelos governos recentes. Pensemos na infame perseguição à população cigana, na perseguição aos jovens da periferia, na demonização dos imigrantes. Todas essas medidas imundas que denunciei mais de uma vez são, no fundo, uma verdadeira perseguição às classes populares, empreendida, inclusive, pelo governo socialista.

Tudo isso foi não apenas aceito nos últimos anos mas teorizado e praticado pela esquerda. Ela não fez nada durante anos contra isso e é a ela que devemos atribuir a responsabilidade pela situação atual. Ela foi completamente impotente. 
 

Para terminar, gostaria de lembrar que o sr. já disse que a "ecologia é o novo ópio do povo", uma espécie de contrapolítica. Poderia nos explicar a razão desta afirmação?
A ecologia é hoje um misticismo que não teme assumir tonalidades catastrofistas e escatológicas. Com o declínio das religiões históricas, a ecologia, com o acento que ela coloca em questões como a "preservação da natureza", ou mesmo do restabelecimento de uma relação perdida com ela, parece-me uma nova forma de messianismo. Eu não me preocupo exatamente com o destino da natureza, preocupo-me com o destino dos homens. É essa preocupação que deveria pautar nossas ações atuais. 
---------------
REPORTAGEM POR  GIUSEPPE BIANCO  e VLADIMIR SAFATLE
Fonte: Folha online, 06/07/2014
imagem da Internet

O Iluminismo e o humanocentrismo

Marcelo Gleiser*

Aprendemos que estamos sós no Universo e 
somos importantes porque somos únicos 

Algo de extraordinário ocorreu na Europa no final do século 17 e no século 18: a explosão intelectual chamada Iluminismo. Filósofos, cientistas, artistas participaram de uma revolução no pensamento na qual a razão e os direitos do homem estavam acima de qualquer coisa. 

É bem verdade que alguns desses filósofos seriam hoje considerados racistas, especialmente por colocar o homem branco no ápice da sociedade. Mas, de forma geral, a mensagem do chamado Projeto Iluminista era criar uma civilização global, com valores morais universais compartilhados por todos. 

A ideia era criar uma moral secular, separada da religião, especialmente do fanatismo religioso. O Iluminismo foi uma guerra declarada contra os excessos da religião e do nacionalismo cego. 

Adam Smith, por exemplo, defendia não só o patriotismo ao país, mas também um patriotismo como parte da "grande sociedade da humanidade", o que Immanuel Kant chamou de "patriotismo global". 

Einstein, bem mais tarde, foi influenciado por essas ideias ao declarar que as fronteiras entre países deveriam ser abolidas: "A única salvação para a civilização e a raça humana está na criação de um governo mundial, onde a segurança das nações é fundamentada na lei", disse em entrevista ao "New York Times" em setembro de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial. 

Agora que estamos no século 21, podemos revisitar essas ideias, baseados na nova realidade da globalização da informação; se não atingimos um governo mundial --a ONU não tem o poder legislativo sobre outros países e mal consegue manter a paz em regiões turbulentas--, temos uma outra perspectiva emergente: a do cidadão planetário. 

No meu livro "Criação Imperfeita", sugeri que a astronomia moderna proporciona uma nova visão da humanidade, que chamei de humanocentrismo. O humancentrismo é uma inversão do copernicanismo, que diz que quanto mais aprendemos sobre o Universo, menos importantes somos. Hoje, quando telescópios espaciais como o satélite Kepler descobrem milhares de outros planetas, aprendemos algo de muito importante sobre quem somos e, mais ainda, sobre o nosso planeta. 

Mesmo que existam outros planetas com as propriedades da Terra, vemos como nosso planeta é único. Ao estudarmos a história da vida na Terra, aprendemos como nós, humanos, somos únicos. A evolução de seres unicelulares a seres multicelulares e, finalmente, a seres multicelulares inteligentes, sobrepujou uma série de barreiras. Aprendemos que, se houver vida inteligente em outros planetas, será rara e distante. Estamos sós, e somos importamos porque somos únicos. 

Se os sábios do Iluminismo soubessem disso, teriam declarado a centralidade do homem junto ao Cosmo como um todo. Um conjunto de moléculas capaz de se questionar sobre a existência deve também celebrar e respeitar sua existência. 

E como nossa existência depende do nosso planeta, devemos também celebrá-lo como único. A razão humana, que nos levou a compreender nosso lugar no Cosmo, leva a uma nova moralidade, independente da religião: a igualdade de todas as criaturas e a preservação da vida e do nosso planeta. 
------------------------

O futebol, a cultura e a sociedade

 José Inácio Werneck*
 As seleções africanas ainda não chegaram às quartas de final e o futebol começa a ganhar terreno nos EUA
Na Copa do Mundo no Brasil, uma Copa de grandes emoções, dois assuntos um tanto ou quanto extra-campo chamam a atenção: a derrocada das seleções africanas e a reação dos meios conservadores nos Estados Unidos contra o que eles chamam “excessivo interesse” pelo futebol.

Comecemos pelos africanos. Há muitos anos, numa mesa-redonda de esporte, o locutor Luís Mendes disse que em breve os africanos iriam dominar o futebol no mundo e eu duvidei.

Não duvidei por racismo, mas por achar que o sucesso de qualquer equipe esportiva depende de coisas que vão bem além do valor individual de seus integrantes.

Luís Mendes certamente se baseava nas grandes qualidades de jogadores negros, dos quais Pelé era o maior exemplo, e no fato de que os clubes europeus começavam a contratar africanos.

Daí a prever que uma seleção só de africanos seria um sucesso foi um passo fácil.

Mas também um passo falso, pois as federações de futebol de países como a Nigéria, Gana, Camarões, Costa do Marfim e outras (como Togo no passado) são um reflexo dos governos destes países e das condições sociais e econômicas de seus povos.

Notem que estou falando de seleções dos chamados países sub-saarianos e portanto o desempenho bem mais eficiente de uma seleção do norte da África, como a argelina, não pode ser levado em consideração.

Os países sub-saarianos são um lamentável exemplo de desordem política, corrupção administrativa elevada à última potência e uma política econômica e social totalmente excludente.

O resultado é que a grande maioria da população vive na miséria enquanto caudilhos (os “war-lords”) e uma elite que defende com unhas e dentes os seus privilégios dividem entre si a riqueza nacional.

Os jogadores, acostumados a ganharem salários milionários em clubes ingleses, alemães, italianos, franceses, a serem tratados com consideração, a viverem em sociedades em que as coisas funcionam, rebelam-se quando tem que representar seus países e não conseguem receber nem salários nem premiações.

Vemos então exemplos como o governo de Gana despachar para o Brasil um avião com três milhões de dólares em dinheiro vivo para pagar jogadores que ameaçavam não entrar em campo. Vemos as greves de jogadores nigerianos e camaronenses se recusando a treinar e a suspeita de que jogadores de Camarões teriam se deixado corromper por um sindicato asiático de apostas em jogos de futebol.

Enquanto os governos destes países não melhorarem, suas federações de futebol serão também antros de desordem e corrupção. A esperança da África Negra de um dia ganhar uma Copa do Mundo continuará a esperar.

Nos Estados Unidos, vozes reacionárias como a da comentarista política Ann Coulter resolveram dizer que quem gosta de futebol (ou, como eles chamam, “soccer”) não é suficiente “patriota”.

Eles vêem no futebol uma perigosa influência estrangeira e de certa forma aliam o gosto pelo futebol com a imigração ilegal daqueles detestáveis “moreninhos” – os mexicanos.

Em tempos passados, os imigrantes europeus que chegavam aos Estados Unidos tratavam rapidamente de esquecer as tradições do “Velho Mundo” – entre elas o futebol – e achavam que a melhor maneira de serem acolhidos na nova terra era abraçar esportes como o beisebol e o Futebol Americano.

Os conservadores só vêem duas maneiras de olhar o resto do mundo: ou ignorá-lo, com uma política isolacionista, ou dominá-lo, através de guerras e invasões, impondo sua cultura, sua língua e seus esportes.

Daí a popularidade do beisebol em países que os americanos invadiram e ocuparam, como o Japão, Cuba, República Dominicana, Panamá, Venezuela e Colômbia (lembrem-se do Canal do Panamá, em terras que antes eram colombianas).

Mas as novas gerações de imigrantes, sobretudo os hispânicos, não apenas gostam de manter sua língua como seus esportes.

E hoje não somente estrangeiros que moram nos Estados Unidos ou emigraram para os Estados Unidos, mas até americanos que se consideram mais liberais e abertos ao mundo adotam o futebol como um esporte novo e excitante.

Um esporte em que os americanos não precisam ser necessariamente “excepcionais”, como os conservadores gostam de se intitular.
---------------------
José Inácio Werneck, jornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.
Direto da Redação é editado pelo jornalista Rui Martins. 05/07/2014

sábado, 5 de julho de 2014

Pepe Mujica, uma história de amor


Lucía Topolanski
 Ana, a guerrilheira

Primavera de 1973. Ela não se chamava Ana, mas era assim que todos a conheciam. Ana, a guerrilheira, detida em uma prisão militar feminina, construída especialmente para mulheres tupamaras, em algum lugar desconhecido no interior do Uruguai, com uma carta na mão, que era de Emiliano, ou Ulpiano, ou seja lá qual fosse o seu verdadeiro nome.

Em junho daquele ano, o fim do MLN-T (Movimento de Liberação Nacional, também conhecido como Tupamaros), foi um dos episódios que marcou o início da ditadura uruguaia, e levou centenas de jovens revolucionários à prisão, quinze deles como reféns de guerra. Ulpiano era um deles. Se os tupamaros ainda livres voltassem a atuar, ele seria fuzilado.

Um torturador chuta as grades da cela enquanto ri jocosamente e relembra as últimas humilhações, de diferentes tipos, que a fez sofrer. Ana continua lendo a carta. Ele insiste:

- Você é a nossa preferida, bebê. Vai ficar aqui por milhares de anos.

A raiva a faz apertar o papel em suas mãos até quase rasgá-lo:

- Olha, daqui a doze anos eu vou sair daqui e viver a minha vida. Você viverá com o fantasma dessas perversões, atormentando até o dia da sua morte.

Enquanto ele aumentava o volume das gargalhadas, Ana buscava algo onde escrever uma resposta. Precisava contar sua verdade, que seu nome não era Ana, que era filha de uma família de classe média de Pocitos, bairro nobre de Montevidéu. Tinha uma irmã gêmea, tinha uma família enorme, sofria pelas saudades e pelo medo, mas não medo da morte, era o único medo que não tinha, pois lhe bastava a certeza de sair dali e para se encontrar com ele.

Dias depois, seu advogado lhe forneceu papel, caneta e a grande coincidência de suas vidas. Ele era casado com a advogada de Ulpiano. Os dois nada podiam fazer pelos dois guerrilheiros. Livrá-los da prisão em meio a uma ditadura era impensável. Mas puderam ser um casal de carteiros, trabalhando por um amor que lutava para sobreviver.

Dois prisioneiros vivendo um típico amor tupamaro. O MLN surgiu em meados dos Anos 60, fundado por um grupo de estudantes socialistas que queriam fazer a revolução no Uruguai. Diferente das guerrilhas urbanas de outros países, os tupamaros começaram a atuar antes de instalada a ditadura. A vida na clandestinidade impedia que houvesse relações fora da organização e saber o verdadeiro nome da pessoa amada. O amor deles nasceu quando ela se chamava Ana e ele Ulpiano, e não importava a verdade.

Amor que nasceu com um passo para fora da prisão. Ela, uma estudante de arquitetura com talento para a falsificação de documentos, lhe fazia uma identidade falsa, e assim se conheceram. Ana tinha um namorado que também era do MLN, se chamava Blanco Katrás, que meses depois seria capturado junto com ela. Ana só passou alguns meses na cadeia, mas Blanco seria executado pela polícia uruguaia. “Não era o primeiro namorado que eu perdia naquelas condições, e naquela altura, já tinha visto muitos outros companheiros morrerem. Não há tempo pra sentir pena quando você precisa salvar a própria pele”, pensava Ana, libertada em 1972, antes de encontrar refúgio no mesmo porão em que estava escondido Ulpiano – na época, um dos homens mais procurados do país.

Pepe Mujica
Ulpiano, o mais procurado

A caça aos tupamaros no Uruguai passou a ser mais intensa nos Anos 70, com a ajuda dos Estados Unidos. Os tupamaros sequestraram e assassinaram um agente do FBI, em agosto de 1970 (Dan Mitrione, que anos antes esteve no Brasil, ensinando técnicas de tortura aos militares). Ulpiano era acusado de fazer parte dessa operação – que é narrada pelo filme Estado de Sítio, de Costa Gravas.

Ninguém sabe se foi aí, no ocaso do movimento tupamaro, quando viviam de porão em porão pelos bairros do centro velho de Montevidéu, que começou a história de amor de Ana e Ulpiano. “Eles passaram a andar juntos na época mais dura, quando nem sempre havia um teto. Às vezes, era preciso dormir em pântanos fora do perímetro urbano da cidade. Ninguém sabe se a relação, digamos, física, começou nessa época, mas com certeza o carinho mútuo sim”, relata Henry Engler, um ex-tupamaro, amigo pessoal de Ulpiano.

O pouco que se sabe sobre o começo da relação é que eles se tornaram imprescindíveis um para o outro nesses últimos meses do MLN, antes do fim definitivo da organização, em junho de 1973. Ambos foram presos. Ana foi levada a uma prisão de mulheres. Ulpiano virou refém, ficava numa solitária, sob ameaça de morte se algum ex-companheiro voltasse a atuar.

Tentaram trocar correspondências entre si para sobreviver, com a ajuda dos advogados-carteiros. Ela se confessou, disse que se chamava Lucía, Lucía Topolansky, e que sonhava em sair dali e encontrá-lo. Ele respondeu com sua própria revelação: “meu nome é José Alberto Mujica”.

A carta-desabafo de Pepe Mujica, ex-Ulpiano, era a mais bela carta de amor de todos os tempos, segundo as companheiras de presídio de Lucía – “era toda sentimentalona, como todas as coisas do Pepe”, segundo María Elia Topolansky, irmã gêmea de Lucía, também ex-tupamara. Passou por todas as mãos e fez sucesso até entre os carcereiros – “naqueles anos, cada carta que chegava era para todas”, conta Lucía, sobre a falta de ciúmes com o bilhete.

Diz a lenda que a ternura das palavras de Mujica amoleceu as restrições que havia para correspondência entre presos, e assim eles puderam trocar mais cartas que os demais casais tupamaros separados entre prisões.

Essa situação durou exatamente os doze anos que Lucía deu de prazo ao seu torturador, até que seu amor renasceu como na primeira vez, com um passo para fora da prisão. No dia 14 de março de 1985, ela e a irmã gêmea saíram da cadeira e foram para a enorme casa da família – no mesmo dia em que Pepe foi libertado, depois de onze anos na solitária, “conversando com os ratos e agarrado na esperança” segundo ele mesmo. “No dia seguinte, Lucía foi embora, foi morar com o Pepe, e nunca mais voltou”, conta María Elia Topolansky.

Lucia y Pepe
Ana, quando voltou a ser Lucía Topolanskiy Ulpiano, quando voltou a se chamar Pepe Mujica. O recomeço, vendendo flores no mercado de Montevidéu, enquanto vivem, juntos, a mais linda história de amor do Uruguai.

Desde então, vivem juntos em uma chácara de um bairro de classe baixa, na periferia de Montevidéu. Começaram criando flores e vendendo no mercado municipal, mas sem esquecer os ideais políticos. Pepe se candidatou e se elegeu deputado em 1995. Em 2000, ele passou a ser senador, e Lucía deputada. Em 2005, ela se elegeu senadora, e nesse mesmo momento, trinta anos depois do começo da relação, vinte anos depois de começarem a viver juntos, decidiram formalizar o matrimônio. Cinco anos antes de Pepe assumir como presidente do Uruguai.

 *******

 Ana La Guerrillera

A melhor forma de mergulhar na história de amor de Pepe Mujica e Lucía Topolansky, e também na história dos Tupamaros, é mergulhar na história dela. Por isso os jornalistas e historiadores uruguaios Nelson Caula e Alberto Silva escreveram o livro Ana, La Guerrillera, que traz detalhes de tudo o que se contou neste tópico e muito mais episódios sobre a criação do MLN, a vida na clandestinidade e a disputa política que levou o Uruguai à sua mais recente ditadura.
--------------------
Reportagem por Victor Farinelli on 

Complexo de vira-latas

Nelson Rodrigues*
 

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:

— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto joga dores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:

— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.
Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.
---------------------------------------------
Texto extraído do livro “As cem melhores crônicas brasileiras”, editora Objetiva, Rio de Janeiro (RJ), p 118/119, e ao  livro “À sombra das chuteiras imortais: crônicas de chutava”, seleção de notas de Ruy Castro – Companhia das Letras – 1993.

* Nelson Rodrigues - tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

A memória sexual: base biológica da sexualidade humana:

Leonardo Boff*
Para compreendermos em profundidade a sexualidade humana, precisamos entender que ela não existe isolada, mas representa um momento de um processo maior: o biogênico.

A nova cosmologia nos habituou a considerar cada realidade singular dentro do todo que vem sendo urdido já há 13,7 bilhões de anos e a vida há 3,8 bilhões de anos. As realidades singulares (elementos físico-químicos, microorganismos, rochas, plantas, animais e seres humanos) não se juxtapõem mas se entrelaçam em redes interconectadas constituindo uma totalidade sistêmica, complexa e diversa.

Assim, a sexualidade emergiu há um bilhão de anos como um momento avançado da vida. Depois da decifração do código genético por Crick e Dawson nos anos 50 do século passado. sabemos hoje comprovadamente que vigora a unidade da cadeia da vida: bactérias, fungos, plantas, animais e humanos somos todos irmãos e irmãs porque descendemos de uma única forma originária de vida. Temos, por exemplo, 2.758 genes iguais aos da mosca e 2.031 idênticos aos do verme.

Esse dado se explica pelo fato de que todos, sem exceção, somos construídos a partir de 20 proteinas básicas combinadas com quatro ácidos nucleicos (adenina, timina, citosina e guanina). Todos descendemos de um antepassado ancestral comum, originando a ramificação progressiva da árvore da vida. Cada célula de nosso corpo, mesmo a mais epidérmica, contém a informação básica de toda vida que conhecemos. Há, pois, uma memória biológica inscrita no código genético de todo organismo vivo.

Assim como existe a memória genética, existe também a memória sexual que se faz presente na nossa sexualidade humana. Consideremos alguns passos desse complexo processo. O antepassado comum de todos os seres vivos foi, muito provavelmente, uma bactéria, tecnicamente chamada de procarionte que significa um organismo unicelular, sem núcleo e com uma organização interna rudimentar. Ao se multiplicar rapidamente por divisão celular (denominada mitose: uma célula-mãe se divide em duas células-filhas idênticas) surgiram colônias de bactérias. Reinaram, sozinhas, durante quase dois bilhões de anos. Teoricamente a reprodução por mitose confere imortalidade às células, pois seus descendentes são idênticos, sem mutações genéticas.

Por volta de dois bilhões de anos atrás, ocorreu um importante fenômeno para a posterior evolução, somente suplantado pelo surgimento da própria vida: a irrupção de uma célula com membrana e dois núcleos. Dentro deles se encontram os cromossomos (material genético) nos quais o DNA se combina com proteinas especiais. Tecnicamente é chamada de eucarionte ou também célula diplóide, isto é, célula com núcleo duplo.

A importância desta célula binucleada reside no fato de nela se encontrar a origem do sexo. Em sua forma mais primitiva, o sexo significava a troca de núcleos inteiros entre células binucleadas, chegando a fusão em um único núcleo diplóide, contendo todos os cromossomos em pares. Até aqui as células se multiplicavam sozinhas por mitose (divisão) perpetuando o mesmo genoma. A forma eucariota de sexo, que se dá pelo encontro de duas células diferentes, permite uma troca fantástica de informações contidas nos respectivos núcleos. Isso origina uma enorme biodiversidade.

Surge, pois, um novo ser vivo, a célula que se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Tal fato já aponta para o sentido profundo de toda sexualidade: a troca que enriquece e a fusão que cria pradoxalmente a diversidade. Esse proceso envolve imperfeições, inexistente na mitose. Mas favorece mutações, adaptações e novas formas de vida.

A sexualidade revela a presença da simbiose (composição de diferentes elementos) que, junto com a seleção natural, representa a força mais importante da evolução.

Tal fato vem carregado de consequências filosóficas. A vida é tecida de cooperação, de trocas, de simbioses, muito mais do que de luta competitiva pela sobrevivência. A evolução chegou até o estágio atual graças à essa lógica cooperativa entre todos.

Deixando de lado muitos outros dados fundamentais  e indo diretamente à sexualidade humana devemos reconhecer que ela está embasada num bilhão de anos de sexogênese. Mas possui algo singular: o instinto se transforma em liberdade, a sexualidade desabrocha no amor. A sexualidade humana não está sujeita ao ritmo biológico da reprodução. O ser humano se encontra sempre disponível para a relação sexual, porque esta não se ordena apenas à reprodução da espécie mas também e principalmente à manifestação do afeto entre os parceiros. O amor reorienta a lógica natural da sexualidade como instinto de reprodução; o amor faz com que a sexualidade se descentre de si para se concentrar no outro. O amor torna os parceiros preciosos uns para os outros, únicos no universo, fonte de admiração, de enamoramento e de paixão. É por causa dessa aura que o amor se revela como o âmbito da suprema realização e felicidade humana ou, no seu fracasso, da infelicidade e da guerra dos sexos.

O ser humano precisa aprender a combinr instinto e amor. Sente em si, necessidade de amar e de ser amado. Não por imposição, mas por liberdade e espontaneidade. Sem essa liberdade de quem dá e de quem recebe, não existe amor. É a liberdade e a capacidade de amorização que constroem as formas de amor que humanizam o ser humano e lhe abrem perspectivas espirituais ultrapassando em muito as demandas do instinto.
----------------------------
* Teólogo. Filósofo. Educador. Escreveu com Rose Marie Muraro, recém falecida, Feminino-masculino: um novo paradigma para uma nova relação, Record 2010. Esse artigo é pensandoem sua homenagem pois com ela trabalhei mais de vinte anos.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/ 04072014
Imagem da Internet

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A VERDADE DA FICÇÃO

 Sipa/Newsom / Sipa/Newsom
Francisco Goldman, em seu escritório de Paris:
 "Quem julga a veracidade do livro? 
As verdades que interessam ao escritor 
estão em sua alma e 
em sua literatura"
 
Os leitores modernos parecem mais afeitos a histórias ditas verdadeiras do que a obras de ficção. Realidade é a demanda do nosso tempo, ainda que seja difícil de suportar. É ela que vem se impondo com força na literatura, talvez por conta do esgotamento das formas narrativas tradicionais. Ou pode ser por uma crise das histórias inventadas. O leitor parece estar apurando o faro para os excessos de "literatura", os enfeites, a pretensão e o consequente artificialismo dos livros chatos e vazios, mesmo quando disfarçados de autoficção.

Diante de uma obra de ficção sem novidades, o leitor tende a escolher, instintivamente, aquela "história verdadeira" com a qual, no final das contas, irá despender algumas horas do seu tempo cada vez mais escasso.

O escritor americano Francisco Goldman conseguiu a proeza de unir com talento os dois polos, o da ficção e o da realidade. Fez isso num livro único, que dificilmente poderá repetir: "Diga o Nome Dela" (Companhia das Letras, tradução de Maria Luiza Newlands, 440 págs, R$ 49,50).

"Diga o Nome Dela" é uma memória que também é um romance, a história da vida de Aura Estrada, a segunda mulher do escritor, uma estudante de literatura com ambições literárias morta aos 30 anos num acidente numa praia do México. Goldman escreveu o livro trabalhando o próprio luto. O que surgiu desta imersão desesperada na memória é o que se pode chamar de alta literatura repleta de realidade.

"É uma novela autobiográfica, não uma memória", ele diz. "Eu não gosto das pretensões desse gênero chamado 'memória'. Não me interessa. Afinal, quem julga a veracidade do livro? As verdades que interessam ao escritor estão em sua alma e na sua literatura." Goldman publicou outros romances e reportagens antes de encarar a necessidade de falar sobre Aura.

Ele escreveu um bilhete que pretendia deixar no caixão da mulher, cena que não aparece no romance, mas está descrita num artigo da revista "The Believer". No bilhete, algumas promessas: publicar um livro com os textos de Aura; criar um prêmio literário com o nome dela; viver cada dia de um jeito que honrasse sua memória. Tempos depois, relendo o bilhete que não pôde colocar no caixão lacrado, o escritor percebeu que uma das principais promessas que havia feito quando da morte de Aura não estava nele. Goldman prometera escrever um livro que contasse a história dos dois, um livro escrito para ela.

"Diga o Nome Dela" é esse livro, construído sobre a dor da perda e também na recordação dos dias felizes. Há um grande equilíbrio narrativo nas suas mais de 400 páginas. O escritor consegue não passar do ponto mesmo quando toca nos assuntos mais espinhosos, ou quando relembra as bobagens cotidianas que cercam qualquer casal apaixonado. A forma equilibrada do romance é muito importante. "Para mim, escrever um romance significa buscar uma forma, a forma inesperada das coisas, que você não vai encontrar outro jeito de dizer".

O que surgiu da imersão desesperada do autor na memória 
é o que se pode chamar de alta literatura 
repleta de realidade

Goldman viu-se frente a frente com a memória, e dela precisou extrair as melhores e as piores lembranças, equilibrando-se no tênue fio de uma forma complexa, uma receita que poderia desandar a cada linha. "Meu livro é uma investigação, uma exploração e uma narração de tudo o que Aura, nosso amor e a morte dela significam para mim. Eu não maquiei nada ", diz.
Mas o leitor percebe - e não se importa - quando a ficção aparece. Para contar a vida de Aura, incluindo sua infância, o escritor foi beber nas águas da imaginação. Aí entra a literatura: ela consegue manter o leitor conectado com a história.

Goldman é filho de pai americano e mãe guatemalteca. Talvez por isso tenha conseguido captar com naturalidade o universo latino em que se movia Aura Estrada. É possível capturar aqui e ali uma certa tensão nas entrelinhas, tanto do ponto de vista acadêmico (os esforços de Aura por emplacar nesse meio) quanto do ponto de vista social, com o agravante de que ela era bem mais jovem do que o escritor quando eles começaram a se relacionar.

Tudo fica ainda mais tenso depois dos relatos de Goldman a respeito da mãe e do tio de Aura, que culpam o escritor, inclusive do ponto de vista judicial, pela morte da mulher. O narrador é esse ser acuado pela dor e pela culpa. Afinal, ele estava lá, no mar, quando Aura, tentando "pegar um jacaré" numa onda mais forte, acabou engolfada, e fraturou uma das vértebras do pescoço. Um acidente banal, cujo desenlace trágico só aparece com todas as tintas no final da história. Até nesse sentido Goldman mostra o seu domínio da narrativa. Mas como terá sido escrever sobre a morte da personagem que ele vai pintando com enorme verossimilhança ao longo do livro, alguém que parece respirar dentro do romance?

"Foi muito doloroso. Eu estava escrevendo o primeiro rascunho às 11 horas da noite, e o fazia desde as primeiras horas da manhã. Então, disse pra mim mesmo: se eu for pra cama agora, nunca vou conseguir terminar isso. Fiquei escrevendo até perto do amanhecer. Depois peguei uma garrafa de mescal e saí na escuridão. Bebi metade da garrafa".

Fã de Clarice Lispector, Aura poderia ter tido uma carreira literária. O prêmio criado por Goldman em nome dela é dedicado a escritoras de até 35 anos. Aura, definitivamente, continua sendo parte da vida de Francisco, para além do personagem. Assim como também não sai da cabeça do leitor, com sua simplicidade, sua alegria de viver, seus pequenos defeitos, suas características tão humanas e verdadeiras. Graças aos méritos do escritor como romancista, ela é uma presença quase viva, uma dessas criações literárias que vivem além dos livros.

Quanto ao escritor que soube purgar a perda de forma tão especial, a ficção ainda é um esforço diário. Depois de ter escrito um novo livro, "The Interior Circuit: A Mexico City Chronicle", que não é romance, mas trata da relação pessoal do autor com a cidade que teve tudo a ver com a história de Aura, ele tenta buscar espaço na imaginação. "Mas é muito difícil voltar à ficção depois da morte de Aura. O peso da realidade é duro de carregar. Ainda assim, estou de volta ao romance. Espero que consiga terminá-lo dentro de um ano." Enquanto isso, "Diga o Nome Dela", um dos romances mais pungentes dos últimos tempos, ainda estará em nossas mãos.
--------------------------
REPORTAGEM POR CADÃO VOLPATO / Para o Valor de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 004/07/2014

O PREÇO DAS ALIANÇAS

 Emmanuel Pinheiro/Valor / Emmanuel Pinheiro/Valor
 Leonardo Avritzer: "Que países estão saindo? [da aliança pró-governo] Alguns grupos estão entre 
os mais fisiológicos da política brasileira. 
A saída pode trazer um pouco de coerência"

No contexto de uma eleição marcada pela insatisfação popular com a representação política, um dos fenômenos políticos mais importantes é a ascensão do Partido Socialista Brasileiro (PSB) ao ponto de se qualificar, em princípio, para disputar uma vaga no segundo turno e alterar a correlação de forças políticas no Brasil. É a opinião do cientista político Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Associação Brasileira de Ciência Política.

Para Avritzer, a presença da aliança entre Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva no pleito soma-se a outros fatores significativos para os resultados da eleição de outubro, como o desgaste dos 12 anos de governo petista, que começa a desfazer a ampla aliança da eleição de 2010, e o desafio que o candidato tucano, o senador mineiro Aécio Neves, enfrenta para nacionalizar uma liderança ainda estadual.

Ao fim de um período em que um possível fracasso da organização da Copa do Mundo, incluídas as obras de infraestrutura, era um assunto de temores públicos e debates políticos, a conclusão do torneio abre as portas para o período eleitoral. Embora a questão da Copa tenha sido politizada tanto pelo governo quanto pela oposição, Avritzer entende que ambos erraram, ao não perceber que o tema dizia respeito a um compromisso não do governo, mas do país.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com o cientista político, que analisa o possível impacto da recente ascensão do PSB sobre o quadro eleitoral, a relação das manifestações de rua com o sistema político e os possíveis cenários para a disputa de outubro.

Valor: O governo trata o fato de não ter havido o caos anunciado para a Copa como grande ativo político, porque a oposição teria apostado nesse caos. A ausência de caos é trunfo político?
Leonardo Avritzer Quando o Brasil assumiu o compromisso de realizar a Copa, foi um compromisso administrativo importante para um país que, dentre os principais países em desenvolvimento, tem a pior infraestrutura. À medida que as obras foram atrasando, parecia que o governo ia descumprir amplamente um compromisso internacional, o que o desgastaria. Isso significaria, talvez, algum ganho para a oposição. Nenhuma das duas coisas se confirmou e acho que tanto o governo quanto a oposição erraram. O governo errou por gerir de forma deficiente as obras. A oposição errou por achar que esse era um compromisso do governo, quando era um compromisso do país.

"As manifestações de junho expõem a profunda insatisfação 
da população com o sistema político.
 Isso não é passageiro"

Valor: A ampla aliança de 2010 que elegeu Dilma Rousseff está fora de cogitação para 2014, com a saída do PSB e do PTB, e uma série de palanques locais se afastando do PT. Aécio Neves chegou a sugerir que esses partidos "sugassem" o máximo antes de mudar de lado. Em que medida isso pode ser decisivo?
Avritzer: Neste presidencialismo de coalizão fragmentado, fazer alianças é bom e ruim. É bom porque é difícil governar sem maioria no Congresso. Mas o preço dessa maioria é ruim para o país. Sabemos quais são os partidos ligados às falhas nas obras de infraestrutura para a Copa, por exemplo. Não é bom ter alianças tão amplas, mas elas garantem tempo na TV e uma certa governabilidade. É infeliz a frase de Aécio. O "sugar" não diz respeito ao governo, é sugar o país. O preço das alianças amplas é a ineficiência da máquina pública. Se for eleito, é Aécio quem vai ter que lidar com esse problema. Uma das grandes dificuldades do país é um centro apolítico fisiológico representado por alguns partidos. Vamos pensar nos ministérios de que esses partidos gostam, como Transportes. O PR é "especializado" nesse ministério. São concessões de rodovias e coisas muito importantes para o país. A melhoria do corredor de exportação da soja, por exemplo. Esse "sugar" significa problemas na gestão da economia.

Valor: O PT, em 2010, parecia ser um grande ímã de alianças, mas essa fratura parece indicar que a força de atração diminuiu. O que houve?
Avritzer: O magnetismo que o governo do PT exercia sobre os partidos diminuiu nesses últimos 12 a 18 meses. A teoria da democracia diz que governos muito longos são desgastantes. O revezamento no poder exerce um equilíbrio sobre os vícios que o poder provoca. No caso do PT, há desgastes, seja na organização da máquina pública e dos ministérios, seja na relação com os partidos. Que partidos estão saindo? Alguns grupos estão entre os mais fisiológicos da política brasileira. A saída não é necessariamente ruim para a aliança governista. Pode trazer um pouco de coerência.

Valor: O PSB lançou Eduardo Campos candidato a presidente. Ele é um candidato forte para chegar ao segundo turno?
Avritzer: Ele está procurando uma posição num sistema muito polarizado, que não o favorece. O apoio a Lindbergh [Farias, do Partido dos Trabalhadores] no Rio faz sentido em sua trajetória política, mais do que a aliança com [o governador tucano Geraldo] Alckmin em São Paulo. Mas o problema central de Campos é que é muito difícil chegar ao segundo turno sem um apoio significativo em São Paulo. Marina Silva ajuda ou atrapalha? É cedo para dizer. Ele é pouco conhecido da população e a aliança com Marina também. Talvez o fenômeno partidário mais relevante no Brasil seja o crescimento do PSB. Desde 1994, consolidamos um sistema de dois grandes partidos que governam e dois grandes partidos que os auxiliam a governar. O PSB, dependendo de seu desempenho, pode ser uma novidade.

Valor: Se o PSB chegar ao segundo turno, deixando de fora o PSDB, será a primeira vez, desde 1994, que o PSDB não estará nessa fase da eleição. A novidade poderá ter consequências na política brasileira?
Avritzer: Para muitos cientistas políticos, o sistema democrático só é consolidado quando os mesmos partidos disputam o poder. Tenho dúvidas. A Espanha, por exemplo, está numa crise política e econômica profunda. E está surgindo um novo partido. Isso tem a ver com a insatisfação da população. No Brasil, uma parcela da população não está satisfeita com a polarização entre PT e PSDB. Um possível crescimento de Campos pode estar relacionado a isso. Seria uma novidade decisiva. O centramento em dois grandes atores gera uma previsibilidade necessária no sistema político. Os atores econômicos pedem isso. Mas não acho que o PSB esteja muito fora daquilo que se espera, seja pelos atores sociais, seja pelos econômicos.

Valor: O senhor escreveu em artigo que tornar-se conhecido fora de Minas Gerais é um grande desafio para Aécio Neves. Como lhe parece o senador como candidato que enfrenta uma máquina poderosa como a do PT?
Avritzer: Esta eleição é decisiva para ele. Ou ele se dá muito bem, não necessariamente ganhando, ou dificilmente vai manter uma liderança nacional. Os mineiros gostam de Aécio. Não está claro que gostem dos governos do PSDB. Existe um diferencial entre apoio político a Aécio e apoio a candidatos do espectro político ao qual ele pertence. É muito significativo esse diferencial. É difícil saber se ele vai conseguir nacionalizar a liderança local. É um desafio importante em São Paulo, dados os conflitos com [José] Serra e Alckmin. Ele tem características que não parecem se adequar ao eleitorado paulista, que é conservador nos hábitos morais. Outro problema é que ele não consegue ser uma liderança forte no Senado. O PSDB tem líderes mais importantes que ele no Senado, como Álvaro Dias.

Valor: Marina Silva foi o grande fenômeno de 2010. Depois desses quatro anos, pode-se dizer que ela soube aproveitar o impulso das urnas?
Avritzer: Marina enfrentou um problema comum na política, ao qual parece ter dado uma solução ruim: a diferença entre sua popularidade pessoal e a capacidade de transformá-la em estrutura organizacional competitiva. Recorrer à aliança com Campos colocou outros problemas para ela, problemas de coerência política. Ele tem uma política desenvolvimentista, que frequentemente não atenta para o meio ambiente. Seja sob o ponto de vista organizacional, seja do ponto de vista do campo político a que ela quer pertencer, a liderança de Marina Silva tem problemas hoje.

Valor: A aposentadoria de Sarney, anunciada na última semana, pode ser lida como uma página que se vira na política brasileira?
Avritzer: Desde a redemocratização, temos renovações importantes na política brasileira, como o crescimento do PSDB e do PT. Mas temos fortes continuidades, especialmente no campo do PMDB. Dentre elas, Sarney é uma das principais, com Renan Calheiros e outros. É um estilo de fazer política no Brasil que persiste. Alguns Estados ainda são muito clientelistas, outros menos. São máquinas políticas aliadas à mídia, especialmente à televisão. Essa concepção de fazer política está sob ataque no país, mas ainda não foi derrotada. A aposentadoria de Sarney está mais ligada à idade do que à decadência da liderança de seu grupo no Maranhão. É um grupo desafiado, existe mais oposição a ele hoje do que no passado, mas essas estruturas construídas na democratização, em torno de fortes alianças políticas e meios de comunicação, continuam vivas.

Valor: Com a burocratização, a aliança com o agronegócio e o apoio à repressão policial, os movimentos sociais e a esquerda militante, das ruas, sentiram-se alienados do PT, tratando-o por "ex-querda". Isso pode comprometer o partido?
Avritzer: Talvez o fato que melhor simbolize esse afastamento seja a saída da Marina Silva. Ela é claramente uma personificação dessa relação: líder ambientalista, que trouxe lideranças de movimentos sociais da Amazônia para o governo. Hoje, há dissensões no meio ambiente, na política indígena, nas políticas urbanas. Mas o afastamento é relativo. Ninguém ocupou esse espaço. Esses movimentos não são eleitoralmente significativos, mas são muito significativos do ponto de vista do espírito da opinião pública. Até o sentimento anti-Copa teve ligação com eles. Essa é uma questão para o PT: como retomar uma relação que foi positiva num período histórico muito significativo.

Valor: Caso o PT perca a eleição: o que acontece com um partido que passou a maior parte de sua história como oposição, foi governo, compôs com forças às quais tinha se oposto renhidamente, desenvolveu uma máquina eleitoral forte, afastou-se das bases sociais e voltou a ser oposição?
Avritzer: Certamente, implicaria muitas mudanças. Mas o PT tem tanto bases sociais fortes quanto capacidade de adaptação ao governo. Continuou fazendo convenções, continuou fazendo eleições internas diretas. Adaptou-se ao poder, é inegável, levando um conjunto de militantes para as estruturas do Estado. Talvez o lugar em que mais se adaptou tenha sido a estrutura parlamentar. De 2002 para cá, o perfil dos parlamentares do PT mudou muito. Eles se tornaram mais influentes. O PT faria o chamado "aggiornamento", a atualização da identidade partidária. Vai ter que readequar sua relação com as bases que deixou de lado. Vai ser um pouco menos governo, menos Estado, e um pouco mais movimentos sociais. Todos os partidos com origem em movimentos sociais fazem isso. O PSOE, na Espanha, o PS francês, o Bloco de Esquerda em Portugal.

"O magnetismo que o governo do PT exercia sobre 
os partidos diminuiu. Governos muito longos 
são desgastantes"

Valor: Outra aposta é que a chamada classe C pode ser um fiel da balança na eleição, dependendo do que decidir: se continua apoiando as políticas às quais se atribui sua ascensão social ou se fica mais conservadora.
Avritzer: A ideia de que classes ascendentes se tornam conservadoras pode estar correta em relação à direção, mas esperar que isso se manifeste rapidamente é um equívoco. O melhor exemplo é a classe média que Roosevelt criou nos EUA dos anos 30. Ela foi votar nos republicanos nos anos 80, com Reagan. É um longo processo. Mesmo no caso dos EUA, até hoje eles são chamados de "swing voters", porque voltaram aos democratas com Clinton. Talvez essa seja a vocação da classe C. A principal preocupação dessas pessoas, hoje, é continuar sendo classe média.

Valor: Os protestos que começaram em 2013 deixaram marcas visíveis no sistema político?
Avritzer: As manifestações de junho expõem a profunda insatisfação da população com o sistema político. Isso não é passageiro. É uma característica estrutural da opinião pública que está se formando no país, que não se identifica com os partidos, é crítica do Congresso e acha, com razão, que a corrupção não é punida e o estrato político é privilegiado. Também já passou o tempo em que, no Brasil, o acesso a serviços públicos era a grande reivindicação. Não se trata mais de acesso. A questão, hoje, é a qualidade dos serviços. Essas questões estão aí para ficar e vão exigir que o sistema político as trate com seriedade. Acho decisivo, também, fazer uma reforma política. Quase um quarto dos senadores são suplentes que não foram eleitos. O sistema de financiamento entre grandes empresas e sistema político quase não tem controle. A política precisa se adaptar à nova sociedade que o Brasil já é, com mais informação e menos desigualdade.

Curriculum Vitae 
Leonardo Avritzer
Formação:

Graduado em ciências sociais (UFMG), mestre em ciência política (UFMG), doutor em sociologia política (New School for Social Research), pós-doutorado pelo Massachusetts Institute of Technology.


Atividade

É professor titular da UFMG.

Foi professor visitante da USP, da Tulane University e da Universidade de Coimbra. É presidente da Associação Brasileira de Ciência Política.


Livros publicados

“Democracy and the Public Space in Latin America”(2002);

“A Moralidade da Democracia”(1996)
-----------------------
Reportagem por Diego Viana / Para o Valor de São Paulo.
Fonte: Valor Econômico online, 04/07/2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A teimosia do gandula

 Fabricio Carpinejar*
 Eduardo_Nasi_VB_02_julho_14
Minha mãe saía para trabalhar e eu ficava sozinho em casa até o anoitecer.
 
Antes de se despedir, ganhava as instruções de arrumar o quarto, aquecer a comida, tomar banho e realizar os temas da escola. Mas havia sempre aquela advertência mais severa, dada no abraço e beijo de tchau:

— Não abra a porta para ninguém! Ninguém, viu? Ninguém!

Numa dessas tardes desamparadas, a campainha tocou. Era minha tia Cléia. Já havia identificado pelo som meloso de seu timbre:

—Adorável sobrinho…

Toda tia carrega no perfume e na adjetivação. Toda tia é exagerada, o que soa involuntariamente cínico.

Espiei pela janelinha e não abri a porta.

Ela insistiu:

— Vejo você mexendo na cortina, meu adorável sobrinho, sua mãe me mandou aqui.

— Não posso, respondi. Não posso abrir para ninguém.

Ela gritou, esperneou, produziu escândalo, chamou os vizinhos, só que não cedi. A mãe depois veio reclamar que sua exigência não valia para quem era da família.

— Ninguém é ninguém!, bati o pé.

Lembrei de minha teimosia quando vi um gandula brigando com o jogador da Alemanha, nas oitavas de final da Copa do Mundo, em partida contra a Argélia, em Porto Alegre.

O atacante Kramer pediu a bola para aquecer no intervalo da prorrogação.  Gesto natural, já que seria a próxima substituição do técnico Joachim Löw. Menos para o gandula. Na puberdade de seu bigodinho, enfrentou o número 23 da seleção germânica. Nem aí para a hierarquia do momento, ou para a importância do jogo tenso e dramático, sob o risco de ser decidido nos pênaltis.

— Não, impossível, só posso dar a bola dentro da partida — explicou o gandula.

Ele não falava alemão, o alemão não falava português. A linguagem que vingou foi a da coerção. Kramer teve que arrancar com violência a bola das mãos do adolescente.

O guri ainda tentou lutar em vão, reaver o objeto de sua estima. Em represália, ensaiou correr ao campo, porém recuou pelos assobios da torcida.

Eu me identifiquei com seu gesto. Mesmo se Joseph Blatter solicitasse a bola, ele negaria. Aquele homenzinho de capuz e tênis colorido recusaria com convicção qualquer infração à ordem recebida.

Não abriria exceção para presidente da FIFA, tia, carteiraço, privilégios. Não estava em campo para interpretar a lei, e sim para executar tarefas até o fim. Custe o que custar.

Para a maioria dos torcedores, sua ação terminou sendo alvo de deboche, acolhida como falta de senso e burrice. Gerou longas vaias e risos. Não segui a hola de bullying. De pé, rompi a gozação, aplaudi isoladamente, bati palmas com força.

A obediência é tão rara, tão incomum, tão inesperada hoje em dia.  Eu me alegrei ao testemunhar a ingenuidade comprometida com a palavra, a missão sendo cumprida à risca. Como é bonita a responsabilidade amadurecendo em um menino.
------------------
* Poeta. Escritor. Cronista.
Fonte: http://www.vidabreve.com/02/07/2014

Livro de Frei Betto: Aldeia do silêncio

PAULA CAJATY*
 Frei_Betto_Aldeia_silencio_170
O romance Aldeia do silêncio, de Frei Betto, é ambicioso. Digno dos grandes pensadores/teólogos que escreveram sobre moral, ética e filosofia, como Tomás de Aquino e Santo Agostinho, o autor conta a história de Nemo (em latim, “ninguém”), homem que passou a vida em uma aldeia esquecida do mundo, ao lado do avô, da mãe, de um cachorro e um urubu. É durante sua internação em um hospital — durante 17 anos, até morrer — que o personagem aprende a escrever, e resolve contar sua vida na aldeia, em contraste com o que vê no mundo urbano.

É bem verdade que é preciso abstrair a questão narrativa. A proposição da origem do personagem principal é um tanto questionável: o refinamento de seu pensamento filosófico e da construção narrativa não condizem com sua origem rude. E, mais ainda, se é verdade que o protagonista busca o silêncio, inclusive o interior, não é isso o que vemos na intensa articulação de palavras.

Mas esse é um detalhe menor ante a magnitude da obra. Se o mote do livro é discutível, não o é seu conteúdo. Frei Betto alça voo com as palavras em reflexões preciosas, poéticas, necessárias e precisas. Seu Nemo é apenas um canal para dar voz a profundas questões filosóficas, éticas e existenciais, atualizadas com o mundo pós-smartphones, pós-Facebook e pós-Whatsapp.

Aliás, o próprio Frei Betto, em bate-papo com o jornalista Claudiney Ferreira, revelou que a origem do livro foi exatamente essa. Ao observar cinco jovens em uma mesa, cada um com seu celular, em silêncio, começou a refletir sobre o mundo atual e a própria relação do homem com o tempo. 

Prisioneiro da palavra

Após 56 obras, traduzidas para 24 idiomas, além de participações em antologias e coletâneas e dois prêmios Jabuti, Frei Betto ainda guarda a capacidade de observação e de crítica, com olhos renovados, do futuro à espreita.

O autor nota com propriedade a mudança no comportamento humano e nos alerta: na sociedade do espetáculo, perdemos o senso entre o privado e o público, e também entre o interior e o exterior. Em lugares públicos, nos refugiamos na tela de celulares; em um elevador, zapeamos o smartphone para evitar o constrangimento de cumprimentar desconhecidos. No espaço privado, gravamos vídeos e os compartilhamos com o mundo inteiro, e mesmo um almoço familiar se torna digno de fotos postadas na internet, como um simples passeio na praia de dois namorados pode se tornar um ensaio fotográfico pré-núpcias.

O convite de Nemo é caminhar exatamente na via oposta:

Agora sei, fora da aldeia, o quanto as pessoas são movidas pela ânsia de fazer, fazer, fazer. Lá, o melhor fazer era não fazer nada. Deixar-se estar, apenas ser. Ênstase livre das sutilezas da mente e dos fantasmas do espírito. Mergulho no vácuo interior. (…) O silêncio é todo ele feito de nuanças. Não há uma única forma de silêncio. Há múltiplas.

O convite de Frei Betto é para refletir sobre tudo o que escrevemos e falamos, hoje mais do que nunca e em inúmeras instâncias:

Posso apagar o que escrevo. O que falo, jamais. Falar é como derramar café sobre o lençol. Não há como anular o incidente. A palavra proferida incide irreversivelmente sobre a realidade. Impossível silenciar o que foi dito. Posso tentar corrigir, mudar de opinião, desdizer-me. Mas para isso terei de utilizar mais palavras (…)

Mais do que nunca, hoje somos prisioneiros das palavras ditas em redes sociais, em entrevistas que não se deixam esquecer. Tal é, aliás, a nova vertente que surge no Direito pós-midiático: o direito ao esquecimento, de que seja esquecido (pela mídia, pelas redes sociais) algo dito ou feito, ainda que seja um fato verídico. Até criminosos possuem o direito de que seus crimes não tenham mais efeito, enquanto usuários do Facebook não se dão conta de que têm sua vida inteira catalogada e analisada, eternamente.

Eldorado literário

Voltando ao romance, que tece a própria filosofia do silêncio, Frei Betto traz a riqueza de Guimarães Rosa com a criação de palavras novas, e a delicadeza de Mário Quintana na descrição inocente da beleza das pequenas coisas. Evoca também Manoel de Barros, com sua capacidade de observar a natureza como se fosse uma criança e exaltar o bucolismo como modo de resgatar uma humanidade que se perde cada vez mais no cimento das cidades. São tantas as alusões a cânones da literatura brasileira que a cada parágrafo entrevemos Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto — em um texto exímio e coeso, forte e pungente.

Frei Betto dialoga ainda com livros que impõem o isolamento para o encontro metafísico, como A cabana, seguindo o movimento do protagonista que, em um local ermo e longínquo, cercado de paz e silêncio, tem a oportunidade de encontrar-se consigo mesmo, com suas emoções e com a divindade suprema. Em sua aldeia, Nemo podia ouvir Deus nos extremos do silêncio interior e nos pequenos ruídos da natureza.

Para quem tem o hábito de ler livros sublinhando as melhores frases, é melhor esquecer a lapiseira. Em Aldeia do silêncio, todas as frases são iluminadas: dispensam o destaque de marcações, comentários e hidrocores. São poucos e mágicos os livros em que isso acontece. É mesmo possível, por vezes, ao se voltar à leitura, ter vontade de caminhar algumas folhas para trás, apenas para entrar de novo na aura poética da narrativa, cujas figuras de linguagem são sempre bem colocadas, sem exageros, lugares-comuns ou repetições de frases batidas.

A obra é também rica em pérolas filosóficas: “A aldeia não era propriamente um lugar; era uma ferida aberta no dorso da Terra”, “O vento penteia as árvores na primavera para descabelá-las no outono”, “A vida é feita mais de perguntas que de respostas”, “A realidade é filha da fantasia”, “Não se pode renegar o que se foi. Esta é uma lei absoluta, lei que marca a nossa existência”, “A boca trai coração; os olhos jamais”, “A palavra é dia; o silêncio, noite” — entre tantas outras.

Encontrar a Aldeia do silêncio é como voltar ao Éden, ou a uma espécie de Eldorado literário. Muito embora não possamos permanecer nesses lugares idílicos para sempre, eles de certa forma nos transformam, e assim se tornam, eternamente, parte de nós.

Trecho

"Foi ali, imóvel sobre a pedra, que me veio a revelação. Não veio de cima, dos céus, do além. Veio do mais profundo de mim mesmo, dos bastidores de meu íntimo, de lá onde a mente não alcança, a imaginação não concebe, as palavras não traduzem. Fez-se silêncio em meu entendimento, a memória serenou, a imaginação refluiu, a vontade aquietou.

Senti-me inundado pelo paradoxo - emaranhado de paralelas que se encontram no infinito. Soava em mim uma música silenciosa. Descobri que o tudo é o nada, o escuro é o claro, o eu é o outro, o vazio é o pleno, e a dor é o amor. Operou-se em meu ser a síntese. Puro dom."


O autor Frei BettoFrei_Betto_170
Carlos Alberto Libânio Christo nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1944. É escritor e religioso dominicano, autor de mais de cinquenta obras. Preso por duas vezes por sua atividade política, relatou suas experiências na prisão em Batismo de sangue (Rocco), vencedor do prêmio Jabuti de 1983, e nas cartas que trocou com familiares em Nos subterrâneos da história (1974). Sua obra inclui romances, contos, ensaios e literatura infantil e juvenil.
-------------------------
* É poeta. Autora de Afrodite in verso. Vive no Rio de Janeiro (RJ).
Fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81303

Cioran por Onfray: “Retrato do filósofo cínico ou a filosofia indigente”

Rodrigo Menezes

 
Trata-se de demonstrar as grandes possibilidades do vagabundo em relação à virtude... contra a figura do sábio hierático e um tanto enfatuado, cínico propõe a do filósofo errante. Séculos mais tarde, Cioran expressa certa simpatia por esta maneira de ser, que representa também uma proximidade com o essencial. Não possuir nada predispõe melhor a perceber em que consiste o Ser. 

A respeito, Cioran escreve a Fernando Savater: "Creio que chegamos a um ponto da história em que é necessário ampliar a noção de filosofia. Quem é filósofo?" E o ancião precisa: certamente não o universitário que tritura conceitos, classifica noções e redige sumas indigestas a fim de obscurecer as palavras do autor analisado. Tampouco o técnico, por mais brilhante ou virtuoso que pareça, quando se rende às retóricas nebulosas e abstrusas. Filósofo é aquele que, na simplicidade e mesmo na indigência, introduz o pensamento em sua vida e dá vida ao seu pensamento. Tece sólidos laços entre sua própria existência e sua reflexão, entre sua teoria e sua prática. Não há sabedoria possível sem as implicações concretas desta imbricação. Durante vários anos, Cioran esteve em contato com um destes homens, um vagabundo, um mendigo, que o interrogava acerca de Deus, o mal, a liberdade e a matéria. 

"Nunca conheci ninguém", escreve Cioran, "tão em carne viva, tão ligado ao insolúvel e ao inextricável." Um dia Cioran confessou ao seu visitante que o considerava um autêntico filósofo, e desde então não tornou a vê-lo. Este episódio o fez chegar à conclusão de que o filósofo se distingue por sua "preocupação em avançar sempre a um grau mais elevado de insegurança." 

Razão suficiente para excluir os proprietários de cátedras, os especialistas em discursos e autópsias estéreis, e para desclassificar os assalariados que ganham notoriedade com a mumificação dos textos ou o jargão dos especialistas. As raízes de uma autêntica sabedoria esquadrinham primeiro o ventre e depois a cabeça.

ONFRAY, M. "Le volontarisme esthétique" in: Cynismes. Portrait du philosophe en chien
-----------------------
Fonte:  Portal E.M. Cioran/Brasil