segunda-feira, 14 de julho de 2014

As mulheres, os homens e o futebol

Débora Tajer *
http://www.pagina12.com.ar/fotos/20140710/notas/na37fo01.jpg

 A autora argumenta que o futebol na Argentina “construiu um tipo particular de gênero masculino” e que “o estilo de construção da masculinidade na Argentina marcou a criação de um futebol nacional”. Contudo a subjetividade das mulheres argentinas se arranja em relação ao futebol. 
São enumeradas seis questões a respeito.

O futebol, pelo menos no caso argentino, é uma área social privilegiada da constituição da subjetividade masculina e de tem grande relevância na vida cotidiana dos homens. Grande parte da fascinação masculina por este esporte reside no que se denomina captura da cena esportiva: a imprevisibilidade, a surpresa, a ambiguidade entre ganhar e perder, a crença dos espectadores de que seu entusiasmo pode mudar as oportunidades de seu time, a suposição de que algo acontecerá aos jogadores quando são olhados pelo público. Captura atrelada a conformação do ideal ligado a masculinidade.

Um pouco antes de começar a pesquisa, comecei a perceber que falar de futebol é falar de um componente muito importante da vida cotidiana em nossa região: é um dos modos nos quais expressa-se o afeto, a paixão e os vínculos. Assim como as construções de gênero, masculinas e femininas. O futebol está “sexuado” e pintado de gênero, com predomínio masculino, mesmo quando há apreciadoras e até mesmo pelo fato de que já se tenha observado uma entrada massiva de mulheres apaixonadas por este esporte.

Em relação aos homens, há uma maneira particular de criação de subjetividade masculina em nosso país, expressa em uma maneira distinta de jogar futebol que tem mudado com o tempo. Poderíamos afirmar que o futebol argentino construiu um tipo particular de gênero masculino em nosso país e, vice-versa, o estilo particular de construção da masculinidade na Argentina marcou um estilo na criação de um futebol nacional. Há uma relação entre futebol e o “tornar-se homem” e “ser homem” na Argentina. E como o próprio conceito de gênero assinala por seu caráter relacional, não é possível falar de um “tornar-se homem” que não seja simultâneo a um processo de “tornar-se mulher”: há uma relação entre futebol e “tornar-se mulher” e “ser mulher” na Argentina; pelo menos nas vicissitudes do “devir mulher” convivendo com homens que têm uma bola de futebol no coração.

Sem dúvida, em nosso país o futebol constituiu-se como um organizador da identidade nacional quase desde seu início, diferenciando-se do futebol estrangeiro, em especial do inglês, do qual é herdeiro. Este esporte se constituiu em um dos modos de transformar os filhos de imigrantes em mestiços, com base nas possibilidades brindadas pela preferência da habilidade, acima da classe social de origem. Deu-se valor ao estilo rio-platense, ligado a arte e a criatividade mais do que a máquina e a potência. O campo de futebol foi caracterizado como espaço do homem livre, da verdade democrática. Esta imagem do homem livre se institui em relação à preservação de uma virtude masculina: o estilo infantil, puro. O campo se constitui em um mundo de crianças traquinas, malandras, “vivos”, que escapam das escolas e dos clubes.

Já em 1928, a revista El Gráfico caracterizava o estilo mestiço como o de um jogador leve, veloz, delicado, com maior habilidade individual e menor ação coletiva; manhoso, que tinha a indolência como virtude e que não precisa da força para impor-se. Estas são as características gerais do futebol nacional que é, fundamentalmente, o contraponto entre a habilidade e a força, sustentado na oposição entre cérebro e corpo. Expressa-se também outro tipo de contradição: entre a aristocracia do futebol e o trabalhador; o primeiro joga para se divertir; enquanto o segundo é descrito como luta e esforço. Assim cabe assinalar a coexistência de diferentes modelos, cada qual com seu estilo, que possui um tipo de corpo e de virtudes masculinas. E o público, os outros homens, identificando-se com os mesmos, dependendo do qual se torne mais próximo e afim.

Pelo menos desde a década de 1920, o futebol faz parte da genealogia masculina de nosso país. Desde então um pai transmite e deixa para seu filho homem três brasões identitários: um nome, um sobrenome e uma camisa. Pertencentes à legião da família, identificada com a camiseta, institui a linhagem em uma busca de se construir um pertencimento nacional. Pertencimento que na atualidade representa um dos poucos organizadores fortes de identidade, ou seja, assistir ao estalo e reordenamentos de vários organizadores da vida instituídos na modernidade. O amor por uma equipe permite um porto identitário de grande relevância frente às outras possibilidades de identidades fortes e depositários da ansiedade moderna, que se revelaram deterioráveis: o matrimônio, o trabalho, os partidos políticos, os pactos, as referências, os líderes.

Parece que o único que mostra-se perene é o futebol, já que, salvo raras exceções, se nasce e morre com a camisa. Um homem contemporâneo pode mudar de mulher, de partido, de chefe e até de país, mas nunca de equipe de futebol. Este fenômeno explica o assombro que produz o fato de que muitos homens que antes não prestavam atenção a este esporte, na atualidade o façam com fervor. Na realidade trata-se de um desfrute do último refúgio gerado pela paixão e que os da uma forte identidade, que permanece com eles. Apelam ao reservatório da genealogia do gênero masculino argentino que não encontra um equivalente na feminilidade: o nome, o sobrenome e a camiseta.

E, na clínica psicanalítica, a pesquisa pela preferência por alguma equipe de futebol e suas vicissitudes é uma boa via de acesso aos avatares da função paterna em um sujeito. “E você, menino, de que time é?”, ouve-se perguntar aos pequenos homens em nosso país, e a pergunta se refere a quem irá se filiar, a que modelo de masculinidade incorporou e qual escolhe incorporar. As respostas podem ser várias. O menino pode decidir pertencer ao clube do pai, ao do melhor amigo do pai, ao do esposo ou amor da mãe, ao do avô materno ou paterno, ao do tio, ao do grupo de amigos (esta parece ser uma escolha secundária), ao de um querido pai de um amigo, pode ser o clube da cidade ou do país para o qual se mudou em uma tentativa de adquirir uma identidade com os homens, como um roteiro de masculinidade.

E esse menino que escolhe pertencer à equipe do tio pode ter tomado a decisão ao perceber o amor que este sente pela camisa. Esse tio era o que levava o menino ao campo, e a condição de ser levado ao campo é de pertencer ao mesmo time que esse adulto. Claro que este mesmo menino pode seguir a profissão de seu pai, sua ideologia política, seus gostos estéticos etc.

Mulheres argentinas

Em relação às mulheres argentinas e o futebol, desde agora pode-se falar de sua relação, tolerante ou não, de apreciadoras ou não, com essa paixão masculina. Claro, não há porque desconhecer a integração gradual e crescente das mulheres em todos os âmbitos da vida social, entre os quais o futebol está incluído. Contudo este esporte não é qualquer âmbito da vida social argentina, mas é atribuidor de uma identidade mais forte e das menos modificáveis nesta pós-modernidade periférica. É um referente que assinala rapidamente quem é sujeito que não é. E deste fenômeno ninguém quer ficar excluído, nem as mulheres. Poderíamos organizar a relação das mulheres com o futebol em dois grupos: as mulheres que gostam de futebol e as que não gostam. As primeiras poderiam ser dividas, por sua vez, em dois subgrupos: as que adentraram ou lutam para ingressar como atoras diretas – jogadoras, árbitras, jornalistas, dirigentes e treinadoras – e as que simplesmente são apreciadoras do espetáculo, vêm as partidas ou as assistem pela televisão.

As que procuram ingressar na atividade devem enfrentar os obstáculos que surgem quando as mulheres decidem entrar em algum ramo de uma atividade social de predomino masculino.

Um atrativo que este esporte tem é o efeito de ser subjetivado em relação a um jogo coletivo que vai além das habilidades individuais, afinal se não há uma equipe não se pode jogar: é a aprendizagem de “passar a bola”, jogar em relação aos outros, e não ser “fominha”. Isto faz referência a uma tradição muito importante que o coletivo de mulheres não tem como acervo, precisamente por ter sido excluído da estimulação para a prática de esportes coletivos.

Em relação às mulheres, as que não gostam de futebol, poderíamos distinguir quatro grandes subgrupos. Um é o das que se sentem incomodadas, consideram-se excluídas de uma atividade que – enquanto dura a partida – tira todo o interesse de seu amado. Elas buscam a todo tempo uma maneira de persuadir seu parceiro de que, em prova de seu amor por elas, deva desistir de ir ao campo ou de ver a partida pela televisão. Nestes casos podemos advertir que o time escolhido é tido como “a outra”.

Também há as indiferentes. Estas mulheres não se importam, nem se incomodam com o futebol; na realidade há muito poucos exemplares que pertençam a este subgrupo. E há aquelas que acompanham. Mulheres que, com suficiente experiência de vida, aprenderam a estratégia de que, visto que não se pode vencer um poderoso inimigo, o mais inteligente é unir-se a ele. E há as perplexas: não se sentem incomodadas, mas não conseguem entender a fascinação masculina em ver vinte e dois sujeitos adultos correndo simultaneamente atrás de uma bola.

O que as pertencentes destes subgrupos parecem compartilhar, muitas vezes inconfessavelmente, é a inveja provocada pela paixão que eles sentem e que elas não encontram equivalente substituto no universo feminino. Em todo caso, interessem-se ou não por ele, como jogo e espetáculo, o futebol não está ausente dos afetos e da história de vida das mulheres que desenvolvem sua existência em um lugar onde o futebol é uma atividade de grande importância social.

Uma paciente, ao falar da relação com seu pai, relata que quando era criança lembra ter experimentado um ódio irreprimível aos domingos pela tarde, quando ele ficava apenas a escutar as partidas pela rádio. Já não ia aos campos porque seu filho homem, o irmão mais velho da paciente, havia deixado de acompanha-lo – os intelectuais nos anos setenta preferiam sair com a companheira do que serem fiéis a camisa -. Então, seu pai escutava o rádio, fosse em case, passeando no carro ou em alguma visita. Ele acompanhava fisicamente o restante da família aos domingos, mas sua cabeça e seu coração ficavam no estádio. Talvez junto às mulheres da casa sentia-se abandonado e sozinho. E, enquanto escutava a partida, o mundo parava. Nada mais o importava, nem sequer sua filhinha da alma. Com o tempo a paciente pôde compreender que esse ódio que acreditava sentir por seu pai era, na realidade, provocado pelo fato de que ele entrava em um mundo que a excluía por ser mulher, um mundo para transmitir e compartilhar apenas com o filho homem.

No relato de algumas das mulheres que participam e gostam de futebol, isto se conecta com sua relação com o pai: como um dom que receberam de seu pai, uma herança com a qual elas se filiaram ainda que não seja um legado típico para as mulheres.

Talvez, para entender as representações psíquicas das mulheres que participam do futebol, devamos apelar para um paralelo com o modelo clínico que é utilizado com a perspectiva de uma psicanálise revisitada a partir dos estudos de gênero, para trabalhar com as identificações vocacionais e trabalhistas das mulheres cujas mães foram donas de casa enquanto seus pais participavam na atividade do mundo do trabalho. Sabemos que estas mulheres, para adquirir sua própria modalidade feminina de inserção no mundo do trabalho, devem apelar para o reservatório de identificações via paterna e, com esse material, construir e agenciar representações próprias. Considero que grande parte da relação das mulheres com o futebol está intimamente conectada com o tipo de vínculo que teve com homens significativos. Nos pais das mulheres que gostam de futebol visualizamos a possibilidade de serem modelo de identificação para suas filhas, sem assimilar as características próprias encontradas em suas herdeiras como um indicador de masculinização das mesmas.

De todo modo, esta conquista só pode coexistir com aspectos paternos de reafirmação de sua diferença em relação às mulheres e de desconhecimento de algum dos atributos agenciados por suas filhas. Por isso estas meninas podem carecer de consciência da coexistência de reconhecimento/desconhecimento até que se vejam envolvidas em aventuras amorosas, trabalhista ou outras, que entrem em contradição com a imagem que formaram de si mesmas.

A paciente em questão, já maior de idade, como outras congêneres, achou mais atraente um homem que não gosta de futebol, para logo compreender, desiludida, que esse lugar pode ser ocupado por qualquer outra paixão. Contudo também chamou sua atenção pelo fascínio feminino do qual fala Lacan, essa experimentada ao ver um homem concentrado e integralmente em uma ação, em um ato. Assim, pode ceder frente aos sentimentos e os sacrifícios ao quais um homem está disposto a passar pela camisa de seus amores. Ela forma parte do coletivo de mulheres que atualmente tem percebido que em uma casa pode haver duas televisões e que existem muitos programas alternativos, amizades e familiares para visitar aos domingos pela tarde. E um desses programas pode incluir acompanhar o amado para ver uma partida. Elas também chegaram à conclusão de que desconhecer o futebol é desconhecer uma parte importante da vida nacional e dos homens argentinos. Sabem que o coração pode ser um músculo muito elástico e que pode abrigar carinho por outra equipe, além do legado deixado por seu pai. Podemos compreender que a consolidação deste processo vai de mãos dadas com as mudanças que estão ocorrendo no exercício da função patena e da democratização das relações ente os gêneros em seu sentido mais amplo.
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* É  psicoanalista, e o artigo é publicado por Página/12, 10-07-2014. A tradução é do Cepat.
Fonte: IHU online, 14/07/2014

Rito e jogo: coisas muito esquecidas

Leonardo Boff*
Nestes dias de Copa, vamos abordar o tema do rito e da festa, cujo sentido humano e social nem sempre é refletido quando não é esquecido.

Nestas semanas de Copa Mundial de futebol vivemos cenas carregadas de ritos, festas e símbolos. A abertura oficial é uma sequência de ritos e símbolos ligados ao futebol, principalmente a apresentação dos times e o canto do hino nacional. O ambiente de festa enche as cidades, enfeita as ruas e as janelas das casas.

Vamos abordar o tema do rito e da festa, cujo sentido humano e social nem sempre é refletido quando não é esquecido. Antes de mais nada, sem o rito não há festa, porque esta se move dentro do mundo simbólico, feito de ritos e símbolos. O comer e o beber na festa não visam matar a fome e saciar a sede. Para isso comemos em casa ou num restaurante. Eles simbolizam a amizade e a alegria do encontro e de juntos participar de um evento como uma partida de futebol. Cantar na festa não quer ser um show de música artística mas expressão ritual de euforia e de desafogo existencial. E como se celebra e se bebe quando o time de estimação vence uma partida ou ganha um campeonato.

"Que é um rito?” perguntava o Pequeno Príncipe à raposa que o havia cativado, no famoso livro de A. de Saint Exupéry com o mesmo título. E respondia: "é uma coisa muito esquecida; é o que faz os outros dias diferentes dos outros dias, uma hora diferente das outras. Há um rito entre meus caçadores. Às quintas-feiras eles dançam com as meninas da vila. Então na quinta é um dia maravilhoso! Eu vou passear até o vinhedo. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais e eu não teria férias” (p.27).

O rito, pois, é o que faz a festa, como o dia diferente dos outros dias. Mas ele só ganha força expressiva se houver a preparação e a espera interior, como ocorre antes de um jogo de futebol entre dois times famosos. Por isso pondera a raposa ao Pequeno Príncipe:” você faria melhor se viesse sempre na mesma hora; se vier, por exemplo, às quatro da tarde, já às três eu começarei a ser feliz…. mas se você vier a qualquer momento eu não saberei jamais como preparar o meu coração. São necessários ritos”(p.71).

Só com o rito haverá festa porque então todas as coisas perdem sua consistência natural, para assumir um valor simbólico e profundamente humano. Elas perdem sua finalidade (são inúteis) para ganhar seu verdadeiro sentido. Os ruídos dos passos não espantarão mais a raposa mas são como música: lembram a aproximação do Pequeno Príncipe. Os trigais não fazem recordar o pão (finalidade) mas os cabelos de ouro do Pequeno Príncipe (sentido).

Geralmente forte é a presença do rito, além dos fatos acima referidos, nas celebrações religiosas (o matrimônio, por exemplo, ou a ordenação sacerdotal). O rito exprime melhor o sentido das coisas que a linguagem que é "fonte de mal-entendidos” como comenta a raposa. Por isso o rito é tanto mais expressivo quanto mais brotar das profundezas de nosso eu, de nossos arquétipos profundos, onde se elabora nossa identidade pessoal.

Todo ser humano, mesmo o mais secular e racional é mítico, no sentido da expressão ritual e simbólica. Quando quer dizer o que ele mesmo é, sua alegria, sua tristeza, sua paixão, seu amor não usa conceitos frios mas metáforas ou conta histórias de vida que são os mitos reais. Por eles, emerge o mistério da caminhada pessoal de cada um, sem violá-la. Os ritos e as celebrações sempre pedem seriedade e concentração.

Tudo isso que descrevemos do rito tem muito a ver com o jogo. Não penso aqui no jogo que virou profissão e grande comércio internacional como o futebol e outros. São antes esportes que jogos. O jogo, como ocorre nos meios populares, nas peladas ou na praia, não possui finalidade prática nenhuma, mas em si mesmo carrega um profundo sentido como expressão de alegria de estar e de divertir-se juntos.

Há uma tradição antiga das duas Igrejas-irmãs, a latina e a grega que se referem ao Deus ludens, ao homo ludens e até da eccclesia ludens (o Deus, o homem e a Igreja lúdicos).

Eles viam a criação como um grande jogo do Deus lúdico: para um lado jogou as estrelas, por outro o sol, para baixo jogou os planetas e com carinho jogou a Terra, equidistante do Sol, para que pudesse ter vida. A criação é uma espécie de alegria transbordante de Deus, um theatrum gloriae Dei (teatro da glória de Deus).

Num belo poema diz o grande teólogo da Igreja ortodoxa Gregório Nazienzeno (390): ”O Logos sublime brinca. Enfeita com as mais variegadas imagens e por puro gosto e por todos os modos, o cosmos inteiro”. Com efeito, o brinquedo é obra da fantasia criadora, com o mostram as crianças: expressão de uma liberdade sem coação, criando um mundo sem finalidade prática, livre do lucro e de vantagens individuais.

"Porque Deus é vere ludens (verdadeiramente lúdico) cada um deve ser também veres ludens, admoestava, já velhinho, um dos mais finos teólogos do século XX, irmão de outro eminente teólogo, que foi professor meu na Alemanha, Karl Rahner.

Estas considerações vem mostrar como pode ser desanuviada e sem angústias a nossa existência aqui na Terra, especialmente quando transfigurada pela Presença jovial de Deus em sua criação. Então não precisamos temer. O que nos tolhe a liberdade e a criatividade é o medo. O oposto à fé não é tanto o ateísmo mas o medo, especialmente o medo da solidão. Ter fé mais que aderir a um feixe de verdade, é alegrar-se por sentir-se na palma da mão de Deus e poder viver diante dele como uma criança que despreocupadamente brinca.
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*  Doutorou-se em teologia pela Universidade de Munique. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os Franciscanos em Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Conta-se entre um dos iniciadores da teologia da libertação. É assessor de movimentos populares. Conhecido como professor e conferencista no país e no estrangeiro nas áreas de teologia, filosofia, ética, espiritualidade e ecologia. Em 1985 foi condenado a um ano de silêncio obsequioso pelo ex-Santo Ofício, por suas teses no livro Igreja: carisma e poder (Record).
A partir dos anos 80 começou a aprofundar a questão ecológica como prolongamento da teologia da libertação, pois não somente se deve ouvir o grito do oprimido, mas também o grito da Terra porque ambos devem ser libertados. Em razão deste compromisso participou da redação da Carta da Terra junto com M. Gorbachev, S. Rockfeller e outros. Escreveu vários livros e foi agraciado com vários prêmios.
Fonte: Adital 14/07/2014

domingo, 13 de julho de 2014

Educação do olhar

Rubem Alves*
li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação, didática — mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação do olhar, ou à importância do olhar na educação, em qualquer um deles.

Disse a Cecília Meireles: “O sentido está guardado no rosto com que te miro”. Não te miro com os meus olhos. Te miro com o meu rosto. É o rosto que desvenda o mistério do olhar. O rosto da mãe revela à criança o segredo do seu olhar. E o rosto da criança revela à mãe o segredo do seu olhar. O rosto do professor revela ao aluno o segredo do seu olhar.
 
“O meu lábio zombeteiro faz a lança dele refluir”: dito pela Adélia Prado. Lança? Metáfora para o falo ereto. Mas o lábio zombeteiro a torna um macarrão cozido... A lança, humilhada, se encolhe, torna-se incapaz do ato do amor. Há uma relação metafórica entre a lança fálica e a inteligência.
 
Como a lança fálica, a inteligência ou se alonga e se levanta confiante para o ato de conhecer ou se encolhe, flácida e impotente. O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança ficar ereta ou flácida... O lábio zombeteiro do professor faz a inteligência do aluno refluir.
 
Educação não é a transmissão de uma soma de conhecimentos. Conhecimentos podem ser mortos e inertes: uma carga que se carrega sem saber sua utilidade e sem que ela dê alegria. Educar é ensinar a pensar, isso é, a brincar com os conhecimentos, da mesma forma como se brinca com uma peteca.
 
Quando o conhecimento é vivo ele se torna parte do nosso corpo: a gente brinca com ele e sente feliz ao brincar. A educação acontece quando vemos o mundo como um brinquedo e brincamos com ele como uma criança brinca com a sua bola. O educador é um brincalhão...
 
Nossos currículos pressupõem que todo conhecimento é bom. Se isso fosse verdade teríamos de aprender tudo o que há para ser aprendido — o que é tarefa impossível. Quem acumula muito saber só prova um ponto: que é um idiota de memória boa. Não faz sentido aprender a arte de escalar montanhas nos desertos, e nem a arte de fazer iglus nos trópicos. Na vida a utilidade dos saberes se subordina às exigências práticas do viver. O mar é longo, a vida é curta.
 
Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim não morre jamais...
 
Nas escolas as crianças são submetidas ao “jugo” dos saberes: programas. “Jugo” é canga. Fala-se, mesmo, em “grade” curricular — coisa de prisão. A educação segue o caminho inverso: começa não com os programas mas com a criança que vive seu momento presente. Saberes que permanecem não são impostos. Eles crescem da vida. Dizia Nietzsche: “Aquele que é um mestre, realmente um mestre, leva as coisas a sério — inclusive ele mesmo — somente em relação aos seus alunos”.
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* Educador. Escritor.
Fonte: Correio Popular online, 13/07/2014
Imagem da Internet

FOI PENA

 Luis Fernando Veríssimo*
 
 "A Alemanha não era sete vezes melhor do que o Brasil. 
O futebol do Brasil não se esfarelou em 6 minutos. 
Foi tudo esdrúxulo. Muito esdrúxulo."

Esdrúxulo é a palavra mais esdrúxula da língua portuguesa. Uma coisa é esdrúxula quando é tão estranha, incomum, incompreensível enfim, esdrúxula que nenhum outro adjetivo a descreve. Se esdrúxulo fosse um vegetal, seria uma espécie de cacto espinhento. Se fosse um bicho, seria uma cruza de bode com arraia. Ou seja: o que é esdrúxulo está tão longe da normalidade que é como se existisse em outro mundo, em outra categoria de coisas e acontecimentos. É tão diferente que, se você dá com algo esdrúxulo em sua vida, jamais esquece.

Alemanha 7, Brasil 1, por exemplo. Nunca houve um resultado tão esdrúxulo na história das Copas. E nós jamais o esqueceremos. O que é uma pena, porque, fora o esdrúxulo, foi uma ótima Copa. Quase tudo deu certo, com exceções lamentáveis mas poucas. Houve paz, e se não contarmos alguns egos, algumas reputações e o Neymar, não houve vítimas mais sérias. Mas sempre que pensarmos nesta Copa pensaremos no 7 a 1. O esdrúxulo não irá embora. Se instalará em nossas vidas como um hóspede incômodo, um cunhado que não se flagra, um gato jogado longe que sempre volta, um vizinho que toca tuba, a memória de um grande amor frustrado. E a passagem do tempo não ajudará. Gerações ainda por vir não saberão quem ganhou neste domingo e foi campeão, mas saberão do esdrúxulo.

– 2014, 2014...

– A Copa dos 7 a 1.

– Ah, claro!

Pena. Foi uma Copa de boa organização e bom futebol, com algumas surpresas, como a da Costa Rica e da Colômbia, que não chegaram a ser esdrúxulas. A dentada do Suárez foi um fato insólito, mas foi uma manifestação da fome de vencer, ou de uma obsessão privada. Nada de esdrúxula. Já o 7 a 1 não representou algo lógico, patológico ou mensurável. A Alemanha não era sete vezes melhor do que o Brasil. O futebol do Brasil não se esfarelou em 6 minutos. Foi tudo esdrúxulo. Muito esdrúxulo.
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* Jornalista. Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH online, 13/07/2014

Maria Elizabeth Rocha: "Não há dispositivo que impeça um militar de ser homossexual"

 Maria Elizabeth Rocha: "Não há dispositivo que impeça um militar de ser homossexual" José Cruz/Agência Brasil
 Mineira é a primeira mulher a atuar no Superior Tribunal Militar

 "Costumo dizer que, quando julgo, julgo com paixão, com misericórdia, porque, apesar de o réu ter falhado, ter cometido um delito, ele é a parte mais frágil da relação processual, 
e, em última análise, a lei não é para os anjos, 
é para homens que falham."

Aos 54 anos, a mineira Maria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha foi indicada presidente do Superior Tribunal Militar (STM). Ao assumir, em 16 de junho, surpreendeu o Brasil não apenas por simbolizar mais uma quebra de tabu de gênero, no comando de uma corte que julga forças predominantemente masculinas. Cercou-se de mulheres e acentuou o discurso em defesa dos homossexuais, depois de ter votado a favor de causas gays desde que tomou posse como ministra, indicada pelo "quinto constitucional" reservado a advogados, em 27 de março de 2007.

O STM é a mais antiga corte judicial brasileira, criada tão logo o então príncipe regente português dom João VI, cercado de militares, pôs os pés no Brasil, escapando das tropas de Napoleão Bonaparte. Casada com o general Romeu Costa Ribeiro Bastos e doutora em Direito Constitucional — título conquistado mediante uma nota "10 com louvor" da qual não esconde o orgulho —, a presidente falou com ZH por telefone, durante uma hora, no último dia 3. Não economizou palavras para falar de suas convicções liberalizantes, mas também explicou por que considera importantes a hierarquia e a disciplina no meio militar.

Como se deu o pioneirismo no STM?
Sou a primeira ministra, a única e a primeira presidente, porque o cargo de presidente é rotativo. Foi muito emocionante, porque o Superior Tribunal Militar, a Justiça Militar da União, é a primeira corte de Justiça do Brasil, pode-se dizer. Ela foi criada por dom João VI em 1808 e chegou com a armada portuguesa, criando a corte militar. Nos seus 206 anos de existência, não teve nenhuma mulher.

Como a senhora conseguiu ser a protagonista desse pioneirismo?
As regras são as mesmas que segue o Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro é indicado pelo presidente da República, sabatinado pela comissão de Constituição de Justiça do Senado e depois tem o nome aprovado pelo plenário do Senado. Nenhum presidente havia tido, até então, a sensibilidade de indicar uma mulher numa corte que nunca teve nenhuma e num serviço notadamente masculino, que são as Forças Armadas, apesar de estarmos vinculados ao Poder Judiciário desde a Constituição de 1934, de ser uma corte especializada, como as Justiças do Trabalho e Eleitoral. Mas é um tribunal que julga crimes militares e em que têm assento também 10 militares que são os generais do último posto de patente. Então, era um ambiente nitidamente masculino, e foi uma grande emoção para mim, porque é um grande desafio trazer uma visão feminina, um novo olhar sobre questões que não são repensadas ou que são vistas só por uma ótica masculina. Então, é muito bacana.

Qual foi o presidente que a indicou?
O presidente Lula, em 2007. A publicação do decreto de indicação ocorreu no Dia Internacional da Mulher.

O que pode ser feito de prático no STM a partir da sua sensibilidade feminina?
Acho que, desde o primeiro momento, a diferenciação dos votos. Quando uma mulher julga, ela o faz sem querer desmerecer os homens, de uma forma mais holística. A gente não julga apenas com a razão, com a subsunção (baseado no fato gerador) do direito. A gente julga também com certo sentimento, porque a inteligência emocional é uma das características que marcam a atuação feminina. Costumo dizer que, quando julgo, julgo com paixão, com misericórdia, porque, apesar de o réu ter falhado, ter cometido um delito, ele é a parte mais frágil da relação processual, e, em última análise, a lei não é para os anjos, é para homens que falham. Então, eles têm também de ser avaliados com comiseração, porque não é fácil julgar um ato de seu semelhante. Os homens são mais objetivos, são mais racionais. Meu voto, minha visão de julgadora, é bastante diferenciada da visão masculina.

Sua visão é mais maternal?
Não sei se mais maternal. Eu diria que é mais misericordiosa. Procuro julgar olhando também a fragilidade do ser humano e da condição humana.

É mais fácil errar em uma estrutura rígida como a militar?
Sim, é uma estrutura muito rígida, e as pessoas falham. Falham na sociedade civil e também no ambiente militar. E a lei, quando essas falhas se revelam fatos criminosos, a lei é para aqueles que realmente falharam. Então, você tem de aplicar a lei com proporcionalidade, com moderação. O direito militar é muito rigoroso, a Justiça militar é uma Justiça muito rigorosa. Ao contrário do que algumas pessoas dizem, que é uma Justiça corporativa, é o contrário, é extremamente rígida. Na minha visão feminina e de constitucionalista, procuro atenuar um pouco esse rigor, com penas mais brandas, invocando certas garantias que nosso código não tem, porque é um código anterior à Constituição de 1988. Então, tenho toda uma visão de mundo, com meu olhar feminino, que é diferente do dos homens. Uma questão muito importante, também, é a que diz respeito à violência contra a mulher. Aqui, a gente não pode julgar de acordo com a Lei Maria da Penha. A gente só pode julgar os crimes militares de acordo com os tipos que estão elencados no Código Penal Militar. Meu limite de atuação é o Código Penal Militar. Não posso aplicar as leis penais extravagantes. E isso gera uma injustiça muito grande, porque a mulher militar que é agredida por um marido militar ou por um companheiro militar, porque aí é só militar contra militar que eu posso apreciar, ela muitas vezes fica desprotegida, não pode ser abarcada pelas medidas protetivas que a Lei Maria da Pena contempla. A gente só pode julgar como lesão corporal, não como violência de gênero. Então, tem circunstâncias em que a legislação infelizmente não acompanhou a evolução social, porque o Congresso, quando promove modificação no Código Penal, esquece-se de que existe um Código Penal Militar. Então, temos de fazer um trabalho exaustivo de interpretação da norma para poder, de alguma maneira, adaptar essa nossa legislação, anterior à Constituição de 1988, à nova realidade.

O código é de 1969. Foi aprovado logo após o AI-5. Isso pesou?
Por incrível que pareça, te digo que, para uma legislação militar, o Código Penal Militar até foi muito vanguardista ao seu tempo. Qualquer lei, de 1969 a 2014, que nunca foi reformulada, que permanece intacta, como é o caso, ela fica desatualizada, e isso a torna anacrônica em muitos pontos.

Mas temos uma Constituição, que está acima de todas as outras leis e que estabelece a igualdade entre todos. A senhora não pode fazer analogias para aplicar leis que estejam fora das previstas no Código Penal Militar?
Fazemos, sim. Mas há dois pontos aqui que precisam ser explicados. Primeiro, o Direito Militar é um direito especial, regido por um código especial. Então, já temos decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) dizendo que não se pode ficar pinçando a la carte, de um código ou de outro, aquilo que é mais benéfico ao réu militar. Você não pode pegar da legislação penal comum aquilo que é mais benéfico e aplicar dentro da Justiça Militar da União e manter, dentro dessa Justiça, os dispositivos do código militar naquilo que também pode beneficiar o réu. Então, a gente tem de aplicar a legislação militar como um todo, porque é uma legislação especial. Em segundo lugar, os militares, até por disposição constitucional, sofrem aquilo que chamamos de relações especiais de sujeição. São submetidos àquilo que são relações especiais de sujeição. Ou seja, os direitos individuais, as garantias civis dos militares, são muito mais compactadas do que as do cidadão civil. E dou exemplos: o militar não pode fazer greve, não pode estar filiado a um partido político, pode ser preso disciplinarmente por até 30 dias sem uma ordem do juiz e não cabe habeas corpus para prisão disciplinar. Há uma série de restrições aos direitos e garantias individuais que, por disposição constitucional, não se aplica ao militar, porque ele se submete a uma cadeia de comando, pode portar armas. Uma sociedade armada tem de ser rigidamente controlada. É muito difícil para nós, como intérpretes do direito, como julgadores, fazermos essa adequação da norma ao fato dentro do processo em uma legislação que é desatualizada.

O que se faz para mudar isso?
Isso tem sido uma das reivindicações maiores que a Justiça Militar da União tem feito junto ao Congresso, para que promova essas atualizações jurídicas, para que possamos prestar a jurisdição com mais eficiência em sintonia com o que dispõe a Constituição.

A senhora já tomou uma decisão que provocou muita polêmica aí dentro?
Várias decisões. Na verdade, sou a voz dissidente deste tribunal. Mas sou respeitada na minha divergência, que é o que quero. Já defendi os direitos dos homossexuais aqui no tribunal. Já defendi, e nisso fui apoiada pelos meus colegas, que haja um dispositivo no Código Penal Militar, que fala que o silêncio do réu pode ser interpretado em seu desfavor. Declarei a revogação desse dispositivo dizendo que ele era inconstitucional, porque, pela Carta de 1988, o silêncio do réu não pode ser interpretado contra ele mesmo. O réu tem o direito de se manter em silêncio. Ninguém é obrigado a produzir prova contra si próprio.

E isso já está sendo adotado?
Como a arguição de inconstitucionalidade, neste caso, não foi em abstrato, porque só o STF pode declarar a inconstitucionalidade abstratamente (que valha para todo mundo), em cada caso em que esse caso surge eu arguo a inconstitucionalidade. Já temos, então, o precedente. Outra questão que vou levar a discussão é que os conselhos de justificação, aqueles conselhos que vão apreciar se o oficial é ou não compatível com o oficialato, se não fere o decoro da classe, se pode continuar vestindo a farda, é um conselho se o oficial vai ser reformado ou expulso, dependendo daquilo que praticou, a decisão desse conselho é tomada em julgamento secreto, e isso é algo também contra o que sempre levantei minha voz, porque é incompatível com o estado democrático. Há uma série de dispositivos do Código Penal Militar à qual me contraponho. Às vezes, sou acompanhada por colegas. Mas temos de fazer um trabalho hermenêutico exaustivo para tentar atualizar os conteúdos normativos do Código Penal Militar, que está defasado em alguns pontos que, para mim, são sensíveis por lidarem diretamente com o Estado democrático, o processo legal, a dignidade da pessoa humana, que não podem ser postergados.

Já houve casos concretos de homossexualidade que a senhora apreciou?
Não tem, na realidade, qualquer dispositivo no Código Penal Militar que impeça um militar de ser homossexual. A orientação sexual de alguém é direito personalíssimo que integra a individualidade e que o Estado não pode, em absoluto, questionar. Mas o fato é que ainda é um tabu a homossexualidade nas Forças Armadas, como de resto em toda a sociedade brasileira, que tem discriminação de gênero, pela orientação sexual, pela etnia. É uma realidade nas sociedades civilizadas, não só na brasileira. A luta das minorias é uma luta permanente.

Mas como é que a senhora enfrenta isso no tribunal?
O que é que acontece aqui nas Forças Armadas? É uma questão complicada. Não há nenhum dispositivo, a vedação não é explícita, não é expressa, mas há uma discriminação. É inegável, todos sabemos disso. Eu procuro, nos meus votos, defender a possibilidade de a orientação sexual não influir nas decisões de eventuais conselhos de justificação, que é quando eles podem ser submetidos por incompatibilidade com o oficialato e dizer que isso integra um direito personalíssimo, que o Estado não tem que ficar investigando nem questionando qual a orientação sexual de alguém. Então, nos meus votos, defendo com ardor o direito à austeridade, individualidade e tolerância da sociedade em relação àqueles que ela considera diferente.

Não há dispositivo explícito por uma negação?
Existe um artigo no código que proíbe a prática de ato libidinoso dentro do quartel. Está, entre vírgulas, "homossexual ou não". Ali, há uma explicitação de preconceito, e a cabeça do artigo se chama "pederastia". Há um sugestivo preconceito na letra da lei.

O que a senhora faz contra isso?
Isso tem de ser revogado. E já tem projeto de lei, que está parado, deve até ter sido arquivado, para suprimir a cabeça desse artigo e tirar esse "ato homossexual ou não". Tem de ser proibido ato libidinoso dentro do quartel. E ponto. Realmente, quartel não é motel. Não se deve fazer sexo ali, mas não precisaria ter referência a homossexuais e a referência à pederastia. É uma discriminação patente do legislador. Mas a única forma de suprimir isso é por uma reforma legislativa, pelo Legislativo. Já foram enviados projetos, mas o Congresso acabou os arquivando por inação.

Isso pode ser reapresentado?
Ah, pode. Inclusive, foi constituída uma comissão para a reforma do Código Penal Militar, e eu a presidi.

A senhora pode falar de casos específicos envolvendo homossexuais?
Já aconteceu, com um capelão militar. Foi complicado, porque o caso ocorreu fora do quartel, e eu pedi sua absolvição no conselho de justificação, que é um tipo de processo administrativo disciplinar. Também houve o caso de um coronel. Julguei os dois. Foram submetidos ao conselho por serem incompatíveis com o decoro da classe.

Eles praticaram algum ato ou simplesmente eram homossexuais?
Na verdade, o capelão era um ninfomaníaco. Mas era fora do quartel. Ninguém tem nada com isso. A Igreja que tomasse suas providências, se fosse o caso. Não sei como ficou a história do capelão. Nenhum dos dois foi expulso. Em outros tempos, eles perderiam o posto e a patente. Hoje em dia, o que se faz é reformá-los. Em linguagem civil, aposentá-los. Hoje, quando o militar é homossexual e chega a ser submetido ao conselho de justificação, ele não é expulso, mas pode ser reformado.

Qual a orientação que vigora nas Forças Armadas brasileiras?
É aquela política americana do "não pergunte e não responda", o don't ask, don't tell, dos Estados Unidos, que o (presidente Barack) Obama ralou para conseguir alterar. Era uma promessa de campanha dele, mas foi duro aprovar no Congresso. Aqui, então, o oficial ou suboficial pode ser homossexual, mas, se não explicitar sua orientação sexual, acaba sendo aceito. A dificuldade que eu vejo que a sociedade tem como um todo é essa explicitação, é deixar o militar se assumir como tal, assumir sua identidade e ter a tolerância e o respeito à diferença.

E o coronel, como ficou?
Ele foi reformado. Fui voto vencido. Mas um civil me acompanhou e um almirante também. Somos 15 ministros no pleno. Onze votaram contra. Mas acho que consegui uma vitória. Dois homens me acompanharam, e um deles era um almirante. E outra: normalmente, declara-se a perda do posto e da patente. E eles não declararam, simplesmente reformaram o oficial. Meus argumentos influenciaram os colegas.

Sua visão feminina está influenciando os colegas?
Espero que sim, me esforço para isso. Qual o sentido de ter uma mulher em um tribunal notadamente masculino? Qual o sentido de se trazer uma pessoa diferente para julgar com outra visão de mundo se ela não é ouvida? Mudar a austeridade militar é difícil, mas, algumas vezes, consigo. Houve um episódio divertido. Um sargento estava com ciúme da namorada, que era aquela que dava bola para todo mundo, e estava dando bola para um soldado. Então o sargento, fora do quartel, sem estar fardado, num café, pegou o celular da namorada, viu que o soldado havia mandado uma mensagem de texto. Ficou enfurecido de ciúme e deu uma cabeçada no soldado. O Ministério Público denunciou como lesão corporal uma simples cabeçada e também como violência de superior contra inferior. Eu era revisora do processo, e havia uma condenação. Fiz meu voto absolvendo, argumentando que não era um ato tão grave, que a lesão corporal foi levíssima. Depois de toda a argumentação jurídica, olhei e, como último argumento, disse que todo homem, em algum momento da vida, tem direito de perder a cabeça perder a cabeça por uma mulher. E levei. Absolveram.

A senhora acha que tem uma missão?
Todos os magistrados têm uma missão, porque julgar o semelhante não é uma tarefa fácil. O Judiciário é o último recurso do cidadão. A ideia da ampliação do espaço público da mulher, essa conquista gradativa, tem de ter um significado. Quando defendo as minorias, defendo as mulheres, os homossexuais, os afrodescendentes. Graças a Deus, nunca tivemos um caso de racismo.

Como se reflete essa sua atuação dentro da sua família?
Sou casada com um general. Mas, independentemente disso, o fato de ele ser militar não teve influência na minha indicação pelo presidente Lula. Eu trabalhava na Casa Civil, eu era procuradora federal concursada durante 23 anos quando fui indicada para cá. Ocupei a vaga indicada aos advogados, no quinto constitucional para o STM. Mas o fato de eu ter convivido com militares me ajudou a entender a hierarquia e a disciplina, que é difícil de ser atendida.

A senhora acha importante essa hierarquia?
Apesar de eu ser uma liberal, de absolver muito, acho fundamental. Homens armados têm de ser rigorosamente controlados. Em certas situações, eu condeno com rigor. Não se pode permitir que o cidadão que porta uma arma aja de determinada maneira. Um exemplo é o das drogas. O consumo de drogas dentro do quartel se tornou um ato corriqueiro, e a gente pune, porque já tive caso de sentinela com fuzil na mão que encosta o fuzil na parede para fumar um cigarro de maconha. Isso é um perigo. Da mesma forma, a greve dos controladores de voo, quando o Brasil parou. Teve até gente que não pôde ser transplantada. Quando os controladores militares fizeram greve, foram punidos e denunciados por motim. Militar não faz greve, faz motim.

A senhora concorda com isso?
Sim, porque a sociedade civil é vulnerável, é desarmada. Quando a sociedade civil se vê ameaçada por homens desorganizados, que não obedecem a uma cadeia de comando e que portam armas, isso coloca em risco o Estado democrático de direito.

E seu marido, ele tem sido influenciado por sua atuação?
Meu marido não é um militar típico. É um engenheiro, a vida toda dele no Exército foi de professor. Eu o conheci dentro da faculdade, em Ipanema, no Rio. É um militar com cabeça de civil. Até a promoção dele ao generalato, nossa vida era no Rio, e nossos amigos eram civis. Vamos fazer 25 anos de casados neste ano, faremos bodas de prata.

O STM se tornou mais feminino nos sete anos em que a senhora é ministra?
Acho que sim, espero que sim. Trouxe comigo muitas mulheres para me assessorar na presidência, porque acho que a prática tem de ser coerente com o discurso. Se defendo o empoderamento feminino e a ascensão das mulheres no mercado de trabalho, tenho de dar o exemplo. São mulheres capacitadas e competentes.
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Reportagem  por Léo Gerchmann
Fonte: ZH online, 12/07/2014

sábado, 12 de julho de 2014

“Não houve um fracasso igual”

JAIME SCHULTZ

Especialista em psicologia esportiva

A professora da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA) Jaime Schultz, especialista em psicologia esportiva e integrante da Sociedade Americana de História do Esporte, está habituada a estudar fracassos em todo tipo de modalidade. Ainda assim, ela afirma nunca ter visto nada semelhante à derrota da Seleção para a Alemanha, em casa, durante a semifinal da Copa.

A derrota brasileira se compara a alguma outra tragédia esportiva?

Houve outras derrotas catastróficas na história do esporte, incidentes em que times ou atletas pareceram implodir, mas não houve outro fracasso como o do Brasil diante da Alemanha. Há alguns elementos que tornam essa derrota especialmente trágica: ocorreu no país-sede, o Brasil gastou muito dinheiro para receber a Copa, e o país é a nação de maior sucesso na história do torneio, com cinco taças. Tudo isso cria um pano de fundo importante. Ainda há a maneira como o Brasil perdeu – levando tantos gols tão rapidamente e em número recorde para uma semifinal. Somando tudo isso, foi um desastre.

Qual a sua impressão sobre a reação dos torcedores brasileiros?

A imprensa americana divulgou muitas fotos de brasileiros durante o jogo. Alguns aparentavam uma profunda descrença. Outros choravam e pareciam estar com o coração partido. Foi uma maneira de transmitir a gravidade da derrota do país sem necessidade de qualquer palavra. As imagens eram mais poderosas do que quaisquer palavras.

O Brasil perdeu a final da Copa de 1950 em casa, mas, naquela época, o rádio era o meio de comunicação mais comum. As novas tecnologias ajudam a perpetuar esse fracasso e a aumentar seu impacto social?

As novas tecnologias criam um novo tipo de memória cultural. As imagens, tuítes, memes, a agonia expressa no Facebook, Instagram... Embora a tecnologia pareça deixar tudo tão fugaz, evanescente, creio que as mensagens e imagens serão arquivadas e continuamente recuperadas, tornando mais difícil deixar a derrota para trás.

Se não há como esquecê-la, é possível superar essa derrota?

Não quero soar pessimista, mas não acredito que os brasileiros conseguirão esquecer isso algum dia. Também não acredito que o mundo deixará os brasileiros esquecerem. Certamente, o país vai seguir adiante e usar isso como um marco histórico em muitos sentidos, mas jamais será esquecido.

Você assistiu ao jogo? O que passava por sua cabeça enquanto o Brasil era esmagado?

Eu assisti à maior parte do primeiro tempo, e conferi o jogo algumas vezes na segunda etapa para ver se havia alguma mudança. Tive de desligar a TV porque era doloroso demais. Fiquei tremendamente triste pelo Brasil. Eu sei que eles vão se recuperar. Certamente, haverá mais conquistas de Copas, mas, neste momento, a dor é muito grande.
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marcelo.gonzatto@zerohora.com.br
Reportagem por MARCELO GONZATTO
Fonte: ZH online, 12/07/2014

Ocupe-se de pouco para ser feliz

 Paulo Nogueira*
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“Ocupe-se de pouco para ser feliz”. Foi essa a primeira frase de um livro de Demócrito, filósofo grego do século 5 a.C. O livro se chama sobre o Prazer, e não chegou à posteridade senão por citações de outros pensadores. 

A palavra grega para tranqüilidade da alma é euthymia, e sobre ela se debruçaram intensamente os sábios. A recomendação básica de Demócrito, sob diferentes enunciados, é encontrada sempre. Sobrecarregar a agenda eqüivale a sobrecarregar o espírito, e traz inevitavelmente angústia. Ninguém que tenha muitas tarefas, ou que se atribua muitas, pode ser feliz.

Um homem sábio da Antigüidade não abria nenhuma correspondência depois das quatro horas da tarde. Era uma forma de não encontrar mais nenhum motivo de inquietação no resto do dia, que ele dedicava a recuperar a calma que perdera ao entregar-se ao seu trabalho. 

Se olharmos para nós, nos veremos com freqüência abrindo mensagens no computador alta noite, e não raro nos perturbando por seu conteúdo. O único resultado disso é uma noite maldormida.

O fato é que fazemos muitas coisas desnecessárias. Coloque num papel as atividades de um dia. Depois veja o que realmente era preciso fazer e o que não era. Já fiz isto. A lista das inutilidades suplantou sempre a das ações imperiosas. 

O imperador filósofo Marco Aurélio, do começo da Era Cristã, louvou a frase de Demócrito em suas clássicas Meditações. Acrescentou, com sagacidade, que devemos evitar não apenas os gestos inúteis, mas também os pensamentos desnecessários. 

Marco Aurélio recomendava o formidável exercício de conduzir a mente, quando desviada, para pensamentos relevantes. Isso conseguido, à base de perseverança, controlamos a mente, esse cavalo selvagem, em vez de sermos controlados por ela.

Ninguém escreveu com tanta graça sobre o tema como Sêneca, pensador romano também dos primórdios da Era Cristã. Sêneca usou as expressões “agitação estéril” e “preguiça agitada” ao tratar dos atos que nos trazem apenas desassossego. 

“É preciso livrar-se da agitação desregrada, à qual se entrega a maioria dos homens”, escreveu Sêneca. “Eles vagam ao acaso, mendigando ocupações. Suas saídas absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das formigas ao longo das árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embaixo, para nada. Quantas pessoas levam uma existência semelhante, que se chamaria com justiça de preguiça agitada?”

Agimos como formigas quase sempre, subindo e descendo sem razão o tronco das árvores, e pagamos um preço alto por isso: ansiedade, aflição, fadiga física e mental. Nossa agenda costuma estar repleta. É uma forma de fugir de nós mesmos, como escreveu sublimemente um poeta romano. O resultado é inquietação.

Eliminar ao menos algumas das tantas tarefas inúteis que nos impomos a cada dia é vital para a euthymia da qual falavam os sábios gregos. Quem busca a paz fará bem em refletir na frase com a qual Demócrito iniciou um livro que, tamanha era sua força, sobreviveu aos séculos, ainda que com base apenas em citações.
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* O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
Fonte: Diário do Centro Do Mundo, 11/07/2014

sexta-feira, 11 de julho de 2014

A sociedade do cansaço

José Tolentino Mendonça*

 

Todas as épocas têm as suas patologias e estas funcionam como indicadores que vão além da superfície. As enfermidades dominantes mostram-nos o ponto de dor escondido, revelam comportamentos e compulsões, desocultam a vulnerabilidade que é a nossa, mas que raramente queremos ver. Ora, a acreditar em Byung-Chu Han, o alemão de origem coreana que é uma das vozes filosóficas mais originais da cena contemporânea, a doença representativa do nosso tempo é o cansaço.

O grande combate dos séculos que nos precederam foi bacterial e viral. A invenção dos antibióticos e das vacinas, partindo do reforço imunológico, sem resolver tudo como sabemos, tornaram, no entanto, controlados esses problemas sanitários. É verdade que de vez em quando irrompe o pânico de uma pandemia viral, mas essa não é a questão que condiciona mais profundamente com os nossos quotidianos e práticas. 

O filósofo Byung-Chu Han defende que este começo do século XXI, do ponto de vista das patologias marcantes, é fundamentalmente neuronal. O sol negro da depressão, os transtornos de personalidade, as anomalias da atenção (seja por hiperatividade, seja por uma neurastenia paralisante), o síndrome galopante do desgaste ocupacional que faz-nos sentir consumidos e esvaziados por dentro, definem o difícil panorama destas décadas. E o pior é que todas as previsões coincidem no agravamento das tendências. Estas enfermidades não são infeções, mas estados de alma, modalidades vulneráveis de existência, fragmentação da unidade interna, incapacidade de integrar e refazer a experiência do vivido. A verdade é que as nossas sociedades ocidentais estão a viver uma silenciosa mudança de paradigma: o excesso (de emoções, de informação, de ofertas, de solicitações…) está a atropelar a pessoa humana e a empurra-la para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais difícil retornar. O risco é o aprisionamento permanente nessa armadilha como explicava profeticamente Fernando Pessoa:

 «Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado não sei:
De nada me serviria sabê-lo
Pois o cansaço fica na mesma». 

Valia a pena pensar nisto.
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 * Teólogo. Escritor português. Secretario Nacional da Pastoral da Cultura
Fonte:  http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/editorial/a-sociedade-do-cansaco/

SEM COMPLEXO DE VIRA-LATAS

 Alberto Carlos Almeida*
 
Não é fácil escrever no dia seguinte à maior derrota de nossa seleção. Mas vamos lá. Como (quase) sempre, contra a corrente: o Brasil deveria se candidatar, em breve, a sediar novamente a Copa do Mundo. O México esperou somente 16 anos para sediar duas Copas, em 1970 e 1986. Na época, havia o revezamento entre a Europa e a América Latina - a Colômbia, que seria a sede, desistira pouco tempo antes. A Alemanha esperou 32 anos para ser sede de duas Copas: 1974 e 2006. Os Estados Unidos foram sede em 1994 e perderam para o Catar a disputa de 2022. Se tivessem ganho, seriam sede de duas Copas em um intervalo de 28 anos. A França esperou 60 anos para sediar duas Copas e a Itália, 56 anos. Nós, brasileiros, habitantes do país do futebol, esperamos 64 anos para realizar duas Copas. Trata-se de um verdadeiro absurdo.

O sucesso da Copa realizada no Brasil foi enorme. Quem disse isso, para aqueles que consideram que "santo de casa não faz milagres", foram os estrangeiros - a imprensa internacional, os jogadores das mais diversas seleções, autoridades públicas de outros países. Um dos mais interessantes depoimentos foi de Simon Kuper, em artigo originalmente publicado no prestigioso jornal de negócios "Financial Times". Kuper é coautor de um livro sobre futebol de enorme sucesso, "Soccernomics", e acompanha pessoalmente as Copas desde 1990. Quanto a isto, ele afirmou: "Das sete Copas do Mundo a que assisti desde 1990, esta é a melhor".

Vale utilizar as palavras do próprio Kuper acerca dos motivos que o levaram a considerar esta a melhor Copa nos últimos 24 anos: "O primeiro elemento é o futebol ofensivo. Quando faltavam dez partidas para o final da Copa no Brasil, o número de gols marcados já havia superado o das Copas de 2006 e 2010. O segundo motivo para que a atual Copa funcione é o Brasil. Em parte, é o sol quente. Quando você passa sua primeira tarde de folga em 20 dias caminhando por Copacabana, percebe que uma praia de primeira linha deveria ser elemento compulsório em todas as futuras Copas do Mundo, da mesma forma que estádios de primeira linha".

O mais interessante é o terceiro elemento elencado por Kuper: os brasileiros. Diz ele: "Se você vive em Paris, é uma sensação desconcertante visitar um país onde quase todo mundo é agradável. A realidade é que os brasileiros vêm me oferecendo um curso de um mês sobre como administrar a raiva".

O Brasil é o lugar perfeito para sediar uma Copa. Quando a Alemanha sedia uma Copa, a Itália fica com inveja. Quando a França sedia uma Copa, são os britânicos que sofrem. Quando os espanhóis sediam uma Copa, os portugueses se sentem diminuídos. O Brasil está fora das disputas europeias. O Brasil é um tertius acima das disputas entre países que têm um histórico secular de disputas e conflitos.

Além disso, somos um país de imigrantes, que, por isso (mas não só), recebemos bem todos os estrangeiros. Sabemos que o solo brasileiro não tem um dono milenar, não é o solo francófilo ou germânico. Alguém que nasce em solo alemão, filho de pai estrangeiro e mãe alemã não é considerado cidadão alemão, precisa solicitar isso ao Estado quando atinge a maioridade. No Brasil, é como nos Estados Unidos: nasceu no solo brasileiro, é brasileiro. Isso tem tudo a ver com receber bem quem vem de fora. Somos feitos por pessoas que vieram de fora, não tem como os estrangeiros não gostarem de nós.

A única desvantagem, para nós, em sediar uma Copa é que provavelmente não a venceremos. Aconteceu isso em 1950, aconteceu isso agora, e de uma forma muito desagradável. Não é fácil para a seleção brasileira jogar em casa. A pressão é muito grande, somente a vitória é o resultado aceitável. Essa responsabilidade irrevogável ficou clara na disputa de pênaltis contra o Chile e no jogo contra a Alemanha. Creio que se ambas as situações tivessem acontecido fora do Brasil, o desfecho teria sido outro. Talvez tivéssemos derrotado o Chile no tempo normal, talvez até tivéssemos ganho da Alemanha, ou ao menos perdido por pouco.

Propor que o Brasil seja sede de uma nova Copa do Mundo, daqui a 24 ou 32 anos, é ir contra nosso complexo de vira-latas. É assumir que somos melhores do que os outros, não somente no futebol, mas também na arte de bem receber as pessoas e de ser bons anfitriões. Foi agora, no Brasil, que duas seleções sul-americanas chegaram a uma semifinal. A última vez que isso tinha acontecido foi em 1970, no México. O futebol mundial, graças à Fifa e também um pouco ao nosso complexo de vira-latas, que nos faz baixar a cabeça e a não reconhecer nossos méritos, está cada vez mais eurocêntrico. Há muito mais seleções europeias na Copa do Mundo do que times sul-americanos.
Vieram agora para o Brasil as seleções da Bósnia-Herzegovina e da Croácia, que sequer passaram da primeira fase. Os grandes do passado recente, Espanha e Itália, também não foram para as oitavas de final. Por outro lado, o Uruguai, que foi para a segunda fase da Copa, só conseguiu se classificar nas eliminatórias por causa da chance que teve na repescagem. É muito injusto. É óbvio que o predomínio de seleções europeias em semifinais tem a ver com a quantidade de seleções daquele continente habilitadas a ir para a Copa.

Se o Brasil e os brasileiros tivessem uma autoestima um pouco maior, poderiam se tornar líderes mundiais para uma mudança na Fifa que abrisse mais espaço para seleções sul-americanas e de outros continentes. Pode ser que, em um futuro próximo, isso seja possível graças a uma aliança entre o Brasil e os Estados Unidos. Isso irá depender do fortalecimento do futebol nos Estados Unidos, a ponto de colocar a seleção daquele país junto aos líderes mundiais. Nós, brasileiros, entramos com o país do futebol; eles, americanos, entram com uma imensa população de consumidores e, consequentemente, recursos financeiros de fazer inveja ao futebol europeu.

Lamento que a derrota para a Alemanha esteja sendo aproveitada por todo tipo de argumento oportunista, que busca no caráter nacional as razões para a tragédia. Houve quem dissesse que foi a vitória da competência sobre a malandragem. Absolutamente patético. Quem referenda esse tipo de argumento esquece que há pouco tempo, entre 1994 e 2002, estivemos em três finais de Copa do Mundo. Esquece também que vencemos cinco vezes fora de casa, o que, cá entre nós, não é para qualquer um. Está longe o dia em que seremos considerados incompetentes no futebol, e em muitos outros campos.

O Brasil avançou em inúmeras áreas, temos uma economia complexa e diversificada, um sistema financeiro forte e sadio, instituições políticas sólidas e que geram resultados concretos no que diz respeito à melhoria de vida da população. De 1994 para cá, combatemos com sucesso a inflação, o desemprego, a desigualdade de renda. Além disso tudo, e foi o que a Copa do Mundo veio mostrar para nós mesmos, somos um povo querido e amado pelos estrangeiros. Eles ficaram admirados pela nossa forma de viver e encarar as coisas.

Temos problemas como todo país tem. Mas ninguém pode dizer que estamos varrendo tais problemas para debaixo do tapete. A melhor forma de encará-los com sucesso é, antes de tudo, reconhecermos nosso sucesso. O Brasil não é o país do futuro, é o país do presente, ainda que estes dias tenham nos reservado a derrota vexaminosa para a Alemanha. Faz parte da vida, é raro, mas acontece. Como se diz em uma famosa música: levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima. Vamos, sim, nos candidatar, em breve, para sediar novamente uma Copa do Mundo. E vamos acreditar que venceremos. Afinal, nada funciona mais do que o "Vai Brasil!" O Brasil sempre vai!"

Agradeço a meu filho Gabriel por ter me incentivado a escrever este artigo e também por ter sistematizado os dados que mostram o predomínio europeu nas Copas do Mundo da Fifa.
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* Alberto Carlos Almeida, sociólogo, é diretor do Instituto Análise e autor de "A Cabeça do Brasileiro".
alberto.almeida@institutoanalise.com
www.twitter.com/albertoalmeida
FONTE: Valor Econômico online, 11/07/2014

“Não compre a história de que a derrota deixará uma cicatriz indelével”: um jornalista americano fala do 7 a 1

Kiko Nogueira*
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 "O país tem um enorme banco de talentos, mas acidentes não podem mais acontecer no esporte. Vencer nesse nível hoje significa não apenas talento, mas dinheiro, 
treinamento e uma estratégia coerente."

A derrota do Brasil para a Alemanha levou os suspeitos de sempre a pintar um cenário tenebroso no país. Ok, foi uma vergonha, mas houve um certo regozijo sádico. A capa do Globo com um David Luiz de quatro no gramado e a manchete “Vergonha, Vexame, Humilhação” é um exemplo rematado de histeria sensacionalista.

Por incrível que pareça, a vida seguiu adiante no dia seguinte. O jornalista Matthew Futterman, do Wall Street Journal, escreveu um bom artigo contando o que viu no país sob uma perspectiva estranhíssima: o mundo não acabou.

Eis a matéria:

Adivinhe o que aconteceu no Brasil na quarta-feira? 

O sol apareceu. As pessoas foram para o trabalho. Elas dirigiram táxis, abriram supermercados, clicaram em seus computadores para tratar de assuntos jurídicos e financeiros. Médicos curaram os doentes. Assistentes sociais enfrentaram os problemas da grande pobreza neste país de cerca de 200 milhões. A vida continuou. 

Adivinha o que não aconteceu? Cidades não queimaram. Rebeliões em massa não aconteceram. Tanto quanto sabemos, torcedores não se jogaram de edifícios porque sua amada Seleção foi destruída pela Alemanha, por 7-1, na semifinal da Copa. 

À luz cruel do dia, ainda é estranho escrever “Alemanha 7, Brasil 1.” Esse tipo de resultado não acontece neste nível de futebol. O último jogo oficial que o Brasil perdeu em casa foi em 1975. Se eu fosse um nativo, estaria abalado, tentando descrever a debacle que aconteceu em Belo Horizonte. 

Não se engane: a derrota para a Alemanha, para usar a frase favorita do técnico dos EUA, Jurgen Klinsmann, foi uma lástima. As pessoas aqui amam o futebol. O governo declara feriados nos dias de partidas da equipe nacional. Ruas vazias, e eu quero dizer vazias – como se você pudesse montar uma barraca no meio de uma delas e não acontecer nada. 

Ainda assim, não compre a história de que esta perda vai deixar alguma cicatriz indelével em um país tentando desesperadamente prosperar em uma série de áreas que não têm nada a ver com futebol. Essa idéia é um pouco humilhante para os brasileiros, que são a coleção de almas mais acolhedoras com que eu me deparei. 

Houve a mulher na loja de óculos aqui em São Paulo que se recusou a aceitar dinheiro pelo estojo de óculos que ela me deu depois que eu perdi o meu. Houve os estudantes universitários em Natal que me ofereceram um tour pela cidade e uma carona de volta para meu hotel no meio da noite, quando não havia transporte à vista após a vitóriq dos EUA sobre Gana.

Embrulhando o peixe
Embrulhando o peixe

 Lá estava o rabino que, 30 segundos depois de me conhecer, insistiu para que eu fosse jantar no sábado em sua casa (eu fui, e a sopa de matzo ball estava incrível). Houve as inúmeras almas pacientes comigo na rua, esperando enquanto eu tateava meu dicionário de bolso de português, procurando a palavra certa para completar uma pergunta idiota, quando certamente eles tinham algo melhor para fazer.

Estive aqui por um mês. Isso dificilmente me qualifica como um especialista na cultura brasileira. Minha amostragem é pequena e limitada a hotéis, restaurantes, estádios de futebol e pistas de corrida ao lado de praias do Rio, Natal, Recife e algumas outras cidades-sedes. Eu sei do crime e da pobreza.

Mas eu também sei que este é um país incrível, diverso. Encare quatro horas de voo rumo à Amazônia a partir de São Paulo e as pessoas parecem completamente diferentes daquelas em qualquer shopping do país. Em Salvador, você pode muito bem achar que está na África Ocidental. Em cada cidade, pessoas de todos os tons de pele — preto, marrom e branco — preenchem áreas de ricos e pobres. É um país de beleza física impressionante e vastos recursos naturais. O tráfego da hora do rush faz as avenidas de Los Angeles parecerem estradas do interior, um sinal claro de que o lugar precisa de alguns melhoramentos de infra-estrutura, mas também que há um grande número pessoas trabalhadoras que querem tornar o amanhã melhor do que hoje.

Em outras palavras, o Brasil é muito mais do que uma camisa canarinho e uma obsessão com o futebol.

O colapso contra a Alemanha certamente vai despertar algum exame de consciência nacional sobre como o Brasil cultiva e desenvolve a sua próxima geração de estrelas do futebol. O país tem um enorme banco de talentos, mas acidentes não podem mais acontecer no esporte. Vencer nesse nível hoje significa não apenas talento, mas dinheiro, treinamento e uma estratégia coerente. 

“Quando você pensa sobre isso”, disse uma brasileira de 20 e poucos em um bar na noite passada,  “é meio engraçado. Quer dizer, sete gols. É engraçado, né?” 

Eu vou apostar que o Brasil como um todo vai se sair muito bem depois disso. Chateado um pouco, claro, mas em última análise, tudo vai dar certo. De muitas maneiras, já deu.
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* Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
Fonte:  http://www.diariodocentrodomundo.com.br/11/07/2014

quarta-feira, 9 de julho de 2014

“Onde foi parar o jogo bonito de vocês?”: o depoimento de um alemão fã do futebol brasileiro

Harold Von kursk*
 brasil alemanha
Ninguém sente prazer com a morte do jogo bonito do Brasil e sua aniquilação pela Alemanha. O esmagador placar de 7 a 1 representa uma virada triste no esporte ou pelo menos uma ruptura decisiva na nossa compreensão tradicional do equilíbrio de poder do jogo.

Foi uma blitzkrieg no campo – três gols em cinco minutos, quatro gols em menos de 7 minutos – e, quando o adversário é o Brasil, e não a Polônia ou a Islândia, algumas questões sérias devem ser levantadas.

É impossível conceber o peso de uma derrota com essas proporções históricas – a primeira de vocês em casa desde 1975. Aconteceu tão rápido que ninguém podia acreditar que estava acontecendo.

Sua nação estava tão atordoada assistindo os enxames de atacantes alemães cortando o gramado quanto o resto do mundo assistindo o jogo na TV.

Este foi o choque do novo. Este foi um triunfo de uma estratégia inteligente que representa os valores tradicionais do futebol alemão – o trabalho em equipe, a dedicação e o equilíbrio psicológico.

Nós todos sabemos que esse não era um grande time brasileiro. Sabemos também que, além de Neymar, o Brasil não tinha nenhum outro atacante de classe mundial. Sua ausência certamente criou um vácuo na equipe.

Mas quando uma grande nação do futebol entra em colapso de uma forma tão patética, torna-se mais difícil para os vencedores se alegrar em seu triunfo. Ninguém na Alemanha está pensando que temos atletas maravilhosos ou um estilo de jogo mais bonito. Mas a Alemanha tem melhores jogadores e uma crença avassaladora em si mesma que só cresceu diante da emasculação transcendental do lado brasileiro.

A Alemanha mantém o Brasil na mais alta consideração. Nós respeitamos a graça e a grandeza de lendas como Garrincha, Sócrates, Pelé, Rivelino e tantos outros. Sabemos também de experiência própria — quando o Brasil de Ronaldo nos despachou na Copa do Mundo de 2002 com facilidade – que vocês ainda são o celeiro dos jogadores mais talentosos do mundo.

Mas este ano vocês tinham um time ruim e um péssimo treinador. Não ponham toda a culpa em Fred. David Luiz jogou ainda pior que ele e seu meio de campo é culpado de uma rendição que teria envergonhado até mesmo o exército italiano na Segunda Guerra Mundial.

O Brasil vai renascer das cinzas desta derrota devastadora. Vai encontrar uma maneira de reconstruir sua equipe e mudar suas táticas. Todos vão se alegrar quando vocês começarem a jogar bonito novamente. O mundo ama o Brasil. Mas é hora de trazer de volta a arte para o esporte que era de vocês.
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* Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
Fonte: Diário do Centro do Mundo, 08/07/2014

terça-feira, 8 de julho de 2014

Tempero da palavra é o silêncio

 Alfredo J. Gonçalves*
 
No terreno fecundo do silêncio nasce, cresce e matura a Palavra. Não as palavras, no plural e com letra minúscula, constituídas não raro por um palavreado oco, vazio e estridente, sem qualquer conteúdo. Mas a Palavra, no singular e com letra maiúscula, aquela que traz consigo um sentido vivo, criativo e libertador. Por isso é que pouco ou nada tem a dizer quem se revela incapaz de silenciar. Quantas vezes quem não sabe o que dizer põe-se, sem mais nem por que, a falar! Limitar-se-á a imitar a si mesmo ou aos outros, reciclando as palavras ao invés de recriá-las. Bem diz o ditado popular que "quem não reflete se repete”. Somente será capaz de dizer algo novo e verdadeiro quem é igualmente capaz de calar e ouvir. O sábio ensina a desconfiar de quem fala demais e o coração aflito e desesperado sabe que muito diz quem pouco fala. O silêncio, quando não fruto de um mutismo encerrado sobre si mesmo, costuma ser mais eloquente que todo vão palavrório.

Três aspectos formam uma conditio sine qua non para que a preparação da terra onde o silêncio revela toda a fertilidade da Palavra: parar, repousar e silenciar. De fato, quem não é capaz de parar, tampouco será capaz de dar novos passos. Sem um discernimento contínuo e apropriado, atropela-se a si mesmo e aos demais. Vive multiplicando repetidamente os próprios passos ou os passos alheios, sem dar-se conta que estes, muitas vezes, não passam de atalhos equivocados. Claro que é mais fácil caminhar sempre, mover-se a todo custo, correr em qualquer direção e fazer muitas coisas. Fazer, fazer, fazer... coisas, coisas, coisas... A sociedade moderna e pós-moderna, marcada pela revolução tecnológica e informática, nos impele cotidianamente a isso: produção, produtividade, consumo e ativismo. Difícil é fazer uma parada para reflexão, avaliação e renovação do próprio caminhar. Mas uma coisa é certa: nenhum carro chegará ao próprio destino se não estiver disposto a parar nos postos de abastecimento. Eis o ponto: parar, abastecer para prosseguir a viagem.

Vale o mesmo para o conceito de repousar. No contexto atual da economia globalizado e do mundo em "agitação febril”, repousar parece um luxo desnecessário e até mesmo inútil. O importante é acumular fatos e feitos, estar sempre em movimento, aparentar ação. Não poucas vezes, porém, um momento de repouso, para avaliação e retomada, pode trazer maior e melhor benefício que horas, dias e mesmo meses de atividade sem descanso. O verdadeiro repouso, como sabemos, tem raízes bíblicas. Diz o Livro do Gênesis que Deus fez o mundo em seis dias e, no sétimo, descansou. Daí a tradição do sábado ou domingo, Dia do Senhor, não um tempo para ser desperdiçado, mas para "demorar-se extasiados com aquele que sabemos que nos ama”, como lembra Santa Teresa D’Ávila. Somente uma boa parada e um bom repouso nos proporciona o equilíbrio necessário para tomar novamente o trabalho. Novas e difíceis decisões nos esperam! É preciso estar em paz consigo mesmo e com os outros para tomar resoluções acertadas.

Chegamos, por fim, à necessidade de silenciar. Parar, repousar, silenciar são reflexos de um mesmo e único espelho. Espelho de dupla dimensão, cuja imagem retorna sobre nós mesmos e nos interpela: ao mesmo tempo que mostra nossas imperfeições, debilidades e fraquezas, também aponta nossas energias e potencialidades, bem como nossa vontade de acertar. É justamente nesse confronto entre as erros e falhas, perguntas e dúvidas, de um lado, e o firme desejo de superá-las, de outro, que se engendram palavras temperadas pelo condimento do silêncio. As únicas que, implícita ou explicitamente, conduzem à Palavra e que, por isso mesmo, trazem a força e a mística de vida nova, de criatividade e de libertação. As únicas dignas de serem ditas e ouvidas, penetrando profundamente no coração, na alma e nas entranhas mais íntimas ocultas de nosso ser.

Akureyri. Islândia, 3 de julho de 2014
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* Padre. Assessor das Pastorais Sociais
Fonte: Adital online, 07/07/2014
Imagem da Internet

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O elogio da solidão

Paulo Nogueira*
Nighthawks, de Hopper
O homem sábio basta a si mesmo. É um pensamento ao qual constantemente se agarram diversas escolas de filosofia ocidentais. A solidão é um caminho para sabedoria. E no entanto vivemos num mundo em que a introspeção parece uma praga da qual todos fugimos. A solidão como que embaraça e envergonha. Tente se lembrar de uma campanha publicitária baseada em alguém só. Ou de um filme americano em que o personagem na solidão não seja um atormentado.

As tradições orientais, do taoísmo ao hinduísmo, também sublinham a solidão como uma etapa indispensável para o autoconhecimento. Na China e no Japão antigos, os homens poderosos se recolhiam à solidão monástica no final da vida em busca da elevação espiritual. Cícero resumiu isso assim: “Quem depende apenas de si mesmo e em si mesmo coloca tudo tem todas as condições de ser feliz”.

Arthur Schopenhauer, o grande pensador alemão do século 19, se deteve longamente neste tema, o da solidão. No final de sua vida, morava em Frankfurt na companhia de Atma, seu cão poodle. Tinha poucos amigos e jamais se casou. Mais que pregar a reclusão, ele a praticou. E os ecos de sua voz se ouvem em múltiplos lugares. Movimentos como o existencialismo e artistas como Tolstói, Proust e Wagner sofreram intensa influência da voz pessimista, ou simplesmente realista, de Schopenhauer. Todo homem digno, segundo ele, é retraído. “O que faz dos homens seres sociáveis é a sua incapacidade de suportar a solidão e, nesta, a si mesmos.”

As pessoas retraídas, numa cultura que supervaloriza a tagarelice vazia e a “desenvoltura” social, podem sentir-se diferentes das outras, e para pior. Se lerem Schopenhauer, terão uma outra visão de si próprios, fracamente mais positiva. Numa obra já da maturidade, Aforismos para a Sabedoria de Vida (Martins Fontes), ele produziu reflexões memoráveis sobre a convivência entre as pessoas.

Não há doçura nessas reflexões, não há indulgência e nem modos polidos, mas uma agudeza mordaz que ao mesmo tempo incomoda e encanta. “A chamada boa sociedade nos obriga a demonstrar uma paciência sem limites com qualquer insensatez, loucura, absurdo. Os méritos pessoais devem mendigar perdão ou se ocultar, pois a superioridade intelectual fere por sua mera existência. Eis por que a sociedade, chamada de boa, tem não só a desvantagem de pôr-nos em contato com homens que não podemos amar nem louvar, mas também a de não permitir que sejamos nós mesmos, de acordo com a nossa natureza. Antes, nos obriga a nos encolhermos ou a nos desfigurarmos. Discursos ou idéias espirituosas, na sociedade ordinária, são francamente odiados.”

Schopenhauer exagera? É possível. Ele tinha um estilo veemente de expor suas idéias. Mas reflita com calma sobre a passagem acima. Tire o que possa parecer exagerado. Faz sentido ou não? Você pode concordar com Schopenhauer ou discordar. Amá-lo ou odiá-lo. O que não dá é para não reconhecer a força colossal duradoura de seus pensamentos.
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* O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
Imagem: Nighthawks, de Hopper
Fonte:  http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-elogio-da-solidao-2/

As costas que suportam o mundo não suportaram a covardia

 Matheus Pichonelli*
Neymar
 Se há didatismo em toda tristeza é que no esporte, 
como na vida, não são os músculos e 
o desejo que moldam o destino. 
São as rasteiras

Na coletiva de imprensa da véspera da estreia na Copa do Mundo, um repórter desafiou Neymar a fazer uma pergunta ao chefe, Luiz Felipe Scolari.

-Eu jogo amanhã, professor?, perguntou o camisa 10, provocando não um riso, mas uma gargalhada no treinador e nos jornalistas que acompanhavam a entrevista.

A pergunta era quase um drible característico: tão improvável quanto absurdo. Que ele jogaria estava claro desde que vestiu pela primeira vez a camisa da seleção brasileira, em um amistoso contra a seleção dos EUA, em 2010, ainda sob o comando de Mano Menezes. Desde então, a equipe se resumia a uma frase: era ele e mais dez. Ele e mais dez contra a rapa.

O drible de Neymar na coletiva era o drible em uma armadilha. O que todos queriam saber, dentro e fora daquela sala de imprensa, era se ele, a partir do dia seguinte, suportaria todo o peso do mundo em suas costas. Durante cinco partidas ele suportou. Nem sempre com brilho, mas suportou: foram quatro gols, um pênalti derradeiro contra o Chile, e duas assistências, uma delas no duelo das quartas, quando fez a bola atravessar, oblíqua e dissimulada, a área colombiana até chegar aos pés do capitão Thiago Silva.

Àquela altura já imaginávamos como seria o duelo com os alemães, na semi: o Brasil, um time entre médio e esforçado, contra uma equipe tão fria e previsível quanto mortal (um amigo costuma dizer: “nada contra a seleção alemã, mas eu prefiro futebol”). Mas os anfitriões tinham um trunfo, ele vestia a camisa 10 e era o único dos 22 em campo capaz de desembaralhar um castelo de cartas construído na base da ciência, da técnica e da aplicação.

Triste ironia: as costas que suportaram o mundo não suportaram a covardia, uma entre tantas sofridas desde que pisou em campo como profissional. Dessa vez, a joelhada do lateral Camilo Zuñiga, aos 40 minutos do segundo tempo de um jogo quase ganho, doeu mais. Não a dor física, a menor das dores, ainda que imensa. Mas a dor de ser içado, com um gancho de guindaste, do próprio espetáculo: uma Copa, em casa, no auge da forma técnica e física.

O Brasil que se chocou ao ver a fratura da tíbia de Anderson Silva, a rótula exposta de Ronaldo Fenômeno e a batida fatal de Ayrton Senna assistia, assim, ao seu principal jogador na década deixar o estádio a caminho do hospital na maca, aos prantos, com um lenço no rosto como um sudário. Não, não precisávamos de um outro mártir, não a essa altura do campeonato. Porque, no fundo, sabemos: não há lição na perda se não a dor, e esta não deixa legados. Mas se há didatismo em toda tristeza é que no esporte, como na vida, não são os músculos e o desejo que moldam o destino, mas as rasteiras. As rasteiras e suas variações: uma joelhada nas costas, um pênalti cavado, uma mordida no rival, um carrinho criminoso. O arsenal entra na lista das habilidades humanas, e tudo o que é humano é imponderável.

No mundo ideal, o futebol seria só futebol, um intervalo lúdico de uma rotina ordinária. Na vida real o esporte é mais que isso: é a rotina ordinária em retrato instantâneo. A rotina ordinária e suas contradições. Nele reconhecemos a beleza, como o consolo de David Luiz sobre James Rodríguez ao fim do jogo. Mas reconhecemos também nossas misérias.

Dentro de campo é possível identificar em tempo real a potencialidade destruidora da nossa preguiça, da nossa mesquinharia, da nossa covardia, da nossa pequenez, da nossa arrogância, da nossa presunção. No esporte, como na vida, ensinam apenas que o importante é vencer. E que não há superação sem conquistas. Por causa dessa lógica, muitos foram limados do esporte, e da vida, sem ter a chance da redenção. Neymar é jovem, vai ser reerguer, vai disputar outras Copas e pode levantar a taça ainda este ano. Mas será sempre, e a partir de agora, a imagem, carregada na maca, de um tempo projetado por Carlos Drummond de Andrade: o tempo em que as mãos tecem apenas o rude trabalho, e o coração está seco – por mais que chorem, eu diria, porque choram de aflição e medo. Justo ele, que suportou o peso do mundo sobre os ombros.

Neymar não é só vítima do absurdo: é vítima de um risco calculado, a estratégia que ensina obediência tática pela imprudência física. Uma imprudência modelada na preleção: se for para perder o jogo, é melhor não perder a viagem. Zuñiga obedeceu às ordens, como os rivais brasileiros, e suas botinadas não menos imprudentes, ao longo de toda a Copa.

A fratura na terceira vértebra lombar tirou Neymar da Copa, e tirou do mundo a oportunidade de assistir, na próxima terça-feira, ao duelo mais nítido entre a razão e o improviso, entre a matemática e a falta de juízo. Não só: tirou o mundo das costas de Neymar e o distribuiu aos outros jogadores da equipe. Nem o mais pessimista dos torcedores imaginaria um roteiro tão cruel, mas do absurdo pode nascer a redenção. Agora não é mais Neymar e mais dez. É Neymar e mais onze. O mundo agora, diria Drummond, não pesa mais que a mão de uma criança.
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Formado em jornalismo e ciências sociais, é editor-assistente do site de CartaCapital
Fonte:  http://www.cartacapital.com.br/autores/Matheus-Pichonelli

domingo, 6 de julho de 2014

Meditações sobre o educador

Rubem Alves*
Van Gogh tem uma delicada tela que representa esta cena: o pai, jardineiro, interrompeu seu trabalho, está ajoelhado no chão, com os braços estendidos para a criança que chega, conduzida pela mãe. O rosto do pai não pode ser visto. Mas é certo que ele está sorrindo. O rosto-olhar do pai está dizendo para o filhinho: “Eu quero que você ande”.
 
É o desejo de que a criança ande, desejo que assume forma sensível no rosto da mãe ou do pai, que incita a criança ao aprendizado dessa coisa que não pode ser ensinada nem por exemplo e nem por palavras. Os braços estendidos do pai são mais importantes que os braços estendidos do professor. Aquele pai agachado, braços estendidos, sorriso escondido: não é uma linda imagem para o educador?
Nietzsche é o filósofo que mais amo. Dizia ele só amar os livros escritos com sangue. Seus textos são escritos com sangue, sangue sob a forma de palavras.
 
Bem que ele poderia dizer: “Hoc est corpus meum”, isso é o meu corpo.
Eu escrevo antropofagicamente. Antropofagia é um ritual pelo qual os vivos devoram os mortos. Eles não os devoram por razões gastronômicas. Rituais antropofágicos não são churrascos. Eles os devoram por razões de amor.

Há duas coisas que se podem fazer com o corpo de um morto. A primeira delas é enterrá-lo, para ser devorado pelos vermes e para que continue morto. A segunda é devorá-lo para que, morto, continue a viver em nossos corpos.

Há autores que li sem que os tivesse amado. Não os devorei. Suas ideias ficaram guardadas na minha cabeça. Outros, que amei, eu os devorei. Passaram a fazer parte do meu corpo.
 
Aquilo que se come não continua o mesmo depois de comido. É assimilado — fica semelhante a mim. Batatas, cenouras e carnes, uma vez comidas, deixam de ser batatas, cenouras e carnes. Passam a ser parte de mim mesmo, minha carne, meu sangue. Assim acontece com os autores que devorei e cito. Só os cito porque se tornaram parte da minha carne e do meu sangue. Eu os conheço “de cor” — isto é, como parte do meu coração. Deixaram de ser eles. São eu.
 
Segundo Nietzsche, a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm de ser educados para que a nossa alegria aumente. As crianças não veem “a fim de”.
 
Seu olhar não tem nenhum objetivo prático. Veem porque é divertido ver.

Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: “Veja!” — e ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. O seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente. E, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria — que é a razão pela qual vivemos.
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* Educador. Escritor. 
Fonte: Correio Popular online, 06/07/2014
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