segunda-feira, 4 de agosto de 2014

D. Quixote de La Mancha na sociedade do tempo livre

 Paulo Ghiraldelli*

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Tempo livre – você curtindo ao máximo!

É dos sonhos de Karl Marx aquela fantástica imagem do homem quase em situação paradisíaca: livre do trabalho árduo, por meio de um arranjo racional da sociedade e de uma alta tecnologia, o homem poderia dedicar-se às atividades prazerosas da pescaria, da pintura, da leitura tanto de dia quanto de noite. Atualmente há mais gente acreditando em Marx do que em qualquer outra época. Mesmo sem qualquer vínculo com o marxismo, não vemos como milagre que nossas tarefas mais pesadas possam ser diminuídas, e que a cada ano que passa há uma tendência mundial de baixar o número de horas de trabalho em função do aumento do tempo-livre, ainda que enormes bolsões de trabalho escravo ou quase existam por aí. O paraíso parece estar ali no horizonte próximo.

Muita gente hoje tem mais tempo livre que outros de condição social semelhante no passado, e há também um mais um sonho no horizonte, vindo do Iluminismo, que se realiza: cada um de nós está em um mundo mais livre, com capacidade de escolhas e decisões jamais alcançadas por outros do passado. De certo modo é como se a figura do sujeito moderno tivesse escolhido os nossos tempos para se tornar verdade.

Nunca fomos tão ativos e ativistas como hoje. Nunca fomos tão participantes e participativos como agora. Nunca tivemos tanto tempo livre para curtirmos e decidirmos o que curtir. Nosso mundo ocidental aumentou consideravelmente a infância e a juventude, a fase do não-trabalho. Ampliou tempo livre para os adultos e, mesmo para os que trabalham, criou situações lúdicas interacionistas que parecem fazer de nossas vidas quase que um piquenique.

Todavia, essa nossa condição moderna, com todas essas aparências, não é a de piquenique. Talvez não estejamos mais aptos para nos servir da figura do Ulisses neurótico e melancólico, para nos explicar, como fizeram os frankfurtianos. Pode ser que a figura do sujeito moderno que mais nos explique, hoje, seja a de D. Quixote, de modo que a subjetividade modelar de nossos dias seja a dupla formada por ele e seu escudeiro, Sancho Pança. Caso optemos por levar essa sugestão a sério, poderíamos dizer, junto com Sloterdijk, que a figura do homem moderno é antes a do histérico do que a do neurótico obsessivo.

Ulisses se fez homem moderno, sujeito, na repressão de seus instintos. Foi perdendo prazer e exercendo cada vez mais sua habilidade de cálculo que ele moldou a razão moderna, interior ao burguês proprietário, o protótipo do sujeito moderno. Não podendo fazer o luto dessas perdas dentro de si mesmo, tornou-se ao final um abnegado do sangue e da limpeza pela violência.

Podemos ver o homem moderno assim, quase como um proto-fascista, da maneira que Adorno e Horkheimer o desenharam?

Caso tenhamos de notar que o paraíso tem a ver conosco atualmente, que não é algo a ser desconsiderado, então seria melhor escolher uma figura menos reprimida que Ulisses para nos representar. Estamos numa época de extravagâncias e de fim da privacidade. Falamos, gesticulamos e aparecemos. Vamos de joguinho em joguinho, de selfie em selfie, de gincana em gincana, de mini-celebridades para mini-celebridades de facebook. Isso somos nós. Somos altamente criativos no sentido da histeria de D. Quixote. Criamos e recriamos nossa aventura que é, enfim, uma falsa aventura. Essa histeria tem a ver conosco. Somos modernos, somos sujeitos, no modelo do montador de Rocinante.

Nesse mundo em que temos mais tempo livre, o que fazemos? Será que distinguimos o tempo livre do tempo do trabalho? Ou será que ambos adquiriram uma certa homogeneidade altamente realista e, por isso mesmo, surrealista, como na aventura histérica quixotesca?

Deveríamos trabalhar na hora do trabalho e curtir o lazer na hora do lazer. Mas, podemos 
fazer isso? Sim, caso a hora do trabalho implicasse trabalho com finalidade real, e o lazer como diversão real. Mas, o trabalho, já faz algum tempo, nada tem a ver conosco. Não digo isso por conta das questões de alienação, como foram postas pela tríade Rousseau-Hegel-Marx. Digo isso por conta de que nosso trabalho é trabalho competitivo em sua essência, mas nenhuma competição está acontecendo ou pode acontecer. Em um mundo onde as empresas são monopólios, e a competição nada é senão casas do mesmo dono, ninguém de fato precisa do trabalho diferente, do trabalhador inteligente e criativo. Mas não podemos dizer isso para todos. Temos de mantê-los ocupados e se achando como que educados para a criatividade. Então, o melhor é ver todos como D. Quixotes, altamente criativos, sim, mas em aventuras que não acontecem, ainda que, de vez em quando, existam surras reais para se levar e ladrões para ajudar sem querer. Nas democracias ocidentais apanhamos na rua e votamos em políticos, afinal!

Desse modo, o sujeito moderno é aquele que precisa se autodesinibir para passar da teoria à prática, agir e decidir – isso é certo. Mas, não tendo nenhum elemento em seu interior, forjado pela preparação real, ou algo que efetivamente possa valer, ele é deslocado para se aconselhar, para pedir ajuda, para consultar o… consultor. Nem mais é o ideólogo ou guru que ele busca, é o mero consultor mesmo. A figura do homem do entretenimento, modelo tirado da TV e vestido de especialista em gincana, ou então a própria máquina, os Ipods da vida.

Assim, no trabalho e no lazer o que se faz é simular a vida, empanturrando-se de jogos. Há jogos para ampliar a produtividade, há jogos dados pela auto-ajuda para viver bem, fazer sexo bem e se relacionar bem no trabalho. Há jogos para brincar de deus e brincar de fiéis, em preços variados. Há jogos que levam a jogos, num cumprir de metas aleatórias postas pelos descendentes de Mario Brós, Sílvio Santos, G. W. Bush e Cicciolina.

Nisso, pensar no modelo do melancólico Ulisses serve pouco. O modelo do agitado e fantástico De la Mancha é mais propício. Ser moderno em uma modernidade tardia, como a que vivemos, é estar somente com o tolo Sancho Pança como o que nos liga ao empírico, à Terra. Afinal, a Terra não precisa de nós. Tudo funciona sem nós. Temos tudo para estar no sonho de Marx, mas como pesadelo.

Boas férias, ou melhor, bom trabalho, ou boas … ah, sabe-se lá o que você está vivendo. Tudo existe se você estiver montado no seu Ipod Rocinante, mesmo quando montado em sua mulher, ou em seu homem. Ou em seu bofe.
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* Filósofo.
Fonte:http://ghiraldelli.pro.br/d-quixote-de-la-mancha-na-sociedade-tempo-livre/

Férias: Lugares de encontro

 Padre Vasco Pinto Magalhães

As férias deveriam começar com um encontro pessoal, connosco próprios. Essa é a sugestão que o padre Vasco Pinto Magalhães, jesuíta, deixa para qualquer pessoa que inicie um período de descanso. O autor do livro «Só avança quem descansa» diz ainda que mais do que turistas, deveríamos ser peregrinos, para dar valor e espaço ao tempo. Só assim se alcança o verdadeiro repouso, cultivando relações e não fotografias.

Agência Ecclesia (AE) – Que oportunidade oferecem as férias?
Padre Vasco Pinto Magalhães (PVPM) – As férias são uma oportunidade mas não são uma oportunidade para todos. As férias não são apenas o tempo de verão; também há grandes férias de inverno. Devia haver férias de Páscoa. Acho que devíamos rechear todo o nosso tempo de tempos de verdadeiro descanso.

AE – As férias são mais um estado de alma do que um tempo balizado por estações do ano?
PVPM – As férias deveriam ser a capacidade de criar condições e concretizar momentos de humanização, momentos de paragem, de respirar, de digerir, espaços de silêncio e de relação. Sobretudo porque vivemos um tempo intensivo, onde a quantidade se sobrepõe à qualidade. Acresce a necessidade de parar, caso contrário mastigamos em seco e não assimilamos. Este é um dos perigos do nosso tempo, que a quantidade perverta a qualidade.

Estou convencido que aquilo que nos descansa é a verdadeira relação humana. Falamos muito uns com os outros, interagimos, mas relacionarmo-nos é algo que nos pode escapar com grande facilidade. Há as relações sociais, de trabalho, de família, mas a relação que nos descansa, que nos faz aceitar quem somos, que nos ajuda a aceitar o outro – isso, é com certeza, o que mais nos descansa.

AE – Mas a relação faz parte do dia-a-dia normal do ano inteiro…
PVPM – Por isso é que uma pessoa que viva solitária - ainda que no meio de multidão - se não tiver experiência quotidiana, desgasta-se numa relação saudável, afetiva, tranquila.

Desde logo a relação consigo próprio. Se eu estou mal comigo, como vou descansar? Se não me entendo, se estou em conflito com realidades e giro mal esse conflito; se a pressão é tanta por coisas a mais ou coisas a menos. Realmente devíamos começar pela relação connosco próprios, para aprender a descansar.

Não é só ter tempo de férias e ter dinheiro para rumar à montanha ou à praia. É outra coisa. Nesse sentido depende muito do estado de alma, mas também de como concretizo e arranjo condições.
Uma coisa é estar nesta paisagem (Casa de Oração de Santa Rafaela Maria, em Palmela); outra é na Avenida da Liberdade, no meio da barulheira. Não há dúvida que precisamos cortar para encontrar ritmos mais humanos.

Toda a nossa vida é rítmica: inspirar e expirar, alimentar-se e digerir. Mas parece que montamos uma sociedade contra o ritmo, ou ao ritmo de um computador.

AE – Contra o tempo…
PVPM – A aceleração do progresso hoje, sobretudo no mundo da comunicação e da informática, é tão grande que humanamente não temos capacidade para acompanhar. Somos levados pela máquina. Não estou nada contra o progresso, mas tem uma ambiguidade.

Não sou capaz de dizer se as pessoas hoje se cansam mais ou menos. Mas há um ritmo mais acelerado, que torna mais difícil encontrar um espaço para respirar as árvores, ouvir esta cigarra que está aqui ao lado a cantar.

Há uma ambiguidade no progresso: certamente é uma coisa boa, mas vai muito à frente da nossa capacidade de o digerir e integrar.

O facto de estarmos sempre contactáveis: não vou dizer que é mau, mas é perigoso. Há pessoas que já não são capazes de parar. Ficam muito aflitas: falta-me o telemóvel, tenho de ver os emails, não sei o que está a acontecer.

AE – O período de descanso e de férias pode ser, por isso, um período de ansiedade, de irritabilidade?
PVPM – Esse é um dos grandes perigos e das ambiguidades, provocado pelo facto de quando começamos as férias não começarmos com descanso.

As férias podem tornar-se numa correria, uma competição, uma ansiedade para estar em todo o lado, para viver uma série de coisas, encher um programa incrível. Acaba por ser uma nova canseira. As pessoas regressam de férias a precisar de respirar, de descanso. Por isso distingo as férias e o descanso.

Os domingos deixaram de ser tempos de relaxamento, de fazer a síntese, rever a semana e preparar a próxima. Vamos acumulando. Por vezes digo às pessoas que não estão em descanso mas em ressaca.

AE – Férias, no latim, significa «dia de festa». Estamos preparados para esse dia de festa?
PVPM – Devíamos estar. Mas a festa supõe um espaço tranquilo de alegria, uma comunicação, não se faz festa sozinho, porque se perde a relação.

Podem fazer-se férias sozinho: há a relação com a natureza, pode visitar-se museus. E pode descansar muito. Mas trata-se de enriquecer-se de outras relações construtivas. Por isso a arte, a natureza, a experiência da fé mais desenvolvida, um retiro para comunicar melhor com Deus, sem ansiedade.

AE – Pode ser um tempo para fazer perguntas?
PVPM – Deve ser. Acho que é mais importante perguntar do que responder. Estamos sempre à espera das respostas que geram uma grande ansiedade. «Que resposta é que eu dou a isto?»; mas devíamos antes dizer «que pergunta é que eu faço a isto?»; «Como é que se resolve isto?»; devíamos perguntar «onde é que isto em leva?»

Devíamos, desde pequenos, ser ensinados a perguntar, mais do que a responder. A resposta está ao nível da intelectualidade, na ideia concebida de que confundimos a vida com um problema. Mas a vida não é um problema, é um processo. Aos processos interrogamo-los. Os problemas são teóricos. Eu costumo dizer que a vida não tem solução, mas os problemas têm solução. A vida tem percursos, desenvolvimentos, ritmos que vão dando resposta ao crescimento.

Nós não fazemos uma criança crescer metendo-a dentro de um computador, dando-lhe respostas para as quais ela ainda não tem perguntas. É preciso que ela tenha perguntas.

AE – Tenha tempo…
PVPM – Tenha tempo. A correria do tempo está a estragar-nos a capacidade de amar. O tempo e o amor são indesligáveis. Amar é sobretudo tempo e espera. Se não racionalizamos e torna-se um jogo de conquista ou sedução. Amar é estar, é colher, dar tempo no momento da entrega.

Christian Bobin, um autor de que gosto muito, dizia que a fadiga bate fortemente a duas portas: ao amor e ao sono. Na correria e no cansaço não somos capazes de amar. Fazemos coisas, temos algumas relações, mas o amor, a amizade, precisa de tempo e, cansados, não somos capazes de amar.
Dizia ele também que no cansaço fechamos a porta ao silêncio e à amizade. Porque é que hoje há tantas irritações nas relações humanas, mesmo nas pessoas de quem se gosta? A relação está viciada pelo cansaço, por necessidades, por se estar com o pensamento em outro lugar ou pessoa, por estar a fazer duas coisas ao mesmo tempo. O amor tem de ser personalizado, tem de estar centrado no outro.

AE – Tem de haver uma partilha de tempo?
PVPM – E acontece isso na amizade. O amor a Deus é uma relação com os valores, com o absoluto, com a verdade. No meio desta agitação de estarmos a fazer três coisas ao mesmo tempo, querer responder a solicitações simultâneas, impressionados ainda com pessoas que não têm trabalho e férias, que estão sós, a carga é muito forte.

Não abrimos porta ao silêncio que seria condição primeira da relação. O silêncio é a condição para ouvir e falar melhor. Não é a ausência de comunicação. Sabemos que no silêncio ouvimos a própria consciência, o outro, descobrem-se outros níveis. Isso é tão repousante.

Mas as pessoas quando estão muito cansadas desatam a correr. Uma espécie de tentação de fuga para a frente. Penso muito nisto. Tanta gente cansada, com depressões que o tempo curava e a relação curaria. Afinal estão no meio da multidão mas muito sozinhas.

Pessoas em relação

AE – O livro Cântico dos Cânticos deixa indicações sugeridas por si. «Porque eis que passou o inverno, a chuva cessou e se foi. Aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira já deu os seus figos e as vides em flor, exalam o seu aroma.» (CT 2, 10- 14) Este trecho relata um passeio partilhado por dois amantes que optam por sair para apreciar a beleza da natureza e o tempo silencioso que a vida pede.
PVPM – É uma relação cheia do ritmo da natureza. Não quer ter frutos no inverno. Percebe a beleza das estações. Não quer colher fora do tempo. Também na relação não se pode colher fora do tempo.
O Cântico dos Cânticos é muito bonito porque há afastamento e aproximação, uma espécie de medo de se perder o outro porque está longe e não vem na hora que eu queria, mas está para vir. É muito bonito porque é o grande retrato da relação com Deus. Mas amamo-nos mal.

O Cântico dos Cânticos é a grande metáfora da relação. Sem medo de perceber que há sentimentos. O que aconteceu com esta história de andarmos com os sentimentos a explodir ou recalcados? Criamos o que alguns filósofos chamam de «imotivismo». Não controlamos e vivemos das emoções; queremos respostas racionais, mas vivemos das emoções. O «imotivismo» é uma doença do nosso tempo. Tudo se faz por impulso, emoção e dizemos que temos direito à emoção, ao sentimento, que é uma grande confusão.

Nesse trecho percebemos que há emoção, mas não separada da inteligência. Perceber os tempos e os modos.

AE – Mostra inteireza?
PVPM – Mostra que, sem estar fechado dentro de si próprio, se está bem centrado em si mesmo. É uma distinção que gosto de fazer – uma coisa é uma pessoa fechada no seu umbigo; outra é uma pessoa centrada. Uma pessoa centrada pode dar-se a si própria ou dar o seu centro a outro; uma pessoa umbigada não dá nem recebe. Essa está stressadíssima.

Há coisas que hoje dificultam a tranquilidade. As crises económicas e financeiras, o desemprego- como é que vão ter férias e descanso? É preciso sabedoria para controlar a ansiedade, quando não se tem dinheiro para alimentar os filhos. O que é isso de férias? Vai chamar nomes a outro.

AE – Daí a importância de percebermos as férias independentemente do local onde estejamos?
PVPM – Sim, embora haja locais que ajudam. Nós somos carne e osso, estamos ligados à natureza, à pressão atmosférica, ao ambiente, tudo isso nos faz ser quem somos. Seria uma abstração pensar que sou independente disso tudo. Não sou.

O que não quer dizer que não haja uma construção que vai funcionando à medida que vou fazendo decisões, que não só impulsos. Organizo as férias ou deixo correr? Há um certo deixar correr como sinal de liberdade, mas também não devo ser imprudente, devo planear, mas sem ser escravo.
Há outra doença do nosso tempo que é a competição. Estamos sempre a olhar para o outro, o outro está a divertir-se e eu não, o outro está ali e eu não…. A competição que leva à inveja. É das coisas que mais cansa. Porque é a má relação.

Turistas ou peregrinos?

AE – Nas férias, devemos ser turistas ou peregrinos?
PVPM – Mesmo nas férias devemos ser peregrinos. E não estou nada contra o turismo, gosto de fazer turismo. Quase todos os anos faço uma viagem com um grupo. Em breve irei à Sicília, uma ilha que une a história passada e o futuro. Pensamos na Sicília e nas pessoas que estão a chegar a morrer no Mediterrâneo.

Fazer férias não nos devia desligar destas duas realidades: das graças e das desgraças. Deveríamos ligá-las bem. Nesse sentido sou mais peregrino.

O turista – por vezes digo essa frase – é andar nesta vida usufruindo e deitando fora o que não interessa. Os turistas que não me levem a mal porque é muito bom poder viajar e há épocas na vida em que o turismo faz muito bem, se é bem organizado, se tem um objetivo. Mas se for um acumular de fotografias… Lembra-me a historinha do japonês que foi viajar e perguntaram-lhe se tinha gostado. Ele disse: «Não sei, ainda não vi as fotografias.» Isso é no mau sentido do turista.

O turista, no bom sentido, é peregrino, sabe o valor do tempo, tem metas, não quer comer tudo de uma vez, trava a gula. Faz uma escolha. Isso é que descansa. Caso contrário tem-se uma lista imensa de coisas que se viu e onde se esteve, mas vale a pena perguntar «onde é que estiveste como pessoa?» Se entraste na competição, podes dizer que já tiveste em muitos locais, mas não estiveste em lado nenhum.

A vida é por a cabeça no céu e os pés na terra. É viver sem abdicar do espírito e dos objetivos, do querer crescer.

É uma distinção que eu gosto de fazer que parece óbvia mas na prática não é: crescer e aumentar. Uma pessoa crescida não é uma criança aumentada; é uma criança que se transformou, morreu, passou a jovem e agora é adulto. Mas já não é criança.

A nossa tentação do mundo é aumentar: as experiências, o mundo. E há férias que são correr.

AE- A poetisa Adília Lopes diz que «O tempo é templo».
PVPM – Não conhecia e é bem verdade. Precisa do tempo para cada coisa. O livro do Eclesiastes tem um hino ao tempo. O tempo que vivemos, aquele que desaproveitamos porque estamos presos ao passado ou cegos com o futuro.

O nosso templo é o aqui e o agora. É aqui que eu posso por os pés no chão, encontrar uma pessoa e olhá-la, receber o Espírito, abstrair-me do que não interessa. Por isso é que a oração descansa imenso. Naturalmente quando não é uma reza aflita. Mas quando a oração significa respirar o Espírito, que é vento, respiração, inspirar e respirar. E por isso não se pode rezar como quem liga um botão, uma máquina, porque por vezes estamos ofegantes. Precisamos fechar os olhos, tomar consciência de onde estamos, respirar fundo, procurar o objetivo. E ai a conversa acontece. Tal como a conversa de duas pessoas, com ritmo. Caso contrário é uma violência.

Há tanta violência no nosso mundo. Pela negativa e pela positiva. Nós abrimos um jornal e não nos dá descanso. Os jornais não existem para isso, mas deviam dar se as noticias não fossem precipitadas. Sobretudo se não se sobrepusessem. Estamos a cair numa coisa terrível que o Papa Francisco chamou de «globalização da indiferença». Como acontecem tantas coisas e ao mesmo tempo, nada vale nada, é tudo igual.

Isto arrasa, nivela por baixo e aburguesa. Tornamo-nos burgueses – pessoas que têm todos os meios, mas já não vibram com nada.

A globalização que é uma coisa boa, acho eu, mas muito ambígua, pela forma como quer ser alcançada – tudo para todos ao mesmo tempo.

AE – Coloca-nos em relação mas tira-nos as relações?
PVPM – Porque aniquila a diferença. As diferenças é que nos enriquecem. O Papa Francisco diz uma coisa engraçada, a propósito da globalização e dos critérios: geralmente pensamos que o ideal da globalização, enquanto figura, seria a esfera. Mas ele diz que a esfera massifica porque todos os pontos estão à mesma distância do centro, como se fossem iguais.

O ideal não é sermos uma esfera mas um poliedro, onde por muitas faces que existam todas são diferentes. A globalização, quando trata tudo por igual, destrói a pessoa. O igualitarismo estimula a competição porque queremos ser diferentes. Devemos sê-lo, penso eu.

AE – Peço-lhe que nos indique algumas dicas para melhor preparar o tempo de férias. A primeira já a deu, no início da nossa conversa – marcar esse encontro connosco próprios. Há mais?
PVPM – Pensar que vou para férias não apenas para me distrair mas para ter a oportunidade de me encontrar. Encontrar-me comigo, com os outros, com os valores e com o futuro. Viver a comunhão com a natureza, os outros.

Que as férias não sejam só para distrair no sentido do esquecer a realidade presente: fazer um intervalo onde não se pense. Não - pensar em que é que eu vou pensar. Escolher um bom livro, perceber onde vou ouvir uma boa música, perceber onde, se sou crente, rezar e como. E isso fazer parte do programa de férias. Seria a dica que eu deixaria.
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Reportagem por  Lígia Silveira
Fonte: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/entrevistas/ferias-lugares-de-encontro/04/08/2014

domingo, 3 de agosto de 2014

As fatais afinidades religiosas entre EUA e Israel

 Mokhtar Ben Barka
 Para o professor Mokhtar Ben Barka, professor de 
Ciências Políticas especializado em Estados Unidos 
e Oriente Médio, Barack Obama não teria 
coragem de deixar de proteger Israel

Para Mokhtar Ben Barka, professor de Ciências Políticas especializado em Estados Unidos e Oriente Médio na Universidade de Valenciennes, na França, o elo entre os EUA e Israel é antes de tudo religioso. “Escolhidos de Deus”, os americanos acreditam que “amar Israel é obedecer à vontade de Deus”. Como seus predecessores, Barack Obama não teria coragem de deixar de proteger Israel.

CartaCapital: O senhor costuma dizer que o “fator religioso” é mais forte nos Estados Unidos do que em outros países democráticos. De que forma a religiosidade americana faz de Israel um aliado?
Mokhtar Ben Barka: O “fator religioso” tem enorme impacto nos EUA. Essa religiosidade é histórica, remonta ao século XVII, quando judeus começam a ir aos Estados Unidos. É conectada à certeza de que eles, os americanos, foram os escolhidos de Deus, como dita a Bíblia. Nasce então nos americanos a certeza de que eles vivem na Nova Jerusalém. Amar Israel, especialmente para os evangélicos, os protestantes conservadores, faz parte da fé cristã. De fato, você não pode ser cristão se não amar Israel. Amar a Grande Israel, aquela de Abraão, como na Bíblia, é obedecer à vontade de Deus. Por isso, em 1948, sob a presidência de Harry Truman, os Estados Unidos foram o primeiro país a ratificar Israel, como novo Estado. A criação de Israel passa a ser uma profecia cumprida. Israel torna-se o principal aliado dos EUA. Os evangélicos, inclusive aqueles fundamentalisas, passam ainda a ter maior influência na política exterior dos EUA sob George W. Bush.

CC: E o lobby judeu?
MBB: É fortíssimo, principalmente nos EUA. Lobistas judeus têm muita influência sobre os congressistas americanos.

CC: A mídia israelense critica John Kerry, o qual busca mediadores para o cessar-fogo na Turquia e no Catar, não no Egito. Pela primeira vez, faria sentido o comportamento do secretário de Estado?
MBB: Os EUA encontram-se em uma posição bastante desconfortável. De fato, a Turquia é uma potência emergente, um país respeitado no mundo árabe. Os cataris, embora dominados pelos EUA, podem negociar com o Hamas, considerado um movimento terrorista por americanos e europeus. Esses países poderiam formular um tratado de paz favorável também para Gaza. Por sua vez, o Egito, que tirou do poder a Irmandade Muçulmana, um braço do Hamas, está mais preocupado em favorecer Israel.

CC: Pelo fato de Obama ter raízes na África muçulmana, ele não poderia, como se pensava quando foi eleito pela primeira vez, posicionar-se de forma mais equilibrada no Oriente Médio do que seus predecessores?
MBB: Seria a primeira vez na história. Nenhum presidente americano tem coragem para agir de tal modo. Uma posição equilibrada no Oriente Médio marcaria o fim da carreira de Obama, e com repercussões graves para o Partido Democrata. 

CC: Os EUA foram o único país a votar na semana passada contra uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU para fomar uma comissão internacional chamada a investigar os ataques israelenses contra a Palestina. Aquele voto, dado por um país que busca o cessar-fogo, não lhe parece contraditório?
MBB: Voltamos à herança religiosa dos EUA, ao elo com Israel. É impensável para Washington se opor a Israel. Obama tenta satisfazer ambos os lados. Fala em cessar-fogo para ajudar Gaza, vítima de um massacre, mas vota contra uma comissão de observadores da ONU para averiguar se os ataques de Israel fogem às normas do direito internacional.

CC: No mundo árabe, com seus 19 países, há diferenças enormes entre eles. Mas, de forma geral, até que ponto os árabes apoiam a Palestina?
MBB: É um tema importante para a vasta maioria. No entanto, países em diferentes regiões reagem de maneiras diferentes. As monarquias conservadoras do Golfo Pérsico não querem se envolver no conflito, embora possam lamentá-lo. Já no Magrebe é intenso o apoio aos palestinos. A Tunísia, por exemplo, está a enviar medicamentos, mantimentos e roupas para Gaza. De todo modo, apesar de simpatizar com os palestinos, nem todos os governos árabes concordam com a ideologia do Hamas.
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Reportagem por Gianni Carta
Fonte: Carta Capital online, 03/08/2014

Exclusivo: a professora Camila Jourdan fala ao DCM

Camila
ADVERTISEMECamila
Camila Jourdan é doutora em Filosofia, coordenadora de pós-graduação na UERJ e, para a polícia, integrante de uma quadrilha armada. A mesma quadrilha de Sininho e Bakunin, outros personagens do inquérito que Camila considera literatura fantástica de má qualidade. 
Por determinação de um habeas corpus, responde hoje ao processo em liberdade. 

Tem 34 anos, é mãe de uma adolescente e especialista em um ramo da Filosofia conhecido como Analítica da Linguagem.

Ela concedeu a entrevista abaixo para o DCM:

Desde a Grécia Antiga, muitos filósofos tem sido presos. A Filosofia pode ser perigosa?
Pois é, todos conhecem a famosa citação de Marx, o filósofos teriam se limitado a interpretar o mundo, seria ainda preciso modificá-lo. A reflexão, no geral, é sempre perigosa para a ordem estabelecida, sobretudo quando é radical, isto é, quando se pensa até o fim, até as raízes das coisas, pois com isso podemos colocar em questão o que é aceito como dado necessário. Mas não se precisa fazer Filosofia para isso, muito menos se precisa da academia. 

De fato, o que torna a Filosofia tão inócua hoje é justamente esta separação entre teoria e prática, que precisa ser combatida e que se relaciona diretamente com outra ideia bastante cara a este inquérito kafkaniano, a de que haveria aqueles que “agem nas manifestações” e seus “mentores intelectuais”. Esta construção ficcional da investigação é fundamental para a criminalização de alguns, para a fabricação de líderes e, em máximo grau, para tornar o movimento popular que existe hoje palatável e facilmente destruído. Esta é uma ideia que precisa ser desconstruída, não é como acadêmica ou intelectual que eu atuo politicamente.

Bakunim é mesmo um dos suspeitos?
Sim, isso serve como piada, mas mostra muito bem com que tipo de processo estamos lidando, isto é, baseado em que tipo de inquérito estão tentando destruir a vida das pessoas. É similar com o que ocorria na época da ditadura militar, quando tentaram prender Sófocles por conta das suas peças de teatro subversivas. Mas não deixa de ser uma grande homenagem: em seu bicentenário, Bakunin continua subversivo e procurado pela polícia. Agora todos querem saber quem é, afinal, este Bakunin, as pessoas estão procurando, estão lendo mais sua obra por causa disso, e isso é ótimo.

Nosso sistema carcerário costuma parecer bastante assustador e desumano, foi assim
na penitenciária de Bangu?
Acho que o termo ‘desumano’ é ótimo, ser preso significa basicamente, na prática, deixar de ser humano. 

Foram feitas denúncias muito graves de espancamento e tortura de menores numa instituição, outras denúncias ainda precisam ser feitas, mas o que me espanta é que isto não choca a sociedade, que isso não aparece como repugnante nos jornais. A sociedade deveria estar se mobilizando para fechar lugares como aquele ao invés de estarem preocupados com a livre interpretação de conversas telefônicas devassadas e descontextualizadas. 

Digo isso porque isso está acontecendo agora. Existem crianças sendo espancadas diariamente em instituições estatais, e todos aqueles que se calam, que fingem que estas pessoas não existem, que não se movem para modificar esta sociedade, são coniventes com esta situação. 

A polícia mata adolescentes rindo e as pessoas se preocupam com a violência nas manifestações! Que sociedade é esta? Outra coisa impressionante é como o sistema prisional e o sistema educacional se aproximam. Não precisa ler Foucault para concluir isso, basta ter frequentado uma escola com pedagogia tradicional e depois ser preso. 

O sistema prisional leva ao extremo aquilo o sistema pedagógico já legitima, uma pedagogia do castigo e da culpa, da punição e da dor, da exclusão, da segregação e da humilhação. Por isso é toda uma sociedade que é cúmplice da existência de lugares como aquele. 

Me impressiona muito que a única atividade permitida para as presas no presídio seja assistir cultos pentecostais, nos quais são ensinadas que a única esperança para elas é a salvação divina, nos quais são mais culpabilizadas por estar ali e ensinadas a se conformar, diante de um Deus que pune, um Deus que é a imagem e semelhança do Estado patriarcal. Como sempre, as igrejas servem ao Estado e o Estado ajuda as igrejas a manterem seus fiéis.

De quais crimes você é acusada? Considera-se culpada de algum?
Eu sou acusada de formação de quadrilha armada, isso seria simplesmente ridículo se não fosse a óbvia injustiça do estado de exceção no qual vivemos. Eu faço parte de um movimento político, que atua em ocupações sem-teto, em favelas, que é bastante ligado à luta por uma educação transformadora e por moradia, nós fazemos trabalho de base, divulgamos a proposta política anarquista e o modo de organização autogestionária. 

Também temos alfabetização para adultos, aulas de capoeira, exibição de filmes, debates. Mas não é um projeto assistencialista, nós acreditamos na educação como peça fundamental na transformação da sociedade, negar educação a alguns é um modo de manter a dominação de classes, de excluir totalmente estas pessoas da autonomia sobre suas próprias vidas, educar é empoderar, promover um novo modo de educar é também transformar a sociedade. 

Não somos uma organização para cometer crimes, não somos terroristas como se está tentando fazer crer, somos um movimento social organizado. Agora, o inquérito afirma que este grupo de educação popular é “uma fachada para treinar jovens entre 9 e 19 anos para a guerrilha”! Tem como levar isso a sério por mais de meio segundo?! Esta é mais uma das muitas piadas de mau gosto do processo.

Como vê a atuação da mídia no caso?
Estamos sendo perseguidos e criminalizados pelas grandes coorporações porque atrapalhamos seus interesses. Não é de se estranhar que eles voltem todas as suas armas contra nós e tentem transformar nossas vidas em um espetáculo exemplar facilmente vendido como mais uma mercadoria. E as armas são muitas, afinal estamos falando daqueles que exercem privilegiadamente poder e controle na nossa sociedade, e eles não querem abrir mão dos seus privilégios, eles utilizam toda sorte de manipulação e fraude. Isso não me espanta. 

O que eles fingem não saber é que o problema não sou eu, não é a Elisa, não são os demais presos e perseguidos, o problema é todo um contexto histórico. Mas eles não podem prender e criminalizar todas estas pessoas, por isso é tão importante focar em alguns, fabricar líderes. O poder do espetáculo midiático na nossa sociedade é extremamente forte, por isso eles estão investindo no circo, na construção de uma realidade fantástica e também por isso é fundamental que todas as pessoas que nos apoiam se levantem neste momento. 

A sociedade precisa tentar refletir para além do espetáculo midiático porque as vidas de várias pessoas estão sendo destruídas por fofocas e livre interpretações de conversas telefônicas devassadas e descontextualizadas antes mesmo de qualquer julgamento.

E da polícia e dos outros poderes do Estado?
A polícia chegou derrubando a minha porta às 6h da manhã e apontando uma arma para mim e meu companheiro, ele foi algemado. Minha casa foi revirada, a casa da minha mãe foi revistada. Eu me senti sequestrada, sequestrada pelo Estado. Mesmo não acreditando no Estado democrático de direito não dava para acreditar que chegaria a tanto. 

Toda a operação é inacreditável, mandados expedidos sem nenhuma prova concreta, executados de modo totalmente arbitrário, um processo baseado em depoimentos altamente desqualificados com claro intuito de prejudicar alguns por questões pessoais, e, claro, tendo em vista evitar manifestações na final da copa. 

Eu sei que o Estado se mantém pela exceção, por isso uso com muita reserva esta noção, mas o modo como esta operação ocorreu superou todas as minhas expectativas. O bom é que a máscara de suposta democracia cai, fica evidente o que é o Estado brasileiro. É até pior do que a ditadura militar porque se esconde sob a capa de uma falsa democracia.

Tanto faz então quem seja eleito? Parece uma posição radical aceitar que as urnas não sejam o caminho, parece algo que ainda assusta as pessoas…
Estamos vivendo uma crise no sistema representativo, é uma crise no modelo da representação, diretamente relacionada com a chegada da esquerda partidária ao poder e a confirmação de que isso não mudou nada, de que aquilo que os anarquistas sempre disseram estava correto: o próprio sistema impede qualquer mudança, qualquer transformação substancial. 

O processo eleitoral é hoje uma grande briga de corporações empresariais, é mais um objeto de consumo da nossa sociedade de espetáculo, e as pessoas sabem que isso não pode trazer transformações reais. Daí o crescente número de pessoas que não pretendem votar e estas campanhas desesperadas do governo para evitar isso. 

O que o sistema eleitoral faz é tentar canalizar toda a participação política de um indivíduo na sociedade a qual pertence para uma votação em uma sigla, só isso. Você vai lá e vota de dois em dois anos, e isso, dizem, faz com que vivamos em uma democracia. Ora, isso é obviamente falso, você transforma o cidadão em um consumidor de candidatos, e você cria uma sociedade alienada das próprias decisões que constituem o seu modo de vida. 

Muitas pessoas não aguentam mais viver assim, drogadas pela mídia para aguentar uma vida sem sentido na qual você sabe que pra você morar, outros tantos tem que viver na rua, que pra você consumir, outros tantos são explorados e não tem direito ao básico. 

É você sair de casa de manhã e ver famílias inteiras consumindo lixo e dormindo ao relento, e ver todo dia o povo ser morto na favela, e as pessoas tem que fingir que não estão vendo, mas isso destrói todos nós, não é possível viver numa sociedade como esta sem ser destruído também porque as pessoas não existem boiando no nada, o ser humano existe enquanto partícipe de uma comunidade e é isso, de mais básico, que está em questão. 

Mesmo para aqueles que não se dizem anarquistas, nunca se disseram, não defendem esta posição, esta é uma verdade concreta do momento histórico que vivemos por isso o anarquismo encontra condições para se desenvolver hoje, por isso temos tantos ouvidos atentos.

Tomar as ruas em protestos com milhões de pessoas parece não ter sido suficiente para grandes mudanças. Como espera que as manifestações se desenvolvam daqui para a frente ?
A transformação de uma sociedade não se faz só com manifestação de rua, se faz com participação política real na base, com educação popular, com a construção de territórios autônomos. Mas é também verdade que as manifestações de rua cumpriram um papel fundamental desde o ano passado.
Eu sempre penso no ganho político destas experiências independente do que venha ocorrer daqui pra frente. Existe um ganho político para a nossa sociedade, um amadurecimento, um empoderamento, que não nos pode mais ser tirado. Este ganho inclusive não pode ser tirado por nenhuma criminalização, embora seja isso o que se tenta fazer neste momento. 

Nós vivemos em uma sociedade que nunca viveu uma revolução popular, as mudanças que tivemos sempre foram “herdadas”, mantendo uma mesma oligarquia. O que houve no ano passado e o que ainda está havendo foi educativo, todo este processo que estamos vivendo, e é certo que estamos no olho do furacão, é histórico, nossa sociedade não é mais a mesma, apredemos muito e isso não pode mais ser tirado. 

Nossos netos vão estudar a revolta do vinagre na escola, vão aprender o que foi a batalha da ALERJ, vão ler sobre este processo kafkaniano promovido para garantir megaeventos e o lucro de empresários
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Sobre o Autor : Leonardo é catarinense, jornalista e escreve no blog Van Filosofia. http://filosofiavan.wordpress.com

NÃO EM MEU NOME

Marcelo Gruman*

O terrorismo israelense e as crianças palestinas
Na minha adolescência, tive a oportunidade de visitar Israel por duas vezes, ambas na primeira metade da década de 1990. Era estudante de uma escola judaica da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. As viagens foram organizadas por instituições sionistas, e tinham por intuito apresentar à juventude diaspórica a realidade daquele Estado formado após o holocausto judaico da Segunda Guerra Mundial, e para o qual todo e qualquer judeu tem o direito de “retornar” caso assim o deseje. Voltar à terra ancestral. Para as organizações sionistas, ainda que não disposto a deixar a diáspora, todo e qualquer judeu ao redor do mundo deve conhecer a “terra prometida”, prestar-lhe solidariedade material ou simbólica, assim como todo muçulmano deve fazer, pelo menos uma vez na vida, a peregrinação a Meca. Para muitos jovens judeus, a visita a Israel é um rito de passagem, assim como para outros o destino é a Disneylândia.
A equivalência de Israel e Disneylândia tem um motivo. A grande maioria dos jovens não religiosos e sem interesse por questões políticas realizam a viagem apenas para se divertir. O roteiro é basicamente o mesmo: visita ao Muro das Lamentações, com direito a fotos em posição hipócrita de reza (já viram ateu rezando?), ao Museu da Diáspora, ao Museu do Holocausto, às Colinas do Golan, ao Deserto do Neguev e a experiência de tomar um chá com os beduínos, ir ao Mar Morto e boiar na água sem fazer esforço por conta da altíssima concentração de sal, a “vivência” de alguns dias num dos kibutzim ainda existentes em Israel e uma semana num acampamento militar, onde se tem a oportunidade de atirar com uma arma de verdade. Além, é claro, da interação com jovens de outros países hospedados no mesmo local. Para variar, brasileiros e argentinos, esquecendo sua identidade étnica comum, atualizavam a rivalidade futebolística e travavam uma guerra particular pelas meninas. Neste quesito, os argentinos davam de goleada, e os brasileiros ficavam a ver navios.
Minha memória afetiva das duas viagens não é das mais significativas. Aparte ter conhecido parentes por parte de mãe, a “terra prometida” me frustrou quando o assunto é a construção de minha identidade judaica. Achei os israelenses meio grosseiros (dizem que o “sabra”, o israelense “da gema”, é duro por natureza), a comida é medíocre (o melhor falafel que comi até hoje foi em Paris...), é tudo muito árido, a sociedade é militarizada, o serviço militar é compulsório, não existe “excesso de contingente”. A memória construída apenas sobre o sofrimento começava a me incomodar.
Nossos guias, jovens talvez dez anos mais velhos do que nós, andavam armados, o motorista do ônibus andava armado. Um dos nossos passeios foi em Hebron, cidade da Cisjordânia, em que a estrada era rodeada por telas para contenção das pedras atiradas pelos palestinos. Em momento algum os guias se referiram àquele território como “ocupado”, e hoje me envergonho de ter feito parte, ainda que por poucas horas, deste “finca pé” em território ilegalmente ocupado. Para piorar, na segunda viagem quebrei a perna jogando basquete e tive de engessá-la, o que, por outro lado, me liberou da experiência desagradável de ter de apertar o gatilho de uma arma, exatamente naquela semana íamos acampar com o exército israelense.
Sei lá, não me senti tocado por esta realidade, minha fantasia era outra. Não encontrei minhas raízes no solo desértico do Negev, tampouco na neve das colinas do Golan. Apesar disso, trouxe na bagagem uma bandeira de Israel, que coloquei no meu quarto. Muitas vezes meu pai, judeu ateu, não sionista, me perguntou o porquê daquela bandeira estar ali, e eu não sabia responder. Hoje eu sei por que ela NÃO DEVERIA estar ali, porque minha identidade judaica passa pela Europa, pelos vilarejos judaicos descritos nos contos de Scholem Aleichem, pelo humor judaico característico daquela parte do mundo, pela comida judaica daquela parte do mundo, pela música klezmer que os judeus criaram naquela parte do mundo, pelas estórias que meus avós judeus da Polônia contavam ao redor da mesa da sala nos incontáveis lanches nas tardes de domingo.
Sou um judeu da diáspora, com muito orgulho. Na verdade, questiono mesmo este conceito de “diáspora”. Como bem coloca o antropólogo norte-americano James Clifford, as culturas diaspóricas não necessitam de uma representação exclusiva e permanente de um “lar original”. Privilegia-se a multilocalidade dos laços sociais. Diz ele:
As conexões transnacionais que ligam as diásporas não precisam estar articuladas primariamente através de um lar ancestral real ou simbólico (...). Descentradas, as conexões laterais [transnacionais] podem ser tão importantes quanto aquelas formadas ao redor de uma teleologia da origem/retorno. E a história compartilhada de um deslocamento contínuo, do sofrimento, adaptação e resistência pode ser tão importante quanto a projeção de uma origem específica.
Há muita confusão quando se trata de definir o que é judaísmo, ou melhor, o que é a identidade judaica. A partir da criação do Estado de Israel, a identidade judaica em qualquer parte do mundo passou a associar-se, geográfica e simbolicamente, àquele território. A diversidade cultural interna ao judaísmo foi reduzida a um espaço físico que é possível percorrer em algumas horas. A submissão a um lugar físico é a subestimação da capacidade humana de produzir cultura; o mesmo ocorre, analogamente, aos que defendem a relação inexorável de negros fora do continente africano com este continente, como se a cultura passasse literalmente pelo sangue. O que, diga-se de passagem, só serve aos racialistas e, por tabela, racistas de plantão. Prefiro a lateralidade de que nos fala Clifford.
Ser judeu não é o mesmo que ser israelense, e nem todo israelense é judeu, a despeito da cidadania de segunda classe exercida por árabes-israelenses ou por judeus de pele negra discriminados por seus pares originários da Europa Central, de pele e olhos claros. Daí que o exercício da identidade judaica não implica, necessariamente, o exercício de defesa de toda e qualquer posição do Estado de Israel, seja em que campo for.
Muito desta falsa equivalência é culpa dos próprios judeus da “diáspora”, que se alinham imediatamente aos ditames das políticas interna e externa israelense, acríticos, crentes de que tudo que parta do Knesset (o parlamento israelense) é “bom para os judeus”, amém. Muitos judeus diaspóricos se interessam mais pelo que acontece no Oriente Médio do que no seu cotidiano. Veja-se, por exemplo, o número ínfimo de cartas de leitores judeus em jornais de grande circulação, como O Globo, quando o assunto tratado é a corrupção ou violência endêmica em nosso país, em comparação às indefectíveis cartas de leitores judeus em defesa das ações militaristas israelenses nos territórios ocupados. Seria o complexo de gueto falando mais alto? 
Não preciso de Israel para ser judeu e não acredito que a existência no presente e no futuro de nós, judeus, dependa da existência de um Estado judeu, argumento utilizado por muitos que defendem a defesa militar israelense por quaisquer meios, que justificam o fim. Não aceito a justificativa de que o holocausto judaico na Segunda Guerra Mundial é o exemplo claro de que apenas um lar nacional única e exclusivamente judaico seja capaz de proteger a etnia da extinção.
A dor vivida pelos judeus, na visão etnocêntrica, reproduzida nas gerações futuras através de narrativas e monumentos, é incomensurável e acima de qualquer dor que outro grupo étnico possa ter sofrido, e justifica qualquer ação que sirva para protegê-los de uma nova tragédia. Certa vez, ouvi de um sobrevivente de campo de concentração que não há comparação entre o genocídio judaico e os genocídios praticados atualmente nos países africanos, por exemplo, em Ruanda, onde tutsis e hutus se digladiaram sob as vistas grossas das ex-potências coloniais. Como este senhor ousa qualificar o sofrimento alheio? Será pelo número mágico? Seis milhões? O genial Woody Allen coloca bem a questão, num diálogo de Desconstruindo Harry (tradução livre):
- Você se importa com o Holocausto ou acha que ele não existiu?
- Não, só eu sei que perdemos seis milhões, mas o mais apavorante é saber que recordes são feitos para serem quebrados.
O holocausto judaico não é inexplicável, e não é explicável pela maldade latente dos alemães. Sem dúvida, o componente antissemita estava presente, mas, conforme demonstrado por diversos pensadores contemporâneos, dentre os quais insuspeitos judeus (seriam judeus antissemitas Hannah Arendt, Raul Hilberg e Zygmunt Bauman?), uma série de características do massacre está relacionada à Modernidade, à burocratização do Estado e à “industrialização da morte”, sofrida também por dirigentes políticos, doentes mentais, ciganos, eslavos, “subversivos” de um modo geral. Práticas sociais genocidas, conforme descritas pelo sociólogo argentino Daniel Feierstein (outro judeu antissemita?), estão presentes tanto na Segunda Guerra Mundial quanto durante o Processo de Reorganização Nacional imposto pela ditadura argentina a partir de 1976. Genocídio é genocídio, e ponto final.
A sacralização do genocídio judaico permite ações que vemos atualmente na televisão, o esmagamento da população palestina em Gaza, transformada em campo de concentração, isolada do resto do mundo. Destruição da infraestrutura, de milhares de casas, a morte de centenas de civis, famílias destroçadas, crianças torturadas em interrogatórios ilegais conforme descrito por advogados israelenses. Não, não são a exceção, não são o efeito colateral de uma guerra suja. São vítimas, sim, de práticas sociais genocidas, que visam, no final do processo, ao aniquilamento físico do grupo.
Recuso-me a acumpliciar-me com esta agressão. O exército israelense não me representa, o governo ultranacionalista não me representa. Os assentados ilegalmente são meus inimigos.
        Eu, judeu brasileiro, digo: ACABEM COM A OCUPAÇÃO!!!
(1) Marcelo Gruman é antropólogo.
Referências bibliográficas:
CLIFFORD, James. (1997). Diasporas, in Montserrat Guibernau and John Rex (Eds.) The Ethnicity Reader: Nationalism, Multiculturalism and Migration, Polity Press, Oxford.
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Fonte:  http://sanaud-voltaremos.blogspot.fr/2014/08/nao-em-meu-nome-por-marcelo-gruman.html

Edir Macedo e o Templo de Salomão

 Thales Guaracy*
 Não se pode subestimar as pessoas que seguem a Universal, que têm o direito de escolher, apoiar, pagar e professar a fé que quiserem, por mais descabida que possa parecer. E assim Edir vai conseguindo edificar o seu império, do qual o Tempo de Salomão, construção de proporções bíblicas numa das zonas mais abandonadas do centro de São Paulo, é apenas o mais novo, extravagante e significativo símbolo.

Eu sou um dos pouquíssimos jornalistas que já tiveram a oportunidade de entrevistar e conhecer pessoalmente o bispo Edir Macedo. Fui recebido por ele quando trabalhava no grupo Exame, anos atrás. Ele havia acabado de comprar a TV Record e, depois de muita insistência, concordou que eu escrevesse um perfil falando dele, de sua igreja e da maneira como a organizava.

Edir chamava a atenção já no aperto de mão. Vítima de uma má-formação, ele possui em ambas as mãos o polegar diminuto e a pele escamosa; a sensação foi de que eu apertava uma rã. Parece apenas um detalhe bizarro, mas a deformidade de Edir tem um papel fundamental em sua história pessoal. Ele se culpava, ou a genes ruins, por ter tido uma filha com lábio leporino. Buscara ajuda na igreja católica, mas não encontrava consolo. Nas reuniões às quais ia, percebeu que mais ajudava as outras pessoas do que era ajudado. E resolver fundar sua própria igreja, primeiro subindo nas favelas do Rio de Janeiro, depois pregando no seu primeiro centro de culto, uma loja aonde antes funcionava uma funerária.

A igreja criada por Edir é um reflexo dele mesmo, uma panaceia que junta retalhos de outras fés. Embora sua base seja o Evangelho e a figura de Jesus, como a maioria das seitas pentecostais, Edir misturou outros elementos, da encenação do candomblé, com o exorcismo de pessoas supostamente tomadas pelo demônio, às raízes judaicas do Velho Testamento. Lá está o templo de Salomão, conhecido como o “rei da sabedoria”, na verdade uma figura controvertida na própria visão bíblica. No Livro de Salomão, a sabedoria terrena na verdade é vista criticamente, como a “vaidade das vaidades”, em oposição à simplicidade da fé.

Sem importar-se em ser um teólogo capaz de fazer sentido, Edir é na realidade um motivador de pessoas – aí reside seu talento. Essa virtude lhe permitiu não só conquistar acólitos como também ser um extraordinário formador de quadros capazes de ampliar seu raio de ação. É impressionante sua capacidade de produzir “bispos” e pastores fiéis ao seu discurso, gestual e ideias. Graças ao seu trabalho de RH, Edir fez a Universal prosperar rapidamente no Brasil e mundo afora.

É também um pastor com tino de empresário. Para mim, reclamou que a igreja era vista pela imprensa ingenuamente como uma exploradora do povo mais pobre. Para começar, dizia que não era o miserável que sustentava a Universal. Na verdade ele enxergara um mercado: o trabalhador que tinha emprego e renda, mas nenhuma perspectiva de subir na vida, por falta de oportunidade. Seu discurso sempre foi de que esse trabalhador pode conseguir mais, se tiver fé; ele tem dinheiro para pagar o dízimo, e a fé que o inspira é uma “fé de resultados” capaz de levá-lo a uma vida melhor.

A ideia de que ganhamos um lugar no Paraíso além da vida, pregada pela Igreja Católica, nunca foi suficiente para Edir. Ele sempre acreditou que a igreja tem de dar respostas para o ser humano ainda em vida. Sua igreja é pragmática e não há dúvida de que ajuda muita gente. Edir é polêmico porque é impossível medir a relação entre o benefício que sua igreja traz aos seus acólitos e o quanto do dinheiro arrecadado vai em benefício pessoal de seus bispos e pastores. Edir não vê nisso conflito de interesses, porque nunca pregou o discurso da vida ascética nem defendeu qualquer espécie de voto de pobreza.

Edir já foi preso por falsa ideologia, mas não apenas foi solto como o juiz que mandou prendê-lo (por sinal com um nome bíblico, Abrão), acabou sendo afastado para um forum na periferia de São Paulo - foi para a geladeira. O que era uma suposta defesa do público empreendida pelo justiceiro togado acabou virando, aos olhos do Judiciário, uma inútil perseguição. Não se pode subestimar as pessoas que seguem a Universal, que têm o direito de escolher, apoiar, pagar e professar a fé que quiserem, por mais descabida que possa parecer. E assim Edir vai conseguindo edificar o seu império, do qual o Tempo de Salomão, construção de proporções bíblicas numa das zonas mais abandonadas do centro de São Paulo, é apenas o mais novo, extravagante e significativo símbolo.
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* Jornalista
Fonte:  http://thalesguaracy.blogspot.com.br/

sábado, 2 de agosto de 2014

“O oposto da depressão não é felicidade, mas vitalidade”

COM LIVROS PREMIADOS e traduzidos para mais de 20 idiomas, o escritor americano Andrew Solomon, 50 anos, colabora com diferentes jornais e cruza o mundo falando em conferências na última sexta-feira, no Brasil, participou de um debate durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Quem observa a movimentada agenda do escritor mal consegue imaginar que Solomon já sofreu crises de depressão tão profundas que o deixaram à beira do imobilismo. O livro O Demônio do Meio-Dia (2001), em que analisa a depressão a partir da própria experiência com a doença, foi escolhido um dos cem melhores da década pelo jornal britânico The Times. Na infância, Solomon contou com o apoio dos pais para superar sua dislexia. Mais tarde, teve dificuldade para ser aceito por eles quando revelou sua homossexualidade. Essas situações inspiraram o livro Longe da Árvore (2012), resultado de mais de 10 anos de pesquisa sobre crianças, adolescentes e adultos à margem dos padrões sociais e biológicos considerados “normais”, aceitos (ou não) por suas famílias. Nesta entrevista, o autor fala sobre depressão, autoaceitação e os avanços dos movimentos pelos direitos dos homossexuais.

Em O Demônio do Meio-Dia, o senhor narra um colapso causado pela depressão, que durante algum tempo o impediu de realizar atividades básicas como tomar banho, por exemplo. De que modo conseguiu superar esse quadro?

Minha depressão respondeu a um tratamento que combinou medicação e psicoterapia. Imagino que precisarei manter essa combinação pelo resto da minha vida. Às vezes, isso não parece um problema; em outras, sinto como algo muito inconveniente e irritante.

O que recomendaria para quem está passando pela mesma situação?

Realmente acredito que as pessoas devem procurar o que funciona para elas. Já encontrei gente que teve boas respostas com recursos que soam ridículos sob o ponto de vista científico, mas que efetivamente fizeram com que elas se sentissem melhor. Então, não se pode dizer que é algo ridículo, uma vez que ajudou alguém. O único perigo disso é que, enquanto alguém se dedica a um tratamento sem eficácia comprovada, está atrasando o início de algo que já tem um histórico de comprovação e, neste intervalo de tempo, o quadro pode se agravar. Meu tratamento é baseado nas tecnologias modernas – e sou muito grato por viver em um tempo em que tudo isso está disponível.

Hoje se fala muito mais de depressão do que se falava antigamente. Isso se deve a um maior conhecimento sobre o tema ou ao fato de que houve uma banalização do termo?

Acho que sabemos muito mais sobre depressão e, por isto, podemos fazer mais por quem está sofrendo da doença. Há cem anos, quem se sentia depressivo não falava muito sobre isso, até porque não havia muito a fazer a respeito. Agora, há muitas intervenções possíveis: remédios, psicoterapia, eletrochoques para quem necessita... O fato de as pessoas estarem falando mais e terem a mente mais aberta sobre o assunto é sempre algo bom.

Pode estar havendo alguma dificuldade de lidar com dores que fazem parte da vida e que acabam sendo confundidas com depressão?

Acredito que é uma pobreza de nossas línguas usar a palavra “depressão” para descrever sentimentos de tristeza e também uma condição clínica. A experiência que uma criança tem quando seu jogo de futebol é cancelado, por exemplo, é bem diferente da experiência de alguém que comete suicídio. O fato de usarmos a mesma palavra para ambas as situações gera confusão. Pessoas que já tiveram a experiência de ter um dia muito ruim às vezes acreditam saber o que é uma depressão. Ressalto que o oposto de depressão não é felicidade, mas vitalidade. Depressão não é tristeza, é a falta de energia para fazer qualquer coisa com a sua vida. Não há como comprovar isso, mas suspeito que exista uma taxa maior de depressão atualmente do que se costumava ter. E há muitas razões para isso: estamos interagindo mais com computadores do que com pessoas, o ritmo de vida é rápido demais, nós temos várias possibilidades de comunicação, mas não usamos porque ficamos vendo TV... Há mais fatores estressantes na vida moderna que podem ajudar a desencadear depressões.

Muitos consideram a depressão um fenômeno moderno ocidental.

Esse é um mito que tenho interesse em destruir. Comecei pesquisando conceitos históricos de depressão. Hipócrates, há 2,5 mil anos, descrevia a depressão nos mesmos termos com que a descrevemos hoje. Além disso, dizia que era uma disfunção orgânica do cérebro, melhor disparada por fatores externos. Já Platão afirmava que era um problema filosófico, melhor resolvido por meio de conversas. Então, a distinção entre os modelos médicos e psicodinâmicos da depressão já existe há cerca de 25 séculos. Com intuito de observar melhor se era um fenômeno ocidental, me aventurei a estar em uma grande variedade de sociedades. Observei a depressão entre os sobreviventes do Khmer Vermelho do Camboja, entre esquimós inuítes, e fui até o Senegal, onde participei de sessões do tratamento ritual da doença, bastante populares lá. Constatei que a linguagem usada para descrever a depressão varia um pouco, mas a ideia de que algumas pessoas às vezes se sentiam inexplicavelmente divorciadas de todas as oportunidades e de tudo o que dava sentido para suas vidas existia em qualquer sociedade que pude encontrar.

Ainda há quem afirme que é um problema de classe média.

Também busquei observar essa ideia de que a depressão só ocorre quando você é desocupado o suficiente para ter tempo para ela, por isso, seria de algum modo uma experiência das classes mais abastadas. No entanto, descobri que quando você tem uma vida que, em termos materiais, poderia ser maravilhosa, mas se sente triste o tempo todo, você procura um médico, já que isso não faz sentido. Mas, se você é pobre e sua vida é difícil, quando se sente triste pensa: “É claro que me sinto triste, minha vida é horrível”. E então não busca tratamento. Na realidade, quando você entrevista muitas pessoas que estão vivendo depressão, percebe que frequentemente elas não estão deprimidas porque têm vidas horríveis e pobres, e sim têm vidas horríveis e pobres porque a depressão as paralisa e não permite que façam o que deveriam para melhorar.

No livro Longe da Árvore, publicado ano passado no Brasil, o senhor aborda o crescimento de filhos com identidades diversas das de seus pais e a forma como são aceitos ou não. Transgêneros, autistas, surdos e esquizofrênicos são alguns exemplos. Hoje, os pais estão mais bem preparados para lidar com filhos que não correspondem às suas expectativas?

Acho que jamais alguém está preparado para ter filhos muito diferentes de si. É chocante para todas as famílias em que isso ocorre. Não acredito que as pessoas estejam mais bem preparadas, e sim que, na era da internet, há mais possibilidades de encontrar comunidades com pessoas que também precisam lidar com as mesmas situações. Além de adquirirem conhecimento nesses espaços, compreendem a ideia de que a vida com uma criança que é diferente, algo que parece incrivelmente difícil, é sim possível, já que há muitos outros pais conseguindo lidar com esta situação. Tudo isso colabora para que os pais aceitem com mais facilidade crianças diferentes da expectativa da maior parte das pessoas. No entanto, “mais fácil” não quer dizer “fácil”. É apenas um pouco menos difícil.

Onde o senhor acha que as pessoas enfrentam mais preconceito, dentro ou fora de casa?

Acredito que há três níveis de aceitação a serem desenvolvidos: autoaceitação, aceitação familiar e aceitação social – esta última inclui escola e trabalho. Cada um deles influencia os outros. É claro que já ouvi histórias de gente bem compreendida em casa, mas que sofre preconceito imenso no trabalho, e também o contrário. Mas não diria que um dos níveis é mais importante do que os outros. O que acredito é que alguém com autoaceitação tem uma influência, ainda que limitada, em ser aceito por sua família e pelo mundo. Quem é aceito pela família tende a ser mais bem aceito no trabalho, porque sua atitude é diferente, e assim por diante. Do mesmo modo, pessoas que cresceram sendo rejeitadas pela família tendem a sofrer mais rejeições no trabalho, porque isso passa a ser uma constante para elas, a ponto de não saberem muito bem como construir suas vidas sem esse sentimento.

Como estimular a autoaceitação de uma criança e não fazê-la se sentir sozinha em suas diferenças?

Não penso em termos de uma criança se sentir sozinha, mas em um importante equilíbrio que muitas vezes é delicado. Uma criança com diferenças deve ser inserida no mundo real, educada em salas de aulas e exposta a pessoas e colegas que não compartilham suas mesmas diferenças, já que esse é o mundo em que viverá. Mas essa criança também deveria ocupar algum tempo em salas de aula e outros contextos junto a pessoas com sua mesma condição, onde poderá entender melhor o que é esta experiência, ter ideia dos desafios que terá de enfrentar. Acredito que os dois ambientes são necessários.

A homossexualidade era considerada uma doença há algumas décadas. Hoje, a união homoafetiva é uma realidade. Como militante dos direitos dos homossexuais, como explica esses progressos?

Isso pode parecer repentino, mas é o resultado de muitas décadas de ativismo e pode ser atribuído consideravelmente aos movimentos por direitos civis anteriores, como o movimento pelo direito das mulheres ao voto e os movimentos pelos direitos das minorias raciais. Acredito que o movimento gay se inspirou nesses dois, e todos têm em mente uma sensibilidade pós-colonial: um grupo de pessoas não deveria ser autorizado a controlar outro grupo de pessoas. Também acho importante dizer que o casamento gay é maravilhoso, tenho um casamento gay e estou muito contente por isto. Mas é preciso avançar em outras questões. Nos EUA e em outros países, em diferentes proporções, pessoas continuam sendo demitidas por serem gays, ou sendo maltratadas por serem gays, ou tendo o direito de habitação negado por serem gays... Há até mesmo países em que pessoas são executadas por serem gays. São todas formas de preconceito.

Os setores políticos que se posicionaram contra a união homoafetiva, tanto no Brasil quanto nos EUA, têm forte ligação com as religiões cristãs. Por outro lado, o cristianismo promove a ideia de amor e tolerância. Como o senhor vê o papel das religiões no combate aos preconceitos?

Acredito que se relacionar com as religiões é realmente importante, pois os direitos pelos quais batalhamos não virão até que elas deixem de se opor. Minha experiência trabalhando nesse mundo é que os maiores atos de generosidade, compreensão e gentileza para os gays devem muito à influência das instituições religiosas. E os grandes atos de preconceito, crueldade e depressão vieram, da mesma forma, de instituições religiosas ou foram feitos em nome da religião. Pertenço a uma igreja de Nova York bastante aberta e respeitosa, e o que admiro do cristianismo vem de seu primeiro mandamento (amar o seu inimigo) e da crença no juízo de Deus – e não presunção de que podemos julgar uns aos outros. As passagens que são usadas o tempo todo para atacar os gays são relativamente insignificantes na Bíblia, que é repleta de muitas outras instruções. A base lógica dos religiosos antigays é muito débil, e o modo como eles a mantêm é profundamente não cristão. Acredito que foi em um contexto como esse que Gandhi disse “Amo seu Cristo, mas não seus cristãos, porque são tão diferentes d’Ele”. Acredito que a homofobia nas religiões organizadas é um dos grandes venenos da vida moderna.

E como vê a atuação do papa Francisco em relação aos gays?

O novo papa tem uma enorme humildade e consegue se engajar com as pessoas. Sobre os gays, em particular, ele disse em entrevista algo como “Se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para julgá-la?”, o que é bastante diferente das frases dos dois papas anteriores sobre o tema. Fico animado, pois isso demonstra que ele é mais aberto e tolerante à causa. Acredito que não exista apenas um modo de ser uma boa pessoa e um bom cristão.

No Brasil, já há alguns anos, tenta-se aprovar uma lei contra a homofobia. O que acha de uma lei como essa?

Acho que há áreas em que as leis são relevantes: por exemplo, uma lei que impeça que se demitam pessoas por serem gays ou uma lei que afirme ser crime de ódio bater em alguém por ser homossexual. O que não faria sentido é uma lei que obrigasse pessoas que não gostam de gays a passarem a gostar. Isso não se transforma com uma lei, mas com educação. Mas, quando você tem um mecanismo legal que indica que gays precisam ser tratados com igual dignidade, esse é um modo muito forte de comunicar que gays são iguais a qualquer outro ser humano, e isto afeta o modo como a população encara esse grupo. É um círculo: melhores leis ajudam a criar melhores atitudes, e com melhores atitudes é mais fácil criar melhores leis.
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Reportagem por  ALEXANDRE LUCCHESE
Fonte: ZH online, 02/08/2014

Primeira Guerra alterou formas de prantear os mortos, afirma historiador

 
Especialista norte-americano Jay Winter descreve como a Primeira Guerra modificou a envergadura dos conflitos, ao adotar armas de destruição em massa. E a aniquliação dos restos mortais deu origem a uma crise cultural.

por DW

A Batalha de Verdun, o Holocausto e o 11 de Setembro têm em comum o fato que, de suas vítimas, acabaram ficando somente os nomes, já que essas catástrofes praticamente não deixaram restos mortais, afirma o historiador norte-americano Jay M. Winter

Isso modificou as formas de luto praticadas nas sociedades ocidentais há séculos, exigindo novas formas de lidar com os mortos. “Os nomes significam tudo. Nós os encontramos em todo lugar do mundo. Eles representam um caminho para levar os mortos para casa, num sentido metafórico.” A Primeira Guerra Mundial democratizou a morte, acredita o historiador.

Deutsche Welle:O senhor é autor de obras importantes sobre a Primeira Guerra Mundial e foi curador de uma exposição a respeito, intitulada Missing sons(Filhos desaparecidos), na Bundeskunsthalle de Bonn. Em imagens, o senhor explica a forma duradoura como esse conflito alterou as formas de prantear os mortos. Seu ponto de partida é a tese que a Primeira Guerra Mundial significou uma revolução na conduta bélica. Quais seriam as razões para tal?
Jay M. Winter:A Primeira Guerra Mundial é o que os historiadores chamam de uma “guerra total”, ou seja, uma guerra industrializada entre as potências industriais. A produção do aparato de guerra podia ser multiplicada segundo a demanda, quer se tratasse de armas ou dos projéteis lançados contra os partidos em conflito.

Se 10 milhões de pessoas morreram na Primeira Guerra, foi devido à enorme quantidade de material transformado em armas, artilharia, gases tóxicos, etc. Nunca tantos haviam morrido numa guerra, até então. Esse é o ponto em que a guerra se transforma em algo pior, mais monstruoso do tudo o que jamais se viu.

Em decorrência das novas formas de combate e do poder de fogo avassalador da artilharia, os restos mortais dos soldados foram aniquilados. Que consequência isso teve?
O número das vítimas foi altíssimo. Somente nos primeiros quatro meses do conflito, 1 milhão de pessoas morreram, sobretudo no front ocidental, mas também no oriental. Era impossível enterrar esses homens em cemitérios, nos quais mais tarde se pudesse encontrá-los e identificá-los. Os fronts se modificavam no decorrer dos choque, os cemitérios se tornavam alvos de guerra, as covas simplesmente desapareceram.

A ideia de prantear um morto sem ter um lugar aonde se pudesse ir, sem um corpo para se velar, precipitou os parentes das vítimas numa crise. Nunca houvera algo assim, antes. O único paralelo que se pode traçar na história, é com a Guerra Civil Americana, na qual morreram 800 mil pessoas. Mas na Primeira Guerra Mundial morreram 10 milhões. Além do volume das mortes em si, houve o bombardeio dos cemitérios pelo fogo de artilharia. Por fim, não havia os restos mortais de nem a metade das vítimas. Elas desapareceram, literalmente.

Ou seja, a Primeira Guerra Mundial não revolucionou somente a conduta bélica, mas também a cultura do luto?
Acima de tudo, a guerra democratizou a morte. O ano de 1914 marcou o início das mortes em massa. Não são mais exércitos profissionais que se combatiam, mas sim hordas gigantescas. Mas a grande dificuldade era o fato de que não havia lugar para o luto. Como prantear os mortos, quando não há restos mortais ou quando o morto jaz atrás das linhas inimigas?

Os rituais de luto praticados há séculos não eram mais cabíveis. Em busca de novas respostas, alguns se voltaram para práticas bem pouco usuais, como o espiritismo, em que se tentava escutar vozes os mensagens do além, nas sessões espíritas. Todos esses são sinais de uma crise cultural.

No Holocausto da Segunda Guerra, na Guerra do Vietnã ou nos atentados de 11 de setembro de 2001, os mortos também desapareceram. Trata-se de uma continuidade, que liga a Primeira Guerra aos nossos dias?
Acredito que o que liga a Primeira Guerra Mundial ao presente é o culto aos nomes. Os nomes significam tudo. Nós os encontramos nos memoriais, nas igrejas, na Alemanha, em todo lugar do mundo. Eles representam um caminho para levar os mortos para casa, num sentido metafórico.

Na Alemanha, a Primeira Guerra caiu no esquecimento, de certa forma, obliterada pela Segunda Guerra e o Holocausto. Como explica isso?
A gama da memória da Segunda Guerra Mundial é avassaladora. Eu próprio venho de uma família de vítimas do Holocausto. Como não estou realmente em condições de escrever sobre a Segunda Guerra, dedico minha vida à pesquisa sobre a Primeira, para escapar do horror que destruiu a minha família.
É disseminada a ideia que a Segunda Guerra Mundial foi tão terrível que ofuscou a visão dos acontecimentos que vieram antes e, de certa forma, também depois. Acho que devemos considerar essas coisas separadamente, que 1914 foi uma espécie de Urkatastrophe, de “catástrofe primordial”, o começo de um século que traria coisas ainda piores.

O senhor concorda com a tese de que a Primeira Guerra Mundial marca a ruptura da Europa, e que hoje nós testemunhamos a reunificação do continente?
Na Primeira Guerra Mundial, foi destruída a primeira fase da globalização. Agora vivenciamos uma segunda fase da globalização. A unificação europeia mostra hoje, de certa forma, o que teria acontecido se a Primeira Guerra não tivesse ocorrido. Mas aí vieram o ano 1914, a crise econômica mundial, os nazistas. Precisamos de todo um século para chegar de novo onde já estávamos em 1914.
A crença nos valores militares, a crença de que Forças Armadas poderiam modificar o mundo num sentido positivo, levaram a tanto sofrimento, a tamanha perda de vidas. O “experimento Europa” tem por base a ideia de que, até onde se pode prever, os Estados-membros nunca empregarão violência uns contra os outros. Em minha opinião, isso significa que os meus netos viverão num mundo melhor.
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Fonte: http://hannaharendt.wordpress.com/2014/08/02/primeira-guerra-alterou-formas-de-prantear-os-mortos-afirma-historiador/
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