quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"Não esperava ver uma mudança radical na Igreja"

 

O teólogo Hans Küng, "reformista crítico", celebra o papado de Francisco, critica a canonização de João Paulo II e fala de Céu, Inferno, eutanásia, amor carnal...

Hans küng lutou durante toda a sua vida pelas reformas hoje avaliadas pelo Vaticano. Nesta entrevista, o teólogo suíço fala sobre as probabilidades de o papa Francisco revolucionar a Igreja, por que João Paulo II não deveria ser canonizado e o que ele espera aprender no Céu.

Küng tem sido uma voz a favor da reforma da Igreja Católica há décadas: da infalibilidade papal ao celibato dos padres e à eutanásia. Sua atuação custou-lhe a licença para ensinar teologia católica e levou muitos a considerá-lo um herege. Aos 85 anos, afetado por mal de Parkinson e outras doenças, o suíço vê a Igreja sob Francisco contemplar várias das ideias defendidas por ele faz muito tempo.

Markus Grill: Professor Küng, o senhor irá para o Céu?
Hans Küng: Certamente, espero que sim.

MG: Alguns diriam que o senhor irá para o Inferno, por ser um herege aos olhos da Igreja.
HK: Não sou um herege, mas um teólogo reformista crítico. Diferentemente de muitos de meus detratores, uso como parâmetro o Evangelho, em vez da teologia medieval, a liturgia e a lei da Igreja.

MG: O Inferno existe?
HK: A referência ao Inferno é uma advertência ao fato de um ser humano poder negligenciar completamente seu propósito na vida. Não acredito em um Inferno eterno.

MG: Se o Inferno significa perder seu propósito na vida, deve ser uma noção muito secular.
HK: Os indivíduos criam seu próprio inferno, em guerras, assim como no capitalismo desenfreado.

MG: Em seu ensaio “Fragmento sobre o tema da religião”, Thomas Mann admitiu pensar na morte quase todos os dias. E o senhor?
HK: Na verdade, sempre pensei que morreria jovem, pois acreditava que, diante da minha vida louca, não chegaria aos 50 anos. Hoje estou surpreso por ter 85 e continuar vivo.

MG: O senhor é um homem idoso e doente. Tem perda auditiva aguda, osteoartrite e degeneração macular, que destruirá sua capacidade de ler.
HK: Essa seria a pior coisa, não ser mais capaz de ler.

MG: O senhor foi diagnosticado com doença de Parkinson.
HK: Entretanto, ainda trabalho muito duro todos os dias. Mas interpreto todas essas coisas como sinais de advertência sobre minha morte iminente. Minha caligrafia tem ficado pequena e muitas vezes ilegível, quase como se estivesse prestes a desaparecer. Meus dedos falham. É um fato que minha condição geral deteriorou. Mas eu também combato isso. Nado 15 minutos todos os dias onde moro e faço exercícios de fisioterapia, assim como exercícios para a voz e para os dedos, e me dedico a novas tarefas. Além disso, tomo vários remédios por dia.

MG: O senhor escreveu mais de 60 livros e sempre foi um homem muito produtivo, que gostava de entrar em discussões. Em suas memórias, o senhor avalia se em breve não será nada além de uma sombra de si mesmo.
HK: É claro, os diagnósticos e prognósticos dos médicos são imprecisos. Minha visão, por exemplo, deteriora-se mais lentamente do que o previsto. Dois anos atrás, meu médico disse que eu só conseguiria ler por mais dois anos. E hoje ainda consigo ler. Mas vivo em aviso prévio, e estou preparado para me despedir a qualquer momento.

MG: Seu amigo, o escritor e intelectual Walter Jens, caiu em um estado de demência que rapidamente se deteriorou nove anos atrás. Ele morreu faz pouco tempo.
HK: Eu o visitei várias vezes, inclusive pouco antes de sua morte. Até alguns anos atrás, seu rosto ainda se iluminava quando eu o visitava. Mas nos últimos anos ele não se lembrava mais se tinha me visto na véspera ou um mês antes. No final, não me reconhecia mais. Foi deprimente pensar que Jens, um dos intelectuais mais importantes do pós-Guerra, havia recuado para uma espécie de infância.

MG: A demência também foi dura para Jens, ou apenas para seus parentes e amigos?
HK: No início de sua doença, quando você perguntava como se sentia, ele quase sempre dizia “péssimo” ou “mal”. Ao mesmo tempo, ele passou a apreciar pequenas coisas, como crianças, animais e doces. Eu costumava levar-lhe chocolates. No início ele comia sozinho, mas depois eu tinha de colocá-los em sua boca. Não podemos saber o que Jens experimentou no final. Mas não se pode esperar que eu aceite estar em uma condição semelhante.

MG: Em 1995, o senhor e Jens coescreveram o livro Dying With Dignity (Morrendo com Dignidade). Como cristão, o senhor pode pôr fim à sua própria vida?
HK: Sinto que a vida é um dom de Deus. Mas Deus me tornou responsável por esse dom. O mesmo se aplica à última fase da vida, a morte. O Deus da Bíblia é um Deus de compaixão, e não um déspota cruel que quer ver os seres humanos passarem o maior tempo possível em um inferno de sua própria dor. Em outras palavras, o suicídio assistido pode ser a forma definitiva de ajuda na vida.

MG: A Igreja Católica considera a eutanásia um pecado, uma infração à soberania do criador.
HK: Não apreciei quando o porta-voz do bispo de Rotemburgo declarou que o que eu havia escrito representava os ensinamentos de Küng, e não os ensinamentos da Igreja. Uma hierarquia eclesiástica que errou tanto sobre o controle de natalidade, a pílula e a inseminação artificial não deveria cometer os mesmos erros agora sobre questões relativas ao fim da vida. Nossa situação mudou fundamentalmente no século XXI. A expectativa média de vida cem anos atrás era de 45 anos, e a maioria morria cedo. Hoje tenho 85, mas é uma extensão artificial da minha vida, graças às dez pílulas que tomo diariamente, e graças aos progressos na higiene e na medicina.

MG: O senhor tem medo de uma doença prolongada?
HK: Escrevi instruções cuidadosamente formuladas e recentemente entrei para uma organização de suicídio assistido. Isso não significa que desejo cometer suicídio. Mas, caso minha doença piore, quero ter uma garantia de que posso morrer de maneira digna. Em nenhum lugar a Bíblia diz que um ser humano tem de se manter até o fim ordenado. Ninguém nos diz o que “ordenado” significa.

MG: O senhor tem de ir para outro país para ter acesso ao suicídio assistido.
HK: Sou um cidadão suíço.

MG: Como funciona exatamente? O senhor telefona e diz: estou indo?
HK: Ainda não tenho um mapa do caminho. Mas escrevi minha própria liturgia da morte no último volume de minhas memórias.

MG: Um padre não poderá lhe administrar os últimos ritos.
HK: Terei comigo um amigo que é padre, um de meus alunos.

MG: Em Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, o protagonista se mata por amor. O livro termina com a sentença: “Nenhum padre esteve presente”. Essa é a posição da Igreja.
HK: Eu sempre objetei a que minha posição sobre a morte fosse considerada um protesto contra a autoridade da Igreja. Não quero fornecer regras gerais, e só posso decidir por mim mesmo. Seria ridículo encenar a própria morte como um protesto contra a autoridade da Igreja. O que eu quero, entretanto, é que a questão seja discutida de maneira aberta e amigável.

MG: Mas que ser humano com uma doença incurável desejará impor uma carga a seus parentes quando o suicídio assistido se tornar socialmente aceito?
HK: Existe, é claro, o risco que você descreve. Mas hoje o suicídio assistido ocorre em uma zona cinzenta, pois é proibido. Muitos médicos aumentam a dose de morfina quando chega a hora, e ao fazê-lo correm o risco de ser condenados por um crime. Alguns pacientes, quando não conseguem encontrar esses médicos, saltam da janela do hospital. Isso é intolerável. Não podemos deixar essa questão à discrição de cada médico. Precisamos de um regulamento legal, em parte para proteger os médicos.

MG: Não nos agarramos demais à vida no final, de modo que perdemos o momento certo?
HK: Isso é possível, é claro.

MG: O senhor se agarra à vida?
HK: Eu não me agarro à vida terrena, porque acredito na vida eterna. Essa é a grande distinção entre meu ponto de vista e uma posição puramente secular.

MG: O senhor escreve em suas memórias: “Meu coração dói quando penso em todas as coisas que terei de abandonar”.
HK: É verdade. Não me despeço da vida por ser um misantropo ou por desprezá-la, mas porque, por outros motivos, está na hora de seguir em frente. Estou firmemente convencido de que existe vida após a morte, não em um sentido primitivo, mas como a entrada de minha natureza completamente finita no infinito de Deus, como uma transição para outra realidade além da dimensão do espaço e do tempo que a pura razão não pode afirmar nem negar. É uma questão de razoável confiança. Não tenho evidência matemática e científica disso, mas tenho bons motivos para confiar na mensagem da Bíblia, e acredito em ser recebido por um Deus misericordioso.

MG: O senhor tem um conceito de céu?
HK: A maioria das maneiras de falar sobre o céu são imagens puras que não podem ser tomadas literalmente. Estamos muito distantes das noções de céu no período anterior a Copérnico. No céu, espero, porém, conhecer as respostas para os grandes mistérios do mundo, para perguntas como: Por que uma coisa é uma coisa e não nada? De onde vêm o big-bang e as constantes físicas? Em outras palavras,  há perguntas que nem a astrofísica nem a filosofia responderam. De qualquer modo, falo sobre um estado de paz eterna e felicidade eterna.

MG: Hoje a física pode explicar o cosmo escuro, com seus bilhões de estrelas, muito melhor do que no passado. Isso abalou a sua fé?
HK: Quando consideramos como o universo é enorme e escuro, certamente não facilita as coisas para a fé. Quando Beethoven compôs a Nona Sinfonia, ainda podia esperar que “acima da abóbada de estrelas vivesse um pai amoroso”. Nós, entretanto, temos de aceitar que sabemos pouco. Noventa e cinco por cento do universo é desconhecido para nós, e nada sabemos sobre os 27% de matéria escura ou 68% de energia escura. A física se aproxima cada vez mais da origem, no entanto não consegue explicar a origem em si.

MG: O que acontece atualmente no Vaticano é aquilo pelo qual o senhor passou a vida a lutar: uma liberalização e reforma da Igreja. Isso acontece no momento em que o senhor envelhece e se torna frágil. É uma ironia da história?
HK: A ironia aplica-se mais a meu ex-colega Joseph Ratzinger do que a mim. Eu não esperava ver uma mudança radical na Igreja Católica durante minha vida. Sempre acreditei, e passei a aceitar, que Küng partiria e Ratzinger ficaria. Por isso fiquei tão surpreso ao ver Bento XVI sair e o papa Francisco assumir o cargo em 19 de março de 2013, meu aniversário e dia onomástico de Ratzinger.

MG: Como foi possível que um colégio de cardeais formado por homens conservadores e de modo geral retrógrados elegesse um revolucionário para papa?
HK: Em primeiro lugar, eles nem sabiam o quanto ele é revolucionário. Mas, fora o núcleo duro da Cúria, muitos cardeais sabiam que a Igreja está em uma crise profunda, simbolizada pela corrupção no Vaticano, o encobrimento de casos de abuso e o escândalo do VatiLeaks. Os cardeais muitas vezes foram confrontados com duras críticas de suas congregações nativas.

MG: Um indivíduo pode revolucionar uma instituição como a Igreja Católica?
HK: Sim, se ela receber bons conselhos como papa e tiver uma equipe capaz. Do ponto de vista jurídico, o papa tem mais poder que o presidente dos Estados Unidos.

MG: Mas só dentro da igreja, porque suas decisões não são submetidas à aprovação de um órgão legislativo.
HK: Também não há Suprema Corte. Se quisesse, o papa poderia abolir imediatamente a lei do celibato adotada no século XII.

MG: A Primavera Árabe poderia ser seguida por uma Primavera Católica?
HK: Já está aqui, mas existe o mesmo risco de reveses e movimentos contrários, como houve na Primavera Árabe. Existem grupos poderosos no Vaticano e na Igreja em todo o mundo que gostariam de reverter o tempo. Eles estão preocupados com seus privilégios.

MG: O senhor se incomoda por não poder mais se envolver nesses debates?
HK: Aceito isso calmamente. Para mim é mais importante o papa ler o que eu lhe envio do que me convidar para ir a Roma.

MG: Recentemente, ele lhe escreveu e disse ter gostado de ler os dois livros que o senhor lhe enviou, e que permanece “à sua disposição”.
HK: Recebi recentemente duas cartas manuscritas e muito amigáveis dele. O endereço do remetente nos envelopes dizia apenas “F., Domus Sanctae Marthae, Vaticano”, e ele assinou as cartas “com saudações fraternas”. Até isso é um novo estilo. Em 27 anos, João Paulo II não me considerou digno de uma única resposta.

MG: Com quem Francisco pode ser comparado?
HK: Provavelmente, com João XXIII, mas ele não tem uma de suas fraquezas. João XXIII fez reformas apressadas e sem uma agenda. Ele cometeu sérios erros administrativos.

MG: A questão é se Francisco impressiona apenas com gestos, ou há mais por trás disso.
HK: Os trajes mais simples, as mudanças no protocolo e o tom de voz completamente diferente não são coisas superficiais. Ele introduziu uma mudança de paradigmas. Com esse papa, ressurgiu o caráter de serviço do cargo papal. Ele quer que os padres saiam das igrejas e encontrem os fiéis. Recentemente, enviou aos bispos uma pesquisa para obter as opiniões dos laicos sobre assuntos familiares. Sua primeira viagem o levou aos refugiados em Lampedusa. Tudo isso é um distanciamento da maneira como Bento XVI interpretava o cargo. O apelo por uma Igreja pobre leva a uma maneira de pensar diferente. Com Bento, o extravagante bispo de Limburg provavelmente ainda estaria no cargo.

MG: Mas Francisco confirmou o arcebispo linha-dura Gerhard Ludwig Müller como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o vigilante do Vaticano e policial em questões da doutrina aceita.
HK: Poderia imaginar que Bento fizesse uma forte campanha para manter Müller no cargo. Mas o teste definitivo será se o novo papa continuará a permitir que ele interprete o supervisor da fé e o grande inquisidor.

MG: E a canonização de João Paulo II, que reforçou grupos controversos como o Opus Dei e a Legião de Cristo?
HK: Não posso entender a canonização. Trata-se do papa mais contraditório do século XX. Ele venerava a Virgem Maria, mas negava às mulheres cargos na Igreja. Ele pregava contra a pobreza em massa, no entanto proibia a contracepção. Discuti extensamente 11 dessas enormes contradições no último volume de minhas memórias. Suas palavras divergiam constantemente de seus atos. Ele considerava o padre Marcial Maciel, um dos piores molestadores de meninos e fundador da Legião de Cristo, seu amigo e o defendeu contra todas as críticas.

MG: O senhor perdoa Francisco por essa canonização?
HK: Bento XVI acelerou a canonização de Wojtyla e ignorou todos os períodos de espera requeridos. Deter o processo agora não apenas seria uma afronta a Bento, mas a muitos poloneses. Posso entender que Francisco não queira fazer isso. Ao menos o papa reformista João XXIII também foi canonizado. Devemos pensar se as canonizações, uma invenção medieval, ainda têm sentido hoje.

MG: Há alguma coisa em sua vida que gostaria de desfazer?
HK: Fui muito polêmico às vezes, e gostaria de não ter dito certas coisas. Minha experiência mais drástica foi, porém, a revogação da licença para ensinar como teólogo católico, em 1979. Foi devastador para mim, emocional e fisicamente. Houve um dia em que eu estava deitado neste sofá amarelo e não conseguia ir à reunião de professores marcada para discutir meu caso.

MG: O senhor espera ser reabilitado em vida?
HK: Não. A Conferência Episcopal Alemã poderia iniciar o processo e Roma só teria de concordar. Mas não prevejo ou espero isso. O papa Francisco não deveria pôr em risco outras tarefas importantes ao me reabilitar e aproximar-se demais de mim.

MG: O senhor foi acusado de vaidade durante toda a sua vida. Existe até um capítulo inteiro sobre isso em suas memórias.
HK: Provavelmente, não sou mais vaidoso que a média.

MG: Parte do motivo de sua licenciatura ter sido revogada deveu-se ao fato de o senhor pôr em dúvida a necessidade de celibato dos padres. O senhor acredita que as regras poderão ser modificadas com Francisco?
HK: Não posso realmente imaginar que essa questão continue a ser adiada. A cada dia há menos sacerdotes paroquiais. Não sei como a Igreja poderá oferecer atendimento pastoral na próxima geração. A questão é relevante há algum tempo e os fiéis apoiam amplamente essa reforma.

MG: O senhor vive em celibato?
HK: Não sou casado e não tenho esposa nem filhos.

MG: Há uma mulher em suas memórias a quem o senhor se refere como “minha companheira ideal na vida”.
HK: Sim, no sentido de uma companheira de viagem ideal. Temos propriedades separadas, vivemos em andares separados e temos apartamentos separados. Eu descrevo tudo isso em minhas memórias e o confirmo. Não tenho mais nada a dizer a respeito.
--------------------
registrado em:
Fonte:  http://www.cartacapital.com.br/revista/813/nao-esperava-ver-uma-mudanca-radical-na-igreja-3871.html
Reportagem por Markus Grill — publicado 03/09/2014 05:08

Eleição

Roberto DaMatta*

 No fundo, todo radical quer o retorno da imobilidade aristocrática, escondida nas nomenclaturas

Sou fascinado pelo “período eleitoral”. Mudar é complicado em qualquer lugar, mas é um drama nas sociedades que combinaram escravidão africana com uma aristocracia branca eurocentrada e católica no campo da política e dos hábitos sociais. No Brasil, a hierarquia das boas maneiras impediu o civismo e derivou num esquerdismo salvacionista, curiosamente cristão.

Esse cenário talvez explique a ideia de que a política é o lugar do vale-tudo — exceto perder ou “cair”. Como se o poder fosse uma montanha onde sobem os eleitos, quando o que precisamos é de um estado a serviço da sociedade. É poder demandar mais responsabilidade e transparência do que arrogância e a familiar má-fé, cuja santidade não conhece erros.

Como instituir uma sociedade igualitária tendo como ponto de partida o legado desumano de uma escravidão abençoada? Dessa matriz vem a confusão entre o ator-candidato e o cargo público. A confusão entre pessoa e papel é o mecanismo fundamental tanto da dominação patrimonialista-familística (a lei é relativa aos amigos) quando da carismática (X ou Y é santo e talhado para o cargo), dificultando a dominação burocrática (a regra da lei para todos) porque, sem regras fixas, as instituições não funcionam e estados-nacionais não conseguem prover educação, saúde e segurança aos seus cidadãos.

Não é apenas uma questão de programa, mas de como administrar. De como passar de “governo” (que pode esbanjar e roubar) a gerenciamento público (que tem o dever de ser eficiente). Mas sem honrar as demandas éticas dos cargos públicos que não pertencem nem ao ator nem ao seu partido, jamais iremos controlar os aparelhamentos e as impunidades com as quais estamos entalados.
O jogo entre pessoas e papéis é a base da eleição como o ritual político mais importante nas democracias liberais e competitivas — esses sistemas abertos até mesmo a candidatos cuja proposta é liquidá-los. No fundo, todo radical quer o retorno da imobilidade aristocrática, escondida nas nomenclaturas. Esse é o paradoxo político do radicalismo moderno. Ele inventou a liberdade individual que empreende, mas rejeita a sua criatividade sem controle. E odeia discipliná-la por meio de consenso.

Prefere a velha imobilidade social do nascer e morrer no mesmo segmento social. Essa norma tradicional que a eleição transforma por meio do voto, o qual cola candidatos a cargos públicos. A eleição “legitima” e “oficializa” os candidatos, mas isso é feito no ritual do voto. O humilde voto que ajusta a realidade limitada e transitória do ator às responsabilidades ideais e permanentes do papel.
Quando os eleitos tornam-se donos de cargos públicos, acontece o apadrinhamento, a negação do mérito e a corrupção — essas perversões da democracia. O papel canibalizado pelo ator ou pelo partido leva ao fim das instituições e das normas burocráticas que deveriam ser — como viu Weber com exagero prussiano — autônomas e invariantes, mas que podem mudar por consenso democrático.

Uma instância trágica da apropriação do papel pela pessoa foi o caso do nacional-socialismo alemão. No Brasil, isso se exprime no ditado popular “Quem foi rei nunca perde a majestade!” e tem ocorrido no chamado lulopetismo. O termo traduz um improvável casamento teórico de carisma e personalismo com burocratismo impessoal e ideologia. Mas, como as sociedades não estudam sociologia, a conjunção funcionou e, hoje, ela parece retornar com grande apelo. Afinal, como disse Albert Hirschman, a nossa América Latina tem um enorme e descuidado amor pelas experiências políticas.

Termino essa análise estrutural da conjuntura, com um lembrete sobre o momento eleitoral. Marina Silva representa a proposta de juntar carisma com ideologia na base de acertos pessoais afiançados por uma tragédia ao lado de uma biografia impecável. Seu programa financeiro é muito próximo ao de Aécio Neves. A diferença é que Aécio não tem a aura de santidade e carrega os compromissos institucionais do PSDB: a obrigação de governar administrando. Não se pode esquecer que foi essa atitude que deu ao Brasil o respeito e a estabilidade monetária. Estabilidade que, no plano do cidadão comum, permitiu enxergar o futuro, distinguir limites e compreender o quanto o governo rouba e desperdiça.

No seu lado direito, Aécio Neves tem a figura da presidente. Nela há um poderoso enraizamento ideológico atrelado, contudo, a uma figura sem uma gota sequer de carisma ou até mesmo de simpatia. Ademais, o Brasil de Dilma, a gerentona inventada por Lula, mostra que suas fórmulas trazem anticrescimento e um fisiologismo estrutural cujo resultado é uma série de escândalos. Voto no Aécio. Mas estou convencido que ele tem que relativizar a crítica programática para entrar no terreno de uma entrega mais clara ao eleitor. A receita soluciona, o servir exige a ênfase na administração pública com e para o público. A ser realizada com rotineira serenidade e sem o risco das acrobacias carismáticas.
--------------------
*Roberto DaMatta é antropólogo
Fonte: Jornal o Globo online, 03/09/2014

A fantasia do horário eleitoral

 Ives Gandra da Silva Martins*
 
 O eleitor avaliava os candidatos por aquilo que eram, 
sem a intervenção de marqueteiros

Em 1962, presidi o diretório metropolitano do Partido Libertador tendo, com o apoio da direção nacional (deputado Raul Pilla e senador Mem de Sá), vencido as eleições para dirigi-lo em São Paulo. Apenas deixei a política definitivamente em 1965, quando da edição do Ato Institucional nº 2, que extinguiu os partidos existentes, criando dois conglomerados (Arena e MDB).

Naquele ano, foi instituído o horário gratuito. O primeiro programa abriu a discussão quanto a devermos ou não continuar com o parlamentarismo de ocasião, então vigente, ou voltar ao presidencialismo. Participei desses programas criticando o presidencialismo –o PL era o único partido favorável ao regime parlamentar–, mas tecendo críticas também ao desfigurado sistema parlamentar brasileiro. Aconselhei o eleitor a não dizer naquele plebiscito nem sim nem não, mas “talvez”.

No ano seguinte, apresentei 60 candidatos a vereador, depois de ter criado uma comissão com professores universitários para aferir os predicados culturais e o conhecimento de política nacional do candidato, além de, mediante pesquisas paralelas, sua idoneidade.

Como à época os candidatos exibiam-se ao vivo durante as programações, os do PL foram aqueles que tiveram maior participação, pois mais habilitados a expor suas ideias, segundo o programa elaborado pelo partido. Abreu Sodré até chegou a brincar comigo, afirmando que eu queria fazer do PL uma academia, e não um partido político.

De último colocado nas eleições anteriores, conseguimos formar a terceira bancada, perdendo apenas para o PSP, de Adhemar de Barros, e para a UDN, do próprio Sodré.

É que o eleitor avaliava os candidatos por aquilo que eram, sem a intervenção de marqueteiros. Cheguei a presidir um colégio de presidentes dos diretórios metropolitanos dos diversos partidos, na luta contra as emissoras de TV, para garantir a exibição de nossos programas em horários nobres, tendo recebido o apoio do presidente do Tribunal Regional Eleitoral, desembargador Euler Bueno.

Os programas se justificavam, então. Hoje, não. Os horários gratuitos transformaram-se numa indústria de marqueteiros, em que o que de menos verdadeiro existe é a imagem que criam de seus candidatos, todos eles predestinados, por sua “honestidade, competência, descortínio, cultura e inteligência”, a se transformar, se eleitos, em grandes figuras da história do país.

A cinematografia dos programas gratuitos é de tal ordem, que qualquer candidato ganha perfil de herói dos personagens de filmes hollywoodianos, que nada têm a ver com os artistas que os encenam. Assim são apresentados os candidatos produzidos por tais manipuladores da opinião pública, com o objetivo de conquistar o eleitor, pouco importando se aquele retrato é verdadeiro ou não, pois o que interessa é passar a “boa imagem” de seu contratado ao cidadão desprevenido, para que ganhe a eleição.

Por esse motivo, defendo que tais horários –que interferem na decisão de considerável parte dos eleitores– voltem a ter a característica de seus primeiros tempos, quando os candidatos apresentavam-se ao vivo e se mostravam como eram, sem a participação dos manipuladores de imagens eleitoreiras.

À evidência, não sou contra o trabalho de tais especialistas, desde que atuem na produção de novelas ou filmes ou em qualquer outra atividade que gere distração ao público. Mas, decididamente, não aprovo que utilizem sua técnica para influenciar o eleitor, criando fotografias “alcandoradas” de candidatos a fim de transformar a realidade numa triste fantasia. Esse procedimento deságua na eleição de pessoas que, no exercício do poder, têm provocado decepção e desesperança no espírito do eleitor brasileiro, que não confia nos políticos eleitos.

É matéria a ser meditada, principalmente pela Justiça Eleitoral.
--------------------
* Prestigiado jurista brasileiro, Ives Gandra da Silva Martins é advogado tributarista, professor emérito da Universidade Mackenzie e professor honoris causa do Centro Universitário FIEO. É membro da Academia Paulista de Letras e da Ordem dos Advogados, secção de São Paulo. Em 2005, protagonizou um documentário dirigido por José Sales Neto. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e fez doutorado também em direito pela Universidade Mackenzie.
Fonte: Folha de S.Paulo, 02/09/2014.
Instituto Millenium
Imagem da Internet

Indisciplina nas escolas: os sete pecados mortais

Gabriel Mithá Ribeiro*
 
Em sociedades escolarizadas, as salas de aula constituem núcleos-chave de regulação da vida social quotidiana, infelizmente tomadas de assalto há décadas 
por diletantismos irresponsáveis.

O tempo transformou a indisciplina no mais grave obstáculo à qualidade do ensino. O fenómeno é alimentado por sete pecados mortais ou, noutra terminologia, sete falácias capitais.

Primeira falácia: “Os professores não têm autoridade”. Apoiado no ensaio de Miguel Morgado, “Autoridade” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010), sublinho que a forte tendência para a ineficácia disciplinar nas salas de aula não tem tanto a ver com a autoridade dos professores. Esta funda-se no conhecimento, atributo raramente central em episódios de indisciplina. No âmago desta está um outro núcleo-chave: o do poder dos professores. Esse poder resulta dos instrumentos de que a autoridade legítima deve dispor para se tornar direta, simples, imediata, pragmática, efetiva. O valor da palavra é o instrumento que confere, por excelência, conteúdo concreto ao poder hierárquico dos professores sobre os alunos sem o qual deixa de fazer sentido o dever moral, deontológico e cívico de regular atitudes e comportamentos. Quer dizer que a autoridade (que os professores possuem) e o poder (que não lhes é reconhecido) não são confundíveis. Para se enfrentar o fenómeno da indisciplina, o foco tem de se deslocar da questão inócua da autoridade para a questão substantiva do poder dos professores nas salas de aula.

Segunda falácia: “A indisciplina é intersubjetiva”. É fortíssima a tentação de conceber a indisciplina como um fenómeno que se joga nas idiossincrasias de cada contexto, caso a caso entre um dado docente e os respetivos alunos. Contudo, as evidências há décadas que demonstram que o fenómeno é sistémico, não confundível com um agregado de ocorrências pontuais.

Terceira falácia: “A indisciplina nas escolas é própria das sociedades atuais”. Gente douta e gente comum fingem acreditar que o sentido da vida coletiva é imposto por um destino inelutável. A verdade é que nenhuma sociedade é abúlica. As características dominantes dos sistemas que as regulam, entre eles o ensino, resultam de escolhas coletivas entre inúmeras possibilidades que uns poucos influentes fazem num dado sentido e não noutros, e os demais toleram. Tais escolhas têm implicações diretas nas relações de poder dentro de uma sala de aula e foi por elas que, nas últimas décadas, foi pesando bem mais o prato da balança do lado dos alunos-crianças-adolescentes-jovens e bem menos o prato da balança do lado dos professores-adultos, transformação coincidente no tempo com o agravamento da indisciplina. Como também não existem perversões nas hierarquias institucionais caídas dos céus, sobretudo quando elas nem sempre foram relevantes num sistema que atravessa gerações, o que vimos assistindo nas salas de aula tem, por isso, propósitos e agentes responsáveis. É por essas razões que o essencial na minimização da indisciplina não se joga na intimidade da sala de aula, antes entre quem as tutela no quotidiano, os professores de facto, e quem de fora das escolas tutela o sistema de ensino nas decisivas dimensões política, legislativa, académica, administrativa e quem influencia a opinião pública. Nesta ampla configuração de poderes e vontades, aos professores de sala de aula sobra o papel de elo mais fraco na longa cadeia tutelar.

Quarta falácia: “Os professores têm poder excessivo”. A relação dos professores com o poder obedece a lógicas inversas às da indisciplina. Quanto mais distantes da sala de aula, tanto maior o poder dos professores até ao topo da elite sindical. Contudo, a falácia não se desfaz se nos limitarmos ao universo dos professores. O que está em causa são disputas pelo controlo da capacidade de influência sobre crianças, adolescentes e jovens de hoje, adultos de amanhã. Tal capital social sempre foi extremamente valioso. Foi esse poder que os partidos políticos e respetivas derivas sindicais, os académicos cientistas da educação, os autodenominados representantes dos pais, os notáveis do regime, entre outros, uns por ação e outros por omissão, há décadas retiraram ou toleraram que se retirasse aos docentes do ensino básico e secundário a pretexto da invasão democratizante das salas de aula, movimento que redundou num estulto igualitarismo institucional gerador de indisciplina.

Quinta falácia: “A escola perdeu importância social”. A massificação efetiva do acesso ao ensino e o alargamento do tempo médio de permanência no sistema (entra-se mais cedo e sai-se mais tarde) resultaram na perda da influência de outras instituições que permitem aos adultos tutelar os mais novos: famílias, igrejas, comunidades de residência, organizações cívicas, partidos políticos, serviço militar, entre outros. Tal reconfiguração foi transformando as salas de aula em espaços cada vez mais na mira das mais agressivas leis do mercado do poder. Qualquer um, indivíduo ou instituição, passou a julgar-se no direito de sobre elas opinar ou nelas intervir, pressão social que coloca constantemente em causa a autonomia das escolas, fragilizando a sua dignidade e identidade institucional. É sintomático que quanto mais o futuro das sociedades foi ficando umbilicalmente dependente do trabalho de todos os dias nas salas de aula, tanto mais se foi propalando a tese de que as escolas perdiam influência social e tudo se tem feito para tornar esse desejo em evidência, ainda que colida com a realidade factual. A tese perdura porque legitima a conversão do ensino num peão de disputas pelo poder.

Sexta falácia: “Crianças, adolescentes e jovens são responsáveis pela erosão do poder dos professores”. Confunde-se a consequência com a causa. Quando as pressões dos adultos de fora para dentro das salas de aula mudarem de sentido, as atitudes e comportamentos dos estudantes também mudarão. Em democracias e sociedades civilizadas, o respeito pelos poderes legitimamente instituídos constitui um dever moral e cívico alimentado nas interações quotidianas. Quanto mais predominante for essa atitude, tanto maiores as possibilidades de redistribuição efetiva do inescapável poder social de uns sobre outros quase sempre hiperconcentrado nos “grandes”. A valorização da atitude referida reforça as predisposições sociais para que se confira forte legitimidade aos “pequenos” poderes, fundada na autonomia e autoridade profissional dos seus agentes. O contrário é um vazio social de poder que desemboca invariavelmente em maus resultados. Nas nossas sociedades, professores de sala de aula e polícias de rua são fundamentais na regulação da vida quotidiana. As utopias revolucionárias em voga – variante das mais incisivas da anacrónica pedofilia na luta pelo poder político, cujo papel se foi tornando tanto mais saliente no ensino quanto mais perderam espaço noutros domínios da vida social – fomentam o oposto da democratização da presença e respeito por figuras de poder em contextos institucionais e sociais onde a função e prestígio dos “pequenos” poderes se revelam cruciais. Fragilidades a este nível tornam as sociedades bem menos competentes na garantia da dignidade, segurança, promoção social e sentido de responsabilidade cívica dos indivíduos, em particular dos mais vulneráveis.

Sétima falácia: “Os estatutos do aluno servem para combater a indisciplina”. Para simular um pretenso combate continuado à indisciplina gerou-se uma interminável paz podre sustentada na credulidade na via escrita e burocrática enquanto estratégia de regulação de atitudes e comportamentos em sala de aula, no caso português convertida na relevância política, social e institucional atribuída aos estatutos do aluno. Os estatutos do aluno desceram à terra para ratificar em forma de lei escrita a negação do poder da palavra aos professores. Tais documentos legais nunca foram parte da solução, antes peça central na perpetuação da indisciplina. A minimização efetiva do fenómeno não necessita de se escudar em estatutos do aluno, regulamentos internos das escolas ou burocracias adjacentes. Necessita acima de tudo de se focar num pressuposto bem mais decisivo: renovar o contrato social profundamente desgastado entre as sociedades e as escolas. Sociedades que sobrevalorizam estatutos do aluno porque não confiam diretamente nos seus professores na sala de aula têm o que merecem. Professores que não pugnam por exames nacionais e por um sistema de classificação de resultados escolares simples, estável e transversal do primeiro ciclo do básico ao ensino superior para que as suas lógicas e consequências sejam de fácil e transparente interpretação pelo senso comum, não percebem o quanto eles mesmos têm colocado em causa referentes fundadores da confiança que as sociedades depositam nos seus profissionais de ensino.

Em sociedades escolarizadas, as salas de aula constituem núcleos-chave de regulação da vida social quotidiana, infelizmente tomadas de assalto há décadas por diletantismos irresponsáveis.
----------------
* Professor. Doutoramento em Estudos Africanos Interdisciplinares em Ciências Sociais, em 2009 - ISCTE-IUL, Lisboa
Mestrado em Estudos Africanos, em 2000 - ISCTE, Lisboa
Licenciatura em História, em 1990 - Universidade de Lisboa
Fonte:  http://observador.pt/
Imagem da Internet

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Leonardo Boff: ‘Francisco se despoja dos títulos de poder’

[ENTREVISTA]
Leonardo Boff é um reconhecido ex-sacerdote brasileiro, um dos principais expoentes da Teologia da Libertação. Em seus 75 anos, ademais, é escritor e filósofo. Nesta entrevista fala do "perdão” institucional disposto pelo Papa Francisco, que permitirá que o sacerdote nicaraguense Miguel D´Escoto, vinculado ao sandinismo, possa reincorporar-se à Igreja, após ser punido durante o papado de João Paulo II.
 
Boff também não tem dúvidas na hora de qualificar o papado de Francisco, pelo qual mostra uma admiração em torno do seu discurso e ação, e de seu compromisso com os mais humildes.

O que o senhor pensa sobre a medida de Francisco, que permite ao padre D´Escoto voltar à igreja?
O perdão a D´Escoto é um ato de justiça, sem dúvidas. Foi sempre fiel a Roma, respeitou todos os papas. Na Nicarágua, ele não buscou o poder, mas o serviço ao povo: depois da revolução sandinista, eram necessários quadros, dirigentes, para formar o governo nascente. Foi dessa forma que ele se converteu em chanceler. Desse processo participou muita gente da igreja - também jesuítas, franciscanos -, que aceitou ajudar de outra maneira, em algo nascente. O Vaticano, naquele momento comandado por Jão Paulo II, não compreendeu isso. Não entendeu que, na América Latina, o perigo não era o marxismo, mas as ditaduras militares.

Qual é sua relação atual com D´Escoto?
Pessoalmente, conheço Miguel muito bem : somos velhos amigos. Fui seu assessor quando ele foi presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, durante o período 2008-2009, quando escrevi alguns de seus discursos. Atualmente, de tempos em tempos, viajo a Manágua para me reunir com ele e com Daniel Ortega.

Como você acredita que ele recebeu essa notícia?
Seu maior desejo era voltar a celebrar a Eucaristia. É uma pessoa profundamente espiritual e sofreu muito com essa suspensão. Imagino a enorme alegria que ele deve estar vivendo.

O senhor crê que esse "perdão” de Francisco destaca-se em um contexto mais geral de seu papado?
Sem dúvidas. Um exemplo: Francisco recebeu em audiência privada o fundador da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez, em setembro de 2013. Ademais, sua formação se destaca em uma espécie de "teologia do povo”, guiado por seu professor, Juan Carlos Scanonne: por ele, sempre viveu com pouco, frequentou bairros humildes, e não lutou por políticas assistenciais, mas por justiça social.

Nos discursos e gestos de Francisco, nós, que viemos da Teologia da Libertação, nos sentimos identificados. Por exemplo, com sua ideia de "uma Igreja pobre para os pobres”. Seu discurso, na Ilha de Lampedusa, junto aos imigrantes africanos, onde denunciou a "globalização da indiferença”, está totalmente em linha com a Teologia da Libertação.

Creio que não é casual que tenha escolhido esse nome, recordando São Francisco de Assis: ele se despoja de todos os títulos de poder e se sente um homem entre os homens.

O senhor se reunirá com ele no futuro? ¿Tem contato frequente?
Manifestou-me o desejo de um encontro. Pediu-me textos sobre ecologia, e uma proposta - que elaborei junto com D´Escoto e o sacerdote belga Francois Houtart - de "Declaração Universal do Bem Comum da Terra e da Humanidade”, ante a ONU. Enviei-a através do embaixador argentino no Vaticano, Juan Pablo Cafiero. Espero que possamos nos reunir logo.
--------
Reportagem  Por Juan Manuel Karg / @jmkarg
Politólogo UBA / Analista Internacional
Fonte: Adital

Fingir que está tudo bem

José Luis Peixoto*
 

Fingir que está tudo bem: 
o corpo rasgado 
e vestido com roupa passada a ferro, 
rastos de chamas dentro do corpo, 
gritos desesperados sob as conversas: 
fingir que está tudo bem: 
olhas-me e só tu sabes: 
na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: 
as pessoas não imaginam: 
são tão ridículas as pessoas, 
tão desprezíveis: 
as pessoas falam e não imaginam: 
nós olhamo-nos: 
fingir que está tudo bem: 
o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, 
tempestades de medo nos lábios a sorrir: 
será que vou morrer?, 
pergunto dentro de mim: será que vou morrer? 
olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, 
fogo, 
silêncio 
e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: 
fingir que está tudo bem: 
ter de sorrir: 
um oceano que nos queima, 
um incêndio que nos afoga. 
---------------
 * Nasceu a 04 Setembro 1974 (Ponte de Sor, Portugal) é um narrador, poeta e dramaturgo português.
Fonte:  http://www.escritas.org/pt/poema/3253/fingir-que-esta-tudo-bem
Imagem da Internet

O retrato cubista de Marina Silva

A percepção de um rosto no coração da gente.

Muitos já notaram o quanto Marina Silva se tornou uma pessoa feia em menos de 30 dias. No seu natural, ela nunca foi bonita. Mas havia nela uma face que, sem ser um feitiço para os olhos, despertava em todos nós um afeto, uma admiração, uma, já disse o bloco de carnaval do Rio de Janeiro, uma simpatia que era quase amor. Agora, não. Aquela voz que jamais anunciaria voo de avião no aeroporto, desagradável, áspera, aguda, agora vem trêmula, vacilante, mecânica, que lembra mais um discurso de robô em peito de lata.

E aqui eu faço uma breve suspensão para o cubismo. Com absoluta certeza, muitos já viram quadros de Picasso, em especial o “Retrato de Dora Maar”. Ou melhor, para maior choque, o quadro “Dora Maar com gato”. Para a nossa vista acostumada a volumes, ou à ilusão de volume que tem um desenho em perspectiva, o quadro é um horror. É um quadro cubista. Isso quer dizer: no cubismo, os objetos e pessoas representadas quebram-se em muitas faces, decompõem-se. O artista procura a visão total da figura, examinando-a em todos os ângulos ao mesmo tempo. E devido à fragmentação excessiva dos objetos, torna-se quase impossível a identificação da figura original. A pintura apresenta duas, três ou mais caras juntas em um mesmo rosto.

Pois assim tem sido Marina Silva. No último debate dos candidatos na Band, as suas muitas faces em um só plano eram quebradas, fragmentadas, expostas, mas reunidas todas em um só rosto. Mas sem harmonia para os olhos, aqui substituídos pelo que conhecemos dela. Por exemplo, ao ser questionada sobre as idas e vindas em São Paulo, sobre a sua candidatura estar ao lado de Alckmin e ao mesmo tempo não estar, ela afirmou: “Eu me sinto inteiramente coerente”. Aí vêm as coerências de um rosto cubista, porque assim falou Marina Silva: “Quando eu disse que não ia subir nos palanques que havia antes acordado com o nosso saudoso Eduardo Campos…” Notem o saudoso de passagem, mas saudade aí tem um conteúdo bem diferente do sentir falta.

Mas continuemos a reproduzir a fala da Marina saudosa, no sentido de quem tem uma alegre saudade: “Quando eu digo que quero governar com os melhores do PT, do PSDB e do PMDB…” Notem que ela substitui uma harmonia de ideias e valores partidários por uma seleção de melhores. Ótimo, para os ingênuos. Mas sob qual critério, os melhores serão eleitos por Marina, ela própria, que se acha a melhor dos melhores? E continua a rara orquídea decomposta em faces de um cubo: Ela criará o “Estado Mobilizador”, mas que diabo será isso? Uma injeção para uma corrida de 100 metros rasos? Não, é o Estado que nem é mínimo nem é provedor – e provedor vocês sabem o que é: é o Estado do Minha Casa, Minha Vida, por exemplo. Já o Estado Mobilizador é aquele capaz de mobilizar a iniciativa privada, empreendedorismo social, no atendimento das necessidades da população… Pelamordedeus: onde já se viu a iniciativa privada atender às necessidades da população? O valor do empresário, daqueles mais empreendedores, é o lucro. Ponto.

Mas continuemos em outras faces e fases de Marina que ela justapõe no mesmo rosto. No debate da Band ela cravou:

“Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de que temos de combater as elites. O Guilherme, da Natura, faz parte da elite, mas os ianomâmis também. A Neca é parte da elite, mas o Chico Mendes também é parte da elite. Essa visão tacanha de ter de combater a elite deve ser combatida”.

Meus amigos, essa eu vi e ouvi. Isso valeria para um atestado de óbito de um ex-militante socialista. Mas em Marina é apenas mais uma absurda face. A Neca, no caso, é acionista e herdeira do Banco Itaú, que para Marina é apenas uma educadora social. O Guilherme é um chapa, um cara legal, desinteressado, que joga dinheiro fora por nada, só por amor ao retrato de Dora Maar. E Chico Mendes, bem, é aquele cara que foi morto na luta na floresta. Mas todos estão juntos e na elite, lado ao lado dos ianomâmis. Não é piada, é um escárnio, que já vem pronto.

“O senhor Leal, da Natura, deve bilhões ao fisco”, respondeu Fidelix, outro candidato. E mais: “A gente sabe também que o banco Itaú não quer pagar R$ 18 bilhões pela compra do Itaú-Unibanco. E a senhora está com essas pessoas”. A isso Marina respondeu que os empresários que respondam, porque ela mesma está acima de coisas tão mesquinhas. Mas continuemos.

Em outra face do seu retrato cubista, Marina hoje se declara contra a esquerda, ao mesmo tempo que se filia à luta da militância no Acre, quando lhe é conveniente. E critica, e chama de “velha esquerda”, a que se acha dona da verdade, que acha que vai começar tudo do zero. Na educação, sobre o ensino do criacionismo em escolas, Marina defendeu uma educação “plural”: “Se você coloca claramente para as pessoas que existe uma outra visão, a do evolucionismo, não vejo nenhum demérito nisso”, Mas o evolucionismo não é uma outra visão, para ser posta ao lado da criação do mundo por Deus. É a diferença entre ciência e crença medieval.

Disse antes que nos últimos tempos Marina se transformou num retrato cubista e cometi um pecado. Em Picasso, cubismo é arte. Ele está há séculos e anos-luz de distância das muitas faces de Marina Silva, em um só plano. E o plano dela é o que reúne todas as suas faces: chegar à presidência da República. Nesse novo retrato dos últimos tempos, Marina é a encarnação de um amontoado de faces. Da falsa viúva à madona falsa, mas sempre de cabelos presos e com bastante pudor. Daqueles retratos que a direita brasileira adora.

***
“O ódio à democracia é tão velho quanto a democracia: a própria palavra é a expressão de um ódio.”

Para aprofundar a reflexão sobre democracia, política, república e representação, entre o conceito e a dura realidade vivida, recomendamos a leitura de O ódio à democracia, de Jacques Rancière. Com orelha de Jenato Janine Ribeiro, o livro chega às livrarias este fim de semana, às vésperas das eleições brasileiras!
-----------------
É natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.
Fonte:  http://blogdaboitempo.com.br/02/09/2014

Žižek e o Estado laico

Por Slavoj Žižek.*
14.09.01_Zizek Estado laico 
Em meio a um cenário marcado por discussões acaloradas sobre a laicidade do Estado num Brasil em pleno debate eleitoral – um dos países mais religiosos do mundo, mas também um dos que mais sofre com violência contra a mulher, minorias LGBT e negros (algo que se evidencia inclusive, como vimos muito recentemente, nos rituais coletivos nacionais mais populares como o futebol) – Slavoj Žižek, que acaba de publicar no Brasil Violência, seis reflexões laterais (Boitempo, 2014), reflete sobre os impasses da sociabilidade contemporânea entre a ideologia do multiculturalismo e o fundamentalismo arraigado. Comentando o recente escândalo de Rotheram, junto com outros casos no mundo inteiro de violência contra a mulher, o filósofo esloveno, chama atenção para o fato de que “em todos esses casos a violência não é uma explosão espontânea de energia brutal que rompe as amarras dos costumes civilizados, mas algo aprendido, imposto externamente, ritualizado, parte da substância coletiva de uma comunidade”. Confira:

*  *  *

No debate sobre Leitkultur (cultura dominante) da década passada, os conservadores insistiam que todo Estado é baseado em um espaço cultural predominante que os membros de outras culturas que vivem no mesmo espaço devem respeitar. Ao invés de lamentar a emergência de um novo racismo anunciado em tais declarações, devemos voltar um olhar crítico sobre nós mesmos e nos perguntar até que ponto nosso próprio multiculturalismo abstrato contribuiu para este triste estado de coisas. Se todos os lados não compartilharem ou respeitarem a mesma civilidade, então o multiculturalismo se torna uma forma de legalidade regulada por ignorância mútua ou ódio.

O conflito sobre multiculturalismo já é um conflito sobre Leitkultur: não é um conflito entre culturas, e sim um conflito entre diferentes visões de como culturas diferentes podem e devem coexistir, sobre as regras e práticas que essas culturas tem de compartilhar se quiserem co-existir. Devemos portanto evitar a armadilha da pergunta liberal “com quanta tolerância podemos arcar para com o outro?”. Nesse nível, é claro, nunca somos tolerantes o suficiente, ou então já estamos sendo tolerantes demais… A única forma de romper com esse impasse é propor e lutar por um projeto universal positivo compartilhado por todos os participantes.

É por isso que a tarefa crucial daqueles que hoje lutam pela emancipação é de ir além do mero respeito por outros, em direção a uma Leitkultur emancipatória positiva que, somente ela, poderá sustentar uma coexistência e mistura autêntica de culturas diferentes.

Nosso axioma deve ser que a luta contra o neocolonialismo ocidental, bem como a luta contra o fundamentalismo, a luta do WikiLeaks e de Snowden bem como a do PussyRiot, a luta contra o antissemitismo bem como a contra o sionismo agressivo, são partes de uma mesma luta universal. Se fizermos qualquer concessão aqui, estaremos perdidos em ajustes pragmáticos, e nossa vida não vale ser vivida.
-------------------------
* Trecho do artigo “Rotherham child sex abuse: it is our duty to ask difficult questions“, publicado originalmente no The Guardian em 1° de setembro de 2014.
A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

Sobre macacos e pássaros


A "torcedora" racista!
 A “torcedora” racista!

Hoje, pela manhã, eu e meu filho de cinco anos assistíamos ao noticiário na televisão. Na tela, aparece uma imagem em câmera lenta, permitindo aos espectadores decifrar o que uma torcedora da equipe Grêmio gritava em direção a um jogador da equipe do Santos. Meu filho perguntou o porquê da torcedora estar falando “devagar”, do que se tratava aquilo.

Por volta dos 43 minutos do segundo tempo, o jogo havia sido paralisado quando jogadores do Santos avisaram ao árbitro da partida, disputada em Porto Alegre, que o goleiro da equipe estava sendo vítima de racismo. Imagens da televisão flagraram uma torcedora (?) gritando a palavra “macaco”. Entrevistado, o goleiro Aranha afirmou que ouviu gritos de “negro fedido”, “seu preto” e “cambada de preto” e, após, um grupo de torcedores gremistas começou “a fazer barulho de macaco”. Inacreditavelmente, o juiz da partida mandou o jogo seguir.

Achei importante desenvolver o tema com meu filho. Expliquei que a torcedora (?) estava chamando um jogador adversário de “macaco” porque este jogador adversário tinha a pele escura, como os macacos, e que a intenção da torcedora (?) era dizer que o goleiro não era humano, e sim animal. E ser animal, neste caso, era pior do que ser humano. Disse a ele que isso é uma bobagem, que o jogador de pele escura não era pior do que ser humano coisíssima nenhuma, que a diferença na cor da pele não diz nada sobre a pessoa, se é legal ou chata (claro, tive que usar uma linguagem apropriada para uma criança de cinco anos).

Meu filho arremata meu argumento com o seguinte raciocínio: “ah, é que nem a gente que tem pele branca, que não é igual a um pássaro branquinho, não é?”. Vejam que a distinção que ele fez foi entre duas espécies da mesma cor, e não espécies de cor diferente. Ou seja, ele não diferenciou brancos e negros, e sim brancos humanos e brancos não humanos. Para ele, brancos e negros são gente, pássaros e macacos são animais.

O pequeno diálogo é a prova de que o racismo é aprendido, que o ódio não corre pelas veias, mas transmitido através da (des)educação, da desinformação e da desonestidade intelectual. Afinal, estudos recentes já demonstraram que, biologicamente, indivíduos com tons de pele muito distintas podem compartilhar mais de seu código genético do que indivíduos com tons de pele semelhantes ou “iguais” (como medir, não é mesmo?).

Meu filho tem consciência da diferença da cor da pele que existe entre ele e seus colegas. Ele diz que a dele é “branca”, e a de um colega é “marrom”. Até aí, nada de mais, é apenas uma diferença que ele percebe objetivamente. A questão surge quando esta diferença objetiva adquire um significado, passa a representar algo que vai além da simples pigmentação; passa a simbolizar, por exemplo, de um lado, maior capacidade intelectual e, do outro, a estupidez próxima ao animalesco.

O mesmo acontece com os “olhos diferentes” que ele identifica nos imigrantes e descendentes de asiáticos (outra categoria construída que não dá conta das distinções entre povos e culturas daquele continente), apenas para chamar a minha atenção de uma conversa que ele teve no parquinho perto de casa, quando se aproximou dele e de um amigo um adulto de “olhos diferentes” e seu filho. São diferentes, não inferiores. Quem sabe compartilham gostos em comum? Ele vai descobrir aos poucos.
Meu filho provou como a educação, desde cedo, é importante para a construção de um mundo melhor, onde o respeito à diferença é um valor absoluto e a convivência é estimulada.

Ganhei meu dia.
-------------------
* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo PPGAS/MN/UFRJ, Antropólogo e Especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura.
Fonte: http://espacoacademico.wordpress.com/2014/08/30/sobre-macacos-e-passaros/

Caminhos de Pesquisa em Ciências Sociais II – Sobre o significado da “fala de si”!

Ozaí da Silva* 
 
Clipboard
 “O que eu sou é o que me faz viver” 
(Shakespeare, Henrique III)

“Da História das Tendências à Pedagogia Libertária: uma trajetória em curso”! O título sugerido para a fala no evento Caminhos de Pesquisa em Ciências Sociais II sintetiza bem a minha caminhada nos mais de 50 anos de vida.[1] A sugestão foi ainda mais elucidativa porque indica que ainda não trilhei todas as veredas, que permaneço caminhando. Uma trajetória em curso…
 
O final desta caminhada, todos sabemos. Aliás, é um final comum a cada um de nós, que nos irmana enquanto humanos e mortais e, de certa forma, nos iguala. Ainda que não saibamos como será o desenlace e as formas de concretizar a chegada ao inexorável possam se apresentar diferentemente para cada um de nós.

Ao caminharmos fazemos opções e as nossas escolhas determinam as direções que seguimos. Mas é ilusão acreditarmos que isto ocorre em plena liberdade. Há um grau de liberdade de escolha individual, mas nossas decisões são limitadas pelas circunstâncias. Ou seja, não optamos no vácuo, em torno de abstrações, mas somos determinados pela realidade concreta. Como afirma o mouro: “Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram. A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos.” .[2]

Desde o nascimento nos encontramos sob determinado meio social que condiciona nossas vidas. O indivíduo é um ser social, é influenciado pela sociedade, expressa os seus valores. Porém, ao agirmos podemos transformar a nós mesmos e as circunstâncias em que atuamos. As opções que os indivíduos fazem também influenciam socialmente. Neste sentido, há uma tensão dialética entre indivíduo e meio social.


Em suma, ao atuarmos fazemos história, mas sob determinadas condições. Somos, simultaneamente, produtos das circunstâncias e indivíduos históricos que atuam sobre estas, produtos e produtores da história. Cada um de nós constrói sua própria trajetória sob condições históricas específicas. Mas não somos meros reflexos dessas condições, não somos autômatos que obedecem a ordens exteriores ou reles prisioneiros de estruturas. Ainda que limitados por estas, temos possibilidades de escolha, de optarmos por um ou outro caminho.

Dessa forma, pensar a “trajetória” intelectual e acadêmica, ainda que focada nos “caminhos de pesquisa”, exige a reflexão do indivíduo em sua integridade e nas circunstâncias que determinaram sua vida. Somos indivíduos singulares, cuja subjetividade e identidade é resultante da nossa interação com os outros, com e no mundo.

Assim, falar da nossa caminhada, pressupõe as circunstâncias e as relações de alteridade que estabelecemos. São elas que, no limite e para além dos nossos esforços e decisões individuais, nos moldam. Se a frase “O que eu sou é o que me faz viver”. (Shakespeare, Henrique III) – uma das preferidas de Maurício Tragtenberg – indica o que sou, nada diz sobre a influência dos outros sobre mim. Sou, também, as influências que tive em minha vida, das interações que construí. Sou o resultado das relações humanas que estabeleci – e estabeleço – durante a vida, no caminhar.

Se há um ponto de chegada comum, vários são os inícios que marcam a nossa partida, muitos são os caminhos. Onde começa uma trajetória singular?! Escrever História das Tendências no Brasil foi um marco que propiciou um novo ciclo na minha vida. Diria mesmo que foi determinante em minha trajetória. Contudo, há uma história anterior – e posterior – que permite compreender a trajetória em curso… Oxalá, refletir sobre esta caminhada possa contribuir de alguma forma
[1] O título foi sugerido pela amiga Profa. Dra. Meire Mathias, a quem agradeço.
[2] MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 25.
------------
*  Professor do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (UEM); Editor da Revista Espaço Acadêmico e Revista Urutágua
Fonte: http://antoniozai.wordpress.com/2014/09/01/caminhos-de-pesquisa-em-ciencias-sociais-ii-sobre-o-significado-da-fala-de-si/

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Carisma e carismáticos: que energia é essa?

Leonardo Boff*
 
Nestes tempos de campanha eleitoral, surgem figuras de todo tipo. Mas poucos são aqueles que irradiam energia contagiante, suscitam um novo imaginário e movem as massas. Esses são os portadores de carisma.

Carisma, carma, Crishna, Cristo, crisma e caritas possuem a mesma raiz sâncrita kri ou kir. Ela significa a energia cósmica que tudo acrisola e vitaliza, tudo penetra e rejuvenesce, força que faz atrair e fascinar os espíritos. A pessoa não possui um carisma. É possuída por ele. A pessoa, sem mérito pessoal nenhum, vê-se tomada por uma força que irradia sobre outras, fazendo que fiquem estupefactas; se estão falando, se calam, se estão se entretendo com alguma coisa, param para prestar atenção à pessoa carismática.

O carisma é algo surpreendente. Está nos seres humanos, mas não vem deles. Vem de algo mais alto e superior. Nietzsche conta que passeando pelos Alpes, era tomado por uma força que o fazia escrever. Era outro que se servia dele. Tomava seu canhenho e nele escreveu o melhor de suas intuições.

Os antropólogos introduziram um palavra tirada da cultura de Melanésia: o mana. A personalidade-mana irradia um poder extraordinário e irresistível que, sem violência, se impõe aos demais. Atrái, entusiasma, fascina, arrasta. É o equivalente de carisma na nossa tradição ocidental.

Quem são os carismáticos? No fundo, todos. A ninguém é negada essa força “cósmica”de presença e de atração. Todos carregamos algo das estrelas de onde viemos. A vida de cada um é chamada para brilhar, no dizer de um cantor. É carismática de uma forma ou de outra. José Marti, pensador cubano dos mais argutos da América Latina, bem dizia:”Há seres humanos que são como as estrelas: geram sua própria luz, enquanto outros refletem o brilho que recebem delas”. Alguns são Sol, outros, Lua. Ninguém está fora da luz, própria, ou refletida. Em fim, estamos todos na luz para brilhar.

Mas há carismáticos e carismáticos. Há alguns nos quais esta força de irradiação implode e explode. É como uma luz que se acende na noite. Atrai os olhares de todos.

Pode-se fazer desfilar todos os bispos e cardeais diante dos fiéis reunidos. Pode haver figuras impressionantes em inteligência, capacidde de administração, zelo apostólico. Mas o olhar de todos se fixa sobre Dom Helder Câmara enquanto estava ainda entre nós. Porque era portador eminente de carisma. A figura é irrisória. Parece o servo sofredor sem beleza e ornamento. Mas dele saía uma força de ternura unida ao vigor da palavra que se impunha suavemente a todos.

Muitos podem falar. E há bons oradores que atraem a atenção. Mas deixem o bispo emérito de São Felix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, falar. A voz é rouca e às vezes quase desaparece. Mas nela há tanta força e tanto convencimento que as pessoas ficam boquiabertas. É a irrupção do carisma que faz de um bispo frágil e fraco parecer um gigante. E hoje quase não podendo falar por causa de forte Parkson, sua escrita ou seus poemas tem a força do fogo. É um exímio poeta.

Há políticos hábeis e grandes administradores. A maioria maneja o verbo com maestria. Mas façam o Lula subir à tribuna, diante das multidões. Começa baixinho, assume um tom narrativo, vai buscando a trilha melhor para a comunicação. E lentamente adquire força, as conexões surpreendentes irrompem, a argumentação ganha seu travejamento adequado, o volume de voz alcança altura, os olhos se incendeiam, os gestos ondulam a fala, num momento o corpo inteiro é comunicação, argumentação e comunhão com a multidão que de barulhenta passa a silenciosa e de silenciosa a petrificada para, num momento culminante, irromper em gritos e aplausos de entusiasmo. É o carisma fazendo sua irrupção. Pouco importa a opinião que pudermos fazer de seus 8 anos de governo. Nele não se pode negar a presença do carisma.

Não sem razão Max Weber, o grande estudioso do poder carismático, chamou-o de estado nascente. O carisma como que faz nascer, cada vez que irrompe, a criação do mundo na pessoa carismática, ou personalidade-mana. A função dos carismáticos é a de serem parteiros do carisma latente dentro das pessoas. Sua missão não é dominá-los com seu brilho, nem seduzi-los para que os sigam cegamente. Mas despertá-los da letargia do cotidiano. E, despertos, descobrirem que o cotidiano em sua platitude guarda segredos, novidades, energias ocultas que sempre podem acordar e conferir um novo sentido e brilho à vida, à nossa curta passagem por esse universo.

Que cada qual descubra a estrela que deixou sua luz e seu rastro dentro dele. E se for fiel à luz, brilhará e outros o perceberão com entusiasmo.
-------------------
* Teólogo. Filósofo. Escreveu Meditação da luz, Vozes 2010.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2014/08/31/carisma-e-carismaticos-que-energia-e-essa/
Imagem da Internet