sábado, 6 de setembro de 2014

‘A revolução na educação passa pelo conhecimento do próprio ser humano’, diz Edgar Morin

 
O filósofo e antropólogo francês Edgard Morin na palestra do 1° Encontro Internacional Educação 360, no Sesc Barra
Foto: Pablo Jacob

Filósofo francês defendeu a integração disciplinar em uma das mais esperadas palestras do seminário Educação 360

RIO - “As escolas de hoje não ensinam sobre a diversidade do ser humano”. Com essas palavras, o filósofo e antropólogo francês Edgar Morin abriu neste sábado uma das mais concorridas palestras do encontro internacional Educação 360, evento promovido pelos jornais O GLOBO e “Extra”, em parceria com Sesc, Prefeitura do Rio, Fundação Getúlio Vargas e apoio do Canal Futura.

As cerca de 600 pessoas que lotaram o auditório na Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá, ouviram as críticas de Morin ao atual modelo de ensino no mundo, que segundo ele, se especializou em fornecer conhecimentos fragmentados. De acordo com o pensador, a escola não atende mais às necessidades vitais do cidadão, que passariam por um aprendizado integrado e observando todos os aspectos da realidade humana:
- Aprendemos na escola muitos conceitos, muitos conhecimentos, mas todos dispersos. Precisamos desenvolver um modelo educacional que ligue esses conhecimentos, que lhes coloque em perspectiva. As escolas acumularam saberes, mas não são capazes de organizá-los.
Morin era um dos palestrantes mais aguardados do seminário Educação 360, que começou na sexta e termina neste sábado, com a palestra do presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Francisco Soares.O filósofo francês conquistou a plateia logo de início, quando arriscou poucas palavras em português dizendo que não ousaria falar durante toda a conferência na língua de Camões, já que isso só seria possível se ele tomasse "algumas caipirinhas".

Já em excelente francês, Morin pregou que a verdadeira reforma educacional no mundo só será possível assim que os currículos das diversas disciplinas se preocupassem em pensar conjuntamente o ser humano. - Há uma realidade mutilada de nós mesmos, fatiada. Nas aulas de Biologia, eu conheço nosso organismo. Na de economia, somos traduzidos apenas em números frios. Em ciências humanas, fico sabendo como como agimos em sociedade. Mas há conhecimentos separados de tudo isso, e precisamos integrá-los. O aluno precisa entender que a diversidade é o tesouro da humanidade.

Morin se aprofundou no debate filosófico para defender sua tese. Para ele, é preciso que as questões do "eu" e do "nós" sejam trabalhadas conjuntamente, de forma que a pessoa não seja sufocada pela sociedade. Dissertando sobre a alteridade, o francês afirmou que não só o aluno, mas os cidadãos em geral precisam conhecer e compreender o "outro". O esforço de a realidade no outro lado deve começar, principalmente, pela batalha do autoconhecimento:

- Não ensinamos nem a nos conhecer. As escolas deveriam estimular que alunos escrevessem diários, e depois os lessem com o passar do tempo. E essa prática poderia perpassar ao longo de toda a educação básica. Só conhecendo nossas fraquezas é que conhecemos também as fraquezas dos outros, e assim, as compreenderemos.Em cerca de uma hora de discurso, houve espaço também para a introdução de conceitos já defendidos por Morin em seus trabalhos, como por exemplo a "ecologia da ação". Nela, o aluno precisa estar consciente de que toda decisão é uma aposta, e que somente desenvolvendo estratégias de ação é que seria possível o professor lidar com as incertezas dos estudantes quanto ao futuro. Segundo o pensador, esse seria um dos maiores anseios da sociedade moderna:

- E escola e o conhecimento que ela produz não nos prepara para lidarmos com as incertezas que nos cercam. Professores têm que incutir nos alunos a consciência da tomada de ação.A plateia também participou do debate. No momento em que a palestra foi aberta para perguntas, Morin se deparou com questões como o possível conteudismo nos currículos da educação básica, a formação defasada do professor e o dilema entre integrar o conhecimento no ensino fundamental e médio, e lidar no final do ciclo com a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que também pecaria pelo excesso no foco em conteúdo.

- Também acho que todos esses problemas estejam acontecendo. Concordo com tudo isso. Mas esse fenômeno acontece também porque os professores se retraíram em suas próprias disciplinas, sem dialogar com docentes de outras áreas. O individualismo está exacerbado, e precisamos estimular a solidariedade.
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Reportagem  por
Fonte: Jornal o Globo online, 06/09/2014

O seu dia pode começar ainda melhor com algumas pequenas mudanças:

Erro n° 1: Você acorda e já começa a correria
acordar

Você pula da cama pronto para encarar o dia que começa. O problema é que talvez você esteja exigindo demais dos músculos da coluna, que muitas vezes estão enrijecidos pelas longas horas de descanso na mesma posição, diz Robert Oexman, especialista em sono e quiropraxia e diretor do Sleep to Live Institute. Se você se mexer rápido demais, seus músculos podem sofrer espasmos, e você corre o risco de sentir dor lombar ou até deslocar ou romper um disco. Outro motivo para se levantar devagar: quando ficamos em pé depois de passarmos horas deitados, o sangue corre para as pernas e isso pode causar uma sensação de tontura e podemos cair. Esse efeito, chamado de hipotensão ortostática, é comum especialmente nas mulheres, diz Alan Hilibrand, MD, cirurgião e porta-voz da American Academy of Orthopaedic Surgeons. 

Tente isso: Antes de pular no chuveiro, Oexman recomenda abraçar os joelhos, encostando no peito (um de cada vez, depois os dois juntos). Isso ajudará não só a aquecer os músculos, mas também começará a bombear o sangue pelo corpo para que você se sinta mais equilibrado quando levantar.

Erro n° 2: Você deixa a cortina fechada enquanto se arruma para o trabalho
As cortinas tipo blackout transformam o seu quarto em uma caverna escura e aconchegante que podem lhe ajudar a pegar no sono. Mas o benefício delas acaba quando chega a hora de levantar. Para começar o seu dia com bom humor e acertar o seu relógio interno (para conseguir desacelerar à noite), você precisa de luz solar. Os raios matinais também podem ajudar a regular o seu peso, segundo pesquisas feitas na Northwestern University Feinberg School of Medicine. 

Tente isso: Quanto mais luz, melhor. Então abra totalmente as cortinas assim que levantar da cama (ou assim que colocar um roupão).

Erro n° 3: Você espera até a tarde para ter um momento só seu


A maioria das pessoas trabalha duro e depois tira um tempinho para si mesmos no almoço — ou, o que é mais provável, lá pelas 3 da tarde, quando nossa energia vai acabando. Mas uma pesquisa recente da University of Minnesota mostrou que quando os funcionários começam o dia com o pensamento positivo, o humor ficava ainda melhor devido a momentos agradáveis do que se começassem de maneira desanimada e mal humorada. Os pesquisadores descobriram que eles também não eram tão afetados por interações negativas com colegas de trabalho.

Tente isso: Pare e tome um café bem gostoso a caminho do escritório, ou ligue para a sua irmã ou faça algumas poses de saudação ao sol, se você gosta desse tipo de coisa — vale qualquer coisa para animar o seu dia antes que comece a correria.

Erro n° 4: Você coloca o despertador para 6:47

Você já aprendeu a matemática da função soneca: apertar aquele botão é igual a 9 ou 10 minutos a mais de sono, além de mais 3 minutos para se desvencilhar dos lençóis e levantar da cama. Mas dormir um pouco mais e ficar dormindo e acordando bagunça o horário do seu organismo e vai ficar mais difícil dormir à noite. É por isso que os especialistas em sono amaldiçoam a invenção dessa função disponível na maioria dos despertadores e imploram que você não a use.

Tente isso: Acorde quando o seu despertador tocar e não 10–20 minutos depois.

Erro n° 5: A primeira coisa que você faz quando acorda é malhar


Você sabe que deveria tomar café até 30 minutos depois de levantar para dar um acelerada no metabolismo, mas isso não funciona muito bem quando você está correndo para fazer uma aula de spinning bem cedo pela manhã. Pular essa refeição é um problema também. Você esteve em jejum a noite inteira e precisa de carboidratos para repor as reservas de energia — principalmente se você vai queimar o que restou na academia.

Tente isso: Tudo bem, não precisa comer um café da manhã supercompleto. Um pouco de cereal ou metade de uma banana quando estiver de saída já basta (e um copo de água, é claro, já que só deve ter ingerido algum líquido sete horas atrás).
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Fonte:  http://opiniaoenoticia.com.br/vida/saude-erros-que-voce-esta-cometendo-antes-das-10-da-manha/

Há diferença entre colega e amigo?

Rosely Sayão* 

Colegas são muitos e nem temos de gostar deles;
 amigo é bem diferente
 
Quando chega à escola, você se encontra com muitos amigos, certo? Errado! Na escola, há muitos colegas. Sabia que ter colega é uma coisa bem diferente de ter amigo? 

A primeira diferença é bem importante: amigo é escolha; colega, não. Pense na sua classe, por exemplo. Nela, não há só crianças que você escolheria para conviver, não é? A escolha dos seus colegas de classe não é sua, e assim será por toda a sua vida, até ser grande. Seus pais, por exemplo, não escolhem os colegas de trabalho, sabia? 

Já os amigos são opção. Alguns colegas da escola se transformam em amigos. Há um desejo de estar mais tempo com eles, até fora da escola. Aguenta mais os defeitos, fica triste com eles, quer vê-los sempre bem. Quando precisam de você, está sempre disposto a ajudar. Isso é amigo. 

A segunda diferença também é muito importante: dos amigos você gosta, dos colegas não é preciso gostar. Colega, a gente precisa é respeitar. 

Não é porque acha um colega antipático que pode tirar onda com ele. Não é porque acha um colega chato que pode não querer fazer atividades juntos na escola. Um colega até pode ter um jeito irritante, mas, mesmo assim, não pode brigar com ele. 

Isso tudo é respeitar. 

Durante toda a sua vida, você terá muitos colegas e poucos amigos. Cada vez que começa um ano na escola, surgem novos colegas e somem outros, não é assim que funciona? E, se troca de escola, o número de colegas que ganha e perde é ainda maior. Por isso é tão importante aprender a respeitar e a conviver com todos eles. 

Já os amigos, esses acompanham sempre a nossa vida, mesmo de longe. Por isso é que os amigos são poucos. Porque, para ser amigo, é preciso dedicação. 


frases 

"Um amigo é bem mais próximo do que um colega. Com o colega você faz trabalhos de escola, com o amigo você anda de bicicleta e vai ao cinema."
FELIPE, 11
"Se eu gosto, por exemplo, de ler, ver filmes e jogar vôlei e conheço uma pessoa que gosta das mesmas coisas, a chance de sermos amigos é grande."
LAURA, 11
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* Psicóloga.
Fonte: Folha online, 06/09/2014
Imagem da Internet 

DESIGUALDADE

Pedro Marta Santos*

"Capital in the Twenty-First Century", de Thomas Piketty
"Capital in the Twenty-First Century", de Thomas Piketty

 Para este economista, o capitalismo é um excepcional produtor de riqueza, de inovação e de bem-estar. Mas a forma como reparte a riqueza é, a longo prazo e à escala planetária, demasiado desequilibrada. Mais perigoso ainda: é anti-democrática.

Como leitura de Verão, contrariando a ubíqua prosa esparramada nos areais de José Rodrigues dos Santos, Ken Follett ou Robert Harris, resolvi torrar ao som mental das palavras e estatísticas do mais significativo livro de economia da última década (as palavras são de Paul Krugman e Joseph Stiglitz, esses belicosos arautos da extrema-esquerda): "Capital in the Twenty-First Century" (2014, Belknap Press), em versão "paperback", um bocadinho mais estival do que a capa dura.

São 696 páginas, ora entediantes, ora luminosas, sobre o tema nuclear do século a que o título se refere - a desigualdade. A tese é sequiosamente simples: nos países "desenvolvidos", a taxa de acumulação de capital (não apenas de bens) por um reduzido grupo de cidadãos é, nos últimos 250 anos, muito superior à taxa de crescimento económico das respectivas nações.

Para este economista, não é a igualdade de oportunidades que é intrínseca ao capitalismo. É a desigualdade. O capitalismo, como sistema de produção e distribuição de riqueza, ocupa-se cada vez menos da produção de bens e serviços e distribui cada vez pior.

Ora, a noção de "justa desigualdade" é essencial ao capitalismo. Mas, ao longo de mais de 300 das quase 700 páginas, Piketty é assertivo a demonstrar que essa desigualdade na distribuição da riqueza, sobretudo nas últimas quatro décadas, está tão estonteantemente longe - para além de qualquer juízo ideológico - de ser justa como um viajante no Kalahari está de uma Coca-Cola gelada. O economista analisa a história económica de 20 países ao longo de 220 anos, concluindo que:

- a taxa de rendimento do capital torna-se, em média, sistematicamente superior à taxa de crescimento da produção; este mecanismo é apresentado como tendo uma força lenta mas inexorável, semelhante ao evolucionismo darwiniano (tudo considerado, o rendimento do capital num país cresce muito mais do que o rendimento total desse país)

- o capitalismo é, na sua essência, um sistema patrimonial; a longo prazo, acaba sempre por impulsionar a acumulação de património numa percentagem minúscula de famílias, gerando, mais do que uma sociedade justa e competitiva, uma sociedade de herdeiros. Acima de um modelo que favorece o empreendedorismo na procura de rendimentos e da criação de riqueza, o capitalismo protege e estimula a acumulação de capital.

Segundo os dados, desde o início dos anos 80, as duas realidades têm vindo a agudizar-se.

Esta noção estatística, empírica e factual (o livro é, em considerável percentagem, um livro de história da economia) contraria a ilusão da essência meritocrática do capitalismo, bem como da mobilidade e da ascensão social associadas ao liberalismo económico. Além do capitalismo financeiro, Piketty fala assim da cristalização do capitalismo de cariz patrimonial, onde um pequeno grupo de cidadãos controla o grosso da riqueza - mas, exceptuando casos pontuais das sociedades de caçadores-recolectores do Paleolítico Superior, prévias ao desenvolvimento do comércio intertribal, alguma vez o modelo concentracionário e oligarca não terá sido o prevalecente? (em numerosos quadros estatísticos e análises de dados, Piketty demonstra que na actual Europa e, também em parte, nos EUA, estamos a regressar aos níveis de riqueza herdada do século XIX).

O problema do modelo - e não apenas a vantagem, sobretudo para numerosas faixas de habitantes do hemisfério sul - é que ele é, agora, global.

Tomando apenas o "case-study" da segunda metade do século XX, a partir de uma breve fase subsequente à II Guerra Mundial, o capitalismo no mundo ocidental favoreceu sempre a desigualdade. Se a globalização, no seu imanente mecanismo de correcções e desequilíbrios, tem permitido o aumento de rendimentos da generalidade das populações dos países em vias de desenvolvimento, e do chamado "Terceiro Mundo", caso a parametrização económico-financeira dos fluxos económicos globais se mantenha, o mesmo movimento acabará por ocorrer nesses países, acentuando as respectivas desigualdades nacionais e regionais na distribuição da riqueza. Resultado: o presente modelo económico-financeiro provoca cada vez maiores desigualdades sociais, não apenas entre países e regiões mas, sobretudo, entre os cidadãos de cada país.

Alternativas estruturantes que substituam o actual modelo hiper-capitalista (a expressão não é minha, é moeda corrente, do "Economist" à " The Chronicle of Higher Education")? Nenhumas. Piketty não é Deus, nem sequer o maior génio financeiro da história da humanidade. Mas há caminhos apontados como obrigatórios.

O primeiro é o agravamento da progressividade dos impostos sobre os rendimentos mais elevados (para Piketty, um rico ganha um milhão de euros anuais, não 18 mil euros como na actual tabela portuguesa), que abra caminho a um conjunto de mecanismo fiscais redistributivos.

O segundo é a criação de uma taxa global sobre o património e as heranças. Se é difícil aplicá-la à escala de um país - como demonstram os casos dos EUA ou da França -, imaginam-se os obstáculos à escala planetária. Mas é um caminho prometedor e, sobretudo, tendencialmente equitativo. Como Piketty prova com os seus modelos de análise de dados, a acumulação de riqueza numa faixa residual de contribuintes tem aumentado de forma contínua, e não mostra quaisquer indícios de autorregulação, induzida ou em coiniciativa.

Sabe-se de onde vem Piketty: francês, parisiense, o mais importante economista gaulês da sua geração (tem apenas 43 anos), colunista do "Libération" e do "Le Monde", esteve ao lado de Michel Rocard em 2002 e apoiou Ségolène Royal em 2006 e François Hollande em 2012, três bluffs do tamanho da ambição pseudorreformista do PS local (registe-se que foi ele que depressa os abandonou, desiludido). Mas o seu estudo é sério, exaustivo - sobretudo para um leigo, admito -, fundamentado nas premissas históricas e, por vezes, contundente, tendo provocando respeito e admiração na América, Europa e Ásia.

De acordo com o autor, o topo da distribuição de riqueza na economia mundial (não apenas no Ocidente) tem subido 6 a 7% ao ano - três vezes mais rápido do que o ritmo de crescimento da economia mundial. E ninguém sabe - nem ele - quando este ritmo paralelo abrandará.

De acordo com o autor, se a desigualdade intrínseca ao capitalismo global de livre mercado não é combatida, aumentará para níveis que ameaçam os sistemas democráticos e se tornam incapazes de sustentar o crescimento económico (a tese contraria a convergência da teoria económica clássica, onde se defende que a desigualdade acabará, eventualmente, por diminuir).

De acordo com o autor, a desigualdade de bens, rendimentos e riqueza entre os mais pobres e os mais ricos não tem parado de aumentar em todo o mundo ocidental nos últimos 70 anos. Se a acumulação de capital é, pelo menos desde a Revolução Industrial, útil para o crescimento da economia e para a melhoria dos salários, o seu efeito no crescimento das nações tem diminuído de forma quase sempre constante, num quadro cada vez menos associado ao sistema produtivo e cada vez mais dependente da especulação financeira.

Com Piketty, o "taxar os ricos", ganga marxista sem significado quando utilizada contra a realidade e sem contraponto histórico ( e a ninguém é preciso recordar os efeitos a longo prazo do marxismo), ganha caução científica. Deixa de ser vingança social, ou perseguição ideológica, para se tornar uma necessidade intrínseca ao sistema como um todo.

O economista lança particulares críticas ao paradoxo dos estados europeus com problemas graves de dívidas soberanas, os mesmo estados europeus onde existem "os patrimónios privados mais elevados do mundo". Em vez de taxarem a sério estes patrimónios (sobretudo os 1% do topo, bastante diferentes, desde logo, dos restantes 9% mais elevados), prefere-se pedir mais dinheiro emprestado à banca estrangeira e aplicar a inefável austeridade, "a pior solução de todas, em termos de justiça e de eficácia".

Perpetuando o modelo dos últimos 45 anos, estamos agora, no mundo ocidental e na análise de Piketty, perto dos níveis de desigualdade da Belle Époque. Como o modelo está em processo de solidificação a Oriente, após a prosperidade inicial, será a vez das "economias emergentes". Em França, por exemplo, entre 1871 e 1914, 90% da riqueza total era riqueza herdada. Em 1970, era de 40%. Hoje, após a "idade doirada da desregulação", regressou aos 75%. Em poucos anos, se nada for feito, regressará aos 90%.

Para este economista, o capitalismo é um excepcional produtor de riqueza, de inovação e de bem-estar. Mas a forma como reparte a riqueza é, a longo prazo e à escala planetária, demasiado desequilibrada. Mais perigoso ainda: é anti-democrática.

Leiam o livro, antes que chova. Cai sempre bem com esse triunfo capitalista que é uma imperial na praia.
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* Escritor.
Fonte:http://www.escreveretriste.com/2014/09/desigualdade/

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A polêmica que divide artistas e intelectuais

 

As contradições que envolveram a divulgação do programa de governo da candidata à Presidência da República Marina Silva (PSB) nesta semana não polemizaram somente no campo eleitoral. Também repercutiram entre artistas e intelectuais com histórico de apoio à política acreana.
Depois que a ex-senadora decidiu mudar propostas sobre casamento gay e aborto por causa da pressão de líderes evangélicos, o escritor Milton Hatoum ficou "muito preocupado". Eleitor da ex-senadora no primeiro turno de 2010 e propenso a votar nela este ano, ele "desmarinou". Já o diretor de cinema Fernando Meirelles, entusiasta das ideias de Marina, classificou o episódio de "vacilo", mas continua firme no apoio à candidata do PSB. (Leia as entrevistas de Milton Hatoum e Fernando Meirelles)

Considerado um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade, autor de obras como "Dois irmãos" e "Cinzas do Norte", Hatoum, de 62 anos, não consegue identificar a "nova política" no discurso de Marina. Para ele, a senadora é muito suscetível à influência de pastores fundamentalistas e tem dificuldade para separar religião e política.

"Ela é a mais marcada nessa questão da religião que seus adversários porque tudo tem uma conexão com o plano divino. Deus não sai de seu discurso. Eu acho isso estranho. Que os pastores digam isso, tudo bem, mas para um candidato de um Estado laico eu acho que ela está contaminada demais", opina Hatoum.

Já para Meirelles, de 58 anos, há hipocrisia por parte de PT e PSDB ao envolver Marina em polêmicas religiosas. "Tanto a Dilma quanto o Aécio, que não creem, usam o nome de Deus em suas falas. Dilma foi falsa como uma nota de dois dólares na Assembleia de Deus. Já a Marina, que crê de fato, paradoxalmente é a única que não usa Deus em seu discurso, mas é a única criticada por isso", argumenta o diretor de "Cidade de Deus".

Sobre as mudanças no programa de governo de Marina, Meirelles reconhece o erro. "Foi uma tremenda comida de bolas eles terem publicado a versão errada e depois voltado atrás, um vacilo. Mas o programa toca em tantos pontos importantes que é uma pena que essa questão, também importante, se torne o fiel da balança", avalia Meirelles. Em 2010 ele ajudou a formar a equipe de TV de Marina e foi "palpiteiro" na campanha.

Com participação menos intensa ao lado da ex-senadora neste ano, ele acredita que sua candidata está melhor preparada que há quatro anos e com "grandes chances" de vitória. "É tão difícil pegar a Marina no pulo que quando aparece a troca de 'casamento' por 'união estável' num documento, a turma aproveita e sai gritando."

Confira a seguir a conversa com o escritor Milton Hatoum:

Valor: Você iria votar em Marina e desistiu. O que houve?
Milton Hatoum: Votei nela no primeiro turno em 2010. Este ano estava propenso a votar no candidato Eduardo Campos, isso sim. Acho que ele era um político de centro-esquerda com ideias para o Brasil, com liderança, não estava contaminado nem um pouco por um discurso messiânico, religioso.

Valor: A questão religiosa gerou seu desencanto com Marina?
Hatoum: Achei até consistente o programa de governo da Marina, embora muito vago em alguns aspectos, mas quando eu li as alterações todas, feitas às pressas, vi que ela tinha se tornado refém dos partidos religiosos fundamentalistas.

Valor: Foi aí que "desmarinou"?
Hatoum: Em três dias vimos que a política pode mudar como as nuvens. A mudança do texto original por pressão de líderes religiosos foi lamentável. Mas também teve a adesão de velhas raposas da política brasileira à onda Marina nos últimos dias: José Agripino Maia, fisiológicos do PMDB. Quando ela diz que vai governar com os melhores isso não significa nada.

Valor: Você fala das possíveis alianças de Marina, mas era Eduardo Campos o responsável por elas.
Hatoum: Marina deu espaço demais [a esses líderes evangélicos]. Ela se inspira em versículos bíblicos aleatórios para tomar decisões. Isso é assustador, um retrocesso geral. Ele [Campos] fazia costuras, mas não aceitava o PMDB, que já está se aproximando da Marina, assim como outros políticos de caráter mais duvidoso. Acho que ele teria mais força de fazer um filtro.

Valor: O PSDB se enfraqueceu.
Hatoum: Perdeu toda a força que tinha no começo, o candidato Aécio Neves está perplexo, abatido com essa virada. Me parece que a disputa está definida [Dilma e Marina], não as eleições.

Valor: O PSDB fala que até 15 de setembro retomará o segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto.
Hatoum: Acho difícil. O PT tem um eleitorado muito cativo, quem vota no PT não vota em mais ninguém. Muita gente que vai votar na Marina não quer mais polarização [PT-PSDB] e tem muita gente que não pensa a política de forma reflexiva. Depois do acidente surgiu um elemento de quase devoção pela Marina. O PSDB não vira.

Valor: Essa devoção combina com a ideia de nova política?
Hatoum: Isso é chocante. Corremos o risco de essa devoção, esse personalismo ser substituído por um espécie de messianismo. Política não pode ser um ato consumado do plano divino, não pode ser inspirada pela Bíblia ou qualquer outro texto sagrado, porque o Estado laico se atrofia.

Valor: De novo a religião...
Hatoum: Repare na linguagem desse pastor [Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo]: disse que Aécio e Dilma não são malucos de defender temas como o casamento gay, se eles fizerem isso o sarrafo vai comer. É a linguagem do preconceito, da violência. É como chutar a imagem de uma santa católica, incendiar um templo de candomblé no Rio de Janeiro. Ele falou que o governo representará a maioria cristã da sociedade brasileira. Um absurdo! E os judeus, budistas, católicos, os mais de 20 milhões de agnósticos e ateus não estarão representados?

Valor: Não votar em Marina por ela ser evangélica é preconceito?
Hatoum: A questão é que a política não pode ser um ato consumado pelo poder divino.

"Velhas raposas aderiram à onda Marina; quando ela diz 
que vai governar com os melhores
isso não significa nada"

Valor: Mas Marina é mais marcada pela religião do que seus adversários, não acha?
Hatoum: Ela é a mais marcada porque tudo tem uma conexão com o plano divino. Deus não sai de seu discurso. Eu acho isso estranho. Que os pastores digam isso, tudo bem, mas para um candidato de um Estado laico eu acho que ela está contaminada demais. Mais um dado importante: alguns membros da cúpula da direção do PSB já saíram, o secretário-geral, gente da executiva, o coordenador da área LGBT. Se ele se surpreendeu com a correção do programa de governo, o que dizer de um eleitor que acreditou por 24 horas naquilo. Não fiquei nem com o pé atrás. Pra mim foi a gota d'água.

Valor: Já considera o Aécio fora da disputa, e a presidente Dilma?
Hatoum: Ela está tentando reagir, o que atrapalha é o discurso pronto, ensaiado. Ela tinha que ser mais ela. Quando o mesmo José Agripino a interpelou sobre a ditadura há alguns anos, ela foi contundente e ele virou um boneco, porque não se brinca com a tortura. Se ela recuperar aquilo que ela é profundamente, e não aquilo que o marqueteiro quer que ela seja, pode ser positivo. Ela já reagiu com a criminalização da homofobia.

Valor: Mas as pesquisas agora apontam vitória da Marina.
Hatoum: O PT errou muito, não fez autocrítica, por isso é difícil votar hoje no PT e muita gente corre para uma nova opção, como se fosse algo diferente. Mas não é e não será: Marina será chantageada pelo PMDB, pelos religiosos, pelo PR, assim como foi com Dilma, FHC. Mas vai ter muita disputa ainda. Não podemos esquecer que o único partido com militância real ainda é o PT, isso pode fazer diferença. Nenhum partido brasileiro tem a militância do PT. Não é o Rede que é sustentável, é a militância.

Valor: Se não vai votar em Marina, qual será sua opção?
Hatoum: Estou sem candidato. Tem o Eduardo Jorge [PV], o PSOL, não me importo em votar em partidos pequenos. Vários amigos estavam com Marina e muitos desistiram depois do episódio do plano de governo.

Leia os principais trechos da entrevista com Fernando Meirelles:

Valor: Você apoiou a Marina em 2010 e está com ela agora também.
Fernando Meirelles: Sim, com mais convicção. Nestes quatro anos, a Marina não parou de se reunir com pessoas de todas as áreas para compreender mais profundamente o país e se preparar para uma possível eleição. Os estudos que dão sustentação às ideias da Marina estão disponíveis no site do Instituto Democracia e Sustentabilidade [IDS].

Valor: O que o motivou a optar por ela nessas duas ocasiões?
Meirelles: A plataforma que mira desenvolvimento sustentável. Leio bastante sobre aquecimento global, crise da água, segurança alimentar, matrizes energéticas, esgotamento dos biomas naturais e dos recursos do planeta. Nada me tira mais o sono do que perceber que estamos numa rota de colisão e ver que a turma continua querendo acelerar e crescer. Marina tem visão de estadista, pensa no país que ficará para os nossos netos. Isso que faz toda a diferença.

Valor: Teve/tem participação efetiva nas campanhas de Marina?
Meirelles: Em 2010 queriam que eu fizesse o programa [de TV], mas eu não quis transformar minha vontade de participar em um trabalho, então ajudei a montar uma equipe de produção e dei uma de palpiteiro sem compromisso. Na campanha atual, como seria feita pelo pessoal do Eduardo, não me envolvi. Mas só participaria mesmo como voluntário.

Valor: As eleições deste ano serão diferentes do pleito de 2010?
Meirelles: Já estão e as chances de Marina vencer são grandes. Em 2010, Dilma era a continuação dos anos dourados que o Brasil viveu graças à China no mercado de commodities. A festa acabou e está cada vez mais claro que investir só em consumo deu errado. Pesquisas mostram que ninguém aguenta mais o velho pensamento político do confronto e da oposição.

Valor: Marina também está diferente de lá para cá? Vê evolução?
Meirelles: Como ela gosta de filosofia e psicologia, costumava ser muito analítica, conceituava cada ideia tornando seu discurso acadêmico e mais difícil. Agora está mais sintética e assertiva. Os quatro anos estudando o Brasil e conversando com gente de Norte a Sul deram-lhe estofo e segurança.

Valor: O que achou da decisão de Marina de se aliar ao PSB?
Meirelles: Calou quem dizia que ela era intransigente e sem cintura para o jogo político. Que outro político no Brasil com um cacife de 20 milhões de votos toparia ser vice numa chapa, só para poder ver algumas ideias que acredita contempladas no programa de governo? O negócio dela é o seu programa e não o poder.

Valor: Gostou do programa de governo de Marina?
Meirelles: Gostei. Pena que ninguém leia o programa. Ele propõe uma grande mudança para o país. São três eixos principais: o primeiro será manter as conquistas dos outros governos, tentando aprimorá-las, sem se importar se quem as inventou pode estar na oposição. Não se desperdiça boas ideias só por não serem de autoria do partido. O segundo é democratizar a democracia, que significa criar instrumentos, incluindo redes sociais, para que as decisões do governo reflitam de fato a vontade dos brasileiros. O terceiro é criar as bases para um desenvolvimento ambientalmente sustentável para podermos ter um país justo, com cidadãos livre e criativos. Diria que o capítulo sobre educação é o que mais me animou. A Marina quer recuperar a qualidade do ensino das escolas públicas, com ciência e cultura como pilares.

"Ela conceituava cada ideia com discurso acadêmico 
e mais difícil, agora está mais 
sintética e assertiva"

Valor: O que achou das mudanças anunciadas momentos depois?
Meirelles: Foi uma tremenda comida de bolas eles terem publicado a versão errada e depois voltado atrás. O fato de ter recuado foi um vacilo. Mas o programa toca em tantos pontos importantes que é uma pena que essa questão, também importante, esteja se tornando o fiel da balança. É tão difícil pegar a Marina no pulo que quando aparece um aluguel de avião ou a troca de "casamento" por "união estável" num documento, a turma aproveita e sai gritando. Faz parte, eles erraram e vão ter que absorver o tranco. Engolir o choro e seguir.

Valor: Marina é mais visada que os outros candidatos na abordagem de certos temas polêmicos, como direitos civis, religião, aborto?
Meirelles: Me parece que sim. Nem PSDB e nem PT criminalizaram a homofobia em seus governos e nem lançaram cartilhas com noções de tolerância em escolas, mas a Marina é quem paga o pato com o eleitor. Tanto a Dilma quanto o Aécio, que não creem, usam o nome de Deus em suas falas. Há duas semanas, na Assembleia de Deus, a Dilma começou seu discurso citando o salmo de Davi. Foi falsa como uma nota de dois dólares. Já a Marina, que crê de fato, paradoxalmente é a única que não usa Deus em seu discurso, mas é a única criticada por isso.

Valor: Como interpreta essa "nova política" que Marina tanto fala?
Meirelles: Parece ser o seu tema central, mas no programa a reforma política que ela propõe é só um instrumento para chegar ao que realmente interessa, que é a construção de um país afinado com os valores e a cultura do milênio em que estamos e não mais com a visão desenvolvimentista do século XX. Ela sabe que governar não é mais abrir estradas nem construir ferrovias. Claro que ferrovias precisam ser construídas e serão, mas um presidente precisa ter visão de país e de futuro, e é isso que ela tem de sobra e é isso que encanta quem a escuta com atenção.
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Reportagem Por Luciano Máximo | De São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 05/09/2014

Ser amado e amar

 Dom Luciano Mendes de Almeida*
 A vivência da gratuidade do amor ajuda-nos a descobrir 
o mistério da vida divina.
Muitos percorrem o mundo à procura de tesouros. Confundem felicidade com acumulação de riqueza. Torna-se doentio o anseio de ter sempre mais, usando-se até de meios ilícitos. A sede de alcançar fortuna e de garantir o bem-estar gera roubos, assaltos, sequestros e guerras. Não é esse o caminho da felicidade. Basta observar a realidade e constatar quantas pessoas possuem riqueza e estão longe de serem felizes. O excesso de bens materiais causa apegos, avareza, dureza de coração e misteriosa tristeza, aliada ao medo de perder a própria fortuna.

Por que essas considerações? Para procurarmos o sentido da vida onde se encontra a verdadeira felicidade. Desde crianças podemos descobrir os valores que nos alegram e respondem à nossa expectativa de ser feliz. A criança quer ser amada, acariciada, levada ao colo, quer adormecer acalentada pelo carinho materno. O que mais alegra a criancinha é o beijo de sua mãe. Amamentar o filho é um ato de amor que transmite afeto e confiança na vida.

É importante para a mãe também, porque experimenta a felicidade de dar a gratuidade do amor. Esta imagem diz muito para todos nós. Nascer e crescer embalado pelo amor materno e dos que nos envolvem com afeto no seio da família é a vivência que fundamenta a auto-estima e o apreço à própria existência.
Não basta ser amado para ser feliz; é preciso deixar que o amor cresça e se faça dom para os outros
A experiência de ser amado com tanto afeto em gratuidade imprime em nosso íntimo a marca indelével da beleza do dom de si aos outros como fórmula para ser feliz. Quem é amado leva em si mesmo a vontade misteriosa de sair do próprio egoísmo e de experimentar a alegria de amar os outros com gratuidade. Não basta ser amado para ser feliz; é preciso deixar que o amor cresça e se faça dom para os outros. Quanto maior a gratuidade, maior a alegria e a realização pessoal.

A vivência da gratuidade do amor ajuda-nos a descobrir o mistério da vida divina. Deus é amor, totalmente feliz no mais íntimo de seu ser e na plenitude de sua gratuidade. A criação do universo é fruto dessa exuberante gratuidade. Inefável é a sua infinita misericórdia em perdoar e restaurar a pessoa humana quando erramos O projeto divino de salvação em Jesus Cristo é a prova do amor gratuito e misericordioso, que oferece à humanidade caminhos de conversão e ensina a norma suprema da auto-realização pelo dom de si ao próximo pela prática do amor gratuito, do perdão e da predileção pelos mais pobres e excluídos.

O mundo continua enredado no anseio de ter, na busca de prazer egoísta e na dominação - e está muito longe da alegria de ser feliz.

Jesus colocou na existência de cada um de nós a presença de nossas mães. Ao nos transmitirem a vida com gratuidade, são a imagem do amor divino.

No beijo materno, cada um experimenta que é amado de verdade. Mais. A mãe nos comunica que o segredo da felicidade está em realizar ao longo da vida a alegria de amar com a mesma gratuidade.


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*Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida ( Rio de Janeiro, 5 de outubro de 1930 — São Paulo, 27 de agosto de 2006) foi um religioso jesuíta e bispo católico brasileiro. Foi o quarto arcebispo de Mariana.
Fonte: http://www.arquidiocesebh.org.br/site/opiniao_e_noticias.php?id_opiniao_e_noticias=8880Im
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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Boff: “Fatos falam por si. Dilma é a melhor opção para o povo brasileiro”

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 "A Bíblia não é um fetiche de soluções, mas uma fonte de inspiração para que nós achemos as soluções adequadas para o tempo presente. Um fundamentalista não serve para governar, pois cria continuamente conflitos. O governante deve ser alguém de síntese, que saiba dos conflitos e das diferentes posições e tenha a habilidade de conduzir para uma certa convergência no ganha-ganha."

Aos 75 anos, Leonardo Boff possui a biografia rara de líder religioso, intelectual respeitado e militante das causas do povo. Em 1959, aos 24 anos, ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos. Diplomado em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique, na Alemanha, foi um dos pioneiros na formulação da Teoria da Libertação, que procurava combinar a indignação diante da miséria e da exclusão na América Latina com a fé cristã. Em 1985, quando o Vaticano encontrava-se sob domínio de ideias conservadores, Boff foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso” pela Sagrada Congregação para a Defesa da Fé, sucessora do Santo Ofício, que na saída da Idade Média, organizava os tribunais da Inquisição.

Embora tenha conseguido retomar algumas de suas atividades, auxiliado pelo apoio de uma formidável pressão, quando foi ameaçado de nova punição, em 1992, Boff decidiu se auto promover ao estado leigo. No ano seguinte, foi aprovado, por concurso, para a cadeira de Filosofia da Religião, Ética e Ecologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ. Autor de mais de 60 livros sobre Teologia, Antropologia, Espiritualidade e Mística, entre outros assuntos, até hoje Boff também realiza palestras para estudantes, para o Movimento Sem-Terra e as comunidades da Igreja. Na semana passada, Leonardo Boff deu a seguinte entrevista ao Brasil 247: 

PERGUNTA – O senhor tem contatos com pessoas mais diversas do povo brasileiro. Eu gostaria que contasse como estes cidadãos estão vendo a eleição de 2014. Há grandes mudanças em relação a 2010, 2006, 2002?
RESPOSTA – Há um mal estar generalizado no mundo como Freud constatava nos anos 30 do século passado. Todos têm a sensação de que assim como o mundo está não pode continuar. Tem que haver mudanças. É o efeito da crise de nossa civilização que não dispõe mais de recursos próprios para dar conta de sua própria crise interna. Bem dizia Einstein: “o pensamento que criou a crise não pode ser o mesmo que nos tira dela”. Devemos pensar diferente e agir diferente. No Brasil as manifestações de junho de 2013 no fundo queriam dizer: “não queremos mais um Brasil dos negócios e das negociatas. Queremos um Brasil de cidadãos que participam”. Há ainda um fator novo: as políticas públicas do PT que tiraram 36 milhões da pobreza foram incorporadas como coisa natural, um direito do cidadão. Ora, o cidadão não tem apenas fome de pão, de casa, de luz elétrica. Tem outras fomes: de ensino, de cultura, de transporte minimamente digno, de saúde razoável e de lazer. A falta de tais coisas suscita uma insatisfação generalizada que faz com que esta eleição de 2014 seja diferente de todas as anteriores e a mais difícil para o PT. Precisamos de mudança. Mas dentre os partidos que podem fazer mudanças na linha do povo, apenas vejo o PT, desde que consolide o que fez e avance e aprofunde as mudanças novas atendendo as demandas da rua. Dilma é ainda a melhor para o povo brasileiro.

PERGUNTA — Por que?
RESPOSTA — Os fatos falam por si. Até hoje nenhum governo fez políticas públicas cuja centralidade era o povo marginalizado, os invisíveis, considerados óleo gasto e zeros econômicos. Lula e Dilma introduziram políticas republicanas, vale dizer, que têm as grandes maiorias em seu foco. Importa consolidar estes avanços: Bolsa Família, Luz para todos, Minha casa minha vida, crédito consignado, mais escolas técnicas e mais universidades e correção do salário em 70% da inflação diminuindo em 17% a desigualdade social. Quem fez isso com sucesso deve poder continuar a fazê-lo e de forma mais profunda e abrangente. Dilma é ainda a melhor opção para esta tarefa messiânica.

PERGUNTA — O senhor conheceu Marina Silva no Acre, onde ela foi sua aluna. Também tem acompanhado sua campanha em 2014, como candidata a presidente pelo PSB. O que mudou?
RESPOSTA — Primeiro ela mudou de religião. De um cristianismo de libertação, ligado aos povos da floresta e aos pobres, passou para um cristianismo pietista e fundamentalista que tira o vigor do engajamento e se basta com orações e leituras literalistas da Bíblia. Isso transformou a Marina numa fundamentalista com a mentalidade de alguns líderes muçulmanos: ler a vontade de Deus não na história e no povo, mas nas páginas da Bíblia de 3-4 mil anos atrás. Isso enrijece a mente e a torna ingênua face à realidade política. Agora como candidata pelo PSB representa uma volta ao velho e ao atrasado da política, ligada aos bancos e ao sistema financeiro. Seu discurso de sustentabilidade se tornou apenas retórico. Ela não encontrou aquilo que é a essência da verdadeira ecologia: uma nova relação para com a Terra e a natureza: respeitando seus direitos e organizando um modo de produção que respeita os ritmos naturais. Para mim é uma espécie de Jânio de saia.

PERGUNTA – Marina participou da luta popular contra empresários e fazendeiros que tentavam destruir a Amazônia. Também esteve ao lado de Chico Mendes até seu assassinato, em 1988. Como entender que, hoje, ela possa dizer que Chico Mendes fez parte da mesma elite a que pertence, por exemplo, uma das herdeiras do maior banco privado do país?
RESPOSTA — Esta visão de Marina mostra o quanto é fraca teoricamente e revela a contaminação que já sofreu de seus aliados e conselheiros, todos neoliberais e submissos à lógica do mercado que não é nada cooperativo, mas estritamente competitivo. Ela não está construindo no canteiro do povo, dos pobres e marginalizados, mas levando tijolo, cimento e água para o canteiro das elites opulentas e conservadoras de nosso país.

PERGUNTA — De que forma essa visão dogmática, fundamentalista, da religião, pode afetar a postura de uma pessoa que pretende governar um país onde vive uma sociedade complexa e plural, como a brasileira?
RESPOSTA — As consequências são ruins. Ela viverá permanentemente em crise de consciência entre a lógica da realidade e a lógica religiosa, fundada numa leitura velhista, errônea e anti-histórica da Bíblia. A Bíblia não é um fetiche de soluções, mas uma fonte de inspiração para que nós achemos as soluções adequadas para o tempo presente. Um fundamentalista não serve para governar, pois cria continuamente conflitos. O governante deve ser alguém de síntese, que saiba dos conflitos e das diferentes posições e tenha a habilidade de conduzir para uma certa convergência no ganha-ganha. Marina não possui esta habilidade. Se vencer, oxalá não tenha o mesmo destino político que teve Collor de Mello.

PERGUNTA — No último debate presidencial, Marina recusou-se a revelar quem paga palestras que lhe rendem mais de R$ 50 000 por mês. Disse que era uma exigência dos clientes. Como analisar isso?
RESPOSTA — Acho que como cidadã e militante da causa ecológica ela pode e deve aceitar palestras sobre temas de ecologia, pois o analfabetismo ecológico é grande, especialmente, entre os empresários. Achei que a pergunta a ela não foi pertinente, porque invade a esfera do privado de forma indevida. Outra coisa seria se ela como candidata cobrasse por suas falas. Aí poderia surgir um compromisso tácito entre a empresa que a convidou, criando um problema político, pois a empresa pode se valer deste fato para conseguir vantagens ilegítimas.

PERGUNTA — No Brasil de hoje, o desemprego está baixo. Os salários crescem mais do que a inflação. Mesmo assim, há um grande pessimismo. Por que?
RESPOSTA — Grande parte do pessimismo é induzido por aqueles que querem a todo custo e por todos os meios tirar o PT do poder. Aqui se trata de uma luta de classe selvagem. Nossas elites que Darcy Riberiro considerava as mais reacionárias do mundo e Antônio Ermirio de Morais dizia com frequência: “as elites só pensam nelas mesmas” junto com a grande mídia promoveram esse pessimismo. Mas o povo lá em baixo sabe que sua vida melhorou tem esperança de melhorar ainda mais. Vê no PT a comprovação de que pode realizar esse sonho viável. No fundo as elites de distintas ordens pensam: aquele lugar lá no Planalto é nosso e não de um trabalhador. Lula pode estar no Planalto mas como serviçal e faxineiro. Ocorre que se realizou a maior revolução pacífica e democrática de nossa história: um outro sujeito de poder, alguém, sobrevivente da grande tribulação, chegou lá e deu outra direção ao país rumo ao povo e sua inclusão social: Luiz Inácio Lula da Silva, continuado pela Dilma Rousseff.

PERGUNTA — Uma explicação comum para as dificuldades de Aécio Neves é o fracasso histórico do PSDB em oferecer uma perspectiva de melhoria para a maioria da população. Por essa razão, seu candidato parece caminhar para a quarta derrota em quatro eleições presidenciais. O senhor concorda?
RESPOSTA — O PSDB não possui base popular nem está ligado organicamente aos movimentos sociais. Ele nasceu com a mentalidade da socialdemocracia européia, feita em grande parte pela classe média. Aqui o problema é como resolver os problemas atávicos do povo, de sua fome, de sua falta de escolas, de saúde e moradia. O PSDB não colocou isso no centro de sua agenda, mas o desenvolvimento econômico, alinhando-se ao curso da macroeconomia capitalista, especulativa e feroz. Por isso há uma afinidade natural entre este partido e os que “estão bem na sociedade”. Ocorre que o desafio é atender aqueles que “estão mal”. Isso eles fizeram muito pouco. Nem sabe fazê-lo, pois se exige uma pedagogia tipo Paulo Freire na qual o pobre entra como sujeito da superação de sua pobreza.

PERGUNTA — Como o senhor avalia o papel da mídia em 2014?
RESPOSTA — Eu creio que a grande mídia seja de jornais, rádios ou televisão mostrou seu caráter nitidamente de classe. Muitos desses meios foram concedidos (esquecemos que não são donos, mas concessionados) a algumas famílias opulentas. Usam seu poder para fazer a cabeça do brasileiro. A TV Globo faz mais a cabeça dos brasileiros na linha do sistema vigente capitalista e consumista mais que todas as escolas e universidades juntas. Isso é anti-democrático e no nível de outros países mais civilizados, uma vergonha. Com que direito a família Marinho pode assumir esta pretensão? Na verdade, hoje, com a oposição fraca, eles se constituíram a grande oposição ao governo do PT. Erro do PT foi não ter construído uma mídia alternativa para tensionar as opiniões e oferecer uma alternativa ao povo na leitura da realidade. A mais manipuladora e até mentirosa revista de opinião deste país é sem dúvida a revista VEJA.
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Reportagem por Paulo Moreira Leite ,02/09/2014
Fonte: http://paulomoreiraleite.com/2014/09/02/boff-fatos-falam-por-si-dilma-e-melhor-opcao-para-o-povo-brasileiro/

UMA MUDANÇA

                                                              Ruy Carlos Ostermann*

Um atrevimento seria imaginar uma grande mudança política. A política não muda tão rapidamente e nem tanto. A política geralmente é uma atividade mais ou menos prevista, previsível, que se repete e que se alonga. Às vezes, o seu sentido é um só durante muito tempo, embora muitas pessoas nem se deem conta disso. A política engana bastante. Por isso, não se esperava - absolutamente não - que um episódio pudesse marcar tão fortemente uma mudança. Talvez a maior mudança política eleitoral que se tenha tido nas últimas décadas. 

A morte do Eduardo Campos, na tragédia que foi o acidente com o seu avião, deu um corte na vida de um jovem candidato, com boas ideias, com boa formação, uma pessoa séria. Tudo isso ficou ainda mais claro e evidente com a sua morte. Antes se dizia "é talentoso, talvez mais adiante possa ser um candidato verdadeiro à presidência da república", mas não se admitia imediatamente que pudesse ter ele essa força. E talvez não pudesse. Mas a morte, nesse caso, é de fato uma alteração radical. Ela determinou uma situação inteiramente nova. Sai Eduardo Campos, fica Marina Silva e desaparece aos poucos Aécio Neves. Uma mudança que não se esperava, porque essa campanha toda, se a gente prestar um pouco de atenção, ter tempo para ela, percebe-se que ela se repete bastante. 

A postura da Dilma tem se mantido coerente todo o tempo. Ela faz a defesa do seu governo, faz a defesa das suas iniciativas e marca a presença dela exatamente nessa direção. Já antes o que havia era uma contestação, mas não havia uma proposta diferenciada. Isso vai aparecer com a Marina. É curioso, a morte do Eduardo Campos determina o esvaziamento aparente de Marina, o seu isolamento inicial, e logo depois há a exigência de uma retomada, dela e de seus companheiros. 

Na verdade, o que ocorreu agora é que todos aqueles que observam a uma certa distância, com um certo desinteresse, a cena política, se deram conta de que estavam diante de um fato novo, totalmente novo, que era o ressurgimento de uma candidatura. Ela não muda o discurso. Ela se mantém próxima da mulher que sempre foi. Se mantém coerentemente numa posição. Ela não tenta resgatar o passado recente de nada e não está acrescentando elemento novo nenhum, mas, na verdade, ela marca presença. E nessa presença há uma outra combinação que as pessoas começam a fazer: são duas mulheres. Uma delas presidirá o Brasil. Duas são as candidatas, porque o Aécio já não é mais. 

Então, isso alterou de tal modo que não é que a política tenha se renovado. Ela não se renova tão facilmente. Ela é muito repetitiva. Mas, o quadro político se modificou muito e agora as pessoas estão entre fazer justiça, recobrar o tempo perdido, reabilitar uma situação ou prestar mais atenção ainda no que está acontecendo. A política finalmente, nesse período, ficou séria. 
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* Jornalista. Escritor.
Fonte:Encontro com o Professor, 04/09/2014
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Ateia, ela quer “bater na porta do céu”

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Quem é Lisa Randall, a física materialista que lança hipóteses inovadoras sobre gravidade e eletromagnetismo, 
além de filosofar sobre ciência, religião, simetria e verdade 

  “A parte religiosa do cérebro não pode agir 
ao mesmo tempo que a científica. Elas são 
simplesmente incompatíveis”
Meio constrangida por seus belos olhos azuis que lembram a cinematográfica Jodie Foster, a nova-iorquina Lisa Randall coleciona feitos de causar espanto na maioria dos colegas de ciência. E assédios também. Ira Flatow, premiado âncora da rádio pública americana NPR, acabou nas páginas do New York Times por uma imprudência no ar. O blog de ciência Cosmic Variance acusou Flatow de estar passando uma cantada ao vivo na cientista, sem falar no conteúdo machista implícito do tipo “bonita e inteligente”.

Aos 49 anos, solteira e sem filhos, Randall é altamente competitiva, acredita no poder dos desafios e não quer nenhum desconto por ser mulher, como ela não cansa de repetir. Seu currículo dá inveja a qualquer marmanjo barbudo da área de física teórica. Além de ser a primeira mulher titular na cadeira de Física em Harvard, a universidade mais conceituada do mundo, ela coleciona as primeiras titularidades femininas em Princeton e no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). E foi a pessoa que mais se destacou em física teórica em todo o planeta durante cinco anos, período em que ocorreram mais de 10 mil citações de seu trabalho por outros cientistas.

A carreira de Randall começou na famosa e de difícil acesso Stuyvesant High School, em Nova York, onde foi colega de classe do não menos famoso cientista das teorias de cordas Brian Greene, autor de O universo elegante [Companhia das Letras, 2001] e O tecido do cosmo [Companhia das Letras, 2005]. Recentemente, ela foi de novo para a ribalta, meio a contragosto, quando o presidente de Harvard, Lawrence Summers, cometeu a gafe de declarar que são poucas as mulheres na ciência por causa de diferenças genéticas. Na polêmica que estourou, ele acabou tendo de admitir que falou demais e Randall foi indicada para trabalhar numa força-tarefa com o objetivo de monitorar a participação científica feminina e sugerir medidas reparadoras da situação.

Depois de conquistar seu lugar na difícil área da física teórica, Lisa enveredou também pelo campo da divulgação científica. Afinal, ela nunca abandonou as aulas tradicionais de física básica nas várias universidades por que passou.

Seu primeiro livro, Warped Passages (“Passagens torcidas”, sem tradução no Brasil), foi um grande sucesso internacional em 2005, mas aparentemente não vai chegar tão cedo ao leitor brasileiro, se algum dia chegar. Ela acaba de lançar sua segunda obra: “Batendo à porta do céu”, (Companhia das Letras, 2013). Enquanto Warped Passages foi um livro de divulgação científica essencialmente baseado no paper que lhe rendeu as mais de 10 mil citações, Knocking on heaven’s door (o título original é uma referência a uma canção de Bob Dylan) tem ambição mais ampla, enveredando até por teorizações filosóficas sobre a arte, beleza e verdade. Ou mesmo opiniões práticas sobre trivialidades, como os aparelhos da moda da Apple. “O iPod é só engraçado mas inútil”, escreve ela.

Knocking on heaven’s door, para Randall, que é declaradamente ateia, é uma metáfora da busca atávica dos humanos pelo conhecimento. Se os religiosos vão buscar revelações nas esferas celestes, Lisa tem outro caminho: a ciência e o materialismo, sem concessões místicas. “A parte religiosa do cérebro não pode agir ao mesmo tempo que a científica. Elas são simplesmente incompatíveis”, escreve ela. Os primeiros capítulos do livro são justamente de negação da revelação religiosa como fonte de conhecimento da natureza. Mas ela admite que “as pessoas querem respostas e orientações que a ciência não pode dar”, especialmente quanto ao conforto existencial.

Para entender seu mais recente livro, é preciso voltar ao primeiro: Warped Passages. Nele Lisa explica sua teoria para resolver um dos grandes mistérios da física: por que a gravidade é uma força tão fraca em comparação com as outras, como o magnetismo, a eletricidade e as forças atômicas? O problema pode parecer bizarro e menos importante que assuntos mais populares como o famoso bóson de Higgs ou o big bang, mas, se for resolvido, pode levar à solução de muitos outros problemas atualmente intratáveis da física e da cosmologia. Quem leva um tombo imagina que a força da gravidade é poderosa, mas basta um ímã para atrair um clipe metálico, vencendo a força da gravidade de todo o planeta.

Curiosamente, Lisa teve o seu encontro traumático com a gravidade numa desastrada aventura de alpinismo, que pratica sempre que tem folga. Despencou de uma montanha e acordou num helicóptero, voando às pressas para o hospital, com o calcanhar quase destruído e escoriações generalizadas. Ela foi acidentalmente atraída pela gravidade, quando escalava uma rocha no Parque Nacional de Yosemite.


A pancada gravitacional teve sua compensação, como no caso de Newton, que teria sido inspirado pela queda gravitacional de uma maçã na sua cabeça. Durante vários meses, presa a uma cama com a perna engessada, rascunhou o Warped Passages e pôde refletir ironicamente sobre a força da gravidade, que considera ser tão fraca. Se a força da gravidade fosse um pouco mais forte, o tombo de Yosemite resultaria num bonito epitáfio: aqui jaz a jovem Lisa Randall, a física teórica mais citada durante cinco anos, aquela para quem o inglês Stephen Hawking guarda o lugar na mesa enquanto ela vai ao pódio proferir suas esotéricas palestras teóricas, sobre dimensões adicionais ocultas do nosso Universo.
Warped Passages não é uma obra de exploração dos mundos com mais dimensões, mas sim uma que usa o recurso de uma dimensão adicional oculta para explicar a debilidade da força gravitacional. Não espere encontrar especulações sobre como poderiam ser os seres grotescos ou formidáveis de uma dimensão onde a força da gravidade é tão poderosa. Mas ao longo do livro vão aparecer coisas espantosamente exóticas como as “branas”, o nome genérico da nossa popular membrana, que é uma entidade matemática de três dimensões, como o couro de um tambor. Uma membrana clássica é um caso particular de brana com apenas duas dimensões, mas teoricamente poderia ter mais dimensões. Quando essa brana tridimensional ressoa, ela obedece a equações matemáticas da mesma forma que uma corda de violino ou um batuque do tambor.
A totalidade do Universo é uma coisa chamada “bulk” (o volume) ou “espaço de imersão”, com muitas dimensões. Dentro dele podem existir várias branas-mundos, também de dimensões variadas, mas sempre com menos dimensões que o “bulk”. Segundo a tese de Lisa, vivemos numa brana privilegiada (do nosso ponto de vista, claro), com três dimensões espaciais e o espaço-tempo. Mas, por algum acidente cósmico ou por força de alguma lei desconhecida, a gravidade, que faz maçãs e alpinistas despencarem, não mora na nossa brana. As branas que ela afeta estão quase amontoadas em outra, batizada de brana-Planck, onde ela reina absoluta e com potência plena.

Quando Randall e seu colega coautor Raman Sundrum fizeram os cálculos e equações, em 1999, descobriram que o caminho ou o tecido do espaço-tempo entre as branas contidas no “bulk”, o nosso Universo, teria de ser fortemente torcido. Quer dizer, a força da gravidade (ou os grávitons, suas partículas portadoras) tinha de vazar da brana-Planck e se retorcer até a nossa brana, a que contém todas as nossas galáxias visíveis. Por essa razão, a gravidade chega aqui tão fraca, teoriza a pesquisadora americana. Na brana onde ela se origina, é tão forte como o eletromagnetismo e as forças atômicas – se essas forças existirem lá.

Pode parecer coisa de ficção científica, mas os cientistas do Cern, o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares, levaram a tese de Lisa a sério, e estão preparando experimentos no LHC, o grande colisor de prótons, para testar a teoria. Quando o LHC estiver operando a todo vapor, existe a possibilidade de aparecerem nos detectores os rastros de uma partícula viajante de outra dimensão. A partícula KK (Kaluza-Klein), como seria apelidado esse viajante, no entanto, é muito furtiva. Os físicos de partículas vão ter de se contentar em ver apenas os rastros deixados pelos viajantes da outra dimensão.

O grande colisor do Cern é como uma superpista onde dois feixes de prótons, acelerados em direções opostas, colidem numa área cheia de detectores. A colisão quebra os prótons e, além dos cacos, gera energias suficientes para criar novas partículas, segundo a fórmula E = mc2. Como as energias são muito altas, aparecerão partículas muito pesadas e instáveis, que não existem livres na natureza.

Uma delas pode ser a Kaluza-Klein, segundo espera Randall. Essa entidade na verdade está prevista desde 1920, quando os físicos Theodor Kaluza e Oskar Klein resolveram adicionar mais dimensões às equações relativísticas de Einstein. Essa famosa equação de gravitação universal é matematicamente escalável. Isso quer dizer que o físico pode incluir nela tantas dimensões (além das tradicionais x, y, z) quanto quiser, sem atrapalhar a consistência matemática e ortodoxia da equação. Foi esse também o caminho que Lisa e Raman Sundrum tomaram. Partiram dessas clássicas equações einsteinianas, incluindo mais uma dimensão que não conseguimos ver ou detectar. A única concessão não ortodoxa, e bem eclética, foi usar a ideia matemática da brana, um conceito que vem da polêmica teoria de cordas. Pelos cálculos de Lisa e Sundrum, os “raios” de gravidade (ou a rota dos grávitons, que seriam as partículas portadoras da força de gravidade) não sairiam da sua brana de origem em feixes paralelos, mas, por exigências matemáticas, teriam de avançar num espaço-tempo espremido e torcido, onde perderiam força exponencialmente. A partícula KK, se detectada no LHC, viria de um universo onde a hierarquia das forças seria respeitada, sendo a gravidade tão forte quanto as outras forças básicas da natureza cósmica.

Knocking on heaven’s door é uma obra mais ambiciosa, se não em profundidade, pelo menos em abrangência. Segundo a autora, são dois livros na verdade. “Um é a origem do meu primeiro livro, combinada com uma atualização sobre onde estamos agora e sobre a expectativa que temos”, especificamente sobre os coelhos imprevistos que podem sair do chapéu mágico dos dados revelados pelo LHC nos próximos anos. Apesar de ser física teórica de formação, Lisa mergulhou nos detalhes técnicos de engenharia dessa monumental máquina – a maior já construída no planeta – para explicar como ela vai funcionar e o que poderia se esperar dela. Os problemas técnicos e eletrônicos não são apenas detalhes. Afinal, sua teoria do viajante de outra dimensão vai ser testada no LHC e ela quer saber todos os detalhes de como isso vai ser feito.

De fato, os cientistas do LHC, além da teoria geral, devem dominar a tecnologia eletrônica dos detectores que vão registrar os rastros das partículas resultantes das colisões de prótons no acelerador. Os sensores do LHC são tão sensíveis que os físicos tiveram de adicionar aos softwares de registro coisas como o nível da água no Lago Genebra, que fica perto do colisor e pode alterar as leituras embaixo da terra. No LHC, a fronteira entre físicos teóricos e experimentais está embaralhada e não há lugar para especializações estanques. Nos primórdios da física de partículas, esses sensores, além de toscos, deixavam rastros visíveis ao olho do pesquisador. Por exemplo, usavam-se filmes fotográficos onde as partículas deixavam um rastro por onde passavam e o enxame de outras partículas quando havia desintegração ou choque. Mas as partículas que o LHC busca são muito ariscas. Elas raramente interagem visualmente com o material do sensor. Bizarramente, muitas das medidas que vão ser feitas miram em partículas que simplesmente desaparecem. Mas sabendo a energia e a trajetória da partícula original, os cientistas podem calcular a diferença de energia que desapareceu. Isso quer dizer que foi formada uma partícula que não interage com as formas de matéria dos sensores e das forças conhecidas ou que simplesmente fugiu para outra dimensão.

Para quem tiver a perseverança de atravessar esse capítulo – que a própria autora sugere pular -, a obra apresenta um sintético balanço do estado atual dos conhecimentos científicos sobre a matéria. Em resumo, estamos praticamente onde estávamos na década de 1970, quando foi consolidado o chamado “modelo-padrão”, uma tabela que reúne de forma organizada todas as forças e partículas conhecidas, com a notável exceção da força da gravidade.

O LHC, essa poderosa máquina europeia, vai provocar colisões com as energias existentes no universo na idade de apenas alguns trilionésimos de segundo após o big bang. Nos destroços dessas colisões, os físicos esperam achar sinais de novas partículas que não só revelem o bóson de Higgs, a partícula que dá massa a todas as outras, mas também ampliem o modelo-padrão. E como surgiu esse milagroso bóson de Higgs, também apelidado de “partícula Deus”?

Nesses trilionésimos de segundo após o big bang, o universo se expandiu, esfriou e mudou de fase, “como a transição de fase que acontece quando a água líquida em ebulição passa à fase de vapor”. Para os adeptos do materialismo dialético, é a famosa transição de saltos quantitativos para um salto qualitativo hegeliano. Nessa nova fase do universo em expansão, aparece um campo qualitativamente novo, o campo de Higgs. As partículas que interagem com ele ganham massa, assim como o elétron ganha carga elétrica do campo eletromagnético. O fóton não interage com o campo de Higgs e, portanto, não tem massa e pode viajar na velocidade da luz, sem sofrer “atrito” com esse campo milagroso.

A parte do livro em que Lisa filosofa sobre ciência, simetria, beleza e verdade não é diletantismo poético, e sim uma prática de metodologia. Desde o surgimento da mecânica quântica, no começo do século passado, muitos cientistas teóricos foram tentados a ver a “elegância” de uma equação matemática como prova da sua verdade. Hoje em dia, a teoria de cordas é essencialmente uma formulação matemática abstrata e bonita, que não tem como ser provada na prática. A teoria de cordas e sua rival, a da gravitação quântica, são teorias chamadas de “top-botton” (de cima para baixo), nas quais os elementos primordiais são definidos e depois se deduzem as escalas mais baixas. Lisa é adepta de abordagens “botton-top” (de baixo para cima). Ela parte da nossa realidade conhecida e sobe as escalas de energia para tentar chegar até o topo, numa suposta teoria final que explique tudo e una a teoria da relatividade com a mecânica quântica.

Mas, enquanto isso, ela lida com o conceito de “teoria efetiva” que vale numa determinada “escala”. Assim ela afasta, provisoriamente, o espinhoso problema da unificação da teoria da relatividade com a mecânica quântica, coisa em que Albert Einstein se empenhou sem sucesso até o fim da vida.

Há também um capítulo que trata especificamente da ideia de simetria. Mas o conceito é mais amplo do que o da beleza simétrica de borboletas, faces humanas ou da pintura e fotografia em geral. Na física, a simetria inclui também a simetria de forças e equações. A quebra de simetria, muito ao gosto da pintura japonesa, como observa Lisa, tem consequências fundamentais para as leis físicas. Quando a natureza exclui uma opção simétrica, coisas espantosas acontecem. O fenômeno físico mais famoso, que também vai ser testado no LHC, é o aparecimento de um campo de forças assimétrico para o bóson de Higgs, que, como já foi dito, confere massa a todas as partículas, da mesma maneira que um campo elétrico confere carga elétrica a um elétron. Outro fenômeno que está sendo estudado no LHC envolve a quebra de simetria entre a quantidade de matéria e antimatéria logo após o big bang. Não fosse a natureza favorecer a matéria comum, por alguma razão ainda não totalmente esclarecida, matéria e antimatéria teriam se aniquilado ao longo do tempo e só restaria a energia pura no universo. Portanto, estamos aqui estudando o big bang no LHC porque a natureza violou uma simetria básica. Se os filósofos gregos imaginavam que beleza, simetria e verdade eram a mesma coisa, erraram redondamente. Ou melhor, esfericamente, nessa nova era de coisas multidimensionais.
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Reportagem  Por Flávio de Carvalho Serpa, na Retrato do Brasil
Fonte:http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/ateia-ela-quer-bater-na-porta-do-ceu-2/