sexta-feira, 3 de outubro de 2014

QUANDO TUDO NOS DIZ RESPEITO

Dissertação demonstra como processo de globalização redefine noção de fronteira e o papel do Estado

A globalização não é uma força uniformizante das culturas ou uma ideologia imposta pelo capitalismo global, mas um processo que emerge do avanço tecnológico e que, embora traga desafios, vem estimulado a vivência da diversidade e a emergência de uma empatia global, na qual pessoas de credos e culturas diferentes podem ver-se como membros de uma humanidade comum, acredita o pesquisador Danilo Arnaut, autor da dissertação de mestrado “A inteligência do mundo: sobre a cognição de processos globais em Octavio Ianni e Ulrich Beck”, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFHC) da Unicamp e orientada pelo professor Renato Ortiz.

“O uso de uma burca, em certas partes do mundo, e os conflitos que isso porventura implique, passam a ser um tema de interesse global, algo que está presente, em maior ou menor medida, na nossa sociabilidade cotidiana”, exemplificou ele, em entrevista ao Jornal da Unicamp. “Podemos ver isso como uma novidade histórica. Afinal, diferentemente do que acontecia até o século 19, conseguimos nos vislumbrar numa situação próxima à daquela pessoa”. Ele cita, em contraste, as Exposições Universais do século retrasado, como a realizada em 1867 em Paris, onde “pessoas iam para assistir à diferença, como num zoológico humano”. 

“Hoje, egípcios, tunisianos, líbios, marroquinos, argelinos, omanianos etc., nos movimentos da chamada Primavera Árabe, não são percebidos assim”, exemplifica. “Quando vemos uma imagem deles, no jornal, na televisão ou mesmo no Facebook, conseguimos visualizar aquelas pessoas como próximas de nós e perceber que aqueles movimentos, aparentemente locais, também nos dizem respeito. Nesse sentido, podemos falar num outro global. Essa percepção trespassa fronteiras estatais e culturais”.

“Tenho a impressão de que este é um passo fantástico na história da humanidade. Sim, isso anuncia a construção de uma humanidade, que é um sonho filosófico e historiográfico há muito tempo”.

Processos

Arnaut trata a globalização como processos que ocorrem sem controle ou direção consciente de uma pessoa ou grupo. “Parece frutífero abordar a globalização também como um fenômeno, ou seja, uma coisa que se apresenta a nós, à qual não podemos controlar. Por isso, é muito difícil dizer ‘sou antiglobalização’ ou ‘sou a favor’. Esta postura é ingênua: a globalização está aí, dá-se. São processos históricos, que acontecem a despeito da nossa vontade individual, e mesmo da coletiva. Não há uma sociedade que produza a globalização”.

O pesquisador lembra que, quando os estudos sobre globalização começaram a ganhar fôlego e volume, na década de 1990 do século passado, havia a ideia de que o fenômeno poderia ser entendido como uma ideologia. Segundo Arnaut, esta abordagem mostrou-se equivocada. “Autores muito importantes para a sociologia, como Pierre Bourdieu, achavam que a globalização era uma ideologia neoliberal. Como ele, outros estudiosos que eram considerados referências na época não perceberam de fato a efetividade dos processos de globalização”, disse. 

“Por isso tentei observar que a globalização pode ser mais adequadamente estudada como um fenômeno, ou enquanto processos de globalização. Tacitamente, estou rejeitando a ideia de que seja uma ideologia. Não se trata de um ‘plano’ de alguém, nem de uma falsa consciência da realidade. A globalização se dá, e no plano da realidade efetiva (para retomar a distinção hegeliana entre Realität e Wirklichkeit); ela ocorre e as pessoas dão-se conta disso, aos poucos ou de repente”.

Os processos de globalização, disse ele, envolvem dinâmicas sociais, econômicas, políticas, culturais, jurídicas, ecológicas, entre outras, que se dão em escala global. “Um exemplo disso são as famílias planetárias, famílias que se constituem numa situação de globalização: é possível que você viva aqui e namore alguém que reside na Indonésia ou no Japão, e que vocês construam uma relação complexa e duradoura, por conta dessa conectividade possibilitada através de meios tecnológicos. A questão é que, note-se, isso transcende a tecnologia”.

Mesmo rejeitando a ideia de que a globalização seria fruto de uma conspiração capitalista ou uma imposição da ideologia neoliberal, Arnaut vê relações entre o fenômeno e o desenvolvimento tecnológico atrelado ao capital. “Eu tendo a pensar que as condições de possibilidade da globalização guardam relações com o desenvolvimento tecnológico”, afirmou. “As possibilidades de conexão de que dispomos hoje, os meios de transporte, as redes mundiais etc., tudo isso possibilitou os desenvolvimentos que vieram depois disso. E esses desenvolvimentos têm a ver com capital, mas também com cultura, e outras coisas. Então, nesse sentido, creio que ser possível afirmar que haja uma relação de causalidade – conquanto não de determinação – entre uma coisa e outra”. 

Sendo um conjunto de processos, a globalização não está concluída, e nem ocorre de modo uniforme. “Às vezes, principalmente através de certos discursos midiáticos, interesses de mercado ou mesmo de uma literatura acadêmica menos cuidadosa, acabamos por ter a impressão de que o mundo se globalizou, e pronto. Mas não é bem assim. Tratam-se de processos não lineares, de modo que a globalização não se dá do mesmo modo no mundo inteiro: pode-se dizer que ela é mais evidente em certos pontos do planeta. Assim, em São Paulo, Nova Iorque ou Pequim, por exemplo, são muito mais visíveis os processos de globalização, do que em cidades menos cosmopolitas”.

Sociedade global

A despeito do surgimento de famílias globais e da visão do “outro global”, Arnaut diz que ainda é muito cedo para se falar numa sociedade mundial. “Há uma certa corrente na sociologia que entende a sociedade como um sistema que se constitui a partir de comunicação eficiente de sentido. Se as gentes têm essa possibilidade de se comunicar de maneira eficiente mundo afora, isso é entendido como se a sociedade estivesse se expandindo. Essa foi uma tônica do debate por muito tempo: a existência de uma sociedade global em emergência”.


Hoje, no entanto, a questão não é mais vista dessa forma: “Podemos captar boa parte dos problemas da ideia de uma sociedade global na esfera da política. Nós não temos uma esfera pública que se reproduza planetariamente. Não há uma jurisdição global, por exemplo. Ao menos por ora. Nesse sentido, é arriscado falar em sociedade global. Mas o insight é interessante: essa expansão de possibilidades é bastante profícua para alimentar a inteligência de diversas questões contemporâneas”.

A globalização enfraquece o Estado nacional, que deixa de ser “o emblema da sociedade”, mas não necessariamente destrói identidades que, de modo tradicional, podem ser vistas como nacionais, ou mesmo provincianas. Ao contrário, disse o pesquisador, essas identidades passam a poder reivindicar uma legitimidade global. 

Arnaut cita os exemplos hipotéticos de um grupo de capoeira ou de um terreiro de umbanda no Japão.  “São identidades culturais que se reivindicam, digamos assim, como existentes e como uma unidade coerente em qualquer ponto do espaço. Hoje é possível ir à Alemanha ou ao Japão e lá ter uma performance com capoeiristas do Pelourinho – mas, note-se, será muito possivelmente a capoeira de uma determinada comunidade ou grupo, que está lá, e reivindica um lugar para si”.

Enquanto, por um lado, essas identidades “provincianas” se reivindicam universais, por outro elas não se misturam totalmente, nem se diluem: “Não se descaracterizam necessariamente. E essa passagem do provinciano, do local, para o que podemos chamar de transnacional, trespassa o Estado nacional. O Estado-nação não determina mais isso. É importante notar que quando o grupo de capoeira do exemplo vai para a Alemanha, ou à Rússia, ou a outra parte, ele não vai apenas como um grupo de capoeira brasileira, mas pretende levar a capoeira de uma tal cidade, ou região específicas. É claro que alguém vai dizer: ‘é brasileiro’; mas o Estado brasileiro e mesmo o caráter nacional não necessariamente lhe definem, nem lhe (des)autorizam”. 

Em termos de direitos humanos, o olhar global tem o potencial de minorar o poder de Estados nacionais em oprimir suas próprias populações. “Num contexto global, numa espécie de política interna mundial, os Estados têm cada vez mais que se reportar a uma comunidade internacional, uma comunidade política planetária e justificar, cada vez mais, certos atos”, disse o pesquisador. “Então, relativismos do tipo ‘é assim que funciona aqui’ tornam-se mais difíceis de justificar. É claro que muita coisa é feita às escondidas e mesmo à revelia dessa alteridade global, mas é preciso notar que a legitimação das ações do Estado não se dá mais por si só”.

Guerra

Ao mesmo tempo em que a globalização traz à tona a possibilidade de maior convivência na diversidade e universalização dos direitos humanos, o pesquisador vê vários riscos no processo. “A realização da humanidade é, nesses termos, uma coisa belíssima”, disse. “Mas temos um mundo que está em guerra constantemente, cotidianamente, globalmente. E a guerra hoje é vivenciada por todos, mesmo por quem não se vê em campos de batalha. Damo-nos conta, aos poucos ou subitamente, de que há riscos efetivamente globais”. Hoje, lembra ele, guerras são travadas não apenas entre Estados, mas também entre indivíduos, ou ainda são movidas por indivíduos contra Estados, e vice-versa. “O terrorismo, aliás, pode ser visto desta maneira. No atentado às Torres Gêmeas, por exemplo, há indivíduos que ousam desafiar Estados, e os desafiam”.

“Com efeito, a esperança é um esforço. E o otimismo é mais o fruto de uma luta cotidiana que de uma evidência”.

Publicação
Dissertação: “A inteligência do mundo: sobre a cognição de processos globais em Octavio Ianni e Ulrich Beck”
Autor: Danilo ArnautOrientador: Renato Ortiz
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFHC)
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SANTA CIÊNCIA

Pesquisa de doutorado sugere que programa televisivo “sacraliza” avanços científicos

Formada em rádio e televisão pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), Daniella Rubbo Rodrigues Rondelli vem estudando a relação da imprensa com a ciência desde a graduação. Esse interesse se transformou em dissertação de mestrado e teve como desdobramento natural a tese de doutorado intitulada “As (in)certezas da ciência: uma análise das representações da ciência médica no programa Fantástico”, defendida sob a orientação da professora Maria José Rodrigues Faria Coracini, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp.

Daniella Rubbo partiu de uma hipótese simples: que apesar de a cultura logocêntrica ocidental contrapor ciência e religião como formas antagônicas de conceber o mundo, o discurso da mídia constrói representações de ciência que se aproximam das representações de religião. “O antagonismo na prática científica e religiosa é tomado como pressuposto não porque realmente existam diferenças que separem os dois campos, mas porque ambos têm a pretensão de deter a verdade.”

Inicialmente, a autora da tese quis verificar como a mídia, principalmente a TV, trata a ciência de maneira meio mistificada, sacralizada. Ela observa que o “Fantástico” possui mais de 40 anos de história e por isso foi o programa escolhido para que procurasse entender as relações de poder entre mídia, ciência e público na contemporaneidade. “O recorte temporal foi de um ano, em que colhi 104 reportagens. Como são muitas as matérias de ciências, eu decidi por um recorte mais específico, trabalhando apenas com as de medicina, que têm grande repercussão e são as mais comentadas pelo público leigo.”

Na leitura atenta das matérias, Daniella Rubbo verificou diversos pontos de aproximação entre medicina e religião, que agrupou em três grandes eixos: “ascese”, “promessa” e “sacralidade”, todos eles unidos pela necessidade de “fé”. “Chamo de ascese o eixo em que o médico é colocado como alguém que precisa fazer sacrifícios pessoais, doar algo de si próprio para exercer esta profissão. Há o eixo da promessa de uma vida melhor, desde que o espectador confie e se entregue às regras da medicina. E vemos a marca fortíssima da sacralização, quando até mesmo para o mais desesperançado a medicina promete a salvação, através de um novo procedimento médico e do avanço da ciência.”

A radialista acrescenta que esses três eixos têm como exigência comum a fé irrestrita no conhecimento médico, o que representaria um quarto laço entre ciência e religião. “Um aspecto curioso é que embora a construção desta visão de fé seja a marca do Fantástico, ao observarmos cientificamente o corpus da pesquisa, percebemos que o próprio médico acredita muito naquilo que está falando.”

Histórico

O Fantástico foi ao ar pela primeira vez em agosto de 1973, mesmo ano de nascimento de Daniella Rubbo, coincidência que a levou à constatação de que toda a sua geração encontrou no discurso do programa as referências iniciais para a construção de um ideário sobre a ciência brasileira. “É difícil encontrar alguma edição em que a ciência não tenha sido abordada. E a tendência pela medicina está presente desde o primeiro programa, cuja pauta continha uma entrevista com o cirurgião plástico Ivo Pitanguy; uma matéria mostrando o momento em que o jogador Tostão recebia um laudo médico que o obrigava a abandonar o futebol; e uma reportagem sobre uma técnica de criogenia, desenvolvida nos Estados Unidos, com pretensão de congelar pacientes de doenças ainda sem cura para que, no futuro, fossem tratados.”

Na tese, a autora retrocede aos tempos de Vargas, de JK e do golpe militar para oferecer um histórico sobre as circunstâncias e ações políticas e econômicas que favoreceram a Rede Globo para que se tornasse o mais poderoso grupo de mídia do Brasil. “A década de 1960 vai ser marcada por grandes transformações políticas e sociais, que terão os meios de comunicação como um importante vetor na reconfiguração dos jogos de poder. Antigos grupos de mídia deram lugar a outros, mais alinhados com os interesses econômicos, políticos e militares do momento. Dentre esses interesses havia a necessidade de adaptar uma população tradicionalmente agrária e pouco alfabetizada ao novo contexto urbano-industrial.”

Na visão da pesquisadora, a Globo desenhou seu modelo entre tradição e modernidade, ainda que isso resultasse em contradições como de ser a única emissora a ter um correspondente no Vaticano e, ao mesmo tempo, a primeira a retratar a vida de uma mulher divorciada. “O Fantástico falava da importância da ciência e das grandes descobertas até para que a população deixasse de acreditar tanto no padre e mais no médico. E cumpre até hoje esse papel, embora a condição da população e sua relação com a ciência fosse mudando. Só não muda o programa, um dos mais estáveis da rede e que teve seu horário alterado apenas em meia hora.”

A radialista recorda que o programa sempre foi marcado por um caráter tradicional e respeitoso à religião católica, mas em muitos momentos escapa dessas premissas conservadoras. “Como exemplo, em 1978, o Fantástico exibiu uma gravação de Maria Bethânia cantando ‘Cálice’,  canção de Chico Buarque e Gilberto Gil, ambos exilados pelo governo militar, e que ficou conhecida como um hino de resistência. Da mesma forma, ao longo de sua história podemos encontrar momentos em que o programa abre espaço para outras religiões, como em diversas matérias sobre o médium Chico Xavier ou curas por intermédio de intervenções espirituais.”

Na visão de Daniella Rubbo, essas primeiras reportagens também exemplificam a vocação do Fantástico para tratar a ciência como um espetáculo que promete uma vida melhor, mais desejável e mais segura. “O próprio nome escolhido, ‘Fantástico: o show da vida’, aponta nessa direção. Uma marca ainda mais contundente desta inclinação é seu primeiro jingle, que funciona como uma espécie de declaração de intenções do programa. A composição é do músico Guto Graça Mello e do diretor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o famoso Boni, homem forte da emissora e idealizador do programa”.

A letra do tema de abertura do Fantástico está inserida na tese de Daniella Rubbo:

Olhe bem preste atenção Nada na mão nessa também Nós temos mágica para fazer Assim é a vida, olhe pra ver Milhares de sonhos, só para sonhar Miragens que não se pode tocar Numa fração de um segundo Qualquer emoção agita o mundo Riso, criado por quem é mestre Sexo, sem ele o mundo não cresceGuerra para matar e morrer Amor que ensina a viver Foguetes no espaço num mundo infinito Provando que tudo não passa de um mito É Fantástico, da idade da pedra ao homem de plástico, o show da vidaÉ fantástico

 
Um médico abnegado
Das 104 reportagens do Fantástico que Daniella Rubbo gravou durante um ano, ela selecionou diversas para o CD que acompanha sua tese de doutorado, no intuito de mostrar momentos do programa em que aparece a divergência entre ciência e fé. Um colaborador fixo e que exerce grande influência sobre os telespectadores é o médico Dráuzio Varella que, na opinião da pesquisadora, ganha no programa uma imagem abnegada, competente e esforçada. “Sua figura remete à de um sacerdote oferecendo a salvação. Há uma matéria versando sobre pesquisas de novos medicamentos em que ele aparece num barco, atravessando o rio Amazonas, como um missionário que abandona todo o conforto da cidade e coloca muito de si para ir atrás dessas curas”.

Daniella Rubbo acrescenta que a cena é do quadro “É bom pra quê?”, série limitada de reportagens produzidas sob o comando de Varella e que se propunha a discutir o uso de produtos caseiros, como plantas e chás, no tratamento de doenças. “O nome do quadro sugere que a reportagem promoverá uma reconciliação entre ciência e senso comum. Porém, essa reconciliação é aparente, já que o próprio apresentador veiculará a segurança do procedimento médico-científico – ‘Do tubo de ensaio ao balcão da farmácia’. Ou seja, as plantas só serão úteis e seguras se passarem pelo crivo da ciência.”

Segundo a autora da tese, ainda que o Fantástico conceda espaço inclusive para manifestações de resistência à hegemonia do conhecimento científico, seus dizeres acabam reafirmando a verdade científica em detrimento de outras possibilidades. “Esse viés do programa está presente na maior parte do material que analisamos, mas se faz particularmente importante quando tratamos da participação de Dráuzio Varella. Por ocupar a dupla função de médico e de comunicador (fazendo-se por vezes de repórter), tende a diminuir a tensão entre o poder exercido pela ciência e o exercido pela mídia, emprestando ao cientista a visibilidade da mídia e ao jornalista, a credibilidade da ciência.”

Nem por isso, Daniella Rubbo deixou de identificar uma reportagem em que a promessa parece ser suplantada ou, pelo menos, sofre resistência das promessas religiosas. A pauta é sobre o milagre, reconhecido pela Igreja, que permitiu a beatificação de Irmã Dulce: foi atribuída à intercessão da religiosa a recuperação de uma mulher após intensa hemorragia durante o parto, depois de passar por três cirurgias e acabar desacreditada pelos médicos. Um padre pediu socorro a Irmã Dulce, colando uma foto da santa sobre o frasco de soro.

Na visão da pesquisadora, esta reportagem parece corroborar a ideia de que a religião tem um poder de interferir sobre a vida das pessoas, apontando, afinal, para a suposta dicotomia entre ciência e religião. “Depreendemos que, enquanto há espaço para a medicina, a religião fica apagada como forma de explicar e interferir no mundo, ganhando espaço apenas quando a primeira atinge seus limites. Por tal via, a religião estaria além, seria mais importante do que a própria medicina e, principalmente, seria incompatível com as verdades médicas.”

Publicação
Tese: “As (in)certezas da ciência: uma análise das representações da ciência médica no programa Fantástico”
Autora: Daniella Rubbo Rodrigues RondelliOrientadora: Maria José Rodrigues Faria CoraciniUnidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)
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Texto: LUIZ SUGIMOTO
Fotos: Divulgação/Reprodução Antonio Scarpinetti
Edição de Imagens:  Diana Melo
Fonte:  http://www.unicamp.br/unicamp/ju/609/santa-ciencia

AS BATALHAS QUE O NOVO PRESIDENTE DEVE GANHAR

 
Quais devem ser as prioridades do próximo presidente da República? Na campanha eleitoral, há uma inflação de promessas feitas em propagandas na TV e no rádio, em debates, comícios e entrevistas, mas você, caro eleitor, o que considera essencial para que candidato escolhido nestas eleições tenha um desempenho satisfatório no Palácio do Planalto? O Valor fez essa pergunta a 40 pessoas, entre executivos, artistas, empresários, profissionais liberais e acadêmicos.

A maioria - 32% dos consultados - pediu mais atenção à educação, do ensino básico à universidade, passando pela valorização dos professores, a qualquer candidato que seja eleito. "É necessária uma reforma geral do setor no país", diz o ator Jesuíta Barbosa, 23 anos, que atuou no filme "Praia do Futuro" e na telenovela "O Rebu". Uma pesquisa realizada pelo Datafolha no início do ano mostrou, de fato, que para 9% dos entrevistados a educação era um dos principais problemas a ser enfrentado no país, atrás de saúde (45%), segurança (18%) e corrupção (10%).

Para os entrevistados do Valor, em segundo lugar aparecem ideias para uma melhor gestão da máquina pública, com corte de gastos e equilíbrio das contas do governo (15%), seguidas por mudanças na política econômica para a retomada do crescimento (12,5%). "Precisamos também eliminar os gargalos de infraestrutura para o desenvolvimento econômico e social", diz Evaldo Alves, professor de economia internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que chama a atenção para um plano de investimentos em áreas como energia, portos, aeroportos, rodovias e ferrovias.

Os depoimentos citam ainda a realização das reformas política e tributária, ações para conquistar a confiança da população no poder federal e a criação de diretrizes para um crescimento sustentável. "É importante cercar-se de gente honesta no poder para garantir o apoio dos cidadãos", afirma o publicitário Júlio Ribeiro, chairman da Talent.

Preocupações com um ambiente de negócios mais seguro para atrair investimentos e o aumento da competitividade das empresas também foram mencionados. Em comum, os entrevistados parecem ter pressa em ver planos de papel transformados em ação. "Assumiu, publicou a agenda dos próximos seis meses", diz Horácio Lafer Piva, conselheiro da Klabin.


Falem menos e façam mais


Silvia Costanti / Valor 
Paulo Herz
O próximo presidente da República deve colocar para funcionar o que já existe. Nada mais funciona na máquina pública. O desrespeito com o cidadão é tão grande que, qualquer que seja a melhoria, será percebida, facilmente, por qualquer um, de Norte a Sul. A vantagem de fazer isso é que nenhuma negociação com o Congresso seria necessária, assim como nenhuma lei ou medida provisória, pois tudo já está pronto. Trata-se de uma questão de gestão. Coisa que, infelizmente, parece ser um “palavrão”. Compromissos assumidos na campanha são ignorados no dia seguinte da eleição. É necessário que fale menos e faça mais, pois estamos desgovernados e pagando um alto preço por isso.
Pedro Herz, presidente do conselho de administração da Livraria Cultura

Daniela Dacorso / Agência O Globo 
Jesuíta Barbosa
Arte e filosofia devem fazer parte do ensino
A plataforma do novo presidente deve incluir uma intensa reforma na educação e mudança imediata na formatação do ensino escolar, com ênfase para arte e filosofia.
Jesuíta Barbosa, ator

Aline Massuca / Valor 
Roberta Sudbrack
Focar na educação e combater a inflação
O novo governo deve dar prioridade para a educação e o combate à inflação. O caminho passa pela valorização do professor, que deveria ser a verdadeira “celebridade”, pela modernização dos currículos e autonomia das escolas e universidades. Negligenciar a educação é um erro estratégico. Não há como pensar em um projeto de desenvolvimento nacional que não respeite as especificidades regionais. Já o combate à inflação pode ser obtido com a redução do gasto público. O Estado tem papel fundamental na indução do desenvolvimento, mas está enorme, tem muitos ministérios, muita burocracia e pouca eficiência. A inflação nos obriga a conviver com altas taxas de juros, atinge o estômago do trabalhador, corrói o salário.
Roberta Sudbrack, chef de cozinha

Educar para alcançar melhores índices de crescimento
O país somente será mais produtivo com um forte investimento na educação. Um estudo realizado pelo International Institute for Management Development e pela Fundação Dom Cabral sobre o Índice de Competitividade Mundial em 2014 destaca os Estados Unidos e a Suíça como as economias mais competitivas do mundo. São nações reconhecidas pela educação que oferecem. Segundo o relatório, ocupamos o 54 lugar em um ranking composto de 60 países. Trata-se de um importante desafio, mas o Brasil tem potencial e, com planejamento e uma boa aplicação dos recursos na educação, alcançaremos melhores índices de crescimento.
Cleber Morais, presidente da Bematech

Ana Paula Paiva / Valor 
Horácio Lafer Piva
Eficiência no setor público e menos paternalismo
O novo governo deve buscar eficiência no setor público e na ação política. Um Estado menor e mais focado, com contas em ordem, compromissos com a estabilidade, crescimento sem volatilidades. Reforma tributária para liberar o potencial empreendedor, mudança previdenciária para adequar-se ao futuro, talvez política para aproximar a sociedade do poder. Agências fortes e acordos internacionais generosos. E competitividade, produtividade, inovação. Menos paternalismo e mais meritocracia. Como? Há diagnósticos e centenas de propostas. Reformas que enfrentem interesses, escolha certa de apoios no Congresso e sentido de urgência. Assumiu, publicou a agenda dos próximos seis meses.
Horácio Lafer Piva, industrial e conselheiro da Klabin

É preciso que se estabeleça uma reforma política
O novo presidente deve propor uma reforma política. Todos os candidatos concordam nesse ponto, mas nunca conseguem executá-lo quando assumem o poder. Está claro que a maior motivação do voto, nessa eleição, é a insatisfação com o sistema de democracia representativa que, por necessidade de governabilidade, gerou tanta corrupção no centro do poder. Como resolver? Alguns apontam para os recursos da democracia direta, como os plebiscitos. Outra ideia é a constituinte específica. O importante é que, por meio da manifestação desse sufrágio, os políticos estariam atentos à necessidade de responder à população sem corporativismo.
Geórgia Costa Araújo, produtora de cinema

Claudio Belli / Valor 
Emanoel Araujo
Realizar ampla campanha contra desigualdade racial
Enviar um pacote de projetos estruturantes ao Congresso Nacional que inclua as reformas política e tributária, da segurança pública e da educação. Há ainda um outro ponto crucial: o recrudescimento do preconceito racial no país. As políticas públicas relativas às ações afirmativas ainda não estão totalmente estabelecidas na cultura nacional. O próximo presidente deve ter em mente que a inclusão socioeconômica é de suma importância para combater a violência contra crianças e adolescentes, sobretudo negros. Deve também realizar uma ampla campanha de reconhecimento das desigualdades impostas historicamente à população negra do Brasil.
Emanoel Araujo, diretor-curador do Museu Afro Brasil

Ana Paula Paiva / Valor 
Daniel Filho
“"Vergonha na cara, como diria minha avó"”
Reforma do Código Penal e severidade aos corruptos devem ser o foco do próximo presidente da República eleito. O crime de lesa-pátria precisa ter punição à altura. Abolir a Lei Fleury, cumprir sentenças, ter prisão perpétua. O Brasil não deve mais ser o país da impunidade. Todos os candidatos a cargos públicos deveriam mostrar suas posses na candidatura, na nomeação e ao deixar o posto. Assim, as verbas destinadas a saúde, educação e segurança chegarão a seus destinos. O país clama por honestidade. “Vergonha na cara”, diria minha avó.
Daniel Filho, produtor e diretor de cinema

Urgência nas áreas de saúde, cultura e formação
Melhorar a economia, reduzir a mão do Estado sobre as atividades empresariais e uma maior transparência ajudariam o novo presidente da República. Ações urgentes também são necessárias na educação, saúde e cultura.
Charles Cosac, editor e fundador da Cosac Naify

“"Prioridade é ter disposição para provocar mudanças”"
Segurança-saúde-educação virou chavão quando se fala em prioridades de governo. Esses três setores, que são ou deveriam ser regidos pelo Estado, recebem grande demanda por melhorias. No entanto, nenhum avanço acontecerá sem mudanças profundas na forma de administrar e legislar. A prioridade é ter disposição para provocar mudanças. De outra forma, continuaremos na mesma condição de tratar o problema de forma emergencial e paliativa, sem resultados positivos duradouros.
Celso Lopes de Mello, oncologista

Ana Paula Paiva / Valor 
Sônia Hess
"Só existe país forte com uma indústria forte"”
É preciso sair da “falação” e partir para a ação. Assumir e cumprir. Quem se candidata está a serviço do povo que o elegeu e não deve se esquecer disso. Hoje, qualquer país do Primeiro Mundo tem uma indústria com condições de crescer e avançar. Tudo deve funcionar como um círculo virtuoso: se a indústria produz, o comércio vende e os serviços prosperam. Só existe país forte com uma indústria forte.
Sônia Hess, presidente da Dudalina

Ações para uma população mais saudável e educada
Saúde e educação. Saúde para que a população tenha chance e disposição para encarar a vida e ter liberdade de ação. Educação para que as pessoas ganhem a possibilidade de desenvolvimento. Um cidadão sem acesso à educação vive em um universo limitado, perde a capacidade de tomar decisões, de evoluir e crescer.
Fernando Piva, arquiteto
Leo Pinheiro / Valor 
Fernando Luís Schüler
Choque de confiança na política econômica é vital
Dar um choque de confiança na política econômica deve ser a prioridade do próximo presidente da República. Retomar o rigor fiscal, abandonar a política de preços administrados, recolocar a inflação no centro da meta. O choque prossegue com a despolitização das agências reguladoras, da gestão das estatais e da formulação de uma regra republicana de autonomia do Banco Central. A partir daí, retomar o programa de mudança no Estado: reforma da Previdência, prestação de serviços públicos com foco na qualidade do atendimento, em especial na saúde. Além de avanço nas parcerias público-privadas e concessões públicas para fomentar investimentos em infraestrutura.
Fernando Luís Schüler, curador do projeto Fronteiras do Pensamento

É hora de iniciar as reformas trabalhista e tributária
Garantir um ambiente seguro de investimentos, aumentando a competitividade na indústria, e iniciar as reformas trabalhista e tributária. Reduzir encargos, custos de contratação e demissão, para tornar os salários mais compatíveis com a produtividade do empregado. Também estimular o crédito ao empreendedor, não ao consumidor, e as parcerias público-privadas para a solução de problemas de infraestrutura, transporte, segurança, saúde e desenvolvimento tecnológico. Manter o legado de distribuição de renda, garantir o Estado laico e a participação direta do povo por meio de plebiscitos e referendos, a começar pelo voto facultativo e a reeleição.
Letícia Provedel, sócia da Provedel Advogados

Davilym Dourado / Valor 
Rodrigo Oliveira
Urgência: boas escolas do ensino fundamental
Ensino fundamental. Oferecer escolas onde as crianças se alimentam bem, praticam atividades físicas e se sentem estimuladas a estudar. Isso é urgente, estamos muito atrasados.
Rodrigo Oliveira, chef do restaurante Mocotó

Compromisso nº 1 deve ser com a transparência
Gerar confiança e construir capital social devem ser as prioridades do próximo presidente da República. A sociedade brasileira vem convivendo com governantes que não têm um projeto de país. Possuem um projeto de poder, executado a qualquer custo, o que implica uma política de compadrio, de alianças espúrias e de corrupção para financiar esse “modus operandi”. Um governante sem senso de missão não consegue gerar aquilo que faz uma sociedade ter coesão interna e solidariedade, para multiplicar o capital social, que só cresce quando há confiança. O compromisso número um deverá ser com a transparência e a reforma política, indispensável para operar essa mudança.
Evelyn Berg Ioschpe, diretora-presidente da Fundação Iochpe

Régis Filho / Valor 
Samuel Seibel
Os professores têm de ser mais valorizados
O Brasil só atingirá um novo patamar quando o ensino realmente formar suas crianças. Os professores precisam readquirir o orgulho de lecionar e nós precisamos valorizá-los. Não falo apenas de “povoar” os bancos escolares. Nós precisamos de um ensino de qualidade que realmente desenvolva o interesse, a criatividade e o raciocínio dos nossos alunos. E que forme leitores, talvez a principal missão da escola. Ziraldo resume o tema numa frase: “Ler é mais importante que estudar”. E a educação é a melhor forma de tornar o Brasil uma verdadeira nação.
Samuel Seibel, dono da Livraria da Vila

Leonardo Rodrigues / Valor 
Daniela Bravin
Economia precisa sair da estagnação e crescer
Crescimento econômico deve ser o foco do presidente da República a ser eleito. A economia não só está parada como parece dar marcha a ré. O Brasil tem um dos governos mais caros e ineficientes do mundo e isso também precisa mudar. É necessária também uma mudança urgente no Código Penal brasileiro. A certeza da impunidade está criando um país de bandidos.
Daniela Bravin, sommelière e dona do restaurante Bravin

É necessário investimento em infraestrutura
Buscar meios para executar um plano de investimentos para infraestrutura — energia, portos, aeroportos, rodovias e ferrovias — cujas deficiências são uma ameaça ao funcionamento do setor produtivo, além de melhorias na saúde e educação. Já estamos no limite do apagão dessas áreas. O país necessita de ações que eliminem esses gargalos para o crescimento econômico e social.
Evaldo Alves, professor de economia internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Sérgio Zacchi / Valor 
Carlos Wizard Martins
Mais brasileiros em sistema educacional melhor
O próximo presidente da República do Brasil deverá incluir cada vez mais brasileiros no sistema educacional, da pré-escola à universidade, além de investir na melhoria da qualidade da educação. Não é uma tarefa fácil e certamente não será concluída em quatro ou oito anos de mandato, mas, se nunca almejarmos esse objetivo, jamais o alcançaremos.
Carlos Wizard Martins, empresário

Régis Filho / Valor 
Júlio Ribeiro
Presidente deve cercar-se de gente honesta
O próximo presidente do Brasil deve cercar-se de gente honesta para garantir o apoio de todas as camadas da população. Temos dificuldade em acreditar, mas existem pessoas de alta capacidade e de sentido moral nesse país. O que atrapalha o governo é a falta de confiança dos cidadãos nas autoridades. O orçamento, o superávit, a conclusão de obras e o desenvolvimento dependem do grau de confiança que as autoridades inspiram. O resto é supérfluo.
Júlio Ribeiro, chairman da Talent

Governante precisa propor pacto pelo desenvolvimento
Conseguir um alinhamento na esfera política para que diferentes partidos possam apoiar as reformas necessárias. Há mudanças institucionais urgentes, como a legislação trabalhista e o sistema tributário. É crítico atrair nos primeiros cem dias de governo investimentos públicos e privados para a infraestrutura e promover um pacto nacional pela qualidade da educação. O novo governante deve convidar a sociedade brasileira e, principalmente, os jovens para fazer um pacto pelo desenvolvimento do país.
Carlos Arruda, coordenador do núcleo de inovação da Fundação Dom Cabral

Divulgação 
Lino Villaventura
Buscar bons educadores para transformação radical
Educação. Deixar de sangrar dinheiro da corrupção e buscar grandes educadores para fazer uma transformação radical no país. Pagar bem os professores, começar do básico e pensar em um investimento a longo prazo, como aconteceu na Coreia do Sul.
Lino Villaventura, estilista

Pôr o Brasil em pé de igualdade com grandes economias
Implantar uma política de Estado capaz de colocar o Brasil, a longo prazo, em pé de igualdade para competir com as grandes economias mundiais. Dessa forma, é imprescindível formar líderes capazes de agregar os diversos interesses sociais em uma estratégia nacional de desenvolvimento. O livre pensar da população é fundamental e a institucionalização de uma educação pública universal de excelência deve ser o primeiro grande ato do novo governo.
Silton Oliveira, funcionário público federal“

Divulgação 
Paulo Caldas
"Que o país tenha cada vez menos desigualdade social"”
Educação pública deve ser o norte do próximo presidente do Brasil. Dessa forma, o filho da doméstica poderá estudar na mesma escola do filho do presidente eleito e poderá seguir assim até a universidade. Que o país tenha cada vez menos desigualdade social, por meio de políticas públicas que beneficiem a população mais carente. Que ricos e pobres possam ser igualmente bem atendidos em hospitais da rede pública. Que trabalhe em prol da manutenção do Estado laico, preste atenção às minorias e cuide de questões complexas, como a descriminalização das drogas, a criminalização da homofobia, o direito à união homoafetiva. Que trate da descriminalização do aborto como uma questão de saúde pública. Que invista, incentive e valorize a arte.
Paulo Caldas, cineasta

Não voltar atrás em decisões já anunciadas
Entender a ação e a reação das decisões. Quando sinalizam que o PIB vai subir muito e ele não cresce conforme anunciado, paramos de acreditar no mensageiro. Se as regras mudam no meio do caminho, mesmo por um bom motivo, empresas e pessoas que se planejaram para investir não vão mais acreditar se ouvirem que as novas regras não sofrerão mudanças. Com isso, deixam de investir e o país entra em estagnação.
Felipe Wasserman, empresário, CEO da PetiteBox

Gustavo Lourenção / Valor 
Antonio Carlos de Moraes Sartini
Tem de haver uma revolução na educação
Educação. Ter a coragem de promover uma verdadeira revolução no setor, resgatando o ser humano, os professores. Muito se fala nos orçamentos vinculados, mas, infelizmente, esse recurso é usado para a compra de computadores que ficam abandonados por falta de profissionais capacitados, aquisição de livros que permanecem empilhados, uniformes, lanchinhos e transporte — importantes, mas acessórios. Será difícil para qualquer político promover essa revolução, mas, se não a fizer, estaremos fadados a ser o país de um futuro que nunca chega.
Antonio Carlos de Moraes Sartini, diretor do Museu da Língua Portuguesa

Reformas urgentes para um alto nível de emprego
Duas reformas são urgentes para mantermos um alto nível de emprego no curto e médio prazo, acompanhado do aumento de produtividade no longo prazo. A primeira é a reforma da CLT, lei feita há mais de 70 anos que precisa ser atualizada para dar mais liberdade à relação entre empregador e empregado, gerando mais vagas. A segunda mudança importante é levar as práticas de gestão das empresas privadas, como meritocracia e acompanhamento de metas, para a gestão pública, proporcionando espaço para a queda de impostos e liberando mais dinheiro para o consumo e investimentos.”
Joseph Teperman, headhunter

Divulgação 
Maurício Cascão
O equilíbrio das contas públicas como prioridade
Resgatar o equilíbrio das contas públicas deve ser a prioridade. Depois, retomar de forma forte, organizada e com metas agressivas, o investimento em educação. Isso afeta diretamente o mercado, que sofre com a escassez de mão de obra qualificada. O país precisa de um Estado consciente, com credibilidade interna e externa, ciente de suas obrigações e que investe no futuro da nossa gente.
Maurício Cascão, CEO da Mandic

Régis Filho / Valor 
Ana Paula Arbache
“Sustentabilidade é o centro nevrálgico das decisões”
Dar prioridade a educação para o desenvolvimento sustentável como um vetor da formação e atuação de gestores, nos setores público e privado. A atual falta de água é um dos efeitos tangíveis de pontos de vista acomodados. Esperamos que as respostas caiam do céu e não investimos em ações comprometidas com um legado positivo para as próximas gerações. Em um mundo globalizado, torcer para que chova é, no mínimo, uma forma obtusa de lidar com os problemas reais do país. É blefar com o futuro. A sustentabilidade é o centro nevrálgico das tomadas de decisões globais e aponta para a importância de combinar esforços entre o poder público, empresas e sociedade civil.
Ana Paula Arbache, professora da Fundação Getúlio Vargas, Business School São Paulo e HSM

Reconstruir a credibilidade nos mercados é essencial
A reconstrução da credibilidade junto aos mercados deve ser o objetivo principal do próximo presidente. Para isso, será necessário retomar o controle rigoroso da inflação, mirando no centro da meta, e não no teto, e o controle fiscal. Esses dois “pés” do tripé macroeconômico são fundamentais para a volta da confiança dos investidores, o que abrirá caminho para a retomada do crescimento, da modernização da infraestrutura e do aumento da produtividade.
Ricardo Balistiero, economista e coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia

Régis Filho / Valor 
John Schulz
Primazia para o crescimento sustentável
Dar prioridade ao crescimento sustentável e assumir que cumprirá compromissos devem ser o foco do presidente a ser eleito. Qualquer investidor precisa ter essa tranquilidade. A segunda urgência é a reforma fiscal. Isso inclui a contínua desoneração da folha de pagamentos e a verdadeira simplificação para pequenas e médias empresas. Uma anistia fiscal traria recursos dos grandes para a economia formal, conduzindo mais companhias à formalidade.
John Schulz, sócio-fundador da BBS Business School

Estimular competitividade e empreendedorismo
Potencializar a competitividade do país. Fazer uma reforma tributária, reforçar a confiabilidade das bases macroeconômicas e, de uma maneira mais ampla, melhorar o ambiente de negócios para favorecer todo tipo de empreendedorismo, desde a micro até a grande empresa. A diversidade natural e cultural brasileira oferece uma grande oportunidade para fomentar a criatividade e a inovação, agregando valor aos produtos e serviços, com alternativas para um crescimento mais sustentável da economia.
Leo Mangiavacchi, designer e sócio-fundador do Fantastico Studio di Design

Daniel Wainstein / Valor 
Marco Ferraz
Novo governo deve investir mais no turismo e apoiá-lo
O próximo presidente deve fazer investimento no turismo. Um segmento que representa 3,5% do PIB mundial precisa ser mais explorado. O apoio do governo é imprescindível, pois o setor depende diretamente da sinalização com múltiplos idiomas, segurança e infraestrutura. Se o turista viaja com frequência e consome mais, ele gera riquezas, empregos e crescimento econômico.
Marco Ferraz, presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa)

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André Pimentel
O rigor fiscal nas contas públicas precisa voltar
Volta do rigor fiscal nas contas públicas, com a revisão da interferência do Banco Central, e de ações para o desaparelhamento de toda a estrutura do governo, incluindo estatais e fundos de pensão. Trazer para a pauta do dia a reforma fiscal, com a simplificação das regras e do aparato de arrecadação federal, estadual e municipal. Atenção na educação e na política interna e externa.
André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners

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Artur Lopes
Prioridade maior: tornar o ambiente econômico saudável
Melhorar as condições de vida da população com mais escola, saúde, transporte de qualidade. Porém, isso só se materializa com recursos que, em âmbito público, advêm do recolhimento de tributos, atrelados à boa saúde da economia. A prioridade das prioridades é tornar saudável o ambiente econômico, que já apresenta uma rápida, contínua e seguida deterioração. A normalidade econômica e a retomada do crescimento devem ser alcançadas pela livre flutuação do câmbio, com o fim das intervenções do Banco Central no mercado, na redução do gasto público e num ajuste controlado dos preços.
Artur Lopes, consultor e autor do livro “Quem Matar na Hora da Crise?
Medidas devem vir com posição austera da equipe
Restabelecer a confiança no país. Consumidores, empresários e investidores estão procrastinando decisões por se sentir inseguros em relação a 2015. O presidente eleito precisa saber que qualquer medida deve estar acompanhada de uma posição austera da nova equipe, para uma política de contenção de gastos públicos. Outro ponto importante é a mobilidade nos grandes centros urbanos. Polos de desenvolvimento não podem ficar parados no trânsito.
Alexandre Lafer Frankel, sócio e presidente da Vitacon Incorporadora e Construtora

Luis Ushirobira / Valor 
Nelson Campelo
“"O Brasil precisa de um mutirão nacional de educação"”
Criar um plano estratégico plurianual de melhoria continua em todos os níveis da educação. Além de garantir a alocação de um percentual adequado do PIB, os investimentos nessa área devem ser feitos de acordo com o plano federal e associados a métricas predefinidas, com gestores estaduais e municipais. A valorização do professor também é essencial. O Brasil precisa de um mutirão nacional de educação, com a conscientização de que o setor é prioridade e responsabilidade de todos. Um país com um bom nível de escolaridade progride e diminui as principais mazelas que enfrentamos hoje, como saúde precária, falta de segurança e altos níveis de corrupção.
Nelson Campelo, presidente da Avaya Brasil

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Acácio Queiroz
É necessário restabelecer o equilíbrio da economia
Restabelecer o equilíbrio do tripé da economia, com regime de câmbio flutuante, sistema de metas da inflação e política fiscal, além de dar autonomia ao Banco Central. Os desafios estarão nas demandas das reformas política, fiscal, previdenciária e trabalhista, que deverão ser realizadas para um crescimento do PIB desejado. Isso inclui equalização dos tributos e melhoria significativa da infraestrutura nacional para o país incrementar sua competitividade. E maior atuação nas áreas da saúde e educação.
Acácio Queiroz, chairman da Chubb Seguros

Incentivo ao crescimento das empresas menores
Fomentar o desenvolvimento das micro e pequenas companhias, que respondem por 27% do PIB e por 52% dos empregos com carteira assinada, segundo o Sebrae. Embora avanços tenham acontecido nos últimos anos, ainda estamos longe de ter um ambiente favorável e de estímulo neste segmento, como acontece em economias mais desenvolvidas, como a alemã e a americana. Redução da burocracia para a abertura de novos negócios e da carga tributária, além da flexibilização das leis trabalhistas são essenciais para alavancar o crescimento das empresas.
Vinícius Roveda, CEO da startup ContaAzul
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Reportagem Por Jacilio Saraiva | Para o Valor, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 03/10/2014

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A falácia democrática

Jacques Rancière
Jacques Rancière, a democracia é uma ideia extravagante

 A tradição liberal é antidemocrática, segundo Jacques Rancière. O objetivo é criar um governo 
dos educados e iluminados
Ironia das ironias foi o fato de "a direita americana antidemocrática" pretender exportar a democracia durante a invasão do Iraque em 2003, diz o filósofo francês Jacques Rancière a CartaCapital. Em O ódio à democracia, a ser lançado em breve pela Boitempo (128 págs., R$ 29), Rancière, de 74 anos, "rompe" (termo usado com frequência pelo filósofo) vários mitos construídos para inventar aquilo que acreditamos ser uma democracia. De saída, o conceito "pode significar diversas coisas bastante diferentes e contraditórias". E eis outros mitos rompidos: o sufrágio universal e a subsequente representação não são uma forma democrática através dos quais as pessoas exprimem suas preferências políticas. De fato, a alternância entre os partidos Democrata e Republicano nos Estados Unidos, ou entre a direita e os socialistas na França, é apenas uma escolha das minorias. O liberalismo anglo-saxão defendido por essas minorias é antidemocrático, visto que a igualdade, ou pelo menos a possibilidade de igualdade, é um princípio fundamental da democracia.
CartaCapital: O senhor teve problemas com Althusser em maio 1968, porque via uma diferença entre teoria e prática, mas também porque ele acreditava no poder do professor?Jacques Rancière: Não tive conflitos com Althusser, como um aluno tem com o seu professor. Fiquei impressionado em maio de 1968 com o fato de a insurreição, a greve geral, o movimento ter deixado em total contradição a doutrina de Althusser, a crítica da ideologia, a afirmação do primado da ciência. Althusser havia criticado fortemente seus alunos. Dizia que eram pequenos burgueses. Do ponto de vista de Althusser, a revolta de 1968 não foi nada. No entanto, a revolta causou a maior greve de trabalhadores da história francesa. Passei a interpretar a teoria de Althusser como aquela na qual a ação política dependerá sempre da ciência transmitida por pessoas com a autoridade para fazê-lo. Testemunhei a contradição entre a tese marxista exacerbada e os movimentos reais.

CC: Em Le Maître Ignorant, de 1987, o senhor defende a igualdade das inteligências. Por sua vez, seu livro atual estipula que a igualdade das inteligências depende da vontade e da condição social. Igualdade é um tema central em seu pensamento.
JR
: O que disse sobre a igualdade é derivado da minha pesquisa sobre a história da emancipação da classe trabalhadora e, em parte, da ideia de emancipação intelectual, desenvolvida no século XIX por Joseph Jacotot. O ponto central é o seguinte: a igualdade não é um objetivo distante, mas um ponto de partida. E a partir desse ponto de vista a emancipação é uma afirmação de capacidade: aqueles capazes de gerir um ateliê ou empresa podem discutir e deliberar sobre os assuntos da comunidade. Fundamental era dissecar essa inversão de posições. Existem oportunidades para pessoas desiguais, dominadas, para traçar o caminho da autoafirmação.

CC: O senhor é um filósofo por formação, ensina e escreve livros de filosofia. Mas muitos críticos dizem ser impossível categorizá-lo graças ao seu interesse por uma série de temas: política, história, cinema, arte, estética.
JR: De acordo com a igualdade das inteligências, o mesmo indivíduo é capaz de interpretar um texto literário, uma situação política ou um filme. O que digo não tem nada de original. Pertenço à década de 1960, quando houve uma espécie de explosão no campo da filosofia. Michel Foucault, por exemplo, estava completamente fora do âmbito normal da filosofia. Interessou-se por hospitais, asilos, prisões. Se a filosofia tem um papel, é o de romper todas essas identificações e o de destacar uma espécie de capacidade intelectual das pessoas. E assim, colocaremos fim nessa rigidez, nessas divisões entre as disciplinas e competências.

CC: Li que a política lhe interessa a partir da perspectiva da literatura. Se verdade, entendo como Victor Hugo poderia formar uma opinião política. Mas como pode Joseph Conrad inspirá-lo politicamente?
JR: Nunca disse que a política me atrai a partir da literatura. Dito isso, há uma forma de política exclusiva à literatura. E esta forma de política não se limita a visões de mundo, aos engajamentos políticos de escritores ou às suas maneiras de representar a sociedade. Há uma relação entre os dois tipos de democracia, mas elas são diferentes. Por que Conrad? Conrad faz parte de um movimento a envolver escritores como Flaubert, Joyce e Virginia Woolf, entre outros. Quebram uma forma de autoridade que era inerente às estruturas narrativas tradicionais.  Flaubert é um exemplo dessa mudança. Uma camponesa torna-se tão interessante quanto uma grande dama. Sua vida, considerada medíocre e repetitiva, torna-se palco de uma tragédia. Considere o prefácio de O Negro de Narciso (The Nigger of the "Narcissus", de 1897). Eis a possibilidade do herói fictício, mesmo em um sentido negativo. Conrad pertence a essa revolução democrática do romance, embora ele tenha uma posição reacionária: denunciou os anarquistas e os revolucionários. Mas acho isso interessante, porque há uma tensão entre uma democracia específica à forma ficcional e à estética e, ao mesmo tempo, narrativas revolucionárias, ou antidemocráticas, no sentido literário.

CC: O termo democracia "é uma expressão de ódio" desde os tempos da Grécia, quando alguns achavam mais crível o governo da multidão. O ódio continua. A violência ligada ao ódio é novidade. O senhor escreve: "A democracia pode criar a 'coragem, por isso a alegria'". De que forma?
JR: Tentei, em O Ódio, dizer que a democracia não é mera forma de governo ou um sistema igualitário longínquo. Ao contrário, a democracia é, antes de tudo, uma ideia extravagante. Expus a tese de um poder para aqueles isentos de poder e sem títulos ao poder. Escrevi que, paradoxalmente, por causa da falta de poder há política porque há democracia. Há política graças ao poder paradoxal de pessoas que não são nada, não têm qualidades especiais e não possuem títulos. Há democracia nos recentes movimentos: “Primavera Árabe”, “Indignados”, “Occupy” etc. Nesses casos, solidifica-se um poder das pessoas em estado de excesso, que é independente em relação ao poder inteiramente incorporado no Estado. Sublinhei que a democracia não é uma forma de governo, é sempre um poder em estado de excesso em relação à democracia formal, sem a necessidade de ser transformado em um futuro remoto a ser obtido após uma revolução a se distanciar. Portanto, a democracia real é uma forma de ação, não apenas o futuro de uma igualdade econômica compartilhada. Quando falo de democracia real, em tensão com as chamadas instituições democráticas, falo sobre coragem e alegria porque tentamos inventar formas de partilha de poder, como as inteligências iguais.

CC: O senhor faz um esboço um pouco zombeteiro do homem em busca da justiça global: são jovens consumidores, imbecilizados depois de comer muita pipoca diante de programas de reality shows. E isso sem contar suas ilusões anticapitalistas.
JR: Esse é o esboço traçado pelos antidemocratas, como o filósofo Alain Finkielkraut na França. O objetivo é reduzir novos movimentos sociais a jovens exaltados que sabem ler, mas são incapazes de julgar os fatos políticos. Isso não significa que eu ache todos esses movimentos positivos. Por exemplo, no movimento ecológico há uma mistura de poder a todos e, ao mesmo tempo, o poder da ciência. Vimos novas formas de afirmação igualitárias, mas ao mesmo tempo certas perguntas não encontram respostas. “O que vamos fazer depois de suas ocupações?” Há contradições, mas movimentos interessantes trazem contradições.

CC: A associação que fazemos entre democracia e capitalismo remonta aos Pais Fundadores nos Estados Unidos?
JR: A tradição liberal é antidemocrática. Os Pais Fundadores não fundaram a democracia porque redigiram uma Constituição para limitar o poder do povo. Queriam era garantir o poder a todos, em princípio. Mas o poder iria para os esclarecidos, educados. E em suas mentes, é claro, iluminados e educados eram proprietários capazes de administrar suas propriedades e, portanto, também capazes de pensar sobre o papel da propriedade no centro da sociedade. O projeto era precisamente submeter a democracia, isto é, o poder de todos, e assim criar um governo da elite, dos ricos, e seus intelectuais. E chamamos esse tipo de governo de democracia, eis o problema.

CC: O senhor pleiteia que "não vivemos em democracias", mas em Estados de Direito oligárquico. Eleições e representação são mitos. Mas, e se a esquerda da esquerda ganha aqui na França ou em outro lugar?
JR: A esquerda da esquerda é um conceito um tanto ambíguo. Existe uma classe de políticos que tomou o poder. De direita ou esquerda, eles têm programas que não são feitos por eles. São impostos pelas instituições financeiras supranacionais e/ou internacionais. Há grupos marginais, mas geralmente não tentam minar a própria estrutura à qual a democracia é submetida. Não consideram a questão do que é uma verdadeira democracia para o povo.

CC: Como o senhor vê a ascensão da extrema-direita na Europa?
JR: É uma reação à tomada do poder por uma pequena minoria. O Frente Nacional, na França, sempre se posicionou contra um sistema que tinha duas legendas a compartilhar o poder indefinidamente, e a empurrar o povo para fora do sistema. É um erro, creio, explicar o sucesso da extrema-direita apenas à ascensão do racismo e da xenofobia. Isso a despeito do fato de que parte da extrema-direita é abastecida por esses temas. Mas o sucesso do Frente Nacional tem outras fontes, como o déficit real da democracia, e ao fato de a direita e a esquerda fazerem a mesma política. Tudo isso criou um espaço, agora ocupado pela extrema-direita. A ascensão da extrema-direita também está ligada ao fracasso histórico do marxismo. A esquerda perdeu credibilidade.

CC: A extrema-direita ganhou muitos votos por se opor aos imigrantes. O senhor cita Hannah Arendt e Burke. Esses pensadores dizem que "os direitos humanos são vazios e tautológicos", visto que o homem sem classe social não tem direitos. São os casos dos africanos e árabes que chegam à Europa. A questão se torna ainda mais complicada com a globalização.
JR: Existe uma desordem no mundo relacionada ao realpolitik. É liderada pelas grandes potências há mais de meio século. Deixo de lado o caso do mundo islâmico, outro vasto tema. No mundo ocidental, em sentido amplo, há contradições entre a restrição da livre circulação de pessoas, mas não há entraves para a livre circulação de mercadorias. Portanto, estamos em um mundo onde há grandes áreas sem perspectivas. Por isso, uma massa de pessoas é impulsionada pela atual distribuição de riqueza a tentar ir onde está o capital. O motivo: é lá onde existe a possibilidade de encontrar trabalho. E o Ocidente acha que deve filtrá-los. Eles devem ser mandados de volta para suas casas. Existem outros dois tipos de problemas. Os imigrantes bloqueados e aqueles já instalados nos nossos países. Eles têm um status inferior, são relegados às margens da sociedade. E, de fato, há a questão dos direitos humanos. Há um movimento democrático que poderia ser colocado a serviço dessas populações colocadas às margens do sistema. Porém, mesmo essa ação democrática foi traída pelas organizações e pelos partidos oficiais. O resultado é que temos agora esse lado violento nos subúrbios, como vimos há dez anos na França. E há esse sentimento de mal-estar que habita os imigrantes e os ocidentais a convivercom eles.

CC: Muitos dos críticos da democracia nos EUA eram a favor da invasão. É um paradoxo, não?
JR
: Essa confusão é o resultado do fato de a democracia poder significar coisas extremamente diferentes e contraditórias. A direita americana pensou que a democracia era boa para os iraquianos: a democracia no Iraque seria como aquela no Ocidente. Mas como a antidemocrática direita americana pode exportar a democracia? Obviamente, eles estavam completamente errados. Não há paradoxo porque a própria ideia que os americanos tinham de democracia foi instrutivo. É Isso que emerge da famosa declaração de Donald Rumsfeld diante dos saques após a queda de Saddam: a liberdade é uma bagunça, é anarquia.
Leia a entrevista em francês neste link.
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Texto por Gianni Carta
Fonte: Carta Capital online, 29/09/2014 

Crítica da paixão

Francisco Bosco*

Os limites entre sexo, erotismo e amor na visão do escritor mexicano Octavio Paz

Tendo sido convidado a falar sobre a questão do erotismo em Octavio Paz, pus-me a ler (desejo antigo) seu “A dupla chama”, livro tardio em que o autor mexicano realiza nada menos que uma história do amor no mundo, desde as perspectivas religiosas do Oriente e do Ocidente chegando ao capitalismo contemporâneo que mercantiliza até as nossas almas. Octavio Paz é um desses enormes pensadores que, como diz um amigo, “se sentem à vontade no todo”, percorrendo com intimidade fluente os domínios da literatura, religião, história e filosofia, desde as épocas remotas até outro dia (ele morreu em 1998). Nesse “A dupla chama” encontrei a mesma erudição inventiva, elegante e sem pedantismos de outros importantes livros seus. Por outro lado, percebi problemas. Mas, antes dos problemas, as soluções.

Paz começa por diferenciar sexo, erotismo e amor. O sexo é o domínio mais amplo, que abrange toda a vida cuja origem é a reprodução sexuada. O erotismo é um registro exclusivo da espécie humana, uma elevação do sexo ao plano simbólico, que a um tempo o sublima (nele, o sexo não necessariamente se efetiva como tal) e o perverte (o desvia da finalidade reprodutiva). Já o amor se difere do erotismo porque, nele, a figura do outro desponta em toda a sua totalidade de sujeito: o amor pressupõe a liberdade do outro, a alma do outro, o ser do outro. A lógica do erotismo é a do desejo: o outro é substituível. A lógica do amor é a da singularidade: o outro é insubstituível. Sexo, erotismo e amor são como “círculos concêntricos”: provêm do mesmo núcleo (o sexo). Pode haver sexo sem qualquer erotismo (entre animais), erotismo sem sexo e sem amor, amor sem sexo — mas não amor sem erotismo.

Para Paz, o amor, enquanto afeto de natureza sexual mobilizado por um ser exclusivo, é universal e atemporal, como testemunham documentos de todas as civilizações em todas as épocas. Mas o amor enquanto forma e ideia, isto é, o modo como esse afeto originante é pensado e praticado, só começa, num sentido fundamentalmente próximo ao que reconhecemos hoje, por volta do século XII, na figura do amor cortês dos poetas provençais.

Antes disso, na Grécia clássica, o pensamento platônico fez o elogio de Eros como um percurso que vai da beleza singular encarnada num corpo até a ideia de beleza abstrata, essencial e universal. Em Platão, o sexo é impuro, o corpo é rebaixado, e mesmo a figura do outro é apenas um meio para que o filósofo atinja o ideal da beleza, num percurso portanto ascético, racional e solitário. No cristianismo também vigora a cisão corpo e alma, imanência e metafísica. O sexo é permitido, no matrimônio, apenas com finalidade reprodutiva. O erotismo é excluído. E a caritas designa um amor pelo outro plural, e não por um outro singular.

É nas metrópoles da Antiguidade, Alexandria e Roma, que se poderá detectar uma “pré-história do amor”. Pois o amor, tal como o reconhecemos, pressupõe a liberdade do outro, e portanto só pôde surgir com a maior autonomia concedida à mulher (a pederastia grega era erótica, não amorosa). Além disso, a decadência da democracia ateniense fez aflorarem as possibilidades da vida privada e, nela, o amor. Uma das primeiras aparições ficcionais desse “pré-amor” é a história de Eros e Psiquê em “O asno de ouro”, de Apuleio. O elemento decisivo, aqui, é a Psiquê (a alma individual, para os gregos): “Há inúmeras histórias de deuses, mas em nenhuma delas a atração pela alma do amado desempenha um papel”, nota Paz.

É só no fin’ amors, o amor cortês, e dele em diante, que são reunidos alguns dos principais traços do amor tal qual o reconhecemos hoje: uma experiência irredutivelmente dialética, entre dois sujeitos, na qual ambos são livres; o elogio do sentimento autêntico em detrimento das convenções (daí a exaltação dos adultérios apaixonados); a inclusão da dimensão sexual (o amor cortês não prescreve a castidade, e sim o refinamento).

Até aqui, Paz opera num registro histórico, descrevendo os modos como se pensou e viveu algo que, pela presença de traços comuns, pode-se chamar pelo mesmo nome (amor). O problema é que a partir de um certo momento ele desliza para uma perspectiva essencialista, normativa e, consequentemente, moralista. A expressão “amor verdadeiro”, que ele passa a empregar, encarna e condensa essa passagem do histórico-descritivo ao essencialista-normativo. Em minha exposição, farei uma apresentação mais clara e rigorosa do que fiz aqui, e depois passarei à crítica dessa perspectiva normativa, oferecendo outras interpretações sobre a experiência amorosa tal qual a vivemos hoje.

O colóquio “Octavio Paz: 100 anos de paixão crítica” começou ontem e vai até quinta, de manhã e à tarde, no auditório Anchieta da PUC-RJ.
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*Colunista do Jornal O Globo
Fonte: Globo online, 01/10/2014
Imagem da Internet

Quando chega o desespero, não percas a esperança: confia, reza com as palavras do teu coração

 Imagem
 O grito | Edvard Munch

Diante do sofrimento intenso na dor e prolongado no tempo, que atinge igualmente quem tem e quem não tem fé, é preciso continuar a confiar, como Job, figura bíblica do Antigo Testamento, e como o próprio Jesus, dizendo a Deus as palavras que brotam do coração, mesmo que sejam duras e de revolta, afirmou hoje o papa.

Excertos da homilia da missa a que Francisco presidiu no Vaticano, segundo a Rádio Vaticano, onde se deteve na incompreensão humana face à dor e aos males que atingem também as pessoas que pensam que não os merecem sofrer: 

«Muitas vezes ouvi pessoas que estão a viver situações difíceis, dolorosas, que perderam muito ou se sentem sós e abandonadas, e que se lamentam e fazem esta pergunta: porquê? Porquê? Rebelam-se contra Deus. E eu digo: “Continua a rezar assim, porque também essa é uma oração”. Era uma oração quando Jesus disse ao seu Pai: “Porque me abandonaste?”»

«Reza-se com a realidade, a verdadeira oração vem do coração, do momento que cada um vive (...) É a oração nos momentos de escuridão, nos momentos da vida onde não há esperança, não se vê o horizonte.» 

«Muita gente, muita gente hoje está na situação de Job. Tanta gente boa, com Job, não percebe o que lhe aconteceu, porque é assim. Muitos irmãos e irmãs que não têm esperança. Pensemos nas tragédias, nas grandes tragédias; por exemplo, esses nossos irmãos que, por serem cristãos, são expulsos da sua casa e ficam sem nada: “Mas, Senhor, eu acreditei em ti. Porquê? Crer em ti é uma maldição, Senhor?”»

«Pensemos nos idosos deixados de lado, pensemos nos doentes, em tanta gente só, nos hospitais.» (...) [Por estas pessoas, e «também por nós, quando andamos pelo caminho da escuridão, a Igreja reza. A Igreja reza.»

«[E nós,] sem doenças, sem fome, sem necessidades fundamentais, quando temos alguma escuridão na alma acreditamos que somos mártires e deixamos de rezar.» (...) [E há quem diga]: «Zanguei-me com Deus, não vou mais à Missa.»

«A nossa vida é demasiado fácil, os nossos lamentos são lamentos teatrais. Diante destes, destes lamentos de tanta gente, de tantos irmãos e irmãs que estão na escuridão, que quase perderam a memória, a esperança, que vivem naquele exílio de si próprios, que estão exilados, mesmo de si próprios – nada! E Jesus fez esta estrada: da noite no monte das Oliveiras à última palavra da cruz: “Pai, porque me abandonaste?”»

A terminar a homilia, Francisco sugeriu duas atitudes: «Primeiro, preparar-se para quando chegar a escuridão», «preparar o coração para esse momento».

E, depois, «rezar, como reza a Igreja, com a Igreja por tantos irmãos e irmãs que padecem o exílio de si próprios, na escuridão e no sofrimento, sem esperança».
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Rádio Vaticano
Edição: SNPC/rjm
Publicado em 30.09.2014