sexta-feira, 10 de outubro de 2014

"PESQUISA NÃO É UM ORÁCULO"

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Márcia: "O eleitor decide o voto cada vez mais tarde. Espera os debates, conversa, vai formando sua opinião e muitos só decidem na hora em que entram na cabine para votar"
 
Duas máximas, uma do marketing político e outra sobre os governantes, parecem ter sido decisivas na escolha dos candidatos nestas eleições. A primeira delas foi cunhada nos Estados Unidos, em 1992, na eleição do ex-presidente Bill Clinton. James Carville, estrategista do democrata, citou uma frase que, a partir dali, passou a definir o que poderia derrubar ou alçar à vitória um candidato: "É a economia, estúpido". A segunda é de 1957 e se tornou um exemplo da tolerância da população brasileira com a corrupção. Na época, o perfil do candidato do PRP, Adhemar de Barros, um tocador de obras monumentais, foi resumido com a seguinte frase: "Rouba, mas faz".

Diferentemente do que tanto se prega, Márcia Cavallari, CEO do Ibope, diz que o brasileiro continua fechando os olhos para a corrupção. "O eleitor ainda pensa: 'Se ele [o candidato] roubar, mas fizer alguma coisa, estou ganhando mais do que com um que não rouba'", afirma a pesquisadora e cientista política, ao justificar votações expressivas em candidatos com o registro cassado pela Lei da Ficha Limpa.

O desempenho da economia é o calcanhar de aquiles das candidaturas. Pragmáticos, os eleitores não querem perder nenhuma das conquistas das últimas duas décadas. Inflação? Nem pensar. Estão de olho no futuro. Buscam fora de casa as melhorias que levaram para dentro. Têm TV, geladeira, máquina de lavar roupa, mas querem um serviço de saúde pública que funcione de fato, segurança e educação. "O eleitor não quer ilusões. Quer coisas tangíveis e em pouco tempo."

Na sala da diretora do Ibope ouve-se, como se estivesse ali dentro, o estrondo do bate-estaca no terreno ao lado do prédio, na esquina da alameda Santos com a rua Augusta. O escritório, em alguns momentos, chega a tremer, sacudido pela força da máquina de 50 toneladas. O impacto, porém, não é tanto se comparado ao barulho das críticas por causa das disparidades entre alguns levantamentos e os resultados da eleição.

Márcia Cavallari trabalha há 32 anos no Ibope e diz estar acostumada às reclamações. Explica que a pesquisa representa um momento e ele seria tão fugaz que poderia mudar em segundos. "Quando entregamos uma pesquisa, ela já é o passado. A pesquisa conta uma história, uma tendência. Não é um oráculo."

Valor: O Ibope foi vendido?
Márcia Cavallari: Por enquanto, não. Tem saído muita especulação. O que existe é que a WPP [uma das maiores agências de publicidade do mundo], um grupo sócio do Ibope na área da mídia, sempre teve interesse em ampliar a participação deles no instituto. Não tem nada fechado. A conversa sempre existiu e continua.

Valor: Vamos à pergunta mais óbvia.
Márcia: Posso eu mesma fazer: o Ibope errou nas eleições? Fomos o único instituto que realizou pesquisas sistematicamente nos 26 Estados, no Distrito Federal e a pesquisa nacional. Fizemos 134 pesquisas. Elas têm o papel de mostrar e informar o eleitor sobre a história da eleição. Se não fossem elas, não saberíamos como a Marina [Silva] entrou na eleição. Não teríamos acompanhado como ela cresceu nem a queda e a recuperação de Aécio [Neves]. Após o debate da TV Globo, as pesquisas detectaram e mostraram que ele estava na frente. A pesquisa conta uma história. Não pretende apontar o futuro, na casa decimal. Não consideramos que erramos porque contamos as histórias de todas as eleições em cada um dos Estados. Apontamos todas as tendências corretamente. O que acontece é que o eleitor decide o voto cada vez mais tarde. Espera os debates, conversa, vai formando sua opinião e muitos só decidem na hora em que entram na cabine para votar.

Valor: São os eleitores que demoram e induzem ao erro?
Márcia: Muita gente fala que o Ibope errou e está pondo a culpa nos eleitores. De forma alguma. O eleitor e o voto são soberanos. Não há pesquisa que substitua a vontade do eleitor e, por isso, a eleição só termina quando ele aperta a tecla "confirma". Se olharmos as curvas de tendência de cada um dos candidatos, podemos notar que o resultado é como se fosse uma continuação das tendências apontadas pelas pesquisas. Como se fosse um ponto a mais nessa tendência. Veja no caso do Aécio: foi 27%, 30% e ele terminou com 33%. O problema é quando há uma mudança brusca. Aí as pesquisas não conseguem captá-la com essa velocidade.

Valor: Esse pode ter sido o caso do Rio Grande do Sul, da Bahia?
Márcia: Bahia, não. A campanha começou com Paulo Souto [DEM] bem na frente. Rui Costa [PT] não era conhecido, foi subindo, crescendo e chegou na véspera da eleição empatado com Souto e um número altíssimo de indecisos.

Valor: Mas ele ganhou no primeiro turno...
Márcia: Na última pesquisa ele estava com 39%. Na boca de urna, tinha 49%. Foi de um dia para outro. Nós dissemos que Rui Costa poderia ganhar naquele dia ou enfrentar Paulo Souto no segundo turno. Não tem nada de errado. É importante dizer que, quando acabamos de fazer uma pesquisa, o resultado dela já reflete o momento anterior. Terminei no sábado, véspera da eleição. Aquilo não é estanque. Os eleitores continuam observando, conversando e podem mudar. Outra coisa que poucos consideram é que a pesquisa mede a opinião das pessoas. E ela muda. A pesquisa corre atrás. A pesquisa conta uma história da eleição, é um filme, uma tendência. Não é um oráculo.

Noticiário da TV é a maior influência do eleitor (55%); propaganda eleitoral gratuita, noticiário de jornais e debates (26%) e internet (20%)

Valor: A pesquisa influencia os eleitores? Ajuda a criar o chamado voto útil?
Márcia: A pesquisa tem dois efeitos. Um que é institucional e outro direto no eleitor. O institucional, com ou sem divulgação, sempre vai existir. Influencia o caixa da campanha, que pode aumentar ou diminuir de acordo com a posição do candidato na campanha. O humor da militância, as coligações, o espaço que a mídia dá aos candidatos. O eleitor, por sua vez, pode usar a informação para escolher. Isso é legítimo, faz parte da democracia. O efeito não é unidimensional. Fala-se que todos votam de acordo com a pesquisa para não jogar o voto fora. Se fosse assim, quem começava em primeiro sempre terminaria em primeiro. Não é o que se vê. Pelo contrário. Neste ano, em uma das pesquisas perguntamos também quais eram as fontes de informação que o eleitor considerava na hora de decidir o voto. As pesquisas foram apontadas por 7% do eleitorado.

Valor: Quais eram as outras e qual era a mais importante?
Márcia: A mais importante era o noticiário da televisão, com 55%. A internet tem 20% [somando portais, blogs etc.]; a propaganda eleitoral gratuita influencia 26%; o noticiário dos jornais e o debate têm esse percentual também. E 48% dizem que decidem em conversas com amigos, familiares etc. Na eleição de 1989, veja só, começávamos a pesquisa nos interiores mais longínquos até chegarmos às capitais. Por quê? Porque se existisse algum fato importante, ele influenciaria as capitais e levaria um tempo até se refletir no interior. Hoje todos têm acesso simultaneamente à informação. A pesquisa é só mais uma informação.

Valor: A velocidade e a quantidade de informações disponíveis podem explicar essa decisão tardia dos eleitores?
Márcia: Podem, sim. E a democracia consolidada também. O eleitor foi aprendendo, teve decepções. Veja o exemplo da eleição de Fernando Collor: foi uma decepção para os eleitores. O eleitor que votou nele, hoje diz: "Errei". Por isso, o eleitor espera. Quer ver se não vai aparecer nenhuma denúncia, quer ver o debate, acompanha os últimos dias. Nas últimas pesquisas que fizemos, quando o eleitor falava em quem ia votar, perguntávamos se a decisão era definitiva, se era uma preferência e se havia chance de mudar. Cerca de 40% nos diziam que a decisão não era definitiva. Na pesquisa de quinta-feira [dia 2] entre os eleitores de Aécio, 63% diziam que a decisão era definitiva; 23%, que era firme, mas ainda poderiam mudar; 11% diziam que era só uma preferência. Entre os eleitores da presidente Dilma [Rousseff], 67% não mudariam e os de Marina eram 63%. Existia ainda um espaço de movimentação do voto, isso quer dizer troca. Na reta final, Aécio pegou votos de Marina e de Dilma também.

Valor: No começo do período eleitoral se falava em grande número de votos nulos, brancos...
Márcia: O nível de interesse pela eleição foi baixo durante boa parte da campanha. Talvez pela Copa do Mundo, que foi aqui, o interesse tenha começado mais tarde. Na verdade, mais de 50% passaram a dizer que se interessavam depois que Marina entrou na campanha. Interpretamos isso como a influência ainda das manifestações de junho de 2013 associadas à ideia de que os candidatos postos não representavam esse desejo de mudança. Quando ela entrou, os eleitores pensaram que ela poderia atender a essa expectativa. A chegada de Marina diminuiu pela metade o número de eleitores que diziam não saber em quem votar.

Valor: Como ela perdeu esse capital? Foram os ataques da oposição?
Márcia: Ela não conseguiu se sustentar, mas não foram só os ataques. As idas e vindas de opinião deixaram os eleitores inseguros e isso levou à queda lenta e gradual da candidata.

Valor: A estrutura partidária teve algum peso na queda?
Márcia: Ninguém vota pensando no partido. Só no candidato. A identificação partidária dos eleitores brasileiros é baixíssima. Os candidatos mudam de partido a cada hora, portanto as pessoas não consideram isso. O problema com Marina é que o eleitorado começou a sentir insegurança nela mesma: "Falou isso, agora voltou atrás. Falou aquilo, agora voltou atrás. Como assim?" Teve também a maneira como ela se posicionou diante dos ataques, que passou fragilidade. No imaginário, o presidente da República é alguém forte, firme. Outro ponto foi o fato de que o Brasil, há três eleições [desde a reeleição de Lula em 2006], tem uma clivagem social muito forte, o país fica bem dividido. Em 2002, Lula teve uma votação muito homogênea no Brasil. O escândalo do mensalão começou a dividir o eleitorado. Sul e Sudeste votando no PSDB e Norte e Nordeste, no PT. Em 2010, Dilma herdou esse eleitorado e, agora, o Brasil continua dividido em vermelho e azul. Mas, quando começou o mandato, ela conquistou esse eleitorado. As manifestações tiraram esse eleitor dela e ele nunca mais voltou.

Valor: Os padrinhos políticos ajudam?
Márcia: No caso do ex-presidente Lula, sim: 40% dos eleitores declaram que o apoio dele aumenta a vontade de votar em um candidato. Esse índice é o dobro do de outros possíveis apoiadores.

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"Eleitor não quer ilusões. Quer coisas tangíveis"
 
Valor: Quais são os pontos negativos que mais atingem os candidatos?
Márcia: No segundo mandato de Lula a economia cresceu muito. A variação da renda média familiar ficou acima da variação do PIB, começamos a caminhar para o pleno emprego. Quando os eleitores elegeram Dilma, eles tinham o desejo de continuidade dessas conquistas. Ela foi eleita para continuar o caminho que fora trilhado por Lula. O que os eleitores pensavam: "A economia está estabilizada e dentro de casa está tudo bem, temos TV, geladeira, carro. Mas fora de casa está ruim. Eu não consigo ser atendido no posto médico; quando preciso de segurança, não sei se volto para casa; não tenho educação de qualidade para os meus filhos". Aí vieram as manifestações de "educação padrão Fifa", "saúde padrão Fifa", "segurança padrão Fifa". O que os eleitores querem? Que o país avance sem perder o que já conquistaram: "Não quero perder nada, quero mais. E não vem falar que a economia está estagnada". A economia é sempre o item mais importante na eleição presidencial.

Valor: Não se esperava uma influência maior das manifestações na votação dos candidatos?
Márcia: O problema é que elas não tiveram um líder. O ganho delas foi perdido. O eleitor, sem isso, começou a avaliar o cardápio de candidatos pensando qual deles teria mais condições de fazer o país ou o Estado avançarem. Não teve renovação política. O que pesou foi a proposta.

Valor: Nas pesquisas, cerca de 70% dos eleitores manifestavam o desejo de mudança. Olhando os resultados, isso não se concretizou no voto. O que ocorreu?
Márcia: O eleitor está cada vez mais pragmático, mais crítico, informado e busca ganhos tangíveis a curto prazo. Escolhe o candidato em quem vê a possibilidade de uma mudança rápida. Ele não quer esperar. Não há muito espaço para ilusões.

Valor: No caso do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, cujos índices de aprovação eram muito aquém da votação que obteve para eleger-se em primeiro turno, o que ocorreu?
Márcia: Foi simples. O eleitor pensou: "Entre esses candidatos e o atual governante vou ficar com isso mesmo". O desejo de mudança não diminuiu. Outra novidade foi que em mais de 30 anos de trabalho com pesquisa, nunca vi o eleitor falar que o governante deve respeitá-lo. Antes desta eleição, a palavra respeito não fazia parte do vocabulário. O eleitor quer ser o protagonista, quer saber por que lhe prometeram algo e não entregaram. Dar beijinho em criança não comove mais ninguém.

Valor: Qual seria o maior erro de um candidato em campanha?
Márcia: Do ponto de vista da opinião pública, qualquer ideia que passe a impressão de perder o que já foi conquistado é inadmissível. A estabilidade econômica, a oferta de emprego, os programas sociais são prioritários. Por isso funcionou a campanha do medo contra a Marina.

Valor: E as denúncias de corrupção podem derrubar um candidato?
Márcia: Nosso eleitor já tem o pressuposto de que a corrupção faz parte da política. Portanto, nesse aspecto, não existe um candidato melhor do que o outro. As denúncias de corrupção, em muitos casos, são tão complexas que o eleitor médio tem dificuldade de entendê-las. A denúncia aparece, some, a mídia não fala mais. Existem atos concretos. Por exemplo, se aparecer um candidato pegando dinheiro, isso será muito ruim para ele.

Valor: Mas e o caso do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, que foi filmado recebendo dinheiro que seria de propina e, no entanto, aparecia como favorito nas pesquisas?
Márcia: Nesse caso, aconteceu que o governador Agnelo Queiroz fez uma gestão tão mal avaliada que tudo passou a ser relativo. O eleitor dizia: "O outro [Arruda] estava roubando, mas estava fazendo". Agnelo, junto com a governadora do Rio Grande do Norte, Rosalva, aparecia como um dos piores governadores. Arruda era bem avaliado. O crivo da corrupção não é tão linear. O eleitor ainda pensa: "Se ele roubar, mas fizer alguma coisa para mim, estou ganhando mais do que com um que não rouba".

Valor: Durante a campanha o eleitor desconfia das denúncias?
Márcia: Desconfia, sim. E o eleitor parte do pressuposto de que numa campanha sempre haverá denúncias e que na política ninguém é santo.
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REPORTAGEM  Por Monica Gugliano | Para o Valor, de São Paulo
FONTE: Valor Econômico online, 10/10/2014

A DOR DOS OUTROS

Tatiana Salem Levy* 
 

 Não deixa de ser curioso pensar que aquilo que tomamos como verdade absoluta - o caráter real da imagem - seja, muitas vezes, fruto de uma disposição artificial.
Na última coluna, busquei refletir sobre as imagens de horror nos dias de hoje a partir da peça "Cine Monstro", de Daniel MacIvor. Falei do recente espetáculo jihadista de decapitação filmada e espalhada pela internet. Uma vez que esse movimento continua, decidi dar continuidade também à reflexão sobre o poder da imagem, sobretudo a imagem de guerra, em diálogo com um livro de Susan Sontag chamado "Diante da Dor dos Outros". Ao percorrer um trajeto histórico da representação visual de diferentes guerras, Susan busca uma forma de torná-la não apenas um estímulo de comoção diante da perversidade humana, mas, sobretudo, de pensamento. De nada adianta o choque da imagem se não formos levados a questionar o nosso papel como espectador.

Em fevereiro de 1968, Eddie Adams tirou uma fotografia de um suspeito vietcongue sendo assassinado à queima-roupa pelo chefe da polícia nacional sul-vietnamita, Nguyen Ngoc Loan. A foto foi encenada pelo próprio general, que levou o prisioneiro até onde os jornalistas estavam reunidos e ainda escolheu o melhor ângulo para ser registrado o ato. Susan afirma que "Loan não teria cumprido a execução sumária ali, se eles não estivessem dispostos a testemunhá-lo".

A descrição desse acontecimento logo me fez pensar nas decapitações recentemente mostradas. Será que, se não houvesse espectadores, ainda haveria as mortes desses reféns? Ou será que as decapitações são produzidas justamente para ser vistas? E, se assim for, em que medida a nossa situação de espectador pode ser classificada como indecente?

O que os jihadistas vêm fazendo, de forma muito perspicaz, é personificar a morte. Uma bomba, para quem vê sua explosão de longe, faz números, não mata seres humanos individuais. Quando, ao contrário, se anuncia com antecedência uma decapitação, a mídia logo trata de divulgar idade, profissão e situação familiar da vítima, concedendo humanidade a quem será executado. Conquista-se, assim, o olhar dos espectadores e, com ele, a comoção, o apelo pela paz ou o desejo de vingança.

Nas primeiras guerras registradas pela fotografia - a Guerra da Crimeia e a Guerra Civil americana - o combate estava fora do alcance das câmeras. As fotos de guerra mostravam o momento posterior, a devastação, os cadáveres empilhados, os destroços dos prédios. Foi preciso esperar alguns anos para o aprimoramento do equipamento profissional - câmeras leves com filmes de 35 mm que podiam tirar 36 fotos antes de ser recarregadas - tornar possível o registro no calor da batalha. A Guerra Civil espanhola foi a primeira a ser testemunhada por fotógrafos nas linhas de frente. As imagens logo chegavam aos jornais e revistas do mundo, levando para os lares a dor dos outros.

O mesmo ocorreu, de forma mais intensa, durante a Guerra do Vietnã, quando as imagens já passavam na televisão, apresentando "à população civil americana a nova teleintimidade com a morte e a destruição". Para quem não esteve no campo de batalha, a compreensão da guerra passa, necessariamente, pelo impacto dessas imagens.

Graças à fotografia, o que poderia ser apenas fruto da fantasia ou do exagero de quem lá esteve ganha contornos reais. Ninguém questiona a sua autenticidade. Se ela existe é porque o fotógrafo presenciou a cena e disparou a máquina. O real salta do papel, encurta as distâncias, leva para a linha de frente quem nunca saiu de casa. A guerra se torna horrível mesmo para aqueles que não testemunharam in loco. Esse poder da fotografia ganha contornos mais acentuados em 1945, com o fim da Segunda Guerra e os registros feitos nos campos de concentração e nas cidades de Hiroshima e Nagasaki.

A partir de então, os jornais e revistas começam a orientar o trabalho como uma "caçada de imagens mais dramáticas", que "constitui uma parte da normalidade de uma cultura em que o choque se tornou um estímulo primordial de consumo e uma fonte de valor". A fotografia passa a ser utilizada na construção da narrativa histórica - já que uma foto, como diz o ditado, vale mais do que mil palavras.
A nossa memória se torna uma memória visual. No entanto, é importante destacar o caráter de encenação da fotografia e, mais recentemente, do vídeo. Muitas das fotos mais conhecidas, entre elas algumas da Segunda Guerra, foram encenadas. As de vitória, por exemplo, com as bandeiras hasteadas, foram tiradas depois do momento propriamente dito. O estranho, no ponto de vista de Susan Sontag, não é que tantas fotos jornalísticas do passado tenham sido encenadas. "O estranho é que nos surpreenda saber que foram encenadas e que isso sempre nos cause frustração". Não gostamos nada de descobrir que uma imagem - sobretudo de amor ou de morte - foi criada artificialmente.

Saindo do campo da guerra, temos o exemplo daquela famosa foto de Robert Doisneau em que um casal se beija na rua em Paris. A revelação de que foi uma encenação dirigida provocou grande decepção naqueles que "a tinham como uma imagem venerada do amor romântico e da Paris romântica". Além da encenação, outro fator fundamental da fotografia é a manipulação. Ao contrário do que se imagina, ela precede em muito o advento da era digital e de programas como o Photoshop. "Para os fotógrafos, sempre foi possível adulterar uma foto", lembra Susan.

Segundo a ensaísta americana, a partir da Guerra do Vietnã as fotos mais afamadas deixam de ser encenações e, embora as possibilidades de retocar e manipular a imagem sejam quase ilimitadas, "o costume de inventar dramáticas fotos jornalísticas, encená-las para a câmera, parece em via de se tornar uma arte perdida".

Não estou muito segura disso. Recentemente, um amigo fotógrafo que foi fazer uma matéria sobre o Bope me contou um fato curioso. Quando ele acompanhou o batalhão numa favela pacificada do Rio, também foi o jornalista de um importante canal televisivo internacional. Não houve troca de tiros nem outro tipo de violência. No entanto, o repórter pediu para os policiais passarem correndo de um lado para o outro, fingindo estar numa operação, enquanto ele falava, agachado, apressado, em tom de desespero, como se estivesse num campo de batalha. Portanto, parece que ainda hoje muitas das imagens de guerra - em cuja realidade acreditamos piamente - são encenadas. E são essas encenações que se convertem em testemunho histórico, "ainda que de um tipo impuro - como a maior parte dos testemunhos históricos".

Não deixa de ser curioso pensar que aquilo que tomamos como verdade absoluta - o caráter real da imagem - seja, muitas vezes, fruto de uma disposição artificial. Hoje, por mais que as possíveis manipulações aticem a nossa desconfiança, continuamos a acreditar na veracidade das imagens, até porque elas só existem se houver a presença da câmera. Por isso, os vídeos das decapitações foram tão largamente vistos em diferentes lugares do mundo. E quem os concebeu conhece o impacto que uma imagem pode gerar, a sua capacidade de levar o espectador até o instante da morte - experiência que atrai pelo horror. Impossível negar a curiosidade humana em olhar a dor dos outros.

A questão que se coloca é: o que fazer depois de flertar com a morte? Susan Sontag nos lembra a maravilhosa sequência de água-forte de Goya "As Desgraças da Guerra", em que ele retrata as atrocidades cometidas pelos soldados de Napoleão ao invadir a Espanha. Aqui, a guerra não é um espetáculo. "A arte de Goya, como a de Dostoiévski, parece representar um ponto crucial na história dos sentimentos morais e da dor", afirma Susan. Embaixo de cada imagem, o pintor escreveu uma frase que insistia na dificuldade de olhar para o que estava representado. "Não se pode olhar", diz uma. "Isto é ruim", diz outra. E ainda: "Isto é pior! Isto é o pior! Bárbaros! Que loucura! É demais! Por quê?"

Pois é, Goya, por quê? Pergunta tão simples, tão pueril, que no entanto deve acompanhar cada imagem do horror, seja dos americanos invadindo o Vietnã ou o Iraque, da troca de tiros entre a polícia e os bandidos nas nossas favelas ou dos jihadistas decapitando reféns. Em qualquer caso, a boa representação da guerra deve sempre renovar o seu objetivo inicial: convocar-nos à reflexão. Queremos isso mesmo? Por quê?
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*Tatiana Salem Levy, doutora em letras e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente
E-mail: tatianalevy@gmail.com
Fonte: Valor Econômico online, 10/10/2014

Novo livro de Agamben discute a forma de vida dos monges

Por Valeria Bonacci*, na revista Cult

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A pesquisa de Giorgio Agamben mostra como os monges franciscanos relacionavam a liturgia ao modo concreto do seu exercício, reivindicando uma coessencialidade 
de “regra” e “vida”

Nos textos da série Homo Sacer, Agamben anuncia uma quarta parte da pesquisa, na qual as noções de “forma-de-vida” e de “uso”, em cuja direção convergem suas investigações arqueológicas, se mostrarão na sua luz própria. O primeiro volume publicado nessa seção de Homo Sacer é Altíssima pobreza: Regras monásticas e forma de vida (Homo Sacer, IV, I, 2011). O ensaio desenvolve uma indagação a respeito da vida monástica dos séculos 4 ao 13, e em particular sobre a teoria franciscana do usus pauper das coisas, que identifica como um “uso” irredutível à propriedade, por meio do qual os padres tentaram se subtrair ao direito. Altíssima pobreza é publicado contemporaneamente a Opus Dei: Arqueologia do ofício(Homo Sacer, II, 5, 2012), o texto em que culmina a genealogia teológica do governo encaminhada em O reino e a glória (Homo Sacer, II, 2;2007), e do qual constitui, em certo sentido, a pars construens. Se Opus Dei traz à luz o modo como a liturgia eclesiástica, elaborando a função sacerdotal, procura capturar a práxis contingente do homem e fazê-la coincidir no sacramento com a ação de Deus, Altíssima pobreza mostra o nascimento dos monastérios cristãos como uma tentativa de desativar o dispositivo litúrgico, de inverter a subordinação do agir particular do sacerdote ao governo divino, que se formula ligando a eficácia do sacramento à sua realização por meio da própria vida do monge. A pesquisa mostra como os monges relacionam sempre a liturgia ao modo concreto do seu exercício, reivindicando uma coessencialidade de “regra” e “vida”, na linguagem do fransciscanismo uma forma vitae, que o texto indica como “uma vida que se relaciona tão proximamente à sua forma a ponto de dela resultar inseparável”.

Embora Agamben afirme que a forma-de-vida, este “algo inaudito e novo”, na vida comum dos monges “se aproximou obstinadamente à própria realização e lhe faltou com a mesma intensidade”, ele tenta desenvolver e radicalizar a relação entre “regra” e “vida” formulada pelo monasticismo, mostrando-a como uma oscilação sem solução entre vida e lei, fato e direito, que revela um terceiro, um meio entres eles, que em referência ao franciscanismo ele indica como um novo possível “uso” comum da vida e das coisas.

“Regra (regula)” é o nome do texto que ordena a vida do monastério, isto é, cada comunidade de monges faz referência a uma regra enquanto documento constituinte. Agamben observa a impossibilidade de se atribuir as regras a um gênero literário definido; essas são às vezes uma série minuciosa de preceitos, que dizem respeito a cada detalhe isolado da vida dos monges, em alguns casos a transcrição fiel de um diálogo que tem lugar no monastério ou, mais amiúde, apenas o relato sobre a vida do monge fundador. Os estudiosos das regras não as definem propriamente como leis, mas tampouco as consideram simples indicações, “conselhos”. Com efeito, os preceitos das regras, referindo-se aos menores detalhes da vida de um monge, relacionando-se com a totalidade da existência, não podem ser entendidos como obrigatórios, ou seja, um monge isolado jamais poderia pô-los todos em prática, e, portanto, não se constituem em um conjunto de leis que ele deveria aplicar à realidade. “O que é uma regra?” – pergunta Agamben – “se esta parece confundir-se sem resíduos com a vida? E o que é uma vida humana, se esta não pode mais ser distinguida da regra?”.
altíssima pobreza
A adesão do monge à regra não consiste na observação de preceitos determinados, mas diz respeito à relação entre a regra e a vida e entre a vida e a regra. Aquele que entra no monastério “não se obriga, como acontece no direito, ao cumprimento de atos isolados previstos na regra, mas coloca em questão o seu modo de viver, que não se identifica com uma série de ações nem se exaure nelas. (…) [Como escreve Tomás,] ‘os monges não prometem a regra, mas viver segundo a regra’. (…) O objeto da promessa aqui não é mais um texto legal a ser observado ou uma certa ação ou uma série de comportamentos determinados, mas a mesma forma vivendi do sujeito”.

Vida comum do monastério

Se o monge vive cada momento da sua vida em relação à regra, esta não é uma lei, mas, afirma Agamben, a “forma” que permite a cada momento constituir-se como “exemplar”, “paradigmático” da vida comum do monastério. Em que sentido o exemplo e o paradigma permitem pensar a coexistencialidade de regra e vida que caracteriza a comunidade cenobita? No texto Signatura rerum: Sobre o método (2008), Agamben afirma que “o paradigma é um caso isolado que vem separado do contexto ao qual pertence, apenas na medida em que este, exibindo a própria singularidade, torna inteligível um novo conjunto, cuja homogeneidade ele próprio deve constituir. Dar um exemplo é, portanto, uma ação complexa, que supõe que o termo que funciona como paradigma seja desativado do seu uso normal, não por ser deslocado em um outro âmbito, mas, ao contrário, para mostrar o cânone daquele uso, que não é possível exibir de outro modo”.

O exemplo é uma forma de conhecimento que não procede articulando universal e particular, na medida em que põe em questão a sua oposição dicotômica: na lógica paradigmática, é somente a exibição do caso isolado como exemplar que define a regra constituindo um conjunto. Nesse sentido, o exemplo é um terceiro entre o universal e o particular, entre a regra e a vida, que não aparece, porém, senão através da relação dúplice entre eles, a sua indiscernibilidade. Para o monge, abandonar o contexto normal e seguir a regra é transformar cada aspecto da própria vida em “exemplar” da vida comum, enquanto é uma exibição da sua singularidade que, somente em virtude dessa exibição, se constitui como pertencente a um conjunto. Isso permite compreender por que amiúde o texto da regra consiste somente na narração histórica da vida do fundador do monastério: é a própria exibição de cada aspecto de sua existência como exemplar que constitui a comunidade.

As pesquisas sobre a noção de potência que acompanham as indagações políticas de Homo Sacer permitem aprofundar na lógica do exemplo e caracterizar ulteriormente a relação entre regra e vida. Agamben, em particular nos textos da segunda seção de Homo Sacer, chega a mostrar a potência como o que resta retido no ato e, portanto, o revoga, mas não se coloca por isso como uma dimensão separada, cujo subtrair-se permanece em relação com o ato enquanto aquilo que o abre sempre em uma nova determinação, para um “novo uso”.

Se a regra consiste apenas na exibição da singularidade de um momento da vida, que, sem fazê-lo sair do plano do singular, o transforma em exemplar de um conjunto, é por expor a sua singularidade a partir da sua potência, como aquilo que nele se subtrai e, portanto, o revoga de seu uso normal, mas não o isola de tal modo em uma esfera distinta, ou seja, não o revoga senão para mostrá-lo em relação com um outro momento singular.

Os monges, executando cada ação segundo a regra, experimentam a potência desta como aquilo que constitui a sua exemplaridade, por revogá-la e ao mesmo tempo abri-la sempre em uma nova ação. Uma forma que consiste apenas na exibição de uma singularidade a partir da sua potência, e que assim a coloca sempre em relação com uma outra singularidade, é uma forma-de-vida sempre em devir, coincide com a sua transformação, assim como a comunidade à qual ela dá lugar.

Liturgia eclesiástica

O dispositivo litúrgico funciona colocando no seu centro o agir singular do sacerdote, mas o determina como ofício por fazê-lo coincidir no sacramento com o governo divino. A liturgia tenta, em tal modo, se apropriar da potência do agir do homem e governá-la, enquanto ela é a única coisa a partir da qual se pode realizar toda ação, mas ao mesmo tempo aquilo que impede sua determinação unívoca, aquilo que torna possível cada atualização determinada, mas abrindo-a sempre em uma nova configuração. Todavia, essa potência escapa de uma captura, a práxis do homem não se deixa identificar com o governo divino, enquanto este precisa sempre remeter circularmente a uma ação singular na qual possa realizar-se. Se a liturgia procura sempre de novo capturar a potência do agir do homem e confiná-la na esfera separada do sacramento, os monges reivindicam esse círculo, “apagando a separação e, fazendo da forma de vida uma liturgia e da liturgia uma forma de vida, instituem entre as duas um limiar de indiscernibilidade carregada de tensões”.

Em virtude da subordinação do agir concreto do sacerdote ao ofício realizada pela liturgia eclesiástica, o sacramento resulta eficaz mesmo quando conferido por um ministro “indigno”, o que, do ponto de vista da relação entre regra e vida, resulta impossível: “para uma vida que recebe o seu sentido e a sua condição do ofício, o monasticismo contrapõe a ideia de um oficium que tem sentido somente se se torna vida”. A regra leva os monges a viverem sua vida como uma “prática incessante”, no cenóbio “cada gesto do monge, cada atividade mais humilde se torna uma obra espiritual, adquire o estatuto litúrgico de um opus Dei”. Segundo Agamben, todavia, o monasticismo, ligando os singulares aspectos da vida comum ao serviço de Deus e à sua celebração, não consegue resolver sua relação com a liturgia; tampouco deixa entrever uma relação inédita entre norma e fato, ser e agir, uma forma-de-vida como âmbito de sua oscilação irresolúvel, de sua sempre nova configuração.

O sintagma forma vitae era usado nos monastérios franciscanos como reivindicação consciente de uma vida não subsumível ao direito positivo. Os monges a perseguiam praticando a renúncia a qualquer propriedade como pobreza e usus pauper das coisas. Eles foram combatidos pela cúria romana precisamente porque uma tal prática se situava em uma esfera sobre a qual o direito civil não tem nenhum domínio. Mas no que consiste um uso das coisas que não possa jamais se tornar uma apropriação?

Os franciscanos o definiam em geral negativamente, como um “usar da coisa como não própria”, expondo-se assim, porém, às objeções da cúria, em particular do papa João XXII que, na bula Ad conditorem canonum, refutava a possibilidade de  separar uso e propriedade, identificando o uso com uma consumação – que se resolveria então com a posse – dos objetos essenciais à vida dos padres, como comida ou roupa. Esta objeção, todavia, conduzira os franciscanos a conceber o uso de maneira não negativa. Francisco de Ascoli, por exemplo, escrevera em resposta ao papa que, assim como o ser das coisas consumíveis coincide com sua transformação, e não é, portanto, redutível a uma propriedade, o uso é sempre in fieri, consiste no seu devir.

Bonagratia de Bergamo, por sua vez, indicou o usus pauper como a prática que define originariamente a comunidade dos homens, na medida em que comum pode ser apenas o uso das coisas mas jamais a sua posse. Essas reflexões, considera o texto, poderiam ter conduzido à formulação de uma teoria do usus como habitus, prática que jamais se substancialize em um ato determinado, enquanto, ao contrário, o franciscanismo continuou a defini-lo em geral de forma negativa, prestando-se às críticas da liturgia eclesiástica que se tornara predominante. “Ao invés de confinar o uso no plano da pura práxis” – escreve Agamben – “como uma série factícia de atos de renúncia ao direito, teria sido mais fecundo tentar pensar a sua relação com a forma de vida dos padres franciscanos, perguntando-se de que modo aqueles atos podiam se constituir em um vivere secundum formam e em um hábito. O uso, nessa perspectiva, poderia ter-se configurado como um tertium em relação ao direito e à vida, à potência e ao ato, e definir – não apenas negativamente – a própria práxis vital dos monges, sua forma-de-vida”. Pensar o uso como a dimensão da tensão irresolúvel entre regra e vida, da regra como exposição da vida, e da vida como aquilo que reenvia sempre a uma nova regra, equivale a pensá-lo como uma terceira dimensão, que, enquanto lugar de seu remetimento sempre renovado, consiste apenas na sua transformação, se dá sempre como “um novo uso”.

Em tal sentido, o habitus e o uso emergem como a forma de uma “vida que se mantém em relação não só com as coisas, mas também consigo mesma no modo da inapropriabilidade”, que os próximos volumes da quarta seção de Homo Sacer deverão permitir caracterizar ulteriormente.
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* Valeria Bonacci é doutora pela Universidade de Lecce em cotutela com a Universidade Sorbonne-Paris IV e colabora com a cátedra de Filosofia Prática da Universidade La Sapienza de Roma
Fonte: http://www.outraspalavras.net/outroslivros/novo-livro-de-agamben-discute-a-forma-de-vida-dos-monges/

Chomsky: “Triste espécie. Pobre coruja de Minerva”

Noam Chomsky

noam chomsky
“Nossa civilização teve início há 10 mil anos, entre o Tigre e o Eufrates. O que lá ocorre hoje fornece lições dolorosas sobre o abismo a que podemos chegar”

Por Noam Chomsky | Tradução: Tiago Franco

Não é agradável contemplar os pensamentos que devem estar passando pela mente da Coruja de Minerva, que alça voo ao cair do crepúsculo e toma para si a tarefa de interpretar cada era da civilização humana — esta mesma que pode, agora, estar se aproximando de um final inglório.
Nossa era começou há quase 10 mil anos, na região da Crescente Fértil. Estendeu-se, a partir das terras do Tigre e Eufrates, pela Fenícia, na costa oriental do Mediterrâneo, chegando ao vale do Rio Nilo e de lá para além da Grécia. O que está acontecendo nesta região fornece dolorosas lições sobre o abismo ao qual a espécie humana pode chegar.

As terras do rios Tigre e Eufrates têm sido palco de horrores indescritíveis nos últimos anos. A ofensiva de George W. Bush e Tony Blair em 2003, que muitos iraquianos compararam à invasão mongol do século XIII, foi mais um golpe letal. Destruiu grande parte do que havia sobrevivido às sanções da ONU, dirigidas por Bill Clinton contra o Iraque e condenadas como “genocídio” por ilustres diplomatas como Denis Halliday e Hans von Sponeck, que as administravam antes de renunciarem em protesto. Os devastadores relatórios de Halliday e von Sponeck receberam o tratamentos usualmente dispensado a fatos indesejados…

Uma das conseqüências terríveis da invasão estadunidense-britânica é descrita em um “guia visual para a crise no Iraque e na Síria” do New York Times: a radical mudança da Bagdá, que tinha bairros mistos em 2003, para os atuais enclaves sectários — sunitas ou xiitas — aprisionados em ódio amargo. Os conflitos causados pela invasão espalharam-se e estão agora rasgando toda a região em farrapos.

Boa parte da área do Tigre e Eufrates está dominada pelo ISIS e seu auto-proclamado Estado Islâmico. Uma caricatura sombria da forma mais extremista do Islã radical, que tem sua origem na Arábia Saudita.

Patrick Cockburn, um correspondente do The Independent no Oriente Médio e um dos mais bem informados analistas do ISIS, descreve-o como “uma organização horrível, fascista em muitos aspectos, muito sectária, que mata qualquer um que não acredite em sua particular e rigorosa imagem do Islã. ”

Cockburn também aponta a contradição na reação ocidental em relação ao aparecimento do ISIS: os esforços para conter o avanço do grupo no Iraque, contrastam com os outros, para minar o principal adversário do ISIS na Síria, o brutal regime de Bashar Assad. Enquanto isso, uma grande barreira para a expansão do ISIS até o Líbano é o Hezbollah, inimigo odiado pelo Estados Unidos e seu aliado israelense. E, para complicar ainda mais a situação, os EUA e o Irã partilham agora uma preocupação legítima sobre a ascensão do Estado Islâmico, assim como outros nesta região altamente conflituosa.
O Egito tem mergulhado em alguns de seus dias mais sombrios, sob uma ditadura militar que continua a receber o apoio dos EUA. O destino do país não está escrito nas estrelas. Durante séculos, caminhos alternativos têm sido bastante viáveis e , não raro, uma pesada mão imperial os tem barrado. Depois dos renovados horrores das últimas semanas, em Gaza, deve ser desnecessário comentar sobre o que emana de Jerusalém, considerada, em tempos remotos, um centro moral.

Oitenta anos atrás, Martin Heidegger exaltava a Alemanha nazista como sendo provedora da melhor esperança para resgatar a gloriosa civilização grega das mãos dos bárbaros do Leste e do Oeste. Hoje, banqueiros alemães esmagam a Grécia sob um regime econômico projetado para manter sua própria riqueza e poder.

O provável fim da Era da Civilização é prenunciado em um novo relatório esboçado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) , o principal órgão de monitoramento sobre que está acontecendo no mundo físico.

O relatório conclui que o risco de aumentar a emissão de gases que contribuem para o efeito estufa é “severamente grave e terá impactos irreversíveis para os seres humanos e os ecossistemas” nas próximas décadas. O mundo está se aproximando de uma temperatura na qual já não será possível conter a perda da vasta camada de gelo sobre a Groenlândia. Juntamente com o derretimento do gelo antártico, que pode elevar o mar a níveis capazes de inundar grandes cidades, assim como planícies costeiras.

A Era da Civilização coincide intimamente com a época geológica do Holoceno, principiada há mais de 11 mil anos. A época anterior, Pleistoceno, durou 2,5 milhões de anos. Cientistas hoje sugerem que uma nova época começou há cerca de 250 anos: o Antropoceno, período no qual a atividade humana passou a ter impacto dramático no mundo físico. O ritmo das mudanças de épocas geológicas é difícil de ser ignorado.

Um dos índices do impacto humano, é a extinção das espécies. Estima-se hoje que esteja próxima à taxa de extinção verificada 65 milhões de anos atrás, quando um asteroide atingiu a Terra. Presume-se que tenha sido a causa do fim dos dinossauros, abrindo caminho para a proliferação de pequenos mamíferos e , em última instância, dos seres humanos modernos. Hoje, os humanos cumprem o papel do asteroide , condenando grande parte da vida à extinção.

O relatório do IPCC reitera que “a grande maioria” das reservas de combustíveis hoje conhecidas deve se mantida no solo, para evitar intoleráveis riscos para as gerações futuras. Entretanto, as grandes corporações de energia não se preocupam em esconder seus objetivos de explorar essas reservas e descobrir novas.

Um dia antes de publicar uma síntese das conclusões do IPCC, o New York Times relatou que um imenso estoque de grãos do Centro-Oeste dos Estados Unidos está apodrecendo, para que os produtos derivados do boom do petróleo da Dakota do Norte possam ser enviados, via ferroviária, para Ásia e Europa.

Uma das consequências mais temidas do aquecimento global antropocênico é o derretimento das regiões de pergelissolo (tipo de solo encontrado na região do Ártico). Um estudo na revista Science adverte que “mesmo temperaturas ligeiramente mais quentes [menos do que o previsto para os próximos anos] poderia começar o derretimento do pergelissolo, que, por sua vez, ameaça desencadear a liberação de grandes quantidades de gases de efeito estufa contidas no gelo,” com possíveis “consequências fatais” para o clima global.

Arundhati Roy sugere que “a mais apropriada metáfora para a insanidade de nossos tempos” é a Geleira de Siachen , onde soldados indianos e paquistaneses mataram uns aos outros no campo de batalha mais alto do mundo. A geleira agora está derretendo e revelando “milhares de granadas vazias, tambores de combustível vazios, machados para quebrar gelo, botas velhas, tendas e toda sorte de resíduos que milhares de seres humanos em guerra geram”, em um conflito sem sentido. E, enquanto as geleiras derretem, a Índia e o Paquistão enfrentam um desastre indescritível.

Triste espécie. Pobre Coruja.
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* Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofia do MIT — Instituto de Tecnologia de Massachussets. Colaborador regular do TomDispatch, é autor de diversas obras políticas de grande repercussão.
Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/chomsky-triste-especie-pobre-coruja-de-minerva/

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Thomas Fischermann, jornalista e cientista político: ‘Na luta pelos direitos, há sempre dois lados’

 
Thomas Fischermann conta o que achou mais interessante no Brasil até agora, comenta seu interesse na Amazônia e fala sobre a economia do país no futuro
Foto: Daniela Hallack Dacorso / daniela dacorso
 Thomas Fischermann conta o que achou mais interessante no Brasil até agora, comenta seu interesse na Amazônia 
e fala sobre a economia do país no futuro - 
Daniela Hallack Dacorso / daniela dacors

Editor para a América do Sul do jornal Die Zeit, alemão, que vive há um ano no Rio, percorreu, no período, favelas, terreiros, garimpos e reservas indígenas

“Nasci na Alemanha, em 1969. Sou jornalista e cientista político, com formação em economia. Fui correspondente em Londres, Nova York e Washington. Vivo no Rio há pouco mais de um ano, sou casado com uma mineira, que conheci no meu país e com quem tenho um filho de nove anos”

Conte algo que não sei.
No Brasil, para um correspondente, é mais difícil falar com políticos e grandes empresários do que em Londres ou Nova York. Até hoje não falei com o Eike! (Risos) Já as pessoas na rua são acolhedoras em qualquer lugar, há uma história para contar a cada dia e os trabalhadores estão sempre disponíveis para narrar a sua labuta.

Você é um alemão típico?
Tenho a pele pálida, o que me difere dos cariocas. E o fato de eu estar sempre nos lugares na hora marcada. Esse é o hábito que mantenho.

O que você já descobriu de mais interessante no Brasil?
Fiz uma viagem incrível a uma reserva indígena partindo de Rondônia, mata adentro. Na pequena aldeia, vi coisas que jamais imaginei. O fotógrafo que me acompanhou ficou três horas dentro do cabaré dos garimpeiros, tomou sete uísques com as putas, virou amigo de todos. Quase mataram um travesti lá dentro e o avião emperrou na saída. Houve mortes em confrontos entre índios e brancos. É um lugar perigoso. Lá, conheci as rainhas da beleza. Há beleza no garimpo além de ouro. Mas há armas e perigo, também.

Você tem um interesse particular pela Amazônia?
Percorri, em pouco mais de um ano, os lugares mais impensáveis . Das favelas do Rio ao garimpo nos arredores da Transamazônica. Desde que eu fazia o ensino médio na Alemanha e estudávamos a cultura de outros países eu tinha curiosidade em conhecer a relação entre brancos e índios. 

O que faz você viajar?
Interesso-me por processos de transformação social que envolvem condições econômicas. E por como o dinheiro transforma essas relações. Onde há muito dinheiro em circulação, há sempre tensão social. É o caso do garimpo, das reservas indígenas e dos conflitos que deflagram. Na luta por direitos humanos, sei que há sempre dois lados na história.

Você se instalou no Brasil em 2013, momento politicamente delicado. Que efeito isso teve no seu olhar?
Foi fascinante. Estava no Rio quando eclodiram as manifestações. Também cobri a seleção alemã na Bahia, fui atrás do Neymar, das prostitutas cariocas, dos conflitos no Jardim Botânico, da umbanda e do candomblé, dos templos evangélicos, da intolerância religiosa. Todos esses assuntos são relevantes porque ilustram o que é o Brasil. 

E o que é o Brasil?
Em uma observação geral, digo que não é o carnaval, a festa ou a alegria, mas o esforço grande em ir para a frente.

Na função de correspondente de economia, como você vê os próximos anos?
Depende das conexões que o Brasil vai fazer no futuro, de como vai se posicionar no mercado internacional. O país tem muito a oferecer. Mas desenvolver-se economicamente não quer dizer, necessariamente, desenvolver-se socialmente. O extrativismo beneficia um número muito pequeno de pessoas. Há desafios sociais profundos.

Como você compara o Rio a outras cidades do continente?
Se eu comparar com São Paulo, o que já é suficiente, prefiro estar aqui. São Paulo pode ser economicamente mais central, mas o Rio é socialmente representativo do que é o Brasil: o centro da América do Sul. Não há como negar.
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Reportagem por Maria de Luz Miranda
Fonte: O globo online, 06/10/2014

Política, corrupção e pizza

Luiz Felipe Pondé* 
 
Ninguém dá bola para corrupção em política. Nenhum estrato social. Nem rico nem pobre 

Dito de forma direta, o que quero dizer hoje é: ninguém está nem aí para corrupção em política. Nenhum estrato social. Nem rico, nem pobre, nem culto, nem artista, nem inteligentinho. Pega bem dizer que se está, mas é pura afetação de salão. Coisa de burguês. A prova é que com ou sem Petrobras, no final, será servida uma grande pizza. 

Escândalos se acumulam (e não me refiro apenas aos bolivarianos atualmente no poder), mas ninguém está nem aí. Justificativas sustentam toda e qualquer defesa de políticos ou partidos corruptos ou suspeitos de corrupção. A democracia tem uma dimensão circense e as eleições são seu clímax. 

Sim, são afirmações céticas. O senso comum pensa que ser cético é duvidar da existência de Deus. Isso é ceticismo de criança. Qualquer um duvida da existência de Deus. Quem se leva muito a sério por isso é que é meio bobo. 

E a razão pra ninguém estar nem aí para corrupção é que nossa relação com a política não é racional, como dizem que é. Somos mais facilmente racionais quando compramos pão francês do que quando pensamos em política. "Consciência política" é tão fetiche quanto "carma". 

Não existe essa tal de consciência política, mas sim simpatias, empatias, interesses, taras, fanatismo que travestimos de "consciência política". 

A única racionalidade possível na política é a de Maquiavel, que continua sendo o filósofo da política mais sério até hoje: a razão da política é a conquista e manutenção do poder a qualquer custo. 

Desde o século 18 e a falsa afirmação de que a política redimirá o mundo (pecado do suíço Rousseau), abriu-se um novo "mercado" das mentiras políticas: aquele que diz que a política pode ser "ética". 

A democracia tem uma vocação para a retórica, já dizia Platão. Mas, reconheçamos, não há regime melhor. Nela, o circo das "escolhas éticas" se acumulam ao sabor do marketing e das justificativas do que preferimos. 

Não votamos racionalmente. Votamos porque (na melhor das hipóteses) algum candidato ou partido concorda, mais ou menos, com a "pequena" teoria de mundo que temos. 

Alguns de nós tem mais tempo e condição de trabalhar suas "pequenas" teorias. Outros vão a seco e votam em quem eles acham que vai aumentar o poder de compra deles (dane-se a corrupção) ou quem mais se encaixa na visão de "um mundo melhor" (maior fetiche da política dos últimos 250 anos) deles (dane-se a corrupção). 

Se acreditamos que a economia seja uma ciência do comportamento humano que deve levar em conta coisas como "quem tem o que todo mundo quer ganha mais" tendemos a crer que devemos levar em conta as "leis de mercado". Quem crê que devemos "buscar formas mais humanas de produção e igualdade" não crê nas "leis de mercado", mas sim que elas foram inventadas pelos que gostam de explorar os mais fracos. 

Mas, como a democracia é um regime baseado numa economia do ressentimento, quem crê em "leis de mercado" é malvado e quem afirma que elas podem ser negadas se quisermos fazer o mundo melhor é visto como gente legal. 

Se acho um candidato "fodão", arrumo razões pra votar nele. Se acho que o Brasil precisa de um modo de vida "x", arrumo alguém que pareça concordar comigo. Se acho o candidato alguém comprometido com a "justiça social", ele pode até roubar. Se busco santos, direi: o Brasil precisa de um choque de sinceridade na política. 

A crença de que exista racionalidade na política é tão necessária para a maioria das pessoas hoje quanto Deus é necessário para uma porrada de gente. Os não-religiosos creem que olham o mundo de modo mais racional porque não acreditam num ser invisível entre tantos outros. Mas, acreditar que exista uma coisa chamada "consciência política" é também um ato de fé. 

Suecos votam para garantir seu tempo livre. Americanos para defender seu quintal. Argentinos por masoquismo. Franceses para garantir a aposentadoria. Ingleses já não sabem se são pós-cristãos ou neomuçulmanos. 

E brasileiros votam porque querem mais Estado nas suas vidas. Mais Bolsa Família e mais bolsa empresário. Em mil anos rirão de nossa fé na democracia. 
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* Filósofo. Escritor.
Fonte: Folha online, 06/10/2014
imagem da Internet

Você quer mudar o mundo? Melhor ler isso primeiro.


"A História é muitas vezes feita por personalidades fortes empunhando novas ousadas doutrinas políticas, econômicas ou religiosas. No entanto, qualquer esforço sério para compreender como e por que as sociedades mudam requer o exame não apenas de líderes e idéias, mas também de circunstâncias ambientais. O contexto ecológico (clima, tempo, e a presença ou ausência de água, solo bom, e outros recursos) pode se apresentar ou encerrar oportunidades para aqueles que querem sacudir o mundo social. Isto sugere que se você quiser mudar a sociedade, ou que está interessado em ajudar ou avaliar os esforços de outros para fazê-lo, alguma compreensão de como exatamente as circunstâncias ambientais afetam esses esforços poderiam ser extremamente úteis." Escreve o jornalista Richard Heinberg do Post-Carbon Institute em texto originalmente publicado por Resilience.org, em 16-06-2014. A tradução é de Caio Fernando Flores Coelho.

Eis o artigo. 

Talvez a chave mais importante para compreender a relação entre o ambiente e os processos de mudança social tenha sido articulada pelo antropólogo americano Marvin Harris (1927-2001). Desde o início de seus esforços para estudar sistematicamente as sociedades humanas nos séculos XVIII e XIX, estava claro que havia uma forte correlação entre a forma como as sociedades obtém seu alimento (seja por caça e coleta, horticultura, agricultura, pastoreio de animais, ou de pesca) e suas estruturas sociais e crenças sobre o mundo. Caçadores-coletores geralmente vivem em pequenos bandos itinerantes, têm uma estrutura social igualitária, e consideram o mundo natural cheio de poderes sobrenaturais e personalidades que podem ser contatados ou influenciados pelos xamãs. Os agricultores, por outro lado, ficam em um lugar e produzem excedentes sazonais que muitas vezes acabam por subsidiar a formação de cidades, bem como classes de especialistas de tempo integral em diversas atividades (metalurgia, estadismo, belicismo, salvaguarda de bens, manutenção de registros e assim por diante); sociedades agrícolas também tendem a desenvolver as religiões formais presididas por uma classe sacerdotal hierárquica de tempo integral. Estas distinções sistêmicas e semelhanças têm se mantido fiéis em diferentes continentes e ao longo dos séculos. Harris mostrou como mudanças de um tipo de sistema de alimentação para outro foram impulsionadas pela oportunidade ambiental e pela necessidade, e ele refinou suas idéias sobre uma estratégia de pesquisa antropológica. [1] 

A magnum opus de Marvin Harris foi o difícil livro book Cultural Materialism: The Struggle for a Science of Culture (Materialismo Cultural: A luta por uma Ciência da Cultura, 1979). Embora ele fosse perfeitamente capaz de escrever para outros públicos gerais – entre seus títulos Cows, Pigs, Wars and Witches (1974) e Cannibals and Kings (1977) foram best-sellers – em Cultural Materialism, Harris estava escrevendo para companheiro antropólogos. O livro é cheio de jargão técnico, e seu autor argumenta meticulosamente cada ponto, apresentando um excesso de provas. No entanto, o cerne da contribuição teórica de Harris pode ser resumido brevemente. 

Todas as sociedades humanas são compostas por três esferas inter-relacionadas: em primeiro lugar, a infraestrutura, que compreende as relações de uma sociedade ao seu ambiente, incluindo os seus modos de produção e reprodução – pense primariamente em suas formas de obtenção de alimentos, energia e materiais; segundo, a estrutura, que compreende as relações econômicas, políticas e sociais de uma sociedade; e terceiro, a superestrutura, que consiste em aspectos simbólicos e ideacionais de uma sociedade, incluindo as suas religiões, artes, rituais, esportes e jogos, e ciências. Inevitavelmente, essas três esferas se sobrepõem, mas elas também são distintas, e é literalmente impossível encontrar uma sociedade humana que não possua todas as três em constante permuta.

Para os defensores da mudança social, é o que vem a seguir que deve agitar os neurônios. O "materialismo cultural" de Harris [2] defende o princípio do que ele chama de "determinismo infraestrutural probabilístico." Ou seja, a estrutura e superestrutura das sociedades são sempre contestadas em um grau ou outro. Batalhas sobre distribuição da riqueza e sobre ideias são perenes, e podem ter consequências importantes: a vida na antiga Alemanha Oriental era muito diferente da vida na Alemanha Ocidental, mesmo que ambas fossem nações industriais que operavam sob (o que sempre foi desde o começo) condições ecológicas idênticas. No entanto, a mudança de sociedade realmente radical tende a ser associada com as mudanças da infraestrutura. Quando a relação básica entre a sociedade e seu ecossistema se altera, as pessoas tendem a reconfigurar seus sistemas políticos, econômicos e ideológicos de acordo, mesmo que sejam perfeitamente felizes com o estado anterior de coisas.

Sociedades mudam sua infraestrutura em casos de necessidade (por exemplo, devido ao esgotamento dos recursos) ou oportunidade (geralmente devida a maior disponibilidade de recursos, disponibilizados talvez pela migração para um novo território ou pela adoção de uma nova tecnologia). A Revolução Agrícola de 10.000 anos atrás representou uma grande mudança de infraestrutura, e a energia fóssil da Revolução Industrial, há 200 anos, tinha ainda maior e mais rápido impacto. Em ambos os casos, os níveis de população aumentaram, as relações políticas e econômicas evoluíram, e as idéias sobre o mundo transformaram-se profundamente.

Explicando o exemplo anterior em mais de detalhes podem ajudar a ilustrar o conceito. Harris foi um dos primeiros a adotar o ponto de vista agora comum da Revolução Agrícola como uma resposta adaptativa às mudanças ambientais no final do Pleistoceno, um período de mudança climática dramática. As geleiras foram recuando e espécies (especialmente grandes presas herbívoras, como mamutes e mastodontes) enfrentaram a extinção, especialmente com a predação humana auxiliando neste processo. "Em todos os primevos centros de atividade agrícola", escreveu Harris, o fim do Pleistoceno viu um alargamento notável da base de subsistência para incluir mamíferos menores, répteis, aves, moluscos e insetos. Tais sistemas "de largo espectro" eram um sintoma de tempos difíceis. À medida que os custos de trabalho dos sistemas de subsistência de caçadores-coletores cresce, e como os benefícios caíram, modos sedentários alternativos de produção tornaram-se mais atraente.

Estilos de vida com base no cultivo criaram raízes e se espalharam, e com eles (eventualmente) vieram aldeias e tribos. Em certos lugares, o último, por sua vez transformou-se para produzir a invenção social mais radical de todas, o Estado:

As infraestruturas paleotécnicas mais passíveis de alterações intensificadas, de redistribuição e de expansão das funções gerenciais foram aquelas baseadas nos grãos e ruminantes complexos do Oriente Próximo e Médio, sul da Europa, norte da China, e do norte da Índia. Infelizmente essas foram justamente os primeiros sistemas a cruzar o limiar de um Estado, e que, portanto, nunca puderam ser diretamente observadas por historiadores ou etnólogos. No entanto, a partir da evidência arqueológica de armazéns, da arquitetura monumental, de templos, de altos túmulos, de fossos defensivos, paredes, torres e o crescimento dos sistemas de irrigação, é evidente que as atividades de gestão semelhantes às observadas entre os sobreviventes de tribos pré-estatais sofreram rápida expansão nessas regiões críticas imediatamente anteriores ao aparecimento do estado. Além disso, há provas abundantes de encontros romanos com "bárbaros" do norte da Europa, assim como temos registros a partir de escrituras hebraicas e indianas, nórdicas, germânicas e de sagas celtas sobre como guerreiros “intensificadores de processos”, redistribuidores e seus sacerdotes “retentores” constituíam os núcleos das primeiras classes dominantes no Velho Mundo.

Embora eu tenha omitido a maioria da explicação detalhada de Harris, no entanto, temos aqui, em essência, uma explicação ecológica para a origem da civilização. Além disso, Harris não está meramente propondo uma história divertida "apenas porque sim", mas mostra uma hipótese científica que é testável dentro dos limites da evidência disponível.

O materialismo cultural é capaz de iluminar não apenas grandes mudanças sociais, tais como a origem da agricultura ou do Estado, mas as funções mais profundas de instituições e práticas de muitos tipos culturais. O excelente livro de Harris Cultural Anthropology (2000, 2007), em co-autoria com Orna Johnson, inclui capítulos com títulos como "Reprodução", "Organização Econômica", "Vida Doméstica" e "classe e casta"; cada um possui barras laterais ilustrativas que mostram como uma prática cultural relevante (pacificação entre os Mehinacu do Brasil central, a poliandria entre os Nyimba do Nepal) é adaptável a necessidade ambiental. Ao longo deste e de todos os seus livros, na verdade, ao longo de toda sua carreira, Harris teve como objetivo mostrar que o determinismo infraestrutural probabilístico é a única base sólida para uma verdadeira "ciência da cultura" que é capaz de produzir hipóteses testáveis para explicar por que as sociedades evoluem suas “formas de fazer”.
* * *
Por que isso é importante neste momento? Pela simples razão de que nossa sociedade está à beira de uma enorme transformação da infraestrutura.

O que é notável, porque ainda estamos sofrendo com a mudança anterior, que começou apenas há um par de séculos atrás. O combustível fóssil na Revolução Industrial implicou uma mudança de dependência de fontes de energia renovável em sua maioria, mais barata – lenha, grandes culturas, algum poder de água, vento de velas, e os músculos de animais para tracção – a uma energia mais controlável, mais densa e (no caso do petróleo) a fontes mais portáteis e não-renováveis.

O petróleo nos deu a capacidade de aumentar dramaticamente a velocidade com que extraímos e transformamos a generosidade da Terra (através de máquinas de mineração, tratores e barcos de pesca motorizados), bem como a capacidade de transporte de pessoas e materiais em alta velocidade e com pouco custo. Ele e os outros combustíveis fósseis também têm servido como matérias-primas para expandir indústrias químicas e farmacêuticas, e permitiram uma intensificação dramática da produção agrícola, reduzindo a necessidade de trabalho no campo. Os resultados de nossa infraestrutura de abastecimento fóssil incluíram o rápido crescimento da população, o crescimento da classe média, níveis sem precedentes de urbanização e construção de uma economia de consumo. Enquanto os elementos da Revolução Científica estavam disponíveis dois séculos antes da nossa adoção de combustíveis fósseis, a energia fóssil barata forneceu um meio de expandir enormemente a pesquisa científica e aplicá-la para o desenvolvimento de uma ampla gama de tecnologias que são, elas próprios, derivadas direta ou indiretamente de combustíveis fósseis. Com a mobilidade crescente, a imigração aumentou muito, e o Estado-Nação multiétnico democrático tornou-se a instituição política emblemática da época. A medida que as economias se expandiam quase continuamente, devido à disponibilidade de energia abundante e de alta qualidade, a teoria econômica neoliberal surgiu como ideologia principal do mundo da gestão social. Ela logo evoluiu para incorporar várias noções, embora logicamente insuportáveis para o ambiente, mas não impugnadas, incluindo a crença de que as economias podem crescer para sempre e no pressuposto de que todo o mundo natural é apenas um subconjunto da economia humana.

Agora, no entanto, o nosso “ainda novo” regime infraestrutural baseado em combustíveis fósseis já está mostrando sinais de encerramento. Há duas razões principais. Uma delas é a mudança climática: o dióxido de carbono produzido na queima de combustíveis fósseis é o causador da criação de um efeito estufa que está aquecendo o planeta. As consequências disto serão em algo entre graves e cataclísmicas. Se continuarmos a queima de combustíveis fósseis, estamos mais propensos a ver um resultado catastrófico, o que poderia tornar a continuação da agricultura industrial, e, talvez, da própria civilização, problemática. Nós temos a opção de encerrar drasticamente o consumo de combustíveis fósseis, a fim de evitar uma mudança climática catastrófica. De qualquer maneira, no entanto, a nossa infraestrutura atual será uma vítima.

 A segunda grande razão para que nossa infraestrutura baseada nos combustíveis fósseis esteja em perigo tem a ver com o esgotamento. Nós não estamos esgotando no sentido absoluto nossas fontes de carvão, petróleo ou gás natural, mas temos extraído esses recursos não renováveis usando o princípio da fruta que está pendurada mais embaixo. Com o petróleo, dos combustíveis fósseis o mais importante estrategicamente (por causa de sua centralidade para os sistemas de transporte), que já atingiu o ponto de retornos decrescentes. Em comparação com uma década atrás, a indústria global de petróleo mais do que duplicou a sua taxa de investimento em exploração e produção, enquanto as taxas reais de produção de petróleo bruto mundial tem se estabilizado. Os custos de produção estão subindo, e perfuradoras estão focando suas ações em formações geológicas que antes eram consideradas muito problemáticas para valer o esforço. Com o petróleo, o destino da economia mundial parece cair sobre o resultado de uma corrida entre tecnologia e exaustão: enquanto porta-vozes especialistas da indústria e da mídia tendem a positivar novas tecnologias, como o fraturamento hidráulico, a persistência dos elevados preços do petróleo e o aumento dos custos de produção sugerem que o esgotamento é, de fato, o que temos pela frente. Similarmente, a diminuição de taxas de retornos com carvão e com a produção de gás natural provavelmente serão realidade na próxima década, tanto nos EUA, como no mundo como um todo.

No mínimo, as alterações climáticas e o esgotamento dos combustíveis fósseis vai forçar a sociedade a mudar para diferentes fontes de energia, trocando-se a dependência de energia densa e controlável como carvão, petróleo e gás em favor das fontes renováveis mais difusas e intermitentes, como a eólica e a solar. Isso por si só já é suficiente para se ter enormes implicações sociais. Enquanto carros de passeio elétricos rodando em energia fornecida por turbinas eólicas e painéis solares são viáveis, aviões elétricos, navios porta-contêineres e caminhões de 18 rodas não são. Geração de eletricidade a partir de energias renováveis, bem como a diminuição do transporte marítimo mundial e do transporte aéreo, pode favorecer padrões menos globalizados e mais localizados de organização econômica e política.

No entanto, devemos também considerar a forte probabilidade de que nosso iminente e inevitável afastamento dos combustíveis fósseis vai implicar em uma redução substancial na quantidade de energia útil disponível para a sociedade. O vento e a luz solar são abundantes e livres, mas a tecnologia usada para capturar energia a partir destas fontes ambientes é feita a partir de minerais não-renováveis e metais. A mineração, fabricação e atividades de transporte necessárias para a produção e instalação de turbinas eólicas e painéis solares atualmente requerem petróleo. Pode, teoricamente, ser possível substituir petróleo por eletricidade a partir de fontes renováveis, ao menos alguns desses processos, mas para as futuras previsíveis tecnologias eólica e solar podem ser melhor encaradas como extensões do combustível fósseis.

A energia nuclear, com a sua dependência inquebrantável em mineração e transporte, é também uma extensão dos combustível fóssil – mas muito mais perigosa, graças a seus problemas não resolvidos com acidentes, com a proliferação nuclear, e com o armazenamento de resíduos. Quando se leva em conta a construção e desmantelamento de centrais, a extração e o beneficiamento de urânio, a energia nuclear também oferece um retorno de energia relativamente baixo na energia investida em produzi-la.

Retorno relativamente baixo sobre o investimento de energia a partir de fontes de energia nucleares e renováveis pode resultar em mudança societária. O índice de retorno de energia investida de combustíveis fósseis foi extremamente elevado em comparação com a de fontes de energia disponíveis anteriormente. Este foi um fator importante na redução da necessidade de trabalho de campo agrícola, que por sua vez levou a urbanização e ao crescimento da classe média. Algumas fontes de energia renováveis oferecem um índice melhor do que lenha ou culturas agrícolas, mas nenhum pode se comparar com o carvão, petróleo e gás em seu auge. Isto sugere que as consequências sociais do final de energia fóssil barata pode incluir uma re-ruralização parcial da sociedade e um encolhimento da classe média (o último processo já está começando nos Estados Unidos).

Com menos energia útil disponível, a economia mundial vai deixar de crescer, e provavelmente vai entrar em um período prolongado de contração. Aumento da eficiência energética pode amortecer o impacto, mas não pode evitá-lo. Com as economias sem crescimento, a nossa atual ideologia político-econômica neoliberal mundialmente dominante vai ser cada vez mais posta em causa até ser, eventualmente, derrubada.

Enquanto a energia é fundamental para a infraestrutura da sociedade, outros fatores exigem consideração. Os combustíveis fósseis estão a ser esgotados, mas assim como estão uma série de importantes recursos adicionais, incluindo metais, minerais, solo e água. Até agora, o que temos feito em relação a este esgotamento, é investir mais energia na mineração de minérios de grau inferior, substituindo os nutrientes do solo com fertilizantes comerciais (muitos feitos de combustíveis fósseis), e no transporte de água, comida e outros bens dos locais de abundância local para regiões em que esses materiais são escassos. Esta estratégia tem aumentado a capacidade de suporte humano do nosso planeta, mas é uma estratégia que pode não funcionar muito mais enquanto a energia se torne mais escassa.

Outras alterações nas relações entre o meio ambiente e a sociedade irão surgir com a mudança climática. Mesmo admitindo que as nações em breve se comprometam com reduções drásticas nas emissões de carbono, as emissões passadas acumuladas praticamente garantem a continuidade e aumentam os impactos que incluem o aumento dos níveis do mar, enquanto secas e inundações pioram. Em meados do século, centenas de milhões de refugiados do clima podem estar em busca de habitat seguro.

Há maneiras otimistas de ver o futuro, com base em premissas que os combustíveis fósseis são, na verdade abundantes e irão durar mais um século ou mais, que as novas tecnologias de energia nuclear serão mais viáveis do que os atuais, que as energias renováveis podem ser ampliadas de forma rápida, e que os prováveis impactos das alterações climáticas têm sido superestimados. Mesmo que um ou mais desses pressupostos tornem-se corretos, no entanto, a evidência da diminuição do rendimento dos investimentos energéticos e financeiros na extração de petróleo não pode ser desconsiderada. Uma mudança de infraestrutura está em andamento. Considerando-se o papel do petróleo na agricultura industrial, essa mudança irá sem dúvida impactar profundamente nosso sistema alimentar e nutricional (que é a nossa fonte de energia mais básica, a partir de uma perspectiva biológica), sendo este o cerne da infraestrutura de cada sociedade. Sendo os pressupostos optimistas válidos ou não, provavelmente nós enfrentaremos uma transformação da infraestrutura, pelo menos, tão importante como a Revolução Industrial.

Mas as estatísticas de erro sobre fornecimento de energia e sensibilidade climática incluem possibilidades mais pessimistas. Uma vez que as taxas de fornecimento de energia fóssil útil comecem a vacilar, isso poderia desencadear uma implosão do sistema financeiro global, bem como conflitos internacionais. Também é possível que a relação entre as emissões de carbono e temperaturas atmosféricas sejam não-lineares, com o sistema climático da Terra sujeito a respostas autorreforçadas que poderiam resultar em uma morte em massa de espécies, incluindo a nossa.

Escolha os seus pressupostos – otimistas, pessimistas, ou algo intermediário. Em qualquer caso, esta é uma grande questão.
* * * 
Nós estamos vivendo em um momento histórico em que a estrutura da sociedade (sistemas econômicos e políticos) e sua superestrutura (ideologias) estão prestes a ser desafiadas, talvez como nunca antes. Quando a infraestrutura muda, o que aparentemente era sólido funde-se com o ar, os paradigmas se quebram, e as instituições se desintegram, até que um novo regime social emerge. Pense em um lagarta saindo do casulo, seus sistemas de órgãos evidentemente sendo reduzidos a protoplasma antes de reorganizarem-se nas características de uma borboleta. Que oportunidade perfeita para uma intenção idealista em mudar o mundo! 

De fato, falhas já estão aparecendo por toda a sociedade. De um ponto de vista cultural materialista, a mais importante delas diz respeito a como ocorrerá esta inevitável mudança de infraestrutura. Os defensores da distribuição de energias renováveis são os azarões, e os defensores de sistemas de energia fóssil centralizados são responsáveis por aprofundar as disputas sobre os subsídios e outros elementos da política energética do governo. Enquanto isso, a oposição popular a métodos extremos de extração de combustíveis fósseis está surgindo em toda parte onde empresas estão extraindo petróleo e gás, por perfuração em águas profundas, por extração de areias betuminosas, ou explodindo montanhas para minas de carvão. A oposição a um oleoduto está alimentando um dos incêndios políticos mais quentes em Washington, DC, e a preocupação com as mudanças climáticas adquiriu uma dimensão intergeracional, com os jovens em toda a América processando governos estaduais e órgãos federais por não desenvolver planos de ação sobre o clima. Os jovens, afinal, são os que se defrontarão com mais força as consequências das mudanças climáticas, e sua atitude para com as gerações mais velhas pode não ser indulgente.

Nós também estamos vendo o aumento de conflito na estrutura da sociedade – os seus sistemas de distribuição econômica e tomada de decisão política. Como o crescimento econômico leva normalmente a uma estagnação, a rica classe de investidores do mundo está em busca de garantir a sua solvência e manter os seus lucros, transferindo custos para o público em geral através de resgates, medidas de austeridade e de flexibilização quantitativa (o que reduz as taxas de juros, a lavagem de dinheiro em poupança, contas e no mercado de ações). Trabalhos se reduzem e os salários caem, mas o número de bilionários aumenta. No entanto, a crescente desigualdade econômica tem seus próprios custos políticos, conforme documentado no livro mais vendido recentemente na Amazon, um tomo de 700 páginas chamado O Capital no Século XXI, que, infelizmente, não consegue alcançar a mudança de infraestrutura que está sobre nós ou as suas implicações para a economia e a sociedade. As pesquisas mostram crescente insatisfação com os líderes e partidos políticos em todo o Ocidente. Mas na maioria dos países, não há grupo de oposição organizada pronta para tirar proveito deste descontentamento generalizado. Em vez disso, as instituições políticas e econômicas estão perdendo legitimidade.

Tremores de infraestrutura também estão reverberando em toda geopolítica internacional. A superpotência dominante do mundo, que atingiu o seu estado durante o século XX, ao menos em parte porque era a casa da indústria petrolífera mundial, agora está perdendo rapidamente influência diplomática e "credibilidade" militar como resultado de uma série de erros de cálculo desastrosos, incluindo as suas invasões e ocupações do Afeganistão e do Iraque. A China está agora a tornar-se a maior economia do mundo, e outras nações de segunda linha (Reino Unido, Alemanha, Rússia) estão se cercando de contradições insolúveis e crescimento econômico, dilemas de poluição, ou limites de recursos movidos a carvão.

A superestrutura da sociedade também está sujeita a aprofundar a ruptura com o neoliberalismo, que vem sendo cada vez mais criticado, especialmente desde 2008. No entanto, há uma superestrutura mais sutil e penetrante (e, portanto, potencialmente mais poderosa) para a sociedade moderna, uma que é geralmente tomada como fato dado e raramente é nomeada ou discutida, e que está igualmente sob ataque. O ensaísta John Michael Greer chama isso de "religião civil do progresso." Como Greer escreveu, a ideia de progresso tornou-se silenciosamente o artigo central da fé do mundo industrial moderno, mais universalmente aceita do que a doutrina de qualquer religião organizada. A noção de que "a história tem uma direção, e tem de fazer progressos acumulados nessa direção", tem sido comum a ambas as sociedades capitalistas e comunistas durante o século passado. Mas o que vai acontecer com essa convicção "religiosa" conforme a economia encolhe, a tecnologia falha, a população declina, e os inventores falham em chegar a formas de manejar as multiplicadas crises da sociedade? Mais ao ponto, como é que milhares de milhões de frágeis mentes humanas ajustam-se ao ver o seu credo mais acarinhado sendo golpeado repetidamente pelos algozes da realidade? E que nova fé irá substituí-lo? Greer sugere que será aquele credo que reconectará a humanidade com a natureza, apesar de que sua forma exata ainda está para se revelar. 

Todas essas tendências estão em suas fases mais precoces. Enquanto a infraestrutura realmente muda – enquanto combustíveis esgotam-se, enquanto as condições climáticas extremas agravam-se – pequenas rachaduras no edifício do status quo se tornarão abismos intransponíveis.

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Aqui está a minha última mensagem semi-pronta para os futuros “inovadores” sociais: Somente ideias, projetos e propostas políticas que caibam em nossa infraestrutura emergente terão utilidade genuína ou poder de permanência. Como você pode saber se a sua ideia se encaixa na infraestrutura emergente? Não há nenhuma regra dura e rápida, mas sua ideia tem uma boa chance se assumir que estamos nos movendo em direção a um regime social com menos energia e menos transporte (e que é, portanto, mais localizado); se ela pode trabalhar em um mundo onde o clima está mudando e as condições meteorológicas são extremas e imprevisíveis; se ela fornece uma forma de absorver carbono em vez de liberar mais para a atmosfera; e se ela ajuda as pessoas a satisfazerem suas necessidades básicas durante os tempos difíceis.

É muito fácil identificar elementos da estrutura existente na nossa sociedade e da superestrutura que não funcionam com a infraestrutura para a qual parecemos estar nos dirigindo. Consumismo e corporativismo são dois dos grandes; estes eram adaptações do século XX à energia barata e abundante. Eles justificadamente têm sido objeto de uma grande quantidade de ativismos de oposição nas últimas décadas. Houve reformas ou alternativas para o consumismo e o corporativismo que poderiam ter sido trabalhadas dentro do nosso regime de infraestrutura industrial (ou que foram trabalhados em alguns lugares, e não outros): o estilo europeu de socialismo industrial é o principal exemplo, mas que pode ser pensado como um campo magnético para uma série de propostas idealistas defendidas por milhares, talvez até milhões de pretensos inovadores de mundo. Mas o socialismo industrial é sem dúvida tão completamente dependente da infraestrutura de combustíveis fósseis como o corporativismo e o consumismo. Na medida em que ativistas que são casados com uma visão industrial-socialista de um mundo ideal podem estar perdendo muitos de seus esforços desnecessariamente.

Exemplos históricos oferecem formas úteis de base para propostas sociais. No contexto atual, é importante lembrar que quase toda a história humana ocorreu em um contexto pré-industrial e "pré-progresso", por isso deve ser bastante fácil de diferenciar adaptações sociais indesejáveis e/ou desejáveis para os desafios análogos em épocas passadas. Por exemplo, o filósofo anarquista e biólogo evolucionário Piotr Kropotkin, em seu livro Ajuda Mútua, elogiou cidades europeias medievais como sítios de autonomia e criatividade, embora o período durante o qual estas floresceram é muitas vezes visto como uma "idade das trevas".

Há uma abundância de projetos ativistas em andamento que parecem completamente alinhados com a infraestrutura de combustíveis pós-fósseis para a qual nos dirigimos, incluindo cooperativas de permacultura, ecovilas, campanhas de alimentos locais e iniciativas de transição. Novas tendências econômicas relevantes incluem a economia solidária e colaborativa, a economia de partilha, o consumo colaborativo, a produção distribuída, finanças P2P e de código aberto e movimentos de conhecimento aberto (open knowledge). Enquanto alguns destes últimos constituem apenas novos modelos de negócios que parecem brotar de tecnologias baseadas na web e mídias sociais, sua atratividade pode derivar em parte de um sentido cultural amplamente compartilhado de que os sistemas centralizados de produção e consumo característico do século XX simplesmente não são mais viávelis, e devem dar lugar a horizontalidade e a redes mais distribuídas. A lista de ideias e projetos já existentes que poderiam ajudar a sociedade a se adaptar em uma era pós-combustível fóssil é longa. Muitas pessoas têm percebido a direção da mudança global e chegar às suas próprias conclusões sensatas sobre o que fazer, sem nenhuma consciência do materialismo cultural de Harris. Mas essa consciência poderia ajudar nas fronteiras, reduzindo o desperdício de esforços.

Você quer mudar o mundo? Desejo mais poder para você. Comece por identificar seus valores de justiça, de paz, de estabilidade, de beleza, de resiliência, o que quer que seja. Isso é com você. Descubra quais ideias, projetos, propostas ou políticas somam-se a esses valores, mas também que se encaixam com a infraestrutura que está quase certamente vindo em nossa direção. Em seguida, comece a trabalhar. Há muito o que fazer, e muito está em jogo.

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[1] A simples observação de que a cultura humana é adaptável às condições ambientais é reveladora: Jared Diamond (autor de Guns, Germs and Steel - Armas, Germes e Aço) dedicou sua carreira a isso, embora ele deixe de creditar Harris, que era anterior e mais completo. O próprio Harris teve o cuidado de citar antecessores, sobre cujos trabalhos ele estava construindo, incluindo Karl Marx.

[2] O termo materialismo é carregado com conotações que distraem os problemas que se tem à mão. No uso de Marvin Harris, a palavra se refere apenas a um modo de pensar que assume que efeitos materiais são devidos a causas materiais. Quando eu estava lecionando sobre um programa sobre sustentabilidade, sugeri aos meus alunos que eles pensem sobre determinismo infraestrutural probabilístico como "ecologia cultural." Eu sabia que isso era um tanto impreciso, já que ecologia cultural é uma escola de pensamento antropológico intimamente relacionada, mas distinta, do materialismo cultural. No entanto, muitos alunos simplesmente não poderiam ter deixado passar a palavra materialismo: para eles, esta era um termo irremediavelmente desagradável associada tanto com a negação da espiritualidade quanto com a mania americana para a compra e consumo de produtos corporativos.
Fonte: IHU online, 06/10/2014

domingo, 5 de outubro de 2014

Sínodo: «Vírus do individualismo» desafia a Igreja, a família e a sociedade, diz responsável do Vaticano

Para D. Vincenzo Paglia «se tudo pode ser família, nada é família»

Cidade do Vaticano, 05 out 2014 (Ecclesia) – O presidente do Conselho Pontifício para a Família considerou que o maior desafio que se coloca à Igreja hoje é o “individualismo” que “se exalta” e concentra “todas as instituições em si mesmo, inclusive a família”.

“Tudo é possível, qualquer relação estável torna-se muito pesada e então há crise no casamento religioso como no civil e nas uniões de facto. O que vemos crescer, especialmente nos países ocidentais, é o estar sozinho e agora esse (na minha opinião) é o grande desafio”, considera D. Vincenzo Paglia.

Para o prelado, este é um desafio espiritual, cultural e antropológico que depois de “resolvido” oferece “cura para tudo”.

Na entrevista que antecede a terceira assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos, D. Vincenzo Paglia frisa que “o vírus não está nos casais, não casados ou nas uniões do mesmo sexo”, mas “envenenou a vida antes”.
“Hoje diz-se que todas as formas de estar juntos podem ser família. Se ‘tudo’ pode ser família, nada é família e o que permanece é somente o ‘eu’ onde se sacrifica tudo, família, afetos, até mesmo a própria vida”, alerta o presidente do Conselho Pontifício para a Família.

Nesse sentido, o arcebispo assinalou à Rádio Vaticano que se vive “uma espécie de criação às avessas” onde pela primeira vez na história há uma “mudança radical de civilização”, porque o trinómio “matrimónio-família-vida” nunca tinha sido “destruído” e agora “cada indivíduo reconstrói-o como deseja”.

“O Senhor diz à criação: não é bom que o homem esteja só. Hoje vivemos sob a convicção oposta de que é bom que o homem esteja só, ou melhor, que todos pensem em si”, analisa o prelado italiano.

Para o entrevistado este é o “problema básico” que interessa à família e no qual também está o futuro da humanidade.

“A tarefa da Igreja é de dizer à sociedade que a união entre homem e mulher e a sua geração é um património da humanidade, que não pode ser atingido, caso contrário, teremos a decomposição da própria sociedade”, sustenta.

A terceira assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema os “desafios pastorais sobre a família”, começa hoje, com a Eucaristia presidida pelo Papa Francisco, e termina no dia 19 de outubro.

A reunião conta com a participação de mais de 250 participantes, entre presidentes de conferências episcopais, religiosos, responsáveis da Santa Sé, peritos e outros convidados que partem de um documento de trabalho comum (instrumentum laboris).

Esta assembleia consultiva vai ser seguida por uma assembleia geral ordinária de 4 a 25 de outubro de 2015.
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Fonte: RV/CB/OC

S. Francisco de Assis e Agustina Bessa-Luís

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Eu vi os restos dos primeiros conventos franciscanos, perto de Spoleto; as celas eram feitas de vimes e de terra, como faziam as casas os camponeses. Amassavam a lama com as mãos, teciam um estafe de canas, e tinham pronto o convento, numa ravina, às vezes com tocas naturais na pedra onde iam rezar os frades, ou fazer penitência.

A vida era tão difícil que essa regra franciscana não parecia senão dar-lhe apoio, integrar-se na severa condição da Natureza. Hoje achamos mórbido e fanático todo esse curso de humilhação voluntária; mas não sabemos mais o que era ter de sobreviver com um punhado de farinha e algumas ervas.
O povo vivia assim. Os forais da época, que estipulavam às vezes meio ovo como paga ao senhor das terras, dizem quanto a escassez era uma praga difícil de debelar.

O franciscanismo apareceu como uma assistência social directa: instalou-se nos burgos, entrou no clima campesino e no lar operário; derramou-se pela fazenda burguesa, penetrou na praça comercial.
Levou uma consciência nova dos problemas, até à reitoria, até à câmara, até ao paço. Até aí havia o teólogo e o exegeta. Debatiam-se os dogmas nos concílios, atalhava-se a heresia com complicadas teses. Cuidava-se do artigo de fé e do poder do clero. Francisco trouxe o pobre para a sociedade e recuperou Cristo no pobre. E fê-lo sem revolta, com uma sinceridade que subverte a revolta; que a torna menos soberana do que a realidade sofrida. Não disse: “Pobres, uni-vos.” Mas disse a todos: “Tornai-vos pobres”. Amai o dever de ser pobre, e não a confrontação e a luta.

E também ele sabia lutar. Era um guerreiro. Francisco era um guerreiro, de génio lúcido que é o que ganha as grandes batalhas. A sua vida não foi uma renúncia, foi uma glória, uma avançada permanente, um esforço genial para entrar no tempo, na imponderabilidade do pobre. O pobre não tem atmosfera, flutua, quebra pernas e braços contra pequenos obstáculos nos quais ninguém mais choca. Mas, sabendo qual a sua condição, sente a leveza do seu mísero corpo, e nenhum fardo o pode oprimir.

A regra franciscana era tão poética que dela só podia subsistir o perfume. Era alegre, pois proibia acompanhar o jejum com a expressão mortificada; era sábia, pois se desviava das letras; era grande, porque prevenia contra o vício da vontade própria. Não foi feita para servir os homens, e por isso levantou tumulto e fez nascer as dissidências. É mais fácil à natureza humana acometer as coisas que exigem heroísmo, do que confiar naquelas que a mantêm na virtude sem penas e na modéstia sem exemplo.
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Agustina Bessa-Luís
In Dicionário Imperfeito, Guimarães Editores
Imagem: Giotto | S. Francisco dá a capa a um pobre | D.R
Publicado em 04.10.2014