domingo, 9 de novembro de 2014

Paradoxos de Wong

 
 Um jovem militante chinês entra na maioridade

Joshua Wong tinha oito meses em julho de 1997, quando Hong Kong, então uma colônia britânica, foi devolvida à China. Ele cresceu falando cantonês, e a julgar pelas entrevistas dadas à tevê – são muitas – seu inglês é pobre e gutural. No dia 1º de outubro deste ano, quando se comemoravam 65 anos de fundação da República Popular da China, Wong assistiu à cerimônia de hasteamento da bandeira nacional. No palácio de governo de Hong Kong, uma banda de metais tocava o hino enquanto pessoas levavam a mão ao peito, naquele gesto universalmente patriótico. Wong virou as costas, fechou os olhos e ergueu os braços. Se cerrasse os punhos, incorporaria a gestualidade tradicional do líder revolucionário. Mas Wong foge aos estereótipos, embora não à luta. De mãos dadas com seus amigos e seguidores, gritou slogans a favor da liberdade.

Wong completou 18 anos no dia 13 de outubro. Não precisa se preocupar com o serviço militar – os cidadãos de Hong Kong são dispensados de servir o Exército –, e ganhou o direito de beber e de votar. Parece se interessar mais pela segunda opção. Ao lado de companheiros mais velhos, como o universitário Lester Shum e o professor de direito Benny Tai Yiu-ting, Wong é um dos principais líderes do movimento político que tomou as ruas de Hong Kong desde setembro.

O movimento pretende impedir o governo chinês de controlar, por meio de um comitê, a escolha dos candidatos que disputarão a eleição do próximo chefe do Executivo de Hong Kong, em 2017. Será a primeira vez que o dirigente da região será escolhido pelo voto direto. Desde sua devolução à China, a ex-colônia vive sob o princípio de “um país, dois sistemas”, mantendo Legislativo e Judiciário próprios, além de gestão econômica autônoma.

O atual chefe do Executivo, Leung Chun-ying, conhece Wong de outras manifestações. Em 2011, quando tinha apenas 14 anos, o garoto criou o grupo estudantil Scholarism, que se opôs à tentativa do governo de Leung, simpático à China, de introduzir aulas de “educação patriótica” no currículo escolar. Segundo os jovens, a politização do currículo atrapalharia a qualidade do ensino. Wong e seus companheiros levaram mais de 100 mil pessoas às ruas, forçando o governo a engavetar seus planos. Desta vez, eles ainda não conseguiram nenhuma concessão significativa de Leung nem de Pequim.

A reação do governo chinês ao prodígio mais famoso de Hong Kong tem sido aquela mesma que você está pensando. O garoto é acusado de ser uma marionete de governos do Ocidente, ou até mesmo um fantoche da CIA. A mídia estatal chinesa o define como “um extremista”. Wong costuma rebater as acusações de forma enfática, por vezes deixando aflorar a insolência adolescente. Em um tuíte recente, ele escreveu: “As forças externas que me influenciam são meu celular coreano, meu computador americano e as séries japonesas de anime.” Depois completou: “Mas claro que tudo isso é feito na China.”
 
“Eu tenho uma empatia enorme por revolucionários de óculos, que o inimigo poderia derrubar com um peteleco e neles pisotear. Presume-se que sejam pessoas extremamente corajosas.” Essa passagem do romance Mating, do escritor americano Norman Rush, parece ter sido pensada para Joshua Wong. A fragilidade aparente do rapaz não deriva apenas dos óculos: magricela, com um corte de cabelo tigelinha e camisetas maiores do que seu corpo franzino, ele parece um nerd. Em entrevista a uma tevê australiana, distraía-se com o smartphone enquanto a repórter o metralhava de perguntas. A postura daria a impressão de descaso, não fosse o teor das respostas. Mesmo com um tom de voz robótico, talvez indício de uma puberdade tardia, Wong é altamente persuasivo quando discorre sobre democracia.

Como todas as figuras políticas interessantes, ele tem uma estranheza. Combina tendências da sua geração – como o uso hábil de redes sociais para fins de mobilização política – com um altruísmo mais antiquado, típico de ícones históricos da desobediência civil. Um dos textos que seus seguidores mais compartilharam no Facebook foi postado depois que ele ficou detido na sede do governo por mais de quarenta horas, em decorrência de um protesto.

“Muita gente diz que Hong Kong depende de mim e alguns até me consideram um herói”, ele escreveu. “Eu me sinto desconfortável e fico irritado com esses elogios. Enquanto vocês tomavam gás lacrimogêneo e spray de pimenta na cara, e mesmo assim continuavam protestando, eu não podia fazer nada além de olhar para a minha refeição e para as paredes brancas da sala onde estava confinado, sentindo-me impotente.”

A mistura de elementos novos e tradicionais talvez seja fruto de sua criação cristã. Wong costuma dizer que seu pai, um protestante devoto, foi o primeiro a ensiná-lo sobre as desigualdades econômicas. Quando ele tinha 6 ou 7 anos, o pai o levava para passear em partes abandonadas da cidade, onde viviam pessoas pobres e solitárias. A experiência lhe deu a primeira faísca de empatia social.

Wong não esconde sua crença em Deus, e por vezes sua oratória soa como um emaranhado de todas as suas influências. Numa manifestação, ele puxou o coro: “Deus, por favor, nos ajude nessa caminhada... e a não levar spray de pimenta na cara.” Além da referência religiosa, a frase tem
o humor conciso de uma postagem no Twitter e a premissa central da desobediência civil: se houver violência, não virá dos manifestantes, mas sim do outro lado.
 
A atenção que recebe por vezes coloca Wong em situações inusitadas. Em julho, ele deu uma entrevista coletiva para discutir os resultados de seus exames de vestibular. Queria mostrar que o engajamento político não havia atrapalhado os estudos. Não convenceu todo mundo: suas notas foram boas, mas não excelentes, e ele ficou desapontado por não tirar o grau máximo na disciplina estudos liberais. Entre os paradoxos de Wong, está o fato de que seu gosto pela retórica política contrasta com um diagnóstico de dislexia que recebeu quando criança.

No dia do seu aniversário, Wong ganhou um bolo amarelo em forma de guarda-chuva. O artefato ganhou certo simbolismo após manifestantes abrirem guarda-chuvas para se defenderem do gás lacrimogêneo da polícia. Ele agradeceu o presente, e depois fez três desejos, todos ligados ao movimento por eleições livres. Em 26 de outubro, porém, os líderes dos protestos adiaram uma decisão sobre seus próximos passos, devido a divergências internas; eles querem organizar um referendo para consultar os manifestantes, mas ainda não sabem como. A presença popular nas ruas tem diminuído, e há pressão para que se inicie uma conciliação com o governo.

Após uma infância e adolescência explosiva, por assim dizer, o movimento, bem como Wong, parece chegar à letargia da vida adulta.
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Por Alejandro Chacoff
Fonte: Estadão online, acesso 09/11/2014 

Como ser um pai ou uma mãe feliz

 Natalie Andrewson/ NYT
 Tudo não passa de uma fase. Crianças insuportáveis aos 4 anos de idade se tornam mais toleráveis aos 8 anos

O problema da hiperpaternidade não está no mal que isso causa às crianças, e sim no mal que isso faz aos pais

PARIS - Passei recentemente a tarde na companhia de alguns noruegueses que estão fazendo um documentário a respeito do estilo francês de criar os filhos. Por que pessoas de um dos países mais desenvolvidos do mundo se importariam com a maneira de educar os filhos em outros lugares?

Na Noruega "temos pestinhas, pequenos ditadores, e muitos de nós sofremos de hiperpaternidade. Estamos mimando todos eles", explicou o produtor, pai de três. Os franceses "exigem mais de seus filhos, e isso pode ser uma inspiração para nós".

Eu achava que apenas britânicos e americanos se comportassem como pais-helicóptero. Na verdade, essa é agora uma tendência mundial. A classe média no Brasil, Chile, Alemanha, Polônia, Israel, Rússia e outros países adotou versões desse comportamento. A mãe afogada em culpa e disposta a qualquer sacrifício - temendo estar fazendo demais ou não estar fazendo o bastante - se tornou um ícone global. Em Parenting with style, um estudo do Bureau Nacional de Pesquisa Econômica, os economistas Matthias Doepke e Fabrizio Zilibotti dizem que a intensidade desproporcional depositada na paternidade emana do aumento na desigualdade, porque os pais sabem que há recompensas maiores para aqueles que recebem muito ensino e aprendem numerosas habilidades. (A França é um dos raros países ricos onde a paternidade-helicóptero não é regra.)

A hiperpaternidade também é impulsionada pela ciência. Os mais recentes estudos neurológicos envolvendo bebês também chegam aos pais em Bogotá e Berlim. E, em todo o mundo, observa-se que as pessoas estão optando por ter filhos mais tarde, depois de se tornarem mais ricas e mais gratas, de modo que toda a experiência da paternidade se torna sagrada. Os escandinavos se queixam da "paternidade curling", referência ao esporte no qual é preciso esfregar o gelo freneticamente para permitir que uma pedra o atravesse. (Na Noruega, "não contamos os gols no placar dos jogos de futebol das crianças com menos de 12 anos, pois todos devem se sentir como vencedores", disse o produtor.)

A paternidade no século 21 não é inteiramente ilógica. Em vez de buscarmos erradicá-la, proponho uma estratégia de contenção: limitar seus excessos, e impedir que a coisa piore. Com base em minhas próprias pesquisas, uma leitura não-científica da literatura que trata da paternidade e uma amostragem de três crianças, eis algumas coisas que os pais modernos deveriam saber:

Os bebês não são selvagens. As crianças de colo entendem a linguagem muito antes de aprenderem a falar. Isso significa que podemos ensinar a eles a não bater na nossa cara com as cenouras durante o jantar, tornando nossa vida mais calma (e mantendo o chão mais limpo). "Se tiver expectativas elevadas em relação às crianças, elas vão surpreender positivamente. Se esperar pouco delas, as crianças surpreenderão negativamente", escreve Emma Jenner no livro Keep Calm and Parent On.

Aproveite com alegria as oportunidades de liberdade, sem culpa. Lembre-se que o problema da hiperpaternidade não está no mal que isso causa às crianças, e sim no mal que isso faz aos pais. Entre meados dos anos 1990 e 2008, as mães americanas com ensino superior completo começaram a dedicar mais do que 9 horas semanais aos cuidados com os filhos; isso saiu diretamente do seu tempo livre. A maior sacada da filosofia a vir da França desde "Penso, logo existo" é a ideia segundo a qual, nas festas infantis, devemos deixar as crianças e buscá-las depois. Os outros pais ganham três horas para brincar.

Não pense apenas em ser bom pai ou boa mãe para o futuro; faça isso para esta noite. Dificilmente seu filho vai entrar numa universidade de elite ou ganhar uma bolsa de estudos graças às suas habilidades esportivas. Aos 24 anos, ele pode estar de volta ao antigo quarto na casa dos pais, endividado, depois de uma carreira medíocre na faculdade. É importante educar os filhos para entender que, se isso ocorrer, mesmo assim terá valido a pena. Um pai holandês com três filhos me contou a respeito de sua abordagem inspirada no budismo: compromisso total com o processo, indiferença de expectativa em relação ao resultado.

Tente a cura do sono. A maioria das crises dos pais é causada pelo cansaço. Obrigue a si mesmo a seguir o mesmo ritual dos filhos na hora de dormir: banho, história, cama. Quando sentir a aproximação de um momento adulto de histeria, de a si mesmo o direito de fazer uma pausa.

Tenha menos coisas. A bagunça só aumenta o caos da vida em família.

Não se preocupe em exagerar na programação semanal dos filhos. As crianças que participam de atividades extracurriculares têm notas e autoestima superior à daquelas que não o fazem, entre muitos outros benefícios, de acordo com um resumo de 2006 do Relatório de Política Social da Sociedade para a Pesquisa do Desenvolvimento da Criança. "Mais preocupante é o fato de muitos não participarem de nenhuma atividade", dizia o texto.

Não critique a si mesmo por não conseguir criar o equilíbrio perfeito entre vida pessoal e trabalho. Os franceses têm licença maternidade paga, babás subsidiadas, excelentes creches do governo e pré-escola universal gratuita, e ainda assim se queixam do governo por não ajudar mais os pais. Os americanos não têm nada disso e, mesmo assim, culpamos a nós mesmos.

Ensine os filhos a desenvolver a inteligência emocional. Ajude-os a serem mais evoluídos do que nós. Explique, por exemplo, que nem todos vão gostar deles. "Quando uma menina conhece uma pessoa nova, ela muitas vezes se esforça para ser agradável, antes mesmo de ter decidido se gosta ou não da nova pessoa" escreve Rachel Simmons em seu livro The Curse of the Good Girl. "Ensine sua filha a inverter a ordem: avalie se gosta da pessoa antes de começar a se preocupar se ela gosta de você."

Transmita a regra de Nelson Mandela: podemos conseguir aquilo que queremos ao demonstrar respeito pelo outro. Quando Mandela ficou sabendo que um general africâner estava armando rebeldes para evitar as eleições multirraciais, ele convidou o general para tomar chá. Os jornalista John Carlin escreve que o general Constand Viljoen "ficou desarmado com o largo e terno sorriso de Mandela, sua cortesia e atenção aos detalhes" e sua sensibilidade aos temores dos sul-africanos brancos. O general abandonou a violência. Lembre seus filhos que essa técnica também funciona com os pais.

Tudo não passa de uma fase. Crianças insuportáveis aos 4 anos de idade se tornam mais toleráveis aos 8 anos.

Não adianta pensar naquilo que fazemos errado. Ninguém estraga os filhos da maneira que teme fazer: nós os estragamos de maneiras absolutamente originais nas quais nem tínhamos pensado. E não há dose de hiperpaternidade que possa mudar isso.

Tradução de Augusto Calil
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Fonte: Estaão online, 09/11/2014
Reportagem por  Pamela Druckerman - The New York Times

JANELAS INDISCRETAS

Na cola de Orwell e Huxley, ‘O círculo’, novo romance de Dave Eggers, imagina um mundo transparente. Mas não já vivemos nele?

Passear nu pela rua talvez seja um pesadelo para muitos – mas está mais perto da realidade do que se imagina. No romance O Círculo, Dave Eggers cria um mundo em que a transparência é total. Ali, é impossível ter segredos. Ali, segredos são mentiras. Compartilhar é cuidar. Privacidade é roubo.
Caso tenha se lembrado dos slogans de George Orwell, está em casa: embora narrado com leveza, O Círculo é uma distopia tão terrível quanto 1984, porque também usa a linguagem como centro catalisador da opressão. Como você se lembra, Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão e Ignorância é Força são os lemas que movem a realidade de 1984 (publicado em 1948), em que todos os habitantes são vigiados por teletelas e governados pelo Grande Irmão. A sacada de Eggers, no entanto, está em temperar Orwell com o Aldous Huxley de Admirável mundo novo (de 1932). Ao contrário da horrorosa realidade de Orwell (que bebeu muito no modo como Kafka enxergava o totalitarismo), Huxley imaginou uma distopia invertida – em que todos são felizes, geniais, lindos e poderosos. E é o que faz Eggers neste romance, a começar pela primeira linha: “Meu Deus, pensou Mae. É o paraíso”. Ali, a transparência total não é imposta: é desejada.

O paraíso funciona em uma cidade da Califórnia, tal como a maioria das empresas que nos vigiam – ou que usamos para vigiar os outros. O Círculo cria gadgets, como a microcâmera SeeChange, poderosa, barata e de bateria quase ilimitada: as pessoas a espalham por todo o planeta (pense nos smartphones da Apple); lança-se a desafios quase inverossímeis, como contar os grãos de areia do Saara (tal como o Google Street View está documentando o norte africano); e monetiza as postagens dos usuários de sua rede social, aumentando os lucros do próprio negócio, ao sugerir que as pessoas espontaneamente trabalhem de graça – ao mesmo tempo que monitora seus hábitos de consumo (oi, Mark Zuckerberg). Em suma, o Círculo reúne as mais poderosas corporações do Vale do Silício, as startups mais arrojadas e as mentes mais empreendedoras. O Círculo é animado pela elite planetária, trabalhar lá é como estudar em Oxford ou Harvard; não por acaso, a empresa também é chamada de câmpus e oferece aos funcionários mais esforçados alojamentos confortáveis – porque uma hora é natural que alguém pergunte: “Mas pra que vou pra casa mesmo?”. No Círculo, as fronteiras entre público e privado são destinadas a desaparecer.

VOZ DO BIG BROTHER
A protagonista Mae é uma garota de vinte e poucos anos que entra no Círculo tanto por brilhantismo quanto por ser amiga de Annie, que integra o grupo dos 40 profissionais mais ambiciosos da cidade. Doce, ingênua, esforçada, caipira e insegura, Mae é o espelho inverso de Annie – rica, ambiciosa, sarcástica, autocrática e aristocrática. Annie é tudo o que Mae quer ser e, para isso, não hesitará em dobrar sua psicologia para o avesso. Lá pelo meio do romance, Mae torna-se a primeira pessoa “transparente” do mundo: cobaia do Círculo, passa a usar uma SeeChange em um pingente no pescoço e vira uma supercelebridade global. O pingente é um computador vestível (termo inventado pelo cientista Steve Mann, hoje aplicado tanto ao Google Glass quanto ao iWatch, relógio da Apple) que transmite ao público tudo o que ela está fazendo. Tudo mesmo.

O esquematismo desta ficção científica especulativa (subgênero em que a realidade imediata é exagerada e ambientada em futuro próximo) é seu trunfo e seu problema. Todo narrado na terceira pessoa, o romance de Eggers é vítima de sua perspectiva. A voz neutra do autor é o Big Brother particular que “transmite” o livro; neste texto transparente, não há vestígio de ironia. Por sabermos tudo o que se passa no corpo e na mente de Mae, não guardamos suficiente distância de sua psicologia — e ela se torna uma personagem previsível, opaca, oca. Portanto, longe de se aproximar de visionários como Huxley e Orwell, O Círculo parece mais um documentário realista do mundo que já vivemos.



Há uma cena chocante em que, sem querer, com a microcâmera no pescoço, Mae publica um vídeo pornô. Mas casais já registram a si mesmos em momentos pós-coito no Instagram e sobem suas transas no PornoTube: é questão de tempo compartilharem carícias no Facebook ou gravarem pornôs caseiros para espantarem dos amigos o tédio dos domingos (na verdade, já deve ter gente fazendo isso, e não falo da sextape de Kim Kardashian e Kanye West). Em um capítulo, assistimos a uma morte produzida ao vivo. Mas quantos snuff movies não estão sendo divulgados nos portais neste exato instante? Para quem gosta de espiar as câmeras espalhadas pela cidade, logo chegará o momento em que será possível assistir a atropelamentos, homicídios e outros crimes ao vivo (J.G. Ballard adoraria). A morte, este tabu que guardávamos em segredo, nunca foi tão pública – ninguém mais liga se você fizer uma selfie em um velório ou enterro. Em outro momento, o Círculo sugere que todos os políticos fiquem “transparentes”, afinal de contas não devem ter nada a esconder, e que todas as pessoas votem usando o perfil de sua rede social. Mas, nas últimas eleições, notamos o quão espontaneamente os eleitores divulgaram nas redes seus votos, antes secretos, ou mesmo clicaram e instagramaram suas urnas. Não deve demorar muito para que a Justiça Eleitoral seja terceirizada para o Facebook.

GAIOLAS DE VIDRO

Em 1921, o escritor russo Eugene Zamiatin descreveu o Estado Único, a sociedade transparente do romance distópico Nós. Zamiatin viveu a Revolução de Outubro e tinha muita imaginação para o totalitarismo emergente na URSS: “Derrubaremos todas as paredes para deixar a aragem renovadora soprar livremente de um extremo a outro da Terra”. No Estado Único, os prédios são transparentes e os moradores só têm permissão para fechar cortinas durante os encontros íntimos — no que lembram tanto a gaiola de vidro onde Billy Pilgrim é mantido pelos tralfamadorianos de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, quanto o Panóptico, aquele centro penitenciário ideal desenhado pelo filósofo Jeremy Bentham em 1785, cuja arquitetura permite ao vigilante, que permanece em um centro invisível, observar todos os prisioneiros sem que estes possam saber se estão ou não sendo observados.

A grande arte sussurra que a transparência total 
poderá nos tornar invisíveis – mas só chegando 
lá é que poderemos ver essa realidade 
com nossos próprios olhos.

Vários edifícios do Círculo têm paredes de vidro. Evidentemente, tanto Eggers quanto Vonnegut, Orwell e Huxley beberam no texto fundador de Zamiatin para escrever suas distopias. Afinal, não só para eles como também para gente como Ray Bradbury (em Fahreinheit 451, de 1953), J.G. Ballard (em The Atrocity Exhibition, de 1970, nunca traduzido no Brasil) e Margaret Atwood (em O Conto da Aia, de 1985), a falta de privacidade é o maior pesadelo em uma distopia totalitária.

Outro livro contemporâneo sobre a vida sem privacidade é Meatspace, de Nikesh Shukla (lançado em 2014, sem tradução no Brasil), que segue a vida de um escritor solitário cujo único escape é o submundo da internet. “A primeira e a última coisa que faço todo dia”, começa o livro, “é ver o que os estranhos estão falando de mim”.

TERRITÓRIO DA INTIMIDADE

A polícia do pensamento de Orwell, exagerada na autoexposição de Eggers, é magnificada no conto The Minority Report, de Philip K. Dick (1956), que deu origem ao filme homônimo de Steven Spielberg. Ali, as câmeras da polícia – através de agentes telepatas chamados precogs – devassam a mente de todos os seres humanos, possibilitando identificar os criminosos antes mesmo que eles venham a cometer crimes.

O já citado clássico da invasão da privacidade The Atrocity Exhibition é uma coletânea de contos que descrevem como os meios de comunicação em massa invadem a mente dos indivíduos. Sofrendo de uma crise nervosa, o protagonista, um médico psicótico, não dissocia os episódios de sua vida – quando tenta matar a própria mulher – de eventos da “vida real”, como a corrida espacial e o assassinato de Kennedy. A ideia de Ballard é que a contaminação da mente pelo hiper-real exposto na mídia acabe por destruir a ideia de um self privado, dissolvendo os limites entre indivíduo e sociedade.

The Private Life – Why We Remain in the Dark (2013, sem tradução no Brasil), do crítico literário e psicanalista Josh Cohen, é um ensaio sobre a natureza mutante da privacidade na era do Facebook e das supercelebridades. Indo de Freud a Lydia Davis, Cohen fala da desesperada batalha da cultura dominante contra o self privado. Seu argumento é que tanto a fome por fofocas quanto as ineficazes tentativas dos mais ricos de proteger sua privacidade têm tornado a vida privada uma fonte de vergonha.

No epílogo do clássico cinematográfico La Dolce Vita, de Fellini, Marcello – já transformado de jornalista angustiado, com pretensão a ser escritor, em um publicitário amoral – observa uma enorme arraia ser capturada por pescadores. Ele fica fascinado ao notar que, mesmo morto, o animal ainda parece observá-lo. No entanto, ao ser chamado por uma linda menina na praia – ela o reconhece do tempo em que tentou ser escritor –, não consegue ouvir o que ela diz e vai embora. Na praia felliniana, a luz é quase branca. Superexposto à luz ofuscante, Marcello não consegue mais ver a beleza da menina nem sequer reconhecer a si mesmo. A grande arte sussurra que a transparência total poderá nos tornar invisíveis – mas só chegando lá é que poderemos ver essa realidade com nossos próprios olhos.
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Por: Ronaldo Bressane   /   05/11/2014
ILUSTRAÇÕES MARIO BAG
Fonte: Revista Cultura on line.

CLARICE NO ESPELHO

 

Muita coisa precisou dar certo para a atriz e diretora teatral Clarice Niskier existir: viagens, exílios, êxodos, migrações, chuvas e tempestades... “Tinha que ser. Os pássaros migraram, os elefantes na África, os tsunamis e nós estamos aqui. Você atravessou corretamente a rua, um carro não me pegou, o avião pousou e estou aqui. Se eu não levar em conta tudo isso, se isso não me trouxer entusiasmo, então não tem mais nada”, diz ela, que compreendeu este pensamento com o orador indiano Maharaji. Da mesma forma, muita coisa precisou acontecer para a entrevista com Clarice ser possível, para a revista ser editada, para a publicação estar em suas mãos, para você estar aí, lendo-a agora.

Neste mês, a atriz, de 55 anos, estreia o monólogo A lista, escrito pela canadense Jennifer Tremblay. Pelo que tudo leva a crer, repetirá o enorme sucesso alcançado com o espetáculo A alma imoral, há oito anos em cartaz, baseado no livro de Nilton Bonder. Em um ato quase insano, devido ao desgaste emocional que as duas peças provocam, Clarice manterá os dois espetáculos em cartaz, ambos no teatro Eva Herz, em São Paulo. Enquanto A alma reflete sobre o certo e o errado, a moral e o imoral, A lista fala da indiferença, do egoísmo, ao mostrar a vida de uma mulher casada, dona de casa, mãe de três filhos, e moradora de um vilarejo no interior do Canadá. Com uma vida regida pela lista de tarefas que assumimos no dia a dia, a personagem se atormenta ao tentar entender se seria ela a culpada pela morte de sua vizinha.

Nada incomum, para quem conhece a artista, que ela tenha aceitado tamanha empreitada. Faz parte de sua vontade de levar adiante uma mensagem. Já era assim quando, aos 18 anos, esta carioca decidiu estudar Jornalismo com a utopia de mudar o mundo.  Atuou na área, fez matérias de denúncia social, mas não conseguiu o intento. Por outro lado, há mais de 30 anos, foi “meio que carregada” para o teatro, se apaixonou pela obra de Brecht e, desde então, sabe que vem ajudando o outro e a si própria a se transformar.

Clarice é tímida, calada e observadora. É também brincalhona com quem tem intimidade. E se incomoda quando participa de alguma conversa com alguém que é muito fechado em suas opiniões. Há três décadas, tem uma rotina parecida: faz aula de voz, de corpo, estuda teatro, ensaia e se apresenta. Viaja pouco e raramente sai de férias. “Amo esta vida.”

Judia budista – diz que uma religião a aproxima da outra –, Clarice Niskier procura, acima de tudo, se manter aberta para uma alegria infinita. Só assim, quando a dor chega, tem menos medo dela. “As dores podem te levar para o fundo do poço se você não tiver, dentro de você, um jardim realmente florido. Porque, se você o tem, vêm as pragas, as tempestades, mas você tem força.”

A lista
expande, ainda que de forma diferente, uma discussão primordial presente em A alma imoral: a compreensão do ser humano, tanto de si mesmo como do próximo. Provocar essas reflexões continua sendo o que te movimenta como artista?
Acho que essa é a utopia do ser humano. A nossa utopia como artista. A gente luta para manter essa questão, que você está levantando, sempre aberta. Meu desejo é que nunca ninguém deixe de perguntar isso que você está perguntando. Isso já é um bom sinal. Sinal de que há espaço, de que há abertura, que há uma esperança, que há uma possibilidade, que há pessoas pensando sobre. E que esse potencial que a gente traz, dentro da gente, da não indiferença, da não violência, é uma conquista que o ser humano pode alcançar. É uma conquista da civilização. Há textos, há autores, filósofos, artistas, gente comum, enfim, pensando e se perguntando por que o processo civilizatório parece ter sido interrompido. É muita barbárie. Parece que o processo civilizatório parou. Mas a verdade é que ele não parou. Está num momento bastante complicado, mas não posso dizer que ele parou. Estamos aqui, vivos e fazendo essas perguntas, e montando peças e mantendo a estrada aberta.

Permitindo que exista o caminho...
Vou te contar uma história muito marcante para mim: eu meditava em um templo budista no Rio de Janeiro, onde fui iniciada da corrente indiana Theravada. É um templo que fica em Santa Tereza. Ele fica perto de uma comunidade em que havia muita violência e, antes da pacificação, era uma guerra sem fim ali. Um dia, nós estávamos meditando, éramos 11 pessoas mais um monge – que tinha vindo do Sri Lanka e estava sendo o líder espiritual daquele templo naquele momento –, e começou um tiroteio. Me dispersei completamente. Abri os olhos e ficava vendo aquelas dez pessoas de olhos fechados, o monge com uma cara serena, e eu ficava me perguntando: “Meu Deus do céu, nós estamos aqui. Um tiroteio lá fora. A gente devia levantar! Talvez pessoas estejam precisando da gente”. Achei tudo um pouco alienado. Não sei, me senti mal.

Mas você parou de meditar?
Não parei de meditar, fiquei com os meus questionamentos, até que tocou o címbalo e eu questionei o monge. “É positivo? De que serve a gente ficar aqui meditando?” E ele me deu a seguinte resposta: estávamos ali meditando porque aquela estrada estava aberta, o templo estava aberto e, um dia, uma pessoa, como eu, sentiu necessidade de iniciar nesse caminho. Existia um caminho para eu chegar. Subi as escadas daquele templo, sentei ali um ano atrás, comecei a me iniciar e tinha sido muito importante para mim. Muitas vezes, historicamente, as gerações não têm como avançar, mas é muito importante que, pelo menos, mantenham a estrada aberta. E era o que nós estávamos fazendo ali: mantendo aberta uma estrada de paz.

Mas neste processo civilizatório atual que você mencionou, as pessoas estariam, em sua opinião, mais preocupadas em fugir da dor do que se entregar à vida?

Infelizmente, elas fogem da dor. Uma coisa é você parar de sofrer por bobagem. Agora, outra é fugir da dor de viver. A vida tem esse lado. As perdas são reais. Ponto. Assim como tem toda a alegria ligada à vida, tem toda a dor ligada à vida. Por que as pessoas precisam se dopar, se alienar, tomar remédio? Fica ansioso, toma remédio. Está triste, toma remédio. Está sem sono, toma remédio. Está não-sei-o-quê, toma remédio. Não posso concordar com uma coisa dessas, sabe? Faço psicanálise, converso, faço terapia, ioga e meditação, busco compreender as causas do sofrimento. Não posso estar medicada 24 horas para fugir da dor. Como é que você vai crescer e evoluir se não passar pela dor? Como é que você vai se humanizar? Aí que tem tudo a ver com a pergunta inicial: um ser humano só pode vivenciar o seu potencial solidário, o seu potencial da não indiferença, da não violência, se ele conhecer a dor, porque assim ele pode reconhecer a dor do outro. Sinto que eu, como ser humano, devo aceitar isso não com resignação, mas no sentido de que é um fato, é real. Assim como o Sol está no céu de dia e a Lua está de noite, a dor existe. Eu não procuro ela, mas ela vem.

E como você lida com a dor absorvida da vida e aquela absorvida da profissão?
Estou acostumada (risos). É um desequilíbrio necessário. É uma sensibilização constante. Mas preciso disso como um camelo precisa de água para atravessar o deserto. Não compreendo a nossa vida sem um entusiasmo. Não compreendo a vida sem a paixão. Então, acho que essas turbulências que as peças nos causam são muito necessárias para a gente se perceber viva. Porque, à medida que vou entrando em uma zona de conforto e fico estabelecida nela, alguma coisa em mim se entristece. E eu sou dada a tristezas. Sou uma pessoa bem feliz no meu dia a dia, porque sou simples, mas, por um tempo, o teatro me coloca em um lugar no qual elaboro a minha tristeza, elaboro as minhas observações sobre o mundo. Sou uma pessoa tímida, gosto de escrever, de observar as coisas e muito do que observo me causa tristeza. E o teatro é um lugar onde posso dar um testemunho, com alegria, sobre o que observo com o intuito de transformar aquilo.

E certamente você já conseguiu mudar muitas pessoas, que, consequentemente, vão passando a mensagem adiante, não?
Estamos todos mantendo uma estrada aberta em que o mundo vai sendo melhorado e piorado simultaneamente. Li muito um livro do Dalai Lama com o Jean-Claude Carrière (A força do budismo). É um diálogo dos dois. E o Dalai Lama está provando a Carrière que o mundo melhora a cada dia, que o mundo está melhorando. Aí, o Jean-Claude Carrière critica, questiona e fala: “Sim, mas a Medicina e outras coisas...”, aí ele vai levantando coisas. E ele tem razão! Por um lado, melhorou muito. A gente poderia ficar fazendo uma lista de coisas incríveis que o mundo melhorou. Nossa, melhorou muito, realmente! E, por outro lado, piorou. Por outro lado, a gente está sempre ameaçado.

De que maneira?
A gente está sempre sem futuro. O que mais me estressa hoje é o fim do futuro. A gente tem ou não tem futuro? A humanidade vai acabar? É toda hora isso! Aquela questão de 2012... Tenho um filho adolescente – ele tem 15 anos hoje – e, quando chegou em 2012, a gente estava voltando de um programa e ele me perguntou: “Mãe, o mundo vai acabar mesmo no final de 2012?”. Eu pensei: “Caraca, que infância é essa? Que adolescência é essa que está sempre ameaçada de que o futuro não existe?”. Eu, quando era criança – nasci em 1959 –, estava ouvindo sobre o movimento hippie; em 1968, [sobre] o movimento estudantil. O futuro era um lugar extraordinário! A gente tinha futuro até não poder mais. Então, meu filho tem pouco futuro. Por quê? Tem pouca água, tem pouco rio. Isso me estressa de uma maneira. Chega, gente! É foda!

Mas seria a negação do futuro a justificativa para ocultar os erros do presente?
Olha, entendo o seguinte – se estou entendendo alguma coisa (risos): quanto mais você vive o presente, mais futuro você tem, porque vida gera vida e morte gera morte. Isso não quer dizer que a morte não esteja no final da vida, mas é uma vida vivida. Se estou aqui com você, agora, dando esta entrevista feliz da vida, entregue, esta entrevista gera vida. Quanto mais presente eu estiver aqui, mais futuro vou ter. Isso é o que compreendo. Acho que estão terminando com o futuro para que a gente não veja o presente que a gente não está vivendo. Há alguma coisa que está querendo que a gente se aliene no nosso dia a dia. Se aliene dessa energia vital, se aliene de nossa alegria de viver. Tem alguma coisa nos puxando para o apagão do aqui e agora. Então, se estou entendendo alguma coisa, eu vou, no leito de morte, sorrir com a vida vivida verdadeiramente. O [Donald] Winnicott tem uma frase que diz: “Eu quero estar vivo na hora da minha morte”. E tem também, no livro A alma imoral, a fala de Nilton Bonder: “A qualidade da nossa velhice está intimamente ligada à qualidade da nossa vida hoje”. São coisas interligadas. “Ah, mas a vida é injusta.” É. A vida é injusta. Mas o que nós estamos falando não tem nada a ver com isso. Trata-se de que eu fiz o processo honestamente e que, ao fazer um processo honestamente, mesmo que eu leve uma rasteira, mesmo que aconteça um fracasso, eu tenho força interior para seguir em frente, para dar continuidade a um processo.

É o não pensar somente no resultado final, certo?
Sim, eu vivo processos. É tão verdade o processo de A alma, que eu tenho que fazer A lista. Porque A alma está me ensinando que todo lugar onde o homem cresceu e se desenvolveu, um dia, se torna estreito. Então, não posso ficar fazendo A alma feliz da vida, tranquila, em uma clareira, nessa zona de conforto para sempre. Tenho que marchar, mostrar a minha cara ao tapa. O mundo é redondo. E A alma continua. Esse trabalho, A lista, não é o trabalho hierarquicamente após A alma. A lista é o processo da Clarice que segue adiante, enquanto faz a A alma. É um aprofundamento de linguagem, é um aprofundamento da minha relação com o Amir Haddad. É a mesma equipe, é o mesmo diretor.

Então não há uma necessidade de romper, de se despedir de A alma?
Não, não tenho nenhuma. Eu faria A alma imoral a vida inteira. Então, é por isso que digo a ela: “Quando você quiser que eu pare, eu paro”. A Alma é uma peça que me ensina, me alimenta. Amo de paixão fazê-la. Eu não canso. Eu mesma fico impressionada (risos).

A densidade do espetáculo A lista parece mostrar que você, como atriz, depois de oito anos em cartaz com A alma imoral, não conseguiria mais fazer algo sem tamanha profundidade de linguagem e discussão humana. É assim?
É bonita a sua pergunta, porque, de fato, entro em vários conflitos. Mas sempre converso muito com quem está me convidando, questiono, vou fazendo de uma maneira que eu vá me sentindo confortável com aquela brincadeira. Porque adoro uma brincadeira, adoro fazer uma bobeira. Eu, na intimidade, sou muito mais boba e muito mais palhaça do que podem imaginar, sabia? Sou tímida no social, mas na intimidade sou uma palhaça, gosto de brincar. Desde que faço A alma imoral, a Rede Globo me chamou para uma novela chamada Ciranda de pedra. Eu fiz. Foi ótimo. Fiz Maria Stuart – que foi uma peça seríssima, maravilhosa –, com a Júlia Lemmertz. Era de [Friedrich] Schiller. Foi sensacional fazer junto com A alma. Fazer Schiller e Nilton Bonder foi uma experiência! É tão profundo quanto. Depois, fiz O lugar escuro, da Heloisa Seixas – que é tão profundo quanto –, sobre o Mal de Alzheimer. Eu fiz um filme, No retrovisor, do Marcelo Rubens Paiva. Umas cenas bonitas de mãe – tão profundo quanto! Mas agora fiz uma coisa que era mais uma brincadeira: o Cláudio Torres está fazendo uma série sensacional que vai estrear ano que vem na HBO sobre a Boca do Lixo. Eu fiz! Ele me chamou para fazer uma das atrizes da Boca. É a Marília que, na verdade, não é uma atriz. Ela é esposa de um produtor chinês da Boca e a pegam para fazer uma madre superiora em um filme pornô. Fiz uma madre superiora em um filme pornô, fumando um charuto. Foi divertido, foi legal.

Mas você se questionou muito se faria ou não essa personagem?
Claro. Eu me pergunto: “Será que posso fazer isso?” Me sinto, assim, com muita responsabilidade perante o público que gosta tanto da Alma. Mas eu respondo: “Pode, Clarice, você é uma atriz”. Então, tento não acreditar que, agora, tenho um papel além do próprio papel de uma atriz. Sou uma atriz com as minhas características, com a minha sensibilidade, com as minhas preferências. Uma atriz que ama, profundamente, o dia a dia no teatro. Sou vocacionada para o dia a dia teatral.

Mas quando você se bloqueia ou pensa “faço ou não faço”, é mais por medo do olhar do outro ou é uma punição sua?
Tem as duas coisas. Sinceramente, as duas coisas. Tenho medo do olhar do outro, de dizerem: “A alma imoral virou madre superiora lésbica em uma pornochanchada”. Gente, uma coisa não tem nada a ver com a outra! Mas dá esse medo, esse pânico do mal-entendido. Claro que dá! Aí a racionalidade tem que entrar em seu favor: “Clarice, pelo amor de Deus, você não vai deixar de fazer por causa disso”. Não, por causa disso, não vou deixar. Senão, você está alimentando um preconceito, você está alimentando uma má leitura de um trabalho de atriz, do que significa a cultura, a arte, o teatro no mundo. Achei a série sensacional, é um texto do Cláudio maravilhoso, uma pesquisa espetacular.

São questões que mostram que nunca estaremos totalmente resolvidos, não?
Nunca estaremos 100% resolvidos. Impossível. Somos seres em transformação. Acho que o maior mal que fizeram a essa leitura infinita que nós podemos ter da realidade para produzir conhecimento foi nos ensinarem que dois mais dois são quatro. E perguntaram: “Entendeu?”. E você respondeu: “Entendi”. Isso não existe! Primeiro, você tem que compreender que dois mais dois são quatro como uma convenção e uma fórmula muito útil e necessária para uma série de cálculos. OK. Isto posto, você vai começar a raciocinar: “O que é o número dois?”. “Duas unidades. Há uma unidade mais outra unidade. Tá bom. Mais outras duas unidades é igual a quatro unidades. Mas como é igual, se nada é igual a nada? Eu não sou igual a você, você não é igual a mim. Existem duas unidades iguais?” “Não, iguais no sentido de não-sei-o-quê não-sei-o-que-lá.” “Sim, mas o que é unidade?” Aí você começa a entrar na Física Quântica. Aí você está produzindo conhecimento, você está entendendo.

Você se torna um ser ativo...
Você está começando a entrar no mundo, a causar um impacto no mundo, a trazer questões. Entender é um verbo tão profundo! Entender é raciocinar. Entender passa pelo afeto, entender passa pelo coração, pela dor, pela alegria, passa pelo abraço, pelas relações, pela vida prática, entender passa por fora dos livros, e aí você volta aos livros e os entende porque você viveu, entender passa pelas suas experiências humanas. Você não fica beijando todo dia a mesma pessoa do mesmo jeito. Isso existe? Claro que não! Você beijou de um jeito porque, naquele dia, você terminou uma briga. Aí você fez as pazes, beijou. Já é um beijo. No outro dia, você não brigou. Está ótimo, é outro tipo de beijo! A pessoa viajou, é um beijo de saudade; é outro beijo. Aí tem o beijo que você está transando; aí tem o beijo de que você não beija há um mês – você está vivendo ali, mas é tanto trabalho que você não beija seu marido há um mês –, beijou. Aí tem a bitoca. É a vida! É a vida.

A indiferença, o egoísmo são temas centrais em A lista. Não somos todos egoístas?
Olha, segundo Freud, o egoísmo é um mal necessário. Sem egoísmo a gente também não ama. O egoísmo é uma necessidade do ser. O ego é uma função psíquica importantíssima. Id, ego e superego: três funções importantíssimas – poder Judiciário, poder Legislativo e poder Executivo – dentro de um sistema de saúde de uma República. Agora, se o poder Executivo se sobrepõe, de qualquer maneira, ao poder Judiciário ou ao poder Legislativo, você tem um desequilíbrio monstruoso. E se o ego quer se sobrepor de uma maneira monstruosa ao superego e ao id, ferrou! Isso para falar assim: há medida de um egoísmo que é saudável. O egoísmo a que a narradora de A lista chegou é totalmente pernicioso. É totalmente negativo.

Faz ela tornar as muitas tarefas do cotidiano uma prisão...
Em uma compulsão, achando que isso que é viver. Olha, Deus – vou te dizer – não foi nada ingênuo quando botou a respiração como coisa independente do ser humano. Quer dizer, a gente respira mesmo na maior tristeza, a gente respira; mesmo na maior depressão, a gente está respirando. Graças a Deus! Porque, se não, o homem ia se esquecer de respirar e ia ter gente aí caindo, a torto e a direito (risos). Então, fico pensando: “Pô, a gente respira no meio da loucura... Isso não é à toa”. Olha só isso. Observa que você está respirando; você sai do automatismo e fala: “Opa, que bom”.

Como se tirasse o peso que as pessoas carregam.
É. Não se torture. Aconteceu. Então, se responsabiliza pela vida. Vamos lá. Sabe? Vamos lá, gente! Vamos lá! Vamos arregaçar a manga da camisa. Não dá para abraçar o mundo. Não dá para estar em todas as trincheiras ao mesmo tempo, mas vamos lá. Cada um na sua trincheira, cada um de sua maneira. Essa experiência humana de viver é sensacional! Ser humano e estar vivo é sensacional. Infelizmente, o sistema humano de sociedade transformou isso em um pesar, muitas vezes. Transformou em uma carga tributária, em uma opressão. Mas isso tudo faz parte da cultura. Ninguém é ingênuo. Ninguém está aqui de brincadeira. A gente sabe como é duro. Mas, apesar disso, nós temos um potencial de transcendência, de entendimento, de capacidade de compartilhar com o outro, que é de um prazer inenarrável. Não é verdade? Nossa, é sensacional. Eu acho mesmo! Acho os encontros humanos sensacionais. Estou feliz de te dar esta entrevista. Fico feliz de dar um abraço, é sensacional. Se você me perguntar: “Isso que você está falando é fé?”. Eu te pergunto: “Isso que é fé? O que você acha?”.

Prefiro que você responda.
Pode ser. Mas não em uma coisa impalpável. É uma fé neste próprio movimento chamado “vida”. E tudo aquilo que me faz ficar nisso, eu quero entender, quero para mim. Quero conhecer a cabala, quero conhecer as religiões, quero conhecer o budismo, quero conhecer você. É fé em um fluxo. Exatamente! Às vezes, penso assim: “Meu Deus, eu nasci!”. 
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Reportagem por: Gustavo Ranieri 
Foto: Bruno Veiga
Fonte: Site da Revista Cultura , 04/11/2014

A mamã de Sigmund Freud

Manuel S. Fonsec*

Freud's mother
A mamã e o douradinho
Se tivesse nascido hoje era checo. Nasceu Sigismund Schlomo Freud, filho de Jacob Freud e da sua terceira mulher, Amalia. Quando ele nasceu, o pai tinha 41 anos, a mãe 21, numa linha "boi velho, capim novo", que talvez prenunciasse um dos fetichismos a que a criança, um dia, dedicaria o seu deliciado e insidioso olhar.

Mas vamos a factos. O pai era um comerciante de lanifícios. Ou seja, um dos pares dos nossos industriais têxteis do Vale do Ave. Digo isto só para que se veja que as crises do têxtil já vêm de longe. O menino Freud nasceu em 1856. Vivia feliz nas livres montanhas de Freiberg, mas estalou uma crise nos lanifícios que atirou a família para os secos braços da pobreza, primeiro para a desolação de Leipzig e depois para Viena, onde viveram no ghetto judeu. De apartamento pobre em apartamento pobre, mudaram-se seis vezes em quinze anos.

Amalia, a mãe, ucraniana de origem (desconfio que é uma das poucas informações de que Putin não dispõe) teve uma exacta meia-dúzia filhos. Era uma força da natureza, era sentimental e era linda. Amava Sigismund, o seu primogénito, nele depositando as mais altas esperanças. Ele era o menino dessa mamã que lhe chamava "o meu dourado Sigi". Coração de mãe nunca se engana e o filho pagou-lhe com a mais alta moeda teórica, elegendo a figura materna como o primordial objecto de desejo de qualquer rapazinho. Um desejo que vai acompanhado da vontade de que um raio vindo do céu mate o pai.

Ouçam-no: "Quando se é o favorito da mamã, leva-se para a Vida um sentimento de vitória, que nos dá uma segurança de sucesso que, na verdade, raramente falha." E faça-se justiça a Freud, a única tentativa de matar o pai que se lhe conhece foi a de, aos oito anos de idade, ter ido, com líquida determinação, urinar em cima da cama paterna.

Bem vistas as coisas, se não fossem as cíclicas crises do têxtil, será que alguma vez teríamos tido o maravilhoso escândalo narrativo, um escândalo para-shakespeariano, que são os escritos de Sigi, o mais dourado dos meninos?
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* Escritor português. O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Fonte:  http://www.escreveretriste.com/2014/11/

sábado, 8 de novembro de 2014

Michel Maffesoli: 'O tripé pós-moderno é criação, razão sensível e progressividade'

 
Michel Maffesoli: ‘Indivíduo pós-moderno não se define por seu status social, mas por sua relação com o outro’
Foto: Didier Goupy / Divulgação

No Brasil para conferências, sociólogo francês lança livro sobre transição do ‘homo economicus’ para o ‘homo eroticus’

PARIS — Os tempos atuais pertencem à razão sensível, às emoções e aos afetos públicos, e o Brasil está na vanguarda nas experimentações das novas realidades sociais deste início de século. A democracia representativa é um sistema fracassado, e deve-se atentar para as inovadoras formas do fazer político e de gestão do bem comum, favorecidas pela horizontalidade promovida pelas novas tecnologias. Estas são algumas das teses desenvolvidas ao longo dos anos pelo sociólogo francês Michel Maffesoli, e aprofundadas em seu mais recente ensaio, “Homo eroticus — comunhões emocionais” (Editora Forense Universitária, 288 páginas, R$ 69).

Professor de Sociologia na Sorbonne, diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano e do Centro de Pesquisas sobre o Imaginário (M.S.H.), Maffesoli costuma definir o Brasil como um “laboratório da pós-modernidade”. Neste mês de novembro, o original pensador fará uma série de conferências no país, nas quais explorará os temas contemporâneos caros às suas pesquisas do cotidiano da época pós-moderna: no dia 9, em Búzios, no encerramento do XXII Congresso da Associação Junguiana do Brasil; dia 10, no Rio, às 10h, na Associação Comercial do Rio de Janeiro, e às 20h, no Midrash Centro Cultural; dia 11, em Brasília, às 14h20m, na abertura do seminário internacional “Sociedade contemporânea: a imagem, o simbólico e o sensível”, na Universidade de Brasília (UnB), e dia 12, às 11h, em Niterói, na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Segundo o senhor, o “homo eroticus” seja talvez o filho indigno da modernidade, mas é o filho legítimo da pós-modernidade. Quem é este homo eroticus e como ele se inscreve no mundo de hoje?
Nossa época vive uma mudança de paradigma, de mudança de sistema de valores. Traduzo isso pela metáfora da passagem do “homo economicus” ao “homo eroticus”. Não se trata, obviamente, de um erotismo no sentido realista do termo, mas sobretudo de um significado “erótico social”. O “homo economicus” encarnava os últimos séculos, centrados na produção e no crescimento econômico, na mercantilização das trocas, toda uma vida voltada para a acumulação do patrimônio. Já o indivíduo pós-moderno não se define por seu status social ou profissional, seu nível econômico e de formação, mas essencialmente por sua relação com o outro. É este relacionismo que constitui a característica essencial do “homo eroticus”: eu vivo e sinto pelo e graças ao outro.

De que forma a técnica e seu desenvolvimento favorecem mais hoje a emoção, a sensibilidade e o retorno aos afetos à praça pública, como o senhor assinala, do que o racionalismo abstrato?
Se retomarmos as análises de Max Weber, a técnica e a racionalização teriam levado a um desencantamento do mundo. É o que Jean-Paul Sartre chamava de serialização. A organização da indústria taylorizada e da administração burocrática são os exemplos mais emblemáticos. Esta tecnicização, este produtivismo, esta ideologia do progresso culminou nas devastações do mundo que se conhece, gulags e genocídios, catástrofes ecológicas etc. Mas a técnica não determina os usos sociais, são os modos de vida e o ambiente da época que ditam o uso das tecnologias. E, paradoxalmente, as novas tecnologias se tornaram auxiliares à expressão de novas formas de viver. A expressão imediata das emoções, a comunhão de sentimentos e de afetos são lançados pelo uso das redes sociais. Internet é uma mídia adaptada à nossa época relativista e relacionista, presenteista e hedonista. As diversas rebeliões juvenis no Brasil em 2013 são uma excelente ilustração de um “net-ativismo” aliando as paixões e o desenvolvimento tecnológico.

 ‘Indivíduo pós-moderno não se define por seu status social, mas por sua relação com o outro'

Há alguns anos o senhor define o Brasil como “um laboratório da pós-modernidade”, embora assinale que os brasileiros não têm consciência disso. Poderia explicar?
O tripé moderno era trabalho, racionalismo, progressismo. O tripé pós-moderno é criação ou criatividade, razão sensível e progressividade. Estes são, certamente, os três elementos que são característicos da sociedade brasileira contemporânea. Mas no Brasil, como na Europa, é preciso distinguir entre a opinião publicada, aquela dos jornalistas, universitários, políticos, dirigentes, dos que têm o poder de dizer e de fazer a opinião pública, e aquela que se exprime pelos comportamentos e rituais da vida cotidiana. Certamente, o Brasil das elites não é consciente deste verdadeiro potencial. Que não é tanto econômico, em todo caso no sentido do produtivismo e do crescimento a qualquer custo, quanto antropológico e cultural. As elites brasileiras, como as elites do mundo inteiro, pensam em termos de poder, de rentabilidade, de controle da natureza. É uma concepção do mundo que só pode levar a catástrofes e ao desencantamento que se conhecem. Sempre me pareceu que existia no Brasil uma forma de consciência popular de inutilidade desse economicismo e uma capacidade coletiva de encontrar sem cessar novas formas de expressão das emoções coletivas, de trocas afetivas, enfim, de solidariedades comunitárias. As grandes figuras de reunião conhecidas internacionalmente, que são o futebol, a música, a dança, são um testemunho. Mas também o são uma quantidade de comportamentos coletivos cotidianos, como as reuniões dominicais nos bairros ou nas praias, as formas de contestação contemporâneas ligadas na maioria das vezes a reivindicações de mobilidade e, em geral, ao espetáculo das ruas nas cidades brasileiras.

O senhor nunca votou na vida, não acredita no poder do voto nem no discurso dos valores da República. Neste contexto, como o senhor acompanhou as recentes eleições no Brasil?
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Parece-me que a democracia representativa, este sistema no qual os eleitores delegam o poder de decisão das instituições e dos modos de vida em comum a especialistas não é mais pertinente. O alto índice de abstenção nos países em que o voto não é obrigatório testemunha uma certa versatilidade dos eleitores. Os indivíduos não se sentem mais representados, e então não consideram mais que o Estado represente o bem comum, e as decisões dos representantes do Estado, o interesse geral. Mas há diferentes formas possíveis de gestão e de organização da coisa pública, a res publica. Me parece que estamos experimentando estas novas formas de gestão do bem comum, que não passa mais pela abstração da delegação nacional, mas pela multiplicação das experiências locais. Os fenômenos de descentralização, de autonomia dos Estados, de desenvolvimento das ONGs, mas também dos movimentos informais são um testemunho disso. As recentes revoltas no Brasil, que são mais a afirmação de um sentimento e de emoção coletivos do que de reivindicações materiais e individuais são um exemplo. É preciso estar atento, porque na falta de se encontrar modos de expressão adequados para essas experiências e paixões comuns, elas podem degenerar em tumultos. A aculturação das novas tecnologias e dos novos modos de comunicação possui um potencial de inovação social que constitui uma das riquezas do Brasil. É por isso que penso que este país é um dos laboratórios da pós-modernidade, sinergia do arcaico e das novas tecnologias.

O senhor aprecia a fórmula de Leonardo da Vinci, “ostinato rigore”: pensar com um rigor obstinado o que é e não o que se gostaria que fosse. É uma fórmula pouco utilizada hoje na sua opinião?
Da Vinci era artista e artesão, quer dizer que agia segundo um empirismo bastante formalizado. É este vai e vem inteligente entre a teoria e a observação que procurei promover, me inscrevendo na corrente sociológica “compreensiva”, de Max Weber e de George Simmel, e também de Gilbert Durand. Sempre disse aos meus estudantes brasileiros que é importante ir para a biblioteca e para a rua. Na verdade, é importante para os pensadores se alimentar da tradição, do tesouro daqueles que pensaram e escreveram antes deles, e ao mesmo tempo viver a experiência da vida cotidiana. Esta postura está, efetivamente, bastante distanciada daquela de muitos intelectuais que se tornaram um tipo de “engenheiros do social”. Eles substituíram os livros de literatura, de filosofia e de história pela leitura de estatísticas e de revistas e pela observação emergida das mensagens políticas. Desta forma, não é mais o mundo tal como é que tentam compreender, mas o mundo como eles gostariam que fosse que eles promovem. Procurei ao longo de minha carreira universitária e por meio da minha obra desenvolver um pensamento que não seja agressivo e dogmático, mas terno e relativista. A reabilitação do cotidiano, do imaginário, dos sonhos e da criação como primeiro terreno da existência coletiva é a alavanca. Neste sentido, as numerosas trocas que pude ter com colegas brasileiros e as viagens que pude fazer neste país fertilizaram meu pensamento.
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Reportagem por
Didier Goupy / Divulgação

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

NEM LESTE NEM OESTE

 AP
 Alemães celebram o início da queda do Muro de Berlim na Potsdamer Platz em 12 de novembro de 1989: "Foi ótimo quando o muro caiu, mas o processo não foi fácil", 
diz Andrea, que nasceu do lado ocidental 
logo depois da divisão do país.

Mona Brandt, de 24 anos, estuda comunicação na faculdade de cinema em Potsdam, a 30 minutos de trem de Berlim. Sua universidade se chama Konrad Wolf em homenagem a um famoso diretor da Alemanha Oriental que foi surpreendido na infância quando Hitler tomou o poder, em 1933, e o pai, um escritor judeu e comunista, decidiu exilar-se com toda a família em Moscou. Se a vida inspirou filmes a Konrad, a de seu irmão mais velho, Markus "Mischa" Wolf, parece ficção: ele foi chefe do serviço de inteligência internacional da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental. Mestre de espiões que se infiltravam no Ocidente, "Mischa" era o "homem sem rosto" até sua identidade ser revelada, em 1978, pelo serviço secreto sueco. Para Mona, que nasceu em Berlim em janeiro de 1990, a poucos metros dos escombros do muro derrubado dois meses antes, o cotidiano de uma nação partida em duas soa como um livro de John Le Carré.

A Alemanha de sua geração é o país que emergiu em 9 de novembro de 1989: uma potência econômica de mais de 80 milhões de habitantes, Produto Interno Bruto (PIB) de € 2,8 trilhões, tetracampeã de futebol, vanguarda em energia renovável, que hoje debate como ocupar seu lugar na geopolítica mundial sem soltar os fantasmas do passado.

"Cresci em uma cidade completamente normal, todos vão para onde bem entendem. Parece absurdo que pouco tempo antes de eu nascer havia gente que não podia fazer isso. Para mim, essa realidade é tão distante como a Segunda Guerra. É história", conta Mona, que se lembra quando percebeu pela primeira vez uma das marcas no chão da cidade do Berliner Mauer, espécie de cicatriz no asfalto que indica por onde passava o Muro de Berlim 25 anos atrás. E do episódio na escola, da amiga que ficou triste ao ser chamada de "ossi", termo pejorativo para identificar quem veio do Leste. Mona não entendeu. "Perguntei o que significava aquilo, 'vir do Leste', e ela me explicou."

O mapa da Alemanha dividida entre República Democrática Alemã, a Oriental, e República Federal da Alemanha, a Ocidental, está gravado na memória da geração anterior, assim como as consequências da separação. Andrea Brandt, de 53 anos, diretora de uma agência de trabalho voluntário, escuta em silêncio o relato da filha Mona. Para ela, os 150 quilômetros de um muro que podia chegar a 3,5 metros de altura foram muito concretos. Andrea nasceu em Berlim Ocidental três meses depois da noite de 13 de agosto de 1961, quando barricadas e arame farpado dividiram subitamente a cidade em duas. "O muro é de agosto, eu nasci em novembro. Cresci com ele, mas sabia que era algo antinatural", conta. O regime da RDA procurava estancar a fuga de milhões com a barreira física e da noite para o dia quem morava "do lado de lá" ficou assim. Pelos 28 anos seguintes.

Existem diferenças econômicas não sanadas do tempo da separação. O Leste é desindustrializado ainda
 e tem maior taxa de desemprego

O muro encapsulou Berlim Ocidental e a transformou em um enclave capitalista dentro da RDA - uma espécie de ilha, cercada de muro por todos os lados. Ali viviam 2 milhões de pessoas que esbarravam continuamente em cartazes ameaçadores avisando que estavam saindo do setor americano da cidade, lembrança de que Berlim havia sido fatiada em quatro pelas potências aliadas, depois da Segunda Guerra. Havia também os bairros administrados pelo Reino Unido e pela França. A zona soviética foi a que ficou do lado de lá das paredes pichadas do muro e formou Berlim Oriental, capital da RDA. Ali morava 1,2 milhão de pessoas. "Precisou de tempo para que as diferenças entre os alemães se atenuassem. A socialização era diferente, havíamos crescido em ambientes distintos. Os alemães do Leste eram mais desconfiados, vinham de um mundo onde havia a Stasi. Foi ótimo quando o muro caiu, mas o processo não foi fácil", relata Andrea.

O "processo" se iniciara muito antes. Em 1986, Mikhail Gorbatchov dava impulso às políticas de recuperação econômica e transparência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS. A perestroika e a glasnost, logo se viu, foram as sementes dos movimentos de ruptura do Leste Europeu. A tensão alemã irrompeu em Leipzig, em 4 de setembro de 1989, quando um grupo de mil alemães orientais se reuniu em frente da Igreja de São Nicolau para protestar contra o governo duro de Erich Honecker. A partir daí, Leipzig abrigou manifestações contra o regime todas as segundas-feiras, sempre às 18 h.

Logo a Hungria anunciou a abertura de sua fronteira com a Áustria. Em Praga, mais de 4 mil alemães orientais buscaram refúgio na Embaixada da Alemanha Ocidental. Em 16 de outubro, mais de 120 mil pessoas tomaram as ruas de Leipzig. Em 4 de novembro, centenas de milhares se juntaram em Alexanderplatz, a mítica praça de Berlim Oriental, na maior manifestação da história da RDA. O mundo acompanhava perplexo aqueles movimentos. Ninguém imaginava o que aconteceria no começo da noite de 9 de novembro, uma quinta-feira.

Não eram 19 h e Günter Schabowski, membro da mais alta instância do partido do governo da RDA, concedia entrevista a jornalistas internacionais. A intenção era anunciar medidas mais liberais sobre a permissão de saída do país. Um jornalista perguntou quando entrariam em vigor. "Ah, imediatamente", respondeu o burocrata. A entrevista era transmitida pela TV. Os jornalistas mandaram flashes às redações dizendo que a RDA estava abrindo as fronteiras. Milhares de alemães correram aos postos de fronteira sob o olhar de guardas atônitos. Depois vieram com picaretas, escalaram o muro na Porta de Brandenburgo e o mundo não seria mais o mesmo depois daquelas marretadas.
 AP
No alto, trecho do muro na rua Bernauer, no norte de Berlim, com a pichação "O muro tem de cair", 
em março de 1973; ao lado, imagem do mesmo local em outubro deste ano
 
Nem bem os pequenos carros quadrados, os Trabants, congestionaram Berlim Ocidental, o sociólogo americano Francis Fukuyama decretou "O Fim da História", livro de ciência política que virou best-seller, para horror das esquerdas. O embaixador Rubens Ricupero, que na ocasião servia na missão das Nações Unidas em Genebra, entende a queda do muro como um acontecimento de significação dupla. Fundamental para a história de Berlim e da Alemanha no pós-guerra, seus desdobramentos iriam muito além das fronteiras germânicas e do processo de reunificação. De maneira rápida e imprevisível, poria fim, em dois anos, aos 70 anos da revolução comunista.

Um de seus efeitos seria permitir a expansão europeia até o número atual de 28 países, engolfando o antigo mundo socialista e espalhando-se de Portugal, no Atlântico, até o mar Báltico, em uma ponta, e da Finlândia, no círculo boreal, à Grécia, na outra. "É um feito notável. Nem no Império Romano, nem na época de Carlos Magno, a Europa chegou perto disso. E isso só foi possível graças à queda do Muro de Berlim e à reunificação", diz Ricupero.

Aos seus olhos, o grande feito que dura e afeta todos, inclusive o Brasil, foi que a queda do muro foi apenas o pré-anúncio do colapso do comunismo como forma de organização econômica, social e política da sociedade. "Com a derrocada do modelo socialista, a forma predominante no Ocidente, que era, politicamente, a democracia representativa, e do ponto de vista econômico e social, a economia de mercado, se tornou senhora absoluta do terreno. Não tem mais nenhum competidor e isso permanece até hoje, embora existam muitos tipos de democracias e de capitalismo."

Não há números definitivos sobre o custo financeiro da reunificação alemã, mas ninguém duvida que não foi nada barato. Um relatório do banco alemão KfW estima que € 1,6 trilhão foram destinados ao Aufbau Ost, a reconstrução do Leste. Tudo teve que ser recuperado e, em alguns casos, reconstruído. Estradas, redes de esgoto e de energia elétrica, metrôs, telefonia, escolas, hospitais. A Alemanha Oriental investiu pouco nisso tudo, até por falta de recursos.

Juntar dois países que haviam seguido trajetórias tão diferentes em um só foi tarefa gigantesca e de enorme complexidade. Tudo tinha que ser repensado. O tratamento de água de uma Berlim usava cloro; da outra, não; e levou tempo para juntar tudo. Durante a Guerra Fria, somente companhias aéreas britânicas, americanas e francesas podiam voar para Berlim Ocidental, sobrevoando a antiga RDA. A Lufthansa não era autorizada. Quando o muro caiu, foi delicado convencer algumas empresas de que a situação tinha mudado e não podiam continuar com o monopólio do espaço aéreo.
Friedrich Däuble, cônsul-geral da Alemanha em São Paulo, entrou no serviço diplomático em 1984. "Os problemas da Alemanha dividida eram um tema central. Para nós, havia Moscou de um lado e Washington, do outro", conta. Os americanos eram aliados, com os russos tinham dificuldades. O primeiro posto de Däuble no exterior foi na Venezuela. Estava em Caracas quando o muro caiu. "Sentíamos que algo podia acontecer." Gorbatchov mandava recados claros ao governo duro da RDA. Em um discurso famoso às vésperas da queda do muro, o líder russo disse que "aqueles que chegam muito atrasados são punidos pela vida". "Era óbvio que ele dizia a Honecker que a política conservadora da RDA não tinha futuro", diz.

A soma de investimentos colocados no Leste 
em 23 anos é superior ao que se investiu 
no lado ocidental em 43 anos

Honecker caiu, o muro caiu, e Däuble foi chamado de volta à Alemanha. A capital ainda era Bonn, mas havia muito a ser feito em Berlim. Desde questões bizarras, como quem iria se responsabilizar a partir dali por cuidar dos monumentos soviéticos, até temas delicados, como negociar a retirada das tropas soviéticas do território alemão.

A integração física, com os ciclópicos investimentos em obras de infraestrutura, parece, 25 anos depois, uma faceta bem-sucedida da Alemanha reunificada. Foram gastos bilhões de euros em trilhos, estradas, ruas, hidrovias - quase € 40 bilhões em projetos de transporte. Só nas famosas Autobahnen foram feitas obras em 13 mil quilômetros de rodovias, sendo quase 2,5 mil quilômetros de novas rotas. Construíram 230 mil quilômetros de ruas e 34 mil quilômetros de ferrovias.

A unificação significou uma enxurrada de investimentos no Leste alemão. Entre 1990 e 2013, foram investidos € 7,61 bilhões em casas, escolas, edifícios, monumentos e outras obras urbanas no lado oriental. O dinheiro vinha da chamada "taxa de solidariedade", cobrada de todos os alemães que pagam impostos sobre renda, podendo alcançar até 10% sobre o total de taxas recolhidas dos mais endinheirados. A solidariedade veio de um lado e a balança do aporte de recursos pesou para o outro. A soma de investimentos colocados no Leste em 23 anos é superior ao que se investiu no lado ocidental em 43 anos (€ 7,37 bilhões, entre 1971 e 2013). O Leste é apenas um terço do território da Alemanha.

O esforço alemão em equiparar as metades teve por efeito colateral diminuir os investimentos nos Estados ocidentais. Sem recursos para manutenção, a irretocável infraestrutura alemã mostra sinais de desgaste. Imagens de rodovias esburacadas aparecem no noticiário e chocam os alemães, já escandalizados com os atrasos do novo aeroporto de Berlim, que nunca é inaugurado. O rico Estado da Baviera quer fechar a torneira e pede o fim dos repasses ao Leste. "Eu entendo o pessoal do Ocidente. Solidariedade não pode eternamente ser uma via de mão única e tem sido assim nos últimos anos", diz a alemã oriental Sabine Mehwald, responsável pelo serviço para cidadãos e visitantes do Ministério dos Transportes.

Nascida em um vilarejo na ex-Alemanha Oriental, Sabine lembra como se fosse ontem os últimos dias da vida no Leste. Ela cursou estudos românicos na Humboldt, a famosa universidade de Berlim Oriental, e fala português fluentemente. O mais velho de seus dois filhos tinha 11 anos em 1989, lembra-se da "vida no Leste" e até hoje é um leitor voraz. A filha é de 1987 - "conhece apenas o Oeste", lamenta a mãe. "O muro era um horror e não poder fazer o que se quer é horrível. Mas eu nunca quis viver na Alemanha Ocidental. Queria viajar, ir à África, conhecer o Brasil, escrever minha tese sobre Jorge Amado - acabei escrevendo sobre a revolução em Angola. Tive uma boa vida familiar, não sou vítima. Também na RDA podia se viver uma vida digna."

Há diferenças econômicas não sanadas do tempo da separação. O Leste ainda é desindustrializado. Depois da reunificação, o governo federal tentou estimular indústrias e empresas a se instalar nos antigos Estados do Leste, mas isso foi apenas parcialmente bem-sucedido e o Leste se ressente. A ex-Alemanha Ocidental ainda é a grande região industrial alemã. No emprego, as diferenças são fortes. Na Alemanha, a taxa de desemprego está em torno de 6,5%. Em Berlim, alcança 11% e em algumas regiões da antiga Alemanha Oriental é o dobro da média e bate em 14%, apesar de todos os programas de incentivos.

Os alemães ocidentais puderam poupar, comprar casa, investir em ações, montar seu patrimônio familiar, garantir a aposentadoria e deixar herança aos filhos. Quem nasceu do lado do lá do muro não tem reservas. Os salários entre uns e outros estão próximos, mas ainda não foram equiparados nem no serviço público. Curiosamente, é o endereço da repartição pública que define o salário do funcionário. Dependendo de onde o servidor foi registrado, pode ganhar 10% a mais ou a menos que seus colegas.

 AP
Guindaste remove parte da construção em dezembro de 1989: para Rubens Ricupero, 
a queda do muro foi apenas 
o pré-anúncio do colapso do comunismo como forma
 de organização econômica, social e política
 
Na política, no entanto, as diferenças parecem digeridas. O maior indicador disso são as origens das mais altas autoridades do país. A chanceler Angela Merkel, no poder há nove anos, criou-se em uma região ao norte de Berlim que, na época, pertencia à parte oriental. O presidente alemão Joachim Gauck nasceu em Rostok, na RDA, e teve papel importante nos protestos que levaram à queda do muro.

É nas relações internacionais que a Alemanha de hoje mais patina. Esse é um dos grandes debates domésticos. "Costumo dizer que a Alemanha é uma potência envergonhada", afirma um analista. Que é uma potência, ninguém discute. Com a unificação, havia menos recursos disponíveis para programas de desenvolvimento e assistência humanitária para países em desenvolvimento, mas voltou a ser um ator importante nesse front. O problema é como o país se coloca em sua política externa. A questão é delicada.

O passado militarista, que causou duas guerras mundiais e traumas não superados dentro e fora das fronteiras alemãs, faz que a abordagem de Angela Merkel seja especialmente cautelosa em qualquer conflito internacional. Mas a atuação internacional tímida destoa do papel de megapotência econômica. Em entrevista recente, o ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, reconheceu que a diplomacia alemã "está enfrentando demandas como nunca antes". O presidente Gauck, em janeiro, disse que o país tinha que sacudir a relutância do pós-guerra e assumir um papel global maior. Que papel o país ocupará na geopolítica contemporânea é debate alemão.

No primeiro semestre deste ano, a crise entre Rússia e Ucrânia estava diariamente no noticiário. É a primeira grande crise com Moscou depois da Guerra Fria. A ideia daqueles tempos voltarem apavora os alemães. Naqueles dias, quem sempre esteve à frente dos soviéticos eram os EUA, mas nos acordos para controlar a crise da Ucrânia Berlim tem tido papel fundamental. A queda do avião da Malaysia Airlines, em março, foi um divisor de águas, imagina-se. Morreram muitos europeus, inclusive alemães. A Alemanha assumiu posição protagonista, avaliam analistas, e Washington teve papel mais periférico. "Depois da queda do avião, a pressão do presidente Barack Obama sobre Vladimir Putin foi forte e ajudou, mas foi a Alemanha quem tomou a linha de frente e conduziu as negociações com a Rússia", diz um observador.

"Há uma hesitação na população alemã de fazer que o país lidere em questões internacionais. A guerra é um trauma. Por outro lado, você não pode ser um ator econômico forte e não ter nenhum esforço político", opina Walter Kaufmann, chefe do departamento do Leste e Sudeste europeus da Fundação Heinrich Böll, ligada ao movimento verde alemão. "Putin está testando limites. Sabe que a União Europeia é um bloco cheio de contradições e está jogando. Por isso, é muito importante ter um ponto de vista claro do que fazer."

No front global, a Alemanha tem à frente o risco de estagnação econômica, o que é um problema para quem tem sua força econômica calcada na demanda externa. Além disso, tem que enfrentar problemas de magnitude planetária. "O regime capitalista, tal como existe hoje no Ocidente, provou ser incapaz de resolver os três maiores desafios que a humanidade enfrenta na atualidade", observa o embaixador Ricupero. "O aquecimento global, a tendência a uma crescente desigualdade dentro das sociedades capitalistas mais avançadas e o desemprego são três desafios que nenhum sistema capitalista, e a bem dizer, nenhum outro, conseguiu resolver."

Daquele inverno de Berlim, há 25 anos, quando Mona estava para nascer, Andrea Brandt se lembra das ruas lotadas de alemães curiosos e excitados com o futuro. "Lembro de sentar na cama e pensar que o meu bebê poderia viver em uma cidade inteira e não em duas partes", diz. Neste ano, em que três datas fortes marcam a história alemã - 100 anos do início da Primeira Guerra, 75 anos do começo da Segunda Guerra e um quarto de século da queda do Muro de Berlim -, os alemães dizem ter razões para celebrar apenas a terceira efeméride. Comemoram com delicadeza - uma instalação sobre onde ficava o muro, com oito mil balões brancos e 16 quilômetros de extensão, percorre o centro da cidade.
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Reportagem Por Daniela Chiaretti | De Berlim 
Fonte: Valor Econômico online, 07/11/2014