sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

NÃO É O FIM DO MUNDO

Ana Ottoni/Folhapress 
"O sucesso no Brasil é ofensa pessoal", alfinetava Jobim, na época em que "Garota de Ipanema" disputava as paradas internacionais com "Yesterday", dos Beatles
 
Vinte anos após a morte de Tom Jobim, sua ácida "boutade", proferida em pleno reinado pós-punk do baticum eletrônico, ressoa desiludida: "A música, tal como a conhecemos, não existe mais". Frasista afiado (na linhagem da filosofia carioca, de Millôr Fernandes a Sérgio Porto), ele não imaginaria uma rendição tão completa da mídia principal ao atual refogado populista de sertanejos ditos universitários, funks ostentadores e/ou sexistas e o anódino pagode romântico. Logo ele, contemplado com um especial em horário nobre, na mesma TV Globo para a qual compôs trilhas como "O Tempo e o Vento", o bolero central da minissérie "Anos Dourados", o fox "Querida" ("O Dono do Mundo") e sua "valsa francesa", "Luíza", moldura da platinada Vera Fischer, na novela "Brilhante".

Herdeiros, seguidores e devotos do legado jobiniano estão segregados aos nichos, ante plateias específicas e vendagens de discos anoréxicas. "O sucesso no Brasil é ofensa pessoal", alfinetava ele, na época em que sua parceria com Vinicius de Moraes, "Garota de Ipanema", disputava as paradas internacionais com "Yesterday", dos Beatles ("mas eles são quatro", fustigava com sarcasmo), e os entrevistadores só queriam saber se já estava rico.

Sua caligrafia, pautada pela sutileza e pelo refinamento, confronta-se hoje com a massificação rombuda. À parte exceções superlativas, como os sucessivos projetos do violonista, arranjador e epígono Mario Adnet ("Para Gershwin e Jobim", 2 vols., "Jobim Sinfônico", "Jobim Jazz", 2 vols.), vez por outra, o "mainstream" ainda recorre à sua grife elegante. Em 2008, CD/DVD e shows reuniram "Roberto Carlos, Caetano Veloso e a música de Tom Jobim". A estrela Vanessa da Mata engatou álbum (com arranjos de mais um discípulo, Eumir Deodato) e turnê com suas músicas, patrocinada pela empresa Nívea, em 2013. A dupla movida a terças Chitãozinho & Xororó lança em janeiro "Tom do Sertão", um álbum com "canções de natureza e amor", pescadas entre suas composições. "Esse é o disco mais sertanejo da nossa carreira", apregoam.

Mesmo que hoje paire entre uma inalcançável aura erudita e as orquestrações pasteurizadas dos hits, desidratados como musak de elevador, a obra do carioca Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994) permanece como um dos principais arquétipos da identidade musical do país, aqui e no exterior. Filho de uma educadora e um poeta, suas raízes foram solidamente plantadas entre o nacionalismo ecumênico de Villa-Lobos, o reformismo do vanguardista alemão Hans Joachim Koellreuter, seu primeiro professor, mais a práxis do piano tocado no "cubo de trevas" das boates e arranjos para ídolos populares como Dalva de Oliveira.

Folhapress 
Parceiros recentes em 1968, "Chico introduz no cancioneiro de Jobim o gosto pela frase cortante", 
antes tomado pela adjetivação generosa de Vinicius,
 observa Mammì
 
Jobim ainda "apostava corrida contra o aluguel", após abandonar o curso de arquitetura, quando suas primeiras músicas começaram a ser gravadas, em 1953. O cantor santista Mauricy Moura registrou "Incerteza", parceria com o colega de Ipanema Newton Mendonça. "Faz uma Semana", com o baterista Juca Stockler, ganhou a voz levemente empostada de Ernani Filho, favorito de Ary Barroso, que admirava. E, no ano seguinte, coube à sacerdotisa da fossa, Nora Ney, "Solidão", escrita com o marido de uma empregada da família, Alcides Fernandes, do morro do Cantagalo, já versado na política das sociedades arrecadadoras, como outro parceiro inicial, Marino Pinto ("Sucedeu Assim", "Aula de Matemática", "Frase Perdida", "Mágoa").

Também em 1954, o pré bossa-novista Dick Farney lançou "Outra Vez", primeira dissidência harmônica dos sambas-canções vigentes, e ainda dividiu com o rival de modernidades, Lucio Alves, o audaz triangulo amoroso de "Tereza da Praia" ("o verão passou todo comigo/ o inverno pergunta com quem"), parceria de Tom e Billy Blanco. A mesma dupla autoral e o mesmo par de cantores embarcariam na ainda mais ousada "Sinfonia do Rio de Janeiro", ode à cidade, orquestrada com opulência por outro mestre informal do compositor, o maestro gaúcho Radamés Gnattali, mais adicionais participações de Nora Ney, Emilinha Borba, Os Cariocas, Doris Monteiro, Jorge Goulart e Elizeth Cardoso. Em 1955, "Se É por Falta de Adeus" inicia a breve aliança de Tom e Dolores Duran (que resultaria nas cintilantes "Por Causa de Você" e "Estrada do Sol").

Com outro comparsa, de quem carregaria o amplificador do violão, Luiz Bonfá, gravou um histórico LP, no mesmo ano, ao lado de João Donato, ainda no acordeão, e assinou "A Chuva Caiu" (Ângela Maria), "Engano" (Doris Monteiro), "Samba não É Brinquedo" (Dora Lopes), além da posterior "Correnteza" e a instrumental "O Barbinha Branca", reprocessada por João Gilberto no matreiro "Um Abraço no Bonfá". Em 1956, Sylvia Telles sussurraria "Foi a Noite" (com Newton Mendonça), para alguns o marco zero da bossa nova, já que o produtor, Aloysio de Oliveira (futuro parceiro em totens como "Dindi", "Inútil Paisagem", "Só Tinha de Ser com Você", "Demais", "Eu Preciso de Você"), hesitou em carimbá-la como mais um samba-canção.

A nascente bossa nova teria sua prova de fogo em show 
na boate Au Bon Gourmet, em 1962, que 
reuniu Jobim, 
Vinicius, João Gilberto 
e Os Cariocas

Ou seja, muita coisa aconteceu na carreira de Tom Jobim antes do célebre encontro com Vinicius de Moraes, no bar Villarino, onde surgiria o convite para musicar a peça "Orfeu da Conceição", montada no Teatro Municipal com cenários do arquiteto Oscar Niemeyer, também em 1956. Além de um instantâneo clássico de vocação sinfônica ("Se Todos Fossem Iguais a Você"), a parceria com o poeta consagrado no meio literário (desdobrada em "A Felicidade", na trilha da peça filmada, "Orfeu Negro", por Marcel Camus, em 1959) transportou Jobim para o patamar seletivo do selo Festa, do produtor Irineu Garcia. Na etiqueta, além de musicar "O Pequeno Príncipe", de Saint-Exupéry, declamado pelo ator Paulo Autran, Jobim partilharia com Vinicius dois discos fundadores, em que se definiram os rumos da nascente bossa nova.

Estrelado pela heráldica Elizeth Cardoso, o primeiro songbook da dupla, "Canção do Amor Demais", de 1958, comboiava o requintado cardápio ("Eu não Existo sem Você", "Estrada Branca", "Janelas Abertas") na direção da música popular, já dimensionada nas síncopas de duas faixas cerzidas pelo violão de João Gilberto. A precursora "Outra Vez" e a programática "Chega de Saudade", "longa melodia baseada em pequenos motivos constantemente transpostos", como define o ensaísta Lorenzo Mammì, evocando a ligação inicial de Tom com Villa-Lobos, no livro "Três Canções de Tom Jobim" (Cosac Naify, 2004). Em entrevista para o livro que escrevi com Tessy Callado e Márcia Cezimbra, "Tons Sobre Tom" (Editora Revan, 1995), o próprio autor disseca a composição: "Lembra as introduções dos conjuntos de violão e cavaquinho, tipo regional de choro. Na segunda parte, passa para maior, com aquelas modulações clássicas. 'Chega de Saudade' tem a saudade jogando fora a saudade", cravou.

A música projetaria João Gilberto a partir de um "single" de 78 rotações, que inseminou futuros luminares Brasil adentro (Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jorge Ben) e seria faixa-título do LP do novo cantor e seu violão, orquestrado e avalizado pelo próprio Jobim, em 1959. No mesmo ano, no entanto, saía no supracitado selo Festa o álbum "Por Toda a Minha Vida", a outra via que poderia ter tomado a parceria Tom-Vinicius. A do canto lírico de Lenita Bruno, com orquestrações de seu marido, o maestro erudito Leo Peracchi, mais um mestre de Jobim. O repertório repete algumas faixas de "Canção do Amor Demais" (inclusive esta), mas há exceções importantes ("Sem Você", "Por Toda a Minha Vida", "Soneto da Separação", "Eu Sei Que Vou Te Amar", "Canta, Canta Mais"), além da distinção principal, de sua linhagem camerística.

"A música dele era inspirada nos impressionistas, Debussy e Ravel, mas há também alguns traços dos russos como Rimsky-Korsakov, Rachmaninoff, Aran Katchaturian", decupou Carlos Lyra(*). Em 1960, nova incursão erudita, em parceria com Vinicius: "Brasília, Sinfonia da Alvorada", inspirada na cidade arquitetônica projetada por Niemeyer. O então presidente, Juscelino Kubitschek, condutor da travessia, definia em seu livro "A Marcha do Amanhecer" (Editora Bestseller, 1962) um novo estágio nacional: "Se uma tradição secular definia o Brasil como produtor de matérias-primas era dever de seus cidadãos modificar essa situação de inferioridade".

Américo Vermelho/Folhapress 
O compositor em casa, em 1988: "Fazendo uma autoanálise, tentei harmonizar o mundo, 
o que evidentemente é uma utopia"
 
Coube à bossa nova promover a mais fiel tradução musical do urbanismo emergente no antigo país rural. Ela instaurou procedimentos de vanguarda no samba, como enumera o maestro Julio Medaglia em seu ensaio sobre o movimento, no livro "Balanço da Bossa e Outras Bossas", de Augusto de Campos (Editora Perspectiva, 1974). "Passou-se a fazer uso de acordes alterados, com notas estranhas à harmonia clássica, popularmente conhecidos como dissonantes", distinguiu.

A revolução estética seria consumada pela emissão confidente e o violão batido no tempo fraco de João Gilberto, para manifestos metalinguísticos como "Desafinado" (cuja letra enfatiza a subversão harmônica) e "Samba de Uma Nota Só" (um "ostinato" desdobrado em síncopas). Ambas parcerias de Jobim com Newton Mendonça, pianista que costumava revezar-se nos inferninhos com o amigo de infância. Ele não era apenas o letrista da dupla. Dividiria com Tom autorias integrais dessas e outras delicadas joias da coroa da bossa, como "Meditação" (do refrão, "o amor, o sorriso e a flor", emblema da ala "arte pela arte" do movimento), "Só Saudade", "Discussão", "Caminhos Cruzados" e "Domingo Azul do Mar". Saiu da festa no início, fulminado por um enfarte, aos 33 anos, em 1960.

Ostentando digitais de Jobim (e novas parcerias com Vinicius, "O Amor em Paz", "Insensatez", "Brigas Nunca Mais" e as próprias "Só em Teus Braços" e "Este Seu Olhar", de harmonia convergente), os três álbuns iniciais de João Gilberto, lançados entre 1959 e 1961, fincaram as diretrizes da bossa. Testado em apinhados shows universitários, o gênero nascente teria sua prova de fogo no show da boate Au Bon Gourmet, em Copacabana, em agosto de 1962, onde se reuniram Jobim, Vinicius (o diplomata debutava como cantor), João Gilberto e o grupo vocal Os Cariocas.

Luciana Whitaker/Folhapress 
Em 1992, com João Gilberto: as diretrizes da bossa foram obra do violonista
 
Em novembro do mesmo ano, a bossa já seria exportada em bloco, no notório e desorganizado show no Carnegie Hall, em Nova York. Jobim foi embarcado quase à força e também não queria se apresentar diante do caos reinante, incluindo artistas que nada tinham a ver com a nova estética. Mas tocou e cantou uma versão em inglês de "Samba de Uma Nota Só", mais "Corcovado" (do "cantinho e o violão", logotipos da bossa) e deu a partida num inescapável trajeto internacional.

Sumidade de bastidores, como autor, pianista e arranjador (a ele também se devem alicerces do samba-jazz, do mítico "Você Ainda não Ouviu Nada", de Sérgio Mendes, de 1965), Tom Jobim, a contrapelo de sua timidez, era catapultado ao centro do palco por causa do milhão de cópias vendidas da gravação instrumental de "Desafinado" pelos jazzistas americanos Stan Getz e Charlie Byrd. Já contava 36 anos, em 1963, quando estreou solo, nos EUA, a bordo do manifesto "The Composer of Desafinado Plays", sob diáfana orquestração de Claus Ogerman, suporte para seu "one finger piano", saudado com cotação máxima pela revista de jazz "Down Beat".

"Ele usava arpejos, dava toques que abreviavam as coisas, aquelas duas notas que valiam por mil. A gente ouvia as notas que ele tocava e as que não queria tocar", solfejou Hermeto Pascoal(*). A têmpera pop da bossa, no entanto, ainda estaria por virar nervo exposto, depois do lançamento, no ano seguinte, de "Getz/Gilberto", com o saxofonista americano Stan Getz, o casal João e Astrud Gilberto e Jobim ao piano, recorde de vendas da versão "The Girl from Ipanema". Jobim passa a alternar temporadas no exterior e no Rio, onde registra o histórico "Caymmi Visita Tom e Leva Seus Filhos, Nana, Dori e Danilo". Mantém o hábito de frequentar o boteco Veloso, em Ipanema, onde recebe o lendário telefonema de Frank Sinatra convidando-o para gravar.

Folhapress 
Na gravação de "Elis & Tom", em 1974: disco imortalizou "Águas de Março"
 
Via cadeia NBC, 80 milhões de americanos presenciam o encontro musical do disco "Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim", com participação de outra celebridade, Ella Fitzgerald. A diva também grava um álbum dedicado a Jobim, inserindo-o em definitivo entre os grandes da canção americana, aquela que, no Brasil, o acusaram de plagiar. No disco "Wave", também saído dos estúdios americanos em 1967, sobressaem a faixa-título e "Triste". Já "Zíngaro", em "A Certain Jobim" (do mesmo ano, com novos arranjos de Ogerman) seria transformada pelo novo parceiro, Chico Buarque, no niilista e belo "Retrato em Branco e Preto" ("já conheço os passos desta estrada/ sei que não vai dar em nada").

A propósito de outra pepita da dupla, "Pois É", o ensaísta Lorenzo Mammì discorre: "Chico introduz no cancioneiro de Jobim o gosto pela frase cortante, pela palavra dita entre os dentes. A adjetivação de Vinicius é generosa, barroca; Chico quase não usa adjetivo"(**). E os dois deságuam na canção de exílio "Sabiá", antes "Gávea", peça de câmara escrita para a cantora lírica Maria Lúcia Godoy. Com ela, venceriam o Festival Internacional da Canção do turbulento 1968, sob vaias de uma legião aliciada pelo militante "Pra não Dizer Que não Falei das Flores", de Geraldo Vandré. Ironicamente, adiante, Jobim seria um dos compositores detidos pelo Dops (ao lado de Chico, Edu Lobo, Marcos Valle, Sérgio Ricardo) após recusar-se e participar do FIC de 1970, em protesto contra a censura. O incidente alterna-se com uma nova temporada nos estúdios americanos, onde ele grava um segundo disco com Sinatra e álbuns solos memoráveis como "Tide" e "Stone Flower" (no qual adere brevemente ao piano elétrico).

Cultor de Stravinsky, Chopin e Pixinguinha, Jobim, um colecionador de dicionários, sempre foi imantado também pela literatura - de Carlos Drummond de Andrade a Olavo Bilac e Guimarães Rosa. Aos poucos, assoma em sua obra o autor solitário de música e letra. Esgotada a prosódia da bossa, o compositor reinventa-se a partir do devastador "Águas de Março", lançado no compacto "Disco de Bolso", do jornal "Pasquim", em 1972, e imortalizado em outro songbook, o álbum "Elis & Tom", dois anos depois, ao lado da cantora Elis Regina. O músico e ensaísta Arthur Nestrovski (também no livro "Três Canções de Tom Jobim") disseca a meticulosa carpintaria da composição: "São pequenas espirais, ou redemoinhos, torcendo a canção dentro de si. Ela repete, mas não se repete, é cíclica, mas não fecha o círculo, como a água que escorre pelo sorvedouro".

Manchete/Pictorial Parade/Getty Images 
Frank Sinatra e Jobim: 80 milhões de americanos assistiram ao encontro musical do disco 
"Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim"
 
Escolhida entre as "dez maiores canções de todos os tempos" pelo influente crítico americano Leonard Feather na versão em inglês do dicionarista Jobim ("sem usar uma única palavra de raiz latina", gabou-se), ela daria início a um ciclo ambiental na obra jobiniana, na qual brotam títulos como "Matita Perê" ("Rancho das Nuvens", "Nuvens Douradas", The Mantiqueira Range"), "Urubu" (com "O Boto" e "Correnteza" a bordo), "Terra Brasilis" ("Chovendo na Roseira") e "Passarim", que inclui o libelo "Borzeguim": "Deixa a onça viva na floresta/ deixa o peixe n'água que é uma festa/ deixa o índio vivo nu". A vertente regionalista não descartou a via do galanteador de musas ("Lígia", "Ângela", "Bebel", "Tema de Amor de Gabriela", "Ana Luiza", "Eu Te Amo", com Chico), sagaz e poliglota ("Two Kites", "Isabella", "Chansong").

Grava discos com Miúcha (com quem, ao lado de Vinicius e Toquinho, fez um show recordista de público no extinto Canecão), Edu Lobo e especiais de TV, ao lado de Milton Nascimento e João Gilberto (na comemoração dos 30 anos do show da bossa no Carnegie Hall). Vira enredo ("Se Todos Fossem Iguais a Você") da escola de samba Mangueira, em 1992, a que retribui no arrepiante "Piano na Mangueira", outra parceria com Chico. Excursiona pelo planeta com sua Banda Nova, da qual participavam os filhos do primeiro casamento, o violonista Paulo (pai do pianista Daniel) e a artista plástica Elizabeth e a segunda mulher, Ana, com quem teria mais dois filhos. Como na arte, Jobim reinventava-se na vida e findaria seu percurso fulgurante no disco em que conjuga DNA e sobrenome, "Antonio Brasileiro". Numa das faixas, entoava o "Samba de Maria Luiza", ao lado da filha caçula, então com 7 anos, cujo pendor musical a levou - voltas que o mundo dá - para a eletrônica, no duo Opala, com Lucas de Paiva.

O álbum de Jobim saiu no ano de sua morte abrupta, em 8 de dezembro de 1994, aos 67 de idade, em Nova York, onde sua trajetória decolou. O legado monumental deixado por ele articula a árdua simplicidade do gênio, lapidada pelo perfeccionismo. "A minha música é essencialmente harmônica. Fazendo uma autoanálise, tentei harmonizar o mundo, o que evidentemente é uma utopia"(*), ironizou o autor da proeza, no mínimo, na arte.

(*) Entrevistas ao livro "Tons Sobre Tom" (**) Do livro "Três Canções de Jobim"
----------------------------- 
Reportagem Por Tárik de Souza | Para o Valor, do Rio
Fonte: Valor Econômico online, 05/12/2014

 

"A fonte de criação dele era a mata"

Por Tom Cardoso | Para o Valor, do Rio
 
Poucos conheceram tão bem Tom Jobim quanto sua irmã, Helena. Escritora com livros traduzidos em diversos países, fez uma das mais elogiadas biografias sobre o compositor, "Antônio Carlos Jobim - Um Homem Iluminado" (Nova Fronteira, 1996). Aos 83 anos, radicada em Belo Horizonte desde 2000, Helena Jobim será tema de uma cinebiografia dirigida por Ernane Alves. O ponto alto do filme será a infância dela e do irmão, nos anos 30 e 40, na então bucólica Ipanema. Helena conversou com o Valor:

Valor: Como a senhora acha que Tom Jobim veria o Brasil de hoje? Continuaria achando que o país "não é para principiantes"? Ele era um cético ou tinha esperanças de que tudo melhorasse?
Helena Jobim: Tinha esperanças. Não era derrotista, desistente do Brasil, ele amava o país. Tom falava: "O que o Brasil tem de riquezas, os bichos, tem tudo pra ser um grande país, muita água, esse rio Amazonas, ele só precisa se ajeitar". O Tom queria que o Brasil fosse de homens fortes e, sobretudo, honestos.

Valor: Jobim, sempre divertido, tinha uma frase sobre a morte: "É mais confortável morrer em português. Como é que você vai dizer para o médico gringo, em inglês: 'Tô com uma dor no peito que responde na cacunda?'" Em algum momento, durante seus últimos dias em Nova York, ele pressentiu que poderia morrer longe do país?
Helena: Ele sabia que ia morrer. Eu sonhei na época com ele numa cama cercada de anjos. O Tom dizia que queria morrer aqui, mas não aconteceu, ele foi só enterrado no Brasil. E a gente pensa que ele fez o que tinha que ser feito, tem que pensar assim.

Valor: Hoje a obra de Tom Jobim é popular como ele desejava? Ele se dizia um "eruditinho", uma mistura de músico popular com erudito.
Helena: O Tom desejava. Ele falava: "Pode ser popular isso!" Ele era uma pessoa muito obsessiva, como eu. Tudo o que fazia tinha que ser com perfeição.

Valor: Nas três últimas semanas de Tom Jobim no Brasil, vocês ficaram muito próximos - a senhora, aliás, a pedido de Tom, passou esse tempo na casa dele. Como era a rotina de ambos?
Helena: Fui morar na casa do Tom para ficar com os filhos dele, que eram pequenos. O filho mais novo, João Francisco, no dia que o Tom morreu dizia: "O que vai ser mim, o que vai ser de mim?" Fiquei como mãe deles, ajudava na escola, na roupa. O Tom, dentro de casa, não ficava parado pensando. Ficava fazendo escalas no piano o tempo todo, não parava de trabalhar.

Valor: Em seu livro, a senhora diz que o Tom era muito místico, que chegava a ouvir vozes na infância e "até receber músicas prontas". Pode citar algumas que resultaram dessa suposta espiritualidade?
Helena: As músicas todas tinham algo da espiritualidade, porque ele entrava muito na Floresta da Tijuca. A fonte de criação dele era a mata. Ele sentia muita paz dentro da floresta, não queria saber de mais nada, ele se isolava completamente do mundo. Aí vinham sons pra ele, que ele gravava. O Tom possuía um ouvido absoluto, tinha uma sensibilidade exagerada. Eu conto muito dessas passagens de nossa infância no filme "Helena", do querido Ernane Alves.

'Tom não gostava de ser bajulado', diz Cabral

Jobim.org/Divulgação 
Jobim e Vinicius na boêmia carioca: costumava beber com os amigos e compor suas músicas
 
"Fiz parte, durante muitos anos, da turma do Tom Jobim, que se reunia quase que diariamente no Antonio's e, mais tarde, no Plataforma, ambos no Leblon. Aquela mesa, usando uma frase do Tom sobre o Brasil, não "era para principiantes". Só tinha gente da pesada: Chico Buarque, José Lewgoy, Antônio Pedro, Miguel Farias, Paulo Mendes Campos, Tarso de Castro e por aí vai. Tinham também os chatos, alguns deles amigos dos amigos do Tom, que faziam de tudo para se sentar à mesa, mas a gente dava um jeito, a pedido do anfitrião, de mantê-los longe. Quando o assédio dos chatos se tornou inevitável, e a gente começou a achar uma chatice essa história de ter que se livrar dos chatos, o Alberico Campana, dono do Plataforma, deu um jeitinho: deslocou a mesa para um ponto estratégico do restaurante, que permitia ao Tom avistar, sem ser notado, quem estava vindo em direção à mesa. Se fosse um amigo, ele não dizia nada. Se fosse um chato, ele mandava um sinal para o Alberico, que prontamente encaminhava o cara para o lado oposto.

Não me lembro exatamente em que momento passei a fazer parte da turma de amigos íntimos do Tom. Escrevi muito sobre ele, enaltecendo sua genialidade, na "Última Hora" e depois em "O Pasquim", mas não acho que isso tenha qualquer relação com a nossa aproximação, que deve ter se dado - era assim com a maioria dos amigos - por outros motivos. O Tom não gostava de ser bajulado, o que explica o pavor que ele tinha dos chatos, que vinham de todos os cantos do Brasil para tentar virar "amigo de copo de Tom Jobim". Na mesa do Plataforma conversava-se sobre tudo, menos assuntos sérios, "eruditos". O Tom adorava contar piadas, eram dele os comentários mais espirituosos sobre tudo o que se possa imaginar - ou sobre ele mesmo. Era uma conversa de botequim. Não existia, nesse sentido, sujeito mais carioca que o Tom. E todos que estavam ali tinham mais ou menos esse espírito, sendo cariocas ou não.

O Tom não gostava de ser bajulado, mas também se irritava com uma minoria de críticos de música que o perseguiu durante toda a carreira. Era uma turma pequena, mas barulhenta. O mais conhecido deles era o [José Ramos] Tinhorão, que dizia aquelas bobagens, que a bossa nova era uma cópia do jazz americano, que "Águas de Março" era plágio de uma música folclórica, nascida de um ponto de macumba, que "Samba de Uma Nota Só" (com Newton Mendonça) seria derivada de "Mr. Monotony", de Irving Berlin, gravada por Judy Garland. O Tom não era de responder publicamente às acusações. Mas os seus amigos, sim. Eu mesmo não deixava barato.

Escrevi um violento artigo contra o Tinhorão em "O Pasquim", não me lembro exatamente em que ano [no número 361, publicado de 28/5 a 3/6 de 1976], o acusando, por causa das críticas ao Tom e aos compositores de MPB da época, de ser um agente remunerado da CIA [o título de artigo era "Tinhorão agente da CIA?"). O Tom não entrou na polêmica, raramente entrava. Mas isso não quer dizer que ele não se vingasse à sua maneira de seus críticos, principalmente de Tinhorão. Os amigos mais chegados sabiam que ele cultivava uma planta, justamente com o nome de tinhorão (apreciada devido à sua folhagem ornamental) no seu jardim e costumava regá-la diariamente, no fim de noite, fazendo ali o último xixi antes de dormir.

Não acho, como ouço por aí, que Tom Jobim não teve sua obra reconhecida em vida. Se não teve, não foi uma exceção. Ary Barroso e Noel Rosa também morreram sem receber as homenagens que mereciam. Mesmo nos Estados Unidos, que gostamos de citar como exemplo de país que cultiva a memória de seus gênios, cerca de 80%, segundo uma pesquisa de uma universidade americana, não sabem quem foi Duke Ellington e Louis Armstrong. Nunca ouvi ele se queixar de falta de reconhecimento. Não era um sujeito queixoso. Ele dizia aquelas frases sobre o Brasil, quase sempre espirituosas, sarcásticas, com muito humor, mas ele adorava viver aqui. O Rio, com todos os seus problemas, nunca deixou de ser a cidade que ele amava. Ele topava o Rio.

Eu adorava estar perto dele. Virei amigo. Mas era também jornalista. Ainda na época do Antonio's, achando que deixava escapar tanta coisa boa durante os papos, decidi levar sempre um gravadorzinho. Chegava primeiro, escondia debaixo do pano da mesa e colocava pra gravar. Boa parte do que registrei serviu de base para a biografia que escrevi sobre o Tom, anos mais tarde. No fundo, acho que ele sabia que eu estava gravando e, como era fã dele, que usaria tudo aquilo de forma positiva. Só uma vez eu exagerei e publiquei, não me lembro onde, que ele estava com problema de saúde, algo bem pessoal, bem íntimo. Ele ficou possesso. Pensei bem e vi que tinha mesmo vacilado. Ele era o Tom Jobim. A gente não deve sair contando certas coisas sobre os gênios."

Depoimento de Sérgio Cabral concedido ao jornalista Tom Cardoso
---------------------
Fonte: Valor Econômico online, 05/12/2014

AINDA QUE CAMINHE POR UM VALE ESCURO


 Frei  Raniero Cantalamessa*

Ainda que caminhe por um vale escuro

Um dia, Francisco de Assis exclamou: «Caro imperador, Orlando e Olivero, todos os grandes guerreiros que foram valentes nos combates, perseguindo os infiéis com muito suor e fadiga até à morte, conseguiram sobre eles uma glória e memorável vitória, e por último estes santos mártires caíram em batalha pela fé de Cristo. Mas há muitos que, somente narrando suas gestas, querem receber honra e glória dos homens» (1).

Em uma de suas Admonições, o santo explicou o que havia querido dizer com aquelas palavras: «É uma vergonha para nós, servos do Senhor, o fato de que os santos atuaram com os fatos e nós, relatando e pregando as coisas que eles fizeram, queremos receber honra e glória» (2). Estas palavras me vêm à memória como um austero sinal no momento em que me disponho a oferecer a segunda meditação sobre a santidade de Madre Teresa de Calcutá.

Na escuridão da noite

O que ocorreu depois que Madre Teresa disse seu «sim» à inspiração divina que a chamava a deixar tudo para colocar-se a serviço dos mais pobres entre os pobres? O mundo conheceu bem o que sucedeu em torno dela - a chegada das primeiras companheiras, a aprovação eclesiástica, o vertiginoso desenvolvimento de suas atividades caritativas -, mas até sua morte, ninguém soube o sucedido dentro dela.

Revelam isso os diários pessoais e as cartas a seu diretor espiritual, divulgadas por ocasião de sua beatificação: «Com o início de sua nova vida a serviço dos pobres, uma opressiva escuridão veio sobre ela» (3). Bastam alguns breves fragmentos para dar uma idéia da densidade das trevas em que entrou. "Há tanta contradição em minha alma, um profundo anseio de Deus, tão profundo que faz dano, um sofrimento contínuo -e com isso o sentimento de não ser querida por Deus, rejeitada, vazia, sem fé, sem amor, sem entusiasmo... O céu não significa nada para mim, me parece um lugar vazio" (4).

Não foi difícil reconhecer imediatamente nesta experiência de Madre Teresa um caso clássico do que os estudiosos da mística, detrás de São João da Cruz, chamam a noite escura do espírito. Taulero faz uma descrição impressionante desta etapa da vida espiritual: "Então somos abandonados de tal forma que já não temos conhecimento de Deus e caímos em tal angústia que não sabemos se estivemos no caminho justo, nem sabemos já se Deus existe ou não, ou se nós mesmos estamos vivos ou mortos. De sorte que sobre nós cai uma dor tão estranha que nos parece que todo o mundo em sua extensão nos oprime. Já não temos nenhuma experiência nem conhecimento de Deus, e inclusive tudo mais nos parece repugnante, de forma que nos parece estarmos prisioneiros entre dois muros"(5).

Tudo permite pensar que esta escuridão acompanhou Madre Teresa até a morte (6), com um breve parêntese em 1958, durante o qual pôde escrever alegre: «Hoje minha alma está cheia de amor, de alegria indizível e de uma ininterrupta união de amor» (7). Se a partir de certo momento já não fala quase disso, não é porque a noite terminou, mas porque ela se adaptou a viver nesta. Não só a aceitou, mas reconheceu a graça extraordinária que estabeleceu para ela. "Comecei a amar minha escuridão, porque creio que é uma parte, uma pequenina parte, da escuridão e do sofrimento em que Jesus viveu na terra" (8).

A flor mais perfumada da noite de Madre Teresa é seu silêncio sobre isso. Tinha medo, ao falar disso, de fazer-se notar. As pessoas mais próximas a ela não suspeitavam de nada, até o final, deste tormento interior da Madre. Por ordem sua, o diretor espiritual teve de destruir todas as suas cartas e se algumas foram salvas é porque ele, com permissão dela, fez uma cópia para o arcebispo e futuro cardeal T. Picachy, as quais foram encontradas após a morte dela. O arcebispo, felizmente, rejeitou a petição que lhe fez também Madre Teresa de destruí-las.

O perigo mais insidioso para a alma na noite escura do espírito é o de… perceber que se trata, precisamente, da noite escura, daquilo que os grandes místicos viveram antes dela e, portanto, formar parte de um círculo de almas eleitas. Com a graça de Deus, Madre Teresa evitou este risco escondendo de todos seu tormento sob um eterno sorriso. "Todo o tempo sorrindo, dizem de mim as irmãs e as pessoas. Pensam que meu interior está cheio de fé, confiança e amor… Se só souberem como minha aparência alegre não é senão um manto com o qual cubro vazio e miséria!" (9).

Os Padres do deserto dizem: «Por grandes que sejam tuas penas, tua vitória sobre elas está no silêncio» (10). Madre Teresa o pôs em prática de forma heróica.
Madre Teresa de Calcutá e Padre Pio de Pietrelcina

Por ocasião da canonização de Padre Pio de Pietrelcina, os observadores leigos expressaram o parecer de que a santidade do místico Padre Pio era uma santidade arcaica, diferentemente da de Madre Teresa, a santa da caridade, que seria uma santidade moderna. Agora descobrimos que também Madre Teresa era uma mística (que Padre Pio era também um santo da caridade basta para demonstrá-lo a obra que ele realizou no "alívio do sofrimento").

O erro é contrapor estas duas marcas da santidade cristã, que vemos, ao contrário, com freqüência unidas admiravelmente, isto é, altíssima contemplação e intensíssima ação. Santa Catarina de Gênova, considerada uma das maiores da mística, foi desde Pio XII proclamada patrona dos hospitais na Itália por sua obra e a de seus discípulos a favor dos enfermos e dos incuráveis, que recorda de perto a obra de Madre Teresa em nossos dias.

Em um belo artigo, escrito na ocasião da beatificação, um autor indiano define Madre Teresa como «uma irmã para Gandhi» (11). Certamente muitas marcas reúnem as duas grandes almas, os dois Mahatma, da Índia moderna, mas é ainda mais justo, creio, ver em Madre Teresa "uma irmã para Padre Pio". Lhes une não só a mesma veneração da Igreja, mas também um mesmo ciclo de glória de parte da opinião pública mundial. Uma se distinguiu sobretudo nas obras de misericórdia corporais, o outro nas obras de misericórdia espirituais. Mas foi precisamente Madre Teresa a que recordou ao mundo de hoje que a pobreza pior não é a dos pobres de coisas, mas a dos pobres de Deus, de humanidade e de amor, a pobreza, em suma, do pecado.

A marca que mais aproxima estes dois santos é, talvez, precisamente a longa noite escura na qual viveram toda a vida. Sempre recordarei a impressão que tive ao ler o relato com que Padre Pio fazia de seus estigmas a seu pai espiritual. Ele terminava fazendo suas as palavras do salmo que diz: "Senhor, não me corrijas em teu enojo, em teu furor não me castigue" (Sal 38, 2). Estava convencido e esta convicção lhe acompanhou toda a vida, de que os estigmas não eram um sinal de predileção e de aceitação de parte de Deus, mas, ao contrário, de sua rejeição e do justo castigo divino por seus pecados. Foi aquilo o que me abriu os olhos sobre a estatura mística deste irmão meu do qual, até então, me havia interessado pouco.

Para irradiar luz, estas duas almas tiveram que passar a vida na escuridão, convencidas, além disso, de "enganar as pessoas". São Gregório Magno diz que a característica dos homens superiores é que "na dor da própria tribulação, não descuidam da convivência dos demais; e enquanto suportam com paciência as adversidades que os golpeiam, pensam em ensinar aos demais o necessário, semelhantes nisso a certos grandes médicos que, afetados estes mesmos, esquecem suas feridas para atender os demais" (12). Este sinal resplandece em grau eminente na vida de Madre Teresa e de Padre Pio.

3. Não só purificação
Por que este estranho fenômeno de uma noite do espírito que dura praticamente toda a vida? Aqui há algo novo a respeito dos que viveram e explicaram os mestres do passado, incluindo São João da Cruz. Esta noite escura não se explica com a única idéia tradicional da purificação passiva, a chamada via purgativa, que prepara à via iluminada. Madre Teresa estava convencida de que se tratava precisamente disto em seu caso; pensava que seu eu era particularmente duro de vencer, se Deus se via obrigado a tê-la durante tão longo tempo nesse estado.

Mas isto não era certo. A interminável noite de alguns santos modernos é o meio de proteção inventado por Deus para os santos de hoje que vivem e trabalham constantemente sob os focos da mídia. É o traje de amianto para quem deve ir entre as chamas; é o isolamento que impede a corrente elétrica de sair provocando curtos-circuitos…

São Paulo dizia: "Para não me envaidecer com a sublimidade dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne" (2 Cor 12, 7). O espinho na carne, que era o silêncio de Deus, se revelou eficaz para Madre Teresa: a preservou de todo entusiasmo em medo a tudo o que o mundo dizia dela, também no momento de receber o prêmio Nobel da paz. "A dor interior que sente --dizia-- é tão grande que não me afeta nada toda a publicidade e o falar das pessoas". Também isso une Madre Teresa e Padre Pio. Um dia, Padre Pio, olhando pela janela a multidão reunida na praça, perguntou maravilhado ao irmão que tinha ao lado: "Por que vieram todos estes?", e a resposta: "Por você, Padre", retirou-se rapidamente suspirando: "Se só soubessem…".

Mas existe uma razão ainda mais profunda que explica estas noites que se prolongam durante toda uma vida: a imitação de Cristo, a participação na noite escura do espírito que envolveu Jesus no Getsemani e na qual morreu no Calvário, gritando: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonou?". Na carta apostólica Novo Millennio Ineunte, a propósito do "rosto doente" de Cristo, o Papa escreve: "Ante este mistério, além de investigação teológica, podemos encontrar uma ajuda eficaz naquele patrimônio que é a "teologia vivida" dos Santos. Estes nos oferecem algumas indicações preciosas que permitem acolher mais facilmente a intuição da fé, e isto graças às luzes particulares que alguns deles receberam do Espírito Santo, ou inclusive através da experiência que eles mesmos tiveram dos terríveis estados de prova que a tradição mística descreve como "noite escura". Muitas vezes os Santos viveram algo semelhante à experiência de Jesus na cruz na paradoxal confluência de felicidade e dor"(13).

A carta cita a experiência de Santa Catarina de Siena e de Teresa do Menino Jesus. Agora sabemos que poderia citar também o exemplo de Madre Teresa. Ela chegou a ver cada vez mais claramente sua prova como uma resposta a seu desejo de compartilhar o «Lugar» de Jesus na cruz.

«Se a pena e o sofrimento, minha escuridão e separação te dá uma gota de consolação, Jesus meu, faz de mim o que quiseres… Imprime em minha alma e vida o sofrimento de teu coração. Quero saciar tua sede com cada gota de sangue que possa encontrar em mim. Não te preocupes de voltar logo; estou disposto a esperar-te toda a eternidade» (14).

Seria um grande erro pensar que a vida destas pessoas seja toda sombrio sofrimento. A carta Novo Millennio Ineunte, ouvimos, fala de uma «paradoxal confluência de felicidade e dor». No fundo da alma, estas pessoas gozam de uma paz e alegria desconhecidas para o resto dos homens derivados da certeza, mais forte que a dúvida, de estar na vontade de Deus. Santa Catarina de Gênova compara o sofrimento das almas neste estado ao do Purgatório, e diz que este «é tão grande que somente é comparável ao do inferno», mas que existe nelas uma «grandessíssima alegria» que somente se pode comparar a dos santos no Paraíso (15).

A alegria e a serenidade que emanavam do rosto de Madre Teresa não eram uma máscara, mas o reflexo da união profunda com Deus, em que vivia sua alma. Era ela que se «enganava» sobre si mesma, não as pessoas.
 
Ao lado dos ateus

Em lugar de santos "arcaicos", os místicos são os mais modernos entre os santos. O mundo de hoje conhece uma nova categoria de pessoas: os ateus de boa fé, aqueles que vivem dolorosamente a situação do silêncio de Deus, que não crêem em Deus mas não se vangloriam disso; experimentam mais a angústia existencial e a falta de sentido de tudo; vivem também eles, a seu modo, em uma noite escura do espírito. Albert Camus lhes chamava «os santos sem Deus». Os místicos existem, sobretudo para eles; são seus companheiros de viagem e de mesa. Como Jesus, eles «estão sentados à mesa dos pecadores e comeram com eles» (Cf. Lc 15, 2).

Isto explica a paixão com a qual certos ateus, uma vez convertidos, lançaram-se sobre os escritos dos místicos: Claudel, Bernanos, os dois Maritain, L. Bloy, o escritor J. -K. Huysmans e muitos outros sobre os escritos de Ângela de Foligno; T. S. Eliot sobre os de Giuliana de Norwich. Ali encontravam a mesma paisagem que haviam deixado mas desta vez iluminada pelo sol. Este ano se celebra o 50º aniversário da primeira representação de «Esperando Godot», o drama mais representativo do teatro do absurdo, mas poucos sabem que seu autor, Samuel Beckett, em seu tempo livre lia São João da Cruz.

A palavra «ateu» pode ter um sentido ativo e um sentido passivo. Pode indicar aquele que rejeita Deus, mas também aquele que --pelo menos assim lhes parece-- é rejeitado por Deus. No primeiro caso, trata-se de um ateísmo de culpa (quando não é de boa fé), no segundo de um ateísmo de pena, ou de expiação. Neste último sentido podemos dizer que os místicos, na noite do espírito, são os a-teus, os sem Deus. Madre Teresa tem palavras que ninguém havia suspeitado nela:

«Dizem que a pena eterna que sofrem as almas no inferno é a perda de Deus… Em minha alma eu experimento precisamente esta terrível pena da perda, de Deus que não me quer, de Deus que não é Deus, de Deus que na realidade não existe. Jesus, te rogo, perdoa minha blasfêmia» (16).
Mas se dá conta da natureza distinta, de solidariedade e de expiação, deste «ateísmo» seu:
«Quero viver neste mundo tão longe de Deus e que deu as costas à luz de Jesus, para ajudar as pessoas, carregando com algo de seu sofrimento» (17).

Os místicos chegaram a um passo do mundo onde vivem os sem Deus; experimentaram a vertigem de precipitar-se para baixo. Escreve Madre Teresa a seu pai espiritual:
«Estive a ponto de dizer “não”… Sinto-me como se algo, um dia ou outro, tivesse de romper em mim». «Rogue por mim, para que eu não rejeite Deus nesta hora. Não quero fazê-lo, mas temo que possa fazê-lo» (18).
Por isto os místicos são os evangelizadores ideais no mundo pós-moderno, onde se vive «etsi Deus non daretur», como se Deus não existisse. Recordam aos ateus honestos que não estão «longe do reino de Deus»; que lhes bastaria dar um salto para encontrar-se ao lado dos místicos, passando do nada ao tudo. Tinha razão Karl Rahner ao dizer: «O cristianismo do futuro, ou é místico ou não será». Padre Pio e Madre Teresa são a resposta a este sinal dos tempos. Não devemos «desperdiçar» os santos reduzindo-os a dispensadores de graças ou de bons exemplos.

5. Nossa pequena noite

Os místicos têm contudo algo a dizer aos crentes, e não só aos ateus. Não são uma exceção, ou uma categoria à parte de cristãos. Mostram mais, como de forma ampliada, o que deveria ser a plena expansão da vida de graça. Uma coisa aprendemos especialmente da noite escura dos místicos, e em particular da de Madre Teresa; como comportar-nos em tempo de aridez, quando a oração se converte em luta, fatiga, um golpe da cabeça contra um «muro de lamentação».

Não é necessário insistir na oração de Madre Teresa em todos aqueles anos passados na escuridão; a imagem dela em oração é a que todos temos ainda ante os olhos. Uma série de belíssimas orações se encontra entre a herança mais preciosa que ela deixou a suas filhas e à Igreja. De Jesus, o evangelista Lucas diz que, «sumido em agonia, insistia mais em sua oração», factus in agonia prolixius orabat (Lc 22, 44). É o que se observa também na vida destas almas.

A aridez na oração, quando não é fruto de dissipação ou de pactos com a carne, mas permissão de Deus, é a forma atenuada e comum que a noite escura advém na maioria das pessoas que tendem à santidade. Nesta situação é importante não se render e começar a omitir a oração para entregar-se ao trabalho, visto que se consegue bem pouco estando em oração. Quando Deus não está, é importante ao menos que seu lugar permaneça vazio e que não seja ocupado por algum ídolo, especialmente o que chamamos ativismo.

Para impedir que isto ocorra é bom interromper cada momento o trabalho para elevar ao menos um pensamento a Deus, ou para sacrificar-lhe simplesmente um pouco de tempo. Em tempo de aridez há que descobrir um tipo de oração especial que a beata Ângela de Foligno definia como a oração forçada e que diz ter praticado ela mesma: «É bom e muito agradável a Deus que tu ores com o fervor da graça divina, que veles e te fatigues ao realizar toda ação boa; mas é mais agradável e aceitável ao Senhor se, faltando a graça, não diminuas tuas orações, tuas vigílias, tuas boas obras. Atue sem a graça da mesma maneira como o fazias quando a possuías… tu fazes tua parte, filho meu, e Deus fará a sua. A oração forçada, violenta, é muito agradável a Deus» (19).

Esta é uma oração que se pode fazer mais com o corpo que com a mente. Existe uma secreta aliança entre a vontade e o corpo e há de usá-la: a razão. Com freqüência, quando nossa vontade não pode ordenar à mente que tenha ou não certos pensamentos, pode ordenar ao corpo: os joelhos que se dobram, as mãos que se juntam, os lábios que se abrem e pronunciam algumas palavras, por exemplo, «Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo».

Um místico oriental, Isaac o Sírio, dizia: «Quanto teu coração está morto e já não temos a mínima oração nem súplica alguma, quando Ele vier, que nos encontre prostrados com o rosto em terra perpetuamente». Madre Teresa conheceu também esta oração «forçada».
«Não posso dizer-lhe o mal que senti outro dia; houve um momento no qual por pouco rejeitei aceitar. Então tomei decididamente o Rosário e o rezei lentamente e com calma, sem meditar nem pensar em nada» (20).

Simplesmente permanecer com o corpo na igreja, ou no lugar eleito para a oração, simplesmente estar em oração, é então o único modo que fica para continuar sendo perseverantes na oração. Deus sabe que poderíamos ir e fazer centenas de coisas mais úteis e que nos agradariam mais, mas permanecemos ali, consumimos em branco o tempo a Ele destinado por nosso horário ou por nosso propósito.

A um discípulo que se lamentava continuamente de não poder orar por causa das distrações, um ancião monge, ao que se havia dirigido, lhe respondeu; «que teu pensamento vá onde queira, mas que teu corpo não saia da cela!» (21). É um conselho que também nos serve, quando nos encontramos em situação de distrações crônicas que já não estão em nossas mãos poder controlar: que nosso pensamento vá aonde queira, mas que nosso corpo permaneça em oração!

Em tempo de aridez, devemos recordar a dulcíssima palavra do Apóstolo: «O Espírito vem em ajuda de nossa fraqueza…» (Rm 8, 26 s). Ele, sem que o notemos, enche nossas palavras e nossos gemidos de desejo de Deus, de humildade, de amor. O Paráclito se converte, então, na força de nossa oração «Fraca», na luz de nossa oração apagada; em uma palavra, na alma de nossa oração. Verdadeiramente, como diz a Seqüência, Ele «rega o que é árido», rigat quod est aridum.

Tudo isto sucede por fé. Basta que eu diga: «Padre, tu me presenteaste o Espírito de Jesus; formando, por isso, “um só Espírito” com Ele, eu rezo este salmo, celebro esta Santa Missa, ou estou simplesmente em silêncio, aqui, em tua presença. Quero dar-te a glória e a alegria que te daria Jesus, se fosse Ele quem te orasse ainda desde a terra». Com esta certeza, concluímos nossa reflexão orando: «Espírito Santo, Tu que intercedes no coração dos crentes com gemidos inefáveis, chama o coração de tantos de nossos contemporâneos que vivem sem Deus e sem esperança neste mundo. Ilumina a mente daqueles que neste momento estão delineando a fisionomia de nosso continente; faz-lhes compreender que Cristo não é uma ameaça para ninguém, mas irmão de todos. Que aos pobres, aos pequenos, aos perseguidos e aos excluídos da Europa de amanhã não lhes seja tirado, com culpado silêncio, a garantia que até agora mais lhes defendeu do arbítrio dos grandes e da dureza da vida; o nome do primeiro deles, Jesus de Nazaré!»

* Frei  Raniero Cantalamessa, ofmcap
Pregador da Casa Pontifícia


(1) Leyenda Perusina, 72 (Fontes Franciscanas, n. 1626)
(2) Admonições, VI (FF, n. 155).
(3) Pe. Joseph Neuner, S.J., On Mother Teresa’s Charism, “Review for Religious”, Set-Out 2001, vol. 60, vol. 60, n. 5 (Adiante abreviado: JN) (Os documentos citados nesta pregação colocou amavelmente à disposição a Postulação geral da Causa de Madre Teresa).
(4) “There is so much contradiction in my soul, such deep longing for God, so deep that it is painful, a suffering continual – yet not wanted by God, repulsed, empty, no faith, no love, no zeal… Heaven means nothing to me, it looks an empty Place” (JN)
(5) Juan Taulero, Homilia 40 (ed. G. Hofman, Johannes Tauler, Predigten, Friburgo em Br. 1961, p. 305).
(6) Cf. Pe. A. Huart, S.J., Mother Teresa: Joy in the Night, “Review for Religious”, Set-Out 2001. Vol. 60, n. 5 (Adiante abreviado AH).
(7) “Today my soul is filled with love, with joy untold, with an unbroken union of love” (JN)
(8) “I have begun to love my darkness for I believe now that it is a part, a very small part, of Jesus’ darkness and pain on earth” (JN).
(9) “The whole time smiling – Sisters and people pass such remarks – they think my faith, trust, and love are filling my very being… Could they but know – and how my cheerfulness is the cloak by which I cover the emptiness and misery” (AH).
(10) Apophtegmata Patrum, Poemen 37 (PG 65, 332).
(11) G. Varangalakudy, A sister for Gandhi, “The Tablett”, 11 outubro 2003, p. 12
(12) S. Gregorio Magno, Maralia in Job I,3,40 (PL 75, 619).
(13) NMI, 27
(14) “If my pain and suffering, my darkness and separation give you a drop of consolation, my own Jesus, do with me as you wish…Imprint on my soul and life the suffering of your heart… I want to satiate your thirst every single drop of blood that you can find in me… Please do not take the trouble to return soon. I am ready do wait for you for all eternity” (JN).
(15) Cf. S. Caterina da Genova, Trattato del Purgatorio, 4 (ed. Cassiano Carpaneto da Langasco, Sommersa nella fontana dell’amore. Santa Catarina Fieschi Adorno, vol. 2, Le opere, p. 96; cf. também vol. 1. La vita, pp. 49 s.
(16)”They say people in hell suffer eternal pain because of the loss of God… In my soul I feel just this terrible pain of loss, of God not wanting me, of God not being God, of God not reallly existing. Jesus, please forgive the blasphemy” (JN).
(17)”I wish to live in this world which is so far from God, which has turned so much from the light of Jesus, to help them – to take upon myself something of their suffering” (JN).
(18)”I have been on the verge of saying – No… I feel as if something will break in me one day”. “Pray for me that I may not refuse God in this hour – I don’t want to do it, but I am afraid I may do it” (AH).).
(19) Il libro della Beata Angela da Foligno, ed. Quaracchi, Grottaferrata, 1985, p. 576 s.
(20)”The other day I can’t tell you how bad I felt – there was a moment when I nearly refused to accept – deliberately I took the Rosary and very slowly without even meditating – I said it slowly and calmly” (AH).
(21) Apophtegmi dei padri, del manuscrito Coislin 126, n. 205 (ed. F. Nau, en “Revue de l’Orient Chrétien” 13, 1908, p. 279.
-----------------------
Fonte: http://www.arquidiocesebh.org.br/site/noticias.php?id_noticia=9591#sthash.UIENUChq.dpuf

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Por que continuar a usar o termo "Deus" (Martin Buber)



* Algumas pessoas perguntam aos deístas por que estes continuam usando o termo "Deus", tão comum às religiões, para designarem o Princípio Primeiro do ser - Princípio este entendido de modo metafísico e não em termos antropomórficos como fazem-no tantos religiosos. Para responder a essa questão, achamos uma citação de Martin Buber que, embora imperfeita - porque mais poética do que precisa -, vem a calhar. Martin Buber (1878-1965) foi um filósofo existencialista judeu, portador de um pensamento em alguns pontos pelo menos próximo do Deísmo. Rodrigo.

"Quando censurado por ter usado o termo 'Deus' para afirmar o tu eterno, pelo fato de a palavra ter sido tão abusada através dos séculos, a tal ponto de seu uso ser quase uma blasfêmia, Buber replica:

"Sim, é a mais sobrecarregada das palavras humanas. Nenhuma outra palavra tem se tornado tão suja, tão mutilada. É exatamente por esse motivo que não posso abandoná-la. Gerações de homens colocaram a carga das suas vidas atormentadas sobre essa palavra e a sobrecarregaram até o chão; encontra-se no pó e leva as cicatrizes do peso do homem. Todos os povos, com as suas facções religiosas, rasgaram essa palavra em pedaços; mataram-se por causa dela e morreram por ela; esta palavra leva as impressões digitais e o sangue do homem. Onde poderia encontrar uma palavra semelhante para descrever o Altíssimo! Se tomássemos o conceito mais puro, mais cintilante do tesouro dos filósofos, alcançaríamos, apenas, um produto transitório do pensamento. Não conseguiríamos captar a presença daquele que as gerações humanas honraram e degradaram com sua vida e sua morte. Deveras, falar daquele que as gerações atormentadas e angustiadas querem significar é o que pretendo. Certamente, uns designam caricaturas e lhes dão a etiqueta de 'Deus'. Mas, quando todas as loucuras e desilusões se tornam pó, quando os homens se colocam face a face com Ele no escuro e não dizem mais Ele, Ele, mas sim suspiram Tu, gritam Tu, todos eles a mesma palavra, e quando acrescentam Deus, não é o Deus real que todos imploram, o único Deus vivo, o Deus dos filhos do homem? Não é Ele que os escuta? E por este motivo não é a palavra 'Deus' a palavra de apelo, a palavra que se tornou nome, consagrado em todas as línguas, por todos os tempos?"

(Trecho de História do Existencialismo e da Fenomenologia, de Thomas Ransom Giles, E.P.U., São Paulo: 1989, páginas 192-3)  

Martin Buber (1878-1965)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

E ASSIM VAI O MUNDO

João Pereira Coutinho*
 
Pergunto se um planeta que perde tempo com a camiseta de um cientista merece mesmo ser salvo 

1. O Real Madrid apagou a cruz de Cristo do seu distintivo. Razões comerciais: o clube espera receber financiamento árabe e não pretende ofender as sensibilidades dos torcedores muçulmanos. 

A ideia parece-me excelente e, mais ainda, o início de uma parceria entre a Espanha e o Oriente Médio que poderá ser aprofundada. 

Depois do distintivo do Real Madrid, não vejo por que motivo os dois países não incrementariam as suas relações --comerciais, culturais, paranormais-- destruindo na Espanha todos os símbolos cristãos que sobreviveram na paisagem. 

Claro que, tratando-se da Espanha, o apagamento de símbolos cristãos pode significar o apagamento de todo o país, ou quase, isso se excetuarmos a arte muçulmana mais ao sul. 

Mas até isso pode ser positivo: se a Espanha se transformar em um deserto, com alguns minaretes pelo meio, tenho a certeza de que os investidores árabes irão se sentir ainda mais em casa. 

2. A humanidade conseguiu enviar uma sonda para um cometa. Feito único, sem dúvida, embora ensombrado pelo caso do Dr. Matt Taylor. Melhor: pela camiseta que o Dr. Taylor, um conceituado astrofísico inglês, exibiu perante as câmeras. 

Na dita cuja, era possível observar várias mulheres pin-up, com poses sensuais e trajes idem, o que provocou reações histéricas entre as histéricas --feministas que são rápidas a ver "machismo" em todo o lado, mas obviamente incapazes de realizar uma equação de primeiro grau. 

O cientista, aturdido com as críticas, pediu desculpas e --imperdoável!-- choramingou em público.
Já tudo foi dito sobre o caso: quando o mundo deveria estar a olhar para os céus, o interesse das feministas estava na camiseta de um cientista terráqueo. 

Com a devida vênia, eu gostaria de ir ainda mais longe: a sonda do Dr. Taylor pode permitir --um dia, quem sabe-- rebentar com um cometa assassino a caminho da Terra. Mas pergunto, com honestidade, se um planeta que perde tempo com a camiseta de um cientista merece mesmo ser salvo. 

Dúvidas, muitas dúvidas. 

3. Dois fanáticos israelenses entraram numa mesquita e mataram quatro pessoas. Três delas eram imãs em oração. Em várias cidades israelenses, a população judaica saiu à rua para festejar o ataque e agradecer a Deus. Se esse filme tivesse acontecido, o que diria o leitor? 

Simples: a selvajaria não tem perdão; os festejos são imorais; os israelenses são os novos nazistas; e etc. etc. 

Agora, troque: "fanáticos israelenses" por "fanáticos palestinos"; "mesquita" por "sinagoga"; "imãs" por "rabinos"; e "ruas israelenses" por "ruas palestinas". Foi o que aconteceu depois do ataque em Jerusalém. Algum comentário? 

Precisamente, leitor: uma forma desesperada, mas perfeitamente justificável, de combater a ocupação sionista; e etc. etc. 

4. Brendan O'Neill escreve na "The Spectator" artigo sobre as "Stepford Students" (uma referência às "Stepford Wives" do romance de Ira Levin, criaturas robóticas e tiranizadas pela ditadura "falocêntrica"). E que nos diz O'Neill? O horror, o horror: os estudantes ingleses estão mais intolerantes do que nunca. 

Ele sentiu nos ossos esse clima de intimidação ideológica: convidado a falar sobre o aborto no Christ Church, em Oxford, o pobre O'Neill nem abriu a boca: as suas posições pró-vida despertaram a ira das feministas locais e de outros anões semelhantes, que por todo o lado reclamam "o direito ao conforto". 

"Conforto", entenda-se, significa nunca questionar nenhuma posição progressista que possa perturbar as "ideias" que as meninas e os meninos colaram na cabeça. 

Perder um minuto a tentar explicar que essa blindagem epistemológica representa um atraso cognitivo e até social (o que teria acontecido se os escravocratas também tivessem silenciado os abolicionistas do século 19 em nome do "direito ao conforto"?) é pura perda de tempo. 

O caso de Brendan O'Neill é apenas um vislumbre do que será o futuro: uma espécie de nova Idade Média, em que os bárbaros politicamente corretos têm rédea solta para destruir qualquer processo de conhecimento válido --e, escondidos dentro de portas, alguns monges tudo farão para o salvar. 

Razão tinha o outro: primeiro, a história é tragédia; depois, repete-se como farsa. 
----------
* Jornalista. Escritor.
Fonte: Folha online, 02/12/2014
Imagem da Internet

A BELEZA SALVARÁ O MUNDO

Luiz Felipe Pondé*
 
Logo o amor será objeto de algum composto psicofármaco. Trataremos Julieta com calmantes. 

Caro leitor, cara leitora, que sua semana se abra com tamanha beleza: "Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é. Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado inimigo". É uma fala de Julieta, na peça "Romeu e Julieta" de William Shakespeare. 

E mais: "Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargistes tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo do desejo da tua paz". 

O trecho é de "Confissões", de Santo Agostinho, capítulo dez. 

O grande autor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) dizia que a beleza salvaria o mundo. Conhecendo o abismo do desespero e do niilismo, ele profetizou a força da beleza como restauradora do espírito. 

Para ele, habitaríamos um futuro em que a verdade desapareceria por força de nossa própria dúvida e razão, e que, talvez, apenas a beleza poderia recuperar a forma do mundo. 

Mundo este feito para acolher a misericórdia, já que habitado por solitários como nós. A esperança, para o nosso russo, é flor que brota dos escombros. Visões de um romântico, claro. Romântico como a jovem Julieta. 

Mesmo que presos ao tempo --que nos assola a cada dia com o desespero que parece brotar do vazio das horas e lentamente nos revela o destino que nos espera--, é este mesmo tempo que ambos, Shakespeare e Santo Agostinho, chamam à cena para marcar o momento da descoberta da beleza. 

Sempre tarde demais ou cedo demais, ela chega. E nós, com nossas palavras e gestos, corremos atrás pra dar-lhe nome. Romeu e Deus. É pelo esforço de dar nome à doce fúria que ela nos incita, que recuperamos o gosto pelas coisas. 

Mesmo que seja, como diz o príncipe no final de "Romeu e Julieta", para nos mostrar como nosso mundo não suporta a beleza de dois jovens que se amam, sem perceberem que o mundo não é lugar para tamanha monstruosidade de um amor fora do lugar. 

A beleza que Agostinho tarda a amar, na história de Cristo, é esta beleza mesma, despedaçada pela incapacidade humana de sair da cela da humilhação para a leveza da humildade --única virtude indestrutível, como diria outro grande artista, Georges Bernanos. 

Sem a humildade, nos sentimos humilhados pela beleza de Deus. O desejo enlouquecido de Agostinho no texto é lugar comum na literatura mística, tradição marcada pelo encontro com esta beleza. 

No texto de Shakespeare, Romeu é o objeto de amor avassalador da jovem de 13 anos conhecida como Julieta, da nobre família dos Capuleto, representante aqui de todo homem e toda mulher que um dia enlouqueceu de amor. 

No texto de Santo Agostinho, Deus é o objeto. Aquele que sustenta tudo que existe e que é mais íntimo de mim do que sou de mim mesmo. Conhecer Deus exige de nós um autoconhecimento desconhecido para quem nunca se descobriu cego. 

Beleza esta que nasce das profundezas da cegueira de quem se sabe incapaz de criá-la, mas pressente sua presença nalgum lugar que não sou eu. 

Uma ciência do mistério, que encanta todos que um dia escreveram sobre ela. Ridícula, como diria o profeta russo Dostoiévski em seu maravilhoso conto tardio, "Sonho de um homem ridículo", porque inacessível para quem nunca se viu disforme. 

Se lembrarmos o que dizia outro grande artista, Nelson Rodrigues, que escrevia contos de amor e morte, assistiríamos à peça "Romeu e Julieta" de joelhos. 

Logo o amor será objeto de algum psicofármaco. Trataremos Julieta com calmantes, como já tratamos Santo Agostinho. Eis o inferno para um romântico: a vida "bem" resolvida. 
-----------------
* Filósofo. Escritor.

SILÊNCIO 'FRATERNAL'

 
A revista Rolling Stone que está nas bancas nos Estados Unidos contém uma denúncia que causou repulsa no país e continua a repercutir no exterior. Em 2012, uma estudante de 18 anos foi estuprada e espancada por sete colegas da Universidade da Virgínia, em Charlottesville. O crime aconteceu durante uma festa numa fraternity house - tipo de república ou residência estudantil. O choque não se deve apenas aos detalhes gráficos das três horas de horror a que foi submetida a estudante. O que aconteceu nas horas e nos dois anos seguintes é uma história de complacência e omissão criminosa. E, pior, ocorrida numa escola de prestígio, fundada por Thomas Jefferson, o terceiro presidente do país.

A entrevista é de Lúcia Guimarães, publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 29-11-2014.

Os EUA acumularam mais pesquisa acadêmica e experiência jurídica sobre o problema da violência sexual em universidades do que qualquer outra importante democracia ocidental. Acumularam também estatísticas sombrias. Os números dispensam qualificação: 1 em 5 estudantes sofrem estupro ou tentativa de estupro no câmpus, mas só 5% a 10% denunciam a agressão (fora do câmpus o índice de denúncia de estupro é 35%).

O calvário pós-estupro da estudante, que a Rolling Stone identifica pelo pseudônimo Jackie, começou já na saída da fraternity house. Na rua, descalça e com a roupa ensanguentada, ela telefonou para seus dois melhores amigos, um rapaz e uma jovem que a desaconselharam a ir ao hospital ou denunciar o crime à universidade. Um ano depois do ataque, Jackie não conseguia acompanhar o curso, caiu em depressão, pensava em se suicidar e contou o que aconteceu à escola. A diretora encarregada de casos de agressão sexual no câmpus deu a Jackie a opção de não fazer nada, ir à polícia, relatar o caso a um comitê disciplinar ou, pasmem, ter um encontro supervisionado com seus estupradores em que Jackie expressaria seus sentimentos em busca de uma ‘solução informal’.

Exposta à vergonha nacional, a Universidade da Virgínia cancelou todas as festas nas associações estudantis e prometeu elaborar novas diretrizes para combater a violência sexual. A universidade é uma das 86 escolas de ensino superior sendo investigadas pelo governo federal sob uma lei de igualdade de direito à educação que encampou assédio e agressão sexual como promotores de desigualdade. O grupo inclui universidades de elite como Harvard. A punição vai de multas até a suspensão de financiamento federal. A investigação é conduzida pelo Escritório de Direitos Humanos do Departamento de Educação.

O governo de Barack Obama, especialmente o vice-presidente, Joe Biden, tem sido ativo no reconhecimento e combate à epidemia de violência sexual nas universidades, um problema mais agudo num país onde dois terços dos estudantes começam a vida universitária morando em dormitórios no câmpus, frequentemente num Estado distante de casa. Em janeiro deste ano, a Casa Branca instituiu uma força-tarefa para proteger estudantes contra a violência sexual

Mas uma recomendação feita pelo governo Obama em 2011, cuja intenção era facilitar as denúncias, está sendo criticada pelo efeito oposto. O governo federal disse às escolas que era obrigação delas investigar denúncias e lhes atribuiu a tarefa de adjudicar os casos, na esperança de que, contando com um estágio anterior a chamar a polícia, estudantes teriam incentivo para contar suas histórias. Na prática, as escolas se viram transformadas em tribunais, com professores e bibliotecários em comitês de avaliação do que é, de fato, um crime. O processo é falho - frequentemente resulta em punições como suspensão ou expulsão para criminosos que deveriam estar cumprindo pena de prisão. Pesquisas mostram que cerca de 4% dos estudantes são autores da maioria dos estupros e são reincidentes, cometendo em média, cada um, seis estupros.

Entre os críticos que querem ver os agressores enfrentando a Justiça, e não o casulo institucional universitário, está a professora Bonnie Sue Fisher, da Universidade de Cincinnati, uma pioneira dos estudos sobre a violência no câmpus, e coautora de livros sobre o tema, como Campus Crime: Legal, Social, and Policy Perspectives

Eis a entrevista.

Desde que começou a examinar números de violência sexual em câmpus, a sra. notou padrões que distinguem algumas escolas?
Nenhum campus é imune à agressão sexual. O que varia é o número de alunas que revelam sua experiência e a reação institucional. Ainda hoje, de 90% a 95% dos casos de violência sexual não são denunciados nas escolas. Algumas escolas fecham os olhos para as ocorrências, outras sinalizam apoio às alunas para encoraja-las a fazer denúncias. Quando há a percepção de que uma escola vá criar obstáculos, a reação da aluna é pensar ‘não quero ser vitimizada uma segunda vez, não quero que minha integridade seja questionada’. O que estamos vendo agora é uma transformação cultural que ajuda as vítimas a falar, não porque as universidades fizeram progresso em lidar com o problema, mas apesar delas. Note que as mulheres agora são 58% das novas inscrições e há um movimento social maior de conscientização.

Quando o governo americano começou a encarar o problema do estupro no câmpus?
Em 1990, o presidente George Bush, pai, assinou o Clery Act, uma lei obrigando qualquer escola que recebesse fundos federais a relatar todos os incidentes de crime no câmpus à polícia. O ato levou o nome de Jeanne Clery, que tinha 19 anos quando foi barbaramente estuprada e assassinada no prédio de seu dormitório na Lehigh University, na Pensilvânia, em 1986. Seus pais se tornaram ativistas e perceberam que o problema da segurança em universidades era nacional. A lei passou por várias emendas, mas ficou claro que tinha problemas. Os relatórios anuais feitos ao Departamento de Educação eram incompletos, não havia cobrança sistemática pelo governo. A emenda mais importante veio em 2011 com o chamado SaVE Act (Ato de Eliminação da Violência no Câmpus), que, entre outras mudanças, ampliou as exigências para lidar com incidentes como violência doméstica, intimidade forçada e stalking (perseguição).

A reportagem da Rolling Stone que revelou o estupro de uma estudante por sete colegas na Universidade da Virgínia a surpreendeu?
Não. Há mais de 15 anos pesquiso o assunto e sabemos de casos extremamente violentos que não foram propriamente investigados ou nem denunciados, em que responsáveis não foram punidos. Não podemos subestimar a mentalidade de grupo que domina as fraternity houses. Ela recompensa o comportamento de seus frequentadores e pune as jovens que apontam seu agressor. Mas reportagens como a da Rolling Stone são um sinal de que não é mais possível continuar como está. O trem já saiu da estação.

Como sua pesquisa atual contribui para a força tarefa instituída este ano pela Casa Branca para proteger estudantes?
Estou trabalhando num modelo de questionário para melhorar a coleta de dados. Por mais que haja controvérsia sobre o tema, minha experiência nesse campo é clara: as palavras usadas têm impacto significativo. Não adianta sair perguntando: ‘Você foi estuprada?’, ‘Sofreu agressão sexual?’ É necessário fazer perguntas específicas sobre penetração vaginal pelo pênis ou outros objetos, sexo anal. São desconfortáveis, mas têm que ser feitas.

O que acha da lei de ‘consentimento sexual afirmativo’ implantada recentemente na Califórnia, que exige que o ‘sim’ para interação sexual seja comunicado inequivocamente?
Confesso que não compreendo essa lei e ainda não recebi uma explicação satisfatória. E não vejo como ela pode lidar com esse problema. Parece que estão buscando uma solução mágica. Estamos falando de jovens de 18 a 24 anos, vivendo um período impulsivo e de experimentação que corresponde a uma fase biológica. Esperamos que dois jovens tomem decisões com resultados positivos. Mas se prender a detalhes dessa maneira? Desconfio que a lei é resultado de uma visão clássica do estupro, da mulher emboscada por um estranho que salta de um arbusto.

Mas a maioria dos casos de violência sexual não ocorre entre conhecidos?
Com certeza, mesmo que seja entre duas pessoas que se encontraram pela primeira vez num programa, o que contribui para a hesitação em fazer a denúncia. Por isso, acho muito importante os ‘kits de estupro’ em que um exame de coleta forense ao menos pode ajudar a identificar o agressor. Descobrimos também que vítimas de violência sexual têm mais risco de sofrer novo ataque do que quem nunca passou pela experiência, o que deve estar ligado ao fato de se tratar de conhecidos.

O que a sra. acha da maneira como as escolas foram colocadas na posição de investigar e julgar casos de agressão sexual?
É um problema e não vejo como instituições devam se transformar em juízes. É para isso que temos o Judiciário e tribunais. Estamos vendo casos de estupro examinados em audiências disciplinares. Se houvesse um assassinato no câmpus, passaria pela cabeça de alguém convocar professores para examinar a evidência? Compreendo que estamos falando de um ecossistema de pessoas educadas e que a escola tenha um certo papel in loco parentis. Mas a audiência disciplinar acaba por reduzir um crime a, por exemplo, um caso de plágio acadêmico.

Em 1984, nos EUA, um ato aprovado pelo Congresso elevou a idade mínima para consumo de álcool para 21 anos. A competência para legislar sobre isso é estadual, mas inúmeros Estados seguiram o exemplo. Isso fez aumentar o consumo de álcool a portas fechadas nas escolas?
O álcool é um grande fator, tanto em termos de consumo voluntário como quando é usado por agressores para se aproveitar da vítima. Eu tenho mais de 50 anos e posso dizer que o álcool definiu nossos anos de universidade. Saíamos de casa para viver nos dormitórios e encontrávamos uma súbita liberdade. Quando a idade limite era 18 anos, as festas ao menos eram supervisionadas pelas escolas. Eu pesquisei a história do crime no câmpus universitário americano e outros tipos violência eram comuns mesmo quando as escolas só eram frequentadas por homens.

O que acha da expressão ‘cultura do estupro’, às vezes criticada como um exagero?
Se não há punição, se instituições envolvidas não estão sendo chamadas à responsabilidade, acho que temos ao menos uma cultura de facilitação. Mas as coisas estão mudando. Tenho me comunicado com acadêmicos na Europa, na Austrália e no Canadá. Começamos a acumular conhecimento sobre aspectos comuns da questão da violência sexual em outros países, mas nós, americanos, temos essa tradição maior de os jovens saírem de casa para morar no câmpus. Acho que nenhum país desenvolveu tanta pesquisa e metodologia como os Estados Unidos. Há cinco anos, eu dou um curso de vitimologia tanto na graduação quanto na pós-graduação.

Não passa um semestre sem uma aluna pedir um encontro reservado e começar a contar sua história de estupro ou outra forma de violência sexual. Mesmo quem contesta as estatísticas, alegando que a metodologia de coleta de dados é falha, precisa fazer uma pausa. Não importa se o número real é 1 em 4 ou 1 em 5, serão vítimas na universidade. Se o número de mulheres matriculadas continua a subir, chegou a 58%, estamos falando de uma população expressiva.

Há alguma relação entre o fato de as mulheres estarem em maioria na educação superior e em presença crescente no mercado de trabalho com essas estatísticas tão altas de agressão sexual?
Boa pergunta. Não temos resposta para isso ainda. Mas é certamente algo que devamos examinar.
--------------
FONTE: IHU online, 02/12/2014
Imagem da Internet

CORROMPREENDEDORISMO

Eugênio Bucci*
 
Sim, você se atrapalhou quando tentou ler em voz alta o título aí em cima. Não se culpe. Não sofra. O que temos aí é mesmo uma palavrona empedrada, cheia de sílabas e, para piorar, vertebrada de consoantes atravancadas, congestionantes. A pronúncia escorreita não sai assim de primeira. Na sua forma e no seu conteúdo, corrompreendedorismo não é uma palavra de fácil assimilação.

Ela deriva de outra que também não tem sido afável à fala espontânea: empreendedorismo. Convenhamos que esta aqui também não é fácil. Quando um incauto dá de cara com ela pela primeira vez, sente que bateu numa parede. Empreendedorismo não é como “getulismo”, que todo mundo sabe que vem de Getúlio. Não é como lulismo, que se refere evidentemente a Lula. Empreendedorismo, à primeira audição, parece descender de prendedor, isso mesmo, prendedor, aquele utensílio que as mulheres usam nos cabelos para se embelezar com ares de descontração. O substantivo “empreendedor” nunca primou pela popularidade. Não faz parte do linguajar corrente das ruas. Foi só depois de muita doutrinação que a gente começou a aprender que “empreendedorismo” se liga à atividade do empresário, ou à ideia de “espírito empreendedor” (no termo Unternehmergeist, cunhado por Schumpeter). Realmente, como versão em português de entrepreneurship, ou algo por aí, o vocábulo não vingou. Bateu na trave.

Em poucas encrencas, como nesta agora, 
política e economia estiveram tão entrelaçadas 
pelo que têm de pior
 
Não surpreende, portanto, a dificuldade do improvável leitor com “corrompreendedorismo”. Apesar disso, é o caso de insistir. Não podemos mais viver sem essa palavrona. Com todo o desconforto fonoaudiológico que nos traz, ela é indispensável. As cifras exorbitantes que vêm sendo aventadas a partir do oleoso e denso escândalo da Petrobrás a tornam obrigatória. Sem ela a realidade subterrânea das relações negociais escusas nos será inapreensível. Sem ela não há como definir e compreender o modus operandi desse vasto segmento das petroempreiteiras.

Se a tal livre-iniciativa precisa lubrificar (e não apenas “molhar”) a mão do agente público para conseguir empreender, de que “empreendedorismo” estamos falando, afinal de (e das) contas? Lembremos a quantidade de zeros envolvida, que sobrepuja a casa do bilhão. São bilhões e mais bilhões de reais. Muita coisa. Estamos diante não mais de um desvio de um lobista qualquer que foi lá e amaciou o deputado, mas de um modo de produção extenso, complexo e generalizado, implantando há décadas com protocolos bem azeitados e regras próprias (não escritas e, principalmente, não faladas). Esse modo de produção não pode ser chamado de “empreendedorismo”, assim, sem mais nem menos, pois depende visceralmente da corrupção como método e como “investimento” inicial (uma taxa de ingresso, se você quiser) para poder estabelecer-se. Aqui, o círculo virtuoso que se presume no “empreendedorismo” precisa do gatilho vicioso da propina, do impulso baixo do suborno, dos préstimos providenciais e degradantes da também chamada bola. Isso não é “empreendedorismo” nem aqui e muito menos na China.

Um dos desafios da história é tentar entender quem está corrompendo quem. Altíssimos executivos de empresas privadas foram presos. Seriam os corruptores. A presidente da República viu nisso um ineditismo policial sensacional e declarou algo na linha “nunca antes na História deste país”. Se o corruptor for mesmo o empresário (o corrompreendedorista em pessoa), o raciocínio presidencial tem fundamentos.

Sem prejuízo dessa linha de suposições, porém, há outra possibilidade especulativa. Os “operadores” (essa nova categoria da teoria econômica em tempos de corrompreendedorismo) de vários partidos, mancomunados por detrás dos gabinetes com elevadores privativos nas sedes da Petrobrás, podem também atuar como polos ativos da corrupção. De que modo? Muito simples: eles agiriam para forçar uma aliança, uma relação promíscua – e criminosa – entre representantes do mercado e servidores públicos, porque iria extrair benefícios dessa aliança, transformando as empresas privadas dos “corruptores” em doadoras fiéis e pontuais de barris de dinheiro para as campanhas eleitorais e para outras régias regalias. Quer dizer: se o corruptor privado “compra” o funcionário público para lucrar sem trabalhar e sem ter de se aborrecer com concorrentes, o “operador” partidário “compra” o corruptor privado para garantir uma caixinha segura, mensal, líquida e certa (embora errada). E então? Quem corrompe quem?

De um jeito ou de outro, por um ângulo ou por outro, por uma lógica ou por outra, o fato é que os corruptores, partidários, públicos e privados, bem como os corruptos, de muitos lados do balcão, foram alcançados pelas investigações e isso, claro, é positivo. De um jeito ou de outro, as engrenagens do corrompreendedorismo estão nuas como as intenções de seus agentes e a sociedade está mais informada sobre o que não deveria ter acontecido nunca.

Tudo isso talvez suscite no improvável e estimado leitor a lembrança do conceito de acumulação primitiva, tão caro a Karl Marx, ou do conceito de patrimonialismo, conforme Victor Nunes Leal e Raymundo Faoro o descreveram. Este articulista, igualmente improvável e nem tão estimado assim, também pensa sobre isso. Agora, contudo, para sorte de muitos, o espaço deste artigo já vai secando como um campo de petróleo que se extingue miseravelmente. Restam poucas linhas para uma nota rápida, que não pode ser mais do que telegráfica. Ei-la: quanto à acumulação primitiva, seria interessante considerar que, agora, não se trata de um atalho para que o capital se fortaleça antes de ingressar no mercado; estamos lidando, isso sim, com uma gangrena asfixiante e retardatária, uma decrepitude do capitalismo que não tende ao livre mercado, de jeito nenhum. Antes tende a matá-lo.

Em poucas encrencas, como nesta agora, política e economia estiveram tão entrelaçadas pelo que têm de pior.
 -------------------
* Eugênio Bucci é professor doutor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP). É colunista do jornal "O Estado de S. Paulo" e do site "Observatório da Imprensa". Integrou o conselho curador da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura de São Paulo) de 2007 a 2010. Autor de livros e ensaios sobre comunicação e jornalismo, foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007. Como crítico de televisão e de cultura, manteve colunas em jornais na "Folha de S. Paulo" e "Jornal do Brasil" e nas revistas "Veja", "Nova Escola" e "Sem Fronteiras". Na Editora Abril, foi diretor de redação de revistas mensais e secretário editorial. Bucci é graduado em Jornalismo e em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e é doutor em Ciências da Comunicação, também pela USP.
Fonte: O Estado de S.Paulo, 27/11/2014.
Imagem da Internet

Conheça a igreja na Bélgica que se torna transparente (conforme a perspetiva)


 A Igreja Reading Between the Lines localiza-se na província belga de Limburg.
準建築人手札網站 Forgemind ArchiMedia

Uma capela tradicional ou projeto de arte contemporânea? Ilusão óptica ou verdadeiramente transparente? Conheça a igreja na Bélgica que muda de acordo com a perspetiva.
Imagine uma igreja feita de folhas de aço com espaços vazios entre os mesmos. O sol, quando atinge o chão, forma uma espécie de tabuleiro de xadrez. Do lado de fora, é possível ver quem está dentro. Agora dê três passos à direita e volte a olhar para a igreja. Nesta altura pode ver uma pequena capela tradicional e monocromática, de arquitetura modesta e paredes sólidas, como qualquer outra no interior da Bélgica.

Esta é a melhor descrição que se pode fazer da Igreja Reading Between the Lines, localizada na província belga de Limburg. O projeto foi concebido pelos arquitetos holandeses Pieterjan Gijs e Arnout Van Vaerenbergh em 2011, em parceria com o museu Z33.

A obra foi construída sob uma fundação de betão, a partir de onde 100 folhas de aço se empilham para criar o efeito de paredes transparentes. Cada folha é separada das outras por mais de 2.000 colunas de aço, com um peso total de 30 toneladas, explica a Slate. Esta separação permite que a igreja pareça transparente conforme o ângulo de que é olhada.

Segundo Gijs e Van Vaerenbergh, a Igreja Reading Between the Lines é uma provocação não apenas à permanência das obras arquitetónicas, mas também à igreja como espaço de reflexão: os seus visitantes são acolhidos como em qualquer outra igreja, mas também estão expostos ao mundo exterior. Os arquitetos definem o trabalho como “uma intervenção que inteage com o seu ambiente” e como “uma investigação sobre os fundamentos da construção em si mesma e o seu impacto sobre o mundo”.

Apesar de não realizar cultos, a igreja é acessível apenas a pé ou de bicicleta e os seus visitantes são convidados a entrar e rezar. Fique a conhecê-la – através dos registos de um fotógrafo japonês da Forgemind ArchiMedia.
----------------
Fonte:  Observador, 02/12/2014

O ESPÍRITO DO NATAL

Card. Jorge Mario Bergoglio*
 
Numa tira de banda desenhada publicada recentemente, uma criança contava a uma amiga que, para este Natal, tinha pedido aos seus pais que não lhe oferecessem presentes, mas antes "espírito natalício", e que eles tinham ficado desconcertados, sem entender nem saber o que fazer. A mensagem pareceu-me muito acutilante, e certamente coloca-nos a pergunta: o que é o espírito natalício?

Dá a impressão de que para responder haveria que fazer uma corrida de obstáculos através de muitos impedimentos, entre outros os que nos impõe o acelerado consumismo de fim de ano. Todavia, a pergunta aí está. Ao longo dos tempos, a arte procurou expressá-lo de mil maneiras e conseguiu acercar-nos bastante do significado desse espírito natalício. Quantos contos de Natal nos oferecem histórias que nos aproximam dele! As belíssimas narrativas de Andersen. Tillich, Lenz, Böll, Dickens, Gorki, Hamsun, Hesse, Mann e tantos outros conseguiram abrir horizontes de significação que nos fazem entrar por este caminho de compreensão do mistério; contudo, não são suficientes.
E, no entanto, é precisamente uma narrativa, uma narrativa histórica, que nos abre as portas ao real significado do "espírito natalício". Uma narrativa simples e precisa. Diz assim: «Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra.Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lucas 2,1-7).

Trata-se de uma narrativa histórica, simples e com marcarda referência ao caminho percorrido pelo povo de Israel. Quando Deus escolheu o seu povo e começou a caminhar com ele, fez-lhe uma promessa; não lhe vendeu ilusões, mas, nos seus corações, semeou a esperança; essa esperança nele, Deus que se mantém fiel pois não pode desdizer-se a si mesmo; deu-lhes essa esperança que não defrauda. Baseados na narração acima transcrita, os cristãos estão convictos de que essa esperança se consolidou. Consolida-se e lança-nos para diante, para o momento do reencontro definitivo. Assim se manifesta o "espírito natalício": promessa que gera esperança, se consolida em Jesus e se projeta, também na esperança, até à segunda vinda do Senhor.

A narrativa citada continua, contando a cena dos pastores, a aparição dos anjos e o cântico que é mensagem para todos: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens por Ele amados». A esperança consolidada não só aponta para o futuro, como também extravasa o mesmo presente e expressa-se em desejos de paz e fraternidade universal, que, para se converterem em realidade, hão de se enraízar em cada coração.

De cada vez que leio a narrativa e contemplo a cena, penetrando neste espírito de esperança e de paz, penso em todos os homens e mulheres crentes e não crentes, que percorrem o caminho da vida e semeiam muitas procuras na esperança ou na desesperança, e brota em mim o desejo de me aproximar, de desejar paz, muita paz, e também de a receber. Desejar e receber essa paz que definitivamente possibilita que, no meio de tantas neblinas e noites, possamos reconhecer-nos e reencontrar-nos como irmãos, reconhecermos no nosso rosto que nos dá o reflexo de sermos criados à imagem de Deus. Será isto parte do espírito natalício que aquela criança da banda desenhada pedia aos seus pais?
 ---------------------
*Card. Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)
In "La Nacion", 23.12.2011
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 01.12.2014
Fonte:  http://www.snpcultura.org/

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

McMissa: projeto quer abrir filiais do McDonald's dentro de igrejas


Campanha de financiamento coletivo quer levantar US$ 1 milhão para oferecer hambúrgueres aos fiéis


RIO — A redução no número de frequentadores em igrejas é uma realidade nos EUA, e, para tentar atrair mais público, uma campanha de financiamento coletivo pretende atrair mais fiéis oferecendo hambúrgueres com fritas. O projeto McMissa (McMass, em inglês) quer levantar US$ 1 milhão em contribuições pelo site Indiegogo para bancar a abertura de uma filial do McDonald's em uma igreja.

“Combinando uma igreja com o McDonald's nós podemos criar uma igreja popular, autossustentável e engajada com a comunidade”, diz o texto de apresentação do projeto, liderado por Paul Di Lucca, que trabalha na agência Lux Dei, especializada em criação de marcas para igrejas.

Segundo o projeto, apenas nos EUA, cerca de 3 milhões de pessoas deixam de frequentar igrejas por ano, e, em 2013, 10 mil paróquias fecharam as portas naquele país. Por outro lado, o McDonald's serve 70 milhões de refeições todos os dias, atraindo 9 milhões de famílias aos restaurantes da rede.
— O cristianismo é incapaz de capturar públicos modernos — disse Di Lucca, à emissora NBC. — Existe uma falta de inovação e ‘design thinking’ nas comunidades paroquiais.

Segundo Di Lucca, as igrejas são pontos ideais para a abertura de novas filiais da marca, já que elas precisam de uma fonte de renda para se sustentarem, precisam de público e possuem linda arquitetura e boa localização.

“Esses atributos são desperdiçados sem um público”, afirma Di Lucca. “Nós precisamos resolver esse problema rapidamente ou as comunidades paroquiais como conhecemos vão deixar de existir. É hora de as igrejas se unirem ao empreendedorismo”.

Até o momento, a campanha prevista para ser encerrada em 16 de janeiro de 2015 arrecadou meros US$ 192. Em troca das contribuições, o projeto oferece brindes que vão desde um “Amém” — para doações de US$ 1 — à colocação de um tijolo com o nome do doador em uma parede da primeira filiam da McMissa — doações acima de US$ 1 mil. A igreja escolhida para receber a filial do McDonald’s só será escolhida caso a campanha seja bem-sucedida.
----------------------- 
Fonte: Jornal o Globo online, 01/12/2014