sábado, 3 de janeiro de 2015

A PUBLICIZAÇÃO DA INTIMIDADE

TATIANA BLOCHTEIN*

A intimidade é ingrediente fundamental para qualquer relacionamento afetivo. É base da amizade e do amor. Na relação de duas pessoas, envolve o olhar, o toque, a expressão de sentimentos. É aceitar a solidão e o silêncio do outro, ler seus olhos, lábios e mãos. Envolve afinidade e empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro.

E a publicização? Nas relações virtuais na hipermodernidade que caracterizam o contexto da internet, a publicização oferece a intimidade, através de dados reais ou falsos. Acrescenta uma nova dimensão aos prazeres, através da velocidade, liquidez, imediatismo e anonimato. Houve um afrouxamento na expressão das relações pessoais, no campo social e amoroso.

A satisfação rápida do desejo tornou-se uma imposição! O ter sobrepõe-se ao ser, o que provoca ilusões que podem vir a ser patologizantes. Quando lidamos com o outro na rede, e não ao vivo e a cores, imaginamos subjetivamente este outro, que elegemos como um objeto de desejo. Mas, se não há presença, não podemos falar em amor real.

Até onde vão os benefícios e os malefícios desta ferramenta hipermoderna?

Muitas vezes, a solidão prevalece no contato virtual, e são evitados encontros reais. No filme O Divã, do livro homônimo de Martha Medeiros, há uma cena em que a personagem se apaixona por um homem através de um chat. Porém, quando ela pede que ele abra a webcam, aparece um cartaz com as palavras: “Você é tudo o que eu sonhei! Pena que os sonhos não sejam reais”.

Assim, a pessoa cria um mundo irreal, que, muitas vezes, substitui as relações reais. O uso do virtual, que utiliza a publicização da intimidade na rede, pode ser perigoso. O preço disso é, muitas vezes, altíssimo, já que, quando o real é mostrado, o virtual desaparece completamente.

A internet é uma ferramenta fantástica, que traz até nós informações e notícias sobre atualidades, cultura, cinema, música... pesquisas sobre os mais diversos temas. Permite-nos manter contato a distância via Facebook e Skype, com pessoas com as quais temos intimidade, afinidade, respeito e amor.
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*Psicóloga, membro da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)
Fonte: ZH online, 03/01/2014
Imagem da Internet

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Como é a nova cadeira do físico britânico Stephen Hawking

Depois de três anos de trabalho, engenheiros da Intel criaram a nova cadeira de rodas conectada 

com a qual Hawking poderá comunicar seu gênio. / INTEL

Um sistema desenvolvido pela Intel permite ao cientista transmitir seus pensamentos mais rápido e realizar tarefas cotidianas em um décimo do tempo

Os pesquisadores de patologias motoras terão livre acesso à plataforma


Se não fosse a tecnologia, as ideias do cientista mais brilhante da atualidade teriam ficado encerradas em sua cabeça. Acometido de uma doença que o deixou praticamente paralisado, o físico Stephen Hawking poderá, a partir de hoje, comunicar seus pensamentos e realizar tarefas cotidianas muito mais rápido graças à nova cadeira que a Intel desenvolveu para ele. O protótipo servirá de base para uma plataforma aberta a todos os que pesquisam meios de melhorar a vida dos portadores de tetraplegias e patologias motoras de origem neurológica.

Hawking estreou sua nova cadeira em um ato celebrado na manhã de terça-feira em Londres. O físico britânico, que sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA) desde os tempos de faculdade, poderá agora transmitir seus pensamentos com maior rapidez e realizar algo tão simples e essencial para ele como navegar na Internet em um décimo do tempo que levava na cadeira anterior.

Tanto o equipamento velho, que Hawking usou nas últimas duas décadas para se movimentar e se comunicar, como o novo são obra de engenheiros da Intel. Mas em questões de tecnologia, o tempo, esse fenômeno que tanto interessou ao genial físico, passa depressa demais e sua cadeira de sempre ficou antiquada e incapaz de aproveitar todos os avanços alcançados nos últimos anos.
A medicina não foi capaz de me curar, por isso dependo da tecnologia para poder me comunicar e viver”, diz Stephen Hawking
Com a nova cadeira, por exemplo, o sensor que atualmente tem na bochecha é detectado por um computador infravermelho montado em seus óculos, o que permite a ele selecionar caracteres em seu computador. A integração da tecnologia de software linguístico da companhia britânica SwiftKey, um aplicativo de texto inteligente, melhorou a capacidade do sistema para aprender com o professor, predizendo seus próximos caracteres e palavras.

Durante dois anos, engenheiros do Swiftkey trabalharam em um modelo de linguagem personalizada para Hawking. Em essência o sistema é similar ao do aplicativo para celulares. Aprende com o que já foi escrito em e-mails, mensagens ou posts em redes sociais para completar as palavras. No caso do físico britânico, a aprendizagem foi feita incluindo textos que o físico não publicou.

Segundo uma nota da Intel, com esse sistema, Hawking precisa escrever menos de 20% do total de caracteres comunicados. Até agora, por exemplo, para realizar uma busca na internet, o professor Hawking precisava seguir processos árduos, como fechar sua janela de comunicação, mover o cursor para abrir o navegador, movê-lo de novo à barra de busca e, por último, escrever os termos da busca. O novo sistema automatiza todos esses passos.

“A medicina não foi capaz de me curar, por isso dependo da tecnologia para poder me comunicar e para viver”, dizia o professor Hawking em Londres já instalado em sua nova cadeira.

Hawking e a responsável pelo projeto da cadeira ACAT. Intel

A plataforma foi batizada pela Intel como ACAT (sigla em inglês de Ferramentas Auxiliares Conscientes do Contexto). O projeto foi desenvolvido em três anos por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Intel Labs, com a cooperação do próprio Hawking.

“Durante décadas, o professor Hawking se valeu da tecnologia para poder comunicar-se com o mundo. Entretanto, para estabelecer uma analogia, seu antigo sistema era como tentar utilizar aplicativos e sites modernos sem teclado nem mouse”, diz Wen-Hann Wang, vice-presidente da Intel e diretor executivo da Intel Labs. “Juntos, criamos uma experiência de comunicação superior em todos os níveis, que contribui para manter o professor independente em sua vida diária e que pode chegar a aumentar a independência de outros portadores”, acrescentou.

Plataforma aberta a todos

O físico britânico é o primeiro a contar com o ACAT, mas a intenção da Intel é que a plataforma seja aberta em janeiro a todos os pesquisadores e tecnólogos que trabalham no campo da deficiência.

Mais de 3 milhões de pessoas em todo o planeta sofrem de lesões e doenças motoras de origem neurológica. Estas patologias afetam as atividades musculares voluntárias, como as capacidades de falar, andar, deglutir e realizar todo tipo de movimentos corporais.

Os engenheiros trabalharam três anos na nova cadeira de rodas

A partir do ano que vem, o software ACAT estará disponível para que os pesquisadores possam criar soluções personalizadas para interações e comunicação mediante o tato, piscadas, movimentos de sobrancelhas e outros gestos.

Embora a deficiência nem sempre tenha estado na lista de prioridades de muitas empresas de tecnologia, durante a apresentação do novo equipamento, a principal responsável pelo projeto do ACAT na Intel Labs, Lamba Nachman, recordou que “o âmbito das tecnologias para deficientes é, com frequência, um campo de testes para as tecnologias do futuro”.
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Reportagem por Miguel Ángel Criado
Fonte: El Pais, acesso 02/01/2015

A poesia das carícias

Luciana Barbosa expõe as relações entre mística, poesia e erotismo em Teresa de Ávila, a quem descreve como mulher apaixonada, ardentemente enamorada de Deus

Mística e poesia possuem uma proximidade inegável. Ambas tratam de um tipo de mistério, buscam o inefável e o Absoluto ou, nas palavras da pesquisadora Luciana Ignachiti Barbosa, expressam “o que está mais recôndito nos sentimentos e pensamentos do homem”, atravessando de mãos dadas os limites da lógica e da razão. Neste sentido, ainda que não se considere apropriadamente uma escritora, a poesia é ponto chave na obra de Teresa de Ávila. 

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, Barbosa, que estuda a poética na obra da santa católica, afirma que é possível distinguir dois tipos de inspiração em sua obra: a de dimensão humana — da ordem da alegria, da festa, da paródia — e a de dimensão divina. Nesta última, Teresa narra suas situações de profundo encontro de amor com Deus, vivenciado em êxtases sublimes, e “narra em suas poesias a experiência de transformar essa realidade humana em divina e a divina que deseja estar mais próxima da humana”.

Os êxtases de Teresa são famosos em sua biografia, evocando imagens que beiram o erotismo — como na escultura de Bernini, em que a Santa é representada de modo provocativo, ao ser transpassada pela flecha de fogo de um anjo. Estas experiências inspiravam seus escritos que, por vezes, foram tidos como obra do demônio, e não de Deus, especialmente na era da Inquisição. É a mística das carícias, onde o derradeiro matrimônio espiritual é feito com Deus.

Mesmo hoje, o sacral e o sexual, o religioso e o afetivo parecem excluir-se mutuamente. “Teresa nunca teve vergonha de dizer o seu amor com expressões humanas, pois já afirmara mais de uma vez que ‘um só é o amor’”, relata a estudiosa. Teresa não recusa seu corpo nem seus prazeres corporais. Ao contrário, os assume ao Senhor. “Que goze o corpo, pois obedece o que quer a alma.”

Luciana Ignachiti Barbosa possui graduação em Psicologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, com especialização e mestrado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente é doutoranda em Ciência da Religião na mesma universidade, onde trabalha a poesia das palavras de Santa Teresa de Ávila sob orientação de Faustino Teixeira. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os nexos fundamentais entre a fusão de mística e poesia em Teresa de Ávila ?
Luciana Barbosa - É importante salientar que sentimentos místicos e sentimentos poéticos têm muito em comum, pois a poesia vai expressar um tipo de mistério, o oculto que está para além dos olhos e da mente, ela vai expressar o que está mais recôndito nos sentimentos e pensamentos do homem, atravessa esse umbral entre a lógica e a razão que a mística também transpõe. Diz Martin del Blanco  no livro Teresa de Jesus. Escritora y poetisa (Burgos: Monte Carmelo, 2001): “Assim o confirma a vida e a história de tantos místicos que têm compartilhado suas celebrações interiores profundas com Deus através de belos versos e de poemas íntimos”.

É digno de se notar que quase todos os poetas de primeira linha da língua castelhana foram místicos conhecidos, o que mostra a intrínseca relação entre poesia e mística, são os elementos humanos e divinos que vêm sempre unidos no poeta e no místico. Dessa forma o poeta embeleza o que vulgarmente poderia estar escondido, obscuro, impossível de ser atrativo, e que aos seus olhos toca o sentimento. E sobre esse comungar de poetas e místicos continua del Blanco: “O poeta faz, de alguma maneira, a experiência mística do que vive, sente e gosta, para poder logo comunicá-la em poesia. E o místico tem vivenciado a realidade que está interiorizada e pode comunicar essa vivência mística de forma mais poética”.

Podem-se distinguir dois tipos de inspiração poética em Teresa, a inspiração da dimensão humana e outra de dimensão divina. Na dimensão humana ela compunha poesias para colocar alegria e festa na vida monótona dos mosteiros, nas rigorosas disciplinas que ali havia. Teresa sempre trazia um toque de humor, compunha paródias para dar mais leveza às rigorosas tradições monásticas. No âmbito da dimensão divina, ela vai narrar as situações de profundo encontro de amor com Deus, de vivenciar esse amor, esses êxtases sublimes, e narra em suas poesias a experiência de transformar essa realidade humana em divina e a divina que deseja estar mais próxima da humana.

A monja, no entanto, não se considera poeta. No Livro da Vida vai deixar claro que, apesar de fazer versos muito sentidos, isso não a transforma em uma escritora. Diz–nos: “Sei de uma pessoa que, sem ser poeta, lhe acontecia improvisar estrofes muito expressivas, declarando seu penar. Não as fazia com o intelecto, mas para mais regozijar-se da glória que tão saborosa pena lhe causava”. Mesmo ela não se considerando poeta, ela de fato o é. O estado místico pode avivar ou apontar certo numen  poético, porém ele não pode criá-lo. 

IHU On-Line – Como a Mística das carícias se mescla com a poesia na obra dessa santa?
Luciana Barbosa - A respeito da Mística das Carícias, Faustino Teixeira  vai dizer em seu texto Mística: Experiência que integra Anima e Animus  que “assim como João da Cruz, Teresa é uma ‘mística das carícias’, da proximidade amorosa e do envolvimento corporal”. Ela chamará esse envolvimento de “atividades íntimas” e, em suas poesias, ela se apresentará irrompendo em palavras de ternura, exclamações impossíveis de reprimir “oh! Vida de minha vida!” ou “Oh! Sustento que me sustentas!”.

Em seu livro Castelo interior ou moradas (São Paulo: Paulus, 1997), Teresa fez a distinção de sete moradas neste Castelo que é a alma. Descreve fatos e acontecimentos pertencentes a cada uma das travessias. Conclui expondo a sétima morada, onde, efetivamente, acontece o matrimônio espiritual da alma com Deus. O matrimônio espiritual é diferente da união, visto que essa já acontecia nas outras moradas da alma. Tal matrimônio só pode acontecer na última morada, na mais íntima sala da alma, pois é lá que está o Divino Rei, Deus, na metáfora de Teresa, como um diamante que só irradia luz e amor. E a graça maior aqui será o desejo de Deus de desposar tão pequenina alma, de mostrar o seu amor a ela; Deus “(...) A tal ponto quis se unir com uma criatura, que não quer mais apartar-se dela”. Desse modo, a paz que esse amor irradia é tanta que, uma vez que a alma entra nessa morada, ela não mais o perde.

Amor

Em suas Meditações sobre os Cantares (Carmelo do Coração Imaculado de Maria, 1970), Teresa trata de forma mais profunda o que entende como amor. Baseia-se em trechos do Cântico dos Cânticos, e os aprofunda em seu entendimento. Assim, dirá referindo-se à passagem: “Beije-me com o beijo de sua boca” que essa é uma graça tão grande, que a alma mal pode suportar estar assim tão próxima de seu Senhor. Tendo a certeza de que ele a ama.

Nesse desposório espiritual a vontade só pode querer o amor. E não é qualquer amor, ou melhor dizendo, não se trata de amar quanto baste. Na verdade, trata-se de amar a mais do que sobra, como diz padre Antônio Vieira  em seus Sermões: “Porque o amor acredita-se no supérfluo: quem ama pouco contenta-se com o que basta, quem ama muito contenta-se com o que sobeja, e quem ama mais que muito, nem com o que basta, nem com o que sobeja se contenta: ainda sobe mais acima, ainda passa mais adiante”.

E foi nisso que Teresa mais se esforçou: passar adiante, amar mais que o possível, vivificar em extremo toda graça que recebia do encontro com Deus. Recitando junto com a esposa do Cantares, desabafa: “Enquanto escrevo isso, Rei meu, não estou fora dessa santa loucura celestial que me fazeis favor por vossa bondade e misericórdia, tão desprovida de méritos como sou. Permita agora, eu vos suplico, que fiquem loucos de vosso amor todos aqueles com os quais eu tratar, ou concedei que doravante com ninguém mais trate”.

IHU On-Line – Qual o lugar do erotismo em seus escritos? 
Luciana Barbosa - Ernesto Cardenal  poetisa sobre o erotismo: “Disseram a Gioconda Belli , naquele bar, que ela poderia entreter-me com erotismo, e diziam que poderia entreter-me bastante. Eu me calei. Hoje pensei que há um erotismo sem os sentidos, para muito poucos, nele eu sou especialista”. O Erotismo da fala dos místicos sempre foi algo a deixar sem jeito muitos teólogos e estudiosos. Dessa forma, ao que parece, continua a grande dificuldade de se juntar religiosidade a expressões de amor físico. Otger Steggink  afirma que: “Em nossa cultura Ocidental, o sacral e o sexual, o religioso e o afetivo parecem excluir-se mutuamente. Este mito ocidental está na relação estreita com a concepção do sagrado como separado, e do religioso como puramente espiritual, incorpóreo. Vários autores consideram a persistência deste mito e a incompatibilidade do sagrado e do sexual, e entre o religioso e o corpóreo, em nossa cultura ocidental, como uma crise de fundo”.

Teresa nunca teve vergonha de dizer o seu amor com expressões humanas, pois já afirmara mais de uma vez que “um só é o amor”; daí que melindres não eram condizentes com a força com que esse amor era expresso. Teresa não recusa seu corpo nem seus prazeres corporais. Da mesma forma que não recusa suas dores, com real objetividade já havia escrito às suas filhas: “não somos anjos, mas temos um corpo”. Afinal tudo é de Deus e, se o corpo pode passar por tais momentos de prazer, só o faz porque Deus o permite: “E quer o Senhor algumas vezes, como digo, que goze o corpo, pois obedece o que quer a alma”. 

Assim, o que alguns críticos de Teresa podem não ter observado é que, para ela, o que o corpo podia expressar com seus arroubos, mesmo com o simbolismo erótico que era característico, era mais uma expressão do amor de Deus, não a principal, nem a mais importante. Dessa forma, o corpo de Teresa se torna palco, palco de uma união mística. Os que estavam ao seu redor poderiam presenciar os efeitos de tal encontro: o corpo inerte como que morto, a exaustão física semelhante a que procede da explosão orgástica, as faculdades em desarmonia, o intelecto com dificuldade de agir, os suspiros, as lágrimas... tudo representado no corpo, mas quem esteve em núpcias verdadeiramente fora a alma. O gozo aqui se representa no corpo, não nasce dele. Pretender restringir uma experiência mística gozosa a um estado de pura excitação física, que tem seu desaguar em uma expressão religiosa, é reduzir a um estado mínimo o seu significado. 

IHU On-Line – Como os limites da linguagem se apresentam e abrem espaço para outras expressões do inefável na mística de Teresa?
Luciana Barbosa - Teresa de Jesus vai se utilizar de símbolos para ultrapassar os limites que a linguagem apresenta às expressões místicas. Estes unirão a imagem à realidade significada. Há no símbolo uma presença daquilo que se quer significar, que nos remete a um sentido oculto. Em sua narrativa ela pretende, através de aproximações, comparações, alegorias, poder introduzir o leitor no que ela vivencia profundamente em sua experiência de comunhão com o Amado. Enquanto as comparações e alegorias são expressões do entendimento racional, o símbolo será o melhor representante possível para descrever uma realidade que não se pode exprimir.

Desta forma o símbolo representará uma realidade para além daquela material e imediata (como os usados por Teresa: castelo, sol, água, ouro, etc.). Ela insiste em dizer que tais símbolos são apenas comparações e não correspondem perfeitamente à realidade simbolizada, porém não possui outra linguagem que seja mais apropriada. Diz-nos Mircea Eliade  a respeito dos símbolos: “um símbolo revela sempre, qualquer que seja o contexto, a unidade fundamental de diversas regiões do real, pois a imagem como tal — enquanto feixe de significação — que é verdadeira, e não apenas uma de suas significações, ou um de seus planos de referência”.

Teresa escrevia frequentemente em estado de oração ou êxtase, profundamente inspirada, dizia que as palavras lhe eram ditadas pelo Senhor, que a fazia escrever com mais facilidade e clareza. Será então neste estado psicológico que surge o símbolo, não é ela quem os cria, mas sim o Senhor no centro de sua alma. Sendo assim, a exatidão do que ela escreve não é mais determinada pelo entendimento, mas sim pelas experiências das realidades interiores da alma.

O leitor mergulha nesse texto de forma a comungar com a sua realidade interior. Por isso a poesia serve tão bem a Teresa, para que as palavras fluam para além do intelecto daquele que a lê e tire dele o que de experiência ele possa trazer, experiência de suas vivências interiores da alma. É como uma adesão íntima e irresistível a um todo aparentemente incompreensível, mas que o poeta místico tenta, com fervor, transmitir.

Os poetas acreditam e se valem de metáforas, pois compreendem que a linguagem é uma coisa viva, que precisa de tempo para revelar-se, que precisa do esforço do leitor para fazer germinar o sentido. Teresa retira suas metáforas do mundo natural, dos nossos sentidos, das estruturas sociais às quais estava sujeita, e liga-as a realidades psicológicas e espirituais de uma forma tal que consigamos trilhar com ela o caminho.

IHU On-Line – Como as obras de Teresa foram recebidas a partir dessa mescla de mística, poesia e erotismo? 
Luciana Barbosa - Desde o começo, quando começa a escrever suas formas de experiência mística, seus textos são recebidos com ceticismo e alto grau de desconfiança. Teresa os mostra primeiro ao amigo Francisco de Salcedo , que os apresenta ao frei Gaspar Daza . Os dois ao analisarem os textos chegam à conclusão de que suas experiências não são de Deus, mas sim do demônio, o que aumenta os já angustiosos questionamentos de Teresa a respeito de sua vivência mística; diz-nos a respeito deste parecer: “causou-me isso tanto temor e pesar, que não sabia o que fazer de mim: tudo era chorar”. Mais tarde um outro confessor, Diogo de Cetina , consegue aplacar um pouco essa angústia afirmando-lhe que essa experiência era divina e a incentivando a continuar escrevendo.

Como podemos ver então, seus escritos foram recebidos com grande desconfiança por parte do ambiente teologal, que, em uma época de fogueiras e inquisições, lia com olhos de censura qualquer exclamação de encontro com o divino, em especial vindos de uma mulher... O próprio Livro da Vida foi recolhido pela Inquisição para um parecer, sendo absolvido mais tarde.

Mas o texto que talvez tenha deixado mais em desconforto seus confessores foi sua interpretação sobre "O Cântico dos Cânticos" escrito nos anos 60/70 do século XVI. Esse texto tem uma história bem acidentada. Seus confessores ordenaram-na que o lançasse ao fogo, o que Teresa faz em obediência, porém ele foi copiado várias vezes antes disso.

O motivo dessa história acidentada vem justamente do poder poético e simbólico de erotismo do Cântico dos Cânticos, acreditava-se que uma mulher não poderia ter entendido seu conteúdo místico. Mas Teresa entendeu muito bem essas núpcias, na verdade ela experienciava o que o texto transmitia, daí conseguir levar o leitor pelos caminhos da experiência contida nas palavras.

Assim, a trajetória de sua obra sempre foi marcada por fortes embates em relação a seus confessores, por mais de uma vez suas obras foram lançadas ao fogo, mas, pela intensa dedicação das monjas e outros confessores seus amigos, essas obras sempre puderam ser resgatadas, em cópias ou com a própria Teresa reescrevendo o texto. Um fato é que as poesias de Teresa não foram muito pesquisadas, depois do livro do padre Ángel Custódio Vega  de 1972, La Poesia de Santa Teresa, as pesquisas se mantiveram no mesmo patamar, até os estudos de Tomás Álvarez, editados no livro Estudos Teresianos, de 2000. 

IHU On-Line – Em que aspectos Teresa funde ideias de outros místicos, como São João da Cruz, ao mencionar o “rapto místico”? O que essa expressão quer dizer?
Luciana Barbosa - Para Teresa, “Rapto Místico” é o mesmo que “arroubamento ou êxtases” diz-nos: “(...) arroubamento, êxtases, ou rapto, tudo é um em meu parecer”. Seu conceito se deriva do texto paulino na Segunda Carta aos Coríntios 12,2-4, “Se a alma está ou não unida ao corpo, enquanto isso lhe acontece, não sei dizer. Pelo menos não posso jurar que esteja nele, nem tão pouco que está o corpo sem alma”.

O nascimento da amizade entre Teresa e João da Cruz foi um feliz encontro entre dois enamorados de Deus, há uma recíproca influência entre os dois amigos, que os fazem escrever poemas com o mesmo tipo de inspiração, como por exemplo o poema “Vivo sem Viver em Mim”, que eles escrevem quase que ao mesmo tempo, cada um em sua cela. 

Não se pode, também, não levar em consideração as diferenças psicológicas do homem e da mulher. A mística Teresa d’Ávila é diferente de João da Cruz, ela é ativa, propensa às atividades, é comunicativa, com relações sociais, ela é uma mística do diálogo, da comunicação. São João da Cruz é um místico mais contemplativo, essa sua natureza se reflete em seus poemas. O fato é que os dois são poetas. Ela uma poetisa que encontra coordenadas diferentes de João da Cruz, este quase sempre partindo do humano e do cósmico, e Teresa do social e do encontro.

IHU On-Line – Psicanaliticamente, como podem ser compreendidos os êxtases vividos por Teresa de Ávila, como aquele representado pela escultura de Bernini?
Luciana Barbosa - Uma leitura superficial da obra de Teresa de Jesus pode levar ao equívoco de se pensar que Teresa desejava que suas companheiras do Carmelo compartilhassem seus êxtases, ou que as incitava a isso. Nada mais errôneo para se dizer. Que ela era uma incitadora nata, disso não há dúvida. Contudo, em nenhum de seus escritos há alguma exortação para que suas irmãs carmelitas, a quem eram destinados seus livros, se esmerassem na busca de êxtases ou arroubos místicos. Pelo contrário, estava sempre a exortar sobre a humildade que se deve ter, e como essas graças de Deus não são o ponto principal de seu amor.

Teresa de Jesus é conhecida, muito, por suas experiências de êxtases, transes e levitações. Depois de ter uma de suas visões, narrada no “Livro da Vida”, imortalizada pelo escultor italiano Bernini , na qual um anjo traspassa seu coração com uma flecha de fogo, é que a curiosidade sobre seus estados especiais se acentuou, ainda mais quando uma santa é representada com tamanho deleite em sua imagem.
No entanto, quando se entra em contato com os textos de Teresa, reconhece-se quão vasta e profunda é sua visão de mundo e de religiosidade, que não se pode deixar de pensar que na verdade os arroubos místicos não deixavam de ser consequência, e não condição, do contato com Deus. 

Teresa de Jesus era uma grande mulher apaixonada, ardentemente enamorada de Deus e possuidora da força que essa relação a dotava. Por ser mulher, e se expressar como esposa, não passou despercebida em seu século aos olhos da Inquisição, e mais tarde aos olhos da psicanálise, que entendeu que Teresa afirmava viver com Deus o desejo e o amor que gostaria de viver com os homens.

Não se entrará aqui nas questões, desde há muito discutidas por psicanalistas, da possível patogenia do estado de Teresa. O que se torna oportuno observar é como uma sublimação amorosa pode estar presente e de que forma ela a representou no corpo. No Congresso Teresiano de 1982, o psicanalista Antoine Vergote  trouxe uma questão interessante a respeito da sublimação no amor. 

Sublimação, em termos psicanalíticos, é uma transformação dos instintos sexuais. Assim, a característica da sublimação é, mesmo sem explicitar o caráter sexual da ação, manter o seu prazer. Todavia, o que o autor defende é que Teresa pôde transformar esse prazer. Ela não recusa o prazer que esse corpo pode dar, nem o transforma em contemplação. Amor e humildade, obediência e resignação estão presentes tanto no corpo quanto na alma de Teresa. 

Ela mesma não dava tanta importância a esses momentos de arroubos. Narrava-os, mas o verdadeiro gozo não estava na narração, pois muitas vezes reclamava de ter que escrever tendo tantos trabalhos a fazer. Também não estava o prazer no momento do êxtase em si, o verdadeiro gozo estava na presença de Deus, que também era dada de outras formas. Diz-nos Vergote: “A Teresa, por exemplo, não lhe dá vergonha reconhecer os prazeres e dores corporais, mas não lhes dá mais importância que ao silêncio ou a rebelião dos sentimentos. Não é que privilegie as reverberações corporais do prazer de Deus, mas tão pouco as deprecia”. O corpo, para Teresa, se torna uma extensão de sua experiência mística; será nele que a demonstração do que é vivenciado com Deus pode se apresentar.

IHU On-Line – Em que sentido se pode dizer que a poesia e a mística de Teresa são universais e contemporâneas? 
Luciana Barbosa - A contemporaneidade da poesia mística se dá justamente no encontro do leitor de qualquer época com o texto, com as palavras apresentadas através da experiência. Teresa de Jesus realiza sua obra em diálogo. Primeiro um diálogo consigo mesma, pois seus escritos são recordações de suas vivências sociais, místicas e emocionais. Depois conversa com seus possíveis leitores, primeiro, seus censores e confessores, depois seus filhos e filhas do Carmelo. Sua proximidade com as pessoas faz com que seus escritos soem como se estivesse falando em família, de forma confidencial e próxima. Por isso eles são fonte de inspiração até os dias de hoje, a autora fala de seu coração para o coração do leitor. Conhecedora que era das dores e dificuldades humanas, foca seus esforços em apresentar um Deus de puro amor, que deseja o encontro com essa alma em sofrimento e a quer em si. 

Ao fazerem suas comunicações, os místicos não querem que nos reeditemos em suas experiências, mas sim provocar e suscitar a nossa, e, assim, acompanhá-los em suas expressões. Dessa forma, ao ler Teresa cria-se o carisma teresiano do leitor, o que em sua leitura o impacta, abrindo-o à sua palavra e a tornando sua. O carisma teresiano se pauta em que centremos nossa vida na relação interpessoal com Deus e com os outros. Para Teresa a base de toda a graça é a amizade. Deus ama a todos, mas nem todos correspondem a esse amor, por isso não se tornam amigos de Deus.

Assim a mística propõe entrar no segredo de Deus, na intimidade mais íntima. Perfurar a realidade, e a consequência disso é aceitar o amor com que esse Deus lhe brinda, desnudar-se, consentir em ser essa criatura amada, reconhecer esse amor ao próximo, e daí se esforçar por transmitir isso ao outro, pois em sua viagem mais profunda de encontro com Deus, o místico se encontra com o outro, e com o mundo não podendo se furtar mais de falar-lhe desse amor com a linguagem possível da experiência.

IHU On-Line – Qual o lugar dos escritos de Teresa na literatura histórica?
Luciana Barbosa - A importância histórica dos escritos de Teresa é tão relevante que faz o autor Dámaso Alonso  em seu livro “Poesia Espanhola” escrever: “O fato de que as duas grandes espiritualidades (Teresa e João da Cruz) se tenham dedicado a essa humilde tarefa de adaptação obrigaria a considerar o fenômeno espanhol de conversão da literatura profana a plano religioso com mais atenção do que até aqui se tem feito. Esperemos que alguém escreva uma história da literatura espanhola ao divino”.

As obras poéticas dos místicos e romancistas espanhóis dão o formato do que se chamou “A idade de Ouro da Poesia Espanhola”. Como foi dito acima, é digno de se notar que quase todos os poetas de primeira linha da língua castelhana foram místicos conhecidos. Para ilustrar a importância de seus escritos gostaria de trazer aqui alguns exemplos de falas de vários autores que se encontram no dicionário de Santa Teresa de Jesus, sob o vocábulo Algumas Avaliações Sobre o Estilo Literário Teresiano diz-nos: "Teresa é para os artistas, como é Cervantes, uma lição perpétua: mais lição, quanto ao estilo, do que Cervantes. Em Cervantes temos o estilo "feito" e em Teresa vemos como vai "se fazendo" (Azorín ); “Por uma única página de Santa Teresa podem dar-se infinitos célebres livros de nossa literatura e das admiráveis. Não há no mundo prosa nem verso que bastem para igualar, nem ainda de longe se comparem a qualquer dos capítulos da Vida” (Menéndez Pelayo ), e para finalizar o que nos diz Schack: “Por uma única página de (seus assombrosos escritos) daria eu com gosto todos os discursos pronunciados por nossos acadêmicos e parlamentares”.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Luciana Barbosa - Gostaria de finalizar com uma poesia de Teresa intitulada “Sobre aquelas palavras: Meu Amado é meu e eu sou dele”. Esta está contida no livro Obras Completas de Teresa de Jesus de Tomás Álvarez, edição em português. Acredito ser uma poesia que traduz muito do que foi dito acima sobre a vivência amorosa e mística de Teresa com Deus.

Sobre Aquelas Palavras: Meu Amado é meu e eu sou Dele

Entreguei-me toda, e assim
Os corações se hão trocado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.

Quando o doce Caçador
Me atingiu com sua seta,
Nos meigos braços do Amor
Minh'alma aninhou-se, quieta.
E a vida em outra, seleta,
Totalmente se há trocado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado

Era aquela seta eleita
Ervada em sucos de amor,
E minha alma ficou feita
Uma com seu Criador.
Já não quero eu outro amor,
Que a Deus me tenho entregado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado
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Reportagem Por: Márcia Junges e Andriolli Costa
Fonte: IHU online, dezembro/2014

Iván Granados, que organizou os livros do ganhador do Nobel em sua residência, recorda com prudência respeitosa o espaço íntimo do escritor

Iván Granados, na FIL de Guadalajara. / SAÚL RUIZ

O bibliotecário de García Márquez olha para uma árvore de Natal

“Ele me disse: Aqui está a biblioteca”, e Iván Granados passou a reorganizar os livros de Gabriel García Márquez em sua casa na Cidade do México. Começou em 2006, ou em 2007, não se lembra da data exata. Granados, de 42 anos, lamenta não recordar com mais precisão coisas que deveria se lembrar automaticamente. Quando fala de outros assuntos de seu período de bibliotecário pessoal do ganhador do Nobel, às vezes fica meio parado, interrompe sua explicação; sentado em um banco de bar, olha calado para a entrada de seu hotel em Guadalajara, e através de seus óculos grossos se vê os piscas elétricos de uma árvore de Natal.

“Organizar bibliotecas particulares é conviver com gostos profundos, caprichos, manias, partes da personalidade com as quais ninguém convive: os gostos raros, os culposos, inclusive os vazios estão em uma biblioteca”. Granados viajou para a FIL (Feira Internacional do Livro) de Guadalajara para participar da homenagem a García Márquez. Trabalhou em sua biblioteca até a morte do escritor, em abril, e continua indo de vez em quando organizá-la. “Mas agora já não sou o bibliotecário de García Márquez, porque morreu. Ou talvez, porque morreu, sou para sempre o bibliotecário de García Márquez”.

Ele conheceu o escritor quando era pequeno, na Cidade do México, porque sua mãe era amiga dele. Disse que era um senhor com “um carisma muito chamativo”. Recorda uma tarde dos anos 1980, muito antes de ser seu bibliotecário, em que chegou animado dizendo que a sonda Voyager havia passado perto de Netuno e que estava mandando os primeiros sinais do que estava encontrando. Naquela época, Granados, que não era um menino voltado para os livros, começou a ler seus contos. Gostou muito de O Verão Feliz da Senhora Forbes. Vivia no México, mas passou uma época longa na Colômbia. Quando voltou à Cidade do México nos anos 2000, já transformado em leitor de verdade e com estudos em Literatura, seus amigos-gênios colombianos continuavam lá. Um deles era Álvaro Mutis.

Um dia em 2005, pouco antes ou pouco depois, foi visitá-lo. Começaram a olhar a biblioteca e disse a Mutis que ele tinha livros demais encostados, colocados na horizontal sobre a fila vertical. Granados ainda não era bibliotecário, nem havia estudado para ser bibliotecário. Mutis respondeu que os livros encostados eram um pesadelo para ele, um homem tão detalhista que dizia não poder ficar em uma sala com um quadro torto sem se levantar para arrumar. Granados se comprometeu a ajudá-lo em dois finais de semana para colocar tudo em ordem, mas os dois logo se deram conta que isso não bastava. Arrumar a biblioteca de Mutis levou um ano. Algum tempo depois, um grande amigo de Mutis tomou conhecimento da capacidade de Granados para organizar livros, e disse aquele aqui está minha biblioteca.

Sem mais indicações, Iván Granados passou a trabalhar nos livros de Gabriel García Márquez, já octogenário. Era uma biblioteca grande, de um espaço único, luminoso, harmonioso, tranquilo. Nos primeiros anos, ia várias vezes por semana, de manhã. García Márquez já estava trabalhando, sentado em sua mesa diante do computador, lendo ou escrevendo.

–Bom dia, mestre – dizia.

García Márquez respondia quase sempre perguntado se ele havia lido tal coisa, ou se havia tomado conhecimento de tal notícia. García Márquez costumava usar macacão. Granados começava a trabalhar, e em duas, três ou quatro horas apenas trocavam algumas palavras. O bibliotecário diz que era “assustador” ver com que concentração e com que dedicação o escritor trabalhava, como se não houvesse nada ao redor. Ele se limitava a “não incomodar”.

Conta que a biblioteca estava organizada de acordo com temas “muito definidos”, que sempre foram uma linha contínua de interesse para García Márquez. Jornalismo, cinema, literatura… Seus amigos escritores tinham uma espaço de privilégio: por exemplo, Mutis e Cortázar. Depois estavam suas referências em outras línguas: Hemmingway, Faulkner, Kafka... E muitos dicionário. “Todos que alguém sonharia ter ao longo de toda uma vida”, diz Granados.

Nesses momentos em que para suas explicações e olha para a árvore de Natal, não se sabe se ele já disse o que queria dizer, se não se lembra bem de alguma coisa, ou se calibra com parcimônia para não tocar em nada íntimo. O pouco que diz sobre o interior da biblioteca de García Márquez é que não guardava grandes segredos. “É um autor mais íntimo do que misterioso”, diz. “Ele sempre revelou suas influências e suas leituras”.

– E o que tinha em cima da mesa de trabalho?

– Nada.

– Nada?

– Não. Não tinha nada. Embora ele sempre tenha dito que a única coisa que precisava para escrever era ter uma rosa amarela em sua mesa. Era uma resposta simples para os curiosos.
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Repotagem por  Pablo de Llano Guadalajara (México) 1 DIC 2014 - 09:42 BRST
Fonte: El Pai.com 

Ler sempre!

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Do discurso de Patrick Modiano quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura, a 7 de dezembro de 2014, em Estocolmo:

«Sempre acreditei que o poeta e o romancista conferem mistério a seres humanos que parecem submersos pela vida quotidiana, às coisas aparentemente banais, e isso à força de os observar com uma atenção sustentada e de maneira quase hipnótica. Sob o seu olhar, a vida de todos os dias acaba por se envolver de mistério e por tomar uma espécie de fosforescência que não tinha à primeira vista mas que estava oculta em profundidade. O papel do poeta e do romancista, e também do pintor, é revelar o mistério e a fosforescência que se encontram em cada pessoa. 

Penso no meu longínquo primo, o pintor Amedeo Modigliani, cujas telas mais comoventes são aquelas em que ele escolheu para modelos pessoas anónimas, rapazes e raparigas das ruas, serventes, pequenos agricultores, jovens aprendizes. Ele pintou-os com traços precisos que lembram a grande tradição toscana, de Botticelli e dos pintores de Siena do séc. XV. Desta maneira ele deu-lhes - ou melhor, revelou-lhes - toda a graça e a nobreza que existiam neles sob a sua humilde aparência. 

O trabalho do romancista deve ir neste sentido. A sua imaginação, longe de deformar a realidade, deve penetrá-la em profundidade e revelar esta realidade como ela é, com a força dos infravermelhos e ultravioletas para detetar o que se esconde por trás das aparências. E não estarei de longe de acreditar que, no melhor dos casos, o romancista é uma espécie de vidente, e mesmo de visionário. E também um sismógrafo, pronto a registar os movimentos mais impercetíveis.»
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Fonte:  www.snpcultura.org . Citado por  Silvia Guidi
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O Deus de duas faces

David Coimbra*
 
passeio o Réveillon em Paris. Não gostei. Fui para a Champs-Élysée ao bimbalhar da meia-noite, conduzido pelo meu amigo Fernando Eichenberg, o Dinho, para ver a clássica celebração de Ano-Novo dos parisienses. Pelas barbas de Catherine Deneuve, foi horrível! Os franceses levam champanhe nacional para a rua e, depois de beber tudo pelo gargalo, abrem grandes círculos humanos e começam a jogar as garrafas no meio. As garrafas se quebram, naturalmente, e os cacos de vidro afiados ficam espalhados pelo chão. Às vezes um francês bêbado atravessa o círculo, em desafio aos outros franceses bêbados, que atiram as garrafas enquanto ele passa. É um troço PERIGOSO!

Também já passei o Réveillon em vários pedaços das fímbrias do Atlântico, do Rio de Janeiro ao Uruguai, passando por Xangri-lá. Algumas festas foram gloriosas, outras nem tanto. Mas tem uma coisa que me incomoda no Réveillon do litoral: os foguetes. Não os fogos, que são bonitos; os foguetes. Não gosto de foguete. Não gosto, cara, não gosto. Os gatos ficam nervosos, os cachorros ficam nervosos, eu fico nervoso e todos temos razão. Para que aquela barulheira toda? Não consigo entender isso. Sinto-me tão inseguro com as explosões quanto com as garrafas quebradas nas calçadas de Paris.

Nos anos 80, tive um Réveillon singular. Morava em Criciúma, trabalhava no Diário Catarinense e estava duro, durango. Não tinha nenhum, mas nenhum mesmo, nem para comprar um único cachorro-quente sem molho. Brabeza. Namorava a Janinha, que hoje está casada com um grande cara, o Oderson. Com ele, ela tem uma linda filha e vivem, os três felizes, no Paraná.

Ocorre que, meses antes, eu havia feito uma aposta com o Nenê, dono de um bar que ainda vigora na cidade, o Varandas. Havíamos apostado um engradado de cervejas, e eu ganhei. Sentia vergonha de cobrar a aposta, mas a Janinha sempre foi despachada, sobretudo num momento de necessidade como aquele. Ela foi ao bar, lembrou a aposta, pediu o engradado e o Nenê, bom perdedor que é, deu. Para arrematar, ela disse que queria uma pizza e mandou o Nenê pendurar a conta num cabide ali atrás do balcão. Fomos para o meu apartamento, no décimo andar de um edifício a duas quadras de distância, e passamos a noite inteira comendo pizza, bebendo cerveja e rindo, até o alvorecer na região carbonífera. A cidade estava vazia, ninguém fica em Criciúma no Réveillon, tínhamos só pizza e cerveja e nenhum centavo. E foi muito divertido!

O que a gente precisa, para fazer uma boa festa, é gente de quem se gosta. As mais belas praias do mundo ou a avenida por onde desfilou Napoleão são dispensáveis.

Agora, vou passar o Réveillon com minha pequena e unida família, eu, minha mulher e meu filho, no extremo nordeste dos Estados Unidos, numa temperatura de sete graus abaixo de zero, e me sinto muito feliz. Poderia ter mais amigos por perto, poderia estar mais quente, poderia ter o chope brasileiro para brindar antes e depois da champanhe, mas você tem de se divertir com o que está à disposição, não é?

Esse é meio que um lema que me guia.

Uma data como o Réveillon presta-se para exercer esse lema, ou para refletir a respeito. Janeiro, não por acaso, é o mês de Jano, o deus de todos os finais e de todos os começos, o deus de duas faces, uma olhando para frente, outra olhando para trás.

Quando olho para trás, vejo dificuldades que enfrentei, sim, claro que as vejo, mas vejo, também, as pessoas que me ajudaram a enfrentá-las. São tantas e seu amor é tão poderoso… As pessoas. Como já disse, para se fazer da vida uma boa festa, só se precisa de pessoas de quem se gosta. Elas estão ao meu lado aqui, no Norte do mundo, e também aí, no Sul do Brasil. E eu estou com elas. É certo. Como puder, sempre estarei com elas. Olhando para frente, vejo-as comigo. Por isso, a outra face de Jano, a que mira 2015, observe, veja bem: ela está sorrindo.​
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* Cronista da ZH. Atualmente mora no EUA onde estuda inglês.
Fonte: ZH online, 31/12/2014
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

FELIZ ANO NOVO

Frei Betto* 



Paris
- Pour la première fois, la capitale a eu son spectacle sur les Champs-Élysées. Un feu d'artifice a été tiré depuis le haut de l'Arc de Triomphe, illuminant la plus belle avenue du monde, où s'étaient rassemblées des dizaines de milliers de personnes.
 

Um belo 2015 aos que colecionam utopias, fazem das mãos arado e, com o próprio suor, regam as sementes solidárias que cultivam

Feliz Ano Novo aos que acordam em 2015 sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha.

A quem não sonega afetos, arranca de si fontes onde borbulham transparências e não mira os que lhe são próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes.

Felizes os que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e do tédio; e, generosos, ousam a humildade.

Feliz Ano Novo a todos que despertam ao som de preces e agradecem o tido e não havido, maravilhados pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos.

Bom ano a quem gosta de feijão e se compraz nos grãos sobrados em prato alheio. A quem mira a vida como dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus.

Novo seja o ano daqueles que não tropeçam na própria língua, sonegam palavras ácidas, desaprendem a maledicência e semeiam fragrâncias nas veredas dos sentimentos. De quem se guarda no olhar recatado e não mergulha no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores.

Novo ano a quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, mundo e amor. Viver é graça para quem se dedica a acariciar rugas e trata suas limitações como cerca florida de choupana montanhesa. Tenham um feliz ano todos que sabem ser gordos e felizes, endividados e alegres, enfermos e otimistas, carentes de certezas mas repletos de vindouras fortunas em seus anseios.

Feliz ano aos órfãos de Deus e de alvíssaras, aos que se abrigam em armaduras de verdades irrefutáveis, aos cavaleiros do desassossego e às damas que recobrem, sob o pudor do corpo, a mais deslavada orgia espiritual. Felizes sejam os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vitórias inconsúteis que nada temem, exceto a expressão súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que os desprezam.

Felizes sejam também as mulheres que devotam amor e dor a quem merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro.

Seja novo o ano para os bêbados que jamais tropeçam em impertinências, aos alpinistas que despencam do próprio ego, e para quem se agasalha de ética e não conspira contra a vida alheia.

Feliz Ano Novo aos que colecionam utopias, fazem das mãos arado e, com o próprio suor, regam as sementes solidárias que cultivam.

Sejam muito felizes os velhos que não se disfarçam de jovens, e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a marca atemporal de quem se inebria de emoções férteis.

Muitas felicidades aos que trazem em si o afago do silêncio, sentem-se bem acompanhados quando estão sós e, à tarde, oferecem em suas varandas chocolate quente adocicado com sorrisos de sabedoria.

Aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a velhice com humor, a morte sem estranheza, e brincam com a criança que os habita.

Feliz Ano Novo aos sonâmbulos que trafegam nas veredas do futuro e sonham que a vida é um sonho tão real que dele não vale a pena despertar.

Um ano feliz a todos que professam a incredulidade nos ídolos de pés de barro, veneram bens invisíveis, e andam pelas madrugadas destronando o medo. A todos que creem no que não merece fé e têm fé nos lampejos da dúvida, nos desvãos da incerteza e no mistério que instaura, como presente, o Deus vivo cuja morte é reiteradamente proclamada por quem nele deságua.
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* Frade dominicano. Escritor.
Fonte: Jornal o Globo online, 01/01/2015
imagem da Internet http://www.lepoint.fr/

Antiautoajuda para 2015

Eliane Brum*

Eliane Brum

Em defesa do mal-estar para nos salvar de uma vida morta e de um planeta hostil. Chega de viver no modo avião


Não tenho certeza se esse ano vai acabar. Tenho uma convicção crescente de que os anos não acabam mais. Não há mais aquela zona de transição e a troca de calendário, assim como de agendas, é só mais uma convenção que, se é que um dia teve sentido, reencena-se agora apenas como gesto esvaziado. Menos a celebração de uma vida que se repactua, individual e coletivamente, mais como farsa. E talvez, pelo menos no Brasil, poderíamos já afirmar que 2013 começou em junho e não em janeiro, junto com as manifestações, e continua até hoje. Mas esse é um tema para outra coluna, ainda por ser escrita. O que me interessa aqui é que nossos rituais de fim e começo giram cada vez mais em falso, e não apenas porque há muito foram apropriados pelo mercado. Há algo maior, menos fácil de perceber, mas nem por isso menos dolorosamente presente. Algo que pressentimos, mas temos dificuldade de nomear. Algo que nos assusta, ou pelo menos assusta a muitos. E, por nos assustar, em vez de nos despertar, anestesia. Talvez para uma época de anos que, de tão acelerados, não terminam mais, o mais indicado seja não resoluções de ano-novo nem manuais sobre ser feliz ou bem sucedido, mas antiautoajuda.

Quando as pessoas dizem que se sentem mal, que é cada vez mais difícil levantar da cama pela manhã, que passam o dia com raiva ou com vontade de chorar, que sofrem com ansiedade e que à noite têm dificuldade para dormir, não me parece que essas pessoas estão doentes ou expressam qualquer tipo de anomalia. Ao contrário. Neste mundo, sentir-se mal pode ser um sinal claro de excelente saúde mental. Quem está feliz e saltitante como um carneiro de desenho animado é que talvez tenha sérios problemas. É com estes que deveria soar uma sirene e por estes que os psiquiatras maníacos por medicação deveriam se mobilizar, disparando não pílulas, mas joelhaços como os do Analista de Bagé, do tipo “acorda e se liga”. É preciso se desconectar totalmente da realidade para não ser afetado por esse mundo que ajudamos a criar e que nos violenta. Não acho que os felizes e saltitantes sejam mais reais do que o Papai Noel e todas as suas renas, mas, se existissem, seriam estes os alienados mentais do nosso tempo.

Olho ao redor e não todos, mas quase, usam algum tipo de medicamento psíquico. Para dormir, para acordar, para ficar menos ansioso, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser “produtivo”. “Para dar conta” é uma expressão usual. Mas será que temos de dar conta do que não é possível dar conta? Será que somos obrigados a nos submeter a uma vida que vaza e a uma lógica que nos coisifica porque nos deixamos coisificar? Será que não dar conta é justamente o que precisa ser escutado, é nossa porção ainda viva gritando que algo está muito errado no nosso cotidiano de zumbi? E que é preciso romper e não se adequar a um tempo cada vez mais acelerado e a uma vida não humana, pela qual nos arrastamos com nossos olhos mortos, consumindo pílulas de regulação do humor e engolindo diagnósticos de patologias cada vez mais mirabolantes? E consumindo e engolindo produtos e imagens, produtos e imagens, produtos e imagens?

Neste mundo, sentir-se mal é sinônimo de 
excelente saúde mental

A resposta não está dada. Se estivesse, não seria uma resposta, mas um dogma. Mas, se a resposta é uma construção de cada um, talvez nesse momento seja também uma construção coletiva, na medida em que parece ser um fenômeno de massa. Ou, para os que medem tudo pela inscrição na saúde, uma das marcas da nossa época, estaríamos diante de uma pandemia de mal-estar. Quero aqui defender o mal-estar. Não como se ele fosse um vírus, um alienígena, um algo que não deveria estar ali, e portanto tornar-se-ia imperativo silenciá-lo. Defendo o mal-estar – o seu, o meu, o nosso – como aquilo que desde as cavernas nos mantém vivos e fez do homo sapiens uma espécie altamente adaptada – ainda que destrutiva e, nos últimos séculos, também autodestrutiva. É o mal-estar que nos diz que algo está errado e é preciso se mover. Não como um gesto fácil, um preceito de autoajuda, mas como uma troca de posição, o que custa, demora e exige os nossos melhores esforços. Exige que, pela manhã, a gente não apenas acorde, mas desperte.

Anos atrás eu escreveria, como escrevi algumas vezes, que o mal-estar desta época, que me parece diferente do mal-estar de outras épocas históricas, se dá por várias razões relacionadas à modernidade e a suas criações concretas e simbólicas. Se dá inclusive por suas ilusões de potência e fantasias de superação de limites. Mas em especial pela nossa redução de pessoas a consumidores, pela subjugação de nossos corpos – e almas – ao mercado e pela danação de viver num tempo acelerado.

Sobre essa particularidade, a psicanalista Maria Rita Kehl escreveu um livro muito interessante, chamado O Tempo e o Cão (Boitempo), em que reflete de forma original sobre o que as depressões expressam sobre o nosso mundo também como sintoma social. Logo no início, ela conta a experiência pessoal de atropelar um cachorro na estrada – e a experiência aqui não é uma escolha aleatória de palavra. Kehl viu o cachorro, mas a velocidade em que estava a impedia de parar ou desviar completamente dele. Conseguiu apenas não matá-lo. Logo, o animal, cambaleando rumo ao acostamento, ficou para trás no espelho retrovisor. É isso o que acontece com as nossas experiências na velocidade ditada por essa época em que o tempo foi rebaixado a dinheiro – uma brutalidade que permitimos, reproduzimos e com a qual compactuamos sem perceber o quanto de morte há nessa conversão.

Defendo o mal-estar como aquilo que nos mantém 
vivos desde as cavernas

Sobre a aceleração, diz a psicanalista: “Mal nos damos conta dela, a banal velocidade da vida, até que algum mau encontro venha revelar a sua face mortífera. Mortífera não apenas contra a vida do corpo, em casos extremos, mas também contra a delicadeza inegociável da vida psíquica. (...) Seu esquecimento (do cão) se somaria ao apagamento de milhares de outras percepções instantâneas às quais nos limitamos a reagir rapidamente para em seguida, com igual rapidez, esquecê-las. (...) Do mau encontro, que poderia ter acabado com a vida daquele cão, resultou uma ligeira mancha escura no meu para-choque. (...) O acidente da estrada me fez refletir a respeito da relação entre as depressões e a experiência do tempo, que na contemporaneidade praticamente se resume à experiência da velocidade”. O que acontece com as manchas escuras, com o sangue deixado para trás, dentro e fora de nós? Não são elas que nos assombram nas noites em que ofegamos antes de engolir um comprimido? Como viver humanamente num tempo não humano? E como aceitamos ser submetidos à bestialidade de uma vida não viva?

Hoje me parece que algo novo se impõe, intimamente relacionado a tudo isso, mas que empresta uma concretude esmagadora e um sentido de urgência exponencial a todas as questões da existência. E, apenas nesse sentido, algo fascinante. A mudança climática, um fato ainda muito mais explícito na mente de cientistas e ambientalistas do que da sociedade em geral é esse algo. A evidência de que aquele que possivelmente seja o maior desafio de toda a história humana ainda não tenha se tornado a preocupação maior do que se chama de “cidadão comum” é não uma mostra de sua insignificância na vida cotidiana, mas uma prova de sua enormidade na vida cotidiana. É tão grande que nos tornamos cegos e surdos.

Como nos submetemos a viver num tempo acelerado
 e não humano?

Em uma entrevista recente, aqui publicada como “Diálogos sobre o fim do mundo”, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro evoca o pensador alemão Günther Anders (1902-1992) para explicar essa alienação. Anders afirmava que a arma nuclear era uma prova de que algo tinha acontecido com a humanidade no momento em que se mostrou incapaz de imaginar os efeitos daquilo que se tornou capaz de fazer. Reproduzo aqui esse trecho da entrevista: “É uma situação antiutópica. O que é um utopista? Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer, não conhece os meios nem sabe como. E nós estamos virando o contrário. Nós somos capazes tecnicamente de fazer coisas que não somos nem capazes de imaginar. A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensar a bomba atômica. O Günther Anders usa uma imagem interessante, a de que existe essa ideia em biologia da percepção de fenômenos subliminares, abaixo da linha de percepção. Tem aquela coisa que é tão baixinha, que você ouve mas não sabe que ouviu; você vê, mas não sabe que viu; como pequenas distinções de cores. São fenômenos literalmente subliminares, abaixo do limite da sua percepção. Nós, segundo ele, estamos criando uma outra coisa agora que não existia, o supraliminar. Ou seja, é tão grande, que você não consegue ver nem imaginar. A crise climática é uma dessas coisas. Como é que você vai imaginar um troço que depende de milhares de parâmetros, que é um transatlântico que está andando e tem uma massa inercial gigantesca? As pessoas ficam paralisadas, dá uma espécie de paralisia cognitiva”.

O fato de se alienar – ou, como fazem alguns, chamar aqueles que apontam para o óbvio de “ecochatos”, a piada ruim e agora também velha – nem impede a corrosão acelerada do planeta nem a corrosão acelerada da vida cotidiana e interna de cada um. O que quero dizer é que, como todos os nossos gritos existenciais, o fato de negá-los não impede que façam estragos dentro de nós. Acredito que o mal-estar atual – talvez um novo mal-estar da civilização – é hoje visceralmente ligado ao que acontece com o planeta. E que nenhuma investigação da alma humana desse momento histórico, em qualquer campo do conhecimento, possa prescindir de analisar o impacto da mudança climática em curso.

De certo modo, na acepção popular do termo “clima”, referindo-se ao estado de espírito de um grupo ou pessoa, há também uma “mudança climática”. Mesmo que a maioria não consiga nomear o mal-estar, desconfio que a fera sem nome abra seus olhos dentro de nós nas noites escuras, como o restante dos pesadelos que só temos quando acordados. Há esse bicho que ainda nos habita que pressente, mesmo que tenha medo de sentir no nível mais consciente e siga empurrando o que o apavora para dentro, num esforço quase comovente por ignorância e anestesia. E a maior prova, de novo, é a enormidade da negação, inclusive pelo doping por drogas compradas em farmácias e “autorizadas” pelo médico, a grande autoridade desse curioso momento em que o que é doença está invertido.

O novo mal-estar da civilização está hoje ligado 
à mudança climática

São Paulo é, no Brasil, a vitrine mais impressionante dessa monumental alienação. A maior cidade do país vem se tornando há anos, décadas, um cenário de distopia em que as pessoas evoluem lentamente entre carros e poluição, encurraladas e cada vez mais violentas nos mínimos atos do dia a dia. No último ano, a seca e a crise da água acentuaram e aceleraram a corrosão da vida, mas nem por isso a mudança climática e todas as questões socioambientais relacionadas a ela tiveram qualquer impacto ou a mínima relevância na eleição estadual e principalmente na eleição presidencial. Nada. A maioria, incluindo os governantes, sequer parece perceber que a catástrofe paulista, que atinge a capital e várias cidades do interior, é ligada também à devastação da Amazônia. O tal “mundo como o conhecemos” ruindo e os zumbis evolucionando por ruas incompatíveis com a vida sem qualquer espanto. Nem por isso, ouso acreditar, deixam sequer por um momento de ser roídos por dentro pela exterioridade de sua condição. A vida ainda resiste dentro de nós, mesmo na Zumbilândia. E é o mal-estar que acusa o que resta de humano em nossos corpos.

É de um cientista, Antonio Nobre, um texto fundamental. Ler “O futuro climático da Amazônia” não é uma opção. Faça um favor a si mesmo e reserve uma hora ou duas do seu dia, o tempo de um filme, entre na internet e leia as 40 páginas escritas numa linguagem acessível, que faz pontes com vários campos do conhecimento. Há trechos de grande beleza sobre a maior floresta tropical do planeta, território concreto e simbólico sobre o qual o senso comum, no Brasil alimentado pela propaganda da ditadura civil-militar, construiu uma ideia de exploração e de nacionalismos que só vigora até hoje por total desconhecimento. É também por ignorância nossa que o atual governo, reeleito para mais um mandato, comanda na Amazônia seu projeto megalômano de grandes hidrelétricas com escassa resistência. E causa, agora, neste momento, um desastre ambiental de proporções não mensuradas em vários rios amazônicos e o etnocídio dos povos indígenas da bacia do Xingu.

A Amazônia sobreviveu por 50 milhões de anos 
a meteoros e glaciações, mas em menos 
de 50 anos está ameaçada 
por ação humana

Antonio Nobre mostra como uma floresta com um papel – insubstituível – na regulação do clima do Brasil e do planeta teve, nos últimos 40 anos, 762.979 quilômetros quadrados desmatados: o equivalente a três estados de São Paulo ou duas Alemanhas. Ou o equivalente a mais de 12 mil campos de futebol desmatados por dia, mais de 500 por hora, quase nove por minuto. Somando-se a área de desmatamento corte raso com a área degradada, alcançamos a estimativa aterradora de que, até 2013, 47% da floresta amazônica pode ter sido impactada diretamente por atividade humana desestabilizadora do clima. “A floresta sobreviveu por mais de 50 milhões de anos a vulcanismos, glaciações, meteoros, deriva do continente”, escreve Nobre. “Mas em menos de 50 anos está ameaçada pela ação de humanos.” A Amazônia dá forma ao momento da História em que a humanidade deixa de temer a catástrofe para se tornar a catástrofe.

Como é possível que isso aconteça bem aqui, agora, e tão poucos se importem? Se não despertarmos do nosso torpor assustado, nossos filhos e netos poderão viver e morrer não com a Amazônia transformada em savana, mas sim em deserto, com gigantesco impacto sobre o clima do planeta e a vida de todas as espécies. Para se ter uma ideia da magnitude do que estamos fazendo, por ação ou por omissão, por alienação, anestesia ou automatismo, alguns dados. Uma árvore grande transpira mais de mil litros de água por dia. A cada 24 horas a floresta amazônica lança na atmosfera, pela transpiração, 20 bilhões de toneladas de água – ou 20 trilhões de litros de água. Para se ter uma ideia comparativa, o rio Amazonas lança menos que isso – cerca de 17 bilhões de toneladas de água por dia– no oceano Atlântico. Não é preciso ser um cientista para imaginar o que acontecerá com o planeta sem a floresta.

Nobre defende que já não basta zerar o desmatamento. Alcançamos um nível de destruição em que é preciso regenerar a Amazônia. A floresta não é o “pulmão do mundo”, ela é muito mais do que isso: é o seu coração. Não como uma frase ultrapassada e clichê, mas como um fato científico. É o mundo e não só o Brasil que precisa se engajar nessa luta: o cientista defende que, se não quisermos alcançar o ponto de não retorno, deveríamos empreender – já, agora – um esforço de guerra: começando por uma guerra contra a ignorância. Fazer uma campanha tão forte e eficaz como aquela contra o tabaco. Isso, claro, se quisermos continuar a viver.

Se não quisermos alcançar um ponto de não retorno, 
é preciso deixar de viver no modo avião

Nessa época de tanta conexão, em que a maioria passa quase todo o tempo de vigília conectado na internet, há essa desconexão mortífera com a realidade do planeta – e de si. Como cidadão, a maioria no máximo recicla o seu lixo, achando que está fazendo um enorme esforço, mas não se informa nem participa dos debates e das decisões sobre as questões do clima, da Amazônia e do meio ambiente. Neste e em vários sentidos, é como existir no “modo avião” do celular. Um estar pela metade, o suficiente apenas para cumprir o mínimo e não se desligar por completo. Um contato sem contato, um toque que não toca nem se deixa tocar. Um viver sem vida.

É preciso sentir o mal-estar. Sentir mesmo – e não silenciá-lo das mais variadas maneiras, inclusive com medicação. Ou, como diz a pensadora americana Donna Haraway: “É preciso viver com terror e alegria”.

Só o mal-estar pode nos salvar.
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*Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum
Fonte:  http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/22/opinion/1419251053_272392.html

«É preciso defender os pobres, e não defender-se dos pobres», diz papa, que convida a exame de consciência no último dia do ano

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Papa Francisco | Basílica de S. Pedro, Vaticano, 31.12.2014 | AP Photo/Andrew Medichini | D.R.
Há um tempo para nascer e um tempo para morrer


A Palavra de Deus introduz-nos hoje, de maneira especial, no significado do tempo, na compreensão de que o tempo não é uma realidade estranha a Deus, simplesmente porque Ele quis revelar-se e salvar-nos na história. O significado do tempo, a temporalidade, é a atmosfera da epifania de Deus, ou seja, da manifestação de Deus e do seu amor concreto. Com efeito, o tempo é o mensageiro de Deus, como dizia S. Pedro Fabro.

A liturgia de hoje recorda-nos a frase do apóstolo João: «Filhinhos, estamos na última hora» (1 João 2, 18); e a de S. Paulo que nos fala da «plenitude do tempo» (Gálatas 4, 4). Por isso, o dia de hoje manifesta-nos como o tempo é - por assim dizer - "tocado" por Cristo, o Filho de Deus e de Maria, e dele recebeu significados novos e surpreendentes: tornou-se o "tempo salvífico", isto é, o tempo definitivo de salvação e de graça.

Agradecer e pedir perdão

Tudo isto nos leva a pensar no fim do caminho da vida, no fim do nosso caminho. Houve um início e haverá um termo, «um tempo para nascer e um tempo para morrer» (Eclesiastes 3, 2). Com esta verdade, muito simples e fundamental, e muito negligenciada e esquecida, a santa madre Igreja ensina-nos a concluir o ano e também o nosso dia com um exame de consciência, através do qual voltamos a percorrer o que aconteceu. Agradecemos a Deus por todo o bem que recebemos e que pudemos realizar, e, ao mesmo tempo, repensamos as nossas falhas e os nossos pecados. Agradecer e pedir perdão.

É isso que fazemos também hoje aqui, no termo de um ano. Louvamos o Senhor com o hino "Te Deum" e ao mesmo tempo pedimos-lhe perdão. A atitude de agradecimento dispõe-nos à humildade, a reconhecer e acolher os dons de Deus.

Se há resgate, é porque há escravidão

O apóstolo Paulo resume, na leitura destas Primeiras Vésperas, o motivo fundamental do nosso dar graças a Deus: Ele fez-nos seus filhos, adotou-nos como filhos. Este dom imerecido enche-nos de uma gratidão repleta de maravilhamento. Alguém poderia dizer: "Mas não somos já todos seus filhos, pelo próprio facto de sermos homens?". Certamente, porque Deus é Pai de cada pessoa que vem ao mundo. Mas sem esquecer que nos afastámos dele por causa do pecado original que nos separou do nosso Pai: a nossa relação filial está profundamente ferida. 

Por isso Deus enviou o seu Filho para nos resgatar com o preço do seu sangue. E se há um resgate, é porque há uma escravidão. Nós éramos filhos, mas tornámo-nos escravos, seguindo a voz do Maligno. Nenhum outro nos resgata desta escravidão substancial senão Jesus, que assumiu a nossa carne da Virgem Maria e morreu na cruz para nos libertar da escravidão do pecado e restituir-nos a condição filial perdida.

A liturgia de hoje recorda também que, «no princípio [antes do tempo] era o Verbo... e o Verbo fez-se homem», e por isso afirma Santo Ireneu: «Este é o motivo pelo qual o Verbo se fez homem, e o Filho de Deus, Filho do homem: para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a filiação divina, se tornasse filho de Deus».

Vivemos como filhos ou como escravos?

O próprio dom pelo qual damos graças é também motivo de exame de consciência, de revisão de vida pessoal e comunitária, motivo para nos perguntarmos: como é o nosso modo de viver? Vivemos como filhos ou como escravos? Vivemos como pessoas batizadas em Cristo, ungidas pelo Espírito Santo, resgatadas, livre? Ou vivemos segundo a lógica mundana, corrompida, fazendo aquilo que o diabo nos faz crer que é o nosso interesse? 

Há sempre no nosso caminho existencial uma tendência a resistir à libertação; temos medo da liberdade e, paradoxalmente, preferimos mais ou menos inconscientemente a escravidão. A liberdade assusta-nos porque nos coloca diante do tempo e defronte da nossa responsabilidade de o viver bem. A escravidão reduz o tempo a "momento", e assim sentimo-nos mais seguros, isto é, faz viver momentos desligados do seu passado e do nosso futuro. Por outras palavras, a escravidão impede-nos de viver plenamente e realmente o presente, porque o esvazia do passado e fecha-o ao futuro, à eternidade. A escravidão faz-nos acreditar que não podemos sonhar, voar, esperar.

Do exame de consciência depende a qualidade do nosso viver

Há alguns dias dizia um grande artista italiano que para o Senhor foi mais fácil tirar os israelitas do Egito que o Egito do coração dos israelitas. Tinham sido, "sim", libertados "materialmente" da escravidão, mas durante a marcha no deserto, com as várias dificuldades e com a fome, começaram então a experimentar nostalgia pelo Egito, quando «comiam... cebolas e alhos» (cf. Números 11, 5); esqueciam-se, todavia, de que não comiam à mesa da escravidão. No nosso coração aninha-se a nostalgia da escravidão, porque é aparentemente mais reconfortante, mais do que a liberdade, que é muito mais arriscada. Como nos apraz cairmos na armadilha dos muitos fogos-de-artifício, aparentemente belos, mas que na realidade duram apenas poucos instantes. Este é o reino do momento.

Deste exame de consciência depende também, para nós, cristãos, a qualidade do nosso operar, do nosso viver, da nossa presença na cidade, do nosso serviço ao bem comum, da nossa participação nas instituições públicas e eclesiais.

É preciso defender os pobres, e não defender-se dos pobres

Por esse motivo, e sendo também bispo de Roma, desejo deter-me no nosso viver em Roma, que representa um grande dom, porque significa habitar na "cidade eterna", significa para um cristão sobretudo fazer parte da Igreja fundada no testemunho e no martírio dos santos apóstolos Pedro e Paulo. E portanto também por isso agradecemos ao Senhor. Mas ao mesmo tempo, representa uma grande responsabilidade. Jesus disse: «A quem muito foi dado, muito será pedido» (Lucas 12, 48). Portanto, perguntemo-nos: nesta cidade, nesta comunidade eclesial, somos livres ou somos escravos, somos sal e luz? Somos fermento? Ou somos apagados, insípidos, hostis, desencorajados, exaustos?
Os graves acontecimentos relacionados com a corrupção, que recentemente emergiram, requerem uma séria e consciente conversão dos corações para um renascimento espiritual e moral, como também para um renovado compromisso para construir uma cidade mais justa e solidária, onde os pobres, os fracos e os marginalizados estejam no centro das nossas preocupações e do nosso agir diário. É necessária uma grande e diária atitude de liberdade cristã para ter a coragem de proclamar, na nossa cidade, que é preciso defender os pobres, e não defender-se dos pobres, que é preciso servir os fracos, e não servir-se dos fracos.

A riqueza da Igreja está nos pobres

O ensinamento de um simples diácono romano pode ajudar-nos. Quando pediram a S. Lourenço de mostrar os tesouros da Igreja, mostrou simplesmente alguns pobres. Quando numa cidade os pobres e os fracos são cuidados, socorridos e ajudados a promover-se na sociedade, eles revelam-se o tesouro da Igreja e um tesouro na sociedade. Pelo contrário, quando uma sociedade ignora os pobres, persegue-os, criminaliza, obriga-os a "tornarem-se máfia", essa sociedade empobrece até à miséria, perde a liberdade e prefere «os alhos e as cebolas» da escravidão, da escravidão do seu egoísmo, da escravidão da sua pusilanimidade, e essa sociedade deixa de ser cristã.

Concluir o ano é tornar a afirmar que existe uma "última hora" e que existe a "plenitude do tempo". Ao concluir este ano, no agradecer e no pedir perdão, far-nos-á bem pedir a graça de poder caminhar em liberdade para poder assim reparar os muitos danos feitos e poder defender-nos da nostalgia da escravidão, de não "nostalgiar" a escravidão.

A Virgem Santa, que está precisamente no coração do tempo de Deus, quando o Verbo - que estava no princípio - se fez um de nós no tempo; ela que deu ao mundo o Salvador, nos ajude a acolhê-lo de coração aberto, para sermos e vivermos verdadeiramente livres como filhos de Deus.

Nota: Os subtítulos foram acrescentados pela redação do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Papa Francisco
Primeiras Vésperas da solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
Basílica de S. Pedro, Vaticano, 31.12.2014
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 31.12.2014