terça-feira, 10 de maio de 2016

Como sair do ódio? \ Entrevista a Jacques Rancière

Como sair do ódio?
Entrevista a Jacques Rancière
Guerra ou política? Segundo Jacques Rancière, a política não tem nada que ver com a política partidária: intrigas palacianas, promulgações de decretos, competições entre partidos pelo poder. É uma forma de acção e de subjectivação colectiva que constrói um mundo em comum, no qual se inclui também o inimigo. A acção política cria identidades não-identitárias, um “nós” aberto e inclusivo que reconhece e fala de igual para igual com o adversário. A guerra, pelo contrário, tem como protagonista fundamental formações identitárias fechadas e agressivas (sejam elas éticas, religiosas ou ideológicas) que negam e excluem o outro do mundo partilhado. Entre o outro e o eu, nada em comum.
Em França, com os atentados ao Charlie Hebdo e ao Bataclan, a lógica da guerra ganha terreno. E o grande beneficiado é a Frente Nacional. Mas a verdadeira alternativa, segundo Rancière, não é aquela que vem do mainstream: “populistas contra democratas”, etc. Não, o melhor remédio possível é a própria acção política, autónoma relativamente aos lugares, aos tempos e à agenda estatal. Isto é, só elaborando o mal-estar (o “ódio” diz Rancière) em chaves políticas de emancipação (colectivas, igualitárias, abertas e inclusivas) se poderá, por exemplo, disputar terreno à Frente Nacional. A politização do mal-estar é o melhor antídoto contra a sua instrumentalização por parte daqueles que querem encontrar bodes expiatórios entre os outros.
Esta entrevista de Eric Aeschimann a Jacques Rancière foi publicada originalmente no Le Nouvel Observateur, a 7 de Fevereiro de 2016. Publicamos aqui a entrevista com autorização de Jacques Rancière a partir da versão francesa e da versão espanhola (tradução de Pablo La Parra Pérez) publicada no El Diário, através de Amador Fernández-Savater, que escreveu igualmente esta pequena nota introdutória.
Um ano depois dos atentados ao Charlie Hebdo, dois meses depois do ataque ao Bataclan, como vê o estado da sociedade francesa? Estamos em guerra?
O discurso oficial diz que estamos em guerra porque uma potência hostil está-nos a atacar. Os atentados realizados em França são interpretados como operações de células encarregadas pelo inimigo de executar entre nós actos de guerra. A questão é saber quem é esse inimigo.
O governo optou por uma lógica a la bush: declarar uma guerra que é, ao mesmo tempo, total (persegue-se a destruição do inimigo) e circunscrita a um objectivo preciso (o Estado islâmico). Contudo, de acordo com uma outra versão apresentada por certos intelectuais, é o Islão quem nos declarou guerra e quem está a por em prática um plano mundial para impor a sua lei sobre o planeta.
Estas duas lógicas misturam-se na medida em que o governo, no seu combate contra o Daesh, deve mobilizar um sentimento nacional que, no final de contas, é um sentimento anti-muçulmano e anti-imigrante. A palavra «guerra» nomeia essa conjunção.
O que é o Daesh? Um Estado? Uma organização terrorista? Em qualquer um dos casos, não é legítimo combatê-la?
O Daesh exerce a sua autoridade sobre um território, dispõe de recursos económicos e militares e, portanto, conta com um certo número de atributos estatais. Mas, no final de contas, a sua lógica é a de um grupo armado. A formação da sua força militar a partir do exército de Saddam Hussein é um efeito da invasão americana. Mas a sua capacidade de recrutar, no nosso próprio solo, voluntários que se reconhecem no seu combate é algo que nos diz respeito directamente: inscreve-se na tendência da lógica global actual onde há apenas Estados e grupos criminosos.
Antes existiam “grandes subjectivações colectivas” (por exemplo, o movimento operário) que permitiam aos excluídos incluir-se no mesmo mundo daqueles que combatiam. A ofensiva dita neoliberal desmantelou essas forças e criminaliza agora a luta de classes, como vimos no caso Goodyear [no passado dia 12 de Janeiro de 2016, oito empregados da Goodyear que participaram em acções de reivindicação foram condenados a penas de prisão em França]. Os excluídos são expulsos para subjectivações identitárias de tipo religioso e para formas de acções criminosas ou guerreiras.
O que temos de combater aqui é essa deriva identitária e cheia de ódio. Se os crimes devem ser tratados pela polícia, o ódio deve ser tratado pela política. Dizer que estamos em guerra com o Islão apenas consegue misturar, numa mesma lógica, crime e ódio, repressão policial e acção política (e, por isso, contribuindo para preservar o ódio). É o caso da proposta absurda de retirar a nacionalidade francesa: uma medida incapaz de prevenir os crimes, mas eficaz em alimentar o ódio que os desencadeia.
O que poderia ser feito para não ceder a esta confusão?
Há que levar a sério o estado de dissidência virtual de uma parte da população susceptível de se transformar em combatentes. Isso implica questionar as causas, os discursos e os procedimentos que engendraram o ódio, combater a sério o desemprego e as desigualdades e as discriminações de todo o tipo, repensar as formas como pessoas que não vivem nem pensam do mesmo modo poderiam viver juntas.
É uma tarefa difícil para todos. Idealmente, apenas a reconstituição de “subjectivações colectivas” fortes, para além das chamadas diferenças culturais, poderiam remediar a situação em que nos encontramos. Mas, em termos imediatos, o mínimo é fugir do discurso da guerra religiosa.
Refere-se aqui ao discurso dito «republicano»?
Esse discurso contribuiu largamente para o clima de ódio. É preciso tirar conclusões a esse respeito. Mas há um trabalho em profundidade que nos cabe a todos. A população que se identifica como muçulmana deve também dizer como quer viver com os outros, como quer tomar parte do nosso mundo e inventar formas de participação política.
Nos meus trabalhos anteriores [A Noite dos Proletários. Arquivos do Sonho Operário, Antígona, 2012], interessei-me por aqueles proletários do século XIX que foram relegados pela representação dominante para um mundo à parte. Eles estavam ali para trabalhar, talvez para gritar e revoltar-se quando não estavam satisfeitos, mas nunca para falar como membros de um mundo em comum. Mas um dia, alguns deles decidiram que sabiam reflectir e falar. Escreveram panfletos, manifestos de greves, jornais operários, poemas. Fizeram saber, pela palavra e pela luta, que pertenciam ao mesmo mundo que os outros, ainda que o fizessem como representantes daqueles que não tinham parte.
Sairemos da lógica da secessão e do ódio quando aqueles que estão hoje na margem da comunidade nacional inventarem formas semelhantes de participação polémica num mundo em comum. Trata-se de algo que vai para além da ideia de integração, que pertence ainda à lógica da segregação.
O poder de atracção do jihadismo sobre alguns jovens, inclusive sobre aqueles sem vínculo ao Islão, é interpretado por alguns analistas como sintoma de um Ocidente que liquidou toda a possibilidade de pensar em termos absolutos. Não será o momento de reinventar os ideais?
A ruína dos ideais é um tema velho que já está presente no Manifesto Comunista. Marx dizia que a burguesia “deitou por cima do santo temor a Deus, do ardor cavalheiresco e da tímida melancolia do bom burguês, o jarro de água gelada dos seus cálculos egoístas”.
Em La Haine de la démocratie [O ódio à democracia] mostrei como tudo isto se tinha convertido num tema reaccionário e estigmatizante. Representam-se os jovens do banlieu tanto como vítimas do niilismo consumista como da manipulação dos islamitas em nome de valores espirituais. Estas análises partem da ruina capitalista dos ideais para chegar aos crimes fanáticos. E entre o seu quadro explicativo (demasiado amplo) e o seu ponto de aplicação (muito preciso) abre-se um vazio que se enche de ódio e estigmas.
Por outro lado, não creio que nos faltem ideais. Estamos rodeados de gente que quer salvar o planeta, que vai curar feridos para o outro lado do mundo, que serve comidas a refugiados, que luta por restituir a vida em bairros abandonados. Hoje há muito mais pessoas que se entregam do que no meu tempo. Não nos faltam ideais, faltam-nos subjectivações colectivas. Um ideal é o que incita alguém a encarregar-se dos outros. Uma subjectivação colectiva é o que faz com que todas estas pessoas, juntas, constituam um povo.
Como fazer para constituir um povo? Deve ser necessariamente à escala do estado-nação?
Um povo, em sentido político, constitui-se sempre à distância da forma estatal do povo. Por isso fazem falta simbolizações igualitárias, abertas a todo o mundo e que, para além dos temas específicos (os refugiados, a ecologia, o banlieu), permitam a inclusão daqueles que não têm parte. Mas um povo também se constitui localmente, em relação com uma dominação que se exerce num espaço nacional.
Em Madrid, o movimento 15M estruturou-se em torno de uma ruptura com a lógica dos partidos que monopolizam o poder comum. Em Istambul, o movimento da praça Taksim formou-se em torno de um espaço aberto a todos que o Estado queria transformar em zona comercial. Ainda que o capital seja mundial, actuamos primeiro onde há um ponto de emergência. A nação é uma simbolização colectiva e, como toda a simbolização, é um campo de luta permanente, em França e em todo o lado. É dentro dessa perspectiva que devemos pensar a ofensiva que, desde princípios dos anos 2000, pesa sobre a identidade francesa: é o ponto culminante de uma contra-revolução intelectual que progressivamente expurgou a nação francesa da sua herança revolucionária, socialista, operária, anticolonial e resistente para reduzi-la a uma nação branca e cristã.
A omnipresença do tema da insegurança provém da mesma “contra-revolução”?
Ele tende igualmente à constituição de uma identidade colectiva regressiva. O governo actual segue a lição de Bush: é como comandante-chefe que o governante gera maiores adesões. Perante o desemprego é preciso inventar soluções e enfrentar a lógica do benefício. Mas quando se põe o uniforme de comandante é tudo mais simples, sobretudo num país, onde apesar de tudo, o exército permanece como um dos mais bem treinados.
O que os nossos governos melhor sabem fazer não é gerir a segurança, mas sim o sentimento de insegurança. É algo muito diferente, senão mesmo o oposto. Em Novembro de 2005 [durante as revoltas dos banlieus de Paris], poder-se-iam ter evitado semanas de graves confrontos se o então ministro do interior [Nicolas Sarkozy] tivesse estado um pouco menos preocupado por fazer do sentimento de insegurança uma plataforma de lançamento do seu programa presidencial e tivesse tido um pouco mais de interesse em procurar formas de apaziguamento e diálogo apropriadas para garantir a segurança.
Manuel Valls denuncia a busca de “explicações sociológicas”, que entende como uma forma de desculpar os autores dos atentados. Como analisa este ataque, tendo em conta que também dirigiu críticas – muito diferentes! – à sociologia de Pierre Bourdieu?
A “cultura da desculpa” é um simples espantalho que se esgrime para provar, a contrario, que apenas as medidas repressivas são eficazes. Mas as consequências são duvidosas. Sem dúvida, a sociologia de um meio social desfavorecido será sempre impotente na hora de explicar porque dez ou vinte membros desse meio se convertem em jihadistas e, sem dúvida, para impedir que passem à acção. Ainda que nem os favoreça nem os desculpe.
O ruído “securitário” funciona de outra maneira. As suas ameaças não podem assustar aqueles que conhecem castigos mais temíveis. E mais: favorecem a cultura de expiação, cuja forma mais extrema é o jihadismo. Esta é a cultura que é preciso combater. Deveria ser possível, sem a ajuda de nenhuma ciência, convencer os estudantes árabes que não se podem vingar sobre um professor judeu pelos crimes do Estado israelita. Mas, para que isto seja possível, é preciso deixar de transformar em delito de anti-semitismo o protesto contra esses crimes de Estado.
Como pensador, é frequentemente classificado sob o rótulo “esquerda radical” e, portanto, anticapitalista. Contudo, nas suas análises, coloca os poderes políticos e intelectuais à frente das forças económicas.
Há quem acredite que ser de esquerda significa reduzir tudo à dominação do capital. Esta posição “de esquerda” engendra no final uma resignação pesada à lei de um sistema. É no espaço político que se organizam as formas de comunidade que levam a cabo a dominação capitalista ou que se opõem a esta. A banca e as finanças não fabricam por si próprias as formas de opinião que criam um povo que lhes convém. São os políticos, os intelectuais e a classe mediática quem faz esse trabalho. Neste ponto separo-me de um certo marxismo que considera como simples aparências as simbolizações políticas produzidas no campo da opinião e das instituições. Trata-se de um campo de batalha efectivo. Se dizemos que nada mudará enquanto dure a dominação capitalista, podemos ficar tranquilos: as coisas continuarão a ser o que são até ao fim do mundo.
Mas, ao mesmo tempo, a transformação das relações humanas em relações mercantis, que parecem agora prevalecer em todo o mundo. Não é desesperante?
Aqui, de novo, a redução directa da ideologia à economia esquiva a questão política. É um tema recorrente. Nos anos 20, denunciava-se o cinema como um lugar no qual as classes se embruteciam perante as imagens; nos anos 60, acusava-se a máquina de lavar a roupa e as casas de apostas de desviarem os proletários da revolução… Hoje fetichiza-se a toda-poderosa mercadoria, como se a simples presença de um iphone de última geração pudesse ser suficiente para engolir todas as consciências no ventre da besta.
A impotência política não provém hoje do poder hipnótico do último gadget. Vem da nossa incapacidade de conceber uma potência colectiva, susceptível de criar um mundo melhor que o existente. Esta impotência alimenta-se do fracasso dos movimentos revolucionários dos anos 60 e 70, da queda da URSS, da desilusão perante as esperanças democráticas abertas por esse afundamento, pela globalização e os seus efeitos sobre o tecido industrial francês. O que desmoralizou as forças progressistas em França não foram as mercadorias mas sim os governos do Partido Socialista.
Talvez em França, mas e a nível mundial? O membro da classe média chinesa ou indiana, que consome como nós, não é vítima do mesmo desencanto?
À escala mundial há que fazer diagnósticos diferentes. O novo gestor chinês que desfruta do seu televisor de ecrã gigante a partir da sua banheira de luxo representa pouco mais que uma ínfima fracção do seu país. Para uma imensa maioria da população mundial, o problema não é esse tal niilismo engendrado pelo capitalismo tardio, mas o advento, ou a restauração, de formas de exploração selvagens e de sistemas industriais concentracionários próprios do capitalismo primitivo.
Jacques Rancière
Nasceu em 1940 na Argélia. Em 1965, escreveu com Louis Althusser e Étienne Balibar, o livro “Lire le Capital”. Foi Professor emérito da Universidade de paris VIII, onde leccionou estética e política. Entre as suas obras destaca-se A Noite dos Proletários (1981 - publicado pela Antígona, 2012), O Mestre Ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual (1987 – publicado em português pela Pedago, 2010), Nas Margens do Político (1990 – publicado pela Imago, 2014), Estética e Política. A Partilha do Sensível (2000 – publicado pela editora Dafne, 2010), O espectador emancipado (2008 – publicado pela Orfeu Negro, 2010).
Nota da edição
Entrevista de Eric Aeschimann a Jacques Rancière publicada originalmente no Le Nouvel Observateur, a 7 de Fevereiro de 2016. Publicamos aqui a entrevista com autorização de Jacques Rancière a partir da versão francesa e da versão espanhola (tradução: Pablo La Parra Pérez) publicada no El Diário, através de Amador Fernandèz-Savater, que escreveu a nota introdutória a esta entrevista.
Fonte:  http://www.revistapunkto.com/2016/04/como-sair-do-odio-entrevista-jacques.html

Saudade de sentir saudade

Martha Medeiros*

 

Temos recursos, temos acesso. A saudade 
já não precisa ser tamanha, 
podemos torná-la comedida


Telefonei para minha mãe hoje de manhã, e ela, ao ouvir minha voz, sussurrou com doçura: Filha, saudades.... Não fazia nem 48 horas que ela havia almoçado aqui em casa, sem contar os dois telefonemas que haviam sido trocados ontem, e ela já estava com saudades. Isso me fez sentir a filha mais amada do mundo e a mãe mais megera do planeta.

Não vejo minha própria filha há dois meses (está morando ali na Nova Zelândia) e quando me perguntam se não estou derretendo de saudades eu digo que sim, claro, mas na verdade tenho falado com ela mais hoje do que quando ela dormia no quarto ao lado. O WhatsApp e o Facebook fazem com que minha saudade não mereça virar uma queixa e muito menos um sofrimento. Minha saudade é tolerável, ainda que o adjetivo tolerável não costume ser tolerado pelo passional universo materno.

Lembro com certa nostalgia de quando a gente esperava uma carta, esperava para revelar uma foto, esperava para colocar os olhos no bebê que ainda estava dentro da barriga. Pois andaram me mostrando a ecografia de um feto de quatro semanas cuja resolução era incrivelmente parecida com a de uma selfie. Hoje em dia você pode dizer se seu filho puxou ao pai ou à mãe meses antes de ele nascer. Esperar é verbo condenado à extinção.

Se não há mais espera, onde colocar a saudade? Posso ver e falar com quem eu quiser, na hora que quiser, em tempo real. Qualquer país do Hemisfério Norte está mais próximo do que a esquina aqui de casa. Longe é um lugar que não existe, confirmado. Caducou até mesmo a Teoria dos 6 Graus de Separação, estudo que prova que estamos a seis pessoas de distância de qualquer outra pessoa, até mesmo do Barack Obama. Ora, o Obama está no Twitter. E já falei com Mark Ruffalo pelo Facebook. Não preciso de intermediários. Daqui a pouco até Deus estará online (aliás, está: www.theconfessor.co.uk ).

A saudade é provocada pela ausência, mas quem se ausenta, hoje? Aqueles que morreram, apenas – para a morte não há aplicativo. Já reclamar de saudade de quem está vivo virou apenas um afago verbal, uma declaração de amor, e não uma carência real de contato, a não ser que se esteja muito desanimado para ligar os apetrechos eletrônicos que nos conectam. Temos recursos, temos acesso. A saudade já não precisa ser tamanha, podemos torná-la comedida.

Não estou falando da saudade entre amantes: beijos e seus derivados, só ao vivo mesmo. E para amenizar a saudade constante que minha mãe sente, ela que se nega a aderir ao mundo digital, só vejo um jeito: forçá-la a aceitar um smartphone de presente e convidá-la para almoçar mais vezes.
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* Jornalista. Escritora.
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a5794969.xml&template=3916.dwt&edition=28905&section=1026
Imagem da Internet

Decifrar o verdadeiro código da Vinci

Uma equipa internacional quer usar técnicas de ADN para identificar os restos mortais de Leonardo da Vinci, e acredita que será possível reconstituir a sua aparência física.

Chama-se Projecto Leonardo e propõe-se isolar material genético de Leonardo da Vinci, numa operação que poderá envolver o Papa, a Rainha de Inglaterra e o fundador da Microsoft, Bill Gates. Dito assim parece o argumento para mais um best seller de Dan Brown, mas é uma ambiciosa missão científica, que começou a ser preparada em 2014, e na qual trabalha uma vasta equipa internacional e interdisciplinar, que inclui geneticistas, microbiólogos, historiadores, antropólogos, arqueólogos, arquitectos e outros investigadores.

O primeiro objectivo é confirmar a autenticidade dos presumíveis restos mortais daquele que foi o maior génio do Renascimento. Se a operação for coroada de sucesso, os cientistas envolvidos acreditam que poderão criar um modelo a três dimensões daquela que terá sido a aparência física de Leonardo, e ficar a saber mais sobre a saúde, os hábitos alimentares, ou mesmo a acuidade visual do génio renascentista.

Inicialmente financiado pela Fundação Richard Lousbery, de Washington, uma organização filantrópica que atribui prémios em Medicina e Biologia e apoia o desenvolvimento da ciência e tecnologia, o Projecto Leonardo engloba hoje instituições como o Instituto de Paleontologia Humana de Paris, o Instituto Internacional de Ciências Humanas e o Laboratório de Antropologia Molecular e Paleogenética de Florença, o Museu Ideale Leonardo da Vinci, em Vinci, terra natal do artista, o Laboratório de Identificação Genética de Granada, em Espanha, a Universidade Rockefeller, de Nova Iorque, ou o Instituto J. Craig Venter, na Califórnia, pioneiro na sequenciação do genoma humano. E a equipa inclui ainda alguns dos especialistas do FBI que trabalharam na identificação das vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001.

No final da sua carreira, Leonardo mudou-se para França, a convite do rei Francisco I, e viveu e trabalhou de 1516 até à sua morte – no dia 2 de Maio de 1569 – no palacete Clos Lucé, que hoje acolhe um museu dedicado ao seu mais célebre locatário e que se situa a 500 metros do castelo real de Amboise.

O pintor terá sido enterrado na igreja próxima de Saint-Florentin, demolida na época napoleónica, sendo as suas pedras utilizadas para reparar a fortaleza. O sítio onde a igreja se erguia foi depois escavado e encontrou-se um esqueleto completo e fragmentos de uma inscrição em pedra com letras compatíveis com o nome de Leonardo. Hoje sepultados na capela de Saint-Hubert, junto ao castelo de Amboise, pensa-se que estes ossos correspondam aos restos mortais de Da Vinci. Uma hipótese que os cientistas do Projecto Leonardo querem confirmar ou invalidar de vez com o recurso ao ADN, mas quebrar este verdadeiro código da Vinci pode vir a revelar-se uma tarefa espinhosa.   

A equipa está a avançar simultaneamente em várias frentes, por exemplo analisando com raios x o chão de uma antiga igreja italiana em busca dos túmulo do pai e de outros parentes de Leonardo, ou tentando reunir amostras de ADN de descendentes actuais do pai do artista. Uma investigação genealógica que durou quatro décadas identificou 35 descendentes vivos em Itália, incluindo o nonagenário realizador Franco Zefirelli, nascido em 1923 em Florença.

Outro objectivo é analisar os seus diários manuscritos – alguns deles na posse do Vaticano, de Isabel II de Inglaterra ou de Bill Gates –, à procura de impressões digitais que possam conter vestígios de ADN, a comparar depois com as amostras recolhidas dos seus presumíveis restos mortais.
A busca de impressões digitais vai também abranger algumas das suas pinturas, e a equipa do Instituto J. Craig Venter vem pesquisando outras obras de arte da época, em mãos de privados, para tentar aperfeiçoar técnicas de extracção e análise de ADN. Neste momento, não se sabe ainda se a passagem do tempo e as técnicas usadas nos restauros não terão apagado definitivamente quaisquer eventuais vestígios de ADN que pudessem ter existido nas telas de Leonardo.  

Os responsáveis do projecto querem concluí-lo até 2019, quando se assinalará o 500.º aniversário da morte de da Vinci, e acreditam que até lá conseguirão desenvolver um perfil genético do artista suficientemente extenso para permitir perceber melhor características que podem ter tido influência significativa na sua arte, como a acuidade visual.

Jesse Ausabel, vice-presidente da Fundação Richard Lounsbery, comenta: “Acho que todos na equipa acreditam que Leonardo, que se dedicou a fazer avançar a arte e a ciência, que se deliciava com charadas e cujos diversos talentos e intuições continuam a enriquecer a sociedade cinco séculos após a sua morte, teria dado as boas-vindas a esta iniciativa – e se hoje fosse vivo, provavelmente teria querido dirigi-la”.
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Reportagem por

segunda-feira, 9 de maio de 2016

JOSEPH STIGLITZ - Entrevista


JOSEPH STIGLITZ
Economista norte-americano
 
Professor da Universidade Columbia (EUA) e Prêmio Nobel de Economia

Juliana Sayuri

Os jovens acreditaram no “yes, we can change” de Barack Obama. Oito anos depois, querem mais mudança. De olho nas eleições americanas, o economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel, atribui peso decisivo ao voto da juventude nesta nova disputa presidencial. “Precisamos imaginar que é possível mudar esse sistema. E os jovens, sim, acreditam que outro mundo é possível”


Imagine um economista americano crítico aos excessos do capitalismo, às benesses concedidas aos bancos e aos privilégios das indústrias. Um liberal que considera obscena a concentração de renda pelo 1% dos mais ricos. Um intelectual sênior que, na casa dos 70 anos, afirma acreditar que é possível mudar o mundo, que os jovens farão a diferença e que os 99% terão vez. Dificilmente esse economista teria tanta voz, não fosse um detalhe: este economista é Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel, ex-Banco Mundial, autor de mais de 30 livros e laureado com mais de 40 doutorados honoris causa.

Stiglitz inspirou movimentos mundo afora a partir de uma ideia simples, mas radical: a desigualdade não é um destino selado por uma mão invisível e irrefreável, mas resultado de políticas concretas de quem está no poder.

Antes de se instalar na Universidade Columbia, em Nova York, Stiglitz passou por diversas universidades – na prestigiada Ivy League, teve passagens por Yale, Princeton e Harvard.

Apesar das críticas severas ao legado econômico do presidente Barack Obama, Stiglitz espera, otimista, um final feliz nas eleições americanas:Estou confiante de que o próximo presidente será democrata”, aposta, na expectativa de que quem vá ocupar a Casa Branca promova políticas de redução da desigualdade. “É um novo momento de esperança, que deve ser aproveitado para criar uma nova agenda”, diz.

Stiglitz recebeu o Aliás no seu escritório no campus de Columbia, dias antes de embarcar para o Panamá, onde vai liderar um comitê que pretende avaliar o sistema financeiro do país após o escândalo revelado pelos Panama Papers. A seguir, a entrevista.

A revista do New York Times da última quinta (28/4) traz um especial sobre o legado econômico do presidente Barack Obama. Oito anos após a crise financeira internacional, o desemprego está na casa dos 5%, os déficits estão caindo, o PIB subindo. Que análise o sr. faz desse legado?

Joseph Stiglitz: É um misto. Toda recessão tem fim, a menos, óbvio, que você administre muitíssimo mal a economia. Na época em que assumiu a presidência, Barack Obama encontrou uma bagunça gigantesca, a terrível herança deixada por Bush. Obama fez o possível, mas, no fim, não foi muito bem. Algumas de suas decisões impediram outra grave depressão, é verdade, mas a recuperação foi muito mais lenta e mais injusta do que o esperado. Nos três primeiros anos de seu governo, 91% de todos os ganhos foram para o 1% dos mais ricos. Os 99% não ganharam nada. Uma recuperação assim não é justa, nem benéfica. Mas assim foi, graças às políticas praticadas por Obama enquanto, por outro lado, políticas alternativas poderiam ter ajudado o americano médio a se reerguer também.

E a situação agora?

Joseph Stiglitz: A economia ainda está fraca. Na minha opinião, os 5% de desemprego não refletem a realidade. Outros índices consideram 10 ou 12% de desemprego no país, quer dizer, ninguém diria que o mercado de trabalho está bem. A Lei Dodd-Frank, que deveria promover uma real reforma do setor financeiro, não foi suficiente, e Obama não lutou tanto quanto deveria ter lutado para passá-la. Logo após a crise financeira ficou muito claro que precisávamos de uma reforma no setor financeiro. Mas Dodd-Frank não foi longe o suficiente. Em todas essas questões, é preciso considerar o que é “factível”. Nos dois primeiros anos de governo, os democratas dominavam o congresso e Obama podia ter feito muito, mas não fez. Dizem que Obama fez o máximo que pode, mas não estou convencido. O presidente escolheu mal seus conselheiros, muito próximos dos bancos, e no fim ficou mais inclinado a resgatar os bancos, deixando de lado a sociedade americana. Eles estavam julgando o que era factível, mas não concordo com esse julgamento. Na minha análise, o ponto mais crítico está nas políticas de comércio, que foram iniciativas próprias do presidente. O acordo Trans-Pacific Partnership (TPP), por exemplo, não é bom, pois representa uma mudança fundamental na estrutura jurídica que favorece interesses corporativos e eleva o preço dos remédios. Ironicamente, uma das principais conquistas do governo é o ObamaCare, que pretende diminuir preços e aumentar acessibilidade a serviços de saúde. Obama diz que a desigualdade é a questão mais importante da atualidade, mas, ironicamente, suas políticas econômicas não foram pensadas para reduzi-la.

Sua visão crítica sobre a globalização inspirou movimentos mundo afora, por exemplo, o altermundialismo na França e o Fórum Social Mundial no Brasil. Nos últimos tempos, Occupy Wall Street. Apesar das diferenças, os movimentos têm mensagem similar: a luta contra os excessos do capitalismo. Dá para imaginar mudar o mundo hoje?

Joseph Stiglitz: Nós precisamos imaginar mudar o mundo, pois o que está aí claramente não está funcionando. Quando olho para os Estados Unidos da América (EUA), vejo as classes baixas lutando por salários minimamente dignos, a mesma questão de 60 anos atrás; vejo as classes médias vivendo com rendimentos menores que 40 anos atrás. Quer dizer, o capitalismo não está atendendo a grande parte da população. Mas se paramos para observar, isso não é realmente capitalismo. É um capitalismo extremo, uma economia de mercado distorcida pelos ricos para obter vantagens para si próprios às custas dos outros. Acredito no mercado e apoio o uso dos mecanismos do mercado para destinar condições melhores para a população. Mas da política resultou uma economia de mercado muito diferente dos livros teóricos. Há subsídios para fazendeiros ricos, benefícios para indústrias, bilhões de dólares para bancos, e o que mais? Nos EUA e ao redor do mundo, há um aumento do poder do mercado que não corresponde à competitividade descrita nos livros. Ora, precisamos fazer o mercado funcionar como mercado. E os governos precisam ter papel importante, garantindo infraestrutura, investigação científica, seguridade social. A antiga discussão era sobre o equilíbrio entre o Estado e o mercado. Na minha visão, é preciso pensar um equilíbrio entre Estado, mercado e terceiro setor (instituições sem fins lucrativos, universidades, sociedade civil). É repensar o funcionamento do sistema.

A mensagem de Bernie Sanders [disputa com Hillary a indicação do Partido Democrata para ser candidato a presidente dos Estados Unidos] também reverbera a ideia dos 99%. Sanders teria chance de realmente promover mudanças?

Joseph Stiglitz: Quem quer que seja nomeado pelo Partido Democrata terá uma batalha difícil. Temos um sistema político em que a representação dos ricos é desproporcional. Digo no livro The Price of Inequality (O Preço da Desigualdade, Editora BERTRAND [Portugal], 2013) que grandes níveis de desigualdade econômica inevitavelmente se traduzem em grandes níveis de desigualdade política. Os ricos estão representados. E os outros? O dinheiro tem uma influência imensa na política americana. E é interessante que o candidato na liderança das primárias republicanas (Donald Trump) seja um magnata. Pode não ter tanto dinheiro quanto diz ter, pode ter quebrado umas de suas empresas, mas ninguém negaria que é um empresário rico que herdou muito dinheiro.

Mas o sr. acredita que o dinheiro pode render a presidência a Donald Trump?

Joseph Stiglitz: Estou confiante de que o próximo presidente será democrata. Sempre há risco e acontecimentos imprevisíveis, mas ficou claro que o Partido Republicano perdeu o tom, em questões políticas e econômicas, e se distanciou da maioria dos americanos. É improvável que vençam.

No livro The Great Divide [A Grande Divisão], o sr. diz que desigualdade é uma escolha. No contexto dessas eleições americanas, qual é a melhor escolha?

Joseph Stiglitz: Os dois candidatos democratas estão muito comprometidos com a questão da desigualdade, com diferenças de ênfase. Neste momento, Hillary Clinton provavelmente deve conseguir a indicação do Partido Democrata. E a desigualdade está na pauta dela.

Um de seus últimos artigos no Guardiandiz como os jovens têm direito de ficarem bravos neste momento, principalmente pela insegurança no mercado de trabalho.

Joseph Stiglitz: Mas não só. Há muitas dimensões de desigualdade. Nos EUA, sempre refleti sobre o peso da discriminação de gênero e de etnia, a exclusão e a repressão racial. Mas uma dimensão que às vezes esquecemos é a desigualdade ao longo das gerações. Atualmente, diante da má administração do mercado financeiro, o fardo dos jovens é muito pesado. É alto o desemprego na Europa – na Espanha, por exemplo, 50%. Os jovens não têm emprego. Se têm, o salário não corresponde às expectativas. Se querem uma casa decente, não podem pagar, pois as bolhas imobiliárias jogaram o preço das moradias para o alto. Nos EUA, a situação dos empréstimos estudantis é um problema enorme. Para ter oportunidades, eles se endividam para pagar por educação; educados, não conseguem emprego; empregados, não conseguem comprar uma casa. Então, sim, eles têm direito de ficarem bravos.

Os jovens podem definir essas eleições?

Joseph Stiglitz: Acredito que sim. Nos últimos tempos, grande parcela da população jovem ficou alienada do sistema político. Obama se lançou com a campanha “yes, we can change” [sim, nós podemos mudar] e conquistou muitos jovens. Era um vocabulário da audácia, da esperança, que captou a expectativa da juventude. Mas não teve mudança – claro, melhor Obama que Bush –, mas não teve a mudança maior que seus eleitores jovens esperavam. Muitos se sentiram enganados com a continuidade política. A sensação de que foram traídos é palpável. Nas eleições de 2010, vimos que o voto dos jovens correspondeu a apenas 20%. Nós nos orgulhamos da democracia americana, mas ali os jovens disseram: “tá, e daí?” Qual é o ponto se nada vai mudar? Até que, agora, a campanha de Sanders atraiu grande engajamento, participação, presença dos jovens. É um outro momento de esperança, que deve ser aproveitado para estabelecer uma nova agenda. Outra hora estávamos falando sobre mudar o mundo, pois, sim, os jovens acreditam que outro mundo é possível.

Sobre alternativas e possibilidades, a discussão sobre os Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] ainda é relevante? Ou o potencial desses países foi superestimado?

Joseph Stiglitz: Foi uma ideia interessante, que teve como saldo instituições de desenvolvimento. Participei de reuniões na África do Sul sobre políticas de competitividade para os Brics. Na minha opinião, o principal ponto positivo é que esses países formaram uma iniciativa sul-sul, mudou o centro gravitacional geopolítico. Isso diz: o mundo está mudando. E a prova de que essa discussão é relevante é o incômodo dos EUA e das antigas potências sobre os Brics. O Brasil teve papel importante nessa consolidação.

O sr. está acompanhando a crise no Brasil? O que deu errado?

Joseph Stiglitz: Primeiro, eu diria: por que não lembrar o que deu certo? O Brasil teve conquistas ótimas que foram esquecidas diante da tempestade política atual:
* a extensão da educação e as reformas de [Fernando Henrique] Cardoso,
* a inovação,
* a participação democrática e
* os programas sociais de Lula que se tornaram um modelo no mundo inteiro.
* A força da sociedade civil,
* as políticas industriais,
* a inovação do biocombustível,
* a importância do BNDES – foram conquistas enormes.
É uma mudança dramática pensar onde vocês estavam há 20 anos e onde vocês estão agora. Dito isso, a alta do preço das commodities deveria ter sido aproveitada para diversificar mercados, os juros excessivamente altos sufocaram a economia e, agora, as críticas ao BNDES... É um tiro no pé. Na minha visão, a partir do que leio na imprensa internacional, é que os deslizes da presidente são menores que os de muitos congressistas. É a famosa expressão “o sujo falando do mal lavado”. É um pouco perturbador para outsiders [pessoas de fora] ver um impeachmentliderado por um congresso corrupto. Que as conquistas dos últimos 20 anos resistam.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 8 de maio de 2016 – Pág. E1 – Internet: clique aqui.

"O meu livro é um mapa da corrupção no Vaticano. Todo o dinheiro recolhido fica para os cardeais, em vez de ir para os pobres"

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Entrevista a Emiliano Fittipaldi, o jornalista que passou um ano a investigar a gestão das finanças das instituições que gerem os bens da Igreja Católica. A investigação resultou no livro Avareza, e a fuga de informação que relata já mereceu o nome de Vatileaks

O dinheiro do Vaticano entra sobretudo pela mão dos fiéis, que esperam vê-lo aplicado em obras de caridade. Mas, afinal, está investido em ações como as da petrolífera Exxon, e bens imobiliários. Depois de receber uma lista de propriedades da Igreja em Londres, Paris e Roma, no valor de 4 mil milhões de euros, o jornalista da revista italiana L'Espresso passou um ano a investigar a gestão das finanças das instituições que gerem os bens da Igreja Católica. Fittipaldi descobriu que as esmolas são transformadas em fundos e que as beatificações são verdadeiras máquinas de fazer dinheiro. Chegou a dizer-se que a fuga de informação teria vindo de elementos próximos de Francisco, mas o Papa também já criticou publicamente o livro. Avareza é agora lançado em Portugal, pela editora Saída de Emergência, numa altura em que o autor, de 41 anos, enfrenta um processo, acusado do crime de “subtração e divulgação de notícias e documentos reservados”, previsto na lei do Estado do Vaticano. Se perder, poderá ser condenado a um máximo de 8 anos de prisão. Por isso, confessa-se “cansado”. Pela reação negativa de Francisco, “surpreendido”. As revelações, e fuga de informação inscrita em documentos sigilosos, já mereceram o nome de Vatileaks.

Quais foram as descobertas mais chocantes desta investigação jornalística?
Em 2012, as esmolas recolhidas para apoiar os pobres somaram 53,2 milhões, mas só 11 milhões foram para ajudar os mais desfavorecidos. A Cúria romana ficou com 35,7 milhões. Há cardeais a viverem em luxo. No meu livro digo o nome e apelido de cada um. Descobri que há cardeais a viver em Roma em apartamentos de 400 metros quadrados. E não usam esse espaço nem para pobres nem para refugiados.

Como é que usam o dinheiro das esmolas?
Descobri que Tarcisio Bertone [ex-secretário de Estado] usou 200 mil euros de um hospital pediátrico para fazer restauros na sua casa. Um cardeal pedófilo pagava 50 mil euros por mês à secretária.

De onde vinha todo esse dinheiro?
Um dos negócios incríveis que denuncio no meu livro é o das beatificações. O caminho mais rápido para chegar a santo é pagar a um bom advogado para tratar do processo. Pela beatificação da espanhola Francisca Ana de las Dolores cobraram-se 482 693 euros.

Quer dizer que nos países pobres não pode haver santos?
Não. Em África ou nas Filipinas não há dinheiro para isso. Mas o Banco do Vaticano ganhou 100 milhões de euros. Francisco quis fechá-lo e depois mudou de ideias. Todo o dinheiro devia ir para os pobres. Mas, em dois anos, o fundo do Banco do Vaticano só entregou 17 mil euros, embora tenha amealhado cem milhões. Daí o título do meu livro, Avareza.

O Vaticano é avarento?
O Vaticano comporta-se como uma offshore. Nem sequer dá toda a informação à polícia sobre quem tem contas no seu banco. Por vezes, o Vaticano decide como um banco e não como uma Igreja. Francisco quer mais transparência para o futuro, mas não quer que se descubra o passado. Quer limpar a Igreja por dentro sem que ninguém saiba. Mas eu não trabalho para o Vaticano nem para o Papa. Sou jornalista.

Vive num país que alberga o Estado do Vaticano. Como conseguiu escrever sobre um tema tão sensível?
Em Itália é muito difícil escrever sobre isto. Temos o Vaticano dentro do nosso país. E o Vaticano tem uma relação muito estreita com a televisão, com muito poder sobre ela. Mas o tema é bom para quem faz jornalismo de investigação, como eu.

Conseguiu publicar artigos e livros sobre o tema, apesar de tudo.
Sou um jornalista sortudo: tenho toda a liberdade no meu jornal. Em Itália é muito difícil escrever sobre corrupção na Igreja Católica. A comunicação social italiana está em 77º lugar no índice de liberdade de imprensa. O Governo é muito próximo da Igreja e não diz nada sobre este escândalo. A informação que publico está a ser revelada pela primeira vez na história.

Ficou isolado com a publicação do livro?
Os meus colegas dizem que roubei os documentos, uma rádio católica sugeriu que me enforcasse. Mas tenho todo o apoio do meu editor. E já muita gente leu o meu livro. Fico feliz com isso. Porque o que um jornalista mais quer é ser lido. Comecei há 4 anos a escrever sobre o tema para a minha revista.

Quem lhe passou a informação queria prejudicar o Papa ou ajudá-lo?
As minhas fontes são seculares e do Vaticano. Não se conhecem. Algumas gostam do Papa e outras não. Não sei se querem ajudar ou destruir o Papa. Mas os jornalistas não têm de perguntar “porquê” às fontes. As motivações da fonte não são um problema nosso. Nós só temos de fazer o nosso trabalho.

Que leitura faz do facto de aparecerem estes documentos na altura em que o Papa é Francisco, visto como moderado e defensor dos mais fracos?
É estranho.

Mas, lendo o seu livro, parece que é mais uma questão de imagem do que de conteúdo.
A propaganda do Vaticano é muito forte. Francisco é um comunicador perfeito. Escrevemos que este Papa mudou tudo em apenas 3 anos no Vaticano. Mas não é verdade. Não é possível. O Papa é o homem mais poderoso do mundo. O grande escândalo é em Roma. Todos sabem que a Igreja Católica tem problemas com as finanças.

Por haver demasiados vícios e demasiado antigos na Igreja?
O Vaticano é um Estado rico. Mas todo o dinheiro recolhido fica no Vaticano, para os cardeais, em vez de ir para os pobres. Isso é incrível! É aí que está o problema. Mas fico feliz por estar a denunciar. Depois do meu livro, Francisco mudou o sistema para haver mais controlo.

Está desiludido com Francisco?
Francisco e o Vaticano estão muito zangados comigo porque destruí essa propaganda. Ele queria reformar, mas não teve tempo para isso. E agora está sozinho. Tem muitos inimigos.

O Papa corre mais perigo de vida por ter querido reformar a Igreja?
Não me parece. Mas, na Cúria romana, muitos odeiam-no.

Tendo em conta tudo o que denuncia, pode ser bom sinal, ser odiado pela Cúria?
Para um papa que quer mudar a Igreja, sim. Mas não sei se será capaz. Espero que ele ganhe esta batalha, mas não tenho a certeza. O meu livro não é contra a fé, mas contra a corrupção na Igreja. Os padres devem rezar, não andar em casa dos políticos. Em Itália, a Igreja tem negócios, incluindo na área da saúde, casas e palácios. A ingerência da Igreja em Itália é muito forte e Francisco quis mudar isso.

A popularidade ajuda-o ou prejudica-o?
Ser tão popular é muito importante. Pode fazer algumas reformas por ter o povo com ele. Mas cometeu erros.

Quais?
Quando mudou os homens próximos de Benedict [Bento XVI, anterior Papa] deu a sua confiança a Pell [responsável pelas finanças do Vaticano]. Foi um grande erro de Francisco. Pell trabalha dentro do banco do Vaticano e não quer transparência. Francisco viveu muitos anos em Buenos Aires. Talvez não soubesse bem o que se passava no Vaticano.

Como reagiu àquilo que revelou sobre o Vaticano no seu livro?
A reação deixou-me muito surpreso. Ele é um rei no Vaticano e eu tenho um problema com a justiça dele. O Papa está muito zangado com a edição do meu texto. Levou-me a tribunal. Depois da publicação disse em público, na Praça São Pedro, em Roma, dirigindo-se à multidão, que o meu livro era mau para a Igreja.

Porquê?
Não percebo porque é um problema para a reforma que Francisco quer fazer. O meu livro é um mapa da corrupção no Vaticano! Acho que o livro poderá ajudar no futuro.

Preocupa-o que os radicais islâmicos usem investigações como esta para denegrir a Igreja Católica e ganharem terreno?
Nunca me tinham perguntado isso… Não tenho o poder de mudar o mundo. Não sei se pode destruir a fé na Igreja. Mas isso não é um problema meu. Sou jornalista. Toda a informação que divulgo é verdadeira.
 

Ninguém o acusa de publicar informações falsas ou erradas?
Não. Nem uma linha do livro foi desmentida.

Nos processos que tem contra si, de que o acusam, então?
Acusam-me de ter revelado informação confidencial. Dizem que os meus documentos são privados e pessoais. Mas ninguém diz que publiquei mentiras. Se digo a verdade, não devo ter problemas com a justiça.

Mas está a ter.
Sim. A sentença deverá ser conhecida em meados de maio. Mas fiz outro trabalho jornalístico sobre Bertone e estou com problemas porque um tribunal de Roma diz que o difamei. Nos próximos tempos, vou passar mais tempo em tribunal do que no jornal.

Que pena poderão aplicar-lhe?
Uma lei do Vaticano de há 3 anos prevê penas para quem publique informações confidenciais como as que divulgo no livro.

A possível ilegalidade surge à luz da lei do Vaticano?
O meu crime é ser jornalista. O Vaticano não tem imprensa livre. Rege-se por leis próprias, que não são as mesmas das italianas. Mas há um acordo entre Itália e o Vaticano, e quem cometer um crime no Vaticano pode ter problemas com a lei italiana.

Que problemas?
Podem aplicar-me uma pena de 5 a 8 anos. Mas será difícil porque Itália tem lei de liberdade de imprensa.

Sendo pouco provável a condenação judicial, que outras consequências lhe trouxe a publicação deste livro sobre os escândalos financeiros do Vaticano?
Tentaram destruir a minha reputação. E a reputação é o mais importante para um jornalista. Fui ao Vaticano para me defender deste ataque. Eu não ameacei ninguém. Para o Vaticano eu sou culpado. Mas terão um problema político se me acusarem.

O seu livro mudará alguma coisa?
Às vezes podemos mudar alguma coisa. Denunciei 10% do escândalo económico dentro do Vaticano. Sei de cardeais que têm milhões de euros no banco do Vaticano. Se outros quiserem investigar, terão muito sobre o que escrever.

Quer dizer que não continuará a escrever sobre o tema?
Estou muito cansado. Fui muito atacado em Itália. Dei entrevistas a jornais dos EUA, Espanha e Portugal. Mas, em Itália, nem um jornal quis ouvir as minhas denúncias.

É Católico?
Sou agnóstico.
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Reportagem por  Isabel Nery
Jornalista
Fonte:  http://visao.sapo.pt/actualidade/mundo/2016-05-09-O-meu-livro-e-um-mapa-da-corrupcao-no-Vaticano.-Todo-o-dinheiro-recolhido-fica-para-os-cardeais-em-vez-de-ir-para-os-pobres?utm_source=newsletter&utm_medium=mail&utm_campaign=newsletter&utm_content=2016-05-09

'Cinco Graças'

Luiz Felipe Pondé
 
Você sabe o que é multiculturalismo? Ou relativismo cultural? Não vou fazer diferença entre os dois, apesar que, se fôssemos falar de firulas, poderíamos fazer. 

Multiculturalismo é, na fonte, uma derivação do velho relativismo sofista de gente como o grego Protágoras ("O homem é a medida de todas as coisas", como cita Platão em seu diálogo "Teeteto"). Esse relativismo antigo foi banhado no relativismo romântico do século 18 de gente como o filósofo alemão J.G. Herder: cada cultura tem seus valores e suas "verdades". 

Relativismo é o seguinte: a verdade depende do ponto de vista, do momento histórico, do contexto geográfico, dos traumas psicológicos de cada um, da vontade do freguês, enfim, da cultura. Daí chegamos à ideia, já prevista no romantismo, que não se pode julgar uma cultura por parâmetros de outra cultura. 

Esse credo tem por vantagem evidente não se obrigar a franceses pensarem como russos ou vice-versa. Ou a cristãos pensarem como muçulmanos ou vice-versa. Mas, nem sempre a prática cabe na teoria... 

Não há dúvida que os relativistas têm razão em muito do que afirmam desde Protágoras e que, muitas vezes, caímos na metafísica ou na conquista de culturas por outras culturas quando queremos encontrar um parâmetro universal para a "verdade". 

Uma outra derivação desse tema do multiculturalismo é quando este cruza com o blá-blá-blá dos "opression studies" e se afirma que não se pode oprimir "outras" culturas submetendo-as à lei do Estado ou do país em que esta cultura "outra" vive. 

Mas, como sempre, quando se passa da teoria à prática, grande parte desses arranjos teóricos maravilhosos caem por terra e o que aparece mesmo é a covardia. 

Exemplo disso é o famoso caso em que meninas menores foram exploradas sexualmente entre, aproximadamente, 1997 e 2013, numa rede capitaneada em grande parte por paquistaneses muçulmanos na cidade inglesa de Rotherham. O psiquiatra inglês Theodore Dalrymple discute isso largamente em sua obra. 

A morosidade do processo legal teve como uma das causas centrais o receio das autoridades de serem acusadas de preconceito pelo fato de grande parte da liderança da rede de abuso ter estado nas mãos de cidadãos britânicos de origem paquistanesa muçulmana. 

Muitos grupos de defesa das mulheres viram na "opressão" da minoria muçulmana em questão uma razão para serem "leves" nas acusações. Quem é mais vítima, as meninas ou eles? 

Enfim, teorias como a dos "opression studies" e seus cálculos paranoicos de quem é mais ou menos oprimido por quem acabam em papinho furado a favor de quem mete mais medo mesmo na hora do "vamos ver".

 
Imagem do Filme: Cinco Graças
 
A verdade é que esses "movimento sociais" são de butique e temem enfrentar grupos articulados, motivados, ricos e violentos como os grupos islamitas, que não estão nem aí para os tais valores "progressistas" dos ocidentais, então preferem se esconder atrás do papinho multicultural de "respeito a outras culturas". 

O argumento para deixar as meninas à própria sorte é facilmente sustentado no tal multiculturalismo e sua ideia de que "a cultura é autônoma em seus costumes". 

Pois bem, o resultado prático disso é que para muitos grupos de defesa da mulher é mais fácil xingar professores universitários amedrontados "do lado de cá da cultura" ou políticos idiotas "do lado de cá da cultura", ou seja, bater em bêbado na ladeira. 

Na hora de enfrentar dilemas duros como a violência contra a mulher entre grupos religiosos fundamentalistas muçulmanos ou governos islamitas, a coisa fica difícil. É mais fácil atacar os suspeitos de sempre. 

O recente filme turco "Cinco Graças", de Deniz Gamze Ergüven, premiado em vários países, é um exemplo de como meninas são presas em suas casas e proibidas de frequentar a escola a fim de mantê-las dentro do universo repressor do governo islamita do presidente turco Recep Tayyip Erdogan. 

Diante de fatos assim, é mais fácil discutir a metafísica de gênero dos banheiros nos restaurantes. Esses "movimentos sociais" morrem de medo do islã. Preferem ir a festivais de cinema... 
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* Filósofo. Escritor. Ensaísta.

ponde.folha@uol.com.br 
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/05/1769132-cinco-gracas.shtml
Imagem da Internet

Dia Mundial das Comunicações Sociais: Media ocuparam espaços das religiões - Tomás Halík

Foto: Paulinas

Teólogo e escritor checo alerta para potencial de «divisão» das redes sociais

Lisboa, 07 mai 2016 (Ecclesia) - O teólogo e escritor checo Tomás Halík disse à Agência ECCLESIA que os media estão a ocupar espaços tradicionalmente reservados às religiões como referências de “verdade” e de pensamento.

“Os media têm um papel que tradicionalmente era das religiões: os media interpretam o mundo, dão os grandes símbolos, as grandes narrativas, as grandes histórias, são árbitros da verdade e da importância”, referiu o autor, em entrevista, ao abordar a celebração do Dia Mundial das Comunicações Sociais 2016 (8 de maio).

A Igreja Católica celebra no domingo uma iniciativa que chega à sua 50.ª edição, este ano como tema ‘Comunicação e Misericórdia: um encontro fecundo’.

Para o padre Tomás Halík, a evolução dos meios de comunicação social levou as pessoas a querer ver com os seus próprios olhos para determinar o que é “verdade”, seguindo os alinhamentos dos noticiários como critério na análise à realidade.

“Os media influenciam a forma de pensar e de viver de muitas pessoas, o que era o papel tradicional das religiões. De certa forma, os media são a religião do mundo contemporâneo”, analisa o autor, conhecido pela reflexão sobre o diálogo entre crentes e não crentes.

O teólogo checo fala numa realidade que também está em transformação, com a perda de influência da TV e o surgimento das redes sociais, onde muitas pessoas estão em grupos, “seitas”, fechadas nas suas “ideologias”.

“Os media agora já não criam apenas uma sociedade comum, também estão a dividir, são expressão de divisão na sociedade”, adverte.

O vencedor do ‘Prémio Templeton’ 2014, atribuído pela Fundação John Templeton (EUA), considera que há “muitos problemas” com a influência das redes sociais nas pessoas, desde o racismo aos preconceitos culturais e religiosos.

“O autoproclamado Estado Islâmico tem uma propaganda muito profissional nas redes sociais”, exemplifica.

Tomás Halík propõe a criação de uma profissão “muito promissora” para o futuro: “dietista do uso dos media”.

“É preciso ensinar as pessoas a distinguir quais são os media realmente sérios e quais são perigosos para a nossa forma de pensar e a nossa cultura”, conclui.

O Dia Mundial das Comunicações Sociais, instituído pelo Concílio Vaticano II, é celebrado pela Igreja Católica desde 1967 no domingo anterior à festa do Pentecostes.

Em Portugal, o ofertório das celebrações dominicais reverte a favor do trabalho da Igreja nas Comunicações Sociais, em cada dioceses e nas atividades de âmbito nacional.
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Fonte: Agência Ecclesia

domingo, 8 de maio de 2016

Professor de História ou contador de estória?

blog
 

Muito se fala sobre a necessidade de os historiadores terem compromisso com a verdade e eu acredito que muitos tenham esse compromisso. Mas existe um problema aí que, às vezes, não é notado exatamente porque muita gente acredita piamente estar procurando a verdade mesmo quando não está.
A questão é a seguinte: se você for educado para acreditar que a Lua é um lugar habitado, vai começar a escrever sobre os tipos de vida que supõe que lá existam, e, para você, isso é um compromisso com a verdade. Quando o indivíduo parte de um ponto torto, chegará a um destino muito mais distorcido. Em outras palavras, se partir de uma mentira, não chegará à verdade, e, quando isso ocorre na História, o professor se torna um contador de estórias, o que não condiz com sua proposta inicial. Por exemplo, se o indivíduo acredita que a mais-valia é um dogma ou, quase isso, não será capaz de estudar economia sem dar tilt.

Não estou dizendo que sou eu que tenho a verdade, longe de mim, pois como escreveu C.S. Lewis, este deve ser um fardo insuportável. Mas digo, sim, que os pressupostos que se baseiam só na luta de classes estão errados, ainda que seja essa luta de classe pós-moderna e colorida que envolve desde gênero às outras fobias criadas nos laboratórios da demência.

Quando o professor relativiza a ditadura soviética dizendo que “não foi bem assim”, não está sendo professor de História, está querendo escrever fábulas. Quando o professor diz que o povo cubano tem outra filosofia de vida que não a “consumista” e, por isso, dirige carros velhos sem se importar, ele estará recitando uma poesia escrita com as tintas da sua paixão ideológica.

Quando você ouvir – como já ouvi – alguém enunciando que em Cuba o povo se preocupa mais com o “social” – palavra mágica – do que com a economia, você não ouve um historiador, mas um mitólogo rudimentar. Sempre que o professor de História disser que o nazismo foi uma ideologia totalitária e apontar o comunismo como algo que “só foi ditatorial porque deturpado”, você não está perante um historiador, mas perante um bardo contemporâneo e desqualificado.
O intrigante disso tudo é que muitos professores desdenham os mitos e fábulas dizendo que isso não passa de mera diversão e, talvez por isso, criem as suas próprias que, por sinal, são bem mais desinteressantes. O problema é que essas ficções criadas por eles nem mesmo podem ser concebidas como divertidas, pois, ao passo que na literatura os mortos podem ressuscitar, na fábula dos ideólogos os mortos, que foram realmente mortos, são enterrados em valas coletivas e abertas pela pá ideológica.

A discussão sobre a influência da subjetividade na historiografia é vasta, é um debate ainda bastante frequente e, claro, indispensável, mas penso que, na prática, muitos historiadores ainda não levam isso a sério.

Dizer que o século XX foi uma era de extremos, como disse o marxista Eric Hobsbawm, é verdade, porém que isso jamais se repetirá como alguns suspeitam, não é. Ainda que neguem que a História seja a “Mestra da Vida”, acreditar nisso é o primeiro passo para que tudo volte a ocorrer. Hoje, na Síria, a humanidade mostra sua face mais bruta, por isso ainda prefiro interpretar a alma humana com pessimismo, sem aquele romantismo rousseauniano do bom selvagem e isso nenhum jacobino com Lattes vai mudar.

No que diz respeito às pressupostos com as quais analisamos a sociedade, o conceito bíblico da “Queda” é, de longe, mais prudente do que a mitologia romântica do “Bom Selvagem”.

Finalmente, para o contador de fábulas, aí, sim, defendo uma revolução, mas uma revolução historiográfica e que, creio firmemente, será recusada por ele. No fim das contas, seria aconselhável ao contador de estórias que se julga cientista, um bom divã para tentar compreender seus próprios ressentimentos e misérias existenciais que, erroneamente, são atribuídos somente ao meio exterior.

Deixem as fábulas para a literatura fantástica, não confundam. No mundo real não há heróis.
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 * Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.
Por Thiago Kistenmacher, publicado pelo Instituto Liberal
Fonte:  http://www.institutoliberal.org.br/blog/professor-de-historia-ou-contador-de-estoria/

quinta-feira, 5 de maio de 2016

“O Novo Ateísmo está caindo em desgraça”


Alister_McGrath 
Alister McGrath, cientista e teólogo, professor de ciência e teologia na Universidade de Oxford, (Belfast, 1953) afirma que os investigadores vão longe demais quando tentam negar a Deus. Ciência e fé são compatíveis enquanto 
uma não interfere na outra, diz ele.
P.: O dogmatismo religioso não lutou contra a ciência durante séculos?
Resposta. A ciência sempre teve de lutar contra os preconceitos religiosos, políticos e sociais. Às vezes, o cristianismo tem sido um obstáculo para o progresso científico, e outras vezes, promoveu-lo. A revolução científica foi iniciada em um contexto cristão, e foi, sem dúvida, encorajado pela ideia cristã de um universo estruturado e organizado. O preconceito e o dogmatismo não vêm só da fé religiosa. Alguns cientistas ateus, como o cosmólogo Fred Hoyle, eram contra a teoria do Big Bang, porque parecia “muito religiosa”. A minha proposta tenta respeitar os limites e olhar para um  diálogo entre fé e ciência.
P.: Você afirma que a história de Galileu foi distorcida, mas há outros exemplos históricos: Bruno, Servet, Vanini.
R.: A representação midiática do caso Galileu como uma luta entre fé e ciência começou como uma questão social, no final do século 19. Galileu foi vítima de uma luta de poder dentro do Vaticano, que estava voltado para o surgimento do Protestantismo. Uma facção do papado apoiou firmemente Galileu, a outra facção não gostava dele. No final, uma das facções ganhou.
P. Você acusa o Novo Ateísmo, defendido por Richard Dawkins, de ser intolerante. Porque você acha isso?
R. Infelizmente, o Novo Ateísmo é tão intolerante e dogmático como o fundamentalismo religioso que eles atacam. A ideia surpreendente de Dawkins de considerar a crença religiosa como “uma espécie de doença mental” indica seus preconceitos, e não é uma análise confiável de crenças. Felizmente, o Novo Ateísmo está caindo em desgraça, e formas mais inteligentes de ateísmo estão surgindo. Muitos cientistas acreditam que Dawkins manchou a ciência com sua cruzada antirreligiosa. A ciência não é religiosa ou anti-religiosa, é apenas ciência. Ela pode ser compatível com o ateísmo, bem como com o cristianismo.
P. O senhor admite que a ciência e a religião são um produto da civilização humana. Se a religião é uma criação humana, como podemos acreditar nela?
R. Todas as nossas idéias são criações humanas, mas isso não significa que temos de invalidá-las. Isso apenas significa que precisamos saber quais são confiáveis. Há uma montanha de literatura científica que mostra que os seres humanos procuram um significado ou uma perspectiva da realidade, que é frequentemente expressa por crenças e práticas religiosas ou espirituais. Isso não as torna verdadeiras ou falsas, apenas lhe tornam humanas.
P. De acordo com Dawkins, a teologia não é uma ciência, e, portanto, não deveria ter lugar nas universidades.
R. Parece que ignorar as idéias cristãs é uma virtude intelectual. É por isso que os cristãos lhe ignoraram como um crítico ignorante que não sabe sobre sua fé. Para mim, uma virtude intelectual encontra-se em estudar, compreender e apreciar uma visão de mundo, mesmo quando acreditamos que é errado. Eu fui ateu, na minha juventude, e eu rejeitei o Evangelho, pelas mesmas razões que Dawkins rejeita. Agora eu vejo que eu simplesmente não entendia o cristianismo, mas eu nunca iria zombar do ateísmo só porque eu não concordo com suas principais crenças.
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Fonte:  http://logosapologetica.com/o-novo-ateismo-esta-caindo-em-desgraca/#axzz47ErId5VC

A Esquerda está levando o Brasil para a Direita

Thago Kistenmacher*

Diagrama de Nolan 
Não gosto muito deste Fla x Flu. Sinceramente eu preferiria estar lendo O Senhor dos Anéis. Seria melhor acompanhar Frodo pela Terra Média do que ler e escrever sobre Lula, Dilma, Moro, Janaína, Jean Wyllys, Bolsonaro e outros, mas é meu dever. Se ninguém se ocupar com a política hoje, sofreremos por causa dela amanhã. E, para que no futuro possamos nos deliciar com a literatura, é bom garantirmos que não falte papel e dinheiro para a impressão de livros. Na casa da nossa vizinha Venezuela, por exemplo, já falta papel até para as cédulas e o colorido da bandeira já não se vê.

Dito isso, gostaria de chamar a atenção do leitor para dois efeitos que se relacionam com a atual crise política e sua consequente polarização. Como mencionado no título, a Esquerda está levando os brasileiros para a Direita e cada vez mais para a Direita. Claro que a questão é mais profunda, mas não pretendo analisar pormenores.

Primeiro vamos ao efeito positivo. Resumidamente, acredito que o efeito positivo dessa crise política e da queda do império petista é que têm ajudado o brasileiro a notar que o país realmente não é de um partido e que as instituições não são aplicativos programados para serem compatíveis com o aparelhamento do PT. Os trabalhadores, que não têm tempo para bloquear avenidas durante a semana já não caem mais no discurso do caudilho do ABC. As universidades, embora atuem como a mais eficiente ferramenta na manutenção da esquerda histérica, assistem à invasão educada de outras ideias. As redes sociais pululam de opositores ao regime mafioso do Partido dos Trabalhadores. Todo império um dia cai, e, ainda bem, que o bolivarianismo por aqui parece que vai cair do pé antes de ficar Maduro. Em suma, tanta corrupção e crise serviram para mostrar que o PT veio para isso mesmo, para roubar, matar e destruir, e o brasileiro honesto, vendo que virar à Esquerda é acertar o poste da Justiça, prefere convergir em segurança para a Direita.

Agora, o efeito negativo. Notamos uma radicalização que se torna um tanto quanto fanática e que está apenas a um passo da intolerância. O messianismo político não atinge só a Esquerda. Embora existam diferenças claras entre os opositores, o ser humano é o mesmo. A alma humana, independentemente do sentido dado pelo leitor, é inegavelmente falha e os jovens, principalmente eles, devem cuidar com suas paixões. Aristóteles já tinha alertado para isso dizendo que “Em termos de caráter, os jovens são propensos aos desejos passionais e inclinados a fazer o que desejam” [1] e, não parando por ai, acrescenta que eles “Em tudo pecam por excesso e violência, contrariamente à máxima de Quílon” [2], um sábio espartano a quem é atribuída a máxima: “nada em demasia.” O conselho do filósofo serve até hoje, pois somos o mesmo ser humano repleto de paixões desregradas. Não estou dizendo que é preciso dialogar com o Estado Islâmico, por exemplo, como propôs a “nossa” presidente, já que desconfio dos Gandhis modernos que preferem ser abatidos, entretanto cautela com promessas de salvação nunca é demais.

Quanto mais radicalismo de um lado, mais do outro. Se hoje eu colocar você no paredão, amanhã é um amigo seu que me fuzila, e assim até à guerra total. Os radicalismos se nutrem reciprocamente e o resultado disso é sempre o nascimento de um tumor maligno que raramente é extirpado com pequenas cirurgias.

Enfim, a máscara da Esquerda deve ser tirada, mas não arrancada pelas adagas da vingança absoluta. Sei que o radicalismo é mais legal, ele promete coisas que só podemos ter nos filmes, te faz sentir menos culpado e ressentido com suas próprias frustrações e, ainda, de quebra, te dá total legitimidade para externar sua rebeldia através de ações inconsequentes. Já a moderação é aquela mãe chata. Ela não te promete nada que não faça sentido, te mostra que os filmes são assim exatamente por serem filmes e não passa a mão na sua cabeça se você quebrar as coisas por aí. Afinal de contas, ninguém quebra uma vitrine defendendo a prudência.

Tomemos cuidado com as nossas escolhas, principalmente em um momento de crise, já que nós, humanos, somos naturalmente falhos e tendemos mais facilmente ao erro do que ao acerto.

O indivíduo que hoje, legitimamente, luta contra a Esquerda e defende uma causa específica, deve cuidar para não cair na mesma que cai a Esquerda. Deve cuidar para não se tornar só mais um do rebanho ou, dito de outra forma, acabar como um integrante de um coletivo às avessas que prega um radicalismo oposto, mas, nem por isso, muito distante daquele que combate.

A Esquerda está levando o Brasil para a Direita, e isso é positivo, mas cuidado para não se exceder e acabar capotando este veículo que está pode estar nos trazendo vários benefícios em seu porta-malas.

[1] Aristóteles. Retórica. Obras Completas. Biblioteca de Autores Clássicos. Ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005. p.194.

[2] Ibidem, p.195.
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* Colunista do site instituto liberal.
Fonte: http://rodrigoconstantino.com/artigos/esquerda-esta-levando-o-brasil-para-direita/?utm_medium=feed&utm_source=feedpress.me&utm_campaign=Feed%3A+rconstantino

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O mar está para monstros

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Quando indagado sobre o espaço aberto por crises econômicas para o fortalecimento do campo progressista, Yanis Varoufakis, em palestra proferida em 25/4, na New School, em Nova York, foi categórico: “Tempos de grave recessão não são tempos revolucionários, são tempos que criam monstros”.

A resposta pode à primeira vista parecer contraditória com a sua própria experiência recente enquanto ministro da Fazenda da Grécia por um partido de esquerda que deve boa parte de sua existência – e certamente de sua vitória nas urnas – à grave crise que assola o país. Quiçá o fracasso de Varoufakis nas negociações com a Troika formada por União Europeia, Banco Central Europeu e FMI tenha lhe tirado o que restava de otimismo.

O estudo dos economistas Hans Grüner e Markus Brückner, realizado a partir de dados de 16 países da OCDE entre 1970 e 2002, parece dar razão a Varoufakis quando conclui que uma redução de 1% na taxa de crescimento econômico tende a elevar em 1% a participação dos partidos de extrema direita no total de votos. O crescimento recente nas pesquisas de intenções de voto de um candidato que faz apologia pública à tortura sugere que o Brasil não foge à regra.

No livro The Moral Consequences of Economic Growth, o professor de economia política de Harvard Benjamin Friedman parte de vasta evidência histórica para defender que o crescimento econômico não é um facilitador apenas de melhorias materiais, mas também da liberdade, da tolerância, da justiça e da democracia. A estagnação e a prosperidade mal distribuída, ao contrário, tenderiam a fomentar o aumento da violência e o surgimento de ditaduras.

Friedman trata, no entanto, de uma importante exceção à regra. Nos anos de 1930, os Estados Unidos conseguiram fortalecer os valores democráticos em meio à Grande Depressão. O autor atribui essa sorte ao New Deal do presidente Roosevelt, que qualifica como uma tentativa de “espalhar a oportunidade econômica o mais amplamente possível”. Considera que, em vez de procurar “bodes expiatórios para excluir”, o caminho escolhido foi “deliberadamente pluralista e inclusivo”, com o objetivo não somente de restaurar a prosperidade econômica mas de criar maior igualdade de oportunidades.

Ainda que hipóteses históricas nunca sejam universais, como apontou o historiador Alexandre Gerschenkron, a opção por não realizar uma reforma tributária e por abandonar os investimentos públicos em prol da implementação de políticas recessivas e excludentes – no governo Dilma Rousseff e, mais ainda, em um eventual governo Temer sem legitimidade – parece, no caso brasileiro, nos tirar do caminho da exceção e nos colocar na espiral descendente do agravamento da crise econômica, do aumento da intolerância e do enfraquecimento da democracia.

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O Minotauro Global“, livro de Yanis Varoufakis que trata do papel central dos Estados Unidos e de Wall Street na absorção dos produtos e do capital financeiro globais entre o fim do sistema de Bretton Woods e a crise de 2008 – ano em que são desnudados os graves desequilíbrios da economia mundial que ainda prejudicam sua retomada –, acaba de ser lançado no Brasil pela editora Autonomia Literária.
Texto por Laura Carvalho
Fonte: http://outraspalavras.net/brasil/o-mar-esta-para-monstros/