terça-feira, 17 de maio de 2016

Para Delfim, Temer precisa “convencer o País de que ajustes não são maldade”

ANTÔNIO DELFIM NETTO
Economista, ex-Ministro e Professor de Economia
 
 Crítico do governo Dilma e ciente dos desafios que Michel Temer enfrentará, ex-ministro acha crucial que ele convença o eleitor de que corrigir os erros é a única saída.

Entrevista com Delfim Netto*
 
Economista, ex-Ministro da Fazenda e da Agricultura, ex-Deputado Federal

Sonia Racy
 
 Também neste governo Temer, Delfim Netto certamente será chamado a opinar. Como vem fazendo nos últimos 50 anos, tendo começado nos governos militares quando ficou conhecido pelo “milagre brasileiro” (1968-1973), nos tempos em que o Produto Nacional Bruto (PNB) crescia, em média, 10% ao ano.

Muito próximo a Temer, com quem costuma almoçar regularmente em São Paulo, o ex-ministro, ex-deputado e afiadíssimo economista de 88 anos, 24 deles no Congresso como deputado, acha que Temer “recebeu um presente de Deus, que pôs o dedo nele e disse: ‘Você é um político eficaz. Estou lhe dando a chance de ser um estadista. Você não tem mais passado, você só tem futuro. O seu futuro vai ser escolhido agora. Você vai fazer nesse curto prazo o que tem que ser feito. Plante carvalho ao invés de plantar couve”. Sobre Dilma, afirmou: “A aprovação dela melhorou, quanto mais ela errava mais melhorava”.

Semana passada, pouco antes de Temer assumir, ele falou à coluna no seu escritório em Higienópolis [São Paulo].

Na atual situação, só o político salva a economia ou só a economia salva o político?

Delfim Netto: Na verdade, em qualquer circunstância, o economista tem a pretensão de que as suas medidas sejam tão perfeitas que mesmo quando elas impõem um sofrimento dramático à sociedade, como ele sabe que está apoiado na ciência, faz aquela maldade com a maior tranquilidade por acreditar que ela vai salvar o cidadão. Há vários equívocos nisso. Primeiro, que a economia não é uma ciência. Não existe nenhuma hipótese de você ter soluções científicas para problemas econômicos. O Temer tem toda razão quando diz que não há escassez de diagnóstico. Todo mundo sabe o que fazer, não importa a escola a que se pertença. Há uma pequena diferença aqui ou ali, mas todos sabem que você tem que fazer um ajuste nesse desequilíbrio fiscal, estrutural, que está dentro da Constituição. Também não há nenhuma escassez de talentos para executar essa tarefa.

E por que não se executa?

Delfim Netto: Porque para executar essa tarefa precisa de uma maioria política sólida convencida de que aquela é a solução. Uma maioria que não se restrinja ao Congresso, mas que vá aos eleitores mostrar que não se trata de nenhuma maldade, e sim de corrigir alguns defeitos do processo, e que precisamos fazer.

Está claro o que precisa ser feito. Mas como?

Delfim Netto: Tem de convencer a sociedade de que ela não vai ficar sem a aposentadoria. Na verdade, vão se criar condições para que todos se aposentem. Vão se eliminar as grandes diferenças entre o setor público e o privado, corrigir problemas da Previdência no setor agrícola. Sem atacar direitos adquiridos. Então, só o político pode salvar o economista.

O governo Temer terá forças para aprovar tais medidas?

Delfim Netto: Deixa eu lhe dizer: o governo começa com os 367 votos na Câmara e 55 no Senado. Quantos ele vai ter daqui 90 dias, não sei. Mas uma coisa é segura: é preciso levar as propostas constitucionais e deixar o Congresso trabalhar… Ele precisa de trabalho. Você tem que levar ao Congresso o que você precisa, o que a nação precisa – e ele em geral melhora a proposta. Tem que ocupar o Congresso com coisas corretas.

Esta é a função do Executivo?

Delfim Netto: Sim. Se o Executivo não tem protagonismo, não funciona. Não se pode ter um presidencialismo de coalizão que nem presidencializa e nem coaliza. Então, ele começa presidente, com capacidade pra coalizar. Ele tem que deixar no Congresso as necessidades do País, porque o Congresso não quer o mal do País. Ele se desorganizou por causa da disputa entre Executivo e Legislativo, que foi uma disputa insensata – a intervenção do Executivo na eleição da Presidência da Câmara.

Qual será, nesse processo, o impacto da saída de Eduardo Cunha?

Delfim Netto: Ele pode ter todos os problemas, mas nunca houve um presidente com a eficácia do Cunha, que conhecesse tão bem o regimento, que seja capaz de fazer as coisas caminharem. Não é possível dizer que sob sua presidência o Congresso não tenha andado muito mais depressa. Aprovou maluquices, mas podia ter aprovado coisas muito boas.

Acha que o destino de Renan tende a ser o mesmo de Cunha?

Delfim Netto: Não há a menor dúvida de que a Lava Jato é um momento de inflexão. O Brasil será (depois dela) completamente diferente. A manifestação da Andrade Gutierrez, reconhecendo os equívocos, é apenas uma. Ela está acontecendo em outros campos, em outras empresas, sem esse pedido público de perdão. E as instituições estão cada vez mais sólidas e ajudarão o País a crescer mais depressa. O STF tem se comportado, na minha opinião, de maneira absolutamente correta.

Com a indicação de Henrique Meirelles, a iniciativa privada sossegou em relação à parte técnica da Fazenda. Hoje estão mais voltados para a atuação de Romero Jucá, que será o grande responsável pela relação entre Executivo e Legislativo. Concorda?

Delfim Netto: O Jucá é um craque, está nisso há mais de 40 anos, trabalhou conosco, com Andreazza, foi interventor em Rondônia, foi governador. Conhece Orçamento como gente grande, tem uma habilidade política extraordinária. E vou dizer uma coisa, a minha hipótese é que ele será um excelente ministro do Planejamento. É operacional, sabe o que precisa ser feito.

Ante as denúncias da Lava Jato, acha que a situação dele é frágil?

Delfim Netto: Uma simples denúncia não significa nada. Ele vai ser julgado, se for condenado é outra coisa.

Acha temeroso Temer nomear gente que possa, a curto, médio ou longo prazo, ser alcançada pela Lava Jato?

Delfim Netto: Na minha opinião, ninguém pode prejulgar isso. Quer dizer, a presunção de inocência continua sendo um dos fundamentos de toda a sociedade civilizada. Então, quem for acusado vai se defender.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA E DELFIM NETTO
O ex-presidente Lula consultava muito o economista Delfim!

O sr. tem dito que tem muita gente querendo trabalhar no governo Temer. Mas por que são sempre os mesmos? Por exemplo, o ex-presidente Lula defendia Henrique Meirelles para Fazenda e também o Jucá para ser o líder de governo.

Delfim Netto: Porque o Lula é um pragmático. O Lula é uma inteligência privilegiada e um grande administrador. Tem uma intuição muito poderosa. De forma que quando ele defendeu o Meirelles e o Jucá, na minha opinião ele sabia o que estava fazendo.

O sr. já esteve muito próximo da presidente Dilma. Depois, houve um certo afastamento.

Delfim Netto: Eu acho a Dilma, pessoalmente, absolutamente correta. Nunca tive nenhuma amolação com ela. Eu me separei, diminuí a minha presença, e ela também não me convidou mais. Mas em dezembro de 2012, quando houve aquela quadrangulação fantástica que transformou chumbo em ouro

Como assim?

Delfim Netto: Ela transformou a dívida pública, colocou recursos no BNDES, o BNDES pagou e virou superávit primário. Aí, na verdade, acho que foi o instante em que o governo atingiu uma situação muito delicada. Ela fez em 2011 um governo muito bom, em 2011 cresceu 3,9% , a inflação ficou no limite superior da meta…

A complicação econômica não veio de anos anteriores?

Delfim Netto: Não, ela estava só corrigindo algumas coisas do Lula. Tanto assim que a relação dívida-PIB caiu. Teve superávit primário, teve superávit fiscal. Ela começou a errar em 2012, quando fez a intervenção na energia, quando começou a fazer voluntarismo. Quando fez a intervenção na taxa de juros.

Mas ela já não influía nas decisões da Petrobrás antes?

Delfim Netto: Não, não tinha destruído ainda o setor energético, não tinha destruído o setor sucroalcooleiro. Aqui é uma coisa muito interessante, para a qual a gente deveria chamar a atenção. Dilma atingiu o máximo da sua popularidade no Datafolhaquando estava no máximo dos seus erros. Entrou em 2012 com aprovação elevada. Quando pôs a mão na energia elétrica a aprovação dela subiu 6 pontos. Quando pôs a mão no câmbio, na queda de juros, subiu mais 6 pontos…

O sr. quer dizer que ela entrou numa fase populista?

Delfim Netto: Esse é que é o problema central… quando você foca no curto prazo sem levar em conta o longo prazo. A aprovação da Dilma melhorou, quanto mais ela errava mais melhorava.

O senhor culpa as pesquisas?

Delfim Netto: Não. As pesquisas são ótimas porque mostram como você pode errar com conforto. Na minha opinião, a Dilma deixa uma lição para os futuros presidentes, para pessoas que têm responsabilidade. É que não se pode administrar olhando a aprovação de curto prazo. Tem que olhar o futuro.

Que conselho daria a Temer?

Delfim Netto: Ele é normalmente um homem muito cuidadoso. E a meu ver não tem nenhuma razão, hoje, pra se meter numa política voluntarista.

Se daqui a 180 dias o processo reverter e Dilma voltar ao governo, o que acontece?

Delfim Netto: Tudo vai piorar. Ou seja: pobre Brasil, vai ter que esperar 2018. A ideia de que a Dilma recupere o seu protagonismo, eu até gostaria, mas acho que é impossível.

Temer tem muito pouco tempo para mostrar a que veio. Ele deve olhar as pesquisas?

Delfim Netto: Não, o Temer não tem que olhar para pesquisas coisa nenhuma. Ele recebeu um presente de Deus, que pôs o dedo nele e disse: “Você é um político eficaz. Estou lhe dando a chance de ser um estadista. Você não tem mais passado, você só tem futuro. O seu futuro vai ser escolhido agora. Você vai fazer nesse curto prazo o que tem que ser feito. Plante carvalho ao invés de plantar couve”.
MICHEL TEMER, DELFIM NETTO E ROMERO JUCÁ
encontro ocorrido antes de Temer assumir a Presidência da República

Como ele vai tomar medidas duras e agradar ao Congresso?

Delfim Netto: Há no fundo uma mudança de concepção. O Congresso sabe que o que vinha sendo feito é impossível. Se continuasse assim, iria para o buraco. Se esse negócio agora não der certo, a probabilidade de essa gente se reeleger é zero. Em 2018 vão todos para casa. Você não pode ter o Brasil sem administração. Essa narrativa de que tudo o que existe é maldade é equivocada. A correção vai ser benigna.

No médio e no longo prazo?

Delfim Netto: Na reforma da Previdência, ninguém pretende dizer pro sujeito: “Você perdeu sua aposentadoria”. Não existe isso. Ou então: “Você perdeu a sua Bolsa Família”. Não existe isso. Você precisa de um governo ativo, que tenha comunicação não só com o Congresso, mas com a sociedade, para explicar o seguinte: “Eu não estou tirando o seu direito, estou tirando, na verdade, o parasitismo que tem nesse direito. Estou tirando aquilo de que grupos bem organizados se apropriaram e que você, brasileiro, paga”. Quer dizer, você vai ter que mostrar à sociedade que corrigir a aposentadoria é para poder continuar pagando aposentadoria. Que corrigir a vinculação é para poder melhorar a qualidade da administração e exigir eficiência. Terceiro, que continuar a usar o salário mínimo como um instrumento importante de redistribuição de renda só pode acontecer se eu eliminar o seu papel de indexador. Quarto, que eu preciso de uma liberdade de negociação entre trabalhadores e empregados. E por quê? Porque o sistema brasileiro pressupõe que o trabalhador é um idiota e que o empresário é um ladrão, então precisa ter um juiz no meio. Nada disso. Sob o controle do sindicato, deixe que trabalhadores e empregados coloquem na mesa transparentemente o futuro da empresa e discutam entre si como distribuir o excedente.

Essa receita, existe há vinte anos. Por que é que, desta vez, ela vai andar?

Delfim Netto: Porque a minha esperança é que o Temer continue sabendo fazer tricô com quatro agulhas.

*Antonio Delfim Netto é economista e professor. Formou-se, em 1951, pela Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP). Foi secretário de Finanças de São Paulo, ministro da Fazenda, ministro da Agricultura,  ministro-chefe da Secretaria de Planejamento da Presidência da República e embaixador do Brasil na França. Participou da elaboração da Constituição de 1988. É professor-emérito da FEA e sua área de especialidade é economia brasileira.
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Fonte: ESTADÃO.COM.BR – Direto da Fonte / Sonia Racy – Segunda-feira, 16 de maio de 2016 – 00h40 – Internet: clique aqui.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Robert Frankston, engenheiro: 'A tecnologia muda muito devagar



 "Quando você usa a palavra 'consumir', dá a ilusão de que pode esgotar isso. 
Não é a realidade", afirma Frankston 
- Monica Imbuzeiro / Agência O Globo

Um dos pioneiros da internet, americano esteve no Rio para 
uma conferência internacional sobre conectividade sustentável, 
promovida pela FGV

"Nasci no Brooklyn, Nova York. Estudei e fiz mestrado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Ao lado de Dan Bricklin, criei o VisiCalc, o primeiro programa de planilhas eletrônicas. Na Microsoft, trabalhei particularmente com redes domésticas. Estou online desde 1966."


Conte algo que não sei.

O verdadeiro desafio é dizer às pessoas o que elas acham que sabem. Quando você usa termos como "banda larga", não precisa saber o que isso significa para achar que sabe o que é. O problema é que, quando as pessoas acham que sabem, não questionam. É preciso ter cuidado com essas palavras, e elas são empregadas quando se decide sobre políticas de uso. Você não acessa a internet: você acessa um site, a internet é o meio para isso.


As pessoas confiam em aparelhos que não dominam?

As pessoas não percebem que poderiam entender muito mais sobre a internet. O desafio é tentar fazer as coisas serem mais simples, para que qualquer um possa fazer e escolher o que quer fazer. Isso significa empoderar as pessoas.

E qual é o primeiro passo?

Numa analogia com a direção na telecomunicação tradicional, você dependia de uma companhia telefônica, que seria a estrada, para fazer a mensagem chegar ao destino. A grande revolução foi descobrirmos uma outra abordagem, e a resposta é: se você cometeu um erro, pode tentar de novo, contornar isso com programação. Se aceitar esse risco, assumir essa responsabilidade, ganha poder e oportunidades, não vai para onde a estrada quer que você vá. As pessoas podem fazer muito mais.


Quais seriam essas outras possibilidades?

A internet poderia ser um médico monitorando a sua saúde, um monitorador do ambiente. Desligar as suas luzes de qualquer lugar, rastrear um animal, fazer ligações de graça. Ela permite um jeito totalmente diferente de construir coisas, de conectá-las. A questão é econômica. Mas se você tem a infraestrutura, pode fazer todas essas coisas porque a usa como uma tecnologia fundamental. A web é uma ótima ideia, mas é só uma das coisas que podemos fazer. Tudo o que está no meio, indústrias telefônicas ou esse modelo de negócio, poderia desaparecer. É bem menos caro do que achamos. Não é fácil, é um desafio.


Não precisamos de franquias de dados, por exemplo?

Isso é uma história que contam para assustar crianças antes de dormir. Você tem um fio. Como você consome um fio? Se você compra o mecanismo, você pode usar o quanto quiser, você é dono dele. Alguém tem o poder de impedir que você se comunique, por alguma razão. Quando você usa a palavra "consumir", dá a ilusão de que pode esgotar isso. Não é a realidade. Aceitando essa linguagem, você aceita a escassez.


Como foi o seu primeiro contato com um computador?

Meu pai trabalhava com conserto de televisões, cresci no meio desse mundo. Comecei a programar com 13 anos. Aos 16, eu estava no ensino médio, mas tinha um emprego criando um dos primeiros serviços de informação financeira online. Em 1966, levei um computer trunk para casa, para estar online e tratá-lo como computador pessoal. Olhava para a internet como projeto de escola.


Como é olhar para a tecnologia hoje, ver onde chegou?

Ela muda muito devagar. Muitas coisas melhoraram e ficaram mais baratas, mas ao mesmo tempo, o software e as pessoas não mudaram tanto. O mundo ainda está uma bagunça. Não há mágica. Existem vírus, “bugs”, questões de privacidade ainda são difíceis. O hardware (parte física do computador) melhorou muito, é muito mais poderoso. Mas ainda estamos descobrindo o que fazer com isso.

autorização. 

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Reportagem por  Clarissa Stycer

16/05/2016 

Fonte:http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/robert-frankston-engenheiro-tecnologia-muda-muito-devagar-19303293

Ainda podemos?

 

Os jovens acreditaram no “yes, we can change” de Barack Obama. Oito anos depois, querem mais mudança. De olho nas eleiçõesamericanas, o economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel, atribui peso decisivo ao voto da juventude nesta nova disputa presidencial. “Precisamos imaginar que é possível mudar esse sistema. E os jovens, sim, acreditam que outro mundo é possível”

Imagine um economista americano crítico aos excessos do capitalismo, às benesses concedidas aos bancos e aos privilégios das indústrias. Um liberal que considera obscena a concentração de renda pelo 1% dos mais ricos. Um intelectual sênior que, na casa dos 70 anos, afirma acreditar que é possível mudar o mundo, que os jovens farão a diferença e que os 99% terão vez. Dificilmente esse economista teria tanta voz, não fosse um detalhe: este economista é Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel, ex-Banco Mundial, autor de mais de 30 livros e laureado com mais de 40 doutorados honoris causa.

Stiglitz inspirou movimentos mundo afora a partir de uma ideia simples, mas radical: a desigualdade não é um destino selado por uma mão invisível e irrefreável, mas resultado de políticas concretas de quem está no poder.

Antes de se instalar na Universidade Columbia, em Nova York, Stiglitz passou por diversas universidades – na prestigiada Ivy League, teve passagens por Yale, Princeton e Harvard.
Apesar das críticas severas ao legado econômico do presidente Barack Obama, Stiglitz espera, otimista, um final feliz nas eleições americanas: “Estou confiante de que o próximo presidente será democrata”, aposta, na expectativa de que quem vá ocupar a Casa Branca promova políticas de redução da desigualdade. “É um novo momento de esperança, que deve ser aproveitado para criar uma nova agenda”, diz.

Stiglitz recebeu o Aliás no seu escritório no campus de Columbia, dias antes de embarcar para o Panamá, onde vai liderar um comitê que pretende avaliar o sistema financeiro do país após o escândalo revelado pelos Panama Papers. A seguir, a entrevista.

A revista do New York Times da última quinta (28/4) traz um especial sobre o legado econômico do presidente Barack Obama. Oito anos após a crise financeira internacional, o desemprego está na casa dos 5%, os déficits estão caindo, o PIB subindo. Que análise o sr. faz desse legado?
É um misto. Toda recessão tem fim, a menos, óbvio, que você administre muitíssimo mal a economia. Na época em que assumiu a presidência, Barack Obama encontrou uma bagunça gigantesca, a terrível herança deixada por Bush. Obama fez o possível, mas, no fim, não foi muito bem. Algumas de suas decisões impediram outra grave depressão, é verdade, mas a recuperação foi muito mais lenta e mais injusta do que o esperado. Nos três primeiros anos de seu governo, 91% de todos os ganhos foram para o 1% dos mais ricos. Os 99% não ganharam nada. Uma recuperação assim não é justa, nem benéfica. Mas assim foi, graças às políticas praticadas por Obama enquanto, por outro lado, políticas alternativas poderiam ter ajudado o americano médio a se reerguer também. 

E a situação agora?
A economia ainda está fraca. Na minha opinião, os 5% de desemprego não refletem a realidade. Outros índices consideram 10 ou 12% de desemprego no país, quer dizer, ninguém diria que o mercado de trabalho está bem. A Lei Dodd-Frank, que deveria promover uma real reforma do setor financeiro, não foi suficiente, e Obama não lutou tanto quanto deveria ter lutado para passá-la. Logo após a crise financeira ficou muito claro que precisávamos de uma reforma no setor financeiro. Mas Dodd-Frank não foi longe o suficiente. Em todas essas questões, é preciso considerar o que é “factível”. Nos dois primeiros anos de governo, os democratas dominavam o congresso e Obama podia ter feito muito, mas não fez. Dizem que Obama fez o máximo que pode, mas não estou convencido. O presidente escolheu mal seus conselheiros, muito próximos dos bancos, e no fim ficou mais inclinado a resgatar os bancos, deixando de lado a sociedade americana. Eles estavam julgando o que era factível, mas não concordo com esse julgamento. Na minha análise, o ponto mais crítico está nas políticas de comércio, que foram iniciativas próprias do presidente. O acordo Trans-Pacific Partnership (TPP), por exemplo, não é bom, pois representa uma mudança fundamental na estrutura jurídica que favorece interesses corporativos e eleva o preço dos remédios. Ironicamente, uma das principais conquistas do governo é o ObamaCare, que pretende diminuir preços e aumentar acessibilidade a serviços de saúde. Obama diz que a desigualdade é a questão mais importante da atualidade, mas, ironicamente, suas políticas econômicas não foram pensadas para reduzi-la.

Sua visão crítica sobre a globalização inspirou movimentos mundo afora, por exemplo, o altermundialismo na França e o Fórum Social Mundial no Brasil. Nos últimos tempos, Occupy Wall Street. Apesar das diferenças, os movimentos têm mensagem similar: a luta contra os excessos do capitalismo. Dá para imaginar mudar o mundo hoje?
Nós precisamos imaginar mudar o mundo, pois o que está aí claramente não está funcionando. Quando olho para os EUA, vejo as classes baixas lutando por salários minimamente dignos, a mesma questão de 60 anos atrás; vejo as classes médias vivendo com rendimentos menores que 40 anos atrás. Quer dizer, o capitalismo não está atendendo a grande parte da população. Mas se paramos para observar, isso não é realmente capitalismo. É um capitalismo extremo, uma economia de mercado distorcida pelos ricos para obter vantagens para si próprios às custas dos outros. Acredito no mercado e apoio o uso dos mecanismos do mercado para destinar condições melhores para a população. Mas da política resultou uma economia de mercado muito diferente dos livros teóricos. Há subsídios para fazendeiros ricos, benefícios para indústrias, bilhões de dólares para bancos, e o que mais? Nos EUA e ao redor do mundo, há um aumento do poder do mercado que não corresponde à competitividade descrita nos livros. Ora, precisamos fazer o mercado funcionar como mercado. E os governos precisam ter papel importante, garantindo infraestrutura, investigação científica, seguridade social. A antiga discussão era sobre o equilíbrio entre o Estado e o mercado. Na minha visão, é preciso pensar um equilíbrio entre Estado, mercado e terceiro setor (instituições sem fins lucrativos, universidades, sociedade civil). É repensar o funcionamento do sistema.

A mensagem de Bernie Sanders também reverbera a ideia dos 99%. Sanders teria chance de realmente promover mudanças?
Quem quer que seja nomeado pelo Partido Democrata terá uma batalha difícil. Temos um sistema político em que a representação dos ricos é desproporcional. Digo no livro The Price of Inequality (O Preço da Desigualdade) que grandes níveis de desigualdade econômica inevitavelmente se traduzem em grandes níveis de desigualdade política. Os ricos estão representados. E os outros? O dinheiro tem uma influência imensa na política americana. E é interessante que o candidato na liderança das primárias republicanas (Donald Trump) seja um magnata. Pode não ter tanto dinheiro quanto diz ter, pode ter quebrado umas de suas empresas, mas ninguém negaria que é um empresário rico que herdou muito dinheiro.

Mas o sr. acredita que o dinheiro pode render a presidência a Donald Trump?
Estou confiante de que o próximo presidente será democrata. Sempre há risco e acontecimentos imprevisíveis, mas ficou claro que o Partido Republicano perdeu o tom, em questões políticas e econômicas, e se distanciou da maioria dos americanos. É improvável que vençam. 

No livro The Great Divide, o sr. diz que desigualdade é uma escolha. No contexto dessas eleições americanas, qual é a melhor escolha?
Os dois candidatos democratas estão muito comprometidos com a questão da desigualdade, com diferenças de ênfase. Neste momento, Hillary Clinton provavelmente deve conseguir a indicação do Partido Democrata. E a desigualdade está na pauta dela. 

Um de seus últimos artigos no Guardian diz como os jovens têm direito de ficarem bravos neste momento, principalmente pela insegurança no mercado de trabalho.
Mas não só. Há muitas dimensões de desigualdade. Nos EUA, sempre refleti sobre o peso da discriminação de gênero e de etnia, a exclusão e a repressão racial. Mas uma dimensão que às vezes esquecemos é a desigualdade ao longo das gerações. Atualmente, diante da má administração do mercado financeiro, o fardo dos jovens é muito pesado. É alto desemprego na Europa – na Espanha, por exemplo, 50%. Os jovens não têm emprego. Se têm, o salário não corresponde às expectativas. Se querem uma casa decente, não podem pagar, pois as bolhas imobiliárias jogaram o preço das moradias para o alto. Nos EUA, a situação dos empréstimos estudantis é um problema enorme. Para ter oportunidades, eles se endividam para pagar por educação; educados, não conseguem emprego; empregados, não conseguem comprar uma casa. Então, sim, eles têm direito de ficarem bravos.

Os jovens podem definir essas eleições?
Acredito que sim. Nos últimos tempos, grande parcela da população jovem ficou alienada do sistema político. Obama se lançou com a campanha “yes, we can change” e conquistou muitos jovens. Era um vocabulário da audácia, da esperança, que captou a expectativa da juventude. Mas não teve mudança – claro, melhor Obama que Bush –, mas não teve a mudança maior que seus eleitores jovens esperavam. Muitos se sentiram enganados com a continuidade política. A sensação de que foram traídos é palpável. Nas eleições de 2010, vimos que o voto dos jovens correspondeu a apenas 20%. Nós nos orgulhamos da democracia americana, mas ali os jovens disseram: “tá, e daí?” Qual é o ponto se nada vai mudar? Até que, agora, a campanha de Sanders atraiu grande engajamento, participação, presença dos jovens. É um outro momento de esperança, que deve ser aproveitado para estabelecer uma nova agenda. Outra hora estávamos falando sobre mudar o mundo, pois, sim, os jovens acreditam que outro mundo é possível.

Sobre alternativas e possibilidades, a discussão sobre os Brics ainda é relevante? Ou o potencial desses países foi superestimado?
Foi uma ideia interessante, que teve como saldo instituições de desenvolvimento. Participei de reuniões na África do Sul sobre políticas de competitividade para os Brics. Na minha opinião, o principal ponto positivo é que esses países formaram uma iniciativa sul-sul, mudou o centro gravitacional geopolítico. Isso diz: o mundo está mudando. E a prova de que essa discussão é relevante é o incômodo dos EUA e das antigas potências sobre os Brics. O Brasil teve papel importante nessa consolidação. 

O sr. está acompanhando a crise no Brasil? O que deu errado?
Primeiro, eu diria: por que não lembrar o que deu certo? O Brasil teve conquistas ótimas que foram esquecidas diante da tempestade política atual: a extensão da educação e as reformas de Cardoso, a inovação, a participação democrática e os programas sociais de Lula que se tornaram um modelo no mundo inteiro. A força da sociedade civil, as políticas industriais, a inovação do biocombustível, a importância do BNDES – foram conquistas enormes. É uma mudança dramática pensar onde vocês estavam há 20 anos e onde vocês estão agora. Dito isso, a alta do preço das commodities deveria ter sido aproveitada para diversificar mercados, os juros excessivamente altos sufocaram a economia e, agora, as críticas ao BNDES... É um tiro no pé. Na minha visão, a partir do que leio na imprensa internacional, é que os deslizes da presidente são menores que os de muitos congressistas. É a famosa expressão “o sujo falando do mal lavado”. É um pouco perturbador para outsiders ver um impeachment liderado por um congresso corrupto. Que as conquistas dos últimos 20 anos resistam.
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- Atualizado: 07 Maio 2016 | 16h 01
Fonte: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,ainda-podemos,10000049679
 

A doença do amor

Luiz Felipe Pondé*
 
 
Existe de fato amor romântico? Esta é uma pergunta que ouço quando, em sala de aula, estamos a discutir questões como literatura romântica dos séculos 18 e 19. Quando o público é composto de pessoas mais maduras, a tendência é um certo ceticismo, muitas vezes elegante, apesar de trazer nele a marca eterna do desencanto. 

Quando o público é mais jovem há uma tendência maior de crença no amor romântico. Alguns diriam que essa crença é típica da idade jovem e inexperiente, assim como crianças creem em Papai Noel.
Mas, em matéria de amor romântico, melhor ainda do que ir em busca da literatura dos séculos 18 e 19 é ir à fonte primária: a literatura europeia medieval, verdadeira fonte do amor romântico. A literatura conhecida como amor cortês. 

Especialistas no assunto, como o suíço Denis de Rougemont, suspeitavam que a literatura medieval criou uma verdadeira expectativa neurótica no Ocidente sobre o que seria o amor romântico em nossas vidas concretas, fazendo com que sonhássemos com algo que, na verdade, nunca existiu como experiência universal. Dos castelos da Provence francesa do século 12 ao cinema de Hollywood, teríamos perdido o verdadeiro sentido do amor medieval, que seria uma doença da qual devemos fugir como o diabo da cruz. 

Para além dos céticos e crentes, a literatura medieval de amor cortês é marcante pela sua descrição do que seria esse "pathos" amoroso. Uma doença, uma verdadeira desgraça para quem fosse atingindo em seu coração por tamanha tristeza. André Capelão, autor da época ("Tratado do Amor Cortês", ed. Martins Fontes), sintetiza esse amor como sendo uma "doença do pensamento". Doença essa que podemos descrever como uma forma de obsessão em saber o que ela está pensando, o que ela está fazendo nessa exata hora em que penso nela, com o que ela sonha à noite, como é seu corpo por baixo da roupa que a veste, o desejo incontrolável de ouvir sua voz, de sentir seu perfume. Mas a doença avança: sentir o gosto da sua boca, beijá-la por horas a fio. 

Mas, quando em público, jamais deixe ninguém saber que se amam. Capelão chega a supor que desmaios femininos poderiam ser indicativos de que a infeliz estaria em presença de seu desgraçado objeto de amor inconfessável. A inveja dos outros pelos amantes, apesar de condenados a tristeza pela interdição sempre presente nas narrativas (casados com outras pessoas, detentores de responsabilidades públicas e privadas), se dá pelo fato que se trata de uma doença encantadora quando correspondida. 

Nada é mais forte do que o desejo de estar com alguém a quem você se sente ligado, mesmo que a milhares de quilômetros de distância, sem poder trocar um único olhar ou toque com ela. 

O erro dos modernos românticos teria sido a ilusão de que esse medievais imaginariam o amor romântico numa escala universal e capaz de conviver com um apartamento de dois quartos, pago em cem anos. 

Não, o amor cortês seria algo que deveríamos temer justamente por seu caráter intempestivo e avassalador. Sempre fora do casamento, teria contra ele a condenação da norma social ou religiosa que, aos poucos, levaria as suas vítimas à destruição, psicológica ou física. 

Para os medievais, um homem arrebatado por esse amor tomaria decisões que destruiriam seu patrimônio. A mulher perderia sua reputação. Ambos viriam, necessariamente, a morrer por conta desse amor, fosse ele em batalha, por obrigação de guerreiro, fosse fugindo do horror de trair seu melhor amigo com sua até então fiel esposa. Ela, morreria eventualmente de tristeza, vergonha e solidão num convento, buscando a paz de espírito há muito perdida. A distância física, social ou moral, proibindo a realização plena desse desejo incessante como tortura cotidiana. 

O poeta mexicano Octavio Paz, que dedicou alguns textos ao tema, entendia que a literatura medieval descrevia o embate entre virtude e desejo, sendo a desgraça dos apaixonados a maldição de ter que pôr medida nesse desejo (nesse amor fora do lugar), em meio à insuportável culpa de estar doente de amor.
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/05/1771569-a-doenca-do-amor.shtml
Imagem da Internet
 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A ideologia dos nossos dias


Só os medíocres precisam de uma ideologia para viver. Nós, os ingênuos, precisamos é de utopia.
Os ingênuos se dividem em duas categorias: poetas e filósofos. Os primeiros vão para Pasárgada, os segundos vão para a própria filosofia. Uma filosofia sem utopia é teoria, quase ciência. Ciência é para gente inteligente, filosofia é para criança, louco e … filósofos, inclusive religiosos. Mas a ideologia quer mesmo é pegar todo mundo. Ela é assim definida, para pegar todo mundo.

A ideologia tem a tarefa de dizer uma verdade tão verdadeira que engana. Diferentemente, a utopia diz a verdade exatamente porque sempre diz uma mentira. Mas a ideologia é matreira, e de uns tempos para cá, ela captou bem o espírito da utopia, e tem usado para seu próprio benefício. Se a utopia é a mentira que se sabe mentira e nem por isso é sem-vergonha ou cara de pau, a ideologia é agora a arte de usar isso como estratagema. A ideologia aprendeu a contar uma mentira e dizer que é mentira. Imita a utopia, mas se finge de metalinguagem que revela o que seria o real e, então, sendo realista, é exatamente a ideologia. O realismo, aliás, sempre foi uma ideologia, talvez a mais perversa.

Todas as propagandas, que são sobrinhas da ideologia, aderiram a essa nova forma de mentir dizendo que estão mentindo. Mas isso não é simplório: o truque é criar mil e umas formas de metalinguagem, de modo a trazer-nos para o interior do que seria um esconderijo e, então, abrir suas portas em revelação inusitada. Dá-nos, assim, a sensação de um pretenso insight, uma ludibriosa intimidade. Desse modo, o importante na propaganda é que se mostre como propaganda, deixando o espectador com a sensação de que ele está participando do truque da produção da propaganda e, desse modo, conhecendo o truque, não está sendo enganado.

O Itaú possui dois comerciais televisivos típicos dessa nova fase da propaganda. O comercial do cartão de compras para a Internet, aquele que gera um número apenas para uma compra, é um exemplo disso. Seu garoto propaganda é o Luciano Huck. Você vê o que aparentemente seria a gravação da propaganda, quando na verdade isso já é a propaganda – e isso lhe é claro. Não se trata daquele velho truque de você entrar pelos bastidores. Nada disso. O mecanismo é outro. Você sabe perfeitamente que Luciano Huck está ali já fazendo a propaganda, que é aquilo que aparentemente é uma conversa (com a moça que tem receio de fazer comprar na Internet) no contexto do seu making-of, já é a própria propaganda. A menina da propaganda diz ao final, “arrasei”, como se ela já não estivesse sendo mais filmada, apenas comentando com o Luciano que ela foi bem, que deu certo. Tudo é mostrado de modo que a linguagem traga junto a metalinguagem. Não pode então existir espaço para um truque, e então você se imagina inteligente, pois desta vez não tem como cair em algo adrede preparado.

Aquele comercial do vovô que usa o Itaú digital, carrega ainda mais esse estratagema. O vovô olha para a câmera e faz de você um interlocutor aparentemente escondido, criando uma intimidade entre você e ele, sem a participação da vovó e da neta. O vovô tem uma janela metalinguística para avaliar a propaganda junto com você, enquanto a propaganda se faz. E a própria janela é também parte da propaganda. Novamente a linguagem e a metalinguagem caminham juntas. Nesse caso, há o convite para você vir para o campo da total transparência, uma vez que você ganha uma posição privilegiada ao estar com um dos atores que faz a propaganda. Nenhum truque pode haver, pois você agora está, você mesmo, não vendo o making-of como propaganda, mas participando ativamente do making-of (que é a propaganda) ao ser o interlocutor, na propaganda, do vovô – e só dele, claro. Você participa da própria edição da propaganda, ao ser o interlocutor do vovô sem influenciar no comportamento da vovó e da neta.

Essas propagandas são diferentes daquelas da cena de uma situação familiar, em que o garoto propaganda conversa com você para lhe contar que vai fazer uma experiência com o sabão que lava melhor. Nesse caso, o garoto propaganda fala com você, você sabe, claro, que é propaganda, mas ele não introduz você e outros, inclusive garotos propagandas, no interior do mecanismo da confecção do comercial, a partir de uma posição privilegiada. Ele fala com você, mas sua posição é a de espectador que não vê ou participa do making-of. Não há qualquer metalinguagem ocorrendo no momento mesmo da linguagem. No caso da propaganda do vovô digital, é como você estivesse ali no interior da propaganda, podendo parar o tempo, falar com o vovô e ver toda a propaganda sendo construída com a sua própria participação.

A ideologia não está nessa introdução da sua presença, como espectador ou participante do making of que se torna propaganda. A ideologia se realiza ao fazer essa introdução sua aparecer desnudada. Assim, você deve ganhar a nítida sensação de que nada lhe foi escondido, que nada ficou nas entrelinhas do script ou em mensagens subliminares. Você participou da propaganda, da confecção dela, sem que isso tivesse de ser artificialmente montado por meio de uma terceira câmera que lhe introduziria no set de filmagem, de modo que o conjunto lhe fosse mostrado a posteriori.

Ter o total controle do espaço em que à aparência é trazida a aparência – isso é ter nas mãos o plano onde ocorre a política, ou seja, os jogos de poder, e portanto o óleo da ideologia. Seu olho tudo vê, nada lhe faz ingênuo. Você se torna clarividente, como no mundo do comunismo de Marx, onde por falta de mercado nenhuma ideologia existiria. Você sai da Caverna. Nada fica “por detrás”. O aparente aparece e o não aparente também. Você se sente como entrando para o Paraíso, em que Deus falava diretamente com os homens e não se instaurava nenhuma segredo e nenhuma vergonha. Nessa hora sublime, onde nenhuma ideologia parece caber, eis então é que a ideologia se realiza.

Não basta contar que a mentira é mentira, é necessário fazer você viver o construcionismo, ou seja, estar na linha de frente da produção do que você consome. O comercial é feito com uma participação de uma pessoa como você, mas não só, ele é feito por uma pessoa como você que está produzindo o comercial junto do Luciano Huck, e vocês dois estão também com os coadjuvantes (os outros garotos propagandas). Você está inserido na produção da propaganda, como um dos técnicos ali do set de gravação. Onde estaria escondido algo? Não pode haver ideologia, então. Nessa hora, a ideologia se fez. Toda a empatia com o produto se fez. Ele é honesto demais. Você mais que ninguém acabará por consumi-lo. A ideologia quer quer você faça o que ela quer, e você faz.
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Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo
Fonte:  http://ghiraldelli.pro.br/o-ideologia-dos-nossos-dias/
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Quando uma secretária é um local de trabalho e uma cama

Dai Xiang exige aos que trabalham consigo o mesmo que teve de fazer para chegar à sua actual posição. O empresário de 40 anos, natural de Pequim, começou a trabalhar como engenheiro numa empresa onde fazia turnos de 72 horas. Quando se mudou para a indústria tecnológica, passou 15 anos a dormir nos intervalos em cima da própria secretária. Não admira que uma das primeiras medidas que tomou quando abriu a sua empresa de computação tenha sido instalar 12 beliches numa zona recatada do escritório.

O sector tecnológico chinês está em forte e rápido crescimento, tão rápido que muitas empresas nem sempre têm tempo de contratar novos trabalhadores para ultimar os projectos que têm em mãos. O trabalho estende-se para além do horário habitual, pela noite dentro. O ambiente é bastante competitivo, mais até do que nos Estados Unidos, garante Cui Meng, fundador de uma empresa de dados. “Para aguentarem, [os trabalhadores] são autorizados a dormir à hora de almoço e depois das 21h00.” Quer seja na própria secretária ou num sofá do escritório. Nos casos mais extremos, alguns destes trabalhadores vivem mesmo nos escritórios.

Liu Zhanyu é um desses casos. Trabalha numa plataforma de recrutamento e recursos humanos e, nos dias úteis, fica a dormir numa sala de reuniões convertida em dormitório. Tudo para evitar o trajecto de cerca de uma hora desde a sua casa nos subúrbios de Pequim até ao escritório. Normalmente deita-se entre a meia-noite ou as três da manhã. “Temos de acordar as 8h30 porque os colegas chegam às 9h30 e nós lavamo-nos nas mesmas casas-de-banho que todos usam”, diz à agência Reuters. A outra face da moeda, a vida familiar, fica relegada para o fim-de-semana. “O meu filho sente a minha falta, quando chego a casa ataca-me como um pequeno lobo”, explica Liu sobre o filho de três anos que só vê aos sábados e domingos. “Sinto-me culpado.” 
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Fonte: http://www.publico.pt/multimedia/fotogaleria/quando-uma-secretaria-e-o-local-de-trabalho-e-uma-cama-361049#/0

quinta-feira, 12 de maio de 2016

"A filosofia está morta" - Stephen Hawking

"A tocha do conhecimento está com a física"

A filosofia está morta, declarou Stephen Hawking (foto). O escritor do best-seller "Uma Breve História do Tempo", que é considerado o mais renomado físico ainda vivo,  esteve na última conferência do Google Zeitgeist, em Hertfordshire, na Inglaterra.

Ele disse na conferência que as importantes questões do universo não podem mais ser resolvidas sem a ajuda da física e da tecnologia como aquela vista nos grande aceleradores de partículas.

Acrescentou esses campos não pertencem mais à filosofia, que é, para ele, uma linha de pensamento morta nos dias atuais. 

"Muitos de nós não nos preocupamos mais com essas perguntas, entretanto, questões como 'de onde viemos?' ou 'para onde vamos', que eram tradicionalmente questões filosóficas, hoje são recorrentes exclusivamente para a ciência", afirmou.

"Os filósofos atuais não têm estudado de acordo com as descobertas mais recentes da física, e por isso, a filosofia está morta."

O físico também diz que os cientistas estão se tornando cada vez mais os "detentores da tocha que ilumina as descobertas na nossa busca pelo conhecimento" e que as novas descobertas científicas nos levam a um patamar completamente novo quando pensamos em nossa razão de existência. 

Em uma palestra de 40 minutos, o professor disse estar vendo uma nova teoria do universo unificado, aquela que segundo ele até mesmo Einstein morreu buscando.

No final do discurso, Hawking compara essa teoria ao Google Earth, dizendo que a futura hipótese também funcionará como um mapa e que ela fará uso de tecnologias que nem mesmo o Google teria o conhecimento ou o dinheiro para custear. 

O kit religião

Contardo calligaris*
 
Para quem não ouviu falar disso, existe um projeto de lei (PL 679/2013, do deputado estadual Rodrigo Moraes, PSC-SP) que prevê a entrega de um kit bíblico para crianças do ciclo primário. Não sei como será o kit, mas entendo que ele terá textos impressos, vídeos etc. 

O projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (incrível), reprovado pela Comissão de Educação e está agora na Comissão de Finanças e Orçamento da Assembleia Legislativa de São Paulo. Se for aprovado por duas das três comissões, ele irá para o plenário. 

O deputado estadual Gilmaci Santos (PRB-SP), pastor evangélico, posicionou-se contra o projeto num artigo publicado na Folha em 2 de abril (folha.com/no1756706). 

O argumento do deputado Gilmaci é que o Estado é laico e a escola deve ser laica. A educação religiosa compete à família, não ao Estado. Além disso, a distribuição de um kit cristão abriria um precedente: todas as religiões presentes no Estado de São Paulo exigiriam com razão que seu próprio kit fosse também distribuído. Cada criança deveria receber o kit cristão (na verdade, vários: um católico, um protestante, um mórmon, um adventista etc.), um kit espírita, um kit da religião afro-brasileira, um kit judeu, um kit muçulmano, um kit mórmon, e kits hoasquerio, hinduista, bahá'í, budista, etc. 

Menos do que isso tornaria o projeto de lei contrário à Constituição (sobretudo Título 2, Capítulo 1).
É por isso tudo que sou favorável à distribuição do kit bíblico aos alunos das escolas públicas e privadas –porque, inevitavelmente, o kit virá com outros, um por cada religião, e conhecer a pluralidade e a variedade das crenças religiosas talvez seja o melhor jeito de provocar nas crianças um ceticismo salutar. 

Assisti ao filme "Os Dez Mandamentos" no shopping Bourbon, em São Paulo, numa sala quase vazia e misteriosamente "esgotada". Os trailers que precediam o filme tinham sido selecionado para o público cristão. Isso, com a exceção de "Deuses do Egito", que algum distribuidor desavisado considerou bom para o mesmo público dos "Os Dez Mandamentos". 

O efeito era paradoxal. No trailer, você via deuses com uma mistura dos superpoderes dos X-men com truculentas paixões humanas (raiva, vingança, rivalidade etc.). A seguir, Iavé parecia igual: brigava com o Faraó, mandava perebas, fazia chover fogo, matava primogênitos, afogava exércitos e de vez em quando aparecia como um arbusto ardente, que não é muito melhor do que a cabeça de pássaro de Horus. 

Em suma, o trailer de "Deuses do Egito" deixava o cristão com a curiosa sensação de que seu deus era mais um –sim, claro, aquele que ganhava na briga com o faraó e os outros deuses daquelas terras, mas, mesmo assim, um entre outros. 

Voltemos ao Projeto do kit. Quando li o artigo de Gilmaci Santos, pensei que a pluralidade das religiões teria um efeito contrário a qualquer doutrinação. E que essa pluralidade era toda a proteção da qual nossas crianças precisavam. Só mais tarde, dei-me conta de que, vítima da religiosidade dominante, eu estava me esquecendo de algo essencial. 

Segundo o censo de 2010, as pessoas que se declaram ateias ou agnósticas (ou ainda que acreditam em algo divino, mas em nenhuma suposta revelação) são mais de 8% da população brasileira. Esse grupo, cuja percentagem quase dobrou em dez anos, é o terceiro mais numeroso depois dos católicos e dos evangélicos. 

Mundialmente, os que não se reconhecem em nenhuma religião são mais de 20% –também o terceiro grupo depois dos cristãos (juntando todas as denominações) e dos muçulmanos. 

Se o Projeto de Lei do kit bíblico fosse aprovado, seria preciso decidir se os não religiosos teriam o direito constitucional de presentear as crianças com seu proprio kit (mostrando, por exemplo, que é possível ter uma vida moral e plena sem religião alguma). Ou seja, pergunta: os não religiosos são protegidos pela mesma disposição constitucional que garante a liberdade de religião? 

O nosso Supremo ponderará, mas é bom notar desde já que a Suprema Corte dos EUA decidiu que a Constituição protege da mesma forma "o direito de escolher qualquer fé religiosa e o de não escolher nenhuma". 

Nota: a questão é urgente. Além do projeto do kit bíblico, existe uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que daria às igrejas o poder de oferecer questionamentos ao Supremo Tribunal Federal. 
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*Italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2016/05/1770200-o-kit-religiao.shtml
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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Qual a saída política?

 Frei Betto*
 
A deposição de Dilma me cheira a golpe parlamentar, à semelhança do que ocorreu em Honduras e no Paraguai. O governo dela, neste início do segundo mandato, não corresponde ao êxito alcançado no primeiro. Contudo, foi democraticamente eleito e eu, que o critico, não cedo ao oportunismo que se empenha em quebrar os limites entre oposição e deposição.

Aceitar que antipatia e fracasso administrativo devam ter mais peso que princípios constitucionais é admitir o retrocesso, e jogar o Brasil e a América Latina na cartografia das "repúblicas de bananas”, tão em voga no continente na primeira metade do século XX.

Meu desconforto é óbvio. Não vejo saída para a emancipação brasileira dentro de nossa atual institucionalidade política. Eleições gerais? Seria uma boa medida se um Tiririca não pudesse alçar ao parlamento figuras que se valem da distorção do quociente eleitoral sem sequer terem contado com os votos da própria família!

E, entre tantos candidatos, quem encarna um programa consistente de reformas estruturais? Vale trocar o seis por meia dúzia?

Tivesse o PT valorizado, ao longo dos últimos 13 anos, as lideranças populares de esquerda, hoje teríamos um Congresso progressista e com muito menos figuras ridículas. No entanto, preferiu alianças não confiáveis das quais agora é vítima.

As forças políticas progressistas precisam se redefinir no Brasil. Estabelecer um programa mínimo de libertação nacional, sem o que continuaremos reféns dessa política de efeitos, e não da política capaz de alterar as causas das anomalias nacionais.

É preciso romper o ciclo viciado da política de resultados e redefinir uma política de princípios capaz de mirar além das urnas, do neoliberalismo e dessa fase histórica do capitalismo.

Se a esquerda brasileira não resgatar a utopia libertária, nosso horizonte ficará limitado a este ou aquele candidato, num círculo dantesco de êxitos e decepções, avanços e recuos.

A idade adulta de democracia tem nome: socialismo. Mas de tal maneira o inimigo esconjura tal nome, que temos medo de pronunciá-lo. Ainda não nos recuperamos da queda do Muro de Berlim. 

Coramos de vergonha frente ao capitalismo de Estado adotado pela China e o hermetismo idólatra da Coreia do Norte.

Ora, não se trata de suportar o peso da culpa de tantos erros cometidos pelo socialismo, embora a América Latina abrigue a única experiência vitoriosa, Cuba. Trata-se de dissecar a verdadeira face do capitalismo repleta de atrocidades, misérias, exploração neocolonial, guerras e degradação ambiental.

Qual é o "outro mundo possível”? Onde estará a senda do "bem viver”? O caminho se faz ao caminhar. E uma certeza eu guardo: fora do mundo dos pobres e de seu protagonismo político os progressistas sempre correrão o risco de segurar o violino com a esquerda e tocá-lo com a direita.
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Escritor e assessor de movimentos sociais 
Twitter @freibetto
http://www.freibetto.org/ 
Fonte:  http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=88856
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