domingo, 12 de junho de 2016

FERNANDO PESSOA: Poema inédito de Fernando Pessoa é encontrado em caderneta

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Revelação é feita por biógrafo na véspera 
do dia de aniversário do poeta


José Paulo Cavalcanti Filho*

12/06/2016 6:00 

A descoberta de um inédito. Quem escreve sobre algum autor, durante longo tempo, sempre sonha encontrar um inédito dele. Pelo só prazer de ter feito a descoberta. Ou por imaginar que o destino conspirou para que assim tenha sido. Este caso de agora é curioso. Trata-se de um caderno de autógrafos que vai trocando de mãos. Sem que nenhum dos seus anteriores proprietários se tenha dado conta de que o texto de Pessoa, ali escrito, era mesmo um inédito. Talvez porque, em 2005, algo que seria um como que rascunho dele tenha sido publicado em Poemas de Fernando Pessoa, 1915-1920, numa edição de João Dionísio para a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, em Portugal. Pensava-se, era mesmo natural, que seria o tal poema sem título que começa pelo verso Cada palavra dita é a voz de um morto. Mas desse rascunho, publicado antes, Pessoa manterá só os dois primeiros versos.

E outros dois, em seguida. Os demais foram reescritos – em alguns casos, alterando radicalmente o próprio sentido original do texto. Ou foram excluídos. Com numerosos acréscimos. Tudo a resultar em algo novo. Para compreender como isso aconteceu, é preciso O caderno de couro vermelho. Em 29 de janeiro de 1913, o jovem José Osório de Castro e Oliveira está No alto mar, a bordo do König Wilhelm II – assim, com letra desenhada de quem acabara de fazer 13 anos, escreve na primeira página daquele caderno.

Presente de sua mãe, Ana de Castro Osório (pioneira na luta pela igualdade dos sexos, em Portugal), por ocasião do aniversário de seu filho Jeca (apelido pela qual o chama), ocorrido há dois dias. Como recordação de sua viagem de regresso à formosa Terra da Pátria, escreve ela. O pai, Paulino e Oliveira, poeta e ativo membro do Partido Republicano, depois de frustrada rebelião em que participou, está residindo no Brasil (onde morreria pouco depois, de tuberculose, em 13 de março de 1914). Apenas mãe e filho viajam, de volta a Portugal.

No alto dessa primeira página está um selo do Deutsches Reich (com carimbo da Linie Hamburg Südamerika, de 30 de janeiro de 1913). E pouco abaixo, escrito à mão, Livro de Autógrafos. No canto inferior esquerdo há hoje, colado, um ex-libris com desenho de castelo cristão medieval com quatro torres e a inscrição, numa bandeira, Força na Paz.

Colada posteriormente, tem-se a impressão. Dado refletir sentimento comum no país a partir da Primeira Guerra, sobretudo. Marca pessoal do José Osório, talvez (a conferir). Seja como for, era mesmo algo então natural, dado ser o ex-librismo usado com frequência no século XIX/princípios do século XX.

Em consulta ao Serviço do Correio Imperial Alemão, se vê que essa companhia transatlântica usava dois grandes navios na rota América do Sul (Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro) – Europa (Lisboa, Hamburgo). O König Friedrich August e o dito König Wilhelm II. A imprensa de Lisboa anunciou em 1º de fevereiro de 1913, um sábado, que este último estava no porto. Vinha do Rio. E seguiria, depois, na direção da Alemanha. Ali, nas gares marítimas de Alcântara, desceram José Osório e sua mãe.

Curioso é que a bordo desse mesmo König Wilhelm II Fernando Pessoa, em férias sabáticas do padrasto, veio pela primeira vez de Durban para Lisboa. Malhas que o Império tece!, disse n’O menino de sua mãe. O jornal O Século de 14 de setembro de 1901 (pág. 4) faz constar: No navio alemão König, vieram de Durban o cônsul [João Miguel dos Santos] Rosa e 3 filhos – que seriam Pessoa (com 13 anos), a irmã Teca (com 5) e o irmão Luiz (com 2). Faltaram, nessa relação, a mãe de Pessoa, dona Maria Magdalena Pinheiro Nogueira; a ama Paciência; e também, para serem enterrados em Portugal, os ossos (ou talvez fossem as cinzas) de uma irmã morta de Pessoa, Magdalena Henriqueta.

Anotações. O jovem José Osório começa, então, a colecionar depoimentos de viajantes daquele navio. Quase todos desconhecidos. Uma argentina, R. (mais sobrenome ilegível), o chama de simpático portuguesito (29 de janeiro de 1913). Outra, Maria Lia Lobo, de simpático compañero (31 de janeiro de 1913). Um argentino, J. Auber, escreve conselhos si tu veux devenir um bonito rapaz (31 de janeiro de 1913). Há mais, no caderno, instigante coincidência. Uma anotação, de 1º de fevereiro de 1913, dirigida Ao meu sobrinho adoptivo José Osório. Assinada por Manuela Nogueira. Uma homônima da sobrinha verdadeira de Pessoa, autora bem conhecida em Portugal. Inquirida sobre esse fato, declarou dona Manuela Nogueira jamais ter ouvido falar de alguém que tivesse o seu mesmo nome. Fica o mistério. Como ensina uma das Regras da Vida de Pessoa, Felizes aqueles para quem o mistério se resume em Padre, Filho e Espírito Santo. Deles é a felicidade.

O menino cresce. Nascido em Setúbal (27 de janeiro de 1900), ainda cedo José Osório se destaca como jornalista, crítico literário e ficcionista. Mais tarde se tornaria escritor de renome, com prefácios usualmente assinados por seu irmão João de Castro Osório. Primeiro ensaio foi Oliveira Martins e Eça de Queiroz (1922). Depois, mais dez livros. Inclusive, editado no próprio ano de sua morte (Lisboa, 3 de dezembro de 1964), História breve da literatura brasileira. Em 1917, já com 17 anos, dá início a publicações literárias nas páginas do jornal A capital. A partir dos anos 1930, torna-se um divulgador da literatura cabo-verdiana e defensor da aproximação entre Portugal e Brasil. Casado com a escritora Raquel Bastos, em 1930, sua filha Isabel (Maria Bastos Osório) de Castro (e Oliveira) foi atriz de sucesso, com vários prêmios no teatro e na televisão, tendo participado em cerca de 50 filmes.

Novas anotações. A partir de 1915, José Osório decide aproximar-se das letras. E usa seu caderno para colher mais depoimentos. Como, sem data, o de Carmem de Burgos (e Segui, Almería, 1867 – Madrid, 1932), que discorre sobre o interesse pela arte. Carmem – jornalista, escritora e ativista dos direitos da mulher espanhola – era, certamente, próxima da mãe de José Osório, Ana Castro. (Artur Ernesto de Santa) Cruz Magalhães (Lisboa, 1864-1928) deixa (também sem data) enigmática frase – Ser bom é saber sofrer.

Talvez uma reflexão sobre sua própria vida. Cruz Magalhães, com numerosos livros publicados, é responsável (sem colaboração do governo) pelo magnífico Museu Bordalo Pinheiro, instalado num anexo de sua residência – na Rua Oriental do Campo 28 de Maio (atual Campo Grande), em Lisboa. E veio a morrer, pouco depois, sem jamais ter tido o reconhecimento que imaginava merecer. Contando-se ainda, nessa relação, três nomes importantes do “Primeiro Modernismo” – que nasceu com a geração da revista Orpheu. A Luiz de Montalvor. Em 1917, Montalvor escreve, no caderno, sobre tempos anteriores à Restauração Portuguesa. E finda com essa afirmação: Filippe II foi o Rembrandt do claro-escuro da Morte... Luiz da Silva Ramos, seu nome verdadeiro, foi assessor de Bernardino (Luís) Machado (Guimarães), Ministro Plenipotenciário de Portugal (em 1912-1915) no Rio de Janeiro, cidade em que nasceu. O mesmo Bernardino que, depois, foi Presidente da República por duas vezes – em 1915/1917 e 1925/1926. Um carioca Presidente de Portugal... Pessoa, que tinha opiniões críticas sobre nosso país (E tu Brasil,“república irmã”, blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir – assim disse no Ultimatum), deve ter se divertido com isso. Montalvor, que dirigiu (foi, também, responsável pela introdução) o primeiro número da revista Orpheu, depois dirigiria a revista Centauro. E seria responsável, juntamente com João Gaspar Simões, pela edição das Obras Completas de Pessoa, pela Editora Ática, sete anos depois da morte do amigo – por ele definido como O Ícaro de um sonho. Mais tarde (2 de março de 1947), em gravíssima crise financeira e com problemas familiares, lança-se com seu carro no Tejo. Junto com mulher e filho.

Augusto Ferreira Gomes. Em maio de 1917, Gomes deixa no livro seu poema Hydromel, que começa pelo verso Meu elmo já não brilha em tardes de parada. Augusto Ferreira (de Oliveira Bogalho) Gomes foi administrador das minas do Porto de Mós, jornalista, especialista em artes gráficas e também poeta que escreveu para as revistas Orpheu 3 (que nunca seria editada), Contemporânea e Athena (dirigida por Pessoa). Seu livro Quinto Império teve prefácio escrito por Pessoa. Acabaram se aproximando a partir do interesse de ambos pelo misticismo. Ou pela crença comum na Utopia do Quinto Império. E continuaram amigos, em Lisboa, inclusive depois que Gomes passou a ter relações mais próximas com o primeiro ministro António de Oliveira Salazar. Enquanto Pessoa, ao tomar as dores da Maçonaria, escrevia poemas (censurados) como Liberdade (em 16.3.1935), dizendo que Mais que isto/ É Jesus Cristo/ Que não sabia nada de finanças – sutil crítica àquele que um dia foi professor de Ciências da Finanças, em Coimbra. Ou esse (um dos três escritos em 29 de março de 1935, com título único de Salazar), assinado pelo heterônimo Um Sonhador Nostálgico do Abatimento e da Decadência – nome inspirado em discurso de Salazar, na entrega dos prêmios (em 21 de fevereiro de 1935) num concurso em que Mensagem ganhou o Prêmio Antero de Quental para poesias curtas:

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, com os diabos!
Parece que já choveu.

Luiz Pedro Moitinho de Almeida era filho do patrão de Pessoa na Casa Moitinho, onde foi escrita a Tabacaria. Essa tabacaria, só para constar, era a Habaneza dos Retrozeiros – situada na esquina da Rua da Conceição (então dos Retrozeiros) 63/65 com a Rua da Prata 65. Onde hoje está a Pelaria Pampas, especializada em vender artigos de couro argentino. E não A Morgadinha (como consta na maioria dos textos portugueses), situada esta na Rua Silva Carvalho 13/15. Bem próxima do apartamento de Pessoa. O engano se deve aos versos Janelas do meu quarto/ Do meu quarto de um dos milhões do mundo... Algo mesmo natural, posto que seria das janelas desse quarto que saudava o amigo íntimo (Joaquim) Esteves, à porta daquela tabacaria, em conversa com seu proprietário (Manuel Alves Rodrigues). Mas se trata de algo impossível. Porque o quarto em que dormia Pessoa na Rua Coelho da Rocha 16 (em Campo de Ourique), para evitar o frio responsável por suas frequentes crises de gripe, nunca teve janelas. Como confirmaram sua sobrinha Manuela Nogueira (que ocupava o quarto da frente, aquele com janelas) e António Manassés (filho do barbeiro de Pessoa – que acompanhava o pai quase todos os dias àquele quarto, para a barba).

E nem poderia, mesmo. Porque dita A Morgadinha seria constituída só em 3 de junho de 1958 (registro 32.082 na Conservatória do Registro Comercial). Enquanto o poema foi escrito bem antes, em 1928 (publicado, em junho de 1933, no número 39 da revista Presença). Voltando a Luiz Pedro, é dele o depoimento de que O Augusto Ferreira Gomes deixou-me a impressão de ser o melhor amigo de Pessoa – ou, pelo menos, aquele com quem Pessoa mais frequentemente privava.

Augusto participaria, também, no estranho episódio do suicídio do mago inglês Aleister Crowley. Nascido Edward Alexander Crowley, em criança cuspia na água benta e martirizava moscas para desafiar Deus. Consta que matou um indígena, no Oriente, para sentir o prazer de gosto para ele até então desconhecido. Um místico e charlatão que chegou a ser considerado, pelos jornais britânicos, o pior homem da Inglaterra. Crowley veio a Portugal, em 2 de setembro de 1930, para se encontrar com Pessoa – quando estava era em fuga dos credores pela falência da sua editora, a Mandrake Press. E ter-se- ia, segundo o Diário de Notícias de Lisboa (27 de setembro), suicidado no Mata-cães de Cascais. O mesmo Augusto (ligado ao jornal), em divertida trama com a participação de Pessoa, declarou ter encontrado, no local do (suposto) suicídio, uma cigarreira que seria do Mago (na verdade emprestada, para a encenação, pelo cunhado de Pessoa, Caetano Dias – que a comprara em Zanzibar). E um bilhete, em papel timbrado, do primeiro dos hotéis em que ficou (o L’Europe). Escrito por códigos e assinado Tu Li Yu. Quando Crowley, em 23 de setembro, atravessava placidamente a fronteira de Vilar Formoso, na direção da Alemanha – onde já estava, à espera, sua amante (de 19 anos) Hanni Larissa Jaeger.

O poema de Fernando Pessoa. A última página do caderno foi escrita por Pessoa. Ele e José Osório foram bons amigos, pela vida. Ficaram na Arca (de Pessoa) cópias de duas cartas que lhe escreveu. Uma de 14 de maio de 1932, em que Pessoa promete-lhe artigo sobre Goethe. E outra, sem data (mas seguramente de 1932), respondendo pergunta de José Osório: Quais foram os livros que o banharam numa mais intensa atmosfera de energia moral, de generosidade, de grandeza de alma, de idealismo? Pessoa diz terem sido, Em minha infância, e primeira adolescência... Pickwick Papers, de Dickens... Em minha segunda adolescência,... Shakespeare e Milton, assim como acessoriamente, aqueles poetas românticos ingleses... talvez Shelley, aquele com cuja inspiração mais convivi. E, no que posso chamar de terceira adolescência a... Dégénérescence, de Nordau. Findando a carta com indicação, escrita por Pessoa, de que O paradoxo é meu: sou eu. Sem mais notícias da relação entre os dois. Sabe-se, apenas, que José Osório não foi ao enterro de Pessoa (em 2 de dezembro de 1935, no Cemitério dos Prazeres).

Cada palavra dita é a voz de um morto, assim começa o poema. Difícil imaginar em que pensava, quando escreveu o verso. Talvez se lembrasse da já vasta legião de perdas que o assustavam: Os fantasmas de meus mortos eus, como definiu em The mad fiddler. O pai morre tuberculoso, em Lisboa, quando tem apenas cinco anos (1893). O irmão Jorge (1894), também tuberculoso, sem ter um ano de vida. A avó materna, Magdalena Pinheiro Nogueira (1896), na Ilha Terceira. O tio Manuel Gualdino da Cunha (1898), em Pedrouços. Duas irmãs – Magdalena Henriqueta (1901), em Durban; e Maria Clara (1906), em Lisboa. A querida avó paterna Dionísia (1907), que sofria de “loucura rotativa”, no hospício de Rilhafoles. A mãe do padrasto, dona Henriqueta Margarida Rodrigues (1909), numa casa de saúde em Belas. A tia-avó Maria e a tia-avó Adelaide (1911), em Lisboa. O amigo Sampaio Bruno (1915), em Lisboa – o mesmo que, para Pessoa, morreu logo que morreu. A tia-avó Rita (1916), em Pedrouços. E, finalmente, o querido Sá-Carneiro (Lisboa, 1890 – Paris, 1916), sua mais sólida e duradoura amizade. A Pessoa deixou bilhete, quando se suicidou no Hotel de Nice (hoje des Artistes), na zona do Butte Montmartre, em 26 de abril:

Um grande, grande abraço do seu pobre Mário de Sá Carneiro. Pessoa lhe dedica poema (Sá-Carneiro) em que diz Éramos só um.

O tema de morte é recorrente, na obra de Pessoa. Alguns exemplos, só para constar. A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida! (Passagem das horas, Álvaro de Campos). Agora que estou quase na morte vejo tudo já claro (Dois excertos de ode, A.C.). Não sentem o que há de morte em toda a partida./ Do mistério em toda chegada,/ De horrível em todo o novo (Nuvens, A.C.). Sou já o morto futuro,/ Só um sonho me liga a mim –/ O sonho atrasado e obscuro/ De que eu devera ser – muro/ Do meu deserto jardim (O Andaime, Fernando Pessoa).

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços/ E chama-me teu filho (Abdicação, F.P.). Primeira Veladora: Por que é que se morre?/ Segunda Veladora: Talvez por não se sonhar o bastante (O marinheiro, F.P.). Muitos outros. Como, agora se vê, está nesse poema inédito. Superior. À altura do melhor Pessoa. E que segue, aqui, como prova de devoção.
Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou,
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou;
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.
19.IX.1918.
* José Paulo Cavalcanti Filho é autor de “Fernando Pessoa, uma quase autobiografia” (Record).
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Fonte:  http://oglobo.globo.com/cultura/livros/poema-inedito-de-fernando-pessoa-encontrado-em-caderneta-19488341

sábado, 11 de junho de 2016

ADELA CORTINA: "Não são os mais pobres que violam as regras".


"Não são os mais pobres que violam as regras", diz filósofa Adela Cortina Diego Vara/Agencia RBS
Adela Cortina na Faculdade de Economia da UFRGS, onde fez palestra na última 
semana de maio Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Catedrática espanhola fala de ética, da crise dos refugiados na Europa e da necessidade de ver a política como ferramenta para o bem comum 

Por: Cadu Caldas
11/06/2016
 
A espanhola Adela Cortina talvez não tenha percebido, mas realizou um feito quando esteve em Porto Alegre na última semana de maio. Convidada para palestrar na Faculdade de Economia da UFRGS, uma das filósofas mais influentes da atualidade conseguiu manter todos da plateia longe dos smartphones. Ao falar sobre moral e ética, seu campo de estudo, a pesquisadora nascida em Valência, em 1947, deu ao público – formado em sua maioria por jovens – a oportunidade de retomar um hábito alicerçado por Platão e Aristóteles, mas aparentemente perdido em tempos modernos: sentar e simplesmente ouvir.
 
Com sotaque carregado e voz firme, a filósofa, catedrática de Ética na Universidade de Valência, falou sobre temas bastante atuais, como corrupção, imigração e xenofobia, e comentou também sobre suas principais obras. A mais famosa delas, Ética Mínima, escrita na década de 1980 no contexto de uma Espanha dividida por projetos diferentes de Estado, trata justamente dos desafios e tentativas de encontrar pontos mínimos de diálogo – uma lição útil para o Brasil de hoje, marcado pela polarização e intolerância política.
Em conversa com ZH, Adela não se furtou a falar ainda sobre violação de leis, educação de valores, da onda migratória vivida pela Europa e da "aporofobia" – palavra que criou para designar o "ódio e desprezo pelos estrangeiros pobres".

Faz 30 anos que a senhora publicou o seu primeiro grande livro, chamado Ética Mínima, escrito no contexto de uma Espanha dividida por éticas incompatíveis. A dificuldade de se lidar com sociedades moralmente plurais, que hospedam projetos conflitantes, é comum também a democracias como o Brasil. Como construir uma ética mínima em sociedades moralmente divididas?
Na Espanha parecia que havia éticas incompatíveis, mas não era assim. Conviviam diferentes "éticas de máximos", ou seja, distintas propostas de vida feliz, como algumas de fundo religioso. No entanto, essas éticas compartilhavam em realidade uma "ética mínima", uma aspiração para realizar valores como a liberdade, uma maior igualdade, a solidariedade, o diálogo e o respeito. O livro tratava de extrair esses valores compartilhados à luz para que nós, os cidadãos, nos déssemos conta de quais eram os nossos valores e de que tínhamos que lutar por eles. Acredito que no Brasil pode acontecer algo muito parecido e que é preciso também que vocês descubram esses valores compartilhados.

Na sua Ética de la razón cordial (livro de 2007), a senhora defende a importância de promover a autonomia das pessoas. Como fazer isso no cotidiano?
Descobrindo o que nos escraviza e nos liberando do que for. Para conseguir isso é preciso estabelecer redes de solidariedade, porque a autonomia se conquista em solidariedade com os outros.

É uma tarefa dos governos? Será que governos devem ser preocupar em criar cidadãos? Isso não seria o fim dos Estados liberais?Educar na autonomia é justamente a tarefa dos Estados liberais, porque consiste justamente em cultivar a capacidade das pessoas de serem senhores ou senhoras de seus próprios destinos.
Em setembro de 2015, Adela Cortina recebeu o título Doutora Honoris Causa da Universidade de Alcalá, na Espanha Foto: Universidade de Alcalá divulgação / Arquivo pessoal
 
A senhora afirma em Ética de la razón cordial  que "ser seu próprio senhor no político quando se é vassalo no econômico é na realidade impossível". Como realizar então a autonomia política em regimes capitalistas que convivem com altos níveis de pobreza e desigualdade?
Por um lado investindo na educação das pessoas, e por outro trabalhando por uma economia ética, empenhada na melhoria da vida das pessoas e na redução das desigualdades. Neste ponto, a ética das empresas, materializada em sua Responsabilidade Social Corporativa, junto com a tarefa dos governos, é central.

Deve uma ética cívica ser objeto comum de uma nação ou deve ser ela transnacional, ultrapassando as fronteiras dos países?Ela já está sendo transnacional. Em um mundo global, nós que vivemos em países diferentes vamos contagiando-nos em nossos valores, quer queiramos ou não. Por isso é fundamental contagiar em valores positivos como a justiça, a liberdade e a solidariedade, e não os contrários a esses.

É possível falar em um pilar ético europeu, assim como falamos em uma unidade monetária entre os países ou há uma incongruência natural?
A União Europeia se deu uma Carta de Direitos, na qual se incluem os seus valores mais apreciados. Esse deveria ser na realidade o coração da Europa: a Europa social, a que defende os direitos civis e políticos, econômicos, sociais e culturais.

Segundo seu entendimento, existe um abismo entre "moral pensada" das pessoas (o que elas dizem que é importante) e "moral vivida" (como elas alocam seu tempo). Por que os atos das pessoas não estão à altura de suas declarações? Por que as pessoas não praticam o que dizem?
Porque a ideologia do individualismo, que se prega em nossas sociedades, ajuda a cultivar a dimensão mais egoísta das pessoas, quando, na realidade, o que nos faz mais felizes é viver as relações com os outros na sua plenitude.

O que podemos fazer para não perpetuarmos nas gerações futuras esse abismo entre a moral pensada e a moral praticada?Precisamos estar mais atentos para o fato de que uma declaração é também um compromisso. Declarar é comprometer-se. Como diminuir essa distância é uma pergunta que me faço e acho que todos devemos fazer a nós mesmos. Creio que uma boa maneira de começar é implantar na escola uma disciplina de ética. E também em todas as carreiras. Na faculdade de economia, por exemplo, deveria haver cadeiras de ética. Todo mundo se pergunta: filosofia para quê? Mas ninguém se pergunta: economia para quê? Qual deve ser a meta da atividade econômica? Tem um professor, amigo meu, que costuma dizer: os alunos não entendem que um tema é importante para o exercício da profissão se não estiver no currículo.

Com o amigo Guillermo Hoyos, o filósofo colombiano mais importante do século 20, morto em janeiro de 2013 Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal
 
No Brasil, ficou famosa a expressão "jeitinho brasileiro", que sintetiza a fórmula mágica e criativa dos brasileiros para resolver os problemas cotidianos, muitas vezes burlando regras. Em que medida isso revela uma falta de conduta ética intrínseca do brasileiro ou um reflexo de atraso, uma forma de sobrevivência em um país tão marcado pelas desigualdades?
No Brasil, assim como na Espanha, burlar as regras é habitual, mas isso se deve a que as pessoas melhor posicionadas na sociedade violam essas regras e o resto da população pensa no porquê deveria cumprir essas regras se as pessoas poderosas não as cumprem. Não são as pessoas mais pobres que violam as regras, senão aqueles que estão melhor posicionados na sociedade.

O debate socioeconômico oscila entre defesa da austeridade fiscal e necessidade de crescimento econômico, deixando de lado um fato considerado chave que é a distribuição de renda. É ético socialmente permitir que alguns cidadãos acumulem fortunas bilionárias enquanto parte da população sofre com a indigência?Não, isso é radicalmente injusto. Um sistema fiscal rigoroso é uma exigência da justiça, que deve ser implementado.

São eticamente aceitáveis leis que permitam enriquecimento abusivo?Claro que não. É necessário marcar os limites de modo legal.

A quem cabe este papel de educador de valores? Ao Estado, à família, à mídia, à religião?A sociedade no seu conjunto é educadora. Devem educar os pais e as escolas, as Universidades, as comunidades religiosas e todos os demais meios de educação. Mas também personagens relevantes da vida política dos países devem tentar dar o exemplo.

Qual sua opinião sobre educação religiosa nas escolas?Nas escolas públicas, a educação religiosa deveria ser uma opção oferecida por razões distintas. Conhecer o fenômeno religioso é indispensável para compreender tanto nossas culturas como a muitos de nossos concidadãos, mas além disso as religiões aportam valores muito importantes para a sociedade, que não devem ser ignorados.

Acredita, como Sócrates, que o "mal" é reflexo da falta de conhecimento do "bem"?Não, não acredito. Pode acontecer em algumas ocasiões, mas a conduta das pessoas tem a ver em geral com o querer e com os sentimentos, não só com o saber intelectual.
Adela autografa "Ética de la razón cordial". De seus mais de 20 livros, "Ética mínima" é um dos poucos publicados no Brasil Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal
 
O Brasil viveu no último ano um dos piores escândalos de corrupção da sua história, com diversos empresários e partidos políticos envolvidos em um esquema de desvio de verbas públicas. Em que medida esse episódio pode mudar a conduta ética no país?Não gostaria de dar opiniões sobre a vida brasileira, mas me parece que os escândalos de corrupção atualmente descobertos não são os maiores da história do Brasil. O que acontece é que nossas democracias amadurecem e se conhecem cada vez mais os casos de corrupção, de um lado e de outro. Este é um bom momento para aumentar as medidas de transparência.

O direito, as leis, os juízes e os tribunais são suficientes para acabar com a corrupção?
Não. São necessários mas não suficientes. Se nós, os cidadãos e os políticos, não estivermos convencidos de que o objetivo de política é o bem comum, para cada lei feita haverá uma trapaça, ou como se diz em espanhol, "hecha la ley, hecha la trampa".

Sem mudanças nas instituições e no sistema político estaremos fadados a cometer os mesmos erros?Sim, claro que sim. Mas também é necessário potencializar o sistema educativo, educar em uma cidadania madura.

Em artigo publicado no El País este ano, a senhora cita camaleões e dinossauros para se referir à flexibilidade necessária na vida pública, mas também ao pernicioso "vazio de convicções". Em que medida a corrupção reflete essa falta de convicção dos partidos e dos parlamentares?Acredito que o maior perigo são os grupos corruptos, mais do que as pessoas corruptas em isolamento. Quando um político ou um empresário se encontra enrolado em uma trama de corrupção, é muito difícil não seguir o jogo. É urgente assegurar instituições que sejam justas.

A Europa enfrenta uma questão envolvendo a enorme quantidade de refugiados que chegam ao continente em busca de uma condição mínima de sobrevivência. Países têm adotado políticas bem diferentes na recepção dessas multidões: uns, como a Finlândia, mais receptivos, outros menos, como o caso da Hungria, que não parece ter proteção à vida como prioridade. Em que medida isso reflete valores éticos diferentes em relação ao próximo?
 
A crise dos refugiados e dos imigrantes está colocando em questão a própria concepção da união da Europa. Um de nossos valores mais apreciados era a hospitalidade, justamente o que estamos negando às pessoas mais fragilizadas. Estamos claramente abaixo de um mínimo de justiça. É urgente mudar a atitude.
No centro da foto, com sua equipe de pesquisadores de conduta ética na Universidade de Valência, na Espanha Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal
 
Como promover o diálogo entre os diferentes?É preciso entender que ninguém tem uma verdade absoluta. Ninguém tem todas as respostas. Para definir o que é o justo, temos que conversar com o outro. No terreno da moral, não existe "A verdade". O que existe é o justo e o injusto, e ninguém tem poder de determinar o que é justo se não buscar conjuntamente com outros. Por isso nossas sociedades pluralistas, com distintas éticas de máximos, distintas ofertas de vida boa, o núcleo do mínimo compartilhado seria a justiça. Os seres humanos são seres em relação, estamos unidos aos outros, querendo ou não.

No seu trabalho mais recente sobre neuroética e micropolítica, a senhora sugere um papel para a neurociência na educação moral. Qual seria?Precisamos ter consciência de que o nosso cérebro nos predispõe para condutas xenófobas e nepotistas, mas também para condutas altruístas e cooperativas. O que devemos decidir com liberdade é quais dessas condutas queremos cultivar dentro de nosso sistema educacional. Essa é a nossa responsabilidade.

A senhora afirma que o cérebro tem uma pré-disposição à xenofobia.Quando o cérebro humano foi se conformando durante todos os anos de evolução, os seres humanos viviam em grupos pequenos, de no máximo 130 pessoas. Grupo muito fechados. E nosso cérebro se acostumou a viver com pessoas do mesmo grupo e a rejeitar os estrangeiros. Ao longo dos tempos, os grupos se juntam entre eles para se proteger e repudiam os demais. Nosso cérebro é xenófobo. Obedece uma tendência de unir-se com pessoas do nosso grupo e repudiar os estranhos.

Mas há países que vivem do turismo, de receber estrangeiros, não?Nossos cérebros são xenófobos, mas sobretudo são aporófobos. É uma palavra criada por mim quando cheguei à conclusão de que mais do que xenofobia, aversão ao estrangeiro, temos uma aversão ao estrangeiro pobre. Temos ódio e desprezo pelo estrangeiro pobre. Não nos incomodam os estrangeiros que chegam com um monte de dólares. "Que venham, estamos encantados!" Não nos incomodam os árabes que chegam cheio de petrodólares. Quem nos incomoda? Os que chegam sem dinheiro. Os que não têm nada para dar em troca.

Como surgiu a expressão aporofobia?Aprendi que, em grego, aquele que é pobre se chama "aporos", e então construí esta palavra: aporofobia. Em 2000, publiquei um artigo no jornal El País dizendo isso: como a Real Academia de Língua Espanhola cria tantas palavras, criei uma palavra que para mim é uma necessidade. Expressa uma realidade que existe. E enquanto não colocamos nomes nos fenômenos, seguimos praticando sem que nos demos conta deles.
 
Isso tem piorado de lá para cá?Um amigo meu me disse um tempo atrás: a aporofobia está ficando muito séria. E efetivamente está. Os delitos de ódio estão se proliferando contra mendigos, sem-teto. O ódio ao pobre é algo muito mais estendido que o ódio ao estrangeiro. Porque é o pobre que parece não ter nada a oferecer em troca. O sentimento de simpatia é destinado à família, aos amigos, àqueles que parecem ter algo para oferecer, mas deixa de fora aqueles que parecem não ter nada. Isso aumenta o sentimento de exclusão e isso é bastante problemático.
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Fonte:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2016/06/nao-sao-os-mais-pobres-que-violam-as-regras-diz-filosofa-adela-cortina-5921675.html#

terça-feira, 7 de junho de 2016

Vaticanista italiano lança ataque contra o papa

Aldo Maria Valli (foto) é o vaticanista do Tg1 [principal telejornal italiano], experiente e estimado. O jornalista administra um portal na internet, que ele alimenta com longas reflexões, nunca banais. Com um artigo de três páginas, há alguns dias, ele atacou o pontificado do Papa Francisco, que teria introduzido uma perturbadora confusão na Igreja com a lógica do "mas também" (para aqueles que são apaixonados por política, ele relembra a retórica de Walter Veltroni): "Há algum tempo (…) parece possível notar que a lógica do et-et está sendo substituída na nossa Igreja por uma lógica diferente: a do non solum, sed etiam, ou seja, do 'não só, mas também'. Poderia parecer que, no fim das contas, não há diferenças, mas não é bem assim".

A reportagem é de Carlo Tecce, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 04-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Valli contesta a exortação apostólica do Papa Francisco Amoris laetitia, síntese dos Sínodos sobre a família: "Pensemos na Amoris laetitia, na qual a lógica do "mas também" se encontra um pouco por toda parte. Muitas vezes, dando origem a afirmações singulares. Tomemos, por exemplo, o ponto 308, onde se diz: "Os pastores, que propõem aos fiéis o ideal pleno do Evangelho e a doutrina da Igreja, devem ajudá-los também a assumir a lógica da compaixão pelas pessoas frágeis e evitar perseguições ou juízos demasiado duros e impacientes".

Devemos deduzir a partir daí que o modo mais eficaz de ser compassivo não é exatamente o de propor o ideal pleno do Evangelho? Além disso, em relação à vexata quaestio acerca da comunhão aos divorciados recasados, qual é a conclusão? Depois de ler e reler o texto várias vezes, a resposta é: comunhão sim, mas também não. Ou: comunhão não, mas também sim. No documento, com efeito, ambas as conclusões são legitimadas. Leva a isso a lógica do caso a caso, filha, por sua vez, da ética da situação. Devo-me considerar um pecador? Sim, mas também não. Não, mas também sim. Depende".

Pela autoridade do jornalista e pelo impacto midiático que daí surge, muitos jornais retomaram e comentaram o artigo de Valli. E também no Vaticano, obviamente, examinaram-no com atenção.
O vaticanista Roberto Balducci (Tg3), depois de um programa em que definia como "quatro gatos" os fiéis que ouviam o Papa Ratzinger (efetivamente, a Praça de São Pedro estava vazia), foi removido do cargo, e o diretor, Antonio Di Bella, foi obrigado a pedir desculpas.

Desta vez, a história é diferente. Valli não interveio nas telas da televisão pública, mas a opinião de Valli – a voz e o rosto da Rai que acompanha Jorge Mario Bergoglio – deve ser avaliada com absoluta consideração. Até porque, ampliando o olhar, o grupo de vaticanistas críticos em relação ao Papa Francisco é cada vez mais denso.

O cronista do Tg1, de forma talvez involuntária, compilou um manifesto dos não bergoglianos: "Ser homens e mulheres do et-et significa não ser ambíguos e não deixar espaço para a confusão. A lógica do et-et desemboca na inclusão, não na confusão. Jesus, exemplo do et-et e não do aut-aut, recomendou que o nosso falar seja 'sim, sim, não, não'. A confusão e a duplicidade são especialidades do diabo, que, desse modo, persegue o seu objetivo: separar".
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/555968-vaticanista-italiano-lanca-ataque-contra-o-papa

Felicidade, privilégio para todos.

Entrevista com Zygmunt Bauman

A epicúrea ausência de perturbações. A agostiniana "confirmação" de mérito e virtude. O benthamiano comprazimento do Eu na satisfação da necessidade do Outro. Até chegar ao reconhecimento civil e político de um direito humano, que a modernidade, não raramente, transformou em privilégio.

A reportagem é de Valeria Arnaldi, publicada no jornal Il Messaggero, 03-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A felicidade é um conceito – talvez utopia – sem tempo, mas, de fato, pela sua própria natureza, fortemente ligado à época de cujos valores e de cujas aspirações ele se faz imagem e parâmetro.

E, assim, em um momento histórico de crise, é precisamente ao confronto entre ideal de felicidade e sentimento de infelicidade que filosofia e sociologia olham para indagar a contemporaneidade.

Não é por acaso que a felicidade é um dos temas de pesquisa de Zygmunt Bauman, pai da chamada "sociedade líquida", agora entre os convidados do festival internacional de literatura "Leggendo Metropolitano", que ocorre até o dia 5 de junho, em Cagliari, Itália.

Eis a entrevista.

Professor Bauman, o que significa hoje "felicidade"?
A declaração de independência estadunidense proclamou, entre os direitos invioláveis do ser humano, a sua busca: um marco para a civilização ocidental. As ideias de felicidade são muitas, mas que podem ser remetidas a duas categorias. A visão mais popular é a de uma vida plena de momentos agradáveis, sem problemas e desafios. A outra nos foi mostrada por Goethe. Já idoso, ele foi perguntado se a sua vida tinha sido feliz. Ele respondeu que sim, mas que não se lembrava de uma única semana em que o tivesse sido. Isso implica que ser feliz não significa não ter dificuldades, mas superá-las.

A atualidade mudou essas visões?
Definir o que significa ser feliz é muito complexo. A própria ideia de felicidade parece conter em si o pressuposto da sua não existência no mundo. A felicidade deve ser conquistada, mas, no nosso sistema de consumidores, vendem-se promessas de promessas de algo que nos fará nos sentirmos melhor. O mercado, em teoria, deveria aspirar a satisfazer todas as necessidades.

Na prática, porém...
Satisfazer os consumidores, na realidade, é o pesadelo do mercado: envolveria não ter mais nada para vender. Os especialistas, portanto, sabem nos manter continuamente insatisfeitos. A publicidade nos promete que seremos felizes com o novo celular, por exemplo, mas ela tinha feito o mesmo para o modelo anterior e vai refazer o mesmo para o posterior. Porém, milhões de pessoas correm para comprar.

O capitalismo está condenado, portanto, à infelicidade?
A atitude do sistema encoraja a ideia de que há algo que pode resolver todos os problemas e alimenta constantemente tal convicção. Isso torna os momentos de felicidade muito curtos. O problema é que somos constrangidos a gastar o dinheiro que ainda não ganhamos para comprar coisas das quais não precisamos para impressionar pessoas que não nos importam muito. Esse é o caminho para alongar os momentos de infelicidade.

É preciso repensar o nosso modo de nos imaginarmos satisfeitos?
É preciso redescobrir o prazer de comunicar. Eu não me refiro aos tuítes, mas a conversas de verdade. Há uma grande diferença entre encontros virtuais e tradicionais. Para voltar aos acontecimentos ao estilo antigo, cada um deveria diminuir as suas próprias demandas, mas o mercado tenta levantar as expectativas e faz isso nos forçando a pensar, desde crianças, que cada momento de felicidade deve ser melhor do que o anterior. Cada instante desperdiçado é uma chance de felicidade perdida.

A sociedade líquida ainda é capaz de ser feliz?
A ideia da sociedade líquida é de que nada permanece por muito tempo. Vivemos em um mundo de constante novidade, em que envelhecemos cada vez mais rápido do que antes. Estamos em um espaço vazio. Gramsci definiu essa situação como um interregno em que as velhas regras desapareceram, e as novas não foram inventadas. Isso gera ansiedade.

E para que cenários a ansiedade nos leva?
Quando eu era estudante, os professores diziam que aprender nos torna mais ricos. Eu acho que a cultura contemporânea não está mais fundamentada na capacidade de aprender, mas de esquecer. Para aprender outros conceitos, você deve eliminar os velhos. A maior qualidade seria, por isso, a habilidade de esquecer. Na Itália e na Espanha, vê-se menos isso. Na França, Alemanha, Inglaterra, a questão é evidente e é uma reação ao medo.

A crônica nos revela que muitos gostariam de respostas mais duras por parte da política: o medo está criando espaço para o retorno de regimes fortes?
Estamos voltando 200 anos atrás nas lutas por democracia e liberdade. Agora, desejam-se mais regras. Segurança e liberdade são valores fundamentais para a dignidade humana. A segurança sem liberdade é escravidão. A liberdade sem segurança é um tipo de deficiência. As pessoas, por séculos, procuraram equilibrar as coisas, e isso não funcionou. Cada passo em frente para a liberdade requer que se renuncie a uma parte da segurança. Cada passo rumo a uma maior segurança envolve renunciar a um pouco de liberdade. Não há um caminho direto para ter cada vez mais de uma ou da outra. É um pêndulo que oscila, empurrando para a mudança.

Hoje, oscilamos para a segurança.
Muitas pessoas, em diferentes partes do mundo, parecem ir na direção da renúncia a mais liberdades em favor da segurança, desejando uma situação mais estável. É a tendência atual. Ainda estamos em uma sociedade líquida, mas em que nascem sonhos de uma sociedade menos líquida.
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FONTE:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/555960-felicidade-privilegio-para-todos-entrevista-com-zygmunt-bauman
Imagem da Internet

Ha-Joon Chang: Economia: modo de usar”

HA-JOON CHANG
Economista e Professor da Universidade Cambridge - Reino Unido

O autor deste livro é Ha-Joon Chang, professor de economia na Universidade de Cambridge e colunista no jornal The Guardian de Londres. O seu best-seller 23 Coisas que não nos contaram sobre o capitalismo (publicado no Brasil pela Cultrix, em março de 2013) foi considerado pelo jornal The Observer uma “inteligente e atual desmistificação de alguns dos maiores mitos envolvendo a economia internacional”. Ele recebeu o prêmio Leontief pelo seu avanço nas fronteiras do pensamento econômico e pela sua crítica contundente às falhas do sistema econômico contemporâneo.

Economia é considerada por muitos, tão complicada quanto a física ou a matemática, no entanto, o autor desta obra (Economia: modo de usar) assume o desafio de traduzir para uma linguagem compreensível a quem possui, ao menos, o ensino médio concluído e bem feito, os conceitos fundamentais para se entender essa disciplina importantíssima na vida de todos nós!

De maneira irreverente e sagaz e com um conhecimento histórico profundo, Ha-Joon Chang apresenta um acessível manual que explica como a economia global realmente funciona. Diferente de muitos economistas que apresentam apenas uma vertente de sua área, Chang introduz uma variedade de teorias econômicas, da clássica à keynesiana, revelando os pontos fortes e fracos de cada uma, e apresenta as ferramentas necessárias para entender esse mundo cada vez mais interconectado, frequentemente guiado pela economia.

Do futuro do euro à desigualdade na China ou à condição da indústria de manufatura norte-americana, Economia: modo de usaré um conciso e hábil guia sobre os fundamentos econômicos. Ele oferece um preciso retrato da economia global e nos mostra como e por que ela afeta nosso cotidiano.

Clique aqui para ter acesso ao SUMÁRIO completo dessa obra, bem como, ao PRÓLOGO que lhe fornecerá os objetivos e maneiras de se ler esta obra.

L I V R O

Título: Economia: modo de usar. Um guia prático dos principais conceitos econômicos
Autor: Ha-Joon Chang
Editora: Alta Books (um selo da Penguin)
Ano: maio de 2015
Preço de capa atual: R$ 44,90 (edição impressa)

Onde comprar: clique aqui (livro impresso); aqui (e-book); ou aqui (para achar o menor preço).
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 FONTE: http://padretelmofigueiredo.blogspot.com.br/2016/06/economia-para-voce-e-um-bicho-de-sete.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+PadreTelmoJosAmaralDeFigueiredo+%28Padre+Telmo+Jos%C3%A9+Amaral+de+Figueiredo%29

Literatura. Da carne e do espírito

  
Hermann Hesse escreveu uma das ficções mais marcantes sobre o conflito entre ação e contemplação. Narciso e Goldmund regressam agora às livrarias


Aos 18 anos, o loiro e belo Goldmund, discípulo no convento de Mariabronn, acredita que está destinado à ordenação monástica. Narciso, o noviço asceta e mestre auxiliar com quem ele desenvolveu uma amizade intensa, acredita que essa não é, de todo, a verdadeira natureza do rapaz. Por isso, traça uma linha intransponível entre os sonhadores, poetas e amantes e os intelectuais, e explica: “A vossa pátria é a terra, a nossa a ideia. O perigo para vós consiste em afogar-vos no mundo dos sentidos, para nós em sufocarmos no espaço rarefeito do ar. Tu és artista, eu sou pensador. Tu dormes no regaço da mãe, eu mantenho a minha vigília no deserto. Para mim brilha o Sol, para ti a Lua e as estrelas; tu sonhas com raparigas, eu com rapazes...” Esta passagem, talvez a mais famosa do romance, resume o conflito de “Narciso e Goldmund”, a obra-prima de Hermann Hesse (1877-1962, Nobel da Literatura em 1946), datada de 1930. “Um livro completamente alemão”, segundo o crítico E. R. Curtius; “um romance poético singular na sua pureza”, segundo Thomas Mann.

Hermann Hesse revelou-se muito cedo uma criança complexa, com inteligência e rebeldia excecionais. Educado num lar pietista, aos 14 anos decidiu escapar-se (durante 33 horas) do seminário teológico da abadia de Maulbronn (inspiração para a “Mariabronn” ficcional e hoje património da UNESCO) e iniciou com esse gesto um percurso tormentoso de procura de expressão de um eu verdadeiro – como Goldmund, passará também por um período de prática de um ofício artesanal. Após várias crises psicológicas e errâncias intelectuais e vivenciais, que o levaram por exemplo a descobrir as culturas chinesa e indiana e a filosofia budista (inspirações patentes em “Siddhartha”), Hesse encontrará por fim, aos 40 anos, um ponto de equilíbrio entre as tendências contrárias da sua alma para a ação e a contemplação e  um espaço de retiro, na Casa Camuzzi, na pequena vila suíça de Montagnola, onde escreverá “Narciso e Goldmund”. 
O romance, cujo ação se passa no século XV, atualiza a tradição confessionalista do romantismo alemão e parte de projeções autobiográficas do autor. Assim, podem reconhecer-se em Goldmund traços da sua vocação inicial de andarilho (wanderlust) e boémio e, em Narciso, sinais do carácter introspetivo do seu amigo Thomas Mann. O conflito entre os apelos do mundo secular (da Mãe Terra) e do mundo espiritual (de Deus Pai) é também abordado numa perspetiva psicanalítica, determinada pelo contato de Hesse com a psicoterapia e com Carl Jung. No essencial, a ficção descreve a amizade apaixonada entre dois homens de naturezas opostas e, sobretudo, o despertar e o percurso de aprendizagem estética, prática e sensual de um deles. No fim, reunidos os dois amigos, a espessura e profundidade do romance atingem o seu auge.

“Narciso e Goldmund” é também um panorama colorido da Idade Média, no qual se movimenta um herói pícaro e se assinalam episódios picantes que lembram a ambiência de Decameron, de Bocaccio, símbolo da ruptura do realismo literário com o espiritualismo medieval. Hesse foi um apaixonado pelo latim e pela hagiografia, bem como pela arte e pela filosofia medievais. Como para os seus antecessores românticos alemães, a Idade Média significava para ele, não um período de trevas, mas de intensa luminosidade espiritual e sensorial.  É nesta moldura simbólica que acontece o choque épico entre os dois mundos, de Narciso e Goldmund, duas faces da obsessão do escritor com a polaridade da arte e da vida.
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Reportagem por Filipa Melo 
Texto em português de Portugal
Fonte: http://ionline.sapo.pt/ jornal "i" 04/06/2016

domingo, 5 de junho de 2016

“Há cegueira da esquerda para entender a nova classe trabalhadora”

ENTREVISTA | ROBERTO DUTRA, SOCIÓLOGO

O sociólogo Roberto Dutra estuda a população evangélico

Para sociólogo, cresce politização da religião, mas vida prática, e não moral, é fator decisivo no voto

Compõem hoje a maior bancada evangélica da história do Congresso brasileiro 75 deputados federais e três senadores, o que faz com que, cada vez mais, suas posições e acordos tenham relevância no cenário político. Para Roberto Dutra, doutor em sociologia pela Universidade Humboldt de Berlim e professor da Universidade Estadual do norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o posicionamento dos congressistas, contudo, não deve ser confundido com as convicções do eleitorado evangélico como um todo. Em um momento em que esse grupo político se uniu em torno do impeachment e de teses conservadoras no campo dos costumes, Dutra avalia em entrevista ao EL PAÍS os reflexos da interferência da religião na política e com que olhos os fiéis enxergam isso. Leia abaixo os principais destaques da conversa.

Pergunta. Existem hoje temas específicos que motivam o voto do eleitorado evangélico?
Resposta. São vários temas, mas há dois eixos temáticos que têm se destacado. O primeiro é a questão da moral e dos costumes que, contudo, até agora foi determinante apenas em eleições legislativas. Isso não quer dizer que essa temática não possa se tornar central em algum momento nas executivas, mas, por enquanto, ela depende muito mais da instrumentalização política que líderes de perfil religioso têm feito dela. Falar de costumes tem atraído um eleitorado, mas o que realmente explica as motivações do comportamento eleitoral, não só dos evangélicos, mas de todas as classes populares – considerando aí que a maior parte dos evangélicos pertence às classes populares – é o eixo do bem estar social. A preocupação é muito mais prática: saúde, educação e programas sociais.

P. A bancada evangélica votou pelo impeachment de Dilma Rousseff e tem expressado apoio a Michel Temer. Essa adesão é transferível ao eleitorado evangélico?
R. É difícil fazer uma previsão, mas eu acredito que há uma tendência do Governo Temer tentar usar a pauta dos costumes para fidelizar esse eleitorado evangélico mais pobre, que, contudo, tende a se distanciar dele na medida em que ele adotar uma política socialmente insensível de redução do gasto social. Nós não podemos pegar um momento como esse, em que a grande polarização ideológica e cultural leva a um fortalecimento da pauta dos costumes, e projetar isso no comportamento eleitoral das eleições deste ano ou de 2018. O voto religioso é circunstancial e muito mais presente nas eleições legislativas do que nas executivas. Por isso, eu acredito que se o Governo Temer não for capaz de fazer uma política social minimamente satisfatória do ponto de vista dessa população, ele não vai conseguir o apoio dela.

P. E por que o discurso moralista de políticos religiosos perde força nas eleições majoritárias?
R. Por razões próprias da política. Você consegue angariar um número grande de votos para eleger um deputado como o Bolsonaro, fazê-lo o mais votado. Mas na eleição do executivo, a maior parte do eleitorado não vota por religião e é também alimentada com informações que servem para descredenciar o perfil religioso do candidato religioso. Foi o caso do Marcelo Crivella (PRB), que perdeu a eleição para Governador do Rio de Janeiro de forma avassaladora para o Luiz Fernando Pezão (PMDB). No final, a vinculação do Crivella à Igreja Universal do Reino de Deus atrapalhou. Tanto é que dizem por aí que o Crivella está pensando em se desvincular do PRB, aderindo a um partido não religioso. Ao contrário do que se pensa, o eleitorado brasileiro tem bom senso. Elegemos um presidente sociólogo, um presidente operário e uma presidenta guerrilheira. É um eleitorado que não é tão conservador como se imagina.

"O voto religioso é circunstancial e muito mais presente nas eleições legislativas do que nas executivas. Por isso, eu acredito que se o Governo Temer não for capaz de fazer uma política social minimamente satisfatória do ponto de vista dessa população, ele não vai conseguir o apoio dela"

P. De qualquer jeito, a bancada evangélica tem crescido em número e importância nos últimos anos. O que explica o crescimento?
R. A extrema facilidade com que os líderes religiosos pentecostais lidam com as regras da política. É a capacidade dos evangélicos buscarem a vida política através do pragmatismo. O Edir Macedo, por exemplo, apoiou o Governo Dilma até recentemente. Se acontecesse uma improvável volta de Dilma daqui alguns meses, não tenho dúvidas de que ele estaria pronto para apoiá-la novamente. Também é importante dizer que é um equívoco falar em coesão da bancada religiosa. A Igreja Universal, por exemplo, tem uma estratégia de atuação parlamentar bem diferente da Assembleia de Deus. Só há união em momentos específicos, como agora.

P. E não há interferência direta de algumas igrejas no processo eleitoral?
R. Hoje há, de fato, igrejas aparelhadas. São verdadeiras redes que grandes líderes políticos, como Eduardo Cunha, oferecem como recurso político para outros líderes. O que vemos é que o púlpito tem fidelizado muito para o legislativo. Mas a curiosidade é que, do ponto de vista programático, o repertório do sucesso das eleições legislativas dos evangélicos é um repertório corporativo. É mais algo do tipo “vote no deputado porque ele vai defender nossa igreja” e menos “vote no deputado porque ele é contra o aborto”. Costume e moral não são os fatos predominantes para explicar o voto. É muito mais o sentimento de corpo mesmo, que é instrumentalizado pelos pastores. Então, o que eu arrisco dizer é que existe, sim, um crescimento grande da instrumentalização política das igrejas, mas isso não é uma garantia de votos e pode, em determinado momento, virar até motivo de debandada de fiéis.

P. Por quê?
R. Ser evangélico não é pré-requisito de voto para o eleitorado evangélico. As pessoas observam aquilo que a mídia fala delas, a imagem que é projetada sobre elas. Ficam preocupadas com a interferência de líderes evangélicos na política. Se há um movimento crescente de transformação das igrejas em curral eleitoral, por outro lado, aumenta o sentimento de muitos fiéis de que eles estão sendo feitos de palhaços pelo pastor. E ao mesmo tempo em que aumenta a politização conservadora da religião, aumenta também o sentimento de que a fé das pessoas está sendo manipulada por interesses próprios. E aí a concorrência religiosa é fatal. O Brasil está em plena modernidade religiosa. Caso esse sentimento dos fiéis aumente, pode surgir uma variável de dinamização do próprio mercado religioso.

"Se há um movimento crescente de transformação 
das igrejas em curral eleitoral,
 por outro lado, aumenta o sentimento 
de muitos fiéis de que eles estão sendo
 feitos de palhaços pelo pastor"

P. Você identifica em algum grupo específico esse olhar mais crítico?
R. Talvez nos jovens. Hoje há uma geração de jovens que já pode ser chamada de “evangélicos não praticantes”. Uma coisa é você ser convertido para uma religião evangélica, outra é você nascer nessa cultura. Aí é natural que você olhe de modo mais distanciado. De qualquer jeito, é importante não confundir os líderes políticos que têm um perfil religioso – ou seja, líderes políticos que tem na religião um recurso de poder e mobilização eleitoral – com as formas de comportamento, consciência e visão de mundo dos evangélicos como um todo. Além disso, apesar de óbvio, é necessário dizer que os evangélicos também são heterogêneos. De modo que há na classe média brasileira intelectualizada e, inclusive, de esquerda, um preconceito muito grande contra os evangélicos. Há a premissa de que eles são burros, que eles não sabem olhar com distanciamento a pauta política do Feliciano, do Malafaia, do Pastor Everaldo, do Bolsonaro.

P. E como esse distanciamento da esquerda aparece de forma prática?
R. Ela não consegue ver a possibilidade de disputar a fidelidade eleitoral e ideológica desse público. Dou o exemplo mais forte. Um tema central na vida cotidiana dos evangélicos é a família, mas a esquerda taxa isso de puro conservadorismo. A única alternativa política que tem tematizado o tema da família é – em uma democracia como a nossa, e eu diria que em várias outras também – a da direita. Ou seja, é justamente quem fala para os evangélicos: a família corre risco porque os homossexuais, a ideologia de gênero e os “esquerdopatas” estão ameaçando ela. Sem outra explicação, muitas vezes o indivíduo aceita essa mesma. Assim, a identificação dos evangélicos com a pauta política de seus líderes vem em alguns casos por pura falta de alternativa e compreensão dos setores ditos mais esclarecidos da sociedade que não conseguem compreender que o tema da família não é necessariamente conservador.

P. E por que esse tema tem tanto apelo?
R. Por razões de classe social. Os evangélicos se dividem, basicamente, em dois tipos de classe, que eu e o grupo de pesquisadores em torno do sociólogo Jessé Souza, costumamos dividir como ralé estrutural e batalhadores. O primeiro é um público completamente excluído das principais instituições da sociedade. Em geral, eles frequentam igrejas evangélicas que funcionam como uma espécie de pronto socorro espiritual. O segundo grupo tem uma vida familiar e social mais estável, com vínculos sociais mais fortes. Há uma proteção e solidariedade com que a ralé não conta. Para os dois públicos, contudo, a ameaça familiar é uma ameaça real e constante, seja por fatores econômicos, de alcoolismo ou de desestabilização social, como a falta de uma moradia decente. São problemas que as classes populares e excluídas enfrentam no mundo inteiro. Ora, só vai considerar o tema da família conservador quem não vê no abandono um problema cotidiano. Em resumo, os evangélicos agem muito mais por interesses práticos e que podem tomar rumos muito variados, de acordo com os partidos políticos que interpretam esses interesses práticos, do que propriamente por convicções conservadoras. Convicções que eles podem até ter, mas que não são tão claras e fortes como se imagina.

"Em resumo, os evangélicos agem muito 
mais por interesses práticos e que podem 
tomar rumos muito variados, de acordo 
com os partidos políticos que interpretam 
esses interesses práticos, do que 
propriamente por convicções conservadoras"

P. Mas onde entram as classes mais altas evangélicas nessa separação que você colocou?
R. Elas constituem um público mais tradicional, não pertencente historicamente às classes hegemônicas católicas brasileiras, que em geral faz parte das chamadas igrejas protestantes históricas ou de missão, como as igrejas Batista e Presbiteriana que, embora tenham copiado muitos dos ritos e das ideias das pentecostais, como Universal e Assembleia de Deus, mantêm um estilo, digamos, mais sóbrio. O público é formado por uma classe média ascendente com um determinado padrão de formação escolar e nível de renda mais estável. Mas esse é um público minoritário entre os evangélicos.

P. Pode resumir a diferença entre o protestantismo “clássico” e o pentecostalismo?
R. Ele é uma revolução protestante dentro da revolução protestante e surge na Igreja Metodista Wesleyana. John Wesley é um dos grandes fundadores do pentecostalismo, mas outros líderes menores popularizam ainda mais essa religião entre os negros dos EUA no final do século 19, início do 20. Ela se caracteriza por uma crença, muito grande, na força de Deus para mudar as coisas cotidianas. É o que podemos chamar de uma religiosidade mágica. No Brasil, isso chega em 1910, mas é só a partir da década de 1960, com a urbanização da pobreza, que o protestantismo brasileiro vai tomando a cara do pentecostalismo. Qual é a diferença básica? É que o protestantismo clássico não enfatiza tanto a presença cotidiana do espírito santo para resolver os problemas cotidianos das pessoas. O protestante batista não espera que Deus vá ajuda-lo a passar em um concurso público, já um pentecostal crê nisso. O pentecostalismo é mais popular que o protestantismo clássico. Por isso, com o tempo, vai virando a religião dos excluídos. Disso que nós denominamos ralé estrutural. É uma religião que oferece valor social para os excluídos: Deus tem um projeto para sua vida, você vale alguma coisa.

"Um tema central na vida cotidiana dos evangélicos 
é a família, mas a esquerda taxa isso 
de puro conservadorismo. 
A única alternativa política que 
tem tematizado o tema da 
família é a da direita"
 
P. Você disse que existe um preconceito de setores progressistas com os evangélicos. Há uma crítica de que o PT se afastou dos mais pobres nos últimos anos, perdendo espaço para as igrejas. Você concorda com essa avaliação?
R. Acredito que é uma explicação muito reducionista. Eu concordo que o PT se distanciou dos pobres, mas o que significa isso? O PT certamente não se distanciou dos pobres no sentido de fazer políticas sociais para os pobres. No entanto, o PT se distanciou culturalmente dos pobres. O PT é informado por uma visão de esquerda de que os pobres devem seguir um modelo de ser e agir que vem dos moldes dos sindicatos. Os pobres devem ser coletivistas. Os pobres devem se enquadrar em um viés de solidarismo anti-individualista. Toda vez que o PT encontra a valorização do indivíduo, a valorização da autonomia do indivíduo frente às intempéries da vida, que, em resumo, é a pregação cotidiana das igrejas pentecostais, o PT aponta o dedo acusatório: “É a pregação do individualismo, é a pregação do neoliberalismo dentro das igrejas”. O PT não entende essa filosofia liberal popular e nem o valor moral do individualismo que está por trás dela.

P. O que você quer dizer com “valor moral do individualismo”?
R. É a ideia de que para ser alguém valoroso na sociedade é preciso ser um indivíduo respeitado em sua privacidade, em seu projeto de vida. De modo que há, de forma muito presente nas igrejas, essa cultura da valorização da iniciativa individual. E isso não significa a negação da solidariedade. Acredito que há uma cegueira do PT em compreender a alma e a cultura dessa nova classe trabalhadora que não é formada no sindicato e que hoje é a maior parte dos brasileiros pobres e remediados do país. Esse é o distanciamento que existe, mas ele não é exclusivo do PT. A esquerda de forma geral não entendeu que o sonho dessa nova classe trabalhadora é, muitas vezes, ter uma empresa própria, ser um empreendedor. Há muitas semelhanças com a população dos EUA, por exemplo. É um liberalismo popular que não é, necessariamente, conservador. Hoje, esses ideais liberais de autonomia e afirmação do indivíduo estão em disputa e os conservadores têm conseguido capturá-los com mais eficiência.
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REPORTAGEM POR 
São Paulo

sábado, 4 de junho de 2016

Homens na educação

Mário Corso*

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As pautas sobre a violência contra as mulheres finalmente ganharam visibilidade. As raízes desse descalabro são muitas, mas colocaria um ingrediente não óbvio, que me parece esquecido.

O território do ensino básico no Brasil é feminino. Principalmente porque sempre desvalorizamos a educação, ficou relegada às pessoas que vão ganhar menos. Logo, ser professor das séries iniciais é profissão para mulher, somando a desvalia da escola com a do gênero.

O fato é que quase não existem homens professores. Eles somente vão sendo encontrados na medida em que nos afastamos da infância e chegamos à universidade, pois ela goza de algum prestígio.

É claro que as mulheres podem dar conta de todos os conteúdos, os homens não fazem falta, por razões intelectuais. Acontece que a escola é um laboratório social e a aquisição de conteúdos passa também por vinculações afetivas. Precisamos idealizar os mestres de alguma forma. Não somos máquinas que aceitam qualquer programação seja de quem for, nossos processos cognitivos são também amorosos.

Ao crescerem, alguns meninos começam a sentir a escola como um espaço não seu, uma extensão dos domínios da mãe, do qual ele tenta afastar-se. O colégio parece-lhe sufocante porque demasiado feminino. Diga-se que essa “opressão” involuntária, geralmente é imaginária. É aqui que entrariam os homens, ao oferecer um contraponto real, uma fonte de identificação que reequilibraria o mundo desses garotos.

Lembrem-se que muitos meninos, especialmente na periferia, crescem praticamente sem modelo masculino próximo em quem espelhar-se. Não é só na escola que educar é coisa de mulher, nos lares também, os homens relegam os cuidados educacionais às mães.

Ou seja, muitos meninos educam-se sem contato com homens. Sentem-se privados dessa presença como também de um pai em casa. Um homem criado num ambiente mais sensível não vai necessariamente ser mais atento à causa feminina. Ele pode ser ressentido por esse excesso de presença feminina que percebe como invasivo e como responsável pelo afastamento das figuras masculinas que deseja e necessita para se identificar. Claro que não é o que acontece, mas explique isso a um menino de oito ou nove anos...

O paradoxo perverso é que o brasileiro médio está afastado dos seus filhos, e os resultados adversos voltam-se contra quem está mais próximo, as mulheres. O pai abandona, a mãe segura o rojão e o resultado é o filho misógino, pois acaba identificado com a crueldade do pai à família.

Se você acha que a questão é apenas simbólica, que dá para levar assim, digo que usei a mesma lógica das críticas feitas ao ministério de pouca melanina e pura testosterona do atual governo. Não é só o ministério que deve ser plural e condizente com o país, a escola também.
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* Psicanalista.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a5825133.xml&template=3916.dwt&edition=29072&section=70
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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Fazer justiça injustamente.

José González Faus*

 

“Os meios de comunicação, assim como os políticos, tendem a excitar as emoções e a brincar com elas. Quando as emoções se agitam, é quase impossível manter a serenidade necessária para fazer verdadeira justiça. Por mais difícil que seja não esqueçamos que condenar um inocente é tão grave 
quanto abusar de outro inocente”,

A pederastia é uma aberração criminosa. Mesmo como uma tentação acho que é difícil de compreender. Penso recordar que havia algo dela no Satíricon de Petrônio; mas me pareceu tão estranho que o deixei como coisa daquela Roma corrupta.

Hoje, está na ordem do dia. No mundo e na Igreja. Não sei se porque desvalorizamos tanto o sexo que já não cumpre mais a promessa que veicula e então a buscamos nessas deformidades. Com o agravante de que o abusado converte-se facilmente em abusador, enquanto este tende a apresentá-la como “uma variante a mais”.

Penso conhecer bem a massa humana e posso compreender qualquer fragilidade e qualquer aberração. Mas, nos casos de eclesiásticos, não entendo que depois se mantenha uma dupla vida continuada: isso, mais do que uma imoralidade implica uma autêntica falta de fé. Acrescente-se que, como assinala o filme Spotlight, nos casos da Igreja, após a culpa das pessoas há uma culpa do sistema: uma idolatria do padre mantida talvez como atração vocacional, mas contrária ao Evangelho que só chama padres para Cristo e o Povo de Deus e não os ministros da Igreja.

Algo disso assinalou o bispo australiano J. Robinson, encarregado por seus irmãos de estudar os casos de pederastia. Mas a cúria romana o impediu de levar suas pesquisas por este caminho. O bispo saiu e depois publicou um livro (Poder e sexualidade na Igreja) onde já é expressiva a primeira palavra do título: poder, não sexo. Evoca-me o que vivi em casos de meninas abusadas por seus pais: a autoridade da figura paterna, o desejo da menina de que seu pai a quisesse, é o que as levou a ficar caladas e depois (além disso) as deixava absurdamente culpabilizadas. Não cabe, pois, tolerância com esse flagelo. De acordo.

Mas, todas as realidades humanas têm dois lados e, se nos prendemos a apenas um, as deformamos. Assim poderia acontecer que, querendo fazer justiça, cometamos novas injustiças. Por exemplo:
1- Não aconteceu algo semelhante com os maristas em Barcelona? Os maristas escreveram na Síria páginas heróicas de solidariedade, sem merecer a mínima atenção e reconhecimento por parte da imprensa. Agora, de repente ocupam manchetes de jornais, sem outra identificação: “maristas-pederastia”. Que fossem professores contratados e não membros da Congregação, pouco importava. As explicações dadas pelo Colégio também não tiveram muita divulgação. Imaginemos que a imprensa mais reacionária de Madri publicasse a seguinte manchete: “Pederastia na Catalunha” ou “Os catalões pederastas”. Isso nos pareceria justo?

Se a resposta é “não”, perguntemo-nos agora: temos sido justos com os maristas? Ou há gente que, por não sei qual outra estranha perversão, parece que só encontra prazer quando pode jogar lixo sobre a Igreja? E me atrevo a falar assim porque, pessoalmente, sofri bofetadas e acusações por “não amar e criticar a Igreja”. Mas as críticas devem servir para melhorar a realidade, não para gozo próprio. Houve o mesmo clamor constante quando Sánchez-Dragó jactou-se de ter transado com duas adolescentes de 13 anos... mas japonesas?

2- Em 2004, em Outreau, um povoado francês, explodiu um escândalo de pederastia. Cinco anos depois, vários condenados foram declarados inocentes, mas um deles já se havia suicidado na prisão, por desespero. Um médico, prefeito de Sécher, passou vários anos na prisão até que o acusador reconheceu ter mentido. Pois bem, a dor do injustamente acusado é tão grande quanto a do canalhescamente abusado. Sei disso porque conheço um caso que me fez compartilhar essa dor pessoalmente.

Infelizmente, a justiça humana não apenas pode ser, às vezes, deliberadamente injusta, mas tropeça frequentemente com mil obstáculos devidos à complexidade do real. E quando já se criou um clamor emocional é muito difícil serenar as massas, que se sentirão compreensivelmente traídas. Mas a autêntica justiça reclama segurança na culpa.

“Tolerância zero” não significa converter a presunção de inocência em presunção de culpabilidade, nem perverter o clássico princípio romano: “in dubio pro reo” em “in dubio contra reum”. Porque há casos em que não temos senão a palavra de um contra a palavra de outro. E esta geração onipotente do mimo, do Ipad e do selfie, não tem muitos escrúpulos em ameaçar que, “se me suspendes as ‘mates’ faço uma denúncia contra ti”.

3- É estranho que pessoas que passam dos 50 anos, sintam hoje necessidade de denunciar abusos sofridos há 40 anos, e sempre em colégios religiosos. Já corre o rumor de que, por trás desse dado, late uma campanha camuflada contra a escola estabelecida. Recordemos que, nos Estados Unidos, a denúncia repentina de casos antigos coincidiu com a oposição da Igreja à barbárie de Bush no Iraque. E que, tanto no Chile de Allende como na Venezuela de hoje, junto ao inegável desabastecimento produz-se um monopólio oculto, como acaba de denunciar um bispo venezuelano.
4- Um outro problema vergonhoso nosso é a violência machista. Mas uma policial (mulher para mais informação) me disse um dia que eu não podia imaginar a quantidade de denúncias falsas que recebem; e que não podiam dizer isso porque toda a opinião pública cairia em cima deles e os acusaria de cumplicidade.

E para terminar: os meios de comunicação, assim como os políticos, tendem a excitar as emoções e a brincar com elas. Quando as emoções se agitam, é quase impossível manter a serenidade necessária para fazer verdadeira justiça. Por mais difícil que seja não esqueçamos que condenar um inocente é tão grave quanto abusar de outro inocente.
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* Teólogo jesuíta espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 31-05-2016. A tradução é de André Langer.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/555789-fazer-justica-injustamente-artigo-de-jose-gonzalez-faus
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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Parar o relógio e viver intensamente

Levar uma vida de rotina não libera ninguém de experimentar aventuras


O tempo é o que é. Está em nossas mãos decidir como queremos desfrutá-lo







O protagonista do filme Uma questão de tempo pertence a uma família cujos membros têm um dom especial: podem viajar a lugares e momentos em que estiveram anteriormente. Essa peculiaridade lhes permite desfazer decisões e corrigir erros para melhorar suas vidas. Até o fim do filme, o personagem percebe que sua vida foi boa exatamente do jeito como ela foi e que não deseja voltar para o passado.


Talvez seja este o maior anseio de qualquer um de nós. Chegar ao fim de nossas vidas e poder dizer a nós mesmos: “Foi bom assim. Se eu voltasse a viver, não mudaria nada”. A pergunta é se alcançar tal nível de satisfação não depende tanto do número e da variedade de experiências quanto da intensidade com a qual elas foram vividas.

O magnífico filme Up, da Walt Disney-Pixar, reflete muito bem esse sentimento, quando o personagem principal, um idoso viúvo, que não conseguiu fornecer a sua falecida esposa nenhuma das aventuras que sonharam quando eram crianças, descobre que sua mulher montou um álbum de fotos de todas as viagens que iriam realizar com fotografias de suas vidas em casa e deixou um recado escrito: “Obrigado pela aventura”. Ela apreciou o que viveu com o marido, pouco ou muito, como um grande acontecimento. É uma sequência preciosa que nos ensina que o importante é o sentido que queremos dar às nossas vivências, nem tanto o que acontece em si. É possível levar uma vida rotineira e vivê-la intensamente.

No entanto, é muito difícil fazer valer essa atitude. A oferta de possibilidades alternativas, destinos turísticos, as inumeráveis possíveis relações pessoais e caminhos que as redes sociais abrem exercem uma enorme pressão sobre o indivíduo de hoje em dia. As relações da sociedade líquida, como defendeu o sociólogo Zygmunt Bauman, provam que o ser humano opta cada vez mais por não solidificar as relações, não as materializar e nem as manter, em nome de uma possibilidade eternamente variável.

Do meu ponto de vista, passamos de uma sociedade líquida para outra multidimensional ou poliédrica. Quando realizamos uma atividade, buscamos fazer outra ao mesmo tempo. É habitual que os fabricantes de esteiras instalem nelas uma televisão para acompanharem o jogo de futebol ou as notícias, enquanto se pratica esporte; vemos televisão em casa enquanto conversamos ou navegamos com o celular. As próprias emissoras de televisão colocam na tela, durante as discussões e entrevistas, o que os espectadores tuítam sobre o que está sendo dito. Parece que viver uma única realidade é insuficiente.

Já é habitual ver casais em um restaurante que combinam a conversa entre si com outra por meio do celular com terceiros. Não se trata de uma crítica, como “o passado era melhor”. O que esse exemplo quer explicar é que, quando se instala no ser humano uma insuficiência constante sobre o presente, ancora-se a ele uma crença deficitária da vida, e, portanto, a provável conclusão de que a sua existência não foi plena. Um desejo peremptório por multiplicar o presente desemboca em uma insatisfação com o passado.

Esquecemos o que significa presente. Os presentes têm que ser desfrutados, saboreados e apreciados. Viver intensamente obriga a parar o relógio, a não pensar em outra coisa que não seja o que se está experimentando. O tempo é o que é. A única coisa que está em nossas mãos é decidir como queremos desfrutá-lo. Tempo de qualidade, não quantidade de tempo.

Vamos pensar nas crianças. Quando são pequenos e brincam com alguma coisa, fazem apenas isso. É verdade que a aparição de um novo estímulo pode fazê-los abandonar o que têm em mãos e se dirigir a outro assunto com muita facilidade. Mas é devido à curiosidade. Sua percepção de tempo não existe. Seu presente é absoluto, e a ele se entregam com os cinco sentidos.

No âmbito profissional, as consequências desse conceito, a partir de nossas decisões, são transcendentais, porque não podemos mudar de ocupação a cada dois meses. Publiquei há muitos anos um livro chamado O vendedor de tempo. O protagonista empacotava minutos em frasquinhos e os colocava à venda. As pessoas ficavam loucas e enchiam as ruas para comprá-los. Na verdade, o tempo que adquiriam era seu, era o mesmo que viveriam, mas comprá-lo com seu próprio dinheiro lhes dava liberdade para usá-lo em outras coisas. As decisões profissionais são vendas de espaço que nos pertence, e com ele que negociamos. Não em frasquinhos, mas em grandes contêineres. Nós nos comprometemos cada vez que firmamos um contrato, assumimos um cargo, um projeto, uma função ou tarefa.

Por isso temos que ser exigentes. As transações de tempo próprio, pessoal ou profissional são a principal causa para chegarmos ao fim de nossas vidas pensando que deveríamos ter vivido de outra maneira. Para evitar que isso aconteça, é bom se perguntar frequentemente: “O que eu faria se não tivesse medo? O que eu faria se soubesse dizer não? ”.
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Fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/29/estilo/1464558997_272379.html