Ganhador do Nobel de Economia em 1995 vê com preocupação
limite de gastos na área
RIO - Nobel de
Economia em 1995, o professor da Universidade de Chicago Robert Lucas defende
que a educação é o principal fator que diferencia uma economia de sucesso das
demais. Ele vê com preocupação a proposta de limitar os gastos na área no
Brasil e alerta para as consequências:
— Quando se cortam
investimentos em educação, toda uma geração de crianças vai crescer ignorante.
E o país vai pagar por isso.
Em entrevista no Rio
após participar de seminário no Instituto Nacional de Matemática Pura e
Aplicada (Impa), Lucas admite o crescimento mais lento da economia americana e
o aumento da desigualdade, mas é enfático ao afirmar que “não há crise” nos
Estados Unidos nem há base para o debate proposto por Donald Trump de “tornar o
país grande de novo”.
Em sua
apresentação, destacou a existência de dois mundos em alguns países. Como vê
isso?
Tenho pensado sobre a
situação de ainda existirem dois mundos em países da África, do Sul da Ásia e
das Américas, o das pessoas não instruídas e daquelas com nível educacional de
países avançados. Há 200, 300 anos, todo país tinha a maioria da população não
instruída, que trabalhava com as mãos, e uma minoria de educados, que trabalhavam
com o cérebro. Algo alterou esse equilíbrio em certos países, enquanto não
houve progresso em outras nações.
‘Se um pai tem dois filhos,
coloca em uma boa escola.
Se perder o emprego e tiver um terceiro
filho,
não pode simplesmente deixar o filho
sem escola.
Uma pessoa decente deve lidar com
isso.
Um país decente deve lidar com isso’
- Robert LucasProfessor da Universidade
de Chicago
Como isso se
explica?
Muito do que foi
feito na Europa e nos Estados Unidos tem a ver com educação. Em um país como o
nosso, a maioria das pessoas tem acesso à boa educação, e o mundo científico
está ao alcance delas. Quanto mais o país estiver envolvido em educação, melhor
estará. A educação é a diferença-chave entre as economias de sucesso e as
demais. Há outras questões, como a governança ruim, mas educação é chave. No
Brasil, a corrupção é uma questão importante, mas ocorre em todos os lugares.
Em geral, a América Latina não vai bem em educação. Há escolas de fronteira,
como a Fundação Getulio Vargas e o Impa, mas poucos têm acesso.
O debate sobre
educação no Brasil se voltou para a questão da qualidade. Qual é a importância?
Esta é uma questão
difícil. Meu colega James Heckman (Nobel de Economia em 2000) está trabalhando
duro nisto. Apenas colocar pessoas numa sala de aula com um professor por cinco
horas não garante nada. É preciso saber quem é o professor e o que ele pode
oferecer. Muito do que aprendemos na escola está ligado à interação com outros
alunos e à influência dos pais. Eles acompanham, estimulam o estudo... É uma
questão privada. Mas, se os pais não cuidam, o governo deve interceder? Com
pais ruins, a pessoa está em maus lençóis desde o primeiro dia.
O debate sobre
o problema fiscal no Brasil inclui teto para os gastos com saúde e educação.
Isso é preocupante?
Todo país no mundo
tem déficits, e isso também é realidade no meu estado, Illinois. Em uma
situação fiscal delicada, o governo tem de avaliar tópico por tópico e decidir
o que é mais importante. Se há invasão em um país, por exemplo, os recursos se
voltam para o setor militar. A mesma coisa com as crianças. Não há uma fórmula.
Mas não há escolha: ou se cortam os gastos ou se aumentam os impostos.
‘Não é uma crise (na economia
americana).
Não é uma questão de ficar pobre,
mas de ficar rico mais devagar’
-
Robert LucasProfessor da Universidade de Chicago
Mexer nos
gastos com educação traz consequências?
Não conheço a
situação fiscal no Brasil. Mas, se há um gasto de 5% do total com educação, é
possível que haja muitas despesas para reduzir antes da educação. Quando se
cortam investimentos em educação, toda uma geração de crianças vai crescer
ignorante. E o país vai pagar por isso. Pessoas cujos talentos poderiam ser
úteis no futuro em muitas áreas estarão em desvantagem. É um problema de longo
prazo. Qualquer pai saberia isso. Se um pai tem dois filhos, coloca em uma boa
escola. Se perder o emprego e tiver um terceiro filho, não pode simplesmente
deixar o filho sem escola. Uma pessoa decente deve lidar com isso. Um país
decente deve lidar com isso.
Como vê a
economia americana e a atuação do Federal Reserve (Fed, o banco central dos
EUA)?
O que a Janet Yellen
(presidente do Fed) está fazendo é garantir que a inflação não fique à deriva.
Eles têm o poder de estabilizar a inflação e estão fazendo um bom trabalho. Mas
não têm muito poder sobre o mercado de trabalho, não há relação estreita entre
as políticas do Fed e a criação de empregos. Não se deve pensar no discurso de
Donald Trump de “a América ser grande de novo”. Isso é exagero. Somos o país
mais rico do mundo, por uma boa margem. A renda é 30% maior do que nos
principais países europeus. Não é uma crise. É verdade que há desaceleração do
crescimento, que ninguém sabe se vai continuar. Isso afeta a economia. Mas não
é uma questão de ficar pobre, e sim de ficar rico mais devagar.
Mas há
economistas que destacam o aumento na desigualdade nos EUA...
Sim, isso está
acontecendo. A renda das pessoas mais ricas está aumentando em ritmo maior do
que a das mais pobres, então a desigualdade está aumentando. Mas certamente não
é uma crise, (o debate) está fora das proporções.
Há quem
atribua o Brexit e a popularidade de Trump a essa desigualdade...
Não sei do Brexit,
mas não se pode falar de Trump como uma pessoa real. Ele nunca teve uma
atividade pública, é apenas alguém com um pai rico. Não há base para esse
debate de crise e “tornar o país grande de novo”. Somos o país com maior
produtividade no mundo. Não é que não existam problemas a serem solucionados,
mas não há uma crise. Vamos pensar nas Filipinas, no Paquistão, para não falar
da Síria. Pessoas de lá adorariam ir para os Estados Unidos e poderiam ter
grandes carreiras.
A aprovação do Brexit corre o risco de ser o início do declínio da globalização
e da consequente prosperidade (Foto: Wikimedia)
A vitória da campanha do Brexit foi um reflexo da fragilidade do liberalismo internacional
Muitos defensores do Brexit basearam suas campanhas no otimismo. Com a
saída da União Europeia (UE), o Reino Unido estaria livre para promover
uma abertura política e econômica, sem as regulamentações impostas pela
UE. Mas o que garantiu sua vitória foi a raiva. A raiva estimulou a
opção “sair” nas regiões mais pobres e nas zonas industriais. A raiva
contra a imigração, a globalização, o liberalismo social e o feminismo
traduziu-se em um voto de rejeição à UE. Como se a vitória fosse uma
licença para disseminar o ódio, a raiva invadiu as ruas do país com uma
explosão de abuso racista.
Nas democracias ocidentais, dos Estados Unidos de Donald Trump à
França de Marine Le Pen, muitas pessoas estão com raiva. Se não
conseguirem encontrar uma voz no sistema social predominante, elas serão
ouvidas em propostas alternativas. Caso não acreditem que a ordem
global age em benefício delas, a aprovação do Brexit corre o risco de
ser o início do declínio da globalização e da consequente prosperidade.
Quando Trump falou em protecionismo esta semana, incentivando os
americanos a “retomarem o controle” do país, ele não só repetiu as
palavras dos defensores do Brexit, como também assumiu a posição de
muitos políticos que rejeitam a ideia do livre comércio como um estímulo
à prosperidade, em vez de um custo ou uma concessão. O liberalismo
depende da crença no progresso, porém muitos eleitores sentem-se
excluídos desse processo de incorporação de novas conquistas.
Enquanto o PIB per capita dos EUA aumentou 14% no período de 2001 a
2015, os salários médios dos trabalhadores tiveram um aumento de apenas
2%. Os defensores do liberalismo acreditam nos benefícios de uma
soberania compartilhada para o bem comum. Mas como o Brexit mostrou,
quando as pessoas sentem que não controlam suas vidas ou não usufruem
dos benefícios da globalização, o movimento é de rejeição. A visão cada
vez mais distante e difusa da integração europeia fez da UE um alvo
perfeito para os que rejeitam a ideia de uma unidade política e
econômica da Europa.
Agora que a oposição à política de cooperação entre as nações assumiu
um caráter de vingança, o liberalismo precisa mais uma vez lutar em
defesa dos seus princípios. Parte dessa tarefa se resume a encontrar um
discurso comum de oposição a radicais extremistas como Marine Le Pen e
Donald Trump. O fluxo de capital, o livre comércio, e a interação entre
pessoas e ideias diferentes são fatores essenciais para a prosperidade
dos países. O poder de um Estado opressor e discriminatório é uma ameaça
ao bem-estar da humanidade. As virtudes da tolerância e da conciliação
são fundamentais para que as pessoas consigam realizar seu pleno
potencial.
Anderson, do Ted: conferências online organizadas por ele tiveram 1 bilhão de visitas em 2015
É difícil pensar a comunicação de ideias contemporânea sem falar do
Ted e da revolução implantada pelo americano Chris Anderson, de 59 anos,
curador de palestras de até 18 minutos no formato de vídeos digitais
oferecidas gratuitamente na rede.
As conferências tornaram-se sinônimo de troca de conhecimento
relevante de forma leve e profunda no mundo digital e, no ano passado,
alcançaram 1 bilhão de visitas. Presidente do Ted, Anderson lança agora a
edição brasileira de “Ted Talks: O Guia Oficial do Ted para Falar em Público” (Intrínseca).
Mix de manual de oratória e defesa de um renascimento do discurso oral
como forma central de transmissão de ideias, o livro tem protagonistas
como Michelle Obama, Bill Gates, Stephen Hawking, Jamie Oliver e Bono
Vox, entre muitos outros.
Desde 2001, o Ted Talks é parte da Sapling Foundation, fundação
privada sem fins lucrativos criada por Anderson em 1996. A receita vem
de patrocínio privado, propaganda inserida no site do Ted e nos vídeos,
além dos ingressos cobrados para assistir ao vivo as conferências, apoio
institucional dado à fundação, direito de licenciamento de palestras e
da publicação de livros.
Leia trechos da entrevista a seguir:
Valor: No ano passado, o Ted Talks alcançou 1 bilhão de visitas. Este
dado joga por terra o argumento de que o mundo digital é apenas um
parque de diversões para a futilidade, a banalidade e o tribalismo
gerador de ódios sociais?
Chris Anderson: Há milhares de pessoas interessadas em usar seu tempo
na rede para aprender, expandir suas mentes e não apenas ver vídeos de
gatinhos fofos. Foi a sacação mais sensacional de toda a aventura do Ted
Talks. Desse momento tirei uma das mais importantes lições de minha
vida: não tenha medo de oferecer seu produto de graça na rede, essa
decisão pode justamente ser a maneira de estabelecer sua reputação com
milhares de cidadãos mundo afora.
Valor: O universo da comunicação mudou muito desde 2007, quando o Ted
lançou o slogan “Ideias que valem à pena serem divulgadas”…
Anderson: Em 2007 , percebemos que vivíamos um renascimento
gigantesco do discurso público, impulsionado por um desenvolvimento
tecnológico inesperado que pode se revelar tão significante quanto a
prensa de tipos móveis inventada por Johannes Gutenberg [1398-1468]: o
vídeo online gratuito. Saiba falar, coloque o vídeo na rede e você tem,
sim, o potencial de mudar a cabeça dos milhares que o virem/ouvirem e
de plantar novas ideias ou combater as que você considera serem ruins.
Você tem a possibilidade de modificar a visão de mundo de indivíduos e
de mudar o comportamento deles vida afora. O potencial é ilimitado, a
escala da audiência gigantesca.
Valor: O Ted tornou-se fenômeno quando o senhor decidiu colocar os
vídeos gratuitos na rede. Chegou a dizer que “as ideias e os valores do
Ted me salvaram naquele momento, após a crise da internet na virada dos
anos 90″…
Anderson: Em 2006 decidimos, de modo experimental, colocar seis dos
Ted Talks online e de graça no site. Era o engatinhar do vídeo digital
online e, mesmo assim, em setembro, já tínhamos uma audiência única de 1
milhão de pessoas. Além de nos tornar conhecidos em um nível jamais
imaginado por nós, a reação deu muita esperança em relação ao que de
fato o mundo lá fora estava curioso por saber.
Valor: O senhor já escreveu que não há fórmula para se fazer uma
palestra Ted. Neste caso, não seria uma contradição escrever agora um
livro sobre as regras para se falar bem em público? Anderson: Não há
contradição. Um dos maiores equívocos sobre discursos públicos é que há
uma fórmula a ser prescrita para que, magicamente, se crie a “fala
perfeita”. Isso não existe. O que há, no entanto, é uma série de
ferramentas que qualquer pessoa pode usar para incrementar suas
habilidades, e é isso o que procuro dividir com os leitores.
Valor: Se tivesse de escolher cinco Ted Talks que jamais sairiam de sua prateleira, quais seriam?
Anderson: Não posso escolher. Mas posso falar de vídeos cult, não tao
vistos, mas que amo. O de Richard Turere, extraordinário: um menino
Masaii [grupo étnico presente no Sul do Quênia e Norte da Tanzânia] de
12 anos que aprendeu eletrônica por conta própria e usou seus
conhecimentos de forma original. O de Eleanor Longden, cuja história
incrível tem a capacidade de fazer você repensar a esquizofrenia. Além
do de David Deutsch, que explica o pensamento científico de forma
inventiva e profunda; o de Steven Pinker, sobre a diminuição da
violência no planeta, um Ted que gostaria que fosse mais e mais
assistido. É um antídoto contra a depressão em relação ao mundo nosso de
cada dia. E o de Don Hoffman, especialista em percepção visual, que
oferece uma maneira diferente de se pensar a consciência humana. Entre
os brasileiros, temos Juliana Machado Ferreira [bióloga], Bruno Torturra
[jornalista], Angélica Dass [fotógrafa] e Tasso Azevedo [engenheiro
florestal], entre muitos outros, que merecem a atenção do público.
Valor: Quem se sairia melhor nos 18 minutos de um Ted, Donald Trump ou Hillary Clinton?
Anderson: Você não me pega. Só vou dizer que estou curioso para saber
como dois discursos públicos, com estilos tão diversos, vão dar forma
às eleições presidenciais deste ano.
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Fonte: Eduardo Graça, Valor Econômico, Nova York, 08/07/2016
"Quando estamos diante de uma escolha dessa, a vida cobra sua
conta. Ela cobra de nós a capacidade de sentirmos terror e piedade de
quem sofre tamanha maldição."
Minha religião é a tragédia. Não porque eu creia em Zeus ou Afrodite
(neste caso, quase faria uma exceção ao meu ceticismo, devido a certas
mulheres que conheci ao longo da vida), mas porque tenho certeza de que a
tragédia é a forma mais acabada que o espírito humano encontrou pra
descrever nossa condição.
Escrevi algumas semanas atrás que minha religião é a tragédia. Muitos
leitores me perguntaram o que eu queria dizer com isso. Com o tempo
vamos aprendendo onde nos sentimos em casa (esta é uma forma de
felicidade muito sutil para espíritos ruidosos). A tragédia é uma de
minhas casas, talvez a mais "minha" de todas.
Ao longo da vida percebemos que as pessoas sofrem, resolvem problemas,
fazem escolhas entre "X" e "Y", enfim, enfrentam a labuta do dia a dia.
Com o tempo, sem saber ao certo a razão, desenvolvi um encanto por essa
capacidade de ação dos meus semelhantes. Hoje, sei que existia nesse
encanto que sentia o reconhecimento de que os seres humanos, na sua
infinita batalha cotidiana, mereciam aquilo que só mais maduro pude
saber o que era –eles mereciam reverência.
Dito nas palavras que aprendi com Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.): a
vida dos seres humanos desperta em nós, quando olhamos com atenção,
"terror e piedade", traços da tragédia grega, segundo o filósofo.
E, antes de tudo, meus semelhantes mereciam reverência porque, ao final
(um importante detalhe que logo ficou claro pra mim), sempre perderiam a
batalha. A vida ficou clara na sua "essência" para mim quando, depois
de deixar a infância, entendi que somos como heróis da tragédia:
combatemos até o fim, mas sempre seremos derrotados ao final. Não só a
morte enquanto tal, mas as perdas, as frustrações, as mentiras, os
amores impossíveis, dores de todos os tipos.
Evidente que isso tudo é atravessado por uma profunda beleza e coragem
que, às vezes, assim como que num ato de graça, conseguimos até tocar
com as mãos ou sentir seu perfume. E essas duas, beleza e coragem, que
considero irmãs de sangue, tornam ainda mais evidente o reconhecimento
de que os seres humanos merecem reverência nessa labuta sem fim.
Hoje reconheço aquilo que para grandes autores como G. W. F. Hegel
(1770-1831), Isaiah Berlin (1909-1997) e John Gray, vivo e em atividade,
se constitui num dos traços marcantes da condição trágica: o fato de,
muito pior do que ter de escolher entre o bem e o mal, sermos obrigados,
em muitos dos mais dramáticos momentos de nossas vidas, a escolher
entre o bem e o bem.
Os utilitaristas na virada do século 18 para o 19 entendiam que a vida
humana se dá por meio de escolhas racionais: escolhemos o bem-estar e
não o sofrimento (o mal para o utilitarismo).
Isso é apenas meia verdade. Fosse essa a realidade na sua plenitude, não
haveria problema. A verdade é que, muitas vezes, somos obrigados a
escolher entre duas formas de bem em conflito irremediável. Bens
materiais x bens imateriais, fidelidade x paixão, filhos x dedicação à
vida profissional, verdade da alma x verdade do corpo, sinceridade x
sobrevivência, enfim, apenas iniciantes acreditam que o utilitarismo
"resolve" o drama moral humano. Gray chama esse tipo de escolha de
"escolha radical", porque ela nos lança no drama trágico por excelência.
Martin Thibodeau, no seu maravilhoso "Hegel e a Tragédia Grega",
recém-lançado pela É Realizações, descreve essa mesma condição dizendo
que a vida é trágica porque ela se dá fora de qualquer possibilidade de
redenção metafísica, de qualquer acordo final que possa dar conta da
oposição entre bens, da cisão interior, da negatividade dos fatos e do
conflito essencial que alimenta nossas vidas sem possibilidade de
"domesticação".
"The clash between good and good", nas palavras de Gray, ou "o conflito
entre o bem e o bem", é nosso principal problema moral. Todas as demais
formas de concepção de vida, para mim, estão aquém dessa clareza
trágica. Quando estamos diante de uma escolha dessa, a vida cobra sua
conta. Ela cobra de nós a capacidade de sentirmos terror e piedade de
quem sofre tamanha maldição.
------------------------------ * Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela
Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião,
ciência. Escreve às segundas. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/07/1790345-o-conflito-entre-o-bem-e-o-bem.shtml Imagem da internet
Considerado um dos maiores especialistas mundiais em internet,
ciberespaço, virtual e novas tecnologias de comunicação, o filósofo
francês Pierre Lévy, nascido na Tunísia, professor no Canadá, esteve em
Porto Alegre para falar no ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento e
na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Nesta entrevista para o
Caderno de Sábado, ele indica o que vem por aí e prevê o fim de muitas
profissões.
Caderno de Sábado. Por toda parte, inclusive em Porto Alegre,
o Uber provoca polêmica. Trata-se de uma grande e benéfica mudança
civilizacional ou de uma vitória da desregulamentação do mercado?
Pierre Lévy – Na última vez que eu vim ao Brasil,
faz uns seis meses, havia um enorme manifestação de motoristas de táxi,
que tocavam tambor, nas imediações do aeroporto de Otawa. Ao chegar ao
Rio de Janeiro, encontrei algo muito parecido. Cada um acredita que é um
problema da sua cidade, mas é global. No longo termo, Uber e outros
aplicativos semelhantes vencerão, pois os clientes estão do lado deles
por ser mais simples, confortável e seguro. No curto termo, há uma
injustiça, pois para quem investiu em táxi como meio de vida, pagando
taxas e licenças, enfrentando testes e revisões, submetendo-se a
regulamentações, não é aceitável ver surgir uma concorrência que, em
certos aspectos, é desleal. Os taxistas convencionais têm mais
obrigações do que seus concorrentes. Será preciso encontrar meios de ser
justo com os taxistas de hoje sem impedir o novo. No futuro, os táxis
convencionais vão desaparecer. É inevitável. Os hotéis também vão passar
por transformações. Sempre haverá hotéis, mas os convencionais perderão
espaço. O sistema de aluguel de quartos em residências privadas ou de
apartamentos por aplicativos vai se expandir. As agências de viagem
também estão com dias contados, salvo, talvez, para viagens em grupo.
Intermediários serão eliminados. Cada um faz e fará tudo por conta
própria na internet.
Caderno de Sábado – Muitas profissões vão desaparecer?
Lévy – Sim. A economia inteira está em
transformação. Os corretores de imóveis, por exemplo, se não
desaparecerem, vão ter menos o que fazer. Aplicativos farão o que hoje
eles possibilitam. Jornalistas sempre existirão para apurar notícias e
contar histórias, pois isso exige tempo, dinheiro e profissionalismo,
mas os jornais passarão por muitas mudanças ainda. Editores de revistas
científicas desaparecerão. Cada um publicará seu artigo científico num
site pessoal ou coletivo e as avaliações serão feitas depois. Isso já
existe. O importante é a circulação de ideias, não o controle prévio da
publicação. É mais democrático, aberto e é gratuito. As bibliotecas
universitárias gastam fortunas inutilmente para assinar publicações que
podem e devem estar abertas a todos. Esse é o futuro.
"Internet não é responsável por tudo,
mas é verdade que ela tende para o
liberalismo,
para a desregulamentação."
Caderno de Sábado – Como a justiça de cada país deve se
comportar em relação a aplicativos como whatsapp, que trabalham com
dados criptografados, ou redes sociais como facebook? É direito bloquear
esses serviços quando eles não aceitar colaborar com investigações?
Lévy – Não é por alguma coisa estar na internet que
passa a ter o direito de escapar à justiça e às leis de um país. As
novas tecnologias da comunicação não anulam as leis votadas
democraticamente nem os procedimentos judiciais que podem servir para
proteger as populações, por exemplo, de atos terroristas. Em
contrapartida, bloquear serviços que servem a todos não parece ser a
maneira mais inteligente de resolver o problema. É preciso negociar.
Facebook e twitter já costumam colaborar em certas situações. Essas
empresas falam para seus clientes prometendo preservar a privacidade de
cada um e dos seus dados. Mas elas também enfrentam litígios e recorrem à
justiça. Nesse sentido, precisam respeitá-la. Não podem ficar na
contradição ou na conveniência dos seus interesses.
Caderno de Sábado – Internet e os aplicativos ajudam a criar
uma utopia de liberdade e de inteligência coletiva ou o triunfo de um
ultraliberalismo com a desregulamentação das leis trabalhistas?
Lévy – A tendência à desregulamentação não começou
com a internet. O liberalismo data do século XVIII. Há fases mais
protecionistas e outras menos. São ciclos políticos e econômicos.
Internet não é responsável por tudo, mas é verdade que ela tende para o
liberalismo, para a desregulamentação. É possível estabelecer fronteiras
para bens materiais, mas não para ideias e informações, que possuem
enorme valor econômico. Existem espaços cooperativos de produção de
softwares: todo mundo participa, cada um dá uma contribuição e todos
ganham. Nada se perde e todos avançam. Esse é ganho irreversível. Não há
fronteiras. A circulação é livre. Os marxistas acham que é uma vitória
do neoliberalismo. Podemos ver tudo isso como vitória da inteligência
coletiva. Depende da grade de leitura de cada um. A realidade é que a
informação não respeita fronteiras. Tudo circula.
CS – No começo, sobre internet, o senhor era acusado de ser
muito otimista. Passados tantos anos, qual o seu balanço? Há quem
sustente que as redes sociais, por exemplo, são a ditadura da estupidez.
Lévy – A ditadura da estupidez começou antes da
internet. A democracia, para os seus opositores, é a ditadura da
estupidez e da asneira, pois dá direito de voto a todo mundo. Para quem
não aprova isso, só deveriam votar aqueles que têm curso superior, algo
assim. A espécie humana é assim. Certas pessoas são imbecis em certos
momentos e inteligente em outros. A vida da espécie humana melhorou. Na
Idade Média, a expectativa de vida era de 35 anos, a cada dez anos uma
epidemia dizimava multidões, havia servidão, no Brasil, a escravidão
durou até o final do século XIX… Preciso contradizer quem diz que os
ricos estão cada vez mais ricos e os pobres, mais pobres. Não, os ricos
estão cada vez mais ricos, e os pobres, menos pobres. Quando eu era
jovem, havia muita gente que passava fome. Hoje, não. Só uma minoria. O
problema é a obesidade. A realidade contraria o discurso catastrófico da
mídia. As manchetes só falam do que não funciona.
CS – Internet vai dar um salto de qualidade nos próximos anos?
Lévy – A internet ainda está na sua pré-história.
Hoje, 50% das pessoas estão conectadas. Em 2000, era 1%. Rapidamente
atingiremos 80 ou 90% de conectados. Então, a internet passará por
inovações de qualidade: tradução automática, inteligência artificial,
inteligência coletiva, reflexiva. Eu trabalho nisso. Vou lançar, em
2017, um aplicativo, que se chamará Intelect, de gestão coletiva de
dados. Vai permitir a troca de informações sobre um assunto específico
de maneira a ampliar o uso. Vamos pegar hastags, transformá-las em
linguagem IML e calcular as proximidades semânticas. A internet do
futuro será mais sofisticada e menos atrelada aos meios convencionais.
Ainda não usamos todas as possibilidade da internet. Caminharemos para
uma nova forma de escrita, mais ideográfica, uma escrita linguagem de
programação, mais potente e de comando.
CS – Vivemos numa nova civilização?
Lévy – Cada vez mais. Essa nova civilização se baseará nessa nova
forma de escrita, concebida para os meios feitos de algoritmos e dados.
Isso vai possibilitar novas formas de educação e até de organização
política. Assim como existiram os grandes Estados baseados no alfabeto e
no impresso, teremos o que chamo de Estado-enxame, como de abelhas,
feito de colaboração densa. O território será apenas a base de operação
dos enxames. A democracia representativa continuará, mas terá menos
importância. As grandes cidades serão mais importantes, com decisões
coletivas. Não falo em democracia direta porque existe o problema das
reações emocionais.
CS – Como no caso do Brexit?
Lévy – Não quero tomar partido. Não é o papel de um
filósofo. Mas os ingleses não mediram as consequências. É um tiro no pé.
Foi um voto afetivo. A inteligência coletiva é a decisão com base em
dados, cálculos, consequências, projeções, simulações e racionalidade.
Penso que teremos uma democracia esclarecida. Não supriremos os
representantes eleitos, mas a burocracia que os acompanha.
Robôs sentimentais: Sony trabalha no desenvolvimento de robôs que estabeleçam laços emocionais
A Sony afirmou estar trabalhando em robôs
que terão uma ligação emocional com pessoas. A afirmação foi feita pelo
CEO da empresa Kaz Hirai em uma apresentação sobre os rumos da empresa,
que foi realizada na última semana.
Este trabalho está sendo desenvolvido por uma nova companhia formada
dentro da própria em abril deste ano. A nova divisão estaria
desenvolvendo seu plano de negócios para um lançamento oficial que deve
acontecer em breve. As informações foram publicadas pelo site The Verge.
A empreitada não será a primeira da Sony dentro do campo dos robôs. Em 2006, a empresa lançou o Aibo, um robô canino dotado de inteligência artificial.
Na época, o Aibo chegou a estabelecer ligação emocional com humanos—mais
no senso de os humanos terem uma ligação do que algo partindo do
próprio robô. A imprensa relatou que algumas pessoas estavam organizando
funerais para seus “cães robôs” depois da “morte” de alguns deles.
Além dos comentários sobre robôs, o CEO da Sony falou sobre realidade
virtual como um campo importante para o futuro da empresa. Uma das
principais aplicações da tecnologia será com o Playstation 4, console de
videogame da japonesa.
O CEO ainda estuda se realidade virtual será uma divisão da Sony ou se ela será desenvolvida dentro de outras categorias.
--------- Reportagem por Victor Caputo, de EXAME.com Fonte: http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/sony-trabalha-em-robo-que-cria-lacos-emocionais-com-pessoas
Uma manhã de inverno em Copacabana pode ser apenas uma manhã de inverno
em Copacabana. O escritor norueguês Karl Ove Knausgård, 47, porém, já
transformou as impressões sobre seu primeiro amanhecer no Rio em
literatura, com descrições sobre a paisagem (e provavelmente outras
divagações) escritas e prontas para seu próximo livro.
"Descrevi o cenário, as montanhas e o mar –a primeira impressão do
exótico–, então haverá um pouco do Brasil no livro", diz Knausgård,
autor de uma obra quase autobiográfica em que se alonga ao narrar
situações triviais que intercala com temas como a morte e o amor.
Na Flip, em Paraty, onde fala nesta sexta (1º), ele lança "Uma Temporada
no Escuro" (Companhia das Letras), quarto livro da série "Minha Luta",
de seis volumes, que o consagrou como um escritor comparado a Proust.
O autor levou John, o filho de oito anos, para Paraty. Nesta quinta
(30), ele deu uma entrevista coletiva, em que falou sobre a vida no
vilarejo da Suécia onde vive, que tem 300 habitantes, e sobre o Brasil.
O autor disse ter lido e gostado do livro "Diário da Queda", do escritor
Michel Laub, e comentou sobre a experiência de assistir ao jogo entre
Brasil e Alemanha na Copa do Mundo, que resultou no 7 a 1: "Senti que
aquilo não era mais um esporte".
Nesta entrevista concedida por telefone na terça (28), do Rio, Knausgård
fala de um novo projeto sobre as quatro estações e diz ter vontade de
escrever um romance não relacionado à sua vida.
Ele também reflete sobre o ataque à boate gay em Orlando, critica o
Brexit e acaba comentando sobre os temas mais presentes na sua obra: o
cotidiano, a vida, o nascimento e principalmente a morte.
Folha - No segundo livro da sua série, você escreve sobre como tem
vergonha de dar palestras. Como se sente por ter de falar em Paraty? Karl Ove Knausgård- Muitas coisas mudaram na minha vida desde o
segundo livro. Viajo e falo sobre os livros, já estou acostumado e até
gosto disso. Sou muito tímido, então não converso muito com as pessoas.
Mas sinto-me completamente livre no palco e quando escrevo.
Quais são suas primeiras impressões do Rio?
Chegamos ontem à noite. É muito estranho chegar num continente que você
nunca viu antes, no escuro, sem saber como é. E é emocionante levantar
no dia seguinte para ver como é –e é lindo. Há pássaros grandes, devem
ser pássaros só daqui, e isso me dá a sensação de estar em outro
continente, algo que eu amo. Mas não é tão diferente da Noruega –há
montanhas e o mar, a diferença é que a vegetação é tropical. É exótico,
mas no sentido de que se você fosse para Escandinávia, você também a
acharia exótica. Trouxe meu filho comigo. É mais fácil vir porque também
é por ele, para que ele possa conhecer o Brasil e ver algo que nunca
viu antes.
O que você tem escrito?
Estou escrevendo um projeto sobre as quatro estações. Três livros já
foram publicados na Noruega e o quarto, sobre o verão, será publicado em
agosto, mas eu ainda não o terminei. Essa manhã escrevi sobre estar no
Rio, descrevi o cenário, as montanhas e o mar, a primeira impressão do
exótico, então haverá um pouco do Brasil no livro. É inverno aqui, mas
ainda é verão na minha cabeça. A temperatura aqui é a mesma da
temperatura que estava na Suécia quando saímos.
Parte dos livros é uma carta para minha filha, que ainda não tinha
nascido quando a série começou, então é como se eu estivesse mostrando o
mundo para ela: "é isso que te aguarda". E é também uma enciclopédia de
coisas, como o riso, a água, o carro, a grama, o sol. O terceiro livro,
sobre a primavera, é um romance sobre um dia da vida dela. E o quarto
livro é uma mistura de enciclopédia com diário.
Como você mergulha nas suas memórias? Você escreve sobre coisas que a
maioria de nós não lembraria, embora não saibamos o que é verdade.
É um processo. Quando você se abre, surgem coisas das quais não se
lembrava. Elas vêm, você escreve sobre elas e elas despertam outras
memórias. Nossa vida é tão rica e grandiosa, mas não precisamos de todas
nossas memórias no dia a dia, precisamos só de algumas para manter
nossa identidade em ordem. Escrever é uma forma de acessar esse mundo.
Mas invento muitos detalhes.
O neurocirurgião inglês Henry Marsh, que também estará na Flip, diz
que lhe fascina como o cérebro, algo tão material, contém em si nossa
consciência. Você acompanhou algumas cirurgias que ele fez. Teve essa
sensação?
O mistério se aprofundou. Escrevo muito sobre isso nesse novo livro,
sobre natureza e animais e coisas biológicas –o mundo externo. O cérebro
não é nada, é só uma massa, como água-viva. É tão pequeno, e contém em
si todas nossas emoções, nossas experiências, tudo o que vivemos está
lá. E é um mistério tão grande quanto Deus. Não dá para compreender.
Como é possível? O que é? São só reações químicas nessa matéria, mas
também há minha vida ali.
Vocês dois trabalham com a morte, escrevem sobre ela. Como que a morte mudou a forma como enxerga a vida?
Só tive uma experiência com a morte e esse foi o motivo pelo qual
escrevi 3.600 páginas a meu respeito. Vi meu pai morto e tentei entender
o que aquilo representava. Quis expressar a intensidade da vida. O
sentido da vida foi tão impactante quando confrontei a morte que tudo
mudou. Era como estar no mundo de uma forma completamente diferente. E
isso desapareceu e eu voltei a ter uma vida normal, com os problemas do
cotidiano. E aí vem o amor, o nascimento de filhos e há o mesmo tipo de
concentração de vida. É o oposto com a morte porque a vida desaparece,
mas as estruturas são as mesmas. E é quase impossível viver assim, com
essa intensidade. É impossível estar apaixonado mais que alguns meses, e
aí outra coisa deve acontecer, e é a mesma coisa com o luto.
Você escreve sobre acontecimentos triviais. Como se encaixam para formar uma coisa só, delicada e grandiosa?
Quando vejo meus filhos –minhas mais velhas têm 12 e 10 agora–, vejo que
têm as mesmas experiências que tive, sei que se apaixonam, têm
relacionamentos de uma semana. Sei como é importante para eles e como é
essa sensação. Mas vivo à margem deles e não estou consciente do que
acontece com eles, nesse sentido. De fora, é quase insignificante. Os
livros tentam ver tudo de dentro, como é ser uma pessoa por dentro. A
literatura pode fazer isso, pode humanizar os outros ao ampliar a nossa
própria vida.
Quando algo como um ataque terrorista acontece, a reação que temos é
desumanizar a pessoa que fez isso, fazemos dela um monstro, mas não é
assim; ela pode ter sido como nós, ter tido filhos como nós, ter se
apaixonado como nós. Tenho pensado sobre isso, sobre o que aconteceu em
Orlando. Estava num parque há alguns dias. Uma luz encantadora incidia
na água, dançava nas árvores, pássaros cantavam de forma harmônica. A
sensação de estar vivo era tão boa e então eu pensei: "Como é possível
estar aqui, com essa beleza, e fazer algo tão destrutivo como essa
pessoa fez?"
Você tem pensado mais sobre isso por causa dos seus filhos?
Sim. Quando algo assim acontece, pensamos: "E se fosse meu filho ou
minha filha?". Ano passado sentimos os refugiados chegando como uma onda
abstrata, e então a foto do menino morto na praia mudou a atmosfera
porque entendemos que não era algo abstrato, era o filho ou a filha de
alguém. E isso durou uma semana ou duas. Mas é possível ter essa visão e
esse alcance na literatura. A literatura pode nos fazer entender que
essas pessoas somos nós. Que ela sou eu, que eu sou ele. É um momento
muito interessante na Europa agora.
Sim, com a saída do Reino Unido da União Europeia, principalmente. O que acha da decisão?
É uma decisão de direita, nacionalista e isolacionista. Me parece muito, muito ruim.
O que você tem lido?
Um livro muito antigo, de 1750 ou algo assim, de um escritor sueco,
Emanuel Swedenborg. Ele é um personagem quase místico. Era um cientista
que de repente teve uns sonhos que mudou completamente a forma como via
vida. Ele passou a falar só sobre os mortos, os anjos e outras
dimensões. Me interessei por essa mudança para o mundo dos sonhos. Tenho
lido e escrito sobre isso.
Você sonha muito?
Sim. Sou muito fascinado por isso, assim como sou fascinado por nossas
memórias. Mas não analiso muito meus sonhos. Às vezes tenho sonhos que
viram realidade e fico curioso como isso acontece. Não estamos
conscientes, mas às vezes vemos algo, lemos ou entendemos algo e não
refletimos a respeito, então não chega ao nosso estado consciente. E
então sonhamos com aquilo, são sonhos honestos. É fascinante.
Você pretende escrever outro livro depois do projeto das quatro estações?
Sim, planejo um romance. Uma ficção clássica, em que nada é verdadeiro,
com seis personagens diferentes. Se você publicar isso, terei de
escrever de fato. Talvez seja por isso que eu esteja te contando.
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Reportagem por JULIANA GRAGNANI
ENVIADA ESPECIAL a Paraty
Ouço com frequência jovens me perguntarem o que fazer para não terem uma
vida medíocre. A angústia deles é verdadeira. Os jovens hoje, por
detrás de toda essa "fúria" de acharem que são uma "evolução" das
gerações anteriores, morrem de medo.
Esse é o sentimento básico da chamada geração Y: o medo. O mundo é mais
competitivo, as pessoas, mais egoístas, as opções de escolha, maiores (o
que os faz viver como se a vida estivesse na prateleira de uma promoção
do freeshop), e, por isso mesmo, a chance de fracassar, muito maior. A
ansiedade de errar entre tantas opções os esmaga.
Por detrás desse blablablá de que os jovens de hoje são mais corajosos
para seguir seus sonhos, está a boa e velha publicidade vendendo vidas
que não existem.
Sei que alguns afirmam que viver segundo o desejo é a solução. Concordo
em teoria, mas o problema é que viver segundo o desejo (seja lá o que
isso for) é sempre um risco porque, como nos ensinou Arthur Schopenhauer
(1788-1860), o desejo pode nos humilhar de duas formas básicas:
negando-nos a realização de nosso desejo ou, pior, deixando que
realizemos nosso desejo, porque assim perceberemos que, ao realizarmos
nosso desejo, perdemos o tesão por ele, um pouco como o velho personagem
Dom Juan e seu desespero diante da perda do desejo pela mulher
seduzida.
Alguns acham que para escapar da vida medíocre devemos viver uma vida
estética, como se diz em filosofia. Uma vida estética é uma vida vivida
pelas sensações, como dizia Soren Kierkegaard (1813-1855). Uma vida
estética é bastante sedutora: sexo, bebida, jogos, comida, viagens. Mas
fracassa pela mesma razão que dizia Schopenhauer: uma hora o tesão pela
sensação acaba.
O dinamarquês Kierkegaard levanta outra hipótese, que é a da vida ética.
Essa proposta centra o sentido da vida numa busca de vida honesta.
Cuidar da família, ser fiel no casamento, ser trabalhador, pagar
impostos, investir em previdência privada. O fracasso será, entretanto,
muito provável: famílias traem, um dia você pode ser trocado ou trocada
por alguém mais jovem e belo, empregadores demitem, injustiças abundam,
impostos só aumentam e pouco se ganha em troca. A aposta na vida ética é
ainda mais frustrante porque você se sentirá um pouco ingênuo ao
perceber que o mundo não leva em conta os esforços para termos uma vida
"reta".
Outra opção, segundo nosso dinamarquês, é aderir a uma vida religiosa
numa igreja. De nada adiantará porque igrejas são poços de repressão,
mentiras e hipocrisias. De volta a estaca zero.
Para Kierkegaard, toda essa busca se dá porque somos um poço de
angústia. Tememos uma vida inundada em angústia, e, por isso mesmo,
tentamos toda forma de fuga, para ao final tombarmos na mesma
constatação: medo, desespero e angústia.
O existencialista Kierkegaard aposta num "salto na fé", livre de
instituições religiosas, tipo "você e Deus". Mas, ao mesmo tempo esse
"salto" implica um ato de coragem que é apostar numa vida sem medo da
angústia. Toda vez que tentamos escapar dela e fracassamos, mergulhamos
no desespero: perdemos a esperança de que possamos viver uma vida sem
angústia e pautada por alguma garantia contra nossos medos.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) apostava numa vida vivida a partir "dos
seus próprios valores", longe do espírito de rebanho que assola a
humanidade, principalmente na modernidade, essa era dos rebanhos e
manadas. Richard Rorty (1931-2007) traduzia essa ideia assim: "Buscar
uma vida autoral". Isso significa o seguinte: viver de forma tal que sua
vida seja sua obra de arte.
De volta a questão dos jovens: como não ter uma vida medíocre? Acho
difícil não ter uma vida medíocre, porque, principalmente, você acaba
tendo uma vida medíocre porque quer ter uma vida segura (o que é normal
querer, afinal de contas). A modernidade é um parque de mediocridade
regado a busca de segurança e garantias.
Creio que a receita para termos uma vida medíocre é termos muito medo. A
proposta de Nietzsche e Rorty me parece bastante sedutora. Mas, quem
está preparado para não ter medo de sofrer?
--------------- *Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela
Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião,
ciência. Escreve às segundas. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/07/1788190-vida-mediocre.shtml Imagem da Internet
Entrevista exclusiva del Papa al diario argentino La Nación
"Quiero una Iglesia abierta, comprensiva, que acompañe a las familias heridas"
Joaquín Morales Solá, 03 de julio de 2016
Yo sigo mi camino sin mirar al costado. No corto cabezas. Nunca me gustó hacerlo. Se lo repito: rechazo el abe que el rumor de una supuesta frialdad entre él y el
presidente argentino es el consumo cotidiano del micromundo político en
su país. Funcionarios vaticanos buscaron una explicación para ese
insistente murmullo. Hay en la Argentina, han concluido, una campaña de
prensa y en las redes para desprestigiar al Papa. "Es la única nación
del mundo donde el Papa es una figura tan discutida. Y es la nación
donde nació Francisco", subrayan.
El Papa no se detiene en los rumores ni en las explicaciones. Se
muestra cercano y afectuoso, como siempre desde que nos conocemos, hace
casi 20 años. Está mucho más delgado que la última vez que lo vi. Una
dieta equilibrada, que no le exige mayores sacrificios, le permitió
terminar con el sobrepeso que tenía. Está contento. Un análisis completo
de su salud le acaba de confirmar que su estado es excelente. "Los
resultados son los de una persona de 40 años", le dijo su médico.
Conserva el viejo don de hacerle sentir a su interlocutor que tiene
puesta en él su atención exclusiva y excluyente. Nunca se olvida, eso
sí, de distinguir con precisión su rol de jefe de Estado cuando habla de
otro jefe de Estado. "Macri me parece una persona bien nacida, una persona noble", agrega. Ni una sola palabra sobre sus políticas. Es el límite que debe respetar como jefe de Estado.
- ¿Cómo se lleva con los ultraconservadores de la Iglesia?
Ellos hacen su trabajo y yo hago el mío. Yo quiero una Iglesia
abierta, comprensiva, que acompañe a las familias heridas. Ellos le
dicen que no a todo. Yo sigo mi camino sin mirar al costado. No corto
cabezas. Nunca me gustó hacerlo. Se lo repito: rechazo el conflicto. Y
concluye con una sonrisa amplia: "Los clavos se sacan haciendo presión
hacia arriba. O se los coloca a descansar, al lado, cuando llega la edad
de la jubilación". Genio y figura del papa Bergoglio.
- ¿No tuvo nunca ningún problema con Macri?
Una sola vez, en Buenos Aires, durante más de seis años de
convivencia. Él como jefe de gobierno de la Capital y yo como arzobispo.
Una sola vez en tanto tiempo. El promedio es muy bajo.
Y agrega: "Algunos otros problemas los hablábamos en privado y lo
resolvíamos en privado. Y los dos respetamos siempre el acuerdo de
privacidad. No busque razones. No hay ninguna explicación en la historia
para que se diga que yo tengo un conflicto con Macri".
Ha recibido a tres ministros de Macri en las últimas semanas.
"Algunos son viejos amigos, que piden verme y yo los recibo con mucho
gusto", cuenta. Esos ministros son el de Educación, Esteban Bullrich; el
de Trabajo, Jorge Triaca, de cuya madre el Pontífice es amigo, y la
canciller Susana Malcorra. "No sé cómo hizo una ingeniera electrónica
para tener semejante cintura política", se sorprende sobre Malcorra,
campechano. "Se lo pregunté con sentido del humor", relata. "Debe haber
aprendido en las Naciones Unidas", concluye. Pero hay dos mujeres del
gobierno de Macri sobre las que el Papa se detiene: la gobernadora de la
provincia de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, y la ministra de
Desarrollo Social, Carolina Stanley. "Conozco la sensibilidad social de
ellas y sé por la Iglesia argentina que siguen siendo muy sensibles ante
el sufrimiento de los que menos tienen", destaca.
- ¿Sabe que lo criticaron por haber recibido a Hebe de Bonafini?
Hasta un amigo me mandó una carta criticándome por eso. Fue un acto
de perdón. Ella pidió perdón y yo no se lo negué. No se lo niego a
nadie. Nunca fue cierto que las Madres ensuciaron la Catedral de Buenos
Aires. Ocuparon dos veces la Catedral. Y las dos veces yo di la orden de
que no les faltaran agua ni baños. Es una mujer a la que le mataron dos
hijos. Yo me inclino, me pongo de rodillas ante semejante sufrimiento.
No importa lo que haya dicho de mí. Y sé que dijo cosas horribles en el
pasado.
Cerca de él cuentan toda la anécdota. La intermediaria entre
Francisco y Bonafini fue Marta Cascales, esposa del polémico ex
secretario de Comercio Interior Guillermo Moreno. El Papa conoce a
Cascales desde hace más de 30 años, pero no por Moreno, sino porque era
amigo de su primer esposo, que murió. A Moreno lo saludó un par de veces
mientras fue agregado comercial en Italia y lo recibió cuando pidió
despedirse. Nada más. Cascales no participó de la reunión privada entre
el Papa y Bonafini. Sólo estuvo al principio para saludarlo. Luego, los
dos -Francisco y Bonafini- quedaron solos. "Hablamos del perdón y ella
dijo lo que siempre dice del gobierno de Macri, que luego repitió ante
la prensa. Son cosas de ella, no mías. A mí me interesaba dejar atrás
una historia de desencuentros", explica.
Los funcionarios del Vaticano, que hurgaron en el origen de los
rumores sobre las presuntas desavenencias entre el jefe de la Iglesia
Católica y el presidente argentino, creen haber encontrado a un ideólogo
de la campaña contra el Papa. Es Jaime Durán Barba. Tal vez lo ayuda
algún ministro importante, dicen (¿Marcos Peña?). Durán Barba cultiva un
anticlericalismo cerril. No lo esconde. Suele exponerlo sin vueltas en
las reuniones del círculo político más influyente del macrismo. Durán
Barba tiene sus adversarios cuando despliega esos argumentos. Su más
constante refutadora es la vicepresidenta Gabriela Michetti, que también
conoce al Papa desde hace mucho tiempo. Durán Barba suele exponer en
público sus argumentos anticlericales. ¿Por qué Macri no lo calla? "Es
imposible luchar contra la egomanía", explica un funcionario de Macri.
Tampoco Durán Barba es el único anticlerical que aprovecha un momento
en que la política discute la figura del Papa. La campaña en la prensa
contra él que denuncian funcionarios vaticanos (excluyen a LA NACION) se
nutre de anticlericales que estaban escondidos. El Pontífice quedó
también atenazado por dos polos fanáticos, el kirchnerismo y el
antikirchnerismo, cuando decidió hacer algunos gestos públicos, como
recibir a Bonafini o enviarle un rosario a Milagro Sala. "No tengo
ningún reproche personal que hacerle al presidente Macri", repite el
Papa. No dirá nada más sobre la rumorología.
- ¿Es Gustavo Vera su vocero en la Argentina? -le pregunto al Papa.
Hay mucha confusión sobre mis voceros en la Argentina. Hace unos dos
meses, la oficina de prensa del Vaticano informó oficialmente que esa
dependencia es el único vocero del Papa. No hay más voceros, en la
Argentina o en cualquier otro país, que los voceros oficiales del Papa.
¿Es necesario repetirlo? Lo repito entonces: la oficina de prensa del
Vaticano es el único vocero del Papa.
Lo que sí existe es una vieja relación personal del Papa con Vera.
"Lo que Francisco rescata de Vera es la historia de una vida, que pudo
ser marginal y que, sin embargo, se convirtió en interesante con tesón y
coraje", amplían funcionarios muy cercanos al Pontífice. Vera tiene una
historia como militante de la izquierda extrema, que el Papa fue
llevando hacia posiciones más racionales. "No busquen más explicaciones
que ésa, porque no las hay", resaltan. Sin embargo, a Macri lo preocupa
sobremanera que Vera deje entrever que es el vocero del Papa en la
Argentina. Vera es para el macrismo lo que Durán Barba es para el
Vaticano. Causantes los dos de que existan las versiones de desacuerdos
entre el Papa y el presidente argentino.
- ¿El rechazo de la donación del gobierno argentino a Scholas Occurrentes fue una decisión suya contra el gobierno de Macri?
Para nada. Esa interpretación es absolutamente incorrecta. Yo les
dije a los dos responsables de Scholas, con todo mi cariño, que los
estaba preservando a ellos, los estaba cuidando de eventuales
tentaciones o errores en el manejo de la fundación. De ninguna manera
aludía al Gobierno. Al presidente Macri le dije cuando lo vi aquí que se
trata de una fundación privada con reconocimiento de la Santa Sede. El
Gobierno accedió al pedido de Scholas porque tenía esa información. Sigo
creyendo que no tenemos derecho a pedirle un peso al gobierno argentino
cuando éste tiene tantos problemas sociales para resolver.
En rigor, esa interpretación es también la que hace el gobierno de
Macri, que siempre valoró la explicación veraz y precisa del problema
que escribió la corresponsal de LA NACION en Roma, Elisabetta Piqué. En
síntesis: nunca hubo con ese subsidio rechazado un conflicto entre el
Papa y el gobierno argentino. Hubo una cuestión entre el Pontífice y sus
amigos José María del Carril y Enrique Palmeyro, responsables de la
fundación Scholas, a quienes el Papa sigue distinguiendo.
- ¿Usted les dio un apoyo a jueces argentinos cuando los recibió hace poco?
Hubo aquí un congreso mundial de jueces sobre la mafia y la trata de
personas, como ya lo hubo con alcaldes de todo el mundo sobre el mismo
tema. Vinieron unos 200 jueces de todo el mundo. Seis eran argentinos.
Algunos jueces argentinos pidieron saludarme en privado y yo accedí.
Sucedió eso y nada más. No puedo apoyar ni dejar de apoyar cuando no
estoy al tanto de los pormenores judiciales argentinos.
De las reuniones privadas recordó las que tuvo con el presidente de
la Corte, Ricardo Lorenzetti, y con la jueza María Servini de Cubría,
porque a los dos los conoce desde hace mucho tiempo. "En la lucha contra
la corrupción hay que ir hasta el fondo", suele decir Francisco. Es un
concepto global. Nada más. Llega hasta el límite justo que le permite su
condición de jefe de Estado.
No obstante, se nota que está informado de los grandes trazos de la
política de su país. Desliza pequeños detalles que lo delatan. Sabe
también que dos encuestas recientes (de Poliarquía y de Isonomía) lo
colocan como la figura pública mejor valorada por la sociedad argentina.
Cuenta con el 75 por ciento de la simpatía popular. Y sólo un seis por
ciento de los encuestados tiene una imagen negativa de él. Ningún
político argentino cuenta con semejantes números a favor en las
mediciones de opinión pública.
Público consome cada vez mais entretenimento digital
em
dispositivos móveis e sob demanda.
Qual é o futuro da TV tradicional?
Se
antes a televisão era a estrela da maioria dos lares brasileiros, hoje
ela pode passar várias horas desligada. Se algumas décadas atrás ela era
o centro da sala de estar e reunia toda a família à sua volta, hoje
disputa espaço com celulares, tablets e computadores. Não é raro ver, em
uma residência, cada pessoa entretida com um dispositivo diferente,
cada uma assistindo a um conteúdo distinto.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2014,
realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o
número de casas com acesso à internet por tablet, celular e televisão
cresceu 137,7%, de 3,6 milhões em 2013 para 8,6 milhões em 2014. Mas a
televisão tradicional não está morta. O aparelho continua sendo a fonte
mais importante de entretenimento nos lares, com uma taxa de penetração
de quase 100%. No entanto, as emissoras precisam se reinventar para
sobreviver.
Elas já demonstraram ser capazes disso quando a TV paga surgiu – no
Brasil, isso aconteceu no início de década de 1990. Na época,
aficionados por filmes e séries comemoraram. Afinal, era um serviço de
transmissão de programas 24 horas por dia, sem intervalos comerciais.
Vinte e poucos anos depois, muita coisa mudou. Hoje em dia, são comuns
reclamações sobre os valores dos pacotes, o excesso de propaganda e a
repetição dos programas.
Conteúdos de serviços como o YouTube e a Netflix atraem cada vez mais interessados
Segundo um levantamento da empresa de pesquisas MeSeems, feito em
março com 1.000 pessoas de todo o Brasil, 55% dos assinantes de TV paga
consideram o valor do serviço muito caro pelo conteúdo oferecido e 26%
pretendem cancelá-lo nos próximos seis meses. Outros 33% estão na dúvida
entre cortar o serviço ou não. Entre os que pretendem cancelar, 45%
pensam em assinar a Netflix, o serviço de transmissão de filmes e séries
por streaming mais popular do mundo.
Enquanto isso, as operadoras de TV por assinatura procuram abocanhar
mais fatias desse mercado. Recentemente, empresas como Vivo e NET, que
são provedoras tanto de internet fixa quanto de TV, anunciaram que
pretendem passar, em um futuro próximo, a estabelecer um limite na
quantidade de dados dos planos de internet, como as operadoras de
celular fazem com internet móvel. Quem passasse dos limites deveria
comprar mais pacotes de dados ou teria a velocidade do serviço reduzida.
Esse modelo praticamente inviabilizaria que os consumidores passassem
horas e horas vendo filmes pela internet. “Vídeo consome muita banda de
internet. Essa seria uma maneira de as empresas ganharem em cima desse
conteúdo”, afirma Drica Guzzi, doutora em comunicação e semiótica pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora na
Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (USP).
Peter
Sellers como o jardineiro Chance do filme Muito Além do Jardim, cujos
conhecimentos foram adquiridos a partir de programas de TV
Em abril, o presidente da Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel), João Resende, declarou concordar com o ponto de vista das
operadoras e disse que a era da internet ilimitada no Brasil havia
acabado. Esse posicionamento gerou uma pronta reação de órgãos de defesa
do consumidor e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), baseados em um
artigo no Código de Defesa do Consumidor segundo o qual não se permite
“condicionar o fornecimento de produto ou de serviço, sem justa causa, a
limites quantitativos”.
No dia 18 de abril, uma medida cautelar da Anatel impediu
temporariamente as operadoras de diminuir a velocidade ou suspender a
prestação do serviço de banda larga após o fim da franquia prevista. A
decisão valeria até essas empresas colocarem à disposição dos
consumidores ferramentas que lhes possibilitem, por exemplo, acompanhar o
uso de dados de seus pacotes – o que poderá acontecer dentro de alguns
meses. Como nada está definido, o assunto ainda vai dar muito pano para
manga.
Menos TV, mais tablet
No mundo todo, pesquisas mostram que o público passa cada vez menos
horas vendo TV. De acordo com um levantamento feito em 2015 pela empresa
de consultoria Accenture em dez países, a televisão caiu 13% na
preferência entre os dispositivos escolhidos para acessar conteúdo
digital. No caso da faixa etária entre 14 e 17 anos, essa queda foi
ainda maior: 33%.
Mas a debandada não acontece apenas entre os mais novos. A costureira
aposentada Marlene Ragazzi, de São Paulo, está antenada com as novas
tecnologias. Aos 78 anos, a voraz consumidora de novelas mexicanas tem
deixado a TV desligada por cada vez mais tempo e assiste aos seus
folhetins pelo tablet, usando a Netflix ou o YouTube. “Antes, se eu
saía, perdia os capítulos. Me privava de ir aos lugares”, diz. “Agora
tenho mais liberdade, assisto só ao que eu gosto”, afirma.
O
conteúdo personalizado permite que os usuários assistam ao que desejam
no momento que querem, usando a plataforma preferida, de celulares a
computadores
Marlene usa dois tablets, um da filha e outro da neta, com quem vive,
para ver seus programas favoritos. Ela se reveza entre os dois
aparelhos para manter um deles sempre carregado e nunca ficar na mão.
Além das novelas, gosta de ver entrevistas com atores mexicanos. “Às
vezes eu levo o tablet quando saio. Quando a internet cai, fico
apavorada”, diz. Há quatro aparelhos de televisão na casa da aposentada,
mas ela afirma que eles ficam desligados a maior parte do tempo. As
amigas dizem que Marlene está ficando bitolada, mas a noveleira nem
liga. “Essa é a melhor coisa que já inventaram”.
Marlene representa uma tendência no consumo de entretenimento
digital: a personalização cada vez maior dos conteúdos. “Com a
diversidade de programas disponíveis hoje sob demanda, dá para a pessoa
ir direto ao que ela gosta e em conteúdo de qualidade”, afirma Drica
Guzzi.
O lado negativo de ter tantas opções de entretenimento digital é que
os espectadores podem se sentir um pouco perdidos e até angustiados, com
a impressão de que estão sempre perdendo alguma coisa. Mais ou menos
como quando todos os seus amigos estão comentando o último capítulo de
Game of Thrones e você, que não assiste a esse seriado, sente-se um
peixe fora d’água. “É preciso baixar as expectativas”, observa Drica.
“Concentre-se no que você está vendo, no que estimula, informa e
emociona você, e não no que está perdendo”.
Outra ressalva a se fazer a respeito das novas tendências do consumo
de TV atual é refletir se esse fenômeno não vai ampliar ainda mais as
desigualdades de acesso à informação entre públicos de classes sociais
diferentes. “Precisamos pressionar por mais investimentos do governo em
infraestrutura, por políticas públicas que barateiem o acesso à banda
larga e por mais concorrência no mercado”, diz Drica Guzzi.
Do meu jeito
A personalização do conteúdo, um dos aspectos mais fortes entre os
consumidores modernos de entretenimento digital, vem atrelada a um
desejo de controle por parte do usuário. Os consumidores querem decidir o
que, quando e onde ver seus programas favoritos. Essa é uma das razões
para a comerciante autônoma Juliana Rodrigues, 29 anos, acessar a
Netflix em casa quase que com exclusividade.
Chamada da série House of Cards, sucesso exclusivo da Netflix
Moradora de São Paulo e mãe de dois meninos, um de 4 e outro de 6
anos, ela sente que supervisiona melhor o que os filhos veem com o
serviço de streaming do que com a TV. “Vemos o que queremos, quantas
vezes e onde quisermos: no quarto, na sala, em viagens, no celular, no
tablet, etc.”, afirma.
A família ainda mantém um pacote básico de TV paga, mas só liga o
aparelho para assistir a alguma transmissão específica, como uma final
de campeonato de futebol. Juliana pensa em, no curto prazo, cancelar seu
pacote e assinar apenas um serviço de melhoria de sinal, para acessar
canais abertos em HD, e poder manter seu combo de internet e telefonia
fixa. “As operadoras dizem que não é venda casada, mas ficamos amarrados
a elas”, diz.
Mas não dá para o mundo viver apenas da customização dos conteúdos de
entretenimento digital. “A TV genérica tem seu valor, pois estabelece
um diálogo mínimo na sociedade”, diz o cineasta, roteirista e escritor
Newton Cannito, doutor em cinema pela Escola de Comunicação e Artes
(ECA) da USP. Ou seja, a TV, principalmente a aberta, ajuda a aproximar
pessoas que pensam de forma diferente, porque elas estão assistindo
àquele mesmo conteúdo.
Cena do programa MasterChef, da Band, no qual mensagens enviadas pelos espectadores via Twitter aparecem na tela em tempo real
De acordo com Cannito, uma saída possível para as emissoras
tradicionais enfrentarem a concorrência com seu conteúdo “de fluxo”, no
jargão dos estudiosos da área, é investir mais em programação ao vivo,
como noticiários, eventos esportivos e programas de auditório. Isso se
contrapõe à programação “de arquivo”, sob demanda, que é mais própria
das TVs por assinatura e de serviços de streaming.
Outro diferencial é aumentar a interatividade com o público. Alguns
programas, como o MasterChef, da TV Bandeirantes, já fazem isso, ao
transmitir na tela mensagens que os telespectadores enviam em tempo real
pela rede social Twitter. No dia seguinte, a emissora disponibiliza o
episódio na íntegra no YouTube. A Globo também tem tomado várias medidas
para oferecer mais conteúdo por meio de aplicativos para tablets e
smartphones.
Tudo ao mesmo tempo
Outro fenômeno recente detectado em pesquisas sobre o hábito de ver
TV é o da “segunda tela”, que significa usar o smartphone, tablet ou
computador enquanto se assiste a algum programa de TV, em geral para
interagir com os amigos. De acordo com uma pesquisa da consultoria
Arris, feita em 2014 com 10.500 consumidores em 19 países, 36% dos
entrevistados usaram um segundo dispositivo para acessar informações ao
vivo sobre o programa; 32% participaram de uma conversa de texto sobre o
programa; e 21% participaram de uma conversa de voz usando um segundo
dispositivo.
Ou seja, para conquistar a atenção dos telespectadores em meio a
tantas opções de entretenimento e distrações, os produtores vão ter de
elaborar atrações cada vez mais interessantes. “As emissoras precisam
entender que são marcas, não apenas canais”, diz Newton Cannito. “Elas
precisam ter a capacidade de fidelizar o público”, afirma. Vai ser uma
briga cada vez mais acirrada.
—–
O fim do zapping
Por Renata Valério de Mesquita
O hábito de zapear por 200 canais está em extinção, alerta Mauricio
Stycer, jornalista e crítico de televisão que está lançando o livro
Adeus, Controle Remoto – Uma crônica do fim da TV como a conhecemos
(Arquipélago Editorial). “O consumidor sabe o que quer e percebeu que
não precisa pagar tanto para não assistir a quase nada. Isso deve levar
as operadoras a oferecer pacotes mais práticos, baratos e adaptados ao
gosto do cliente”, diz.
“A Netflix já é uma empresa consolidada, marcou uma revolução radical
na forma de ver TV. Emissoras a la carte, como a HBO, também.” Outro
forte motivo para se rever o formato de pacotes é o avanço da TV digital
no país. “Quem tinha assinatura para assistir aos canais abertos com
qualidade já não precisará mais disso”, diz Stycer.
Segundo ele, no exterior já se pode ver conteúdo feito para TV na
hora e na plataforma que se quiser, via internet, e o Brasil segue a
tendência, embora a banda larga não seja tão disseminada aqui. Ao mesmo
tempo que os canais tradicionais migram seus conteúdos para a rede,
porém, os novos formatos de produção independentes em plataformas como o
YouTube ainda não descobriram como cobrir custos e remunerar, apesar de
terem milhares de seguidores. “Acho curioso que algumas boas
iniciativas desse tipo que nasceram no mundo virtual ainda tenham o
sonho embutido de ir para a TV, como o grupo humorístico Porta dos
Fundos.”
—–
Realidade virtual mais próxima
Imagem visível pelo Gear VR, da Samsung: experiência vívida em 360 graus
Depois de perder espaço para computadores, tablets e smartphones, a
TV vai ter agora de dividir espaço com mais um concorrente no setor de
entretenimento. O Oculus Rift chegou ao mercado americano no primeiro
semestre deste ano prometendo ao usuário a experiência vívida de uma
realidade virtual em 360 graus. O brinquedo é caro – custa cerca de US$
600 (o preço inclui fones de ouvido, controle do console Xbox One, um
conjunto de sensores e de softwares) –, mas significa diversão garantida
sobretudo para quem gosta de jogos.
Mal chegou ao mercado e o Oculus Rift já sofria com um rival mais
popular: o Samsung Gear VR, que aproveita como tela smartphones
produzidos pela própria empresa sul-coreana (Galaxy Note 5, Galaxy S6,
S6 Edge e S6 Edge+). O preço lá fora é de apenas US$ 99, mais o valor do
celular. Tamanha diferença de preço implica, naturalmente, experiências
de qualidade diversa. O Oculus Rift dá ao usuário um ângulo de 110° ou
até maior; já no Gear VR, ele não passa de 90°.
A resolução das imagens também é melhor no Oculus Rift, mas não
decepciona no Gear VR. O pacote de softwares à disposição dos usuários
do Rift também permite a eles possibilidades mais variadas de diversão.
Mas os dois aparelhos (que, aliás, são desenhados pela mesma empresa) já
oferecem diversão suficiente para tirar mais uma fatia da audiência da
TV tradicional.
Professor da Unicamp com formação em história cultural, antropologia e
filosofia, autor de vários livros,
Leandro Karnal é um irreverente
pensador do comportamento
humano passado
e presente
O historiador, antropólogo e filósofo Leandro Karnal
dissemina o conceito de tolerância ativa, postura que celebra a
pluralidade de opiniões, em vez de combatê-la ou simplesmente aturá-la
Quando o ensino religioso
se tornou lei no Brasil, em 1989, o historiador, antropólogo, filósofo e
professor Leandro Karnal logo se mobilizou para evitar que a aula se
tornasse espaço de pregação de doutrinas. Produziu, com a colega Elaine
Moura, uma série de livros didáticos com reflexões sobre história da
religião, antropologia religiosa e tolerância ativa. Embora não seja
novo, este último conceito propõe que não basta tolerar a existência de
outros com opiniões diferentes; é preciso achar fundamental que haja
diversidade de credos, culturas e etnias para a riqueza do mundo. Nesta
entrevista, Karnal estende o debate para o fundamentalismo, a internet e
a escuta.
PLANETA – Diante dos extremismos político, religioso e a
intolerância aos estrangeiros, dentro e fora do país, é possível pensar a
tolerância ativa como uma solução? KARNAL – A tolerância ativa é uma utopia, e a utopia
serve para reformar a prática atual. A utopia tem a função de
estabelecer um padrão para a mudança. A intolerância é um crime que deve
ser combatido, e a tolerância passiva é a postura dominante hoje. Nesse
contexto, a tolerância ativa é a meta. Eu sou A, ele é B, e o mundo é
melhor por causa disso. “A uniformidade é a morte”, como diz Octavio Paz
– e Paz era considerado conservador. Diversidade é vida. Mas a palavra
tolerância, em si, tem uma raiz terrível. Tolerância vem do latim e
significa “sofrer resignado”. Não é uma boa palavra. “Tolerante” é
alguém que baixa a cabeça. A tolerância ativa dá um sentido de que,
exatamente porque domino a minha cabeça, posso baixá-la, ou pelo menos
não deixá-la se abater.
PLANETA – Teria outra palavra melhor? KARNAL – Você não deve se ater à etimologia, porque vai
rejeitar as palavras. O que é um fulano entusiasmado? En + theos, “em
Deus”. O que é alguém fanático? É alguém que está dentro do templo. O
que é alguém profano? Aquele que está na frente do templo. Ou seja, as
palavras não podem ser consideradas em si, mas, nesse caso, ela mostra
uma admiração indireta que temos pela força da intolerância. Pagamos
para ver alguém batendo em alguém sem motivo – o que é uma patologia
curiosa. E quem bate mais é o macho alfa, não é o tolerante. A
tolerância é vista como feminina, fraca. Tolera quem não tem condições
de mudar. Quem tem condições muda. Então, um dos motivos para a
intolerância que está na moda é que hoje ela é sinal de força e de ação.
E todos os manuais de autoajuda indicam que você deve ser afirmativo,
colocar sua opinião, olhar no rosto. Porque é sinal de decisão, de
clareza, de caráter, e assim por diante.
PLANETA – Parece que as pessoas não conseguem mais conversar e expor cada um o seu lado. Ou isso é uma impressão? KARNAL – Não, não estão conseguindo mesmo. Não é fácil
ouvir as pessoas. Não é fácil contrapor-se às ideias. O mais fácil é
atacar e diminuir – especialmente nos campos dolorosos, como a política.
A sociedade hoje não tolera a divergência, não escuta o outro, e isso é
um comportamento autista. Falei isso em uma palestra. Aí, levantou a
mãe de um autista, começou a chorar e disse que não posso usar essa
palavra. Respondi a ela em latim: “Quod erat demonstrandum” (“Como
queria demonstrar”). Eis o autista contemporâneo! Ela não ouviu e só
pegou aquilo que a toca. Aí, em outra ocasião substituí “autista” por
“esquizofrênico” e a Sociedade Brasileira de Psicanálise me escreveu
dizendo que não posso usar o termo dessa forma. Agora eu pergunto: a
gente pode usar alguma palavra no mundo?
Desavença entre deputados na votação do impeachment de Dilma Rousseff: não está fácil contrapor-se às ideias, diz Karnal
PLANETA – Por que as posições se mostram mais polarizadas atualmente? KARNAL – Uma professora de gênero na Unicamp dava uma
palestra e um aluno da sala perguntou quantos gêneros sexuais havia no
planeta Terra. Ela parou, pensou e respondeu: “Provavelmente, 7
bilhões”. Mas a grande questão é que tanto o pensamento conservador como
parte da esquerda querem produzir uniformização. Porque a uniformização
tranquiliza o pensamento. Quando você divide o mundo de maneira
maniqueísta, entre petralhas e coxinhas, estabelece uma tranquilidade de
pensamento. Porque não é mais necessário passar pelo debate – você tem
apenas dois polos, o preto e branco.
"Há 300 anos, ninguém escolhia sua
profissão,
nem com quem ia casar.
Hoje podemos escolher.
E,
curiosamente,
não nos tornamos mais felizes – nos tornamos
mais livres
para escolher
a infelicidade."
PLANETA – É mais fácil, não tem de pensar… KARNAL – A liberdade à qual estamos condenados é
incômoda. Ela causa a má-fé, quer dizer, vou atribuir a decisão a
terceiros. Não é fácil viver na incerteza, em liberdade. É por isso que
hoje cresce tanto a sedução do fundamentalismo. Em um mundo em que tudo é
mais ou menos líquido, como diz (o sociólogo polonês) Zygmunt Bauman, o
fundamentalista só transmite certezas. Isso é muito sedutor.
PLANETA – Mas essa tendência não existia antes? KARNAL – As pessoas não tinham acesso à informação.
Imagine o que eram as bibliotecas medievais, comparativamente, com a
facilidade de acesso da internet. Essas confusões são contemporâneas. E
são positivas, porque o saber era muito concentrado, pouco democrático,
muito desequilibrado há algum tempo. Derrubamos o discurso da autoridade
e instituímos a terra da liberdade total, em que tudo é uma questão de
opinião. Isso é mais forte nas ciências humanas do que nas exatas.
Então, como ser tolerante com o outro, se a verdade é opinativa? Todo
mundo pode fazer do que jeito que quiser. Toda escolha é validada pelo
sujeito, e não mais pela sociedade. Há 300 anos, ninguém escolhia sua
profissão, nem com quem ia casar. Hoje podemos escolher. E,
curiosamente, não nos tornamos mais felizes – nos tornamos mais livres
para escolher a infelicidade.