segunda-feira, 18 de julho de 2016

Deficiente é a sociedade


Fr. Betto*
 Frei Betto Foto: Marcos Alves / Agência O Globo
 
Há palavras e expressões que, com o tempo, desabam 
do paraíso ao inferno 


Escritor e conferencista, as palavras são a matéria-prima de minha vida. Como observou Machado de Assis, “as palavras têm sexo. Amam-se uma às outras. Casam-se.” E acrescento: têm ideologia, não são neutras.

Há palavras e expressões que, com o tempo, desabam do paraíso ao inferno. São rejeitadas pelo crivo implacável do politicamente incorreto. Porque estão impregnadas de preconceitos.

Na minha infância, chamava-se aleijado quem tivesse uma deficiência física que lhe dificultasse a mobilidade. Depois, deficiente físico. Em seguida, portador de deficiência física. Mais tarde, pessoa portadora de necessidades especiais.

Ora, toda a terminologia do parágrafo acima recai sobre a caracterização do indivíduo, quando deveria caracterizar a sociedade. Ela é a deficiente, pois torna esse indivíduo um ser com dificuldades de interação e integração, em especial quando lhe faltam equipamentos sociais que lhe facilitem atividades e mobilidade.

Cadeirantes e caminhantes (outras palavras equivocadas!) são, perante a lei, iguais em direitos. Há, porém, uma diferença. Por ser portador de uma anomalia física, cadeirantes possuem também direitos especiais (rampa de acesso, estacionamento, toalete amplo etc.) que eu não possuo. Ou melhor, possuo enquanto idoso.

Não seria mais adequado deslocar a terminologia da limitação física para a sociedade? Ela, sim, é que transforma a diferença em restrição e preconceito. Sugiro, portanto, que sejam chamadas de pessoas portadoras de direitos especiais. Como o são também idosos, indígenas, LGBTod@s etc.

Quem sabe, assim, a sociedade deixe de encará-las como problema, quando o problema reside na falta de equipamentos sociais e garantias de pleno usufruto de seus direitos, os universais e os especiais.
------------------
* Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.
FONTE: http://oglobo.globo.com/sociedade/deficiente-a-sociedade-19727585

Síntese do Manifesto convivialista: declaração de interdependência

Leonardo Boff*

Por todas as partes do mundo buscam-se alternativas ao sistema econômico-financeiro vigente e mesmo, ao tipo de civilização que temos, pois o nosso modo de habitar o planeta e aproveitar de seus bens e serviços naturais chegaram a um ponto crítico.A Terra já não suporta o tipo de exploração  a que  a submetemos. Por todas as partes, estão emergindo revoluções silenciosas de grupos que ensaiam o novo e formas diferentes de produzir, de consumir, de repartir e de conviver. Essas revoluções podem significar lentamente um acúmulo de energia, capaz de apresentar-se como uma alternativa suficientemente poderosa para criar um modo novo de ser, mais amigo da vida e preocupado com o futuro comum, da Terra e da humanidade. Uma dessas iniciativas, à qual eu mesmo  subscrevi e que me venho batendo há anos, vem sobre o nome de convivialismo: um conjunto de valores e princípios éticos, políticos, econômicos e espirituais que colocam como centro não o crescimento ilimitado mas o equilíbrio entre a ação humana e a biocapacidade da Terra e da natureza. A base é uma relação não-violenta para com a natureza e entre os seres humanos, o respeito a tudo o que existe e vive e a cooperação entre todos ao invés da acumulação e da concorrência. Para ler todo texto basta wntrar na internet e ler o documento: http://www.lesconvivialistes.org   Lboff

****************************************

Jamais a humanidade dispôs de tantos recursos materiais e competências técnicas e científicas. Considerada em sua globalidade, ela é rica e poderosa, como ninguém nos séculos anteriores poderia imaginar. Nada comprova que ela esteja mais feliz. Porém, nenhuma pessoa deseja voltar atrás, pois todos percebem que, cada vez mais, novas possibilidades de realização pessoal e coletiva se abrem todos os dias.

Mas, por outro lado, ninguém pode mais acreditar que essa acumulação de poder possa prosseguir indefinidamente, tal qual em uma lógica de progresso técnico inalterada, sem se voltar contra ela mesma e sem ameaçar a sobrevivência física e moral da humanidade. As primeiras ameaças que nos assaltam são de ordem material, técnica, ecológica e econômica. Ameaças entrópicas. Somos muito mais incapazes de sequer imaginar respostas para o segundo tipo de ameaças. Ameaças essas de ordem moral e política. Ameaças que podemos qualificar como antrópicas.

O problema primordial
A constatação está aí: a humanidade soube realizar progressos técnicos e científicos fulgurantes, mas ela permanece ainda incapaz de resolver seu problema essencial: como gerir a rivalidade e a violência entre os seres humanos? Como incitá-los a cooperar, permitindo-lhes ao mesmo tempo se opor sem se massacrar? Como criar obstáculos à acumulação de poder, de agora em diante ilimitada e potencialmente auto-destrutiva, sobre os homens e sobre a natureza? Se a humanidade não souber rapidamente responder a essa questão, ela desaparecerá. Muito embora todas as condições materiais estejam reunidas para que ela prospere, contato que tomemos definitivamente consciência de suas finitudes.

Dispomos de múltiplos elementos para resposta: aqueles que sustentaram ao longo de séculos as religiões, as morais, as doutrinas políticas, a filosofia e as ciências humanas e sociais. E as iniciativas que seguem no sentido de uma alternativa à organização atual do mundo são inumeráveis, produzidas por dezenas de milhares de organizações ou associações e por dezenas ou centenas de milhões de pessoas. Essas iniciativas se apresentam sob nomes, sob formas ou em escalas infinitamente variadas: a defesa dos direitos do homem, do cidadão, do trabalhador, do desempregado, da mulher ou das crianças; a economia social e solidária com todas suas componentes: as cooperativas de produção ou de consumo, o mutualismo, o comércio justo, as moedas paralelas ou complementares, os sistemas de troca local, as diversas associações de apoio mútuo; a economia da contribuição digital (Linux, Wikipedia etc.); o decrescimento e o pós-desenvolvimento; os movimentos slow food, slow town, slow science; a reivindicação do buen vivir, a afirmação dos direitos da natureza e o elogio à pachamama; o altermundialismo, a ecologia política e a democracia radical, os indignados, Occupy Wall Street; a busca por indicadores de riqueza alternativos, os movimentos de transformação pessoal, de simplicidade voluntária, de abundância frugal, de diálogo de civilizações, as teorias do care, os novos pensamentos dos communs etc.

Para que essas iniciativas tão ricas possam se contrapor, com força suficiente, às dinâmicas mortíferas de nosso tempo e para que elas não sejam confinadas a um papel de simples contestação ou de atenuação, torna-se crucial reunir suas forças e suas energias, daí a importância de destacar e nomear o que elas têm em comum.

Do convivialismo
Elas têm em comum a busca por um convivialismo, por uma arte de viver juntos (con-vivere) que habilita os humanos a cuidar um dos outros e da Natureza, sem negar a legitimidade do conflito, mas fazendo dele um fator de dinamismo e de criatividade. Um meio de evitar a violência e as pulsões de morte. Para encontrar esse meio, precisamos, a partir de agora, e com toda urgência, de uma base doutrinal mínima partilhável que permita responder simultaneamente e em escala planetária, ao menos, a quatro questões essenciais (mais uma):

A questão moral: o que é permitido aos indivíduos esperar e o que devem eles se proibir?
A questão política: quais são as comunidades políticas legítimas?
A questão ecológica: o que nos é permitido retirar da natureza e o que devemos lhe restituir?
A questão econômica: qual quantidade de riqueza material nos é permitido produzir, e como devemos produzir, de modo a sermos coerentes com as respostas dadas às questões moral, política e ecológica?
Cada um é livre para adicionar ou não a essas quatro questões aquela concernente ao sobrenatural ou ao invisível: a questão religiosa ou espiritual. Ou ainda: a questão do sentido.

Considerações gerais:
A única ordem social legítima universalizável é aquela que se inspira em um princípio de comum humanidade, de comum socialidade, de individuação e de oposição ordenada e criadora.

Princípio de comum humanidade: acima das diferenças de cor de pele, de nacionalidade, de língua, de cultura, de religião ou de riqueza, de sexo ou de orientação sexual, há somente uma humanidade, que deve ser respeitada na pessoa de cada um de seus membros.

Princípio de comum socialidade: os seres humanos são seres sociais para quem a maior riqueza existente é a riqueza de suas relações sociais.

Princípio de individuação: em conformidade com os dois primeiros princípios, a política legítima é aquela que permite a cada um afirmar da melhor maneira sua individualidade singular em devir, desenvolvendo sua potência de ser e de agir sem prejudicar a dos outros.

Princípio de oposição ordenada e criadora: porque todos têm vocação para manifestar sua individualidade singular, é natural que os humanos possam se opor. Mas só é legítimo fazê-lo enquanto isso não coloca em risco o plano da comum socialidade que torna essa rivalidade fecunda e não destrutiva.

Desses princípios gerais decorrem:

Considerações morais
O que é permitido a cada indivíduo esperar é o reconhecimento de sua igual dignidade para com todos os outros seres humanos, é ter acesso a condições materiais suficientes para levar a cabo sua concepção de vida boa, respeitando as concepções dos outros

O que lhe é proibido é cair em desmedida (a hubris dos Gregos), i.e. violar o princípio de comum humanidade e por em perigo a comum socialidade

Concretamente, é dever de cada um lutar contra a corrupção.

Considerações politicas

Na perspectiva convivialista, um Estado, ou um governo, ou uma instituição política nova só podem ser tidos como legítimos se:

– Respeitam os quatro princípios de comum humanidade, de comum socialidade, de individuação e de oposição ordenada, e se facilitam a realização das considerações morais, ecológicas e econômicas que deles decorrem;

Mais especificamente, Estados legítimos garantem a todos seus cidadãos mais pobres um mínimo de recursos, uma renda básica, seja lá qual for sua forma, que os protege da abjeção da miséria, bem como impedem progressivamente aos mais ricos, via instauração de uma renda máxima, de cair na abjeção da extrema riqueza, ultrapassando um nível que tornaria inoperantes os princípios de comum humanidade e de comum socialidade.

Considerações ecológicas

O Homem não pode mais se considerar como dono e senhor da Natureza. Tendo em conta que longe de se opor a ela, ele faz parte dela, ele deve estabelecer com a Natureza, ao menos metaforicamente, uma relação de dom/contra-dom. Para legar às gerações futuras um patrimônio natural preservado, ele deve assim devolver à Natureza tanto ou mais do que dela toma ou recebe.

Considerações econômicas

Não há correlação comprovada entre riqueza monetária ou material, de um lado, e felicidade ou bem-estar, de outro. O estado ecológico do planeta torna necessário buscar todas as formas possíveis de prosperidade sem crescimento. É necessário para isso, em uma perspectiva de economia plural, instaurar um equilíbrio entre Mercado, economia pública e economia de tipo associativo (social e solidária), dependendo se os bens ou os serviços a serem produzidos são individuais, coletivos ou comuns.

Que fazer?

Não podemos negar que, para obtermos êxito, será necessário enfrentar forças consideráveis e terríveis, tanto financeiras quanto materiais, tanto técnicas, científicas ou intelectuais quanto militares ou criminosas. Contra essas forças colossais e frequentemente invisíveis e ilocalizáveis, as três principais armas serão:

– A indignação experimentada em face da desmedida e da corrupção, e a vergonha, sendo necessária ser sentida por aqueles que diretamente ou indiretamente, ativamente ou passivamente, violam os princípios de comum humanidade e de comum socialidade.

– O sentimento de pertencimento a uma comunidade humana mundial.

– Muito além das “escolhas racionais” de uns e de outros, a mobilização dos afetos e das paixões.

Ruptura e transição

Toda política convivialista concreta e aplicada deverá necessariamente levar em consideração:

O imperativo da justiça e da comum socialidade, que implica a supressão das desigualdades vertiginosas irrompidas no mundo desde os anos 1970 entre os mais ricos e o resto da população

A preocupação de dar vida aos territórios e às localidades, e assim de reterritorializar e de relocalizar o que a globalização desterritorializou e deslocalizou em demasia.

A absoluta necessidade de preservar o meio ambiente e os recursos naturais.

A obrigação imperiosa de fazer o desemprego desaparecer e oferecer a todos uma função e uma atribuição reconhecidas entre as atividades úteis à sociedade.

A tradução do convivialismo em respostas concretas deve articular, na prática, as respostas à urgência de melhorar as condições de vida das camadas populares, e de construir uma alternativa ao modo de existência atual tão carregado de múltiplas ameaças. Uma alternativa que cessará de fazer crer que o crescimento econômico ilimitado ainda poderia ser a solução para todos nossos males.

Subscreveram até a presente data de 18/07/2016 cerca de 3200 personalidades de muitos países,inclusive do Brasil.

Claude Alphandéry, Geneviève Ancel, Ana Maria Araujo (Uruguai), Claudine Attias-Donfut, Geneviève Azam, Akram Belkaïd (Argélia),Yann-Moulier-Boutang, Fabienne Brugère, Alain Caillé, Barbara Cassin, Philippe Chanial, Hervé Chaygneaud-Dupuy, Eve Chiapello, Denis Clerc, Ana M. Correa (Argentina), Thomas Coutrot, Jean-Pierre Dupuy, François Flahault, Francesco Fistetti (Itália),Anne-Marie Fixot, Jean-Baptiste de Foucauld, Christophe Fourel, François Fourquet, Philippe Frémeaux, Jean Gadrey,Vincent de Gaulejac, François Gauthier (Suíça), Sylvie Gendreau (Canadá), Susan George (Estados Unidos), Christiane Girard (Brasil), Françoies Gollain (Reino Unido), Roland Gori, Jean-Claude Guillebaud, Paulo Henrique Martins (Brasil), Dick Howard (Estados Unidos), Marc Humbert, Éva Illouz (Israel), Ahmet Insel (Turquia), Geneviève Jacques, Florence Jany-Catrice, Hervé Kempf, Elena Lasida, Serge Latouche, Jean-Louis Laville, Camille Laurens, Jacques Lecomte, Didier Livio, Gus Massiah, Dominique Méda, Margie Mendell (Canadá), Pierre-Olivier Monteil, Jacqueline Morand, Edgar Morin, Chantal Mouffe (Reino Unido), Osamu Nishitani (Japão), Alfredo Pena-Vega, Bernard Perret, Elena Pulcini (Itália), Ilana Silber (Israel), Roger Sue, Elvia Taracena (México), Frédéric Vandenberghe (Brasil), Patrick Viveret, Zhe Ji (China) Leonardo Boff (Brasil)

Fonte:  https://leonardoboff.wordpress.com/2016/07/18/sintese-do-manifesto-convivialista-declaracao-de-interdependencia/

Perder-se

 Luiz Felipe Pondé*
 
 "A fé na liberdade moderna é um misto de fé na técnica (o fogo de Prometeu) e no poder do Mastercard."

Você acredita em destino? Sei, parece uma pergunta estranha. Principalmente num mundo como o nosso, cozido na crença e no projeto de domínio de tudo pelo indivíduo que escolhe as coisas com a força de quem traz o Visa entre os dedos.

Outro dia, conversando com amigas, perguntei quem acreditava em destino. Apenas aquela que já viveu mais, respondeu "sim". As demais, mais jovens, responderam "não". Pareceu-me que ali pesava a maior sabedoria daquela que viveu mais (e trata-se de uma mulher muito bem-sucedida, para que nenhum desavisado pense que era uma "coitada").

Sim, sou um falso contemporâneo: duvido da capacidade humana de controlar sua vida. Cada vez mais. Sendo eu um contemporâneo, minha suspeita de que exista destino deve ser alguma forma de patologia cognitiva. Prefiro minha patologia ao invés do delírio dos meus contemporâneos.

Nesse sentido, ponho sob suspeita a máxima do mundo burguês moderno: sou dono do meu destino, basta que eu calcule, seja competente e monte estratégias. Nos meus piores momentos, suspeito que essa crença seja mais um dos males da caixa de Pandora, que Zeus deu a ela para nos castigar contra nosso conhecimento do fogo (símbolo da técnica) e seus delírios de poder.

Lembremos que o pior dos males naquela caixa era a esperança. Ter esperança é um engano, porque não há esperanças, pensa o grego antigo. Entendo que a crença na liberdade individual contra o destino seja um pouco como a esperança de Pandora: mais um engano, entre tantos outros, que nos faz acreditar em nossa infinita capacidade de dominar as coisas.
De onde viria essa certeza de que somos livres e de que não existe um destino "traçado" sobre nossas cabeças?

Quando olhamos para o mundo antigo, é comum encontrarmos a crença nalguma forma de destino. Esse destino seria traçado por forças divinas. No mundo grego, o famoso oráculo de Delfos, dedicado ao deus Apolo, aquele conhecido por dizer "Conhece-te a ti mesmo", citado por Sócrates, tinha um "complemento", que era: "Saibas que tu és mortal".

Estava aí o destino: o homem é sempre menos do que um deus porque ele é mortal e, por isso mesmo, tem como destino a perda de si mesmo. Entendo que a perda de si mesmo vá além da ideia concreta da morte. A perda de si mesmo se dá de diversas formas. Enquanto escrevo para você, me perco, me traio.

O engano contemporâneo com relação a inexistência do destino estaria não apenas no fato que continuamos mortais, mas também no fato que continuamos a perder a nós mesmos das mais variadas formas: viver é perder-se (nas paixões, nos desejos, nos fracassos, nos sucessos, nas guerras), e se você tenta evitar isso, você se perde mais rápido ainda e de forma definitiva e miserável. É aí que se encontra minha suspeita, além da mortalidade da qual fala Delfos, de que exista algo como um destino invadindo nossas vidas. Mas, sendo a modernidade uma "teenager" encantada com seu sucesso, acabamos por interpretar os palhaços da liberdade.

Pensando a partir de um materialismo social, a ideia de destino parecia mais comum quando os homens e as mulheres tinham poucas opções na vida, fosse por conta de pouca técnica, pouca longevidade, pouca liberdade individual, pouco conhecimento, pouca democracia, poucos shopping centers. Este último principalmente: a fé na liberdade moderna é um misto de fé na técnica (o fogo de Prometeu) e no poder do Mastercard.

Por isso, a fé na liberdade individual me parece fruto do avanço da sociedade de mercado e suas ferramentas de sucesso, descritas acima. Se você quiser ver esta liberdade caminhando por ai, vá ao Iguatemi. A riqueza fez de nós descrentes no destino, porque pensamos poder "comprá-lo".

Não duvido dessa premissa: mais dinheiro, mais técnica, mais sensação de liberdade. Mas suspeito que esta crença seja parte da esperança de Pandora. No fundo da caixa de Pandora tinha mais um mal escondido: a crença na liberdade do consumidor como liberdade contra o destino. O destino moderno é enganar-se com o próprio poder de controlar das coisas.
------------------
*  Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/07/1792708-perder-se.shtml
Imagem da Internet

JOEL BIRMAN: 'As pessoas sofrem de fome de amor'.

Foto (Foto: Arquivo)
                                                              Foto (Foto: Arquivo)


O psicanalista Joel Birman tem detectado em seu consultório uma “dependência emocional” generalizada. “As pessoas procuram reconhecimento no outro porque sofrem de fome de amor”, diz ele, que dá palestra no círculo “Materialistas anônimos”, dia 18, no Midrash Centro Cultural. Birman falou à coluna.

Estamos mais dependentes emocionalmente?
Sim. Esta dependência se manifesta na preocupação constante do indivíduo com que os outros pensam dele e de suas performances. Ele quer saber se agrada, se é amado. A preocupação do sujeito de quantas curtidas recebeu no Facebook ilustra bem isso. As pessoas mais vulneráveis precisam desse reconhecimento mais que as outras, pois sofrem de fome de amor.

Como isso afeta a sociedade?
As pessoas são muito sensíveis em relação a como os outros a acolhem — de forma risonha ou carrancuda, com muitas ou poucas palavras, se são abraçadas ou beijadas. Nesse contexto, cria-se um mal-estar nos laços sociais, pois o não reconhecimento do outro é fonte de desconfiança, perseguição e até mesmo de agressividade.

Como prevenir essa dependência?
Se o que está em jogo na dependência excessiva do sujeito é uma baixa sensação de autoestima, é crucial que na infância e na adolescência os indivíduos tenham a certeza de que são amados pelos pais pelo que são. Isso sem ter que fazer malabarismos para que sejam consideradas pessoas interessantes.
------------
Reportagem por Maria Fortuna
Fonte:http://blogs.oglobo.globo.com/gente-boa/post/as-pessoas-sofrem-de-fome-de-amor-diz-psicanalista-joel - acesso: 18/07/2016

sábado, 16 de julho de 2016

Ataque infame

Gilles Lapouge*

  Swaha

O massacre de Nice marca o início de uma nova forma de guerra que a jihad trava com o Ocidente

Um novo ataque infame na noite de quinta-feira. Em Nice, sul da França. Alvo magnífico. Nice é a capital da beleza, da meiguice e do prazer, que se estende languidamente pela costa mediterrânea, mais ou menos como o Rio de Janeiro reflete sua beleza nas águas do Atlântico. 

Foi em 14 julho, dia de festa nacional. Sobre as areias e ao longo do golfo, a multidão despreocupada contemplava os fogos de artifício no negro do céu. As crianças riam, gritavam de alegria, quando o enorme caminhão acelerou contra a multidão por uma extensão de 1.700 metros. O motorista dirigia o caminhão em zigue-zague para matar mais mulheres, homens e crianças. Ele foi abatido, mas depois de ter causado 84 mortes. 

A França é o lugar preferido nos sonhos sórdidos dos jihadistas. Há um ano e meio, fanáticos atacaram a redação do jornal Charlie Hebdo, contra a publicação de caricaturas (aliás, muito feias) de Maomé. No fim de 2015, comandos terroristas metralharam cafés, estádios e se explodiram para matar mais inocentes. 

Agora, um caminhão assassina as felizes crianças de Nice na noite da festa nacional de uma França que tem por divisa “liberdade, igualdade, fraternidade”. Os jornais falam de progressão dos atos de horror. É apenas um modo de se expressar, porque na infâmia não há nuances. Ela é absoluta.  

O massacre do Charlie Hebdo, os atentados de novembro, como também, mais longe no tempo, o ataque contra as torres gêmeas de Nova York, tudo isso foi tão ignóbil quanto o caminhão letal de Nice. A ignomínia não tem grau. De um só golpe a excelência é atingida. É o caso dos jihadistas. No entanto, eles conseguem modificar de tempos em tempos sua tática. 

O atacante de Nice é um jihadista, embora até o momento nem a Al-Qaeda nem o Estado Islâmico reivindicaram o ato. Sem dúvida, deve ser sido cometido por um lobo solitário. Lembremos que, há algumas semanas, o EI exortou todos seus fiéis espalhados pelo mundo a realizarem, sozinhos, operações de morte. E, segundo o grupo, isso não é tão complicado. Basta investir contra uma multidão com um carro, um caminhão e morrer. 

É neste sentido que Nice marca uma nova etapa. Nos seus feudos no Iraque, Síria e na Líbia, o EI está sob pressão. Os bombardeios russos, americanos, franceses e britânicos, juntamente com as operações de tropas locais e os temíveis “conselheiros” americanos e franceses, expulsam os assassinos dos territórios em que se estabeleceram. 

Podemos dizer que o Estado Islâmico está derrotado? Claro que não. O que ocorre é simplesmente o que se temia: expulsar o EI de suas propriedades significa disseminá-lo, multiplicar a peste. O massacre de Nice marca o início de uma nova forma de guerra que a jihad trava com o Ocidente. Claro que é necessário e salutar atacar o Estado Islâmico na Síria, no Iraque, na Líbia. Mas serão necessários longos anos para expurgar o veneno da terra. 

Cada vez que um ato horrível como este ocorre, o mundo inteiro é tomado pelo asco. O papa, chefes de Estado, ministros, deputados, intelectuais, jornalistas, todos manifestaram sua indignação, denunciaram a barbárie. 

Como agir diferente? No entanto, esses brados de cólera e repugnância não só de nada servem, mas são recebidos pelos assassinos com prazer, como elogios. Se os chamamos de bárbaros, eles se orgulham de ser bárbaros. São cruéis? Claro que são! E se vangloriam disso porque sua crueldade está a serviço do “bem”, ela é o “bem”.  

Eles vivem em um mundo onde todos os valores se perderam. Como os gnósticos dos tempos primitivos, acham que o “mal” tomou o lugar do “bem” e o “bem” hoje é o “mal”. O diabo e o bom Deus trocaram seus papéis e moradias. Como resultado, se o Ocidente, que consideram o “mal”, afirma que eles praticam maldades, concluem que estão fazendo o “bem”. Ser denunciado pelo Ocidente, que obedece a satã, é reconfortante. Prova que estão do lado de Deus. 

É uma inversão dos valores. A troca de Deus pelo diabo, a fascinação pela morte, a sua e a dos outros. Poucos Exércitos neste mundo dispõem de armas tão fulminantes. 
/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  
------------------
*É CORRESPONDENTE EM PARIS
Fonte:http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,ataque-infame,10000063231?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=manchetes - 16/07/2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Zygmunt Bauman: "Contra a Europa da suspeita e para encontrar uma saída, escutem o papa."

  

"Olhemos para os migrantes como a um sinal visível e tangível da fragilidade do nosso bem-estar e das suas perspectivas."

Entrevista

As migrações vão decidir o destino da Europa? A pergunta, que pareceria exagerada pouco tempo atrás, domina hoje o debate político, assim como as discussões cotidianas. O referendo sobre a Brexit foi jogado, em grande parte, sobre esse tema. E assim também a campanha eleitoral à presidência austríaca, que a Corte Constitucional decidiu fazer com que se repita. Dois momentos de escolha que dividiram a Grã-Bretanha e a Áustria e que, de repente, revelaram a precariedade do quadro institucional comunitário.

A reportagem é de Fulvio Scaglione, publicada no jornal Avvenire, 13-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por isso, é de grande atualidade o congresso "A nova Europa: migrações, integração, segurança", que inicia nessa quinta-feira, em Roma, durante o East Forum 2016, com uma série de personalidades das mais diversas origens, mas de autoridade comum. Do ministro do Interior italiano, Alfano, ao presidente do Unicredit, Giuseppe Vita, do procurador nacional antimáfia Franco Roberti a Romano Prodi, de Ismail Yesil (presidente da Agência para as Situações de Emergência do governo turco) a Giuseppe Scognamiglio, diretor da revista EastWest.

Sobre o tema das migrações, quisemos ouvir o professor Zygmunt Bauman. Sociólogo e filósofo, é o mais agudo estudioso da sociedade pós-moderna e contou em páginas memoráveis a angústia do homem contemporâneo, transformado de produtor em consumidor.

A sua metáfora da "sociedade líquida" (em que o indivíduo é cada vez mais forçado a se adequar aos comportamentos dos grupos para não se sentir excluído) já se tornou proverbial. Nascido na Polônia, de pais judeus, Bauman conheceu, quando jovem, a experiência da fuga diante da perseguição e do exílio. Talvez, também por isso, o seu ponto de vista sobre o encontro-confronto entre migrantes e Europa é original e contracorrente.

"Hoje, muitas vezes, confunde-se entre fenômenos muito diferentes", diz Bauman. "Um deles é a emigração-imigração, de um lugar para outro lugar. Outra coisa bem diferente é a migração: que move de um lugar, é claro, mas para onde? Os dois fenômenos têm raízes muito diferentes raízes, mas efeitos muito semelhantes, porque são semelhantes as condições psicossociais dos locais de chegada. Umberto Eco, bem antes do atual pânico das migrações, observou, nos seus 'Cinco escritos morais', que a imigração pode ser controlada, limitada, planejada ou aceita, enquanto que este não é o caso das migrações. Como todos os fenômenos naturais, as migrações não podem ser controladas. Eco, então, se fazia uma pergunta crucial: ainda é possível distinguir a imigração da migração quando o planeta inteiro está se tornando palco de um incessante deslocamento cruzado de povos? E respondia: a Europa se tornará um continente multirracial ou 'colorido', agrade-nos ou não."

Eis a entrevista.

De acordo com muitos estudos, por exemplo, os do Pew Research Center, de Washington, hoje, os europeus são os mais hostis aos migrantes. Como se explica isso, em um continente que, no passado recente, também enviou migrantes para todo o mundo?
Hoje, os europeus têm medo do futuro, perderam a confiança na capacidade coletiva de mitigar os seus excessos e de torná-lo mais amigável. A palavra "progresso", que ainda usamos por inércia, evoca emoções opostos àquelas que Immanuel Kant sentia quando cunhou o termo. O pensamento do futuro, hoje, desperta em nós, mais frequentemente, a ideia de uma catástrofe iminente, mas não a de uma vida mais confortável. E o estrangeiro representa tudo o que há de instável e de imprevisível na nossa vida. Por isso, olhemos para os migrantes como a um sinal visível e tangível da fragilidade do nosso bem-estar e das suas perspectivas.

Como diria o filósofo Michael Walzer, em primeiro lugar, é sempre contra os estrangeiros que os moradores de um bairro "se organizarão para defender as suas políticas e culturas locais" e tentarão transformá-lo em um "pequeno Estado". Mas é muito difícil, para não dizer impossível, construir um Estado futuro livre de estrangeiros. Portanto, a imagem-guia desse esforço é quase sempre recuperada do passado. O passado como era, mas, mais frequentemente, como pode ser imaginado: todo "nosso", sem nuances, ainda não atacado pela importuna proximidade dos "outros". É a reação típica da política, que, quando perde a capacidade de moldar o futuro, tende a se transferir para o espaço da memória coletiva, que pode ser facilmente manipulada e dá uma sensação de onipotência feliz. É uma ilusão? Sim, é claro. Mas é uma ilusão que mantém à baila um número sempre crescente de europeus.

No entanto, para justificar a hostilidade contra os migrantes, invocam-se questões econômicas. Em suma: não temos dinheiro para acolhê-los.
As razões psicossociais e culturais são travestidas por razões econômicas para torná-las mais "racionais" e, portanto, "politicamente corretas". As pesquisas mais sérias mostram que os imigrantes contribuem para a riqueza do país de chegada mais do que recebem em termos de serviços sociais. Outros estudos, além das conclusões do bom senso comum, mostram que a desconfiança contra os imigrantes e migrantes é maior onde há um número menor deles.

Na campanha do referendo para a Brexit, os moradores das áreas com menos imigrantes votaram para levar a Grã-Bretanha para fora da Europa. Londres, cidade de infinitas diásporas culturais e étnicas, votou para ficar. A suspeita, portanto, é de que a hostilidade contra os "aliens" foi gerada, principalmente, pelo fato de não ter havido a oportunidade de desenvolver a capacidade de interagir com as diferenças. Na falta desta, é fácil que os estrangeiros se tornem o símbolo das forças, reais mas distantes e desconhecidas, que regulam o andamento do mundo e geram aquele sentimento de precariedade que angustia tantos europeus.

A Europa e outras partes do mundo estão se enchendo de muros. Não é extraordinário que, diante de fenômenos tão complexos, nos confiemos a instrumentos tão primitivos?
Vivemos a crise da separação entre poder e política: os poderes se livram do controle da política, e a política perde, assim, o mais importante dos pressupostos para produzir ações efetivas. Mas, acima dessa crise, há outra, a incongruência assinalada pelo sociólogo Ulrich Beck: já vivemos em uma condição cosmopolita de interdependência e troca em nível planetário, mas a nossa consciência cosmopolita ainda está nos seus primeiros suspiros. O sociólogo estadunidense William Fielding Ogburn, em 1922, em plena época colonialista e imperialista, cunhou a expressão "atraso cultural" para descrever o desconforto dos "selvagens" que eram expostos a uma forte pressão no sentido da modernização, mas ainda eram inocentes em relação à mentalidade moderna.
É como se hoje fôssemos nós, os europeus, a levar o bastão na corrida de re
vezamento entre os continentes, o que gera ansiedade. O mercado, sob a forma de mercadorias e de bens, nos oferece uma ampla gama de antidepressivos e de "antitudo". Ele quer empurrar cada um de nós a esculpir um pequeno nicho consolador e bem equipado. Cada um por si, e os outros que se arranjem. Assim, nos cegamos em relação à natureza do nosso problema, em vez de nos ajudar a erradicar as suas causas.

E o que fazer para ajudar as pessoas, em vez disso, a abrir os olhos?
Há uma personalidade muito determinada para levantar certas questões, e se trata do Papa Francisco. Que faz isso, aliás, sem ter a pretensão de ter a varinha mágica, mas, ao contrário, convidando a fazer esforços justos, mas que também poderiam fracassar. Há uma passagem do discurso que ele proferiu no dia 6 de maio de 2016, na entrega do Prêmio Carlos Magno, que deveria ser aprendido de cor: "Se há uma palavra que devemos repetir até nos cansarmos é esta: diálogo. Somos convidados a promover uma cultura do diálogo, buscando, com todos os meios, abrir instâncias para que ele seja possível e nos permita reconstruir o tecido social. A cultura do diálogo implica um autêntico aprendizado, uma ascese que nos ajude a reconhecer o outro como um interlocutor válido; que nos permita olhar para o estrangeiro, o migrante, o pertencente a outra cultura como um sujeito a ser ouvido, considerado e apreciado. É urgente para nós, hoje, envolver todos os atores sociais na promoção de uma cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, levando adiante a busca de consenso e de acordos, mas sem separá-la da preocupação com uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões (Evangelii gaudium, 239). A paz será duradoura na medida em que armarmos os nossos filhos com as armas do diálogo, ensinarmos a eles a boa batalha do encontro e da negociação".

O Papa Francisco quer remover o destino da pacífica convivência dos políticos profissionais e do reino escuro da política, para levá-lo para as ruas, entre as lojas e os escritórios, aos espaços públicos onde todos nós nos encontramos. Ele quer confiar as esperanças do gênero humano não aos generais do "choque de civilizações", mas a nós, soldados comuns da vida cotidiana. Para que isso aconteça, no entanto, também devem se realizar outras condições, e o papa nos lembra delas: "A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Se queremos pensar as nossas sociedades de um modo diferente, precisamos criar postos de trabalho digno e bem remunerado, especialmente para os nossos jovens. Isso requer a busca de novos modelos econômicos mais inclusivos e equitativos, não orientados para o serviço de poucos, mas para o benefício das pessoas e da sociedade. E isso nos pede a passagem de uma economia líquida a uma economia social". Eu só tenho uma palavra para acrescentar: amém.
---------
FONTE:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/557760-qcontra-a-europa-da-suspeita-e-para-encontrar-uma-saida-escutem-o-papaq-entrevista-com-zygmunt-bauman
Imagem da Internet

Pais devem ler para os filhos. Mas cuidado!

Hábito importante, mas com critério
Um estudo da Universidade de Nova York, em colaboração com o IDados e o Instituto Alfa e Beto, mostra um aumento de 14% no vocabulário e de 27% na memória de trabalho de crianças cujos pais leem para elas pelo menos dois livros por semana. O estudo concluiu ainda que a leitura frequente dos pais para as crianças leva à maior estimulação fonológica, o que é importante para a alfabetização, à maior estimulação cognitiva em casa e a um aumento de 25% de crianças sem problemas de comportamento. “Esses dados são bastante impressionantes. Estamos comparando dois grupos que estão dentro do sistema de creches, dentro de um sistema com professores treinados para ler para as crianças. Acrescentamos a leitura dos pais e, quando isso é feito, da forma como foi feito, tem grande impacto”, diz o presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira.
Ele explica que a leitura em família é também um momento importante de interação entre pais e filhos. “Esse é o ponto central, levar os pais a conversar com os filhos. Eles podem também levar as histórias para o real, quando estiverem na rua, podem mostrar para os filhos algo que apareceu na história. Essa forte interação tem impacto em outras dimensões cognitivas.”
Mas há que se tomar cuidado com os conteúdos. Não basta ler, tem que saber escolher bem o que se lê. E escolher bem também o que se assiste. Outra pesquisa, intitulada “Pretty as a Pricess”, feita pela universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, concluiu que as famosas princesas da Disney viraram uma referência para a construção da feminilidade entre as crianças. Segundo os responsáveis pelo estudo, a realeza dos clássicos infantis reforça estereótipos de gênero e ainda afeta a autoestima e a segurança relacionada à forma física. “As princesas sugerem um padrão estético e econômico que é muito difícil de ser alcançado, o que não é saudável. É como uma pequena bomba relógio: uma hora as crianças não vão aguentar. Não é coincidência que os índices de depressão na infância estejam tão altos”, diz a psicóloga e professora da Faculdade dos Guararapes Letícia Scorsi. E ela acrescenta: “É preciso que pais e profissionais que trabalham com os pequenos prestem atenção na importância dada aos personagens, pois é na infância que construímos nossa identidade. E não queremos crianças frustradas, pensando que só serão felizes se atingirem essa referência.”
Conceitos questionáveis
Fica claro que a leitura é importante, mas que a seleção dos conteúdos, tanto do que se lê quanto do se assiste é igualmente importante. 
 
Há mais de cem anos, Ellen White escreveu: “Pais e mães, obtenham todo o auxílio que puderem, por meio do estudo de nossos livros e publicações. Tomem tempo para ler para seus filhos nos livros de saúde bem como nos livros que tratam mais particularmente de assuntos religiosos” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 138).
Se puder encontrar livros que mesclem um texto agradável com conteúdos edificantes e que ajudem a construir o caráter, tento melhor. Deixo para você como dica de leitura os ótimos livros da Casa Publicadora Brasileira, cujo site é o cpb.com.br.

Boa leitura e bons momentos em família! [MB]
--------
FONTE:http://www.criacionismo.com.br/2016/07/pais-devem-ler-para-os-filhos-mas.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+criacionista+%28Criacionista%29

A Igreja deve ser pobre?

 
O arcebispado de Munique-Freising publicou seu patrimônio: 6,3 bilhões de euros. Tal riqueza é adequada? É necessário tudo isto para organizar a pastoral e o amor ao próximo, para manter os edifícios da igreja - ou isto contrasta com o Evangelho? Uma voz a favor, uma contra.
A pergunta e as duas respostas são de Hubert Wurz e Thomas Begrich, publicadas por Publik Forum, 08-07-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Hubert Wurz: Sim, caso contrário, a Igreja estaria sendo incompatível com os ensinamentos de Cristo. A Igreja deve ser pobre. Tentar viver este ideal exigente. Caso contrário, renuncia à sua essência e perde força e vitalidade! Dois textos fundamentais do Evangelho esclarecem isto. No primeiro, o pregador errante Jesus encontra um jovem rico (Mateus 19,16-30). No segundo, Jesus conversa com um especialista da Escritura, um fariseu (Marcos 10,17-31). O convite para ambos é claro e conciso: "Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres." Jesus promete, então, que terão, por isso, um "tesouro no céu". Ambos, diz o texto, reagem da mesma maneira: vão embora tristes, porque eram muito ricos. Estes textos são um espinho na carne da instituição estável Igreja. Exatamente como para aqueles homens, é muito difícil renunciar à riqueza herdada ou ao poder conquistado.

Francisco de Assis (1181-1224) foi uma pessoa que soube como fazê-lo. Quando jovem, renunciou à riqueza e à carreira. Seu estilo de vida, como pregador errante, provocou um forte movimento de pobreza no seio da Igreja. Nasceu a Ordem Franciscana – coisa que Francisco de Assis não tinha intenção de fazer. Mas também esta ordem, ao longo da história, tornou-se uma instituição influente dentro da Igreja, com professores universitários, bispos, cardeais... Desentendimentos e divisões continuaram até a mais recente história da ordem, sempre por causa do problema da pobreza!

A Igreja de hoje precisa de pessoas como Francisco de Assis, que vivam coerentemente como pobres, para suscitar na Igreja, um movimento em favor da pobreza. Para que a Igreja viva o que, segundo a tradição, Jesus pediu aos seus seguidores: vender tudo e distribuí-lo aos pobres.

Thomas Begrich: Não, porque a Igreja faz muito para os outros. Não, a Igreja não deve ser pobre. Todo seu patrimônio serve exclusivamente às suas funções.

Não é a quantidade de dinheiro a coisa mais importante, mas o que se faz com esse dinheiro. O uso responsável do dinheiro é, portanto, o critério decisivo para o agir eclesial. Devemos isso àqueles que o tornam possível: são mais de 22 milhões de membros que na Igreja Evangélica proporcionam a riqueza da Igreja! O que é uma igreja pobre, pode-se observar facilmente em muitas igrejas no hemisfério sul. Em sociedades pobres, a Igreja também é pobre.

Ora, é rica nossa sociedade? Se compararmos os 5,3 bilhões de euros de impostos recolhidos pela Igreja Evangélica na Alemanha, com os 14 bilhões de euros que são pagos pelo uso do tabaco, vemos que não é muito. Contudo, esses impostos tornam a Igreja rica? Sim, são uma base segura para seu trabalho. Mas também não, se você explicar o que está sendo feito com esse dinheiro. Dois mil milhões de euros para a Pastoral, dois bilhões para o trabalho comunitário, outro bilhão para a manutenção de todos os edifícios da igreja tão importantes para todo nosso país. Funcionários e colaboradores devem ser remunerados adequadamente, a assistência aos mais velhos e as aposentadorias são previstas de modo a que não sejam os netos a assumirem seu sustento.

A Igreja deveria, de fato, tornar-se mais pobre? Tornar-se-á, certamente, se os membros da comunidade diminuírem. Mas, devemos desejar isso? Certamente não. A vida da Igreja enriquece toda a sociedade. Também a sociedade se tornaria mais pobre, se a Igreja se tornasse mais pobre.
---------
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/557712-a-igreja-deve-ser-pobre
Imagem da Internet

Antonio Aradillas: "Las rutas de Don Quijote son patrimonio de la Humanidad"

Ilustración de don Quijote

"Cervantes denuncia la connivencia entre los eclesiásticos y los palaciegos"

"Cervantes fue un reformista que no llegaba a Lutero, pero que se quedaba en Erasmo"

Jseús Bastante, 11 de julio de 2016 a las 08:44
El testamento de don Quijote, es una maravilla: extraordinariamente social, maravillosamente familiar a la vez, se acuerda de su propia alma y pide la confesión al curaJesús Bastante).- Hoy nos acompaña un buen amigo de esta casa. Antonio Aradillas, nuestro colaborador al que ustedes leerán casi todos los días en Religión Digital y que nos presenta 'Las rutas de Don Quijote, patrimonio de la Humanidad' (Pigmalión). Enamorado del personaje de Cervantes, nos presenta un libro sobre sus rutas y nos descubre algo de la religiosidad de su aotir. Un Cervantes erasmista, que denunciaba la connivencia de la Iglesia con el poder de los palacios.

Antonio Aradillas, buenos días. Vienes a presentarnos tu último niño literario, que es una joya, damos fe. Llevas mucho tiempo hablando de ello. Y es algo, que en este año especialmente, te hacía ilusión. "Las rutas de Don Quijote, patrimonio de la Humanidad". Vamos a empezar por el personaje. Quién es don Quijote para ti, y por qué merecen, las rutas de don Quijote, ser patrimonio de la Humanidad.
Fundamentalmente, don Quijote, es don Miguel de Cervantes Saavedra. Difícilmente uno se puede perpetuar, como lo hizo Cervantes, a través de don Quijote. Solamente, "Don Quijote" como obra, se dice con más o menos verosimilitud, que después de la Biblia, es el libro más publicado en diversidad de idiomas.

Y yo creo que la supera en lectores. Aunque hay que reconocer, que para las generaciones de hoy, su lectura es complicada.
Pero su idea, el contenido y la misma riqueza que entraña de léxico, cada día lo está haciendo más presente.
Antes de continuar, quisiera decir lo siguiente: me ha extrañado, que en el IV centenario de la muerte de Miguel de Cervantes, la Conferencia Episcopal Española o la Iglesia española, no haya intervenido de alguna manera en la promoción o en algún que otro acto, en relación con los valores y las virtudes entrañablemente cristianas y humanas que contiene el Quijote y sus personajes.

¿Por qué te ha extrañado? Sí que es cierto que lamentablemente, y a diferencia de lo que ocurre en Gran Bretaña con Shakespeare, la actuación oficial respecto a Cervantes ha sido mínima. No solo de la Iglesia, sino de los estamentos públicos. Ha sido muy poca.
Cervantes fue un erasmista de pro. Por otra parte, la Inquisición se portó con él regularmente. Muerto ya Cervantes, en el año1624, la Inquisición de Portugal mandó quitarle tres páginas preciosas de la primera parte, en las cuales aparece Cardenio.
¿Quién es Cardenio?
El pastor Cardenio. Y aparece Dorotea. Es como si fuera una parte del libro el "Cantar de los Cantares". Esto asustó a los inquisidores de entonces y lo mandaron quitar. Y de la segunda parte, también mandaron quitar (después se ha recuperado), unas críticas que hizo Cervantes a la Iglesia. Él, que sirvió al cardenal Aquaviva, estaba muy al corriente de todo lo que significaban los obispos, arzobispos, etc., en aquellos tiempos, y aún ahora. Los criticó con dureza, además hacer alguna que otra advertencia.

En el Quijote se habla del bálsamo de Fierabrás. De vez en cuando, para destacar la eficacia de ese bálsamo, Miguel de Cervantes, lo intitula, por ejemplo, "santísimo". Y eso, también se lo quitaron.
¿Tú crees que tiene algo que ver eso con que la Iglesia haya ignorado a Cervantes?
La otra opción sería que no lo han leído.

O que no la hayan visto interesante.
Sí, que no lo hayan visto interesante desde un punto de vista sociológico, histórico, religioso, familiar, etc.

Pero yo vuelvo a lo mismo, si ni siquiera el Estado ha hecho gran cosa.
Como yo lo veo, este, de otros tantos libros, no puede exiliarse de puntos de vista estrictamente religiosos.

Entiendo.
Hay, por ejemplo, una referencia a la Iglesia, cuando don Quijote y Sancho iban buscando el palacio de Dulcinea. Una noche, se encuentran con la iglesia, el templo de El Toboso. La referencia que se suele hacer, es "con la Iglesia hemos topado", aunque Cervantes no dice en el Quijote, "topado", dice "hemos dado". Lo dice como una referencia estrictamente geográfica, pero entrañaba también una interpretación hipotética de que la Iglesia es algo intangible, y que se ha impuesto. Viene a decir, que si hemos dado con el templo, el palacio tiene que estar cerca. Que hay una especie de connivencia de la Iglesia y los palaciegos.
Y el cura, además, es uno de los malos de la película.
En lo que respecta a los curas, en la recepción, aparecen sobretodo dos muy importantes. Uno es el cura del pueblo, que ayuda extraordinariamente al Quijote a salvarlo de las demencias. El testamento de don Quijote, es una maravilla: extraordinariamente social, maravillosamente familiar a la vez, se acuerda de su propia alma y pide la confesión al cura.

Por otra parte, aparece el cura oficial. Es el capellán de los duques de la Ínsula Barataria. Este cura-capellán riñe a don Quijote, tratándole exactamente de "don Quijote, don tonto o como se llame". Don Quijote, entonces, se defiende como sigue: "así como no agravian las mujeres, no agravian los eclesiásticos. Las mujeres, los niños y los eclesiásticos, como no pueden defenderse, no pueden ser afrentados". Es decir, un privilegio de la Iglesia que a la vez se confunde con las mujeres, que eran los seres más despreciables entonces en Teología. Y a la vez, con los niños. Ese, es el pensar de la Iglesia oficial. En comparación con el cura de la Iglesia, al que describe como un verdadero amigo. Como una verdadera referencia de convivencia.

¿Cual era la relación de Cervantes-persona, con la Iglesia de su época?. Porque a diferencia de Lope de Vega, su gran rival, no quiso tomar los hábitos. Tenía bastante claro que su vida iba por otros derroteros.
Con la Iglesia oficial, la referencia fue la propia de un reformista que no llegaba a Lutero, pero que se quedaba en Erasmo. Fue una referencia crítica. Insisto en lo que antes insinuaba de que Cervantes sabía mucho de Iglesia, porque había servido a Aquaviva. Y mostró su agradecimiento a la labor que hacían los mercedarios, que en definitiva fueron los que le recuperaron de la servidumbre en Argel.
Después, es entrañablemente piadoso, por ejemplo, cuando le da consejos a Sancho en relación con su comportamiento en la Ínsula Barataria. Le recuerda que procure poner en paz los que están desavenidos. Es algo programático para el que manda, poner paz.

Hay que ver el comportamiento que tuvo novelísticamente, en la relación con todos los personajes a lo largo de la novela. Un amor entrañable a la Virgen, que lo manifiesta continuamente en Don Quijote. Un amor a la misericordia. Es un libro entrañablemente religioso.

Yo creo que Cervantes, como estudió de todo, tuvo que estudiar algo de Teología. Hay personajes que encajan hoy perfectamente en un esquema, por muy elemental que sea, de la teología del laicado. Aparece un tal don Diego de Miranda, en cuya casa de Villanueva de los Infantes, se hospedó durante algún tiempo. Es un cristiano cabal. Hoy se dice que cómo es posible que le adscribiera tantas posibilidades de responsabilidad dentro de la Institución eclesiástica.
¿Por qué las rutas de Don Quijote deben ser patrimonio de la humanidad?
Es una aspiración legítima. Y es una pena que, al margen de la crítica que he hecho respecto al comportamiento de la Conferencia Episcopal y la Iglesia oficial, el Estado no hay promocionado de alguna forma estas rutas como patrimonio de la Humanidad. Cuando ha promocionado y ha conseguido, que dos partes de la ruta de Santiago, el camino antiguo y el camino francés, sean declarados patrimonio de la humanidad. Cuando la Unesco ha declarado patrimonio de la Humanidad la ruta de la seda, por ejemplo.

Estaría bien, siempre y cuando no se reduzca el turismo de verdad, y sobretodo el turismo religioso, que ahora es turismo peregrinante. "Per agrum". Por los caminos del campo. Que no se reduzca a las piedras. Porque en cualquier programación turística, lo primero que te aconsejan es que visites monumentos. Yo creo que es mejor aconsejar que traten a las personas y se adentren en el paisaje.
En el libro, procuro describir los lugares que hipotéticamente fueron recorridos por los personajes del Quijote. Por ejemplo, las fiestas. Hay que ver el contenido popular que tienen.

Y religiosidad popular, claro.
En cada pueblo, yo suelo colocar un trocito de una canción popular, en la cual se hable de los valores, sobretodo amorosos, de las personas del pueblo. Si se hace un recorrido turístico, por favor, que o se reduzca a monumentos, o a piedra. Que se adentre en la gastronomía, también, porque los pueblos se distinguen por ella.

El yantar. Antonio Aradillas. "Las rutas de don Quijote, patrimonio de la Humanidad". Editado por Pigmalión. Un libro muy interesante, especialmente aunque no solo, para este cuarto centenario. Y una manera de reivindicar la figura de don Quijote, a sus personajes, y a ese español que lleva dentro que nos representa un poco de cara al mundo.
Nos representa, incluso dinerariamente. Porque está en el dinero que usamos cada día, pero en el más pobretón. Las monedas de 50, 20 y 10 céntimos, llevan la imagen de Cervantes. Por algo será.
Yo creo que la Iglesia debería aprovechar todavía el tiempo que queda de conmemoraciones propias del IV centenario para apostar por Miguel de Cervantes, y por lo que significa.

Pues apostamos por Cervantes, por Don Quijote, y por todo lo que representa ese soñador que una mañana arrancó con su rocín flaco y su galgo corredor y se fue con Sancho a recorrer las tierras de la Mancha, que son las nuestras.

Muchas gracias, Antonio.
Gracias a ti.
--------
Fonte:  http://www.periodistadigital.com/religion/libros/2016/07/11/las-rutas-de-don-quijote-patrimonio-de-la-humanidad-religion-iglesia-dios-jesus-papa-francisco-libros-antonio-aradillas-cervantes-centenario-erasmista.shtml

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Shakespeare, o misericordioso.

"William Shakespeare nos deixou uma espécie de oceano textual, onde se agitam as ondas do bem e do mal, do cômico e do trágico, do amor e do ódio, do esplendor e das trevas, do riso e das lágrimas. Por isso, é difícil tentar definir o seu rosto espiritual, porque sempre se corre o risco de balbuciar diante de tamanha vastidão de pensamentos, emoções, ações, símbolos."

A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 10-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Alguns me perguntaram por que eu não me pronunciei neste ano shakespeariano sobre o "grande que faz com que cada homem se sinta grande", como Chesterton o definia. A pergunta faz sentido, porque não há dúvida de que, no coração das suas obras, pulsa também uma alma religiosa, para além da sua pertença ou não ao catolicismo, de acordo com alguns atestada pelo fato de ele ter sido enterrado em um cemitério católico e validado, de maneira mais sutil, pelo recurso – nas suas composições mais tardias – talvez à versão inglesa de uma Bíblia católica, a de Douai-Rheims, ao menos de acordo com a hipótese daquele extraordinário anglicista, filólogo e intérprete que é Piero Boitani.

É justamente a esse mestre que devemos um esplêndido livro como Il Vangelo secondo Shakespeare [O Evangelho segundo Shakespeare] (Ed. Il Mulino, 2009), ao qual eu seria capaz apenas de tocar, e certamente não de acrescentar algo mais.

Porém, pensei em aproveitar assim mesmo a solicitação, até porque, no passado, eu fiz uma pequena incursão no Rei Lear para uma comparação dele com outra obra-prima, o livro bíblico de Jó. No entanto, estou consciente da imensidão de tal autor, diante do qual até o teólogo se perde.

De fato, ele nos deixou uma espécie de oceano textual, onde se agitam as ondas do bem e do mal, do cômico e do trágico, do amor e do ódio, do esplendor e das trevas, do riso e das lágrimas. Por isso, é difícil tentar definir o rosto espiritual de Shakespeare, mesmo que descrevendo um único lineamento, porque sempre se corre o risco de balbuciar diante de tamanha vastidão de pensamentos, emoções, ações, símbolos.

Ele está consciente – como confessa o seu Hamlet – que o homem é "uma obra de arte": "Quão nobre pela razão! Quão infinito pelas faculdades! Como é significativo e admirável na forma e nos movimentos! Nos atos quão semelhante aos anjos! Na apreensão, como se aproxima aos deuses, adorno do mundo, modelo das criaturas! No entanto, que é para mim essa quintessência de pó? Os homens não me proporcionam prazer."

Das alturas da exaltação, desliza-se, assim, no ventre obscuro do absurdo. É o que é asperamente declarado por Macbeth em uma das representações mais poderosas e dramáticas da existência humana: "A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco; faz isso por uma hora e depois já não se ouve mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado".

Porém, a pessoa humana tem uma extraordinária capacidade de transcender o seu limite através do amor, como proclama Julieta ao seu Romeu: "O meu coração (...) o meu amor (...) Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos".

Assim, pensei em evocar, neste centenário shakespeariano que cai no Ano Jubilar da Misericórdia, justamente essa virtude, que, aos olhos do poeta de Stratford-upon-Avon, tem um perfil até mesmo heroico, embora na sua silenciosa manifestação: quem não recorda o testemunho escondido e sóbrio de amor de Cordélia, de Rei Lear, ou a discreta e incompreendida ternura de Desdemona, de Otelo? É claro, o olhar de Shakespeare penetra especialmente no emaranhado venenoso das serpentes do ódio, porque, como afirma o Duque Próspero, de A Tempestade, "mais raramente nos resolvemos ao perdão do que à vingança". E terrível é o diálogo em Ricardo III entre o protagonista e a rainha Anne. Esta implora: "Por Deus, até mesmo as feras sabem, em certos momentos, sentir piedade". E Ricardo: "Mas, justamente porque eu não sou uma fera, esse sentimento não me toca".

Porém, o homem, como ensinam muitos personagens que povoam as cenas criadas por Shakespeare, pode ser capaz de doação e de amor, apesar da forte ênfase que o poeta sempre reserva à miséria humana, à angústia, ao vício, à solidão. Por outro lado, a história nos ensina que "as más ações dos homens vivem no bronze; as virtuosas, nós as escrevemos sobre a água" (como diz Henrique VIII), mas elas são muitas mais, embora escondida e esquecidas. É por isso que a justiça divina muitas vezes irrompe na história, como atestam muitas tramas dos dramas shakespearianos.

Essa justiça, no entanto, tem uma última instância de apelo. É o que é proclamado principalmente no ato IV do Mercador de Veneza: "A misericórdia está acima de qualquer movimento do cetro. Ela tem seu trono no coração dos reis, é um atributo de Deus e um tributo a Deus, é um poder mundano que se mostra divino quando a misericórdia vem temperar a justiça".

Por um lado, de fato, o judeu Shylock, implacável ao exigir a libra de carne do inimigo Antônio, encarna a norma ético-legal do talião, lapidar na sua própria formulação bíblica: "Vida por vida, olho por olho, dente por dente, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe" (Ex 21, 23-25). Uma norma "justa", independentemente do que se diga e apesar do seu ditado brutal, porque se baseia na justiça retributiva.

Mas, por outro lado, Shakespeare está ciente de que existe um primado moral e religioso que transcende a própria justiça e a lei. É o que afirma Pórcia, travestida de advogado de defesa com o nome de Bassânio, dirigindo-se justamente a Shylock: "Embora o cumprimento da justiça seja a tua argumentação, considere o seguinte: no cumprimento da justiça, nenhum de nós vai encontrar a salvação. Nós lhe suplicamos por misericórdia, e essa mesma súplica ensina-nos a todos que devemos praticar a misericórdia".

Eis, portanto, a quality of mercy, aquele perdão que é a alma da misericórdia e que Shakespeare celebra sempre pondo na boca de Pórcia/Bassânio esta espécie de canto: "A qualidade da misericórdia não é forçada. Ela cai do céu como uma chuva suave sobre o chão. É duas vezes bendita: abençoa quem a dá e aquele que a recebe; é mais poderosa do que os poderosos e se adapta ao rei no trono mais do que a sua coroa".

Se Deus tivesse que adotar o critério exclusivo da justiça, nós seríamos aniquilados. É o que o grande dramaturgo professa em uma passagem de uma obra menos conhecida, Medida por Medida, mais ou menos contemporânea da suprema trilogia Otelo – Rei Lear – Macbeth (1604-1606): "O que vocês seriam se Deus, no auge da justiça, tivesse que lhes julgar como vocês são? Pensem nisso, e a misericórdia respirará dos seus lábios como o homem recém-criado".

Essa arquitetura grandiosa narrativa e temática que é A Tempestade – quase certamente entre as últimas obras de Shakespeare –, no fim, se resolve um ato de conversão e de perdão, porque o prevaricador Antônio se arrepende, e o irmão Próspero o perdoa, de modo a impedir que a vingança leve ao desespero e à morte.

É interessante notar que um dos mais originais diretores do teatro inglês, em particular shakespeariano (como não lembrar a sua anticonvencional encenação do Sonho de uma noite de verão, de 1968?), Peter Brook, intitulou um livro seu com aquela quality of mercy que vimos ser o fio dourado que desenrola o drama veneziano e a sua dialética entre justiça e misericórdia.
--------------
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/557640-shakespeare-o-misericordioso-artigo-de-gianfranco-ravasi

O fim do otimismo fácil quanto ao futuro

Martin Wolf*

  

"Algumas invenções são mais importantes que outras". Esse é o ponto mais importante que Robert Gordon, da Universidade Northwestern propõe em sua obra-prima, "The Rise and Fall of American Growth" (Ascensão e queda do crescimento dos EUA). O livro oferece uma análise profunda da transformação da vida econômica dos Estados Unidos entre 1870 e 1970, e da desaceleração subsequente.

O crescimento não é inevitável. E tampouco constante. Nossa era registra crescimento decepcionante porque os grandes avanços tecnológicos vêm sendo relativamente estreitos.

A renomada historiadora econômica Deirdre McCloskey insiste em que "esse tipo de pessimismo sempre vem sendo um mau guia quanto ao mundo moderno. Somos gigantescamente mais ricos, em corpo e espírito, do que éramos dois séculos atrás". Ela tem razão. Mas, rebate o professor Gordon, não enriquecemos em ritmo constante. Pelo contrário: o crescimento foi mais rápido em alguns momentos do que em outros, desde a revolução industrial.

Assim, o período posterior a 1890 mostrou altas constantes em produção por pessoa e por hora. Mas o período entre 1920 e 1970 foi mais dinâmico do que os precedentes e os posteriores: ao longo de meio século, a produção por hora cresceu em ritmo próximo de 3% ao ano. Um indicador melhor de inovação é a alta na "produtividade total dos fatores": o crescimento na produção desconsiderados os acréscimos de mão de obra e capital. O padrão, sob esse indicador, é ainda mais notável. A economia norte-americana experimentou dois períodos de rápida inovação: entre 1920 e 1970 e, em ritmo muito mais lento, entre 1994 e 2004.

Isso gera três importantes questões.

Primeiro, por que tomar os Estados Unidos como foco? A resposta é que o país vem servindo como a fronteira mundial da inovação e da produtividade desde 1870. No período anterior à Segunda Guerra Mundial, um ou dois países europeus também foram altamente inovadores. Depois da guerra, os Estados Unidos estão sozinhos.

Segundo, o que explica a ascensão e queda do crescimento na produtividade? A resposta do professor Gordon está no ritmo e na diversidade de inovações que surgiram no período posterior a 1870 e foram colocadas em uso no período 1920-1970. O período viu uma revolução na energia: a exploração do petróleo, o controle da eletricidade e o motor de combustão interna. Ao mesmo tempo, o período viu o nascimento da indústria química e desenvolvimentos transformadores no fornecimento de água potável e no tratamento de esgotos.

Isso tudo resultou na criação de máquinas: a luz elétrica, o telefone, o rádio, o refrigerador, a máquina de lavar, o automóvel e o avião. Eles resultaram na transformação de vidas, via urbanização e casas conectadas a redes elétricas. Isso propeliu uma revolução na educação, já que a economia requeria trabalhadores alfabetizados e disciplinados. Em comparação, os anos posteriores a 1970 viram mudanças relativamente pequenas nos países de alta renda. O pico de produtividade entre 1994 e 2004 reflete o impacto da Internet. Ele surgiu e logo desapareceu.

Terceiro, até que ponto o quadro é distorcido por problemas de mensuração? A resposta é que distorção existe, mas não a ponto de fazer com que o desempenho atual pareça melhor que o desempenho passado. O oposto é bem mais plausível.

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi de fato imensamente subestimado. Um motivo para tanto é que novos produto demoram a ser incluídos no cômputo: o índice de preços de carros dos Estados Unidos só surgiu em 1935, décadas depois que os automóveis foram inventados. Hoje, o atraso é menor. Outro falha de mensuração está na dificuldade de avaliar numericamente as melhoras em novos modelos.

O mais importante é que o PIB não é um bom indicador quanto a padrões de vida. Como aponta o professor Gordon, o PIB não atribui um valor à variedade crescente de alimentos, à remoção do excremento dos cavalos das ruas das cidades, à velocidade mais alta das viagens, à transformação das comunicações, à qualidade superior do entretenimento, ao conforto ampliado que o aquecimento central cria, à redução do trabalho doméstico, à diminuição no esforço e no perigo do trabalho, à facilidade de acesso a água potável, à segurança dos alimentos embalados e, acima de tudo, ao salto na expectativa de vida. Nos países ricos, quase todas as pessoas que estão vivas hoje consideram tudo que mencionei acima como dado.

Simplesmente não existe motivo para acreditar que a alta no PIB ou no padrão de vida seja mais subestimada hoje do que foi no passado. O crescimento mensurado está se desacelerando porque a inventividade se desacelerou. Além disso, as inovações atuais têm efeitos mais estreitos do que as inovações do passado.

Pior, seus benefícios parecem ser compartilhados de maneira menos ampla. Desde 1972, não só o crescimento da renda real nos Estados Unidos se tornou mais baixo do que no passado como os ganhos deixaram de beneficiar as pessoas localizadas abaixo dos 10% mais altos na pirâmide de renda. Isso ajuda a explicar a crescente aspereza na política dos Estados Unidos e de outros países de alta renda.

A história contada pelo professor Gordon demole tanto o otimismo fácil sobre as perspectivas de crescimento econômico quanto o pessimismo fácil sobre o fim do emprego. Não estamos nem vivendo uma era de avanços econômicos sem precedentes e nem à beira de uma era de destruição de empregos em escala excepcional. Isso acontece em parte porque o progresso tecnológico é muito limitado. Também acontece porque porções muito grandes de nossa economia são imunes a avanços rápidos na produtividade. Assim, em 2014, dois terços do consumo nos Estados Unidos estavam concentrados no setor de serviços, que inclui custos de aluguel, saúde, educação e cuidados pessoais. O desafio para esses setores não está em que os empregos neles vão desaparecer, mas sim em que é difícil fazer com que desapareçam. Essa mudança na composição do produto econômico em direção a setores nos quais elevar a produtividade é difícil é uma grande razão para a desaceleração.

A visão de que avanços constantes e rápidos do padrão de vida devem perdurar é apenas uma esperança ingênua. A tendência a acreditar que algumas "reformas estruturais" resolverão esse problema é, da mesma forma, um ato de fé. É essencial que as políticas públicas promovam a invenção e a inovação, na medida em que puderem. Mas não devemos presumir um retorno fácil à era do dinamismo, que se encerrou há muito. Enquanto isso, a má distribuição dos ganhos propiciados pelos magro crescimento que obtemos se torna desafio cada vez mais sério. Vivemos tempos difíceis.
-----------
*  É comentarista chefe de Economia no jornal britânico 'Financial Times'. Participa do Fórum de Davos desde 1999 e do Conselho Internacional de Mídia desde 2006.
Escreve às quartas.

Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/martinwolf/ 12/06/2016.
Imagem da Internet