segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Suspeito que a civilização pressupõe a infelicidade como condição necessária

Luiz Felipe Pondé*




 
O tema da redenção me encanta há muitos anos. Sou um descrente encantado com a tradição bíblica. Para almas apressadas, pode parecer uma contradição. Prefiro ver como uma espécie de pequena modéstia diante de tamanha beleza contida nas temáticas bíblicas. 

Entre as várias histórias que me encantam está a de Lázaro. Não propriamente como a ideia do milagre de trazer alguém da morte, o que tendo a duvidar como fato, mas, sim, como metáfora da maravilhosa experiência que é, em meio à vida, você sentir-se vivo depois de muito tempo em que se sentia morto. Aliás, parte dessa ressurreição é tomar consciência dessa condição de morto em que se encontrava. Esta é a dor de Lázaro. Fosse inventada uma máquina para medir a sensação de estar morto em meio à vida, ela seria um blockbuster das tecnologias da informação.

Suspeito mesmo que a civilização pressupõe uma razoável dose de infelicidade como condição necessária. O maravilhoso livro de Freud "O Mal-Estar na Civilização" (uma das peças literárias necessárias para se entender o século 20) trata dessa condição de mal-estar como "resto" e condição do "processo civilizador", nos termos do sociólogo Norbert Elias. Acomodar os anseios numa fina equação que enlaça afetos num sistema de obrigações sociais garante a continuidade da espécie. Penso mesmo que este trabalho tenha ocupado muitos milênios de nossos grandiosos ancestrais no Alto Paleolítico. Fosse eu ter uma religião hoje, seria o culto de nossos patriarcas paleolíticos.

Assim sendo, a civilização implica uma certa "dose de morte" em meio à vida. Lázaro estava morto e voltou à vida. Como podemos estar mortos em meio à vida? É possível termos uma experiência de Lázaro na vida?

Uma das formas mais comuns de morte é pensar que não há mais horizonte a não ser o cotidiano instituído: a mesma casa, o mesmo trabalho, a mesma padaria, os mesmos rostos, as mesmas lágrimas, o mesmo envelhecimento, o mesmo corpo no sexo. Um dos segredos da juventude é, exatamente, a possibilidade de ter um futuro desconhecido a ser explorado. Portanto, a ideia de que tudo que havia para ser conhecido em sua vida já o foi é, seguramente, uma forma de morte em vida. O amadurecimento, muitas vezes, implica uma certa dose de descrença na possibilidade de ressurreição em vida. Como amadurecer sem morrer?

Uma das razões para a morte em vida é a dureza da sobrevivência material. Nesse campo, a vida não tolera "iniciantes". Qualquer erro e ela o castigará sem pena, transformando você num "loser" cheio de ressentimento e inveja daqueles que tiveram mais sorte ou, simplesmente, daqueles que nasceram com mais talento do que o seu pequeno quinhão de pobreza de espírito. E a vida profissional, no mundo contemporâneo, carrega muito mais significado do que "mero" ganho material, uma vez que passamos a maior parte do tempo envolvidos com ela. A vida profissional é, quase sempre, para a maioria de nós, uma certa dose de morte em vida.

Outra dose de morte em vida é o desencanto com o amor. A ideia de que o amor é para iniciantes ou desavisados com certeza nos garante uma vida longa sem sobressaltos. Infelizes são aqueles que caem vítima dessa doença que assola seus corações com uma tristeza infinita, instaurando o reino de uma inapetência para o cotidiano sem amor e afogado em demandas. Tranquilos são aqueles que se mantêm firmes em seu trajeto rumo ao envelhecimento sustentável.

Morrer em vida é, seguramente, se afogar em rancor, inveja, covardia. Afetos esses que, facilmente, se constituem em razões para conter o impulso de Lázaro em direção ao abandono do repouso na morte. Fiódor Dostoiévski (século 19) via em Lázaro morto a figura do homem assolado pelo medo da vida, assolado pela medo de correr o risco de ser perdoado por suas misérias porque, para ressuscitar, há que reconhecer-se morto primeiro. Só aquele que se reconhece morto poderá ver a imagem de Lázaro refletida em seu espelho. Esse rosto marcado pela dor da morte e pelas dores de parto que a ressurreição causará em sua vida.
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/10/1825566-suspeito-que-a-civilizacao-pressupoe-a-infelicidade-como-condicao-necessaria.shtml 24/10/2016

Maconha legalizada: eis os primeiros resultados

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Saem estatísticas oficiais, nos estados dos EUA 
que legalizaram a planta. Consumo entre os jovens caiu. 
Número de prisões despencou. Arrecadação 
de impostos superou expectativas

A poucas semanas dos referendos que podem legalizar a venda de canábis em cinco estados norte-americanos, um estudo publicado na semana passada pela Drug Policy Alliance examinou os dados oficiais nos estados do Colorado e Washington, que aprovaram a legalização em 2012 e têm em funcionamento 450 estabelecimentos cada um desde 2014; e do Oregon, onde ainda não foram emitidas licenças para as lojas de venda regulada, embora já seja possível aos adultos adquirirem canábis em 376 dispensários médicos para fins terapêuticos. Apesar da aprovação da legalização em 2015, no Alaska ainda não abriu nenhuma loja e em Washington DC a venda ao público continua proibida.

Embora alertando que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas, o estudo analisa os números oficiais sobre o consumo de canábis entre os jovens, as detenções relacionadas com o consumo da planta, a segurança rodoviária e as receitas fiscais.

No que respeita ao consumo entre os jovens, no caso do estado de Washington, o estudo realizado revela que a tendência pouco se alterou entre 2002 e 2014, com uma curva descendente no 8º e 10º ano entre 2012 e 2014. No Colorado, um inquérito público semelhante, entre 17 mil estudantes, mostra que o consumo no último mês caiu de 25% dos pesquisados, em 2009, para 21,5% em 2015, três anos após ser aprovada a legalização. Questionados sobre se consumiram alguma vez canábis na vida, 43% responderam afirmativamente em 2009, uma percentagem que caiu para 38% em 2015. No Oregon, o inquérito sobre saúde adolescente indica que os números se mantêm estáveis também com tendência de queda: o consumo nos 30 dias anteriores passou de 9,7% (em 2013) para 9% (em 2015) entre os estudantes do 8º ano, e de 20,9% para 19,1% entre os estudantes do 11º ano no mesmo período. No Alaska registou-se o mesmo padrão de estabilidade nas respostas.

Onde os efeitos da legalização mais se fizeram sentir foi no número de detenções policiais por crimes relacionados com a canábis, que caíram 46% no Colorado entre 2012 e 2014, uma queda semelhante aos processos judiciais instaurados (45%) entre 2012 e 2015. Os processos por pequenos crimes relacionados com a canábis quase desapareceram com a legalização no Estado de Washington, passando de 6879 em 2011 para apenas 120 em 2013, ou seja, queda de 98%. Na capital norte-americana, as detenções por posse de canábis diminuíram 98% em apenas um ano, de 1840 para 31. E no Alaska, apesar de não existirem lojas abertas, as acusações e detenções caíram 65% entre 2013 e 2015. No Oregon, a queda entre 2011 e 2014 foi para metade das detenções.

No que respeita à segurança rodoviária, os níveis de sinistralidade e mortes na estrada mantiveram-se quase inalterados no Colorado e em Washington, dois estados que sempre estiveram abaixo da média nacional de acidentes rodoviários fatais. O aumento do número de condutores envolvidos em acidentes mortais que acusaram a presença de THC no sangue em 2014 é explicado pela quase inexistência desses testes em 2010, o ano que serve como comparação. De qualquer forma, os estudos médicos indicam que a presença do THC no metabolismo humano pode ser detetada durante dias ou até semanas após o consumo, o que não significa que o condutor esteja sob o efeito de canabinóides no momento do teste. Além disso, os níveis detetados nos testes não revelam se a condução foi afetada já que, ao contrário do álcool, o efeito da canábis varia com a frequência do consumo, ou seja, quanto maior a tolerância do organismo, menor o impedimento para a condução.

Receitas fiscais ultrapassaram expetativas dos defensores da legalização

O maior sucesso da legalização regista-se no capítulo das receitas fiscais: os impostos sobre a venda de canábis ultrapassaram em muito as expetativas anunciadas pelos defensores da legalização antes dos referendos. No Colorado, o primeiro ano de venda de canábis em estabelecimentos legais – junho 2014 a maio 2015 – rendeu 78 milhões de dólares e o ano seguinte trouxe mais 129 milhões de dólares aos cofres públicos. Estes números não contam com os impostos cobrados pela venda de canábis para fins terapêuticos e ficam bem acima dos 70 milhões previstos antes da legalização.

Por lei, estas receitas fiscais do Colorado foram destinadas à construção de escolas e ao reforço dos meios para a prevenção do consumo. Em 2017, o imposto especial vai baixar de 10% para 8%, a que se somam outras taxas que elevam o imposto a 29% do preço de venda, ao que podem acrescer taxas locais.

No estado de Washington, as previsões de receita fiscal ascendiam a 162 milhões/ano nos dois primeiros anos da legalização. No primeiro ano (julho 2014 a junho 2015), a soma das taxas e impostos relacionados com a canábis ficou abaixo dessa expetativa, ao atingir 78 milhões. Mas no ano seguinte (julho 2015 a junho 2016) a receita fiscal aumentou para 220 milhões. A explicação para a diferença pode ser encontrada no complexo sistema de taxação inicial, que o estado alterou em julho do ano passado, passando a cobrar uma taxa efetiva de 37%. Também aqui a receita é destinada a programas de prevenção e tratamento, cuidados de saúde comunitários e apoio à investigação científica sobre os efeitos e avaliação da legalização no estado de Washington.

Outro estado em que as receitas superaram as previsões foi no Oregon, onde a lei permite desde outubro de 2015 aos dispensários médicos venderem canábis a maiores de 21 anos, enquanto as licenças para os novos estabelecimentos não estão emitidas, taxando as vendas em 25%. As previsões feitas em 2014 de 23 milhões de dólares de receita anual, depois revistas em alta para os 31 milhões, revelaram-se aquém da realidade: em apenas seis meses, o estado do Oregon recebeu 22.5 milhões de dólares destas vendas, dinheiro que será destinado ao financiamento de escolas, ao tratamento da dependência e ao reforço da segurança pública.
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FONTE:  http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=368602

domingo, 23 de outubro de 2016

AS ELEIÇÕES AMERICANAS DE 2016 COMO SINAL HISTÓRICO

João Carlos Brum Torres*

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1/
Em O Conflito das Faculdades, depois de perguntar Se estará o gênero humano em constante progresso para o melhor[1], Kant acrescenta que só se poderá responder positivamente a essa interrogação se a experiência nos apresentar “um acontecimento que aponte, ainda que “de modo indeterminado quanto ao tempo“, nossa “aptidão para sermos causa do progresso“, permitindo, assim, “inferir a progressão para o melhor (….).”[2] Um tal acontecimento, acrescenta Kant, deverá ser tido então “como signo histórico“, um signum rememorativum, demonstrativum, prognostikon”.[3]

Pois bem, o que estou querendo sugerir é que, mesmo sem ter a pretensão de elevar uma constitucionalmente ordinária eleição presidencial nos Estados Unidos à dignidade de um signo histórico, cujas altíssimas exigências para qualificação foram parametrizadas pela escolha de Kant de ter a Revolução francesa como exemplo, não tenho dúvida de que o que está a ocorrer na conjuntura política americana é, pelo menos, um signo histórico de segundo grau, pois nada parece ser mais importante na cena internacional do que o que ali se está a testemunhar.

A plausibilidade dessa avaliação se deixa perceber mesmo neste nosso novo mundo de informações massivas, cuja multiplicação exponencial se acumula como se acumulam esses montes de escombros à vista dos quais já não se pode reconhecer a fachada das edificações aluídas. Mesmo assim, mesmo em meio a essa imensa massa de informações instantâneas, logo transformadas em detritos midiáticos, a importância do que está ali em questão não deixa de sobressair. E os Sábios do século XXI ─ os jornalistas que tudo sabem, os economistas que de tudo entendem e os macro gestores que a tudo administram ─ não deixam de se aperceber de que há algo de insólito e de inesperado acontecendo nos Estados Unidos e também no mundo: algo perigoso com o qual é preciso preocupar-se e, sobretudo, posicionar-se.

Para os mais lúcidos dentre esses novos sábios (é verdade que neste nosso Brasil de hoje menos encontradiços do que seria de esperar, seja porque a atenção a nossas muito graves questões domésticas lhes rouba o tempo para prestar atenção ao que ocorre alhures, seja por um evidente e inegável atraso de compreensão e agenda do que globalmente mais importa) a questão central da conjuntura internacional é que a possibilidade da vitória de Donald Trump é avaliada como a certeza de uma regressão histórica, de um retorno às condições de organização econômica, política e social do mundo vigentes antes do grande avanço da globalização ocorrida nos últimos 40 anos. O que, para ficar com a terminologia de inspiração kantiana com que comecei, implicaria que estaríamos sim diante da iminência de constituição de um novo signo histórico, ainda que, segundo a lição vinda da velha Königsberg, muito impropriamente, pois assim não deveriam ser classificados eventos de caráter negativo.

2/
Seja como for, o problema com tais análises não é que sejam redondamente falsas, porque evidentemente não são. As falhas que as fragilizam são outras. De um lado o falacioso aspecto da ignoratio elenchi, uma descrição do fenômeno da globalização que a vê iluminada pelo sol do meio dia e, assim, sem sombras. De outro, a superficialidade, uma ignorância fundamental da política, mas, ainda mais fundamentalmente, do político, do político enquanto dimensão constitutiva da ordem social; de toda ordem social. Por fim, e é onde se encontra a explicação para muito desses desvios de análise e encurtamento da visão: o viés, a parcialidade, o fato de que as mais lúcidas dessas análises são atos de militância, de engajamento na defesa do que é tomado sem hesitações como extraordinários avanços, conquistas de inaudito valor, que precisam a qualquer custo ser preservadas do atraso histórico.

3/
Não há como me estender sobre o caráter arbitrariamente seletivo desses retratos encomiásticos da globalização, mas, para dar uma ideia geral dessas distorções do retratado, baste aqui a menção aos elementos factuais arrolados a seguir. Em primeiro lugar a omissão sistemática da desarticulação de padrões históricos de distribuição regional das atividades econômicas ─ o que os franceses chamam de aménagement du territoire ─ cujo perfil atual caoticamente combina os bolsões de desocupação nas muitas regiões precipitadas em decadência profunda, dos quais Detroit é o exemplo maior, com a emergência de poucos novos polos dinâmicos, como antipodamente se vê no Vale do Silício.

Também imperdoavelmente descontado é o alusivo tom das raras menções aos enormes impactos no emprego e nas condições de vida das classes trabalhadoras, inclusive nos ditos segmentos de colarinho branco, provocado pela transformação da Ásia em base manufatureira do mundo, que teve como fortíssimo efeito colateral, conforme corretamente apontado por Trump, grande desindustrialização nos países centrais, notadamente nos Estados Unidos. A omissão mais grave tem sido, porém, a minimização sistemática do imenso processo de concentração de capital e de incremento acelerado dos níveis de desigualdade econômica nos países centrais em geral, que, no caso dos Estados Unidos, o Senador Sanders ilustrou lembrando o escandaloso fato de que o estrato dos 0,10% mais ricos da população americana tem uma riqueza equivalente a dos 90% de menor renda, ainda mais surpreendentemente cruel sendo o estado dessa relação no plano internacional, como evidenciado na informação do mesmo Sanders, com base em dados do Crédit Suisse e da Forbes, de que não mais do que 80 super-ricos do mundo detém um patrimônio equivalente ao possuído pelo contingente de 3,5 bilhões de pessoas integrantes do estrato mais pobre da população terrestre!

Contudo, para explicação do que há de curto nos comentários em que se avalia o que, para o mundo todo, está em jogo na eleição americana o mais importante não é essa estrategicamente omissiva defesa dos prêmios da globalização. Antes, como dito acima, a incapacidade de enxergar a política, de ver que os progressos em produtividade, em inovações, em constituição de um sistema universal de trocas, de maximização do aproveitamento de vantagens comparativas ─ vantagens de conhecimentos, de recursos naturais, de diferenciais de salários ─ está se chocando com as condições e planos de vida dos indivíduos reais, com as profissões concretas, com os assentamentos geográficos determinados, com as irredutíveis diferenças culturais, com as tradições nacionais e regionais e sua expressão institucional em províncias, estados federados e Estados nacionais, com as enormes diferenças de renda, oportunidades e estabilidade social e suas consequências nos deslocamentos físicos das pessoas no mundo, bem como, por último mas não com menor importância, com a inevitável separação das religiões.

O que é dizer, contrariamente ao grande pressuposto implícito das concepções objetivistas e reificadas do desenvolvimento histórico ─ das quais um exemplo conspícuo é o do neoliberalismo, o vestido ideológico que cobriu as vergonhas do processo de globalização ─ que há um nível básico da vida em sociedade, frequentemente invisível, em que os indivíduos, com seus interesses e crenças particulares, fazem valer sua condição de substrato ontológico último de absolutamente tudo que acontece na esfera humana.  E é exatamente a partir desse plano que cabe falar no político, neste nível de organização dos espaços societários em que a identidade de um conjunto social se autodetermina, seja por via de dispositivos representativos, seja por mudanças ativas ou mesmo moleculares e passivas, como dizia Gramsci, no modo como a sociedade avalia a si própria. Um referendo como o que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, uma disputa como a que tem lugar na eleição americana são casos claros do modo como conformações sociais inercialmente estratificadas são chamadas de volta ao espaço das decisões fundamentais, provocando alterações históricas de grande monta, como começa a ser possível divisar na configuração do quadro político-econômico mundial de nossos dias.

4/
Bem entendido, na história não há jogo jogado e, mais concretamente, resta por ver se isso que chamei de choque, de colisão vai produzir alguma modificação nas tendências de fundo do desenvolvimento histórico dos últimos quarenta anos. Trump e os enormes índices de aprovação de sua proposta de guinada para um populismo de direita são indicadores de que a batida é muito potente; por outro lado, a extraordinária força de uma inédita campanha de esquerda no coração de um grande partido americano, a campanha de Bernie Sanders, não o é menos, assim como tampouco é insignificante os 14% de intenções de voto em um candidato independente, libertário, Gary Johnson. Mas, mesmo se Hillary Clinton for vencedora e as tendências de conservação do status quo mundial prevalecerem, há elementos contextuais que sugerem que não se pode esperar que tudo vá continuar do mesmo modo no quadro interno dos Estados Unidos e na conformação do cenário internacional dos próximos anos.

É que se somam às novidades da conjuntura americana grandes eventos paralelos que também justificam pensar que está chegando ao fim a crença, quase unânime, de que o processo de globalização e as posições neoliberais que lhes são associadas reinam sobre a história do mesmo modo como as leis da física regulam os processos naturais. Essa é a indicação dada pela saída do Reino Unido da União Europeia, pelo crescimento das barreiras à livre movimentação internacional das pessoas em decorrência dos grandes fluxos migratórios gerados pelas guerras no Iraque e na Síria, bem como a multiplicação de atos de terrorismo nos centros do mundo desenvolvido, processos, estes últimos, que têm sido acompanhados, como é notório, por um grande aumento dos partidos nacionalistas de extrema direita.

A evidência desse cenário de abalo, dessa conjuntura em que o modo de organizar a economia, a sociedade e a política mundial nos últimos quarenta anos estala por todos os lados ─ à direita, à esquerda e mesmo no centro ─ não é por certo suficiente para conferir às eleições americanas, mesmo se acompanhada das demais evidências que acabamos de referir, o caráter de um signo histórico no sentido dado por Kant à expressão, pois sua lição é que o caráter distintivo dos acontecimentos a que esse conceito faz referência requer que estes sejam fortes o bastante para apontar, ainda que “de modo indeterminado quanto ao tempo“, para nossa “aptidão a sermos causa do progresso”, como explicado no texto que citamos ao começar. O que é prudentemente reconhecer que não há garantia alguma de que a reestruturação das relações internacionais que ora se anuncia se faça no rumo do progresso, o crescimento dos partidos e opiniões de extrema direita no contexto europeu sugerindo mesmo a conclusão oposta. Porém, não é menos verdade que tampouco é certo que essas tendências virão a prevalecer e que a relação de forças que temos hoje aponte inexoravelmente para o regressivo passo de preservação de formas de sociabilidade injustas, profundamente desequilibradas e que já não têm nada a nos prometer.

Ora, essa indeterminação, se olharmos com mais atenção o modo como Kant introduz o conceito de signo histórico, não nos deve inclinar ao abandono da possibilidade de aplicar esse conceito aos acontecimentos em meio aos quais nos encontramos, pois é preciso lembrar que, segundo a lição do filósofo, não são os eventos em e por si próprios que possuem o caráter de signo, mas antes sua relação com nossa capacidade de sermos causas do progresso. De modo que ser signo do progresso é uma propriedade relacional, cuja constituição depende de nossa capacidade de conferir aos eventos em que estamos envolvidos os caracteres de serem rememorativos, demonstrativos e prognósticos. Sendo assim, o que nos cabe concluir é que está no domínio da vontade dos homens vir a fazer com que certas mudanças, que a superveniência de certos eventos, se constituam em um signo histórico.

Tudo bem pesado, creio que a lição a tirar do que está em questão no dinâmico desdobramento da situação histórica atual é a de que se encontra, irrecusavelmente, nas mãos das gerações presentes fazer com que as mudanças que se avizinham no padrão das relações internacionais não nos levem a uma espécie de nova balcanização do mundo, nem congelem o quadro de instabilidade e profunda desigualdade econômica e social que hoje vemos por toda parte. Nosso desafio, nossa responsabilidade e nossa tarefa é antes a de converter os abalos, as incertezas atuais no primeiro momento de constituição do sinal histórico que estamos a antever, o inicial passo adiante na direção da criação no correr deste jovem século de uma sociedade mundial ao mesmo tempo dinâmica, inovadora e também diversa, plural e, sobretudo, mais justa e esclarecida, uma sociedade mais generalizadamente capaz de oferecer aos homens condições de vida dignas e as bases materiais e culturais indispensáveis para uma vida mais feliz. Desiderato cuja factibilidade, como todos sabemos, tem como absolutamente indispensável base a prevalência da paz, seja nos contextos nacionais e regionais, seja, ainda mais importantemente, no plano das relações internacionais.

Este, pois, é o conteúdo do signo histórico que precisamos ao mesmo tempo antever e constituir ao ensejo desta inequívoca abertura na couraça que até agora parecia blindar inexpugnavelmente quaisquer mudanças no processo de globalização e em suas não menos reforçadas contrapartes políticas e ideológicas. A verdade é que a crise em que hoje nos encontramos é uma oportunidade de revisão de nosso destino, uma oportunidade cujas virtualidades precisamos entender e explorar e a cujo endereçamento para o melhor quem quer que tenha responsabilidades de qualquer escala neste nosso complexo e diverso mundo não pode deixar de lutar.
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* Professor no Departamento de Filosofia da Universidade de Caxias do Sul e professor Titular aposentado da UFRGS.
[1] Logo depois de observar que a “mescla do bem e do mal na disposição” dos homens, ao mesmo tempo em que nos proibe atribuir-lhes “uma vontade inata e invariavelmente boa“, por isso mesmo também nos impede de “vaticinar com certeza a progressão de sua espécie para o melhor“. V. Immnuel Kant, O Conflito das Faculdades, trad. de A. Morão, Edições 70, Lisboa, 1993, p. 100-101. (AA 7: 84-85).
[2] Id.ib.
[3] Id., 101 (AA, 7: 84).

Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2016/10/9189/ensaio-sobre-as-eleicoes-dos-estados-unidos-no-caderno-de-sabado/

O terrível e o sublime

Lya Luft* 
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Que somos animais predadores com vernizinho de civilidade, ou de humanidade, se quiserem, isso me parece óbvio. Basta soltar as amarras num impulso de raiva, num momento de ódio, num fanatismo qualquer, e lá vamos nós, nada bonzinhos, matando, esquartejando, estuprando, aniquilando com mísseis ou espalhando morte e tripas com algum homem-bomba. Lá vamos nós treinar menininhos para matarem com fuzis maiores do que eles. Lá vamos nós queimar prisioneiros vivos dentro de jaulas aos olhos de uma multidão, ou matar nas ruas só porque “hoje deu vontade”.

Onde, quando ouvi ou li coisas parecidas? Foi no Holocausto? Está sendo em tantos holocaustos atuais? Foi Nero, que mandou matar a mãe e matou com pontapés na barriga sua mulher grávida, que mandava empalar cristãos cobertos de óleo em postes, para queimarem iluminando seus jardins? Nero, incompreensivelmente discípulo do meu amado filósofo Sêneca, cujos pensamentos sábios, harmoniosos, nobres e tranquilizadores leio e releio desde adolescente? Comentei com um de meus filhos, quando falávamos mais uma vez sobre a violência no Brasil e também aqui, que, lendo um bocado de História, até acho que melhoramos muito. Não havia imprensa, não havia organizações, não havia democracia que botasse limite na ferocidade humana.

Mas hoje, mesmo tendo avançado em relação às barbáries passadas, aqui nas nossas ruas não temos sossego. A cada dia, alguém que conheço ou que é conhecido de algum amigo é assaltado, e tudo termina com o suspiro de alívio: “Ainda bem que só levaram minha carteira, meu carro, não minha vida nem minha mulher ou meus filhos. Tivemos sorte”.

Que vida é essa, que pensamento funesto? Terrível atestado da nossa vergonha e conformidade, e da incompetência de quem deveria administrar o país. O crime começa a compensar. O criminoso nos controla. Saímos pouco à noite, e com receio; não paramos o carro nos sinais vermelhos a altas horas, o que aliás nos foi há tempos sugerido por uma autoridade de segurança, se não me engano. Em cidades como Rio, e lugares do Norte e Nordeste, está vivo o espírito dos jagunços, tiroteios, mortes, roubos de grandes quantias, bancos arrombados, cofres explodidos. Criminosos fugidos, às vezes mortos eles e os policiais. Mas a loucura prossegue, e cresce.

Meus filhos brincavam nos terrenos baldios perto de casa, há algumas décadas, e ninguém se preocupava com a possibilidade de tragédias hoje banais. Ao escurecer, a gente chegava na esquina, chamava “Venham tomar banho e jantar!”. E vinham, suados, cansados e felizes, os pais de nossos netos, que já não andam sozinhos nem até a escola. Sei que é ingenuidade querer de volta aqueles tempos, mas podíamos estar mais civilizados.

O consolo é que essa humanidade sedenta de sangue também produz milagres como as obras de arte e seus autores. Van Gogh, Monet, Mozart e Bach, Shakespeare e Pessoa, todos os sublimes: os artistas. Mas também os mais cotidianos gestos dos jovens alegres e saudáveis, das crianças carinhosas, dos pais maravilhados, tudo o que nos faz acreditar que não produzimos só barbárie e repulsa, mas claridade, beleza e – apesar de tudo – esperança.
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* Escritora.
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7888104.xml&template=3916.dwt&edition=29944&section=70
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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Zygmunt Bauman: Medo do outro (e de si mesmo).

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"É uma luz. Única no fim do longo e escuro túnel que estamos atravessando. É uma luz misteriosa e brilhante". 
Repete duas vezes, em duas frases, quando fala do Papa Francisco e do encontro de Assis, no mês passado.

A entrevista é de David Perillo, diretor da revista Tracce, publicada por L’Osservatore Romano, 14-10-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Noventa e um anos no próximo mês, judeu de origem, polonês de nascimento e cosmopolita por vocação (viveu entre Varsóvia, Londres e Tel Aviv, antes de radicar-se em Leeds, no Reino Unido), Bauman é um dos mais famosos intelectuais - e prolíficos - do mundo. Um homem capaz de fotografar o mundo e seus habitantes, em detalhes, olhar afiado e, ao mesmo tempo, carregado de empatia. Como o que está dirigindo, há algum tempo, ao fenômeno da imigração. Melhor ainda, que dirige aos migrantes, que minam nossas certezas, tornam-se alvo fácil em quem descarregar a insegurança surda, profunda e impossível de travar com as soluções propostas por esta política feita de muros e homens fortes.

Vamos começar a partir daí, então. O que é essa "insegurança existencial"? De onde vem?
Kant, o explorador mais incansável dos mistérios da forma exclusivamente humana de estar no mundo, - a cuja sabedoria, todos nós, de alguma forma, somos devedores, herdeiros excitados ou desesperados -, na Crítica da Razão Prática escreveu a célebre frase: "Duas coisas enchem a mente de maravilha e veneração, sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e mais longamente a reflexão se ocupa delas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim". O "céu estrelado" significa aquilo que está além da capacidade humana, da nossa capacidade de enfrentar; e a "lei moral" indica os dilemas entre os quais os seres humanos estão condenados a escolher. Porém, mais do que um século antes dessas palavras, Blaise Pascal tinha-se aprofundado naquela angustiante e assustadora inadequação: "Quando considero a curta duração da minha vida, absorvida pela eternidade que a precede e por aquela que lhe segue, o pequeno espaço que ocupo e que vejo, mergulhado na imensidão infinita de espaços que ignoro e que me ignoram, assusto-me e surpreendo-me por ver-me aqui, em vez de lá, agora ao invés de então. Quem me colocou? Pela vontade de quem este lugar e este tempo me foram destinados?". Para então chegar à conclusão: "Sendo incapaz de eliminar a morte, a miséria e a ignorância, os homens decidiram, para serem felizes, não pensar sobre essas coisas". O problema é que, à medida que tentamos furiosamente seguir essa decisão, reflexão e pensamento, eles permanecem teimosamente partes inevitáveis de nossa condição. Daí a ''insegurança existencial" esculpida de forma indelével na maneira do homem estar no mundo. Este é o lugar de onde vens e do qual não podes escapar.

O primeiro reflexo dessa insegurança é o "medo do outro". O senhor explicou muito bem por que os “estrangeiros às nossas portas" nos assustam tanto. Mas, não será por que, no fundo, há também o medo de interrogarmo-nos sobre nós mesmos? O outro que bate à minha porta interpela-me inevitavelmente sobre quem sou, que ideia tenho da vida, dos relacionamentos, sobre o que tem valor ou não... Levantar muros é também uma forma de escapar destas perguntas?
A sensação de "insegurança" deriva de uma mistura de incerteza e ignorância: sentimo-nos humilhados, porque inadequados à nossa tarefa, e o resultado é o colapso da estima e da confiança em nós mesmos. É algo que afeta a todos. Agora, "o outro" - especialmente aqueles que classificamos como desconhecidos, estranhos ou estrangeiros - são particularmente fecundos em reforçar uma sensação como essa.

Por quê?
O que transforma estrangeiros em perigos - perigos assustadores, sinistros, exatamente devido à sua repreensível impossibilidade de serem identificados - é a ausência do conhecimento real de suas intenções e do seu código de conduta. Faltam-nos as habilidades necessárias para enfrentá-los adequadamente e responder às suas jogadas. Além disso, há também aquele outro fator crucial que o senhor observava antes. Os estrangeiros – sobretudo os migrantes, os recém-chegados - tendem a questionar o que "nós", os nativos, somos, ao menos no reino das opiniões (ou seja, querem saber no que cremos, mas sobre isso nunca refletimos). Eles nos estimulam, na verdade, quase nos forçam a explicar como perseguimos nossos objetivos de vida. Para dar as razões das convicções e comportamentos que nos parecem óbvios, evidentes, e por isso autoexplicativos. Ao fazer isso, portanto, nos atrapalham. Perturbam nossa paz espiritual e afetam nossa segurança, tão necessária para uma ação decisiva. Quantos de nós gostaríamos de desfrutar de uma tal situação?

Em "Conversazioni su Dio e l’uomo”, o senhor disse que "o momento em que nasce a incerteza é o momento em que nasce a moralidade, e, o eu moral, consciente de caminhar sobre uma corda bamba. Condenando os homens a escolher, (...) Deus os convida a tomar parte na obra da criação". Não é que, diante de problemas tão grandes, revela-se também que temos medo deste "convite"? Em essência, estamos com medo da nossa liberdade? E, se sim, por quê?
É uma velha e longa história... Talvez até mesmo uma constante, visto que as rebeliões contra a liberdade, afinal, se repetem com surpreendente regularidade; parece impossível, mas toda intrépida luta contra a escravidão, a opressão e a restrição da liberdade, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, empurram o pêndulo das disposições e paixões para uma virada de 180 graus, aumentando o número daqueles que estão dispostos a aceitar – até mesmo a querer - o advento de nova "repressão". Assim, as portas fechadas tendem a aumentar. Este fenômeno foi descrito, em detalhes, por Erich Fromm, em seu clássico Fuga da Liberdade. Hoje - pelo menos aqui no Ocidente, e entre as gerações felizes por nunca terem provado, em primeira pessoa, das delícias de uma vida sob o peso do despotismo e da tirania - estamos vivendo um outro giro semelhante do pêndulo, desencadeado pelos mesmos fatores do passado. O fato é que a liberdade só pode vir casada com o peso e o risco da responsabilidade. Para um número crescente de pessoas incitadas, convencidas e instigadas por um número crescente de aspirantes (e frequentemente bem sucedidos) caçadores de voto, como os vários Trump, Marianne Le Pen, Orban ou Fico, parece um bom negócio trocar o direito de escolher, ligado à responsabilidade, pesado demais para ficar muito tempo sobre os ombros de um indivíduo, por cortes na ordem das liberdades pessoais. Quanto mais fracos os ombros de cada indivíduo, mais pesadas são as responsabilidades descarregadas sobre ele, com fenômenos como a privatização e a mercantilização das funções sociais, patrocinadas pelo Estado e reforçadas pelo mercado. O resultado que podemos esperar é o crescimento de uma multidão de "homens e mulheres fortes", que vislumbram a oportunidade de ganhos eleitorais, e não esperam outra coisa senão ceder a essa tentação.

É um grande risco...
A verdade é que cresce, sempre mais, o número de pessoas expostas, todos os dias, aos riscos, às armadilhas e às emboscadas de uma vida vivida sob as regras do mercado, cuja nostalgia do "Paraíso perdido" coincide com o libertar-se de ter que escolher; mais precisamente, com o cancelamento do dever de cuidar e de contribuir para o bem-estar do mundo, e pela hospitalidade dos seres humanos que aqui vivem. Mas, o sonho de seguir o exemplo de Pôncio Pilatos, e lavar as mãos na batalha entre o bem e o mal, moral e indiferença, verdade e falsidade, significa renunciar a dignidade humana. Ou seja (como nos foi ensinado por Kant e por Pico della Mirandola), renunciar exatamente àquele preciso "convite de Deus", dirigido exclusivamente à espécie humana, de participar na conclusão do ato da criação. E que, afinal das contas, é o motivo pelo qual foi dado aos homens a razão, a sociabilidade e a liberdade de escolha.

O que pode superar o medo?
Certamente, não objetivos a curto prazo, cortes e soluções instantâneas. Neste ponto, fiquei impressionado com a intervenção do Papa Francisco ao Prêmio Carlos Magno. Depois de destacar o aumento, a assimilação e a prática diária da "cultura do diálogo", como a estrada mestra para a coexistência pacífica entre os homens - e, ao mesmo tempo, para um gradual, mas constante desvanecimento dos medos recíprocos - salientou a necessidade de introduzir a arte do diálogo em todos os níveis de ensino. Claro, a educação é uma estratégia oposta às campanhas una tantum; é programada para ter efeitos duradouros e, de preferência, irreversíveis, precisa de tempo - talvez até um tempo que se estenda a mais gerações; ela exige paciência e firme determinação, capacidade de resistir ao impacto congelante dos tropeço, erros e falhas ocasionais, inevitáveis. Além disso, deve-se notar que, numa época como a nossa, marcada pelo acesso universal aos meios de informação e, por uma maciça e onipresente pressão de publicidade e "relações públicas", a educação já não é mais(como tinha sempre sido) uma atividade limitada à escola; por mais que os programas escolares possam ser bem elaborados, não são mais os únicos a incidir na formação da mentalidade e do caráter. Que tenham sucesso sobre a superabundância dos concorrentes, está bem longe de ser óbvio.

O senhor fez alusão até mesmo ao Papa. Nos últimos tempos o senhor falou dele, muitas vezes, com admiração. O Papa disse que, para abordar a questão da migração "devemos estudar e aplicar sua análise" e "esperar que a sua palavra se encarne em nossas ações". Por quê? O que o senhor pensa dele?
Penso que Francisco é o dom mais precioso que a Igreja Cristã ofereceu ao nosso conturbado mundo, perdido em seus caminhos, confuso, sem bússola e agora à deriva. Ele deu vigor à esperança, já murcha, de um mundo alternativo e melhor, feito para atender às necessidades e sonhos do homem. Creio que seja a única figura pública em cena movido por este desejo e capaz de persegui-lo. Sua voz vai muito além do círculo incestuoso das elites políticas: alcança as massas que os gestores dos alto-falantes não conseguem, ou não se preocupam em atingir, aquelas deixadas sozinhas à procura de uma maneira de sair da atual incerteza.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/561375-medo-do-outro-e-de-si-mesmo-entrevista-com-zygmunt-bauman - 20/10/2016
Imagem da Internet

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Quando uma historiadora e um psicanalista deitam os portugueses no divã: "O amor não se diz, faz-se"

Um psicanalista, uma historiadora, várias horas de tertúlia. No divã do consultório estiveram os portugueses e a sua história de vida. Desses meses resultou um livro e uma proposta simples: as grandes mudanças resultam da capacidade de insurgir-se e de ações simples, mas continuadas no tempo. António Coimbra de Matos e de Raquel Varela defendem que isto se faz à escala coletiva, e começa em cada um de nós

Clara Soares
Jornalista e Psicóloga

Tão diferentes e, imagine-se, tão iguais. Ela dedica-se a investigar a história do trabalho e dos conflitos sociais. Ele, pioneiro no estudo e promoção da saúde mental infantil e juvenil, analisa pessoas há décadas.Nascidos com praticamente meio século (49 anos) de diferença, une-os a força de vontade para ir ao fundo das questões e fazer alguma coisa a seguir a isso. Move-os a capacidade de intervir na comunidade, local e global. Com várias obras científicas publicadas e vários textos e palestras dirigidos ao público em geral, Raquel e António decidiram percorrer e esmiuçar, a dois e face-a-face, os trilhos que conduzem às vulnerabilidades e forças da Nação. Conhecidos por dizerem o que entendem sem atender ao politicamente correto, ou seja, sem papas na língua, pensaram, fizeram e o resultado está no livro Do Medo À Esperança (Bertrand Ed., 181 págs., €15,50). Estivémos à conversa com eles no mesmo gabinete onde eles se encontraram durante os primeiros meses deste ano e, ao longo de uma hora (o tempo de uma sessão clínica), os autores falaram da arte do encontro, da capacidade de cooperar e do conflito criativo, que não podemos temer se quisermos resgatar a esperança e viver o presente com outro ânimo e propósito. E sim, é possível. Saiba como.

Querem contar como foi o ponto de partida para esta viagem a dois?
António Coimbra de Matos - Conhecemo-nos há três anos, num congresso organizado pelo Dr Mendes Pedro, em Coimbra. Fomono-nos encontrando e um dia surgiu a ideia de escrever um livro a quatro mãos. Sim, quatro, porque usamos o teclado do computador!

Raquel Varela – Cada um de nós tem uma visão particular da História, no registo individual e no coletivo. Quisemos transpor para livro estas conversas e fazer pontes, para refazer o passado e transformar o futuro.

“Quem tem cu tem medo”. Afirmam que ter medo é acomodar-se ao status quo. O medo tem classe social?
RV – Também tem, sim. Há medos saudáveis, como o medo de ser despedido, por exemplo. o problema é quando se fica paralisado, incapaz de reagir, com inibição da ação, para usar a expressão lapidar do António. Na Guerra Colonial, por exemplo, podia haver medo, mas uns manifestavam-se contra, outros desertavam e outros que ficaram mortos de medo e acabaram por morrer lá. Porque não reagiram.

ACM – O medo manifesta-se na relação: teme-se o social, o outro. Nas sociedades hierárquicas, com maior pressão para a submissão, o medo é maior.

Há já quem ironize com o culto da meditação, que está para a economia dos mercados como o paracetamol para as dores de cabeça... uma droga para manter a serenidade sem partir a loiça
RV - É uma proposta orientada para o indivíduo. Porém, só os outros nos salvam de nós próprios: Penso em ti, logo existo (título de obra de Coimbra de Matos). Não é fazendo yoga ou práticas meditativas que um problema vai deixar de nos magoar. Se me colocarem a trabalhar por turnos às seis da manhã e eu não puder estar com os filhos, é normal que eu não esteja bem. As pessoas têm razões para não estar bem.

Porém, houve alturas em que estivemos pior, como diz o professor nas suas aulas e palestras.
ACM – Sim, as sociedades têm evoluído para melhor, apesar de recuos vários. Houve um percurso ascendente e agora estamos a atravessar uma curva funda, pelo binómio de Schäuble: austeridade por um lado, não ser lamechas e aguentar com beatitude por outro.
José Caria
O que pensam do lema “faz a paz e não a guerra”, ou a revolta, já agora?
ACM – Ficar quieto é que não resolve nada!

RV – Se não reagirmos a uma situação violenta, estamos a violentar-nos. Um grupo de pessoas pode ter medo e ser o elo mais fraco mas se se unir consegue operar mudança à escala global.Veja o caso da fábrica que parou a construção de motores de arranque no Brasil e paralizou toda a General Motors.

As relações estão enfraquecidas porque os cidadãos têm medo?
ACM – Vivemos numa sociedade enganadora e sofisticada, em que as coisas se fazem às escondidas. Há uma aparente horizontalidade, a maior parte das pessoas até se trata por tu, mas por trás existem hierarquias rígidas. É a reverência ao comandante, ao chefe, ao professor catedrático.

Não estamos numa sociedade paritária, como mostra o estudo da FFMS, Portugal Desigual.
RV – O incrível, no meio disto tudo, é que ainda encontramos flores. Vou a escolas públicas e vejo professores a fazerem exposições, muitas vezes conseguidas ao final da noite, depois de um dia esgotante, porque acumulam o trabalho dos administrativos que foram despedidos e conseguem gerir os comportamentos insolentes de alunos que têm mau ambiente familiar e em que um terço dos pais estão desempregados. Ou seja, as pessoas têm coisas muito boas dentro delas para dar.

Ainda não percebi porque se fica enredado no medo, sem imaginar ou criar outro cenário.
ACM - É mais fácil lidar com um medo visível, uma ditadura militar, do que com um medo invisível. É o caso da economia de mercado, um simulacro assente em dinheiro falso e não na produção de bens e serviços.

RV - As sociedades estão numa transição história: o novo ainda não é, mas o velho já não é. Das associações mutualistas e de sociedades agrárias familiares passou-se para sociedades urbanas onde todo o bem-estar coletivo foi colocado na mão do Estado, que está a desagregar-se. Cada vez se conta menos com o partido e o sindicato, que antes tinham funções sociais protetoras.

E não foi sempre um pouco assim, ao longo da História?
(os dois, em uníssono) Não!
ACM – Houve as sociedades da Idade Média, da culpa e do castigo. As do princípio do século XX, marcadas pela depressão e pela vergonha, veja os suicídios ameaçados e os concretizados por não conseguir estar à altura, por não ser suficientemente bom para entrar na faculdade, num concurso para emprego. Agora estamos num período de total solidão, o medo de ficar desamparado. Na família, na escola, nas instituições. Se nos zangarmos com alguém, desligamos.

Descontinuam-se as relações pessoais?
ACM – Adelgaçam-se. Nas sociedades atuais a espessura dos laços afetivos é muito menor, as ligações são mais ténues e diluídas, o que facilita o desenvolvimento das psicoses.

RV – Há presos que veem mais sol do que as crianças, li num estudo, porque ficam a brincar sozinhas num quarto. Damos por adquirido que um divórcio excecional é aquele em que as pessoas ficam amigas. É normal que as pessoas recebam mais flores na morte do que em vida.

Como chegámos aqui, ao sentimento de impotência e ao clássico “quem espera desespera”?
ACM - Essa era a posição do Freud, a de que as coisas vêm do próprio umbigo. Mas as coisas vêm do ambiente. Se temos um ambiente que não responde, perdemos a esperança. Isto penetra as próprias famílias. O interesse dos pais pelos filhos é menor, o que interessa aos filhos passa-lhes ao lado, querem é que eles não lhes deem problemas e tenham resultados. É a sociedade do lucro.

Sai-se do contentamento descontente pela via do desassossego? Da desobediência?

ACM - Só há uma forma de lidar contra a opressão, que é a insurreição.
RV – E a insurreição pode ser é um ato de força contra a violência. Quando dizemos “não”…

ACM (interrompe) – Olhe, a propósito disso: num congresso realizado lá fora, se uma pessoa defende uma ideia diferente ou discorda isso é normal, mas se for cá, é logo apelidada de agressiva.

RV – As pessoas não se afirmam. O violento é o que acontece depois: os cochichos e calúnias nos locais de trabalho… Quem se sente mais vivo não é quem tem um trabalho melhor ou ganha mais, é quem reage e assume responsabilidades. Querem, levantam-se e fazem. Já os que só se queixam…

ACM - Sofrer não é bom, é masoquismo.

No livro centram-se na importância do amor, a semente da esperança. Podem explicar melhor?
ACM - Há que olhar em frente sem se focar nas causas dos problemas e criar algo novo, com menos hierarquias e cadeias de comando e mais cooperação. Sem fugir ao conflito nem alimentar a luta.
RV – É mudando o ambiente que nos mudamos a nós próprios. Pensar menos e agir mais muda a forma como pensamos. Eu não amo alguém porque o digo, mas porque chego a casa e em vez de ficar catatónica no sofá a ver televisão sugiro dar um passeio à beira-rio e digo “vamos conversar”. E porque ao sábado, mesmo cansada, digo aos meus filhos “vamos andar de skate e comer um gelado, em vez de ficar no sofá.”

ACM – O amor não se diz. Faz-se!

RV - (ri-se e acrescenta) Não é por acaso que se diz “fazer amor”.

Contudo, referem que os casais levam vidas divididas e se gerem como num local de trabalho.
RV – O problema é esse. Não resolvem as questões laborais no local de trabalho e levam-nas para casa. Os meus colegas não têm de infernizar-me a vida porque tiveram uma avaliação chata, ou o marido ou o filho, têm que resolver com a hierarquia, com quem manda, têm que enfrentar o touro! As pessoas ainda têm muito medo de errar, de falhar… este livro, por exemplo: podia ter dado errado? Podia. O nosso país já foi cobarde, atrasado e medroso e transformou-se com a democracia. As pessoas mudaram com a mudança que fizeram. Também podem ter retrocedido a partir daí, porque as pessoas estão, mas não são.

Pergunto, de novo, como se cria ou restaura a esperança quando tudo arde? E até foi um ano de muitos incêndios…
RV – Dou-lhe um exemplo. Colocaram parquímetros na minha rua. Eu coloquei um papel nas caixas de correio do bairro de Paço de Arcos e pedi uma reunião com todos. Eles foram, incluindo o administrador dos parquímetros, votámos contra a medida. O administrador foi despedido e a câmara de Oeiras retirou os parquímetros. E ainda se resolveram outros problemas! E digo-lhe mais: o padre Martins, conhecido por ser o padre vermelho da Madeira, acabou com a confissão e explicou-me porquê: “Então as pessoas não se encontram nem falam e vêm-me fazer queixa do vizinho? Que falem directamente com Deus!” Dizem que quem tem medo compra um cão. Eu defendo: quem tem medo, constrói uma relação! O problema é que as pessoas não se encontram. Se eu sair com um cão, falam comigo, se sair com os filhos já não.

E porque há o medo de relacionar-se, de envolver-se?
RV - É a primeira vez na História que temos uma sociedade maioritariamente urbana, igualdade entre homens e mulheres. Será que hoje os homens ainda continuam à procura de uma mãe? Se calhar não, há um desejo de mais e de melhor e a receptividade ao livro mostra isso.

ACM – Nós somos aquilo que vivemos. Neste momento, somos flexíveis e transformáveis.

RV – Conheço um psiquiatra e psicanalista famoso nas Astúrias, onde existem 20 mil pessoas em consultas de saúde mental. Ele defende que os problemas mentais não aumentaram. Aumentaram, sim, os problemas sociais. “Quando chegam e me dizem que estão desempregados eu respondo ‘Não precisa de mim, precisa é de uma comissão de trabalhadores’, e não de um psiquiatra.” Isso não se resolve com comprimidos.

"Quando a coisa mais importante que temos no nosso dia não é criar, amar, construir, inventar, mas comer, dormir, é porque estamos desumanizados. O que muda isto é programar encontros, fazer coisas, meia hora por dia, relacionar-se no bairro, com a família e as pessoas próximas."

Mas continua a ser a solução mais à mão, além do futebol, da religião, do fado. E da comida...
RV – Tenho um amigo que explica isso muito bem: em tempos de alienação, os instintos vêm ao de cima. Quando a coisa mais importante que temos no nosso dia não é criar, amar, construir, inventar, mas comer, dormir, é porque estamos desumanizados. O que muda isto é programar encontros, fazer coisas, meia hora por dia, relacionar-se no bairro, com a família e as pessoas próximas. Problemas complexos pedem soluções complexas, mas há coisas que estão ao alcance de todos e fazem a diferença na vida de cada um.

ACM – As pessoas têm uma grande capacidade para observar, reflectir e investigar. No fundo é isto que cada um pode fazer e que chega a ser mais importante do que ir à procura de uma resposta nos livros, no psiquiatra, no mestre, no pai. E lembro: criar implica sempre uma relação a dois, complementar e insaturada.

Ou seja?
ACM - Uma relação onde há lugar para as diferenças e um espaço aberto para criar coisas novas, senão entra-se na rotina. A rotina mata. Há que acreditar nos recursos próprios, sem medo de aprender com o erro. De falhar melhor.

Por fim, como dar a volta ao medo e iniciar mudanças, aqui e agora mesmo? Sem desesperar?
RV – Ocorre-me o que diz uma amiga minha, que já pensou no epitáfio: “Só estou aqui obrigada!” (risos) Correu mal um namoro? Não vá a correr comprar um cão. A primeira greve não funcionou? A próxima correrá melhor, embora cometa outros erros, porque nada é perfeito.

ACM – Outra forma de dizer isso é: “Insista, porque o melhor amor é o próximo!” Perante o desconhecido, temos medo, desejo e fascínio. E é preciso não esquecer que quando somos mais doentes temos mais medo. Quando temos mais saúde fascinamo-nos mais.
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Fonte:  http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2016-10-09-Quando-uma-historiadora-e-um-psicanalista-deitam-os-portugueses-no-diva-O-amor-nao-se-diz-faz-se

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Lula é vítima de Lawfare? Mas o que é isso?

 Wagner Francesco*

Lula vtima de Lawfare Mas o que isso
Os advogados do Lula deram (mais) um argumento para rebater as denúncias contra seu cliente: segundo eles, 
"Lula é vítima de ‘Lawfare’.

Mas o que é Lawfare? A grosso modo, é uma guerra travada por meio da manipulação das leis para atingir alguém que foi eleito como inimigo político. É o uso (muitas vezes) abusivo da lei como uma arma de guerra. É a estratégia de utilizar - ou abusar - do direito como um substituto de tradicionais métodos militares para obter sucesso em um conflito.

Ora, numa democracia é necessário que a lei seja obedecida; o Estado, dessa forma, se vale do uso da lei para atacar aqueles/aquilo que considera como inimigo. Desenhando: dar um ar de legalidade aos abusos. Sabe quando alguém diz que apesar do impeachment ter seguido os trâmites legais, ainda assim ele foi golpe? Tipo quando o diabo, para tentar Jesus, usou as palavras de Deus? Pois, quem defende isso defende que houve, no Brasil, uma Lawfare e que Dilma saiu derrotada...

Segundo os advogados do Lula, há a prática de Lawfare, pois, para deslegitimar o ex-presidente, há manipulação do sistema legal, abuso de direito, tentativa de influenciar a opinião pública, judicialização da política e promoção de desilusão popular. Isso porque uma"guerra legal" parte da ideia de que um grupo político vai tentar usar a lei para impedir ou punir a ação de outro grupo político - e esse argumento é usado pela defesa do Lula para passar a impressão de que a atuação do Ministério Público não é só jurídica, mas política também.

Resumo: os advogados do Lula argumentam que nas urnas ninguém o vence, então seus opositores se valem da Lawfare, que é uma guerra jurídica, para derrubá-lo politicamente.

Não caindo no mérito sobre se os advogados do Lula têm razão ou não, o fato é que o uso da lawfare é mais eficiente e menos cansativo que ganhar uma eleição. Nada melhor que derrubar um opositor usando uma via mais destrutiva: de forma legal - ainda que camuflada.

O que posso afirmar é que a Lawfare é inerentemente negativa. Não é uma coisa boa. É o oposto da busca pela justiça, pois, por meio de apresentação de processos judiciais frívolos e do mau uso de processos legais, intimida e frustra os adversários. E ganha uma Lawfare quem tem mais poder: político e econômico - e essa guerra nunca foi novidade num cenário internacional. Se chegou ou não ao Brasil devemos, sim, discutir: mas de repente pode ser só um jus esperniandi...
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Theologian and Paralegal
* Nascido no interior da Bahia, Conceição do Coité, Teólogo e Acadêmico de Direito. Pesquiso nas áreas do Direito Penal e Processo Penal.
Publicado por ontem.
Fonte:  http://wagnerfrancesco.jusbrasil.com.br/artigos/395435992/lula-e-vitima-de-lawfare-mas-o-que-e-isso?utm_campaign=newsletter-daily_20161018_4215&utm_medium=email&utm_source=newsletter