quinta-feira, 13 de maio de 2021

O fim da era de ascensão social

                                                             José de Souza Martins*

A falta de política social de agora está revertendo o trabalho a mero instrumento de uma riqueza desproporcional

 

Os quase cem anos da era de ascensão social no país estão chegando ao fim nestes dias de incerteza e de desorientação política. É verdade que o Brasil da Revolução de Outubro de 1930, que confirmou a opção pelo trabalho livre com direitos sociais, começara a decair com a opção econômica neoliberal de 1964. Esse processo poderia ter sido revertido se houvesse aqui, em vez de golpismo lucrativo, suficientemente amplo discernimento político e empresarial.

Aquela foi uma era de otimismo e esperança em que os gestores políticos da economia brasileira criaram condições para que o país superasse os bloqueios do atraso para ingressar no mundo moderno. Eram inteligentes, criativos e patriotas.

As sociedades não mudam da noite para o dia. Precursores daquele momento de reconfiguração social, de opções corajosas e criativas, já haviam começado a agir nas décadas finais da escravidão.

O pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910) analisou e interpretou o escravismo na perspectiva do que poderia ser o Brasil e ainda não era porque agrilhoado ao cativeiro, que escravizava corpos e mentes. Também dos senhores de escravos. Eles próprios, cativos da mentalidade senhorial.

O grande empresário paulista Antônio da Silva Prado (1840-1929), conservador, o maior fazendeiro de café do mundo, banqueiro, industrial, diretor e acionista da melhor ferrovia brasileira, ministro do Império na crise do escravismo, revolucionou o Brasil. Promoveu e personificou a modernidade possível, que o país podia e de que carecia. Seria o primeiro prefeito de São Paulo por dez anos.

Fez na cidade uma precursora revolução urbana, transformando-a de um povoado de casas de taipa numa metrópole moderna.

Morreu em 1929, deixando ao Brasil o maior legado de sua história social e econômica: desenvolvera a estratégica política de extinção da escravidão contra os interesses imediatistas dos fazendeiros, especialmente os de café. Abriu o caminho para a generalização do trabalho livre através da imigração subvencionada. Foi um subversivo do bem.

A princesa Isabel teve a clareza de assinar a lei que resultou da interpretação social e econômica e da articulação política desses dois artífices da história.

O principal aspecto da trama abolicionista e modernizadora foi a da sua “engenharia social”. Está num discurso de Antônio Prado ao Senado, em 1888, que definiu a política de abolição da escravatura por meio de mecanismos de política econômica e social que assegurariam aos trabalhadores liberdade e possibilidade de ascensão social.

 

Os milhões de desvalidos do país, pela primeira vez em nossa história, tornaram-se trabalhadores livres, mas também e sobretudo, ainda que de diferentes modos, sujeitos de direitos sociais.

Em contraste com esse momento politicamente criativo, a iníqua falta de política social de agora está revertendo o trabalho a mero instrumento de uma riqueza desproporcional e em contraste com a extensa e clamorosa miséria dos dias atuais. A maior metrópole do país miserabilizada por favelas, cortiços e cafofos de moradores de rua, gente despejada da vida e despejada do Brasil. Um país que fabrica miséria.

Não apenas Nabuco e Prado devem ser lembrados nesta hora de desencanto e medo em face da incompetência organizada dos omissos e irresponsáveis. Lembro de Roberto Simonsen (1889-1948), engenheiro formado pela Escola Politécnica de São Paulo, industrial, fundador da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Empresário esclarecido, foi um dos fundadores da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, que inaugurou entre nós as pesquisas e estudos sobre a cidade e sobre as condições e o modo de vida da classe trabalhadora. Um jeito de administrar o risco de efeitos perversos na acumulação capitalista sem compromisso social.

Simonsen era também historiador da economia brasileira e professor na ESP. Seus estudos lhe mostraram a importância de encerrar a história econômica de ciclos - o ciclo do pau-brasil, o ciclo da cana-de-açúcar, o ciclo do ouro, o ciclo do café. Uma nova era econômica era possível, baseada na indústria como polo dinâmico da economia brasileira, com o reconhecimento ao direito de ascensão social da classe trabalhadora.

Foi teórico do nacional-desenvolvimentismo, o modelo econômico do empresário responsável e consciente, preocupado com a empresa e a economia, mas também com a responsabilidade social do capital e do capitalista.

A manipulada insurreição eleitoral antipolítica de 2018 subverteu a ordem. Anexou o Brasil ao Ministério da Economia como uma província secundária e incômoda. Lugar de um experimento econômico e sanitário sem fundamentos científicos. E dos caprichos de um presidente sem compromisso com o bem comum.

·       José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Simon Bolivar Professor (Cambridge, 1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de “Moleque de Fábrica” (Ateliê).

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/jose-de-souza-martins-o-fim-da-era-de-ascensao-social.ghtml

 

JESUS E A IGREJA. 4

Anselmo Borges*

 

Na Igreja, haverá líderes no, com e para o Povo de Deus, para celebrar nas comunidades e com as comunidades a Eucaristia: a vida, a morte e a ressurreição de Jesus e da Humanidade inteira. A Eucaristia é memória da última Ceia e também de todas as refeições que Jesus tomou concretamente com pecadores e excluídos, precisamente para indicar a presença e actuação do Reino de Deus. Esses banquetes tinham causado profunda impressão nos discípulos. Jesus aliás comparou a realidade do Reino de Deus a bodas e banquete. Não se trata, pois, do padre-sacerdote do culto ritual-sacrificial. Jesus rejeitou o sacerdócio judaico e o culto sacrificial do seu tempo, e nada indica que quisesse instituir um novo culto sacrificial. Ele próprio não era “sacerdote” nem nenhum dos “Doze” nem Paulo. As suas relações com o Templo e o culto nele realizado pelos sacerdotes foram de ruptura, de tal modo que foi o sacerdócio judaico que o levou à cruz. No Novo Testamento, a palavra “sacerdote” no sentido sacrificial-cultual foi evitada. A concepção sacrificial da Eucaristia, que implica a introdução do sacerdote, é posterior, tendo na sua base sobretudo a vontade de impedir a acusação de ateísmo pelo facto de os cristãos se recusarem a prestar culto aos deuses e não oferecerem sacrifícios. Mas então o “povo sacerdotal” transformou-se na “Igreja dos padres”, e, esquecendo a Eucaristia como memorial do amor incondicional de Cristo pela Humanidade até ao fim na vida e na morte, a sua compreensão como sacrifício contribuiu para a concepção do Deus que precisa do sangue das vítimas, a começar pelo sangue do próprio Filho, em ordem a aplacar a sua ira. Deste modo, porém, continuou a história do deus sádico Moloch, em nome do qual é possível legitimar todo o sangue derramado. De facto, se Deus precisa, para ser aplacado na sua ira divina, do sangue de vítimas e até do do próprio Filho, porque é que nós não havemos também de poder derramar sangue e de vingar-nos?


Não se pode esquecer que o divino andou sempre vinculado ao belo, de tal modo que não há encontro autêntico com Deus sem o encontro com a beleza. Ora, é necessário reconhecer que frequentemente as celebrações das comunidades cristãs são confrangedoras no seu mau gosto. Quando nas igrejas se ouve a música que se ouve e se tem de escutar  as homilias que se sabe, é de espantar como é que há ainda tanta gente que vai à igreja. São necessárias celebrações familiares e belas, em que pré-apareça e se experiencie a beleza que nos redime de um quotidiano tantas vezes vulgar e vazio. Por outro lado, em casos especiais, como na situação de confinamento, por exemplo, nunca se pode esquecer que, como fizeram as primeiras comunidades, há possibilidade da celebração em casa. 


Será de acrescentar que hoje, oficialmente, só se consideram sete sacramentos. Mas Santo Agostinho falava em dezenas. E com razão, pois, se no Antigo Testamento Deus fala através de sinais e se no Novo Testamento Jesus fala mediante sinais, também a Igreja o deve fazer. Trata-se de sinais que mostram que o Reino de Deus está presente, trazendo salvação e força à Humanidade, manifestando a bondade de Deus e a sua solicitude. O que é preciso é adaptar e transformar o universo simbólico da Igreja para os novos tempos e necessidades.


Concluindo. Como escreveu J. A. Pagola, “O objectivo de Jesus foi introduzir no mundo o que ele chamava ‘o Reino de Deus’, uma sociedade estruturada de maneira justa e digna para todos, como Deus a quer. Quando Deus reina no mundo, a Humanidade progride em justiça, solidariedade, compaixão, fraternidade e paz. A isto se dedicou Jesus com verdadeira paixão. Por isso foi perseguido, torturado, executado. ‘O reino de Deus’ foi o absoluto para ele”. A conclusão é evidente: a força, o motor, o objectivo, a razão e o sentido último do cristianismo é “o Reino de Deus”, não outra coisa. “O critério para medir a identidade dos cristãos, a verdade de uma espiritualidade ou a autenticidade do que faz a Igreja é sempre ‘o Reino de Deus’. Um reino que começa aqui e alcança a sua plenitude na vida eterna.” Assim,  concluindo: “Uma das ‘heresias’ mais graves que se foi introduzindo no cristianismo é fazer da Igreja o absoluto. Pensar que a Igreja é o centro, a realidade à qual tudo o resto se há-de subordinar; fazer da Igreja o ‘substituto’ do Reino de Deus; trabalhar pela Igreja e preocuparmo-nos com os seus problemas, esquecendo o sofrimento que existe no mundo e a luta por uma organização mais justa da vida.”


O cristão acredita que o Deus Pai de Jesus Cristo é o Criador do mundo. Por isso, esta vida sobre a terra não é uma passagem ou um simples treino para a vida verdadeira do Além. Não! Esta existência neste mundo, aqui e agora, é já vida real e verdadeira, de salvação, com Deus. Mas ainda não somos o que seremos. Aguardamos a consumação e céus novos e uma terra nova. Uma religião que esqueça a Terra está inevitavelmente sob a suspeita de ilusão, como um mundo sem transcendência fica inevitavelmente sob a ameaça da desumanidade.


Como escreveu E. Schillebeeckx, quando a Igreja vive seguindo Jesus na oração e na libertação dos homens e das mulheres, “a fé na ressurreição não conhece por isso mesmo qualquer crise”. Mas, por outro lado, é preciso reconhecer e proclamar que “é melhor não ter fé na vida eterna do que confessar um Deus que, com o olhar num Além melhor, rebaixa, empequenece e humilha politicamente os seres humanos no ‘aqui e agora’”.

 
*Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 MAIO 2021

 

A viver da verdade

Miguel Oliveira Panão*

A vida depende da verdade, mas nem todos acreditam nisso. Na Índia, Mohanish Ellitam vê os níveis de oxigénio da sua mãe de 49 anos a descer. Depois de 100 chamadas à procura de melhores condições para a ajudar a superar o drama da Covid-19, encontra lugar num hospital a 60km da sua cidade natal. Mais tarde, também o pai sente-se cansado e com dificuldades respiratórias. Ainda não há cama para ele. Inúmeras vezes Mohanish quebra e chora. O seu drama é o de centenas de milhares de pessoas na Índia. E, por vezes, perto de mim, há pessoas a afirmar que esta pandemia é uma farsa. A vida depende da verdade, mas nem todos acreditam nisso.

Nesta semana que dedicamos à vida, podemos pensar nos dramas das famílias, no direito a nascer, no dever de amar e ajudar quem sofre para que redescubra o valor de viver, mas creio ser essencial olhar, também, para a relação entre a vida e a verdade. Numa sociedade da informação, o modo como encaramos a vida encontra-se ameaçada pela desinformação. A onda de entusiasmo pelas redes sociais parece imparável. Tudo se partilha e quanto menos soubermos sobre uma coisa, maior a tendência de acreditar naquilo que vemos. A desinformação espalha-se por continuarmos sob a influência do ver para crer, sem querermos saber se é verdade ou não o que estamos a ver.

S. Shyam Sundar, especialista nos efeitos dos Media da Penn State University nos EUA, observou num estudo, como o baixo envolvimento das pessoas com um determinado assunto, leva-as a dar maior credibilidade aos conteúdos vídeo que lhes são apresentados. Não quer dizer que sejam verdade, mas acreditam mais naquilo que vêem do que naquilo que vivem. Pois, viver a verdade implica envolvermo-nos com a verdade. Um outro exemplo podemos encontrar no estudo feito por Sander van der Linden, psicólogo social da Universidade de Cambridge, que apresentou informação falsa a um grupo de pessoas a negar as alterações climáticas, e depois apresentou-lhes a informação verdadeira, mas as pessoas desse grupo não acreditaram. Ou seja, depois da desinformação, minamos a compreensão das pessoas em relação à verdade. O que é falso afecta a nossa vida e dificulta o retorno à verdade. Logo, afasta-nos do verdadeiro viver.

Parece-me óbvio que todos nós queremos viver da verdade, mas isso deixou de ser possível depois de reduzirmos o contacto com a verdade à informação que temos disponível através da internet. Não basta estar bem informado para celebrar a vida com a verdade, ou deixar que a nossa vida seja transformada pela verdade. É preciso experimentar a verdade e isso apenas se faz saindo do sofá, tirando os olhos do ecrã, e partir em busca da experiência de viver.

Into the Wild é a história de Christopher McCandless contada pelo jornalista Jon Krakauer, um jovem de uma família normal que fez um corte radical com tudo o que possuía e resolveu inventar uma nova vida para si mesmo num ambiente natural e selvagem. O final é dramático, mas Christopher escreve uma última frase antes da sua vida terminar consumida pela fome e pela solidão — «a felicidade só é real quando partilhada.»

A verdade, quando é real, também só se revela quando é partilhada, experimentada e vivida em comunidade. Sozinhos temos mais dificuldade em questionar a informação que recebemos, e as partilhas que ocorrem nas redes sociais não têm o carácter relacional que a busca da verdade exige. A vida que esta semana celebramos pede passos com as pernas e não com o deslizar dos dedos.

Um dos modos mais simples e concreto de experimentarmos a vida será reconectarmo-nos com a terra caminhando sob o impulso da navegação natural. Essa reintroduz a curiosidade de uma criança nos trajectos que fazemos pela cidade, jardim ou bosque. Por que razão os ramos das árvores se esticam na horizontal de um lado, e na vertical do outro? Por que razão existem flores do lado esquerdo do caminho, e menos do lado direito? Ao explorarmos os detalhes ao nosso redor numa caminhada que não tem outro propósito senão ela própria, aprendemos ao notar nas mais pequenas coisas que não aparecem nos mapas, e experimentamos emoções que são difíceis de registar com qualquer som ou imagem.

É curioso que a semana da vida seja celebrada antes de mais um aniversário da Encíclica Laudato Si’, que está profundamente relacionada com a vida. Desde Alexandre von Humbolt no século XVIII que o ser humano se deu conta de que, na natureza, tudo está em relação com tudo. É essa a base de toda a ciência ecológica que procura compreender os ecossistemas terrestres. E introduzir essa mente curiosa no nosso estilo de vida, aprendendo a compreender a natureza que nos rodeia, leva tempo. E, por vezes, precisamos da distância para experimentarmos o tempo necessário até nos desapegarmos do incontrolável desejo de querer saber (tudo e mais alguma coisa) para desfrutarmos do experimental desejo de querer viver.

Afastamo-nos das longas caminhadas por termos o tempo limitado, mas talvez sejamos nós que limitamos o tempo de vida que essas caminhadas nos proporcionam. Uma das iniciativas que se fazem nesta semana são, precisamente, as caminhadas pela vida. Nas que participei, confesso, nunca me interessei tanto pelo que o megafone dizia quanto pelo simples facto de viver aquele momento de família com outras famílias. Para mim, até no silêncio permeado dos risos das crianças, está o testemunho de vida suficiente que pode levantar o olhar mais cabisbaixo de alguém que pela rua anda aprisionado ao ecrã.

Os grandes desafios da pandemia e das alterações climáticas não são uma farsa de alguém que quer enriquecer à custa do sofrimento dos outros. A farsa e a morte está quando nos deixamos levar pelas seduções da desinformação com as quais somos bombardeados a todo o momento. Por vezes, temos mesmo de desligar, sair, caminhar e silenciar para sabermos aprender a viver a verdade que nos aproxima da realidade, e nos inspira nas escolhas de vida que nos conectam, cada vez mais e melhor, ao mundo natural, aos outros e a Deus.

* (Professor Universitário) Portugal.

Fonte:   https://agencia.ecclesia.pt/portal/saber-aprender-a-viver-da-verdade/