sexta-feira, 4 de junho de 2021

Adoração pela ciência se tornou quase religiosa e teria deixado Comte mudo

                                    João Pereira Coutinho*

Desenho mostra várias formas geométricas intercaladas entre si

Nossos antepassados teriam admitido a possibilidade de um vazamento do coronavírus sem drama

31.mai.2021

Edição Impressa

 Aviso já: não sei se o famoso coronavíus vazou de um laboratório em Wuhan. Para usar a expressão da moda, não existe “evidência científica”.

Mas parece que também não há evidência científica de que o vírus passou de um bicho para um humano, razão pela qual 18 pesquisadores já admitem o cenário de vazamento em carta para a Science.

Aliás, o caso é tão sério que Joe Biden, antes cético, mudou de ideias: quer a “intelligence” do país a espreitar esse cenário.

Descanse, leitor. Não vou seguir o caminho fácil e afirmar que o ódio a Trump provocou essa cegueira monumental. Se o Donald admitia um vírus fugitivo, estava errado. Donde, o vírus só poderia ter vindo de um comedor de morcego, ou de pangolim, consoante o gosto.

Não sou especialista em coronavírus. Nunca comi morcegos ou pangolins (acho). Mas lembro de pensar: como é possível aceitar, “prima facie”, o que o regime chinês afirma? Da última vez que confirmei, a China era uma ditadura.

E se os governos democráticos já têm uma relação problemática com a verdade, que dizer de um regime autocrático?

Além disso, vazamentos de vírus não são fenômenos paranormais. Aconteceu com a Sars já neste século.

Sem falar de casos mais célebres, como a varíola, que escapou de laboratórios ingleses nas décadas de 1960 e 1970. E, no entanto, qualquer sussurro sobre um vazamento chinês era fuzilado pela opinião dominante —e pelo Facebook, que usava a tesoura da censura.

O jornalismo, esse, limitava-se a seguir a manada, sem fazer perguntas. Por quê?

Repito: o ódio a Trump, aliás compreensível, não explica tudo. O bullying chinês para calar a Organização Mundial da Saúde também não.

A guerra contra a possibilidade de se obter a verdade fez-se em nome de uma concepção errada de ciência. Ou, melhor dizendo, negando que existe uma dimensão monstruosa no próprio conhecimento científico.

A afirmação é pesada, admito, mas não seria assim tanto para nossos avós. Hoje, existe uma adoração quase religiosa pela ciência que teria deixado o senhor Auguste Comte mudo e abobalhado.

Mas o século 20 tinha uma relação mais ambígua com o conhecimento. Sim, ninguém negava as benesses dos antibióticos, das vacinas ou dos transplantes. O aumento da esperança de vida era, e é, a medida da nossa gratidão.

Mas também ninguém negava que a ciência arrasara Hiroshima e Nagasaki; ou que fora usada nas câmaras de gás de Auschwitz ou Treblinka.

Nossos antepassados teriam admitido a possibilidade de um vazamento do coronavírus sem drama. Porque entendiam que os cientistas que manipulam esses vírus para tentar ajudar a espécie humana são os mesmos que, por erro ou coisa pior, podem devastar a espécie humana.

É também por isso que celebro o acontecimento literário dos últimos anos. Falo do livro “When We Cease to Understand the World”, do escritor chileno Benjamin Labatut.

Saberemos logo se Labatut recebe o International Booker Prize, como merece. Mas o seu livro, de um hibridismo revolucionário na literatura contemporânea, é uma meditação brilhante sobre essa monstruosidade da ciência. Monstruosidade em dois sentidos.

Por um lado, ao transformar em arte a velha máxima de Nietzsche de que, quando olhamos demoradamente para o abismo, o abismo também olha para nós.

As páginas sobre o grande matemático Alexander Grothendieck, que abandonou a ciência e se entregou à reclusão por vislumbrar nos seus cálculos uma capacidade infinitamente destrutiva, é um prodígio narrativo.

O mesmo vale para os capítulos dedicados aos físicos Schrödinger e Heisenberg: a forma como a mecânica quântica os levou aos confins da racionalidade, para quase os despedaçar, é o oposto da versão Walt Disney que hoje reina na maioria da divulgação científica.

Por outro lado, a monstruosidade está plasmada no destino de Fritz Haber. O químico alemão salvou milhões de seres humanos da fome ao inventar os primeiros fertilizantes artificiais.

O mesmo Haber foi declarado criminoso de guerra pela França e pela Inglaterra por ter desenvolvido os gases que os alemães usaram na Primeira Guerra Mundial.

Benjamin Labatut, como nossos avós, tem “imaginação do desastre”: a capacidade rara de vislumbrar no engenho humano o que existe de grandioso e horripilante.

Nós, infantis e amnésicos, já não conseguimos imaginar o lado sombrio de nada. Essa é a razão por que somos mais perigosos que nunca

* Cronista, cientista político e escritor português. É autor de várias obras, dentre as quais As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e Reacionários.

 Ilustração de Abu para coluna de João Pereira Coutinho, publicada na Folha, em 31 de maio de 2021 - Abu 

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2021/05/adoracao-pela-ciencia-se-tornou-quase-religiosa-e-teria-deixado-comte-mudo.shtml

‘Vinho não é feito para ser cheirado, é feito para ser bebido’ diz Jorge Lucki

Só um grande respeito pelo solo, pelas vinhas e uma vinificação não intervencionista irão garantir a presença da mineralidade no vinho

Por Jorge Lucki

04/06/2021

“Vinho não é feito para ser cheirado, é feito para ser bebido”. Assim bradava Henri Jayer (1922 - 2006), um dos nomes mais importantes da Borgonha, cansado de ver sommeliers e críticos de vinhos recitarem todo um arsenal de aromas ao falar sobre a bebida. A velha guarda dava menos importância à parte olfativa, usando o tradicional “tastevin” para provar seus vinhos. Foi com seu inseparável “cinzeirinho” que monsieur Charles Rousseau (1923 - 2016), que comandava o já então celebrado Domaine Armand Rousseau, em Gevrey-Chambertin, me levou escada abaixo para degustar direto das barricas na minha primeira visita à Borgonha, em dezembro de 1980. O “tastevin” foi destronado com o aparecimento das técnicas de degustação desenvolvidas nas décadas de 1960 e 1970, conhecidas como análise sensorial, que dava grande importância à expressão aromática dos vinhos, servindo-se de taças desenhadas para ressaltar seus aromas (para uniformizar, o copo padrão ISO foi lançado em 1974).

Até que os aromas de um vinho adquirissem tanta importância, o que interessava era, primeiramente, o aspecto visual, sua limpidez e brilho - que o “tastevin” revelava de forma implacável através de suas ranhuras -, e depois na boca, onde era “mastigado”, liberando sensações táteis, estrutura, persistência e retro-olfação. É de se supor que foi utilizando essa técnica que os monges beneditinos e cistercienses conseguiam separar e representar cada terrroir dos vinhos da Borgonha. A rigor, o que eles detectavam era a sapidez e os aspectos minerais trazidos pela mineralidade natural do solo, percepção que foi sendo encoberta pelas cada vez mais utilizadas práticas enológicas e intervencionistas.

Embora o advento da análise sensorial tivesse alargado os limites para se analisar um vinho com mais profundidade, ela deu margem, também, a que muitos produtores exagerassem nos recursos enológicos - excesso de madeira, barris novos ou pior, aduelas (“staves”) para imitar aromas e sabores amadeirados; goma arábica para dar untuosidade; leveduras industrializadas e outros tantos aditivos -, com o objetivo de deixar os vinhos mais sedosos e capazes de impressionar críticos e consumidores.

Depois de tantos abusos, era de se esperar que mais hora menos hora haveria uma reação contrária. E ela veio a partir da necessidade de dar importância à identidade, voltar a dar atenção ao terroir, intensificando-se a partir do movimento do “mínimo intervencionismo”, nascido neste milênio. Com isso, de uns 15 anos para cá uma palavra foi acrescentada no vocabulário da análise sensorial: mineralidade.

Resultado da absorção de minerais existentes no solo pelas raízes da videira, a noção de mineralidade renasceu, não sem causar polêmica. A questão, levantada sobretudo pelos “cientistas do vinho”, residia no fato de as substâncias encontradas nos vinhos serem reais e mensuráveis, que se associam a aromas conhecidos - pyrazinas, a pimentão da cabernet sauvignon, acetato de isoamila, a banana (encontrada nos beaujolais) ou benzaldeido, a cereja -, enquanto os minerais são inodoros, o que levaria a se concluir que a mineralidade na nobre bebida seria restrita apenas a sensações gustativas. Mesmo assim sem convicção, já que a concentração dos minerais nos vinhos seria muito baixa, praticamente imperceptível mesmo para degustadores experimentados.

Vá lá, mas na prática a teoria é outra. Quem já teve a oportunidade de provar grandes vinhos da Borgonha não questiona a existência da mineralidade.

Em todo caso, há argumentos contrários à tese da inexistência da mineralidade. Eles levam em conta, em especial, a existência no solo de partículas (íons de cálcio, magnésio, ferro etc.) que, embora insuficientes individualmente em concentração para impactar no sabor, podem, combinadas, contribuir para sensações gustativas - tátil, salino, leve amargor -, que nos conduzem não só à noção de mineralidade como reforçam a textura, o caráter e a extensão do vinho na boca (exemplo clássico são os vinhos do Priorato).

Existem também evidências de aromas associados à mineralidade, contrariando proposições da ciência - cá para nós, o fato de a ciência não explicar não significa que não exista. Assim é o aroma de giz dos chablis provenientes de solos Kimmeridgian (basicamente os 1ers e grands crus), o de pedra de isqueiro (pierre à fusil) dos Pouilly Fumé assentes em sílex (rocha sedimentar típica daquela zona do Loire) ou o cheiro de querosene/“petrolé” dos rieslings dos vinhedos do Mosel, com suas encostas compostas de ardósia fragmentada.

A palavra mineralidade tem sido usada de forma indiscriminada. Virou moda. Vale, contudo, ressaltar, que tratando-se de aromas e sensações ligadas ao lugar é fundamental que seja preservada. Só um grande respeito pelo solo e pelas vinhas e uma vinificação não intervencionista irão garantir suas presenças no vinho. Todas as ações realizadas pelo viticultor para aumentar a profundidade e a quantidade de raízes no solo e para descompactar e promover a vida no solo resultarão no aumento da absorção de minerais pela videira. Mineralidade tem a ver com vinhos limpos (“clean”) e com frescor. É o que distingue um produto tecnológico de um vinho de terroir.

Enfim, a percepção da mineralidade de um vinho é a manifestação íntima da profundidade de um terroir e sua capacidade de se tornar um vinho único.

Jorge Lucki escreve neste espaço semanalmente

E-mail: Colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/jorge-lucki-vinho-nao-e-feito-para-ser-cheirado-e-feito-para-ser-bebido.ghtml

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Margaret Atwood: “As utopias voltarão porque precisamos imaginar como salvar o mundo”

A escritora Margaret Atwood, autora de ‘O conto da aia’.  

A escritora Margaret Atwood, autora de ‘O conto da aia’.

A escritora canadense, autora da trilogia ‘MaddAddam’ e ‘O conto de Aia’, reflete sobre as reações que vêm após as conquistas sociais e sobre seu talento para a biologia.

Ela diz que cresceu no norte do Canadá, onde as mulheres nunca foram concebidas como um enfeite. “Quando eu precisava de um pouco de lenha, saía e cortava com meu próprio machado”, conta. Hoje, revela que possui uma motosserra. Não se pode entender sua literatura, afirma Margaret Atwood (Ottawa, 81 anos), sem essa igualitária ― e ao mesmo tempo alienante ― visão do mundo. Porque ela olhava ao redor e não era isso que via. A obra de um escritor, dizia Ray Bradbury, é feita daquilo que ele teme quando apaga a luz de noite. E o que Atwood teme é o que acontece quando alguém assume o comando e decide que as coisas serão melhores se forem feitas à sua maneira.

Digamos que alguém decide que o planeta estará melhor sem o ser humano e provoca uma pandemia que acaba com 99% da população mundial, como acontece em sua obra recentemente resgatada Oryx e Crake (Rocco), ponto de partida de uma trilogia que neste outono boreal será finalmente concluída em espanhol.

Sente-se uma visionária? “Oh, não, não acredito que esta pandemia tenha sido intencional. Mas nunca se sabe, a vida sempre nos dá surpresas”, responde, com humor.

Atwood está em sua casa em Toronto. Lembrou-se milagrosamente da videochamada quando arrancava ervas daninhas no jardim. Está agora em um quarto repleto de livros e marcos emoldurando o que parecem ser pequenos quadros e fotografias. Ajeita o cabelo branco rebelde e lembra que “talvez não tenha dado a atenção que devia [a essas obras] porque era uma adolescente, e as adolescentes só pensam no que vão fazer na noite de sábado. Mas é certo que meus pais eram cientistas, biólogos, e que se reuniam em casa com amigos e falavam de como tudo acabaria mal se continuássemos assim, mas também de descobertas de todo tipo”. “Oh, e eu deveria ter sido bióloga. Meu irmão nunca me perdoará. Eu era melhor em biologia do que em inglês. Tinha um monte de erros de ortografia. Ele também queria ser escritor, mas acabou sendo biólogo. Lê meus livros como um professor leria uma prova. Tenho que ser rigorosíssima!”, diz.

Isso ajuda a explicar por que a trilogia MaddAddam, iniciada por Oryx e Crake, tenha antecipado, por exemplo, os coelhos fluorescentes inventados em 2013 e que aparecem uma década antes no romance, que retrata de forma certeira a velocidade do mundo de hoje e a exploração sem escrúpulos do meio ambiente ― a ponto de animais serem criados para que simplesmente contenham órgãos humanos sobressalentes. Isto sem falar de um retorno a uma espécie de Idade Média, uma desigualdade social que transforma os proprietários de grandes corporações em senhores feudais, cujos complexos são rodeados de vilarejos onde os camponeses desse futuro vivem em más condições até que esse futuro também se acaba. “Crake acredita que o mundo está melhor sem nós e nos substitui pelos crakers, seres que nem sequer precisam da agricultura porque comem folhas, que não sentem inveja, mas que não podem evitar querer saber de onde vêm”, conta.

Aqui está um dos eixos da narrativa de Atwood: a criação do mito. Suas primeiras coleções de poemas, diz, foram dedicadas a “reexaminar mitos e contos de fadas”, algo que continua fazendo ― O Conto da Aia (Rocco) não deixa de ser a criação de um mito, um passado inconcebível do ponto de vista de uma sala de conferências do futuro ― e que MaddAddam completa no terceiro volume, chamado justamente de MaddAddam, inédito em espanhol e português, expondo de que forma é constituída a verdade histórica após mostrar a realidade nos dois títulos anteriores, Oryx e Crake e The Year of The Flood. “A única razão pela qual vou ao futuro para contar minhas histórias é que não quero ter que ir embora do planeta Terra, e é no futuro que posso controlar todo o relato, sempre que seja coerente e plausível”, afirma. Na adolescência, ela lia as distopias de George Orwell e Aldous Huxley e se perguntava por que não havia mulheres escrevendo-as.

“Claro que toda distopia fala do presente. Orwell falava de 1948 e Huxley falava dele mesmo chegando a Hollywood nos anos trinta, após passar pela Grande Depressão e ao se deparar com o sexo livre e as comidas exóticas. No século XIX foram escritas milhares de utopias. É lógico. Houve tantas melhorias materiais, tantas invenções, que só podiam imaginar um mundo melhor. O XX foi um século de distopias porque foi um século de guerras e totalitarismos. Ficou claro que essa ideia da sociedade perfeita implicava um massacre. Você tinha que matar todos os que discordassem de você para instaurar sua utopia. Toda distopia contém uma utopia e vice-versa”, explica. E, apesar de tudo, acredita que neste século XXI “as utopias voltarão”. Por quê? “Teremos que descobrir como nos organizar para que o planeta permaneça habitável. As utopias voltarão porque precisamos imaginar como salvar o mundo”, responde.

Os romancistas não são pensadores, ressalta, embora possam encenar o mundo, “como um diretor de cinema”. Desenhar um mapa. “É preciso ter cuidado, sempre que falamos do futuro, porque sempre podem acabar acreditando na história. O que aconteceu com a utopia de Vril, o poder da raça futura?, do romancista inglês Edward Bulwer-Lytton? Até Hitler acreditou nela ― e mandou uma equipe de exploradores à Noruega para procurar a caverna da qual Bulwer-Lytton falava, onde se escondia uma perfeita sociedade do futuro”, afirma. O mesmo ocorreu com O Conta da Aia. “Alguns começaram a se perguntar como implementar essa loucura. Por isso, é preciso ser cuidadoso. E considerar que o que para você é uma distopia pode ser uma utopia para outras pessoas”, acrescenta. E não esquecer. Como não foi esquecido nos anos cinquenta, “quando foi feito um esforço unitário, que incluiu princesas da Disney, para levar a mulher de volta ao lar, pois não pertencia àquele lugar”, diz.

Existe nesta quarta onda do feminismo mais esperança que nas anteriores? “Tudo está em processo. Quando você empurra, sente a resistência do outro. A eleição de Obama foi um impulso; a de Trump, uma reação contrária. Sempre que há uma mudança de paradigma, há quem deseje que as coisas voltem a ser como antes. Você sempre pode esperar conseguir melhorias, e, se houver uma reação contrária, aguentar até onde havia chegado, manter o terreno e inclusive voltar a pressionar para conseguir o que tinha, como ocorreu nos anos cinquenta”, responde. Hoje em dia, em qualquer caso, diz ela, “não se trata somente da igualdade de gênero. Trata-se também da desigualdade na riqueza, que atingiu proporções inéditas desde o antigo regime francês, desde Henrique VIII e, claro, da mudança climática, algo que teremos que resolver se quisermos continuar sendo uma espécie deste planeta.”

Reportagem por  Laura Fernández - Barcelona - 29 mai 2021 

Fonte:  https://brasil.elpais.com/cultura/2021-05-29/margaret-atwood-as-utopias-voltarao-porque-precisamos-imaginar-como-salvar-o-mundo.html

Fran Lebowitz: “Biden não é Roosevelt, mas pelo menos tenta”

A escritora norte-americana Fran Lebowitz, durante uma visita a Madri em 2018.

A escritora norte-americana Fran Lebowitz, durante uma visita a Madri em 2018.Oscar González / NurPhoto (Getty Images

O número é um telefone fixo de Nova York. Após digitá-lo, entra a secretária eletrônica. A voz inconfundível de Fran Lebowitz (Morristown, Nova Jersey, 70 anos) pede que deixe um nome e um telefone. “Responderei assim que possível”, jura, com seu timbre nasal e zombeteiro. Inevitavelmente, a gente a imagina filtrando as ligações, como nas séries dos anos noventa. E, de fato, a escritora aparece no meio da mensagem com um “olá” seco e ao mesmo tempo amigável, paradoxal. Lebowitz, personalidade nova-iorquina por antonomásia, catapultada à fama mundial graças à série documental Faz de conta que NY é uma cidade, dirigida por Martin Scorsese para a Netflix, começa perguntando sobre Madri. “Estive há alguns anos e me senti capaz de morar lá. É uma das poucas cidades onde se janta no único horário que eu acho aceitável: às 10 da noite”, gargalha esta noctâmbula incorrigível.

Lebowitz sofre uma crise criativa que a levou a deixar de escrever quase três décadas atrás: seu último livro, publicado em 1994, era um volume infantil sobre dois pandas nova-iorquinos que sonhavam em se mudar para Paris. O admirável é que, como boa personagem warholiana —escreveu para sua revista Interview nos anos setenta—, nunca precisou exercer seu ofício para dar o que falar. “Não tenho um trabalho, ou não um de verdade”, admite essa autora, mais conhecida por suas conferências e declarações midiáticas que por seus escritos. Isso não impede que aproveite o ímpeto da série de Scorsese, com quem mantém uma longa amizade —que, às vezes, parece cimentada na predisposição do diretor em rir de todas as graças que ela faz, que não são poucas—, para reeditar seus ensaios humorísticos dos anos setenta e começo dos oitenta, Vida metropolitana e Ciências sociais, fora de catálogo na Espanha e recuperados agora em um volume único com o título de Um dia qualquer em Nova York (Tusquets), que chegará esta quarta-feira às livrarias —o título não saiu no Brasil.

Seus textos são peças breves e cortantes, banhadas num humor que nem sempre envelheceu bem. Neles Lebowitz aborda, pela primeira vez, todos os clássicos de seu repertório posterior: os problemas imobiliários, os boletos a pagar, a feiura da roupa estampada e dos relógios digitais, os incômodos que lhe causam as crianças e as multidões e outros problemas do Primeiro Mundo. “Quando voltei a ler esses ensaios, reconheci a mim mesma, mas não o mundo que descrevo neles. O mundo mudou, mas eu não”, afirma, sobre esses textos escritos antes dos 30. “Sou muito teimosa e sempre tive ideias muito enfáticas. Não digo que sempre tenha razão, mas… Bom, sim, sempre tenho razão. Do contrário, teria mudado de opinião sobre minhas certezas”, reflete.

Fran Lebowitz com Andy Warhol em uma festa em Nova York. A escritora trabalhou na revista ‘Interview’, criada pelo artista.
Fran Lebowitz com Andy Warhol em uma festa em Nova York. A escritora trabalhou na revista ‘Interview’, criada pelo artista. Richard E. Aaron / Redferns

Um mal-entendido sobre sua personalidade pública, algo que parece lhe incomodar, é que se confundam sua misantropia jocosa e seu ostensivo ludismo —Lebowitz vive sem tecnologia à vista: nada de celular, computador, tablet, smartwatch ou balança com USB— com o conservadorismo aparente do “antes vivíamos melhor”. “Pelo contrário: acredito que algumas coisas estejam melhores agora. Para as mulheres não estão bem, mas melhores. Para os gays não estão bem, mas sim muito melhores. Vejo mais progresso nesse campo que em qualquer outro”, argumenta. “As pessoas já não se lembram de que ser homossexual em 1972 era quase como sê-lo em 1872. Na verdade, as pessoas não se lembram de nada. Eu sim me lembro. Sou um depósito de memória, porque parei de beber e de usar drogas aos 19 anos. Quando meus amigos não se lembram de algo, me perguntam. Eu era a única que não estava chapada.”

Reportagem por  Álex Vicente Paris - 01 jun 2021 

Fonte: https://brasil.elpais.com/cultura/2021-06-01/fran-lebowitz-biden-nao-e-roosevelt-mas-pelo-menos-tenta.html?event_log=oklogin&prod=REGCRARTBR&o=cerrbr&int=pw_reg_el-pais-brasil

A Psicologia do Dinheiro

 A Psicologia do Dinheiro

Lições atemporais sobre riqueza, ganância e felicidade



Recomendação

Não é certo que você ao ter mais conhecimento se torne mais rico. O know-how financeiro não é uma ciência tão difícil quanto você imagina. Um funcionário de um posto de gasolina pode fazer milhões, enquanto um executivo de finanças afamado, formado em Harvard, pode falir. Tudo tem a ver com o comportamento. O ex-jornalista financeiro Morgan Housel defende que os resultados financeiros dependem mais da psicologia do que da matemática. Descubra como a sua relação com o dinheiro afeta a sua situação financeira.

Ideias Fundamentais

  • O conhecimento financeiro não garante a riqueza.
  • A sorte e o risco influenciam a sua vida e sucesso financeiro.
  • Suas experiências de vida moldam a sua visão do mundo e do dinheiro.
  • Aceite que você tem o suficiente.
  • Ganhar dinheiro requer algumas habilidades, mantê-lo requer outras.
  • Não deixe que quem tem um objetivo financeiro diferente do seu oriente as suas decisões financeiras.
  • Os consultores financeiros prestam informações valiosas, mas a decisão final é sua.

Resumo

O conhecimento financeiro não garante a riqueza.

Em 2014, em Vermont, o funcionário de um posto de gasolina Ronald Read morreu aos 92 anos, deixando uma fortuna de mais de 8 milhões de dólares, sem ter ganhado a loteria ou herdado algum dinheiro. Ele apenas foi investindo suas poupanças em empresas sólidas e deixou sua riqueza crescer. Contrariamente, um executivo financeiro de 30 anos, formado em Harvard, considerado brilhante por uma revista de negócios, faliu. O sucesso de um e o fracasso do outro não dependeram do seu conhecimento financeiro. Foi a paciência contra a ganância.

Somente nas finanças o comportamento humano pode dar resultados tão diferentes. Um cirurgião sempre fará melhor uma cirurgia do que alguém sem conhecimentos médicos. Nas finanças, seu comportamento e sua sorte são mais determinantes do que o seu conhecimento.

A sorte e o risco influenciam a sua vida e sucesso financeiro.

Bill Gates teve a sorte de ter um computador na escola secundária. Um professor convenceu o Clube de Mães da escola a utilizar a receita da venda de artigos usados para alugá-lo. Foi uma oportunidade em um milhão. Gates admite que sem isso a Microsoft não nasceria.

Kent Evans, colega e amigo de Gates, teve a sorte de trabalhar com Gates no laboratório de informática da escola. Porém, ele não participou da Microsoft: morreu em um acidente de escalada antes do final do curso. A probabilidade desta tragédia era de um em um milhão.

Quando perguntaram ao economista Robert Shiller o fator de investimento que ele gostaria de dominar, ele respondeu: “O papel exato da sorte”. Poucas pessoas negam que a sorte existe no investimento, mas ainda menos pessoas indicam quem teve essa sorte. Dizer que alguém tem sorte pode parecer inveja. Acreditar que seu sucesso resulta da sorte e não do seu trabalho pode ser desmotivador.

A linha entre a ousadia e a imprudência pode ser muito fina.

O seu trabalho árduo e avaliação não garantem os seus resultados financeiros. Recorra ao conhecimento de padrões e tendências em vez de seguir dicas de revistas sobre bilionários.

Além disso, considere que geralmente algumas boas compras de ações propiciam a maior parte dos ganhos. Por isso, você pode estar errado mais vezes do que está certo e mesmo assim ter lucro. Os capitalistas de risco admitem que metade dos seus investimentos pode falhar, mas que um ou dois cobrirão largamente as perdas.

Muitos pensam que investir em empresas grandes e estáveis é mais seguro, mas, na verdade, o risco é semelhante ao de investir em empresas iniciantes. A J.P. Morgan Asset Management verificou que, desde 1980, 40% das ações do Índice Russell 3000 – composto por grandes empresas públicas – perderam 70% do seu valor, e que o índice se manteve positivo graças a apenas 7% das empresas.

Suas experiências de vida moldam a sua visão do mundo e do dinheiro.

Um estudo do Departamento Nacional de Pesquisa Econômica revelou que as experiências das pessoas influenciam muito a sua relação com o dinheiro. Ter acompanhado quando jovem um mercado em alta estimula mais você a investir em ações do que se o mercado tivesse sido apático. Sua experiência pode levar você a tomar decisões ponderadas que outros consideram absurdas. O significado do risco é muito diferente para um filho de pais ricos ou de pais pobres.

As decisões de investimento das pessoas (…) estão fortemente ligadas às experiências que elas tiveram.

Além das diferenças geracionais, culturais e financeiras, muitos aspectos do investimento pessoal são recentes. Por exemplo, os planos de aposentadoria e de previdência privada nasceram no final do século passado. Sua experiência com ferramentas financeiras também influencia as suas decisões, que são muitas vezes mais pessoais do que racionais.

Aceite que você tem o suficiente.

Suas decisões financeiras podem ser devastadoras se você inveja o dinheiro de outros. As pessoas muito ambiciosas podem facilmente perder tudo. Em 2008, Rajat Gupta, nascido pobre em Calcutá, ex-CEO da McKinsey, possuía 100 milhões de dólares. Insatisfeito, ele usou informações privilegiadas para ganhar rapidamente mais 17 milhões e acabou sendo preso.

Bernie Madoff foi condenado por dirigir um esquema Ponzi por duas décadas. Antes das suas fraudes, ele tinha uma empresa de investimentos que ganhava mais de 25 milhões de dólares por ano, mas ele considerava que não era rico o suficiente.

O mundo está cheio de pessoas que parecem modestas mas de fato são ricas e de pessoas que parecem ricas mas vivem no fio da navalha da insolvência.

Estes dois homens perderam o que tinham por ambição. Atingir um objetivo financeiro e depois definir um mais alto pode se tornar um processo interminável. De fato, o capitalismo estimula a inveja. Comparar as suas finanças com as de outros é uma batalha perdida. Considerar que você tem o suficiente é a maneira certa de evitar os problemas.

Ganhar dinheiro requer algumas habilidades, mantê-lo requer outras.

É necessário correr riscos para ganhar dinheiro, mas para mantê-lo, seja modesto e cauteloso. Em entrevista ao jornalista Charlie Rose, Michael Moritz, o líder da empresa de capital de risco Sequoia Capital, que tem quatro décadas de sucesso, atribuiu a longevidade da empresa ao medo de falir. Embora a Sequoia Capital, por sua natureza, tenha de assumir riscos, ela assume que seus sucessos passados podem não se repetir.

Os seus planos podem não se realizar da maneira prevista em sua planilha. Assegurar uma margem de segurança ajuda você se as incertezas da vida, da política ou da economia afetarem os seus resultados.

Se eu tivesse que resumir o sucesso com o dinheiro em uma única palavra, eu usaria ‘tenacidade’.

Alguns investidores tentam se proteger, ao estudar o passado. Isso informa sobre acontecimentos passados, mas não prevê o futuro. Situações novas, nunca ocorridas, irrompem constantemente.

O investimento baseado no passado também ignora as rápidas mudanças atuais. Por exemplo, o capital de risco não existia quando Phil Knight criou a Nike. Confiar mesmo nas informações de anos recentes pode ser inútil. A primeira ação financeira entrou para o S&P 500 em 1976, que não tinha ações tecnológicas. Hoje, as ações financeiras e tecnológicas representam mais de 35% do S&P 500. A reação das pessoas à avareza e ao estresse é que não mudou com o tempo.

Não deixe que quem tem um objetivo financeiro diferente do seu oriente as suas decisões financeiras.

Economizar pequenas quantias regularmente pode fazer você rico.
Há 75 anos, com a idade de 10 anos, Warren Buffett fez o seu primeiro investimento. Aos 30 anos, ele tinha US$ 1 milhão. O objetivo não é encontrar a ação uma-em-um-milhão, mas encontrar investimentos com retornos razoáveis e seguros a longo prazo.

Um crescimento pequeno serve como combustível para o crescimento futuro.

O fenômeno das bolhas no mercado acontece quando o pensamento de curto prazo domina. As bolhas se formam e explodem por muitas razões, mas a ganância desempenha um papel determinante. As explosões da bolha das empresas pontocom e da bolha imobiliária destruíram US$ 6,2 e US$ 8 trilhões de dólares respectivamente. Além da ganância, essas duas situações envolveram pessoas que mudaram as suas estratégias de investimento, seguindo orientações de outros que tinham objetivos completamente diferentes.

É irracional o conceito de que uma ação tem um preço racional. Em 1999, pagar US$ 60 por uma ação da Cisco poderia assegurar aos investidores de curto prazo um retorno anual de 300%. Porém, para os investidores de longo prazo, esse preço seria calamitoso.

Os consultores financeiros prestam informações valiosas, mas a decisão final é sua.

Os consultores financeiros têm conhecimentos essenciais. No entanto, você precisa decidir por si mesmo. Os aspectos a seguir podem ajudar você a definir os seus objetivos:

  • Poupe dinheiro em vez de exibi-lo – Para criar riqueza, você tem de poupar. Mantenha seu ego sob controle. Comprar um carro novo ou uma casa requintada diminuirá a sua riqueza.
  • Defina o risco que você pode aceitar – Os riscos maiores trazem muitas vezes retornos maiores, e algumas pessoas querem isso. Porém, se o risco causa a você ansiedade e noites inquietas, evite corrê-lo.
  • Aumente o prazo do investimento – É a melhor maneira de compensar as perdas e aumentar o valor.
  • Defina objetivos financeiros que propiciem liberdade a você – Ter controle em sua vida contribui para o seu bem-estar. Pequenas economias podem propiciar a você alguma liberdade, como ficar em casa quando você está doente. Economias maiores podem permitir a você esperar por um emprego melhor, e não ter de aceitar logo um enfadonho.
  • Seja moderado – Você será admirado pela sua simpatia e simplicidade, não pelo seu novo “Rolex”.
  • Adapte os seus objetivos – Mesmo que você tenha economizado para um fim específico, considere economizar para outras emergências.
  • Controle o prazo do risco – O risco pode compensar com o tempo, mas, ao se prolongar demais, ele pode arruinar você.
  • Defina os seus objetivos financeiros – Não permita que outros, incluindo o seu consultor financeiro ou outro especialista, escolham por você. Decida de acordo com as suas necessidades.

Sobre o autor

O ex-jornalista financeiro Morgan Housel escreveu para The Motley Fool e The Wall Street Journal. Atualmente, ele é sócio do Collaborative Fund. 

Fonte:  https://www.getabstract.com/pt/resumo/a-psicologia-do-dinheiro/41973?utm_campaign=B2C_Prospects_Newsletter&utm_medium=email&_hsmi=130965676&_hsenc=p2ANqtz--_em4VKyN6xO7c4zLhSzF5FEbC9Hb2XJCm6Rowv1HipsfKyskh3qLhv1jBYwOKS2FNkDslthcmYOHMm00Okwe4xIBPsA&utm_content=130911619&utm_source=hs_email

terça-feira, 1 de junho de 2021

Educação profissional e tecnológica, demanda e oportunidades

                            Paulo Hartung*

 País supera meta no Ideb, mas ensino médio piora em 9 Estados - ISTOÉ  Independente 

Este é um momento decisivo. Nunca foi tão importante investir na formação da juventude

01 de junho de 2021 | 03h00

“Adolescente, olha! A vida é bela! A vida é bela... e anda nua... Vestida apenas com o teu desejo.” O alerta poético de Mario Quintana aos jovens sobre a importância do desejo na construção da vida merece um olhar atualizado dos que tornam viável um dos mais decisivos meios para a efetivação dos sonhos da juventude, a educação.

Nesse sentido, é preciso que o País abra espaço e avance de forma efetiva na seara da educação profissional e tecnológica, uma estratégica oportunidade a mais que se deve somar às possibilidades de construção do futuro de nossas atuais e próximas gerações de brasileiras e brasileiros. A revolução que testemunhamos no paradigma produtivo oferta novidades e oportunidades à formação profissional e, em consequência, ao mundo do emprego e da renda. Mas essas possibilidades, que ecoam tanto no campo da demanda por mão de obra atualizada quanto no universo desejante dos mais novos, ainda não encontram suficiente acolhida no nosso sistema educacional.

Os dados sobre educação e juventude no Brasil são alarmantes: apenas 20% da população de 18 a 24 anos cursam o ensino superior. O restante, sem qualificação, ocupa postos precários ou engrossa as estatísticas de desemprego, que chega a 30% nessa faixa etária, o dobro da média geral. A pandemia agravou o quadro, levando 4 milhões a abandonar os estudos no ano passado. De acordo com o Datafolha, dos que estavam no ensino médio, 26% não têm intenção de voltar. A evasão mais que dobrou no período, passando de 4,8% a 10,8%.

É um enorme potencial desperdiçado, sem falar no massacre de planos de vida sufocados ainda no nascedouro. Não é possível pensar em projeto de País sem incluir a juventude, transformando seus sonhos em oportunidades e sua força em emprego, renda e prosperidade. A hora de agir é agora. Pelas previsões do Fórum Econômico Mundial, se começarmos a investir hoje na formação e requalificação da força de trabalho, podemos gerar um ganho de 7% no PIB até 2030.

A educação, política pública mais abrangente para a juventude, precisa ter papel central em qualquer plano de reconstrução nacional. Urge combater a evasão e conceber formações que façam sentido para os projetos dos jovens. Segundo o Relatório de Competitividade Global, uma das principais frentes para a retomada econômica nos países é a atualização de currículos escolares e a expansão de investimento em competências demandadas pelo futuro do trabalho. O Brasil larga atrás nessa corrida: em comparação com 37 nações, ocupamos a penúltima posição, à frente apenas da Grécia.

As mudanças tecnológicas exigem reinvenção inadiável do nosso modelo educacional. A recém-aprovada reforma do ensino médio é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. A educação profissional e técnica tem papel central na preparação da juventude para o ingresso no mundo do trabalho, seja em empregos formais ou iniciativas autônomas, cada vez mais comuns no cenário da economia criativa.

Os Estados brasileiros precisam estar atentos, pois 84% das matrículas do ensino médio estão em suas redes. À frente do governo do Espírito Santo, conduzimos uma ampliação continuada da educação técnica. Entre 2004 e 2007, por exemplo, aumentamos quase três vezes o total de matrículas, incrementando a participação do ensino profissionalizante de 5% para 15% no nível médio. Essa rápida expansão nos levou a superar a média nacional e da maioria dos Estados do Sul e Sudeste. Mais que isso, trouxe resultados concretos na distribuição de renda, com a apropriação dos benefícios do crescimento econômico pelos egressos e suas famílias na forma de maior empregabilidade e melhores salários.

Novas tecnologias, inteligência artificial, big data, automação e indústria 4.0. Pensar a educação para o novo tempo que já estamos vivendo exige esforço integrado. Governos devem facilitar um sistema de colaboração entre as diversas redes de formação e organizar o campo da educação técnica nos Estados com o fomento ao ensino médio público, inclusivo por natureza. Além disso, é preciso firmar parcerias com instituições brasileiras que tenham propostas testadas e bem-sucedidas – em que o jovem ocupa o centro de suas preocupações – e se mobilizam para apoiar as mudanças em curso, como têm feito o Itaú Educação e Trabalho e o Instituto Natura.

Este é um momento decisivo. A partir deste ano, os Estados terão mais dinheiro para implementar a educação profissional de nível médio. A recente regulamentação do Fundeb, em especial o reconhecimento da dupla matrícula (financiamento em dobro para instituições com estudantes cursando o médio e o técnico), aporta novos recursos e fortalece a educação profissionalizante nas redes públicas de ensino.

Em tempos de intensas e continuadas transformações tecnológicas, com repercussão em todos os âmbitos da vida atual, além da urgência na constituição de novas bases para uma retomada nacional, nunca foi tão importante investir na formação da juventude. O Brasil precisa ampliar e qualificar as condições para que nossos jovens possam vestir o futuro com as cores e a beleza dos seus desejos e, assim, ajudar a construir um outro País, inclusivo, sustentável e justo.

*ECONOMISTA, PRESIDENTE EXECUTIVO DA IBÁ, É MEMBRO DO CONSELHO DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

Fonte:  https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,educacao-profissional-e-tecnologica-demanda-e-oportunidades,70003732841

Derretimento de geleiras expôs relíquias congeladas da Primeira Guerra Mundial

White War Museum 

Uma caixa que foi usada para armazenar munição foi encontrada cheia de gelo.Foto: White War Museum, Adamello via The New York Times

Artefatos da Guerra Branca - batalha entre as tropas italianas e austro-húngaras que ocorreu nas proibitivas alturas dos Alpes - serão encaminhadas para museu

Jacey Fortin, The New York Times - Life/Style

01 de junho de 2021 | 05h00

À medida que as geleiras derretem e encolhem nos Alpes do norte da Itália, relíquias da Primeira Guerra Mundial há muito congeladas emergem do gelo.

Entre elas se encontram xícaras, latas, cartas, armas e ossos com a medula seca. Tudo foi encontrado em alojamentos dentro de cavernas não muito longe do cume do Monte Scorluzzo, que chega a mais de 3 mil metros acima do nível do mar no norte da Itália, perto da Suíça.

Os soldados austro-húngaros que ocuparam esses acampamentos estavam lutando contra as tropas italianas no que ficou conhecido como a Guerra Branca. Lá nos Alpes - bem longe do famoso Front Ocidental, palco de uma sangrenta guerra de trincheiras entre a Alemanha e a França - as tropas escalaram alturas precárias no frio cortante para cavar fortificações na rocha e na neve.

O clima que pôs à prova os soldados no Monte Scorluzzo acabou preservando seus acampamentos ao congelar a entrada depois que as tropas abandonaram seus postos ao final da guerra em 1918. A estrutura ficou essencialmente impenetrável por décadas - até 2017, quando o gelo e a neve derreteram, permitindo que os pesquisadores entrassem.

Os acampamentos agora foram escavados, revelando os itens que foram deixados para trás e oferecendo uma visão mais completa das pessoas que viveram naquele espaço estreito há mais de um século.

Os acampamentos, hoje dentro do Parque Nacional Stelvio, são “uma espécie de máquina do tempo”, disse Stefano Morosini, historiador que coordena projetos de patrimônio para o parque e é professor da Universidade de Bergamo, na Itália.

Stelvio National Park
Latas e garrafas foram deixados para trás pelos soldados. Foto: Stelvio National Park via The New York Times

“Estamos interessados não só no aspecto histórico, mas também no científico”, acrescentou. “Como era a poluição? Como estavam as condições epidemiológicas no quartel? Como os soldados dormiam e como sofreram? O que eles comiam?”.

Muitas das relíquias serão exibidas em um museu que deve ser inaugurado no ano que vem na cidade de Bormio, disse Morosini. Outro museu dedicado à Guerra Branca já existe na cidade vizinha de Temù, e membros da equipe estão trabalhando para restaurar as relíquias encontradas nos acampamentos.

Luca Pedrotti, coordenador científico do parque, disse que as relíquias trazem lições de ciência ambiental e também de história. O clima extremamente frio matou soldados no norte da Itália há mais de um século; hoje, as condições mais quentes apresentam um tipo diferente de ameaça.

Monte Scorluzzo
Diversos artefatos foram encontrados congelados no Monte Scorluzzo. Foto: White War Museum, Adamello via The New York Times

Pedrotti, que viveu no parque quando criança, disse que acompanhou as geleiras diminuindo ao longo das décadas. Ele viu mudanças na flora e observou animais que gostam do frio subindo em direção ao topo das montanhas, agarrando-se às zonas habitáveis que continuam a encolher.

“Acho importante usar o parque como uma área de estudo para aumentar a conscientização sobre as mudanças climáticas”, disse ele.

Na Guerra Branca, acredita-se que a maioria dos soldados que morreram foram mortos não pelos combates, mas pelo meio ambiente. Era difícil fortificar seus postos remotos com alimentos e suprimentos, e os picos varridos pelo vento estavam sujeitos a avalanches.

“Aqui os homens passam os dias envoltos em peles felpudas, os rostos sujos de graxa para protegê-los contra as rajadas, as noites em buracos escavados na neve”, escreveu E. Alexander Powell, correspondente de jornal, em Italy at War, livro publicado em 1918.

Manual
Um dos artigos encontrados foi um tipo de manual de instruções. Foto: White War Museum, Adamello via The New York Times

“Em nenhum outro front, nem nas planícies escaldadas pelo sol da Mesopotâmia, nem nos pântanos congelados da Masúria, nem na lama encharcada de sangue de Flandres, os combatentes viviam uma existência tão árdua quanto aqui no teto do mundo”.

Nenhum corpo foi encontrado nos acampamentos, embora corpos congelados de pessoas que lutaram na Guerra Branca tenham aparecido nas proximidades. Os pesquisadores, no entanto, encontraram pelo menos um sinal de vida, disse Alessandro Nardo, diretor do parque.

“Quando cheguei para administrar o Parque Nacional do Stelvio, no final de 2018, uma das coisas que me atraiu a curiosidade foi um pequeno pote sobre uma mesa, com um gerânio verde selvagem”, disse.

“Perguntei ao meu colega o que era e ele disse que tinha germinado das sementes encontradas nos colchões do acampamento de Scorluzzo”.

 / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Fonte:  https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,primeira-guerra-mundial-derretimento-geleiras-alpes-italia,70003731761