segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Psicologia islâmica aproxima religião e ciência para uma visão muçulmana de felicidade

 Fotomontagem Jornal da USP feita com imagens de rawpixel.com/Freepik e Freepik

Tido como sectário e alvo de perseguição, o islam oferece uma concepção não ocidental de bem-estar; pesquisa da USP destaca necessidade de maior preparo de profissionais da saúde mental para atender comunidade muçulmana

 Publicado: 02/08/2024

Texto: Tabita Said

Arte: Beatriz Haddad*

Apesar de haver uma boa base teórica para intervenções e práticas terapêuticas fundamentadas na religiosidade e espiritualidade, entre elas a psicologia cristã, judaica, budista e até de povos originários, a academia ostenta poucos estudos voltados à orientação de saúde mental utilizando a literatura islâmica. A escassez de material e evidências científicas levou a psicóloga Sálua Omais a investigar os caminhos para a felicidade e o bem-estar à luz do Alcorão e da Sunna – livros considerados sagrados para muçulmanos do mundo inteiro. 

A pesquisadora identificou e analisou ensinamentos orientados para a felicidade e o bem-estar no islam, em paralelo com a psicologia positiva, centrada na felicidade e satisfação do indivíduo. Sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, descortina o funcionamento psíquico descrito na concepção islâmica, que é totalmente atrelado à dimensão espiritual e transcendental.

Dentista, psicóloga e advogada, Sálua Omais é doutora pela USP e pelo Cambridge Muslim College, na Inglaterra – Foto: arquivo pessoal

“Essa separação entre o secular e o religioso é uma construção ocidental, que apresenta a religião como a imagem do retrocesso. Isso levou muitos muçulmanos a desacreditarem da psicologia, que não abrangia e até confrontava certos princípios religiosos. Não é verdade dizer que onde a religião se insere, existe retrocesso.

A respeito do senso comum que atribui à religião uma conduta violenta e totalitarista, a pesquisadora faz a ressalva: “Comportamentos extremos de adeptos que extrapolam os limites de um comportamento religioso saudável não são práticas exclusivas dos muçulmanos, por isso não se pode fazer generalizações”.

Para a psicóloga, a religião não pode ser um tabu na psicologia e precisa ser desmistificada nos ambientes acadêmicos, que ainda insistem em excluir a dimensão espiritual de suas grades curriculares. Mas, não apenas nas universidades: com medo de ferir o código de ética profissional, Sálua alerta para o receio de psicólogos em aliar a espiritualidade à prática clínica. Ela lembra que, nos Estados Unidos, a área foi oficializada ainda em 1971, integrando a divisão 36 da American Association of Psychology (APA), sob o nome de Psicologia da Religião e da Espiritualidade.

Outro desafio se encontra no idioma. Muitos muçulmanos no Brasil são estrangeiros que, apesar de viverem há anos no País, nem sempre conseguem se expressar claramente na língua portuguesa. “Esse é mais um motivo pelo qual alguns deles buscam profissionais da própria comunidade para atendê-los. Por isso é necessário um conhecimento preciso dessas singularidades por profissionais de saúde”, recomenda.

Islam

  • Originado na região da Península Arábica, no século 7 da era comum, o islam é uma religião baseada em uma revelação divina representada pelo Alcorão, cujos ensinamentos são complementados por uma extensa coletânea de tradições religiosas. A palavra “islã” (ou islam) tem ligação com a palavra salam, que significa paz. Já “muçulmano” vem do termo árabe muslim, que significa aquele que se entrega ou aquele que é pacificador. 
  • O muçulmano é todo indivíduo que pratica a religião islâmica de forma voluntária, ou seja, que se entrega aos ensinamentos islâmicos, independentemente de raça, cor ou país de origem, já que nem todo muçulmano é de origem árabe. 
  • Enquanto a primeira palavra associada ao gênesis judaico-cristão é “criou”, o primeiro versículo do Alcorão é “lê”.
  • Apontado como o “selo dos profetas” – ou aquele que veio após todos os profetas (cristãos e judeus) – Muhammad é considerado o último mensageiro de Deus pelos muçulmanos, e não um ser divino. Aos 40 anos de idade, pastor de ovelhas, mercador e casado com uma mulher 15 anos mais velha, o profeta teria recebido uma revelação por meio do anjo Gabriel, iniciando sua missão profética. 
  • Apesar de popularmente conhecido por “Maomé” no Brasil, o termo não é aceito pela comunidade islâmica, tanto por se tratar de nome próprio ao qual não cabe tradução, quanto por seu significado pejorativo. Em português, a palavra deriva de mafoma, que significa “escultura grosseira”.
  • Além de mentor religioso, Muhammad se tornou um dos primeiros líderes políticos obrigados a migrar por causa das perseguições sofridas na época. Vivendo em Meca, uma cidade até então majoritariamente politeísta, Muhammad pregava a crença em um único Deus, o que o levou a se abrigar na cidade de Medina.
  • Estima-se que existam entre 1,8 e 2 bilhões de muçulmanos no mundo, o que equivale aproximadamente a 1/4 da população mundial, sendo a segunda maior religião do mundo. No Brasil, pouco mais de 35 mil pessoas se declararam muçulmanas, de acordo com o último censo do IBGE.
  •  A palavra Allah – comumente utilizada nas orações e saudações muçulmanas, como por exemplo em InshaAllah, que significa “se Deus quiser” – nada mais é do que a tradução em árabe da palavra Deus. Allah é compreendido como criador do Universo no sentido mais genérico do termo, e não como um deus específico dos muçulmanos. 
Muçulmanos brasileiros em viagem à Meca. O hajj ou al-Hajj (peregrinação, em português) é o quinto pilar do islam e consiste na visita que os muçulmanos devem realizar pelo menos uma vez na vida à cidade sagrada de Meca, na Árabia Saudita – Foto: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil / @alemao_stencil

Eudaimonia e bem-estar

A tese desenvolvida por Sálua reuniu oito artigos científicos escritos por ela ao longo de sua trajetória acadêmica. No texto, a psicóloga resgata feitos de pensadores árabes que, segundo ela, realizaram inúmeras descobertas e progressos na ciência que plantou as bases para o Renascimento europeu. Esse legado, porém, é confuso e nebuloso para não estudiosos.

Para ela, além de contribuir com uma epistemologia decolonial, estudos sobre a psicologia islâmica ampliam o acesso à informação sobre o islam, a questão da islamofobia e xenofobia no contexto brasileiro. “O estigma que envolve o islam abala a autoconfiança dos adeptos e dificulta a integração social deste grupo, que é considerado uma minoria étnica, religiosa e cultural”, aponta.

Para investigar e descrever o funcionamento da mente a partir das crenças e do estilo de vida dos muçulmanos, Sálua precisou mergulhar nas diferenças sutis que separam a ideia de felicidade e de bem-estar desenvolvidas pela psicologia ocidental. 

Mais amplo e possível de se mensurar, o conceito de bem-estar pode ser subjetivo, depender de uma série de variáveis e de um julgamento pessoal, incluindo ou não uma ideia de felicidade. Já a felicidade é caracterizada por um estado emocional predominantemente positivo e prazeroso. Neste caso, a pesquisadora destaca conceitos filosóficos clássicos de Aristóteles, como a hedonia e a eudaimonia – o primeiro, ligado ao prazer sensível e gratificação imediata, e o segundo representando a virtude e a ética. 

“O islam não é contrário aos prazeres. Ele apenas alerta que os jogos, os bens que a pessoa acumula, representam uma felicidade ilusória e temporária. O Alcorão traz o termo ‘vida agradável’, que se assemelha à felicidade eudaimônica de Aristóteles, e o caminho para essa vida agradável está baseado na fé e nas boas ações.”

A pesquisa de Sálua é marcada por ir além do Ocidente, descortinando alguns dos expoentes da psicologia islâmica moderna. É o caso do sudanês Muhammad Uthman Nagati, pioneiro da área e considerado um dos psicólogos mais influentes do mundo árabe por suas traduções e obras originais produzidas. 

De acordo com a pesquisa, o campo da psicologia islâmica também teve impulso, no início da década de 1970, com os escritos do psicólogo e professor Malik Badri. Em sua obra O dilema dos psicólogos muçulmanos, o autor enfatiza o impacto da fé no tratamento psicoterapêutico e critica o enfoque materialista da ciência psicológica da época.

“A crítica de Badri não se voltava somente às teorias clássicas da psicologia, mas também aos testes e instrumentos psicométricos, que não incluíam as diferenças culturais e religiosas de determinadas populações. Isso comprometia a confiabilidade e replicabilidade dos resultados obtidos em determinados grupos”, aponta a pesquisadora.

Sem uma devida agenda de inclusão de determinados grupos – o que a pesquisadora chama de “descarte de saberes” – a ciência psicológica não chegará a um aperfeiçoamento.

Tabu do véu

O uso do véu não é considerado pelas muçulmanas uma privação da sua liberdade, mas sim a própria liberdade do livre-arbítrio e do direito de controlar seus próprios corpos, assumir suas identidades e praticar sua religiosidade.

“A sensação de uma muçulmana ao deixar de usar sua vestimenta religiosa é a de falta de liberdade, não o contrário”, diz a pesquisadora em sua tese, referindo-se ao hijab, o véu islâmico.

Ao Jornal da USP, a pesquisadora lembra que outras religiões expressam a humildade e a entrega também nos hábitos de vestir. Mesmo assim, uma freira ou uma monja é associada à devoção; já uma muçulmana que opta por utilizar o hijab, é tida como oprimida.

“Parece até contraditório, já que o Ocidente prega tanto a liberdade, atribuindo a opressão ao mundo árabe-islâmico. No entanto, a liberdade é aquela que permite ao sujeito realizar suas próprias escolhas livremente, ao invés de ser obrigado a seguir padrões culturais aos quais ele não pertence e com os quais ele não concorda. Por isso, as diferenças entre o conceito de liberdade ocidental e islâmico também são um dos pontos abordados nesse trabalho”, afirma.

Pesquisa propõe agenda inclusiva e perspectiva positiva sobre a construção de epistemologias não ocidentais no campo da psicologia. Entre eles, as ideias islâmicas de liberdade e felicidade – Foto: Freepik

Sheiks sunitas

A pesquisa desenvolvida por Sálua na USP contou ainda com uma fase qualitativa, examinando a compreensão de felicidade e bem-estar de acordo com os ensinamentos presentes nos textos considerados sagrados para os muçulmanos. Participaram cinco sheiks sunitas, que residem no Brasil há pelo menos 15 anos, e um tradutor do Alcorão em língua portuguesa. 

Em um primeiro momento, os participantes preencheram formulários com palavras que relacionavam forças de caráter com versículos do Alcorão. Posteriormente, a pesquisadora realizou entrevistas sobre temas relacionados ao bem-estar e à felicidade, do ponto de vista islâmico.

As análises demonstraram que religiosidade (e espiritualidade) operam na mesma chave da felicidade e bem-estar. Para os entrevistados, os versículos do Alcorão também demonstram um incentivo à prática de virtudes, tanto individual quanto socialmente. Esse estímulo a uma boa conduta reforça os valores da fé em um sistema em que crenças, práticas e ensinamentos religiosos são inseparáveis. A crença na vida após a morte e em um cenário de “juízo final” também influenciaram os seguidores da religião sobre sua forma de agir no mundo, além de oferecer a eles certo conforto diante das adversidades da vida cotidiana.

“Os pilares da fé constituem um repertório cognitivo que influencia o comportamento do muçulmano. Isto sem, necessariamente, esperar por uma recompensa. Porque todas as vezes que você fizer algo esperando a troca, você vai entrar em um processo de frustração e tristeza, até não querer mais repetir aquilo que deve fazer”, explica.

A tese destaca ainda que a falta de conteúdos positivos na mídia e as constantes distorções apresentadas em livros didáticos e em outras produções artísticas e literárias, fora do mundo árabe, contribuíram para gerar ocultamentos sobre o legado intelectual islâmico e fomentar a intolerância e a islamofobia. Mas a psicologia pode ser um campo fértil para mitigar o distanciamento da população muçulmana. “E a aceitação é fundamental para uma vida mais agradável”, aponta. 

Mais informações: @saluapsicologiapositiva

*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado

Fonte: https://jornal.usp.br/diversidade/psicologia-islamica-aproxima-religiao-e-ciencia-para-uma-visao-muculmana-de-felicidade/

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Problema mente-corpo: fronteiras e palpites

Por José Roberto Castilho Piqueira, professor da Escola Politécnica da USP

Saiba tudo sobre inteligência artificial

Depois de Walter Benjamin, Humberto Eco, Darcy Thompson e Isaac Asimov, aventurei-me por invadir a biblioteca da minha filha e encontrei um livro que comprei em 1998: Minds, Brains and Science – John Searle.

O exemplar tinha uma porção de grifos, alguns meus, outros dela. Os meus provocaram uma imensa saudade do grupo de ciência cognitiva do Instituto de Estudos Avançados, muito ativo na segunda metade dos anos 1990, comandado pelo professor Newton da Costa e pelo psiquiatra Henrique Schützer Del Nero.

Ali eram discutidos tópicos sobre lógica, completude, computação, inteligência artificial e, principalmente, sobre o problema mente-corpo, discussão permeada sobre dilemas a respeito do progresso da aprendizagem de máquina e da possível substituição do intelecto humano pela máquina.

Naquela época, essas discussões eram tidas parcialmente como insanas, mas o professor Newton e o Henrique eram gigantes, sobre cujos ombros pairam argumentações intermináveis, nos dias de hoje. Com eles aprendi que multidisciplinaridade se faz ouvindo e lendo, mais do que falando e escrevendo.

Em seminários apresentados pelo professor Nestor Caticha, tive o primeiro contato com as redes neurais artificiais, aprendi o que é uma rede “bayseana” e as principais diferenças entre aprendizado supervisionado e não supervisionado, em estruturas multicamadas. Entretanto, o ponto que mais me chamava a atenção na fala do professor Nestor era a insistência com que ele se referia ao conceito de “Consciência” como a principal fronteira da ciência atual.

Comecei, então, a tentativa de aprender um pouco sobre filosofia da mente e, nesse contexto, encontrei os trabalhos de John Searle, que tratam de maneira bastante clara, mesmo para um homem simples, da dicotomia aparente entre o nosso mundo mental, constituído de agentes conscientes, livres e racionais, e o mundo inconsciente das partículas físicas. Esse é o primeiro aspecto do problema mente-corpo discutido no texto do eminente filósofo.

Essa reflexão representa a tomada de importantes caminhos para o desenvolvimento da neurofisiologia, ao identificar regiões e ações físico-químicas do sistema nervoso a sensações aparentemente mentais, criando modelos científicos da integração mente-corpo. A interpretação dessa maneira de tratar o problema implicou importantes aportes para o entendimento da relação biológico-mental, com progressos marcantes para a biologia e para a clínica.

Paralelamente ao desenvolvimento da neurociência, desde quando John von Neumann estabeleceu uma arquitetura computacional análoga ao comportamento do cérebro humano, novas questões sobre a possível existência de consciência e novas formas de “vida in sílico” emergiram.

A discussão candente neste momento é relativa ao desenvolvimento dos algoritmos de inteligência artificial e aprendizagem de máquina. As questões de como nossa vida será afetada, da substituição de humanos por “Robocops” e de como a metodologia científica será afetada permeiam os seminários e artigos no âmbito acadêmico e fora dele.

Acredito que as respostas a essas questões não se restringem ao apertar de botões ou ao simples utilitarismo tecnológico. Passam pela consciência humana, e não das máquinas. As perguntas que realmente se colocam são relativas a como o desenvolvimento pode diminuir as desigualdades ou sobre a inclusão do respeito ao ser humano, ao planeta e às outras maneiras de ser (mineral-vegetal-animal) no dia a dia das decisões socioeconômicas.

É razoável pensar que as ferramentas computacionais, assim como todo progresso científico-tecnológico, podem melhorar ou piorar o mundo. Essa é, talvez, a questão para discussão da ciência que, para progredir, precisa, de fato, romper as barreiras entre as disciplinas tradicionais e, para isso, os computadores podem ser de grande valia.

Entretanto, há uma velha questão a ser colocada: os computadores são ou vão se tornar modelos efetivos para o comportamento da mente humana? Essa é a essência do novo problema que gosto de chamar de dicotomia “in sílico/in vivo” para o qual procuro ouvir (ler) John Searle. Para ele, há quatro fatores fundamentais para tornar essa possível equivalência plausível.

O primeiro é a existência da consciência, fator essencial para a existência humana, sem a qual não teríamos linguagem, amor ou humor. O segundo é a intencionalidade, fator que se refere a intenções e também a crenças, desejos, vontades, medos, amores, raivas, luto, desgosto, vergonha, orgulho e irritação. O terceiro é a subjetividade dos estados mentais: há fatos que nos entristecem, mas que não entristecem outras pessoas. Finalmente há a causalidade mental: nossos pensamentos e sentimentos mudam nossa maneira de agir produzindo efeitos no mundo físico.

Nos dias de hoje não é possível verificar esses fatores ligados ao discurso em primeira pessoa nas máquinas e mesmo nas pessoas. Pensar na sua compatibilização “in sílico/in vivo” é problema a ser explorado pelos múltiplos métodos disponíveis. Talvez essa compatibilização seja uma das fronteiras do conhecimento.

Imagem da Internet

Fonte:  https://jornal.usp.br/articulistas/jose-roberto-castilho-piqueira/problema-mente-corpo-fronteiras-e-palpites/

Cresce a demanda por detectores confiáveis de textos gerados por Inteligência Artificial

 

A inteligência artificial (IA) é cada vez mais usada na produção de textos - o sucesso de programas como o ChatGPT que o diga. Mas isso também está se tornando um problema, especialmente em ambientes acadêmicos, em que autenticidade e originalidade são fatores essenciais. Assim, também cresce a demanda por detectores de textos gerados por IA, o que exige cuidados por professores, pesquisadores e editores.

A função principal dos detectores de textos gerados por IA é analisar vários recursos linguísticos, como estrutura de frases, escolha de palavras e elementos estilísticos. Essas ferramentas geralmente empregam algoritmos de aprendizado de máquina treinados em grandes conjuntos de dados para reconhecer padrões típicos de textos produzidos por inteligência artificial.

Alguns padrões são relacionados à medida de quão imprevisível é um texto, ou quão provável é que ele deixe perplexo (confuso) um leitor. Textos gerados por IA têm maior probabilidade de fazer sentido e serem lidos sem problemas, mas também são mais previsíveis. Já a escrita humana tende a apresentar maior complexidade, com linguagem mais criativa, mas também pode conter erros de digitação ou de gramática.

Outro padrão que pode ser avaliado é a variação na estrutura e comprimento das frases. Um texto com poucas variações deste tipo tem alta probabilidade de ter sido gerado por IA. Já um texto com maior variação provavelmente foi escrito por um humano. Os modelos de linguagem tendem a produzir frases de comprimento médio (10 a 20 palavras) e com estruturas convencionais. É por isso que a escrita da IA às vezes pode parecer monótona.

A precisão desses detectores, no entanto, pode variar significativamente dependendo da complexidade do texto, da língua, e da sofisticação da IA que o gerou. Uma das principais questões discutidas no meio acadêmico é o potencial para falsos positivos e falsos negativos. Falsos positivos ocorrem quando um detector identifica incorretamente um texto escrito por humanos como gerado por IA, enquanto falsos negativos acontecem quando o conteúdo gerado por IA é classificado erroneamente como escrito por humanos.

Estes erros podem ter implicações graves, particularmente em contextos acadêmicos onde as acusações de plágio podem prejudicar reputações e carreiras, gerar ações legais por danos morais, e criar um mal-estar em sala de aula. Consequentemente, não é aconselhável fazer acusações sem provas contundentes de má conduta. Isso significa que o indivíduo deve, além de ferramentas de detecção, verificar a concordância entre essas ferramentas e seu julgamento pessoal usando sua experiência.

Corrida armamentista

O desafio de manter os detectores atualizados com o cenário em rápida evolução do conteúdo gerado por IA também é um problema. À medida que os modelos de IA se tornam mais avançados, seus resultados assemelham-se cada vez mais à escrita humana, tornando mais difícil para os detectores discernirem as diferenças.

Essa corrida armamentista entre geradores e detectores de conteúdo de IA exige melhorias e atualizações contínuas nos algoritmos de detecção. Até o momento, é difícil encontrar uma ferramenta que identifique de forma 100% confiável textos gerados por IA e por humanos. A detecção de IA ainda está em seus estágios iniciais de desenvolvimento, e atualmente os desenvolvedores dessas ferramentas estão correndo atrás das IAs geradoras de textos. Portanto, é importante não substituir o julgamento humano, especialmente quando jovens estudantes e pesquisadores são avaliados por potenciais más condutas.

Além disso, é importante considerar algumas questões éticas que envolvem o uso de detectores de IA, tais como privacidade, segurança de dados e o uso indevido de ferramentas de detecção, violando a confidencialidade e os direitos de propriedade do autor. Portanto, também é importante ter transparência na implantação e utilização de detectores, garantindo que os usuários estejam cientes de que os seus dados estão sendo checados, utilizados e protegidos.

Do lado da confiabilidade, os detectores de IA precisam ser examinados a priori, por meio de testes empíricos e estudos de caso, antes de serem utilizados em situações reais. Vários experimentos podem ser conduzidos para avaliar o desempenho dos detectores de IA atualmente em uso, revelando resultados concordantes ou uma mistura de resultados que descordam entre si. Alguns detectores mostram altas taxas de precisão em ambientes controlados, mas têm dificuldades em identificar textos humanizados ou parafraseados gerados por IA. Esta variabilidade destaca a necessidade de testes e validação contínuos das ferramentas de detecção.

Opção gratuita e disponível

Levando tudo isso em conta, desenvolvi com o aluno João Gabriel Gralha, do Centro Técnico Científico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), o sistema computacional Gotcha-GPT. Gratuito e disponível no repositório Github, este sistema já pode detectar textos científicos em inglês gerados por IA e por humanos, e pode ser facilmente treinado em pouco tempo para avaliar qualquer texto, inclusive em português e em qualquer nível de complexidade. A única limitação é o tamanho do texto, que tem que ter até 1024 tokens, ou aproximadamente 700 palavras.

O Gotcha-GPT também pode ser utilizado em conjunto com outros detectores de textos gerados por IA, tais como Originality AI, Copyleaks, ZeroGPT, GPTZero, Writer AI, Hive AI, Detector Content At Scale e Giant Language Model Test Room. É importante destacar, porém, que não endossamos nenhuma das ferramentas acima, nas quais os usuários precisam testar e serem treinados para ganhar experiência.

Parceiros

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) fornece suporte como parceiro endossante do The Conversation BR.

*André Silva Pimentel é professor do Departamento de Química do Centro Técnico Científico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Ele recebe financiamento da FAPERJ e do CNPq. André Silva Pimentel é Cientista do Nosso Estado da FAPERJ e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, nível 2.

Um robô intruso em sua rede social

Por Casey Fiesler, no The Conversation | Tradução: Gabriela Leite


Meta – dona de Facebook e Instagram – começa a testar uso de bots em grupos. Apresentam-se como humanos, são introduzidos a pretexto de oferecer orientações sobre Saúde e podem ser um passo a mais rumo à invasão de privacidade e captura de dados

Um pai fez uma pergunta em um grupo privado do Facebook em abril de 2024: Alguém com um filho superdotado e deficiente tem alguma experiência com escolas públicas da cidade de Nova York? O pai recebeu uma resposta aparentemente útil que expôs algumas características de uma escola específica, começando com o contexto de que “tenho um filho que também é 2E”, ou seja, com dupla excepcionalidade.

Em um grupo do Facebook para troca de itens indesejados perto de Boston, um usuário que procurava itens específicos recebeu uma oferta de uma câmera Canon “usada, em bom estado” e um “aparelho de ar condicionado portátil quase novo que acabei nunca usando”.

Ambas as respostas eram mentiras. Essa criança não existe e nem a câmera ou o ar condicionado. As respostas vieram de um chatbot de inteligência artificial.

De acordo com uma página de ajuda da empresa, a Meta AI responderá a uma postagem em um grupo se alguém a acionar explicitamente ou se um usuário “fizer uma pergunta em uma postagem e ninguém responder em uma hora”. O recurso ainda não está disponível em todas as regiões ou para todos os grupos, de acordo com a página. Para grupos nos quais está disponível, “os administradores podem desligá-lo e ligá-lo novamente a qualquer momento”.

O Meta AI também foi integrado aos recursos de pesquisa no Facebook e Instagram, e os usuários não podem desligá-lo.

Como pesquisadora que estuda comunidades online e ética da IA, acho a ideia de chatbots não convidados respondendo perguntas em grupos do Facebook distópica por uma série de razões, começando pelo fato de que comunidades online são para pessoas.

Conexões humanas

Em 1993, Howard Rheingold publicou o livro The Virtual Community: Homesteading on the Electronic Frontier [“A comunidade virtual: colonizando a fronteira eletrônica”, em tradução direta] sobre o WELL, uma comunidade online pioneira e culturalmente significativa. O primeiro capítulo abre com uma pergunta de um pai: o que fazer com uma “coisa cheia de sangue sugando o couro cabeludo do nosso bebê?”.

Rheingold recebeu uma resposta de alguém com conhecimento prático sobre como lidar com carrapatos e resolveu o problema antes de receber um retorno do consultório do pediatra. Sobre essa experiência, ele escreveu: “O que me surpreendeu não foi apenas a rapidez com que obtivemos exatamente a informação de que precisávamos, bem quando precisávamos saber. Foi também a imensa sensação de segurança que vem com a descoberta de que pessoas reais – a maioria delas pais, algumas enfermeiras, médicos e parteiras – estão disponíveis, a qualquer hora, se você precisar delas”.

Esse aspecto de “pessoas reais” nas comunidades online continua sendo crucial hoje. Qual o motivo para fazer uma pergunta em um grupo do Facebook em vez de em um mecanismo de busca? Porque você quer uma resposta de alguém com experiência de vida real ou por querer a resposta humana que sua pergunta pode suscitar – simpatia, indignação, solidariedade. Ou ambos.

Décadas de pesquisa sugerem que o componente humano das comunidades online é o que as torna tão valiosas tanto para a busca de informações quanto para o apoio social. Por exemplo, pais que poderiam se sentir desconfortáveis ​​pedindo conselhos sobre criação de filhos encontram um refúgio em espaços online privados apenas para pais. Jovens LGBT+ muitas vezes se juntam a comunidades virtuais para encontrar recursos essenciais para sua segurança, ao mesmo tempo em que reduzem a sensação de isolamento. Os fóruns de apoio à saúde mental oferecem aos jovens pertencimento e validação, além de conselhos e apoio social.

Essas informações vão ao encontro de descobertas semelhantes, em meu próprio laboratório, relacionadas a participantes LGBT+ em comunidades online. Também se assemelham à experiência do chamado “Black Twitter”, uma subcultura da rede social composta majoritariamente por usuários negros para discussão de questões sociais. Dois estudos mais recentes, ainda não revisados por pares, enfatizaram a importância dos aspectos humanos na busca de informações em comunidades virtuais.

Um deles, liderado pela estudante de doutorado Blakeley Payne, foca nas experiências de pessoas gordas online. Muitos dos participantes encontraram uma tábua de salvação no acesso a um público e uma comunidade com experiências semelhantes, enquanto buscavam e compartilhavam informações sobre assuntos como o acesso a sistemas de saúde hostis, a busca por roupas e a maneira como lidar com preconceitos e estereótipos culturais.

Outro, liderado pela estudante de doutorado Faye Kollig, descobriu que pessoas que compartilham conteúdo online sobre suas doenças crônicas são motivadas pelo senso de comunidade que vem com experiências compartilhadas, bem como pelos aspectos humanizadores de se conectar com outros para buscar e oferecer apoio e informações.

Pessoas falsas

Os benefícios mais importantes desses espaços online, conforme descrito pelos participantes dos estudos, poderiam ser drasticamente prejudicados por respostas vindas de chatbots em vez de pessoas.

Como diabética tipo 1, participo de vários grupos no Facebook que são frequentados por muitos pais que estão começando a enfrentar os desafios de cuidar de uma criança pequena com diabetes. As perguntas frequentes: “O que isso significa?” “Como devo lidar com isso?” “Quais são suas experiências com isso?” As respostas vêm de experiências pessoais, mas também com compaixão: “É difícil.” “Você está fazendo melhor que pode.” E, claro: “Todos nós já passamos por isso.”

Uma resposta de um chatbot alegando falar a partir da experiência vivida de cuidar de uma criança diabética, oferecendo empatia, não seria apenas inadequada, mas também quase cruel.

No entanto, faz sentido que esses sejam os tipos de respostas que um chatbot ofereceria. Grandes modelos de linguagem funcionam, de forma simplista, mais como um preenchimento automático do que como um mecanismo de busca. Para um modelo treinado em milhões e milhões de postagens e comentários em grupos de Facebook, a resposta “automática” para uma pergunta em uma comunidade de apoio é, sem dúvida, uma que invoca experiência pessoal e oferece empatia – assim como a resposta “automática” em um grupo de doação pode ser oferecer a alguém uma câmera usada em bom estado.

Manter os chatbots em seus limites

Isso não quer dizer que os chatbots não sejam úteis para nada – eles podem ser bastante úteis em algumas comunidades virtuais, em determinados contextos. O problema é que, no meio da atual corrida pela IA generativa, há uma tendência a pensar que os chatbots podem e devem fazer tudo.

Existem muitas desvantagens em usar grandes modelos de linguagem para recuperar informações importantes dentro de grandes volumes de dados, especialmente no que diz respeito a contextos inadequados para seu uso. Em determinados ambientes, informações incorretas podem ser perigosas: uma linha de ajuda para transtornos alimentares ou aconselhamento jurídico para pequenas empresas, por exemplo.

Pesquisas estão apontando considerações importantes sobre como e quando projetar e implementar chatbots. Por exemplo, um artigo recentemente publicado em uma grande conferência de interação humano-computador descobriu que, embora indivíduos LGBT+ sem apoio social às vezes recorram a chatbots para ajuda com problemas de saúde mental, esses chatbots muitas vezes não conseguem compreender as nuances dos desafios específicos dessa comunidade.

Outro estudo descobriu que, embora um grupo de participantes autistas encontrasse valor em interagir com um chatbot para aconselhamento em comunicação social, esse chatbot também fornecia conselhos questionáveis. E outro estudo averiguou que, embora um chatbot fosse útil como ferramenta de pré-consulta no contexto de saúde, os pacientes às vezes achavam as expressões de empatia insinceras ou ofensivas.

O desenvolvimento e a implementação responsável de IA significam não apenas auditar questões como viés e desinformação, mas também dedicar tempo para entender em quais contextos a IA é apropriada e desejável para os humanos que vão interagir com ela. Atualmente, muitas empresas estão utilizando a IA generativa como um martelo e, como resultado, tudo parece um prego.

Em muitos contextos, como comunidades de suporte online, é melhor deixar com os humanos.

Fonte:  https://outraspalavras.net/outrasaude/um-robo-intruso-em-sua-rede-social/

A psicanálise como crítica ao cientificismo

 por

Apoiando-se em Jacques Lacan e Ian Hacking, Verdade e Sofrimento, de Paulo Beer, repele o rótulo de pseudociência, mas vê na psicanálise uma crítica dos conhecimentos institucionalizados. Ao fazê-lo, desnuda a tensa relação entre o saber e a verdade

Se o contexto histórico influencia o desdobramento científico, a ciência não é por ele limitada. De igual modo, essa autonomia relativa não implica que sua produção seja indiferente à especificidade histórica. Esse é o ponto central e sobre sua órbita rodopiam formas de pensar criticamente à ciência. O livro de Paulo Beer, Verdade e sofrimento: psicanálise, ciência e a produção de sintomas1, faz esse esforço ao livrá-la de mitificar-se à autoridade de um saber dogmático: uma noção de ciência assentada no trono do “saber absoluto2” conferindo qual saber é válido e qual não é.

Esse é, portanto, um livro que chega em momento oportuno: se não coloca a ciência no oratório, fazendo da vida dos cientistas uma hagiografia dos santos, tampouco desliza no fosso dos negacionismos da extrema-direita ou ainda nos relativismos paralisantes do progressismo de esquerda. Nele, a psicanálise se inscreve como uma crítica dos saberes estabilizados tendo em vista que na sua práxis – união da prática do cuidado com uma teoria desenvolvida a partir da posição singular do sujeito – desnuda a tensa relação entre o saber e a verdade.

Na companhia de dois virgílios – Ian Hacking e Jacques Lacan – Beer reflete sobre a ciência moderna, seu ponto de partida: a verdade como uma questão “que reúne epistemologia, ontologia, ética e política3”. Hacking, provavelmente um dos maiores filósofos da ciência contemporânea, exprime uma posição iconoclasta: além de uma recusa à ideia de adequação entre linguagem e mundo dispensa também o idealismo que escapa às mediações da realidade.

A propósito, em Verdade e sofrimento é o filósofo canadense quem nos conduz aos debates centrais acerca do estatuto da verdade e suas formas de construção do saber. Se a decomposição de um significado em pequenas partes, que constituem um objeto, implicou a reformulação do racionalismo, sendo Descartes uma das figuras mais proeminentes, como pensar a definição da verdade? Esse é o problema que dá o tom na modernidade e dele ressalta uma conclusão comum: a verdade depende de um esforço racional.

Hacking investiga os limites dessa conclusão. Se a absoluta verdade, tal como o “saber absoluto”, não se reduz à correspondência nominal entre a coisa e o seu conceito tampouco a noção de uma “evidência” clara e objetiva, como sonhava Descartes, serve para dar conta da multitude que compõe a experiência com a realidade. Pelo contrário, como mostra Verdade e sofrimento, o senso comum de que as “evidências” se traduzam imediatamente em verdades não resiste a um exame objetivo.

Assim, a noção de “evidência” – separada da prática científica e absorvida pela visão de mundo atual – tornou-se uma mera ideologice – mistura de vigarice com o sentido mais rastaquera de ideologia. Uma forma de garantir diagnósticos estabelecidos não pela singularidade no trato dos sintomas, mas, pela necessidade da indústria farmacológica que, ao financiar pesquisas, busca retornos rápidos através de abertura de mercados da saúde (ou da doença?).

Como assevera Paulo Beer: “Ao invés de inovações que apresentem novas formas de tratar transtornos ou aumento significativo na eficácia das drogas, os esforços têm sido direcionados para a criação de mercados consumidores – via a proposição de novos transtornos.4” O caso do Japão, e a construção da depressão como mercado, é paradigmático.

A certeza etiológica acerca das doenças, a busca por uma evidência traduzida num diagnóstico instantâneo – nos mostra Beer – acaba resvalando na objetificação do sujeito portador do sintoma. Uma ótima oportunidade mercadológica que manda às favas a relação com a verdade do sofrimento. Assim, o livro nos faz perceber que “isso que foi nomeado como organicismo, biologicismo… indica a desconsideração radical dos efeitos da linguagem sobre os objetos5” e seus sujeitos. Uma prática embasada por um discurso “todo poderoso” que ao objetificar o sujeito no processo elide também a experiência com o sintoma e a verdade que ele expressa.

É aqui que entra Lacan. Resistente a pensar à psicanálise como uma ciência do inconsciente, o psicanalista põe em relevo a questão da verdade num exercício que irá persegui-lo a partir dos anos 1950 e se tornará o centro de seu pensamento6. No texto Ciência e Verdade ficamos convencidos das consequências devastadoras organizadas pela redução objetivista dos sintomas psíquicos ao fisicalismo orgânico7.

Lacan percebe que na virada do século XX, a crise do Esclarecimento (Aufklärung) obrigou a ciência a descer do pedestal das verdades últimas ocasionando mudanças na sua produção. As inovações da física e da química deixaram claro que o saber se estabelece por variados sistemas cognitivos (estilos de raciocínios que são construtos lógico-formais e assentam bases conceituais de um campo específico).

Assim, a diferença radicada nessa mudança se baseou na conclusão de que a busca pela identidade entre a coisa e o fenômeno é só mais uma das variadas funções da verdade. Se o saber, organizado de maneira anterior a relação com o objeto, eliminava a possibilidade de apreender aquilo que negava seus próprios pressupostos – ou seja: se estabelecia um modelo e se encaixava a realidade nele – com essas transformações, o reducionismo lógico-formal foi posto em xeque.

Lacan, próximo de uma constelação de críticos da ciência, percebeu que a psicanálise, naquilo que tinha de novidade – o inconsciente e, portanto, uma nova forma de pensar a subjetividade na sua relação com os sintomas – também demonstrava a relação conflitiva entre saber e verdade. Transgressora, ao elaborar a função do inconsciente e descentrar a relação do sujeito do cogito, a psicanálise deu condições para apreender a resistência que o saber promove diante da verdade ao trazer à luz o sujeito do inconsciente.

É por essa porta que Paulo Beer chegará à conclusão que o sintoma é a manifestação da verdade. “a articulação da verdade como sintoma pode ser entendida de uma dupla maneira: como a expressão momentânea de um conflito que está ali positivado… mas também como algo que aponta para além dessa positividade, indicando que apesar dessa expressão momentânea há algo que não se esgota nos conteúdos mobilizados8”.

Por isso, a experiência psicanalítica não pode ter seu objeto isolado no registro de um procedimento operatório, ligado à noção de experimento, reproduzível de maneira alheia à subjetividade. Ao colocar o sujeito no centro das preocupações em torno de seus sintomas psíquicos, a psicanálise abre caminhos para uma investigação cujo saber deve ser relativizado em função da verdade. A verdade se inscreve, portanto, como sintoma.

Aqui há um escândalo fundamental: o exercício fundamental do saber é saber que os seus pressupostos devem ser relativizados em função da verdade. A psicanálise é uma ciência sem um saber, como dizia Lacan, porque seu modo de proceder à verdade é singular e se afasta de maneira radical de qualquer metodologia prévia. Isso não significa que não há um conhecimento organizado pela psicanálise, mas ele continuamente se submete à prova conduzida pelo sintoma enquanto verdade de algo que escapa à normalidade.

Essa conclusão se deu a Lacan ao perceber que as evoluções lógicas e os problemas abertos no campo matemático acabavam por abalar a fundamentação do método inscrita no “saber absoluto”. E, assim, o inconsciente com sua lógica casava-se com uma redefinição do próprio campo científico fazendo com que o sujeito do cogito cedesse ao sujeito do inconsciente.

Antes de terminar é preciso insistir em algo fundamental que ecoa nas entrelinhas de Verdade e sofrimento: o problema não é a evidência buscada pelos axiomas gerais que concretizam uma dada epistemologia orquestrada pela experiência científica. O problema é quando a noção de “evidência” se transfigura em ideologice mercadológica para vender remédios caros e de comprovada ineficácia.

O problema, portanto, é quando essa “evidência”, tão alardeada pelos ideólogos da redução organicista, se mostra de acordo com suas próprias bases frágil e inconsistente. No livro, há diversos exemplos da fragilidade dessa noção ideologizada e da frugalidade da manutenção de uma psiquiatria que regrediu a olhos vistos ao século XIX. Hoje desfilam diversos doutores Bacamartes que, como o alienista de Machado, juram prestar contas só à ciência fingindo não ver o quanto seus pressupostos se aliam à abertura de novos mercados de doenças mundo afora.

* Psicanalista e doutor em ética e filosofia política pela Unifesp.

1 Beer, Paulo. Verdade e sofrimento: psicanálise, ciência e a produção de sintomas. São Paulo: Perspectiva, 2023.

2 As aspas se justificam tendo em vista que o saber absoluto, conceito hegeliano, é um dos mais importantes conceitos da filosofia, remontando a tradição filosófica, saber absoluto é, em termos hegelianos, “não saber que se sabe ao saber que não sabe”

3 Beer, 2023, p.XXXIV

4 BEER, 2023, p.186

5 BEER, 2023, p.47

6 BEER, 2023, p.103

7 Acerca dessa questão escrevi o texto abaixo: https://outraspalavras.net/outrasaude/contra-a-industria-da-loucura-so-uma-politica-da-loucura/

8 BEER, 2023, p.156

Fonte:  https://outraspalavras.net/poeticas/a-psicanalise-como-critica-ao-cientificismo/

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Kirill para Putin: 'santo subito'.

Artigo de Lorenzo Prezzi

https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2023/01/23_01_Vladimir_Putin_e_Patriarca_Kirill_on_Unity_Day_2016_foto_wikimedia_commons.jpg

01 Agosto 2024

"Há uma insistência suspeita nos elogios proferidos pelo Patriarca de Moscou, Kirill, ao presidente da Federação Russa, Putin (e vice-versa): por um lado, a confirmação de uma flexão substancial da Igreja Ortodoxa no sentido civil religião do poder imperial, por outro, um obscurecimento deliberado das vozes e orientações espirituais daqueles que permanecem calados diante da deriva"

Eis o artigo.

No dia 28 de julho, por ocasião do batismo da 'Rus, Kirill teceu um longo elogio por ocasião da celebração litúrgica no mosteiro lavra dedicado à Trindade em São Petersburgo.

Hoje, com sentimento especial, oferecemos orações por todos os líderes eclesiais e governamentais que contribuíram para o renascimento da Ortodoxia em nossa terra. No dia em que celebramos a memória do santo Príncipe Vladimir, “igual aos apóstolos”, rezamos especialmente pelo nosso presidente Vladimir Vladimirovich Putin: hoje é o seu “dia do anjo”. Ele é o primeiro presidente verdadeiramente ortodoxo que não esconde a sua pertença à Igreja, que recebe a comunhão, que vive a vida eclesial e, ao mesmo tempo, é uma das figuras políticas mais importantes do nosso tempo, com enorme autoridade no mundo. Estamos felizes que hoje um tal “soberano” seja o chefe do Estado russo.

Hoje oramos por Vladimir Vladimirovich para que o Senhor guarde sua força mental e física, ajude-o como chefe de estado a continuar a liderar o povo em direção a objetivos cuja realização fortaleceria ainda mais a vida espiritual de nosso povo e seu bem-estar material. Obviamente incluindo a capacidade de defesa do país, porque, enquanto rezamos hoje pela sagrada ‘Rus, muitos pegaram em armas contra ela.

Por que fazem isto, apesar da democracia plena da Rússia? Quando você faz esta pergunta às pessoas pensantes do Ocidente, nossos inimigos malignos olham para baixo e dizem “você é muito perigoso”.

Por quê? “Porque você oferece uma proposta civilizacional alternativa”. Exatamente! A Rússia oferece hoje uma alternativa civilizacional. Combinamos a fé em Deus com a tecnologia moderna, a ciência e as artes. Somos pessoas modernas e, ao mesmo tempo, crentes e não temos medo da nossa fé. Nosso país é liderado por um crente ortodoxo, o presidente Vladimir Vladimirich Putin".

O Ocidente caiu na apostasia. Isto requer o apoio de todo o povo russo ao seu presidente.

Presidente mais respeitável

Você e eu temos a feliz oportunidade de viver na Rússia, um país livre e verdadeiramente livre. Alguns no Ocidente podem sorrir, mas convido-os a refletir sobre quais forças e centros de poder vocês, queridos irmãos e irmãs, dependem e dos quais não se podem libertar. E vivemos num país soberano e livre, um país onde as pessoas escolhem o seu próprio caminho de desenvolvimento […]. Parece que no Ocidente cancelaram Deus e que a Igreja é marginal na vida pública. Aqui é o contrário! Porque a sagrada 'Rus preserva a fé ortodoxa. Portanto, oramos e acreditamos que o Senhor proteja nossa terra russa, nosso maravilhoso estado e abençoe especialmente nosso mais respeitável presidente.

A guerra, as centenas de milhares de mortes, os massacres desumanos, a destruição sistemática de infraestruturas na Ucrânia, de hospitais, escolas e igrejas, o isolamento internacional, a solidão da Igreja Ortodoxa entre as Igrejas Cristãs nesta conjuntura: tudo é removido em nome do messianismo do povo russo que se torna, na retórica kirilliana, o baluarte contra o Anticristo representado pelo Ocidente.

Para a ocasião, Putin visitou o Mosteiro em São Petersburgo e recebeu a mais alta honraria ortodoxa de Kirill. Ele comentou:

Obrigado, Santidade, por este elevado reconhecimento eclesiástico. A Igreja Ortodoxa Russa é sem dúvida um dos fundamentos morais mais importantes do povo russo. Juntamente com outras religiões tradicionais russas, também serve de base para o Estado russo. Ela fez muito para fortalecer o estado, pois não há nada mais poderoso do que uma base espiritual. Todo o resto é baseado nisso.

No passado dia 30 de Maio, Putin, por ocasião dos prêmios pela “glória dos pais” às famílias com mais de sete filhos, e às “mães heroicas” que criaram dez ou mais filhos, disse: "Sempre, quando nos encontramos com os Sua Santidade, o patriarca, e fazemos isso regularmente – mas não com a frequência que gostaríamos – a conversa sempre chega à necessidade de apoiar e ajudar as pessoas".

O “novo nazismo”

A declaração do teólogo inglês Brandon Gallaher é de natureza completamente diferente, denunciando "uma forma de fundamentalismo religioso étnico-racial, com apelos ao sangue, à terra, à fé, à nação, ao povo, à língua, ao czar. Tal como os etnocentrismos anteriores, demoniza todos aqueles que se lhe opõem […] A ideologia do 'mundo russo' é um novo nazismo, a ideologia nazi do século XXI".

 *Lorenzo Prezzi, teólogo italiano e padre dehoniano, em artigo publicado por Settimana News, 31-07-2024.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/641888-kirill-para-putin-santo-subito-artigo-de-lorenzo-prezzi